A arquitetura da utopia: a Noruega e as origens do regime da bondade

A arquitetura da utopia: a Noruega e as Origens do regime da bondade

Nina Witoszek

No começo do século vinte e um, uma utopia alcançada da Esquerda Europeia parece ter emergido no Norte. “Ela incorpora igualdade, liberdade, bem-estar e justiça, e combina essas bênçãos com uma imensa prosperidade. A sua riqueza vai além do petróleo, do gás e da hidroeletricidade, que fazem dela um dos maiores PIBs do mundo; inclui uma rica tradição de desenvolvimento orientado por reformas, uma política emancipadora, um sistema generoso de previdência social e uma identidade baseada na parceria com a natureza. De fato, os sucessos da Noruega na criação de instituições descentralizadas e baseadas no autogoverno qualificariam bem como um exemplo típico dos estudos angariadores do Prêmio Nobel de Elinor Ostrom sobre a administração dos comuns . Em 2010 a Noruega foi classificada pela ONU, pela quinta vez seguida, como o “melhor país para se viver.” Aos olhos do mundo de fora, a Noruega tornou-se o epítome da boa governança, da preocupação ambiental e do altruísmo iluminado. Ela está ligada simbolicamente e politicamente ao “desenvolvimento positivo” descrito no livro Deep Ecology de Arne Næss, na ideia de “desenvolvimento sustentado” da Comissão Brudtland e na enormidade do seus projetos assistenciais em países em desenvolvimento. Hoje, a Noruega é o único país que gasta 1,06% do seu PIB em auxílios ao desenvolvimento e ao avanço das causas da paz, dos direitos humanos e da democracia. De fato, a Noruega é um dos maiores exportadores de “bondade” para todos os cantos do mundo.

Tal é a relevância das contribuições da Noruega a missões humanitárias, que essas eclipsam outros aspectos menos palatáveis de sua Realpolitik, tais como os seus investimentos não éticos no petróleo das areias betuminosas canadenses ou a exportação de armas. O que importa é que a Noruega tem o maior número de corretores da paz em todo o mundo – em termos de políticos, negociadores a funcionários envolvidos em iniciativas de paz que vão do Oriente Médio à América Latina, do Sudão à Eritréia, e da Tanzânia ao Sri Lanka. Hoje, onde quer que a guerra seja um problema, a Noruega tem uma solução de paz.

A pesquisa corrente sobre “Felicidade Nacional Bruta” reforça ainda mais a reputação da Noruega como sendo o “melhor país do mundo.” Uma série de estudos sobre qualidade de vida conduzidos na primeira década do século 21 demonstram que a Noruega é a prova viva de que o dinheiro pode de fato comprar a felicidade. Entrevistas feitas com 40.000 cidadãos dão amplos indícios de que o sentimento de bem-estar e satisfação, assim como a ausência de preocupações e ansiedade, estão se espalhando por todos os estratos da sociedade norueguesa. Na Noruega do século vinte era vergonhoso ser rico. Agora esse país de consumidores ávidos parece ter perdido todas as apreensões sobre riqueza e prazeres. A anterior e amplamente discutida “crise de identidade” da Noruega – que foi alegadamente causada por uma “neurose de riqueza” na década de 1980 – parece ter desaparecido. Para complicar mais as coisas, desde 2003 os pesquisadores têm registrado uma mudança de valores, de uma mentalidade materialista para outra mais idealista. A conclusão é de que muitos noruegueses “obtiveram a maior parte das coisas que eles desejavam e agora estão mais conscientes da colossal separação entre a riqueza que eles têm na Noruega e a genuína necessidade e miséria em outras partes do mundo. Eles sentem um desconforto moral. Além disso, eles estão preocupados com as mudanças climáticas e com o meio ambiente.” E embora seja difícil generalizar a partir da pletora de debates na mídia nacional, há indícios de que até os jovens, uma geração alegadamente crítica, sentem que a Noruega atingiu uma eudaimonia: a condição de prosperidade e felicidade na terra. Conforme escreveu um jovem jornalista em 2009: “Graças à boa administração e uma boa dose de sorte, a Noruega é a primeira sociedade da história da humanidade que pode arcar com um sistema de bem-estar social que realmente pode tornar todos livres. Nós que vivemos hoje chegamos mais perto do que qualquer geração anterior de realizar os nossos sonhos. A nossa produtividade excede qualquer outra figura que o mundo já presenciou. Nós temos não só mais dinheiro mas também mais tempo disponível do que os nossos irmãos do resto do mundo. Por que não deveríamos levar a sério o ideal da liberdade atrelada à vida prazerosa?”

