A arca e o dilúvio mesopotâmico e suas implicações

A arca e o dilúvio mesopotâmico e suas implicações

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio), de Irving Finkel. 421 pp. Hodder & Stroughton, London. 2014. ISBN: I 444 75705-7.

Irving Finkel, o autor do livro The ark before Noah (A arca antes de Noé), é um assiriologista e Curador Assistente (Assistant Keeper) do Museu Britânico, em cujo Departamento do Oriente Médio é encarregado da maior coleção de tabletes de barro de escrita cuneiforme do mundo. O seu livro é uma narrativa sobre uma grande caracola1 encomendada pelo deus mesopotâmico Enki a Atra-hasīs, ‘o Noé babilônico,’ a fim de que este salvasse de um dilúvio iminente, ele próprio e sua família, e todas as espécies de animais. Tal narrativa foi gravada em escrita cuneiforme num tablete de barro do tamanho de um telefone celular, datado entre 1900 e 1700 a.C.; precedendo, portanto, em mais de mil anos, a narrativa da arca de Noé contida no livro do Gênesis da Bíblia dos hebreus.

Segundo Finkel, a escrita cuneiforme é bastante complexa, pois os seus símbolos podem significar tanto sílabas quanto palavras ou até frases. Por exemplo, a palavra būlu pode significar ‘manada de bois, de ovelhas ou cavalos’, ‘animais selvagens’ ou ‘manada de quadrúpedes’. Outros dois exemplos são umãmu, que significa ‘animal ou besta’, mas não necessariamente selvagem, e nammaššû, que significa ‘manada de animais (selvagens)’.

Num parágrafo explicativo, a escrita cuneiforme surgiu em Uruk (Ur ou Erech na Bíblia), na Suméria, entre 3500 e 3000 a.C. Da Suméria, foi adotada inicialmente pelo reino da Acádia, onde sofreu algumas modificações pelos elamitas, huritas, hititas, urartianos e diversos outros povos. Essa escrita é intermediária entre a pictografia –que inclui os hieróglifos egípcios, hititas e cretenses –, e a escrita alfabética que surgiu na Fenícia – uma das civilizações do mundo antigo formada por cidades-Estado independentes que se situavam na costa do Mediterrâneo e que se estendiam para onde é hoje a Síria, o Líbano e o norte de Israel, em torno do ano 1400 a.C. O local aceito como o do desenvolvimento do alfabeto hebraico a partir do alfabeto fenício é o vale do Canaã, que cobria não só a Judeia mas também uma boa parte da Fenícia.

Finkel não foi o primeiro a descobrir a narrativa do dilúvio em escrita cuneiforme, pertencente ao épico babilônico Gilgamesh – a história do rei de Uruk, da Suméria, que reinou entre 2700 e 2600 a.C., e que foi preservada oralmente até a invenção da escrita cuneiforme. Conforme ele próprio explica no seu livro, um outro tablete sobre o dilúvio foi decifrado na segunda metade do século dezenove por George Smith, que também trabalhava no Museu Britânico. O tablete que Smith decifrou foi encontrado, entre 1845 e 1851, nas escavações arqueológicas do sítio do antigo palácio de Assurbanipal, rei da Assíria entre 668 e 627 a.C. A descoberta de Smith foi anunciada em 3 de dezembro de 1872, no congresso da Sociedade de Arqueologia Bíblica, em Londres. Esta sociedade era uma das muitas iniciativas voltadas à pesquisa bíblica que existiam na Inglaterra vitoriana. Diferentemente da pesquisa científica que é conduzida sem preconceito (pelo menos na teoria), as pesquisas bíblicas eram quase sempre motivadas pelo desejo de seus ricos patronos de encontrar a fonte divina da Bíblia. Portanto, não é de admirar que o anúncio de Smith, em 1872, não teve o efeito esperado de mostrar a ligação entre o épico Gilgamesh e o livro do Gênesis. Para tal audiência, o antiquíssimo hábito humano de copiar não poderia de aplicar à Bíblia.

O tablete decifrado por Finkel, que deu origem ao presente livro, não tem uma proveniência tão exata quanto o de Smith. Tendo sido adquirido por um oficial da Força Aérea Britânica chamado Leonardo Simmonds, que servia no Oriente Próximo no final da Segunda Guerra, o tablete foi herdado pelo seu filho Douglas Simmonds, que, em 1985, levou-o ao Museu Britânico para ser avaliado. O próprio Finkel examinou o tablete na ocasião quando percebeu que se tratava de uma cópia da narrativa do dilúvio do épico Gilgamesh. Depois disso, Finkel não teve mais contato com Simmonds até 2009, quando ele reconheceu este entre os visitantes da exibição especial ‘Babilônia: Mito e Realidade’, do Museu Britânico. Finkel foi ter com Simmonds, que se comprometeu a entregar o tablete ao Museu Britânico para que Finkel pudesse decifrá-lo. A decifração do tablete doado por Simmonds mostrou uma versão diferente daquela do tablete decifrado por Smith no século dezenove, especialmente pelo fato de conter instruções pormenorizadas sobre como a embarcação (a arca) deveria ser construída. Segundo Finkel, encontrar diferentes versões das mesmas narrativas é comum para as narrativas que foram preservadas durante muito tempo na história oral, antes de serem documentadas pela escrita.

