A contribuição dos fenícios e árabes à civilização Ocidental

A contribuição dos fenícios e árabes à civilização Ocidental

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the Discovery of Europe (O êxodo da Arábia. Fenícios, árabes e a descoberta da Europa), de Warwick Ball. 2009. East & West Publishing, 208pp. ISBN 9781907318009.

15_warwickball_outofarabiaA civilização Ocidental, Ocidente, ou simplesmente o Oeste, é definida como um produto das culturas gregas e latinas mais a tradição judaico-cristã. Essa definição é incompleta pois deixa de considerar a contribuição direta do Oriente Próximo. A fim de preencher esta lacuna no conhecimento, a editora inglesa East & West lançou uma série de quatro volumes, da qual este livro de Warwick Ball sobre a Europa é o primeiro. Australiano, radicado na Escócia, Warwick Ball é um arqueólogo especializado em restauração arquitetônica de monumentos históricos, com mais de 25 anos de experiência em escavações na Jordânia, Irã, Iraque, Síria e Afeganistão. Outros livros dele incluem Syria: A historical and architectural guide (1994), Rome in the East: The transformation of an empire (2000), Towards one world (Asia in the Making of the West) (2010), e Sultans of Rome (2012). Ao mesmo tempo em que narra a presença dos fenícios e árabes na Europa, Warwick Ball explica os problemas que impedem o registro correto da história.

Os fenícios eram povos semíticos que habitavam uma faixa costeira a Leste do Mar Mediterrâneo cuja posição relativa ao sol nascente fez com que ficasse conhecida como o Levante, e que atualmente corresponde à Síria (parte oeste), Líbano, Israel, Palestina e Jordânia. Um dos problemas da elucidação da história dos fenícios foram muitas, diversas e imprecisas designações a eles atribuídas. A própria palavra ‘Fenícia’ é de origem grega, e, consequentemente, indo-europeia, enquanto que eles falavam uma língua semítica pertencente ao mesmo tronco noroeste que deu origem ao árabe, e que inclui ainda o hebraico, o amorita, o nabantino, o aramaico e o siríaco. A palavra ‘Fenícia’ é um epônimo do rei Fênix, um lendário monarca de Tiro, a principal cidade-estado da Fenícia, de onde vinha o corante púrpuro produzido nas redondezas, o qual era conhecido como ‘corante de Tiro’. Em sua etimologia, a palavra ‘fênix’ inclui um radical indo-europeu que significa ‘vermelho’, uma referência ao corante púrpuro de Tiro. O mesmo problema de nome estende-se à designação dos fenícios. Homero e algumas fontes fenícias os designavam ‘sidônios’, embora a Sidônia fosse apenas uma dentre as diversas cidades fenícias. Os fenícios que viviam na costa levantina referiam-se si mesmos como ‘cananitas’, e é assim eles são chamados na bíblia judaica. Enquanto os fenícios da costa levantina tinham uma designação grega, aqueles que viviam nas colônias da costa da África e na Sicília tinham a designação latina de ‘púnicos’ dada pelos romanos. A designação ‘cartagineses’ é fenícia, sendo eponímica de Cartago, sua importante colônia africana, cujo nome fenício é Quart-hadashts, que significa ‘nova cidade’.

Segundo Warwick Ball, a documentação mais antiga dos fenícios na costa levantina, datada de cerca de 2000 a.C., foi encontrada na cidade de Ugarit, situada na atual cidade de Ras Shamra – que que significa ‘cabeça do funcho selvagem’ –, no norte da Síria. O seu apogeu deu-se na segunda metade do segundo milênio a.C., quando dominou o comércio mundial, comercializando o corante púrpuro tírio, e, também, metais, madeira e cereais. Além de Ugarit, Tiro e Sidônia, outras importantes cidades fenícias foram Biblos, Arvad, Beirute e Gaza. Biblos tinha uma arquitetura urbana semelhante a um tabuleiro de xadrez e foi considerada a primeira cidade planejada do Ocidente. Suas vias entrecruzadas foram posteriormente recriadas em algumas colônias da costa africana e na Sicília.

A partir de 1200 a.C., a cultura dos fenícios começou a declinar em decorrência das invasões dos povos do Norte, possivelmente dos dórios, ancestrais dos gregos. Depois disso, os fenícios tiveram uma série de recuperações e reveses. Em torno de 1050 a.C., eles tiveram um renascimento; mais ou menos em 333 a.C., eles foram um dos alvos da brutal invasão macedônia comandada por Alexandre o Magno; voltaram a florescer depois do estabelecimento da Síria Selêucida; em 264 a.C. foram atacados pelos romanos no conflito que ficou conhecido como a Primeira Guerra Púnica; enfrentaram novas investidas dos romanos até serem derrotados de vez na última guerra púnica, ocorrida entre 149 e 146 a.C.