Explorar as inúmeras fontes de narrativas do sucesso norueguês é um projeto complexo e desafiador. Os estudos existentes focalizaram amplamente no esclarecimento da importância das instituições políticas e das estratégias econômicas que criaram o inigualável estado do bem-estar social escandinavo. A fim de suplementar essas contribuições, eu gostaria de explorar as forças culturais que ajudaram a transformar a Noruega de um quintal europeu a uma surpreendente versão utópica da modernidade recente. Como foi que surgiu a narrativa carismática da singular missão moral da Noruega? Quem são os seus codificadores e os seus heróis culturais? Quem são os “dissidentes”? E finalmente, reconhecendo que nenhuma utopia é livre da vangloriosidade, será que o regime da bondade norueguês é realmente a resposta aos anseios humanos de segurança, paz e felicidade?

Seria o Modelo Norueguês Ilimitado?
Até agora, a maior parte dos estudantes internacionais da Escandinávia tem se encantado pela beleza social e política do “modelo Nórdico.” Para mencionar apenas um, Andre Sapir, um especialista em estudos comparativos de sistemas de bem-estar social, fez uma distinção entre os sistemas de bem-estar social Nórdico, Anglo-Saxônio, continental e Mediterrâneo. Fazendo um apanhado breve das suas conclusões: O modelo Anglo-Saxônio avança em eficiência mas é relativamente cruel com os mais fracos que lutam com dificuldade. Na França estadista, os sindicatos laborais fortes e ensimesmados frequentemente bloqueiam o emprego inovador e eficiente dos recursos sociais. A eficácia do modelo Mediterrâneo é frequentemente solapada por um modus operandi baseado no familialismo e no nepotismo que asseguram que nenhuma ação virtuosa permaneça impune. De todos os quatro modelos, conclui Sapir, apenas os países nórdicos conseguiram criar um sistema que combina um alto nível de igualdade, eficiência, emprego relativamente estável, e um adequado bem-estar social. Hoje em dia a Noruega incorpora este modelo melhor do que qualquer outro Estado de bem-estar social escandinavo. A Noruega conseguiu criar uma economia pública de petróleo e hidroeletricidade sem cair no atoleiro dos sistemas comunistas. Ela investiu a sua riqueza num fundo de petróleo que aloca cerca de 560.000 coroas dinamarquesas para a aposentadoria de cada cidadão, sem impingir a capacidade da Noruega de competir com os estados de petróleo capitalistas. A despeito de todos os perigos de uma corrida dupla para lucros e bem-estar social, os noruegueses parecem que tanto têm o bolo quanto podem comê-lo, navegando com um surpreendente bravado entre o socialismo e o super-capitalismo.

Isso é um desenvolvimento fascinante. Apenas algumas décadas atrás, a Noruega era uma espécie de quintal europeu, um resquício do romântico porém primitivo Norte, completamente eclipsado pelos seus vizinhos escandinavos. Na segunda metade do século vinte, era o “modelo sueco” que operava na consciência internacional como sendo o epítome da modernidade benigna e socialmente sensitiva. Os sociais-democratas suecos encantaram o mundo com suas ideias de folkhemmet (morada de pessoas) e com os seus “imperativos harmônicos,” emudecendo conflitos e insistindo na resolução de problemas através da análise racional, da transigência, e do consenso. Muitos observadores de fora se maravilhavam com a maneira como a visão racionalista-humanista do “bom estado” era combinada com a ideia da gemenskap (comunidade) – uma espécie de religião civil baseada na percepção dualista que os suecos têm de si mesmos, tanto como herdeiros da velha tradição do estado absolutista quanto como democratas “naturais”. Os críticos radicais eram atraídos pela ética liberal sueca, incluindo costumes sexuais relaxados e naturais; relações igualitárias e informais no local de trabalho, e a convicção panglossiana de que a Suécia era o melhor de todos os mundos possíveis.

Na década de 1990 o “modelo sueco” sofreu um duplo ataque. O primeiro veio da crise econômica internacional que enfraqueceu substancialmente a economia sueca. O segundo foi aquele parcialmente coreografado pelas elites intelectuais desconstruídas que reinventaram a Suécia como sendo uma variante “folkhemmets” do “fascismo Nórdico” . A Suécia, eles descobriram, “normalizava” os seus cidadãos através da engenharia social, incluindo a esterilização das “minorias defectivas,” efetuada “para melhorar a higiene nacional.” Tais práticas – que só foram suspensas nos anos setenta – mancharam a imagem da Idade Dourada da Social Democracia da Suécia .