Segundo a narrativa do ‘tablete da arca’ decifrado por Finkel, ‘quando os deuses decidiram exterminar a humanidade com um dilúvio, o deus Enki, que tinha senso de humor, vazou a informação para Atra-hasīs, e ordenou-o a construir uma arca’, no caso, uma enorme caracola de quase 230 pés de diâmetro, tamanho que equivale a dois terços de um campo de futebol. A embarcação era redonda e rasa, semelhante a uma gigantesca cesta flutuante, e deveria ser confeccionada com cordas de fibra de palma, reforçada por vigas de madeira em forma de ‘J’, e impermeabilizada com betume. O seu interior era dividido por paredes (formadas pelas escoras), a fim de criar compartimentos para separar os animais predadores de suas presas e possibilitar um deck superior. O deus também especifica que os animais deveriam entrar na arca de dois a dois.

A narrativa do dilúvio do épico Gilgamesh apresenta semelhanças e diferenças em relação à narrativa similar da Bíblia. No caso das semelhanças, há duas aves que foram soltas para procurar terra seca. No caso das dessimilaridades, há a motivação do castigo: a algazarra dos homens, no Gilgamesh, e a corrupção moral dos homens, na Bíblia. E por falar em Bíblia, o ‘povo hebreu’ ou os ‘israelitas’ nela mencionados são designados neste livro como ‘judeus’ (Judeans, em inglês) –note-se que essa palavra é usada aqui com o sentido de indivíduos originários da Judeia e não no sentido do judaísmo, já que esta religião cristalizou-se posteriormente à compilação das escrituras que constituem a Bíblia. Na interpretação de Finkel, a narrativa bíblica do dilúvio foi tirada da literatura babilônica pelos ‘judeus’, que tiveram a oportunidade e a motivação para isso. A oportunidade surgiu durante o exílio deles na Babilônia, imposto por Nabucodonosor II em 587 a.C, em cuja corte eles teriam aprendido a escrita cuneiforme. A língua não devia ser um problema para eles, visto que o hebraico (falado pelo povo em geral) e o aramaico (falado principalmente pelas pessoas mais instruídas) são línguas afins do babilônico. Finkel também afirma que, no acervo de tabletes cuneiformes, há muitos que comprovadamente foram usados no ensino oficial, incluindo o épico Gilgamesh, que inclui outras narrativas além da do dilúvio, como a lenda do rei Sargão, muito similar à história de Moisés. A motivação dos ‘judeus’ é a necessidade que tinham de criar uma identidade durante o exílio na Babilônia. Com a destruição da cidade e do famoso templo de Jerusalém, os ‘judeus’ não tinham nada de substancial para definir a sua identidade cultural, pois a sua religião, que girava em torno de um deus único e onipotente, proibia as contumazes parafernálias de efeito confortante. Segundo Finkel, faz sentido que, durante os seus 48 anos de exílio na Babilônia, os ‘judeus’ tenham decidido construir a sua história, nem que fosse na forma oral. Também faz sentido que tenham incorporado, nessa história oral, algumas das coisas que assimilaram durante o exílio na Babilônia. Entretanto, a história dos ‘judeus’, ou a futura Bíblia, ainda era uma história oral quando Ciro o Grande, que conquistou a Babilônia em 538, permitiu que eles deixassem a Babilônia e retornassem à Judeia, no vale do Canaã.

Tão interessantes quanto os pormenores da arca babilônica são os esclarecimentos de Finkel sobre o épico Gilgamesh, a influência da Babilônia junto aos exilados da Judeia e a atual reavaliação das prováveis datas de compleição dos livros da Bíblia hebraica. Um bom tempo se passou depois do retorno à Judeia, até que os primeiros livros da Bíblia hebraica fossem compilados. Conforme mostrado por Finkel, a evidência da influência babilônica na cultura dos ‘judeus’ está não só nas diversas narrativas bíblicas, como a do dilúvio, mas também na grande quantidade de palavras babilônicas incorporadas no vocabulário hebraico.

O livro The ark before Noah (A arca antes de Noé) é ricamente ilustrado, com imagens em preto e branco e a cores de tabletes cuneiformes, quadros, desenhos e fotografias. Apesar de conter muitos aspectos técnicos de linguística, o livro de Finkel é de fácil leitura, pois os aspectos mais técnicos e de interesse especial foram reunidos nos quatro apêndices do final. As contraposições entre os mitos babilônicos e as narrativas do livro do Gênesis são extremamente interessantes. Com este livro, Finkel dá uma importante contribuição para o melhor entendimento da história da civilização humana.
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Joaquina (Jo) Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista eletrônica voltada à falantes de português e espanhol, especialmente os que vivem fora de suas pátrias.
Nota:
1.Caracola. Conforme definido pelo Houaiss, caracola, coracola ou caracora é uma embarcação malaia de cabotagem, comprida, de fundo chato, com boca estreita e velas de esteira.

Citação
FINKEL, I. The Ark before Noah: decoding the story of the flood. London, Hodder & Stoughton, 2014. ISBN 978-I-444-75705-7. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. A arca e o dilúvio mesopotâmico e suas implicações. PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html