Hoje já não é mais o “modelo sueco” que representa as aspirações e a consciência do mundo moderno. Numa irônica reversão de fortunas, são os antigos vassalos da Suécia e os primos pobres que se tornaram o paragão brilhante da modernidade “idílica”. Os noruegueses são novos-ricos moralmente aceitáveis pelo fato de não serem agressivos, oportunistas, implacáveis, avarentos ou inescrupulosos; a riqueza “veio a eles” na forma da descoberta de petróleo na hora certa. E o que é mais importante, eles mostram como o dinheiro pode ser empregado para realizar uma nova mission civilizatrice no mundo, uma que oferece uma alternativa moral à brutal rapinagem dos projetos imperiais britânicos e franceses. Muitas das elites culturais e políticas norueguesas assimilaram por si próprias essa autoimagem benevolente, e sentem-se capazes de rapsodizar as virtudes de seu país sem correr o risco de serem desmantelados pela “razão cínica.” A Noruega é “pequena… aqui nós não temos um passado colonial” (Vidar Helgesen). “’Nós não somos americanos e nem europeus, somos apenas nós mesmos” (Morten Utgaard). “A nossa reputação é impecável” (Janne Matlary). Em 2010, a Noruega funciona tanto um Eldorado quanto um superpoder moral aspirante. Essa combinação é desconhecida na geopolítica do mundo; é muito mais uma coisa dos contos de fadas. No mapa mítico global, os jogadores ricos tendem a ser os proverbiais “caras maus.” Com uma grande exceção: a Noruega, “o melhor país do mundo.”

Ao exibir as suas credenciais éticas e asseverar a sua bem-untada e nobre “exterioridade” à Europa [União Europeia], a Noruega representa um formidável desafio para todos os hermeneutas desconfiados. Seria o seu estonteante sucesso o resultado de uma inteligente campanha publicitária internacional ou, como já foi algumas vezes sugerido, o resulto de um delírio da massa? Admissivelmente, há um número cada vez maior de pesquisadores noruegueses que estão questionando a reputação épica de seu país natal. Numa série de estudos sobre política exterior norueguesa, Terje Tvedt cunhou a expressão “regime da bondade,” que tanto serviu para codificar quanto para questionar as ambições morais e políticas norueguesas. A metáfora de Tvedt foi inspirada pela asserção do ex-Primeiro Ministro Gro Harlem Brundtland de que “Ser bom é uma coisa tipicamente norueguesa.”

O regime da bondade é uma expressão deliciosamente irônica: o conceito de “regime” confere um tom tecnocrático e controlador à palavra “bondade” – criando assim uma frase arguciosa que tanto constrói quanto desconstrói os feitos da Noruega. De acordo com Tvedt, o verdadeiro regime da bondade é um a Estado virtual dentro do Estado, compreendendo mais de 200 organizações voluntárias, mais de 3.000 funcionários de ajuda internacional, e uma ampla gama de instituições de pesquisa e universidades que tanto estudam quanto dão legitimidade à política de ajuda externa na África, Ásia e na América Latina. O regime da bondade é especializado em trabalhos assistenciais e ajudas emergenciais a mais de 114 países e envolve cerca de 10.000 projetos. O mesmo tem um efeito normativo extraordinário. Tem substanciais recursos financeiros. Reina na mídia, que está sempre a proclamar o papel humanitário que a Noruega tem no mundo. E além de tudo, o mesmo é fundamentado num discurso largamente não examinado e numa narrativa carismática sobre um pequeno reino de floresta que irradia luz e doçura enquanto dissemina bondade aos menos favorecidos – ou às partes menos “virtuosas” do mundo.
A reavaliação de Tvedt sobre a bondade nacional baseia-se não apenas em informes bem documentados de projetos externos de desenvolvimento que foram desencarrilhados ou abortados; ela aponta uma inquietante imunidade ao criticismo externo, mostrado repetidas vezes pelos arquitetos da política norueguesa de ajuda e de paz. Mas as suas revelações de “malfeitos por detrás de uma narrativa gloriosa” tendem a obscurecer a novidade da moral norueguesa e do experimento econômico tanto em casa quanto no exterior.

Neste estudo eu desejo analisar com seriedade o status ímpar da Noruega como sendo “o maior e melhor lugar do planeta” e esquadrinhar as suas raízes culturais. Porque, afirmar que a Noruega deve todos os seus sucessos à economia do petróleo seria tanto simplista quanto altamente injusto para com a inteligência, a boa governança e a engenhosidade das pessoas que inventaram a Noruega moderna e administram os seus recursos nacionais. Conforme colocou David Landes, “encontrar a sorte não tem nada a ver com cultura, mas continuar na sorte geralmente sim. Quando uma sociedade, ou as partes controladoras de uma sociedade, estão sentadas sobre recursos geradores de riqueza, um país pode ser bastante rico desde que os recursos permaneçam. Mas quando os recursos são usados e os investimentos derivados dos mesmos tiverem se exaurido, o país frequentemente retrocede.” Em resumo, embora a cultura não seja tudo, ela nutre as visões e os programas duradouros da comunidade. A cultura faz isso ao definir um espírito de comunidade, decidindo se o mesmo é internalizado ou externalizado, e o quão generoso é para com os seus integrantes mais pobres. Mas mais que tudo, a cultura impõe restritivos morais no gerenciamento da riqueza de uma comunidade.

A Mágica dos Memes
A minha tentativa de iluminar as tradições culturais impregnadas de valores que existem por detrás do regime da bondade norueguês foi inspirada por um mosaico de estudos históricos e etnográficos de comunidades nacionais: ela tira lições das obras de Alexis de Tocqueville, Pierre Bourdieu, Norbert Elias, Yuri Lotman, Jared Diamond, Jerome Bruner, e David Landes. Todos esses escritores amealharam provas convincentes no sentido de que a cultura e a religião contribuem para o fracasso ou o sucesso econômico e fornecem os códigos de comportamento que embasam a ação política. A cultura – a nossa segunda natureza, ou “aprendizado encarnado” (cf. Bourdieu e Elias) – condiciona as atitudes para com o Outro, o valor da educação e a tolerância da novidade; ela enobrece certas atividades e denigre outras; ela delineia aquilo que é “certo” e aquilo que precisa ser evitado. Ou, mudando as definições, a cultura – a “memória não hereditária de uma comunidade” expressa num sistema de mandamentos, símbolos e narrativas (cf. Yuri Lotman) – contribui para a fortuna das nações, pois cria narrativas de ganhos e perdas de poderes, distinções significadoras de estruturas e forja as imagens poderosas que dão vida à comunidade.

Isso não significa argumentar que “cultura é destino” – ou que a cultura por si só determina o curso da modernização ou a trajetória dos processos de civilizar e descivilizar. Conforme argumentou Jared Diamond, a geografia, incluindo o clima, a topografia e o quinhão de recursos, têm claramente um papel crucial, assim como as contingências da história tais como guerras, experiências coloniais e os traumas de crises prolongadas. Existe agora uma significativa literatura com essas qualificações, que documentam como diversas sociedades recorreram a diferentes cenários de ação impregnados de valores para resolver tensões ou mobilizar os seus potenciais. Tais cenários constituem o ambiente ético primário de cada membro da comunidade nacional. Manobradas pelas lições de história, recicladas no currículo escolar, ensinadas pelas instituições religiosas, e repetidas ad infinitum pelos pais e pelos pares, essas narrativas não são tão contingentes ou ad hoc no sentido de Eric Hobsbawm quanto são narrativas e “hábitos” simbólicos, transmitidos de geração a geração e ressonantes com o passado. Eles fornecem veículos pré-fabricados para uma resposta emocional a novos desafios, incitam uma comunidade no tocante ao que sentir e como se portar em situações de conflito, e podem mobilizar ou sufocar as energias sociais. Eles fazem isso invocando a memória de crises similares passadas através de citações de palavras e feitos dos ancestrais, e reensaiando erros ou triunfos passados.

Diferentemente de Jared Diamond, que se dispôs a demonstrar como crenças culturais específicas e políticas ambientais podem contribuir para o colapso ambiental e econômico de uma comunidade, eu desejo focalizar naquelas narrativas, práticas e percepções que ajudaram a “programar” os noruegueses para o sucesso. Eu escolhi revisitar a história da Noruega através do estudo da jornada dos seus símbolos centrais e dos seus heróis culturais, explorando os seus ritos de passagem, e reexaminando as suas tradições filosóficas dominantes. O conceito chave que escolhi, e que engloba essas formas agregadas de expressões culturais, não foi inspirado por historiadores mas por um controverso biólogo: Richard Dawkins. Em O Gene Egoísta Dawkins se refere aos “memes” – prevalecentes criações da imaginação humana que, uma vez concebidos, não atrofiam mas se incubam e se modificam ao longo do tempo. Para Dawkins, um meme é um replicador e uma unidade de transmissão, que por analogia com os genes, saltam “de cérebro para cérebro através de um processo que, num sentido amplo, pode ser chamado imitação.”

Conquanto eu julgue que os “memes” de Dawkins’ sejam um conceito altamente atraente, eu discordo tanto da sua interpretação quanto do seu emprego do termo. É verdade que tanto a evolução biológica quanto a transmissão cultural pressupõem restrições. Por um lado nós nascemos com uma forma física que é em grande parte geneticamente determinada; por outro lado nós somos lançados dentro de um ambiente de narrativas de mitos, estórias e imperativos morais. Mas os memes, ao contrário dos genes, são um produto do processo criativo, e não reproduções mecânicas. Por mais que isso seja restringido pelas formas de conhecer, de avaliar e de interpretar da cultura, um indivíduo é capaz não só de contestar as convenções presentes quanto de criar novos memes. Os escritores, os artistas e os políticos continuam projetando e reprojetando novas possíveis personágens para determinada cultura – personagens que por sua vez serão assimiladas ou rejeitadas pela comunidade, dependendo de quão bem elas ressoem com as suas experiências e aspirações. Se qualquer coisa, um meme é uma unidade de memória social (tendo vindo da palavra latina mem-oria): uma imagem, um padrão social ou uma narrativa que não é copiada mas lembrada, e portanto constantemente reinventada no processo da memória.
Na minha releitura “memorialista” de Dawkins, os memes são imagens, estórias, melodias e rituais que se replicam e se recriam ao longo de diversas gerações e que dão sentido às culturas humanas. Em termos amplos, existem memes universais (tais como o mito da Idade Dourada), memes “nacionais” ou culturalmente específicos (tais como o ritual americano do 4 de Julho ou a Marseillaise francesa), memes mito-poéticos, interculturalmente móveis (e.g. Odisseu, Mona Lisa, Hamlet, Dr Fausto), e memes “sectários” (tais como os estereótipos de sexo nacionais). Eles podem ser criados anonimamente por uma comunidade, por um grupo ou escola, ou por um indivíduo. Quem quer que seja os seus autores, e quão problemático seja o seu status ontológico (se “inventado,” “experimentado” ou “revelado” pela Providência), os memes são replicados porque eles atendem a um dilema humano concreto. Uma mudança socioeconômica inesperada – uma iminente ameaça, um fracasso político ou pressões externas – podem estimular a criação de novos memes, que podem tomar a forma de narrativas consoladoras ou de estratégias imaginativas e potentes de saída de enrascadas correntes. Apenas para dar um exemplo, no final do século dezenove um novo conjunto de aspirações sociais e papéis instigados pelo ideal emancipador da modernidade prontificou o novo meme criado por Henrik Ibsen: aquele de Nora, uma mulher desiludida que deixa a “casa de bonecas” burguesa a fim de buscar a autorrealização. O meme não emergiu ex nihilo; nasceu da experiência social concreta, e foi modelado, poderíamos conjeturar, na figura imponente da mulher forte e independente das comunidades pesqueiras – e das sagas nórdicas nas quais o próprio Ibsen imergiu antes de escrever os seus dramas sociais. O personagem Nora veio de uma reformulação surpreendente e imaginativa de valores e aspirações ainda não incorporadas na identidade coletiva. Se Nora se tornou um meme universal – uma figura emblemática da insurgência feminista – foi apenas porque a experiência de sucessivas gerações de mulheres escandinavas e europeias lhe deram vida.

Alguns pensadores tais como Jerome Bruner chegam a afirmar que a cultura e a “busca de significado dentro da cultura são as verdadeiras causas da ação humana. O substrato biológico é… no máximo, uma limitação ou uma condição da mesma.” Implícita na visão de Bruner está a percepção da evolução humana como um agon de genes e memes. Enquanto que os genes em última análise nos sentenciam à morte e ao esquecimento individual, os memes prometem um tipo de imortalidade.

Super-Homem verso Sobrevivente: da Natureza à Ideologia
Se fôssemos colocar uma lente zoom sobre o panorama dos ícones, narrativas e rituais noruegueses de maior significância em termos de terem dado poder e cimentado a comunidade nacional ao longo do tempo, nós teríamos que identificar um conjunto ubíquo de memes: imagens, estórias e modos de conduta ligados à natureza. A partir da Edda – a coleção da mitologia nórdica medieval – e da ecofilosofia de Arne Næss aos modernos manifestos noruegueses contra a entrada de seu país na União Europeia –, a natureza tem servido como um local de morada e um emblema da identidade nacional. A sociedade norueguesa pode ter mudado mas a natureza jamais deixou a história nacional. Ela tem sido um perpetuum mobile, um centro semiótico em torno do qual tudo revolve. Uma das teses que eu espero substanciar nos capítulos subsequentes é que na Noruega, diferentemente de muitos outros países, o emprego de memes da natureza tem estado amplamente ligado à ideologias emancipadoras porém pacíficas. Com poucas exceções (que abordarei oportunamente), a natureza na Noruega tem tendido a fazer parte de agendas reformistas ao invés de revolucionárias. É como se a observância das coisas próprias da natureza – baseadas em preservar ritmos, repetições, e a necessidade de adaptação – tivessem sido transferidas para um “código adaptativo” nacional que influenciou os seus programas ideológicos.

O aspecto acomodador desse sistema de valores inspirado na natureza é ímpar se considerarmos que na maioria das culturas a invocação do imaginário da natureza tem frequentemente acompanhado movimentos dogmáticos e agendas políticas extremistas. Desde Carlos Magno, que em 772 E.C. cortou o Irminsul (o freixo sagrado da religião Germano-Escandinava), passando por Mary Wollstonecraft que vasculhou Floresta Norueguesa em busca dos arquétipos “nobres selvagens”, e até o grito do Reichskulturkammer chamando o Heimat primordial, a natureza tem sido um meme ativo nas convulsões estéticas e ideológicas. Simon Schama, que estudou os usos e abusos dos memes da natureza alemães, mostrou como a narrativa de Tácito sobre o Naturvolk que venceu os tecnologicamente superiores Romanos, colonizaram a imaginação do século dezenove até finalmente se tornar parte do Urgeschichte dos ideólogos e filólogos do Terceiro Reich. A conclusão de Schama é inquietante: “São essas associações mórbidas, descritas por um comentarista Latino não inteiramente neutro, entre sacrifício de sangue, servidão prostrada, liberdade do bosque primitivo, e o mito das origem étnica que farão a sombra maior e mais escura sobre o futuro da nacionalidade alemã.” Seduzidos pela narrativa de Tácito (repleta de subtítulos como “Os alemães são uma raça ímpar, não poluída por casamentos inter-raciais”), Hitler, Himmler e Rosenberg demandaram um “retorno à terra natal natural” e à pureza original da raça.

A Noruega oferece uma narrativa de floresta que é diferente. Colocando-a numa perspectiva rápida e sinóptica: a narrativa antiga é sobre a criação dos dois primeiros humanos do pau-cinza e do olmo. Daí segue um período curto durante o qual a narrativa trata da destruição e da anarquia heroica de Vikings “terminadores.” Após o século XIV, as violentas narrativas se evolvem em histórias de sobrevivência e engenhosidade ecológica. Os protagonistas são na maioria benfeitores: do herói folclórico Espen Askeladden, aos naturalistas e exploradores Fridtjof Nansen, Roald Amundsen e Thor Heyerdahl, até os filósofos da natureza como Arne Næss.

Existem portanto duas histórias românticas de natureza reforçando duas ideologias correspondentes e dois tipos de Volk. Uma que é hierárquica, Darwinista e violenta, e outra que permaneceu igualitária, prosaica e racional. Uma se contrapôs à natureza e à razão, e outra procurou uni-las. Uma comemorou o vanglorioso super-conquistador, e outra preferiu o sobrevivente modesto. Uma presidiu a conquista imperial, e outra apoiou o despotismo plácido de medíocres e inseguros. Uma deu a luz ao Endlösung, e outra advogou reformas cautelosas. Por que os referenciais semióticos da identidade norueguesa – todos eles baseados em emblemas salientes da natureza – não perturbaram o equilíbrio entre os ingredientes primordiais e cívicos? Por que, neste caso, as alianças de sangue e solo são tão elegantemente temperadas por doutrinas de liberalismo e direitos individuais?

Conforme eu irei mostrar, desde o final da era dos Vikings tem havido uma remarcável consistência na forma como os memes da natureza da Noruega legitimizaram projetos que avançaram a justiça social, a igualdade e a cooperação. Tomando o século dezenove como uma ilustração: na Noruega do século dezenove havia interesses sociais rivais, narrativas rivais de política social e econômica, e escolas rivais de estética. Mas basicamente não havia versões rivais da identidade norueguesa. Na metade do século dezenove os três referenciais do norueguismo eram praticamente não negociáveis: montanhas e fjords como emblemas da identidade nacional, camponeses “racionais” como guardiães dos valores da Noruega Profunda e da Constituição de 17 de Maio – um código precursor da igualdade e emancipação datado de 1814 – e um “ritual de Primavera.”
O que é certamente remarcável é que quando as elites culturais norueguesas tentaram criar um mito-mestre nacional, elas optaram por não reativar a bazófia do glorioso passado Viking, e ao invés disso desenhou um futuro glorioso, emblemado com um novo protagonista histórico: o “camponês livre.” Não foi o Gótico, as aventuras românticas ou o código de honra Viking que foram resgatados, mas sim o pragmatismo ambientalista plebeu, cujos rudimentos haviam sido primeiramente codificados numa parte da Edda conhecida como “Håvamål.” Conforme eu irei argumentar, esse livro-texto secular de sobrevivência medieval havia promovido um sistema de conhecimento “ecológico” que era transmitido de geração para geração. Se seguirmos a proposição de Lotman de que “um texto pode parecer uma programação condensada para toda a cultura,” então o “Håvamål” é um exemplo desse tipo de texto. Os seus imperativos centrais – seja sábio mas não demasiadamente sábio, indulgente mas não demasiadamente indulgente, generoso mas não demasiadamente generoso, e acima de tudo, “é melhor estar vivo do que estar morto” – evocam um sistema de valores utilitário que dominou durante séculos. Ele tinha pouca competição do código da elite aristocrática que havia sido varrida do país pela Peste Negra ou pela emigração. Ele cresceu ao longo dos séculos subsequentes transformando-se numa matriz normativa da cultura norueguesa. Ele foi ainda reforçado pela necessidade de inovações de ordem prática num mundo de escassez, e pela precariedade da vida às margens do possível.

De imediato podemos imaginar uma analogia apropriada. A construção da identidade nacional americana inspirou-se, como na Noruega, tanto na tradição cívica liberal quanto nos rastros de um grande espaço aberto inexplorado. A tentativa de fincar a consciência nacional americana na natureza pode ser vista numa multiplicidade de textos, desde as declarações presidenciais (Jefferson, Jackson, Roosevelt) até no Movimento de Preservação da Natureza cujos pioneiros foram Muir e Turner. Luminares literários tais como Cooper, Whitman, Emerson e Thoreau identificaram a nova República com a natureza e assistiram com horror a espoliação sistemática das terras virgens. Os paralelos, por mais convincentes que sejam, se desfazem assim que são invocados: a “entrada” americana na vastidão territorial foi muito colada com a ideia de conquista, do fronteirismo, e do desenvolvimento industrial para que a conexão original pudesse ser preservada. Como foi reduzida a um pano de fundo nostálgico, a vastidão ganhou uma força simbólica na mitologia do consumo. Até os melhores esforços dos conservacionistas foram manchados pela noção narcisista de que o planeta é largamente uma mera extensão da raça humana.
Na Noruega não foi assim. Aqui, os memes da natureza nunca foram mumificados em exibições de história nacional do passado. Ao contrário, como irei mostrar, o seu papel como emblemas vigorosos da “bondade” nacional e do norueguismo positivo têm aumentado ao longo do tempo. Hoje a tradição informada pela experiência e pelo imaginário da natureza continua a nutrir as predisposições éticas e políticas da cultura norueguesa. É um legado com o qual as pessoas se identificam e que as personifica. Ele tem uma relação com o seu modelo de comunicação, com o sistema de valores nacional, os gêneros literários, os modelos de heróis culturais, os ritos nacionais, os padrões de trabalho e lazer, e até com as modalidades de relações com o mundo externo. A persistente aculturação da natureza não é uma fachada romântica, mas parte e pacote de uma experiência da natureza genuinamente percebida como sendo a morada certa do “bom e do puro.”

Sugerir que a “tradição de natureza” da Noruega seja uma compilação de narrativas que deram poder ao regime da bondade norueguês implica que a natureza não é apenas um componente do “kit de identidade” do personagem nacional; ela forja fronteiras simbólicas-normativas que protegem a bondade norueguesa de “contaminações” externas e mudanças bruscas. Fora da esfera dos fjords e das montanhas “não adulteradas” fica o mundo da cultura elitista e falsa. O campo desafia a cidade. A Noruega desafia a Europa. Os seus pescadores pragmáticos não têm tempo para a ignorância romântica da comunidade internacional de adoradores de baleias. E embora o cenário cultural se altere e sofra mutação – e dessa forma ameace constantemente de refazer as suas simbólicas fronteiras morais – a identidade coletiva norueguesa continua sendo definida pela lembrança, celebração, interpretação e reinterpretação “da natureza boa” que viceja no Norte.

É impossível, no escopo desse estudo rápido, fornecer um relato completo dos processos ricos e muitas vezes contraditórios que geraram o regime de bondade moderno. Os capítulos seguintes se focalizam nas constelações mais proeminentes – e nos codificadores – dos memes da natureza na história norueguesa, na sua evolução temporal, e no seu significado atual. No capítulo II, eu contesto as ideias aceitas sobre a pivotante importância do Naturromantikken (o Romanticismo da Natureza) como sendo a alegada tradição criadora da Noruega moderna. Um escrutínio detalhado dos memes da natureza existentes nos textos do início do século dezenove, desvenda tanto um fascinante ataque nativo às quimeras do Romanticismo Europeu quanto o triunfo da visão pragmática-racional do mundo. Ao invés de abraçar a visão Romântica “homens como deuses,” os noruegueses abraçaram aquilo que pode ser chamado de código “ecohumanista” (discutido no capítulo III), onde os ideais humanistas são temperados por uma sabedoria do ar livre originária de uma interação com a natureza. No capítulo IV, eu argumento que a tradição fundadora da Noruega moderna é o “Iluminismo Pastoral,” uma cosmologia cuja última versão secular se transformou na plataforma de valor da Social Democracia. O Iluminismo Pastoral prefigurou o regime da bondade norueguês no sentido em que estabeleceu tanto a pedagogia ecohumanista quanto a ímpar e humanitária Sonderweg da Noruega. O Capítulo V meandra de volta à época dos Vikings para explorar o conceito da “natureza como ancestral” e os rudimentos de um sistema de valores ecohumanistas que foi rascunhado não tanto pelas sagas, mas no bem mais influente código de adaptação conhecido como Håvamål. O Capítulo VI reexamina o “Sonho Norueguês” e o seu protagonista central, Espen Askeladden. Como os apóstolos do “Sonho Americano” – codificado por James Truslow em The Epic of America (1931) – os noruegueses seduzem o mundo com uma história que a maioria das pessoas amam e acalentam: a da Cinderela e sua trajetória da pobreza para a riqueza. Entretanto, diferentemente dos americanos – viciados em fantasias sobre a riqueza sem limites, fama, amor, poder e felicidade – o Sonho Norueguês é sobre um mundo que tem limites e fronteiras. Aqui as acrobacias do Super-homem dão lugar a um anti-herói criativo e talvez um tanto indolente, que ouve a sabedoria da natureza. Nos capítulos VII e VIII eu chamo a atenção para quatro codificadores modernos da visão ecológica norueguesa: Henrik Ibsen, Edvard Munch, Gustav Vigeland e Knut Hamsun. Enquanto que os dois primeiros são herdeiros dos valores do Iluminismo Pastoral, Knut Hamsun e Gustav Vigeland são exemplos intrigantes de “dissidentes culturais.” Conforme eu argumento, eles não apenas romperam com a visão benigna do Iluminismo Cristão do homem e da natureza; eles também fizeram um experimento utopiano de retorno a uma “natureza demoníaca” ancestral, que os noruegueses haviam consistentemente negado ou suprimido do imaginário nacional. O Capítulo IX reexamina a culminação filosófica da tradição de natureza norueguesa como o veículo do regime da bondade: o livro Deep Ecology de Arne Næss. Eu proponho que, na qualidade de evangelho ambiental radical da atualidade, Deep Ecology aponta tanto para Espinosa e Ghandi, quanto para o Iluminismo Pastoral nativo e suas premissas de valores centrais: o respeito à natureza, o pragmatismo, a solidariedade para com o oprimido, e uma paradoxal e positivamente carregada inconsistência.

Os capítulos que se seguem ajudam a dar uma luz desfamiliarizante num legado cultural que mostra um exemplo remarcável de coincidentia oppositorum: por um lado nós encontramos um lugar que é tido na maior parte como o epítome do Romanticismo europeu; por outro lado, nós somos obrigados a admitir que esse Romanticismo é um mero disfarce de um pragmatismo pertinaz e uma duradoura aliança às formas clássicas. Somos seduzidos pela história de uma tribo elementar e rebelde – mas num escrutínio mais próximo temos que reconhecer notórias traições à revoluções em favor de políticas conciliatórias e reformas gradativas. Hoje nós vemos um dos países mais intensamente modernizados do mundo. Mas mesmo assim nós encontramos uma cultura que, conforme eu argumento, em muitos aspectos baniu a cidade do seu universo moral. No final, eu espero mostrar como o paroquialismo recidivista da Noruega – a sua aspiração a permanecer como uma vila “verdadeira e boa” junto ao simulacro da vila global – é sustentada pelos seus memes primordiais de paisagens e pelas suas raízes.
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Nina Witoszek é professora-pesquisadora do Centro de Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade de Oslo, especializada e na história cultural e ambiental. Seus livros mais recentes são Culture and Crisis (2001) e The Origins of the Regime of Goodness (2011). Ela foi classificada pelo jornal norueguês Dagblatet como um dos 10 maiores intelectuais da Noruega.

© Dr. Nina Witoszek
Nota
Este artigo é o primeiro capítulo do livro The origins of the regime of goodness, de Nina Witoszek, um retrato da história cultural da Noruega e uma visão crítica do modelo norueguês.

Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien

Como citar este artigo:
Witoszek, N. A arquitetura da utopia: a Noruega e as origens do regime da bondade. PortVitoria, UK, v. 6, Jan-Jun, 2013. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html

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