Entretanto, mesmo sob a dominação romana, a cultura fenícia teve uma última renascença por volta do segundo século da era cristã, quando Filo, de Biblos, disponibilizou o arquivo histórico fenício à civilização clássica. Isso possibilitou a preservação de uma boa parte da literatura fenícia, que era escrita em papiro. O escritor fenício de maior importância foi Sancguniathon, que viveu no século VII a.C. Outros incluíram os historiadores da Escola da Antioquia como Eusébio, Procópio, Josefus, Herodian, Ammianus Marcelliunus, Libanius e John Malalas.

Sabemos que os fenícios tiveram a primeira marinha da história e que, devido à sua elevada tecnologia naval, eles criaram colônias tanto na costa Atlântica da África quanto na costa do Mediterrâneo. Entretanto, a datação de artefatos arqueológicos por radiocarbono mudaram diversas datações históricas sobre a presença dos fenícios na África e na Europa. Com base nas novas datações, a ilha de Chipre fez parte do reino de Tiro entre 850 e 600 a.C. As colônias de Rodes, Creta e da Sicília foram fundadas nos séculos X e XI a.C., e, poucos séculos depois, os fenícios estabeleceram-se na ilha de Malta, onde se casaram com a população nativa. O autor ressalta o fato de que Malta é a única localidade em que o fenício conseguiu sobreviver, como o principal componente da língua maltesa.

O autor ainda destaca que os fenícios tiveram a primeira mulher navegadora, Elissa, irmã de Pumayyaton, o rei de Tiro, também conhecida como Dido, que fundou Cartago na costa africana por volta de 814-3 a.C. Outras importantes cidades fenícias na África eram Lixus, no Marrocos, e Utica, na Tunísia. Enquanto a datação dessas cidades foi empurrada para a frente, a presença dos fenícios na Ibéria foi empurrada para trás. A fundação de Gadir, na atual Cádiz, ocorreu em 1110 ou 1104 a.C. As demais colônias fenícias da Ibéria, todas na atual costa do sol da Espanha, em torno de Málaga, foram fundadas posteriormente.

Warwick Ball mostra outros exemplos de mudanças na datação de fatos registrados na história e na Bíblia. Por exemplo, a história de Jezebel, a princesa fenícia que se casou com o príncipe Ahab de Israel, tornando-se uma poderosa rainha, é agora colocada no século IX a.C. Na Bíblia, Jezebel é criticada pelo profeta Elias pelo fato de ter mantido a sua devoção à divindade Baal. Outro exemplo é o do surto de crescimento de Tiro, sob o rei Hiram I, que estabeleceu firmes relações comerciais tanto com o rei David quanto com o rei Salomão, de Israel, agora datado em meados do século X a.C. Na narrativa histórica atualizada, foi nessa época que Tiro ganhou lucrativos mercados asiáticos e mandou uma expedição marítima à ‘Terra de Ofir’, no Mar Vermelho. Um terceiro exemplo tem a ver com a localidade Tarhish, das alegadas expedições de Tiro à Tarhish na época do rei Salomão, mencionadas na Bíblia. Os avanços da arqueologia permitem interpretar a Tarhish da Bíblia como sendo a Tartessia da Ibéria (atuais regiões do Algarve, Alentejo, sul de Estremadura e oeste de Alentejo), que era uma fonte de estanho e de outros metais. Isso confirma ainda que foram os fenícios que forneceram os materiais empregados na construção do famoso templo de Salomão.

A contribuição dos árabes à cultura da Europa, tanto antes quanto depois de Maomé ter estabelecido a religião islâmica, é também sublinhada por Warwick Ball. Assim como os fenícios, os árabes também eram povos semitas. Eles eram subdivididos em dois principais grupos: os nômades beduínos que viviam no deserto, e os sedentários que viviam em cidades e costumavam se conectar com a cultura greco-romana. Os árabes migraram para a Ásia e Europa para onde levaram a religião islâmica. Na Europa, os árabes dominaram a Andaluzia e a Sicília, deixando uma série de edifícios no estilo mouro, como aqueles os mostrados nas belas ilustrações deste livro.

O aspecto mais interessante deste livro são as reflexões do autor sobre as muitas suposições que existem sobre cultura e civilização. A tendência de associar civilizações a continentes impediu o entendimento das raízes fenícias e árabes da Europa, da mesma forma que as diferenças visíveis entre as raças humanas impediram o entendimento da origem única dos humanos explicada pela teoria do ‘êxodo da África’, o ‘out of Africa’, em inglês, que inspirou o título deste livro. Conforme Warwick Ball lembra, essa teoria, por sua vez, buscou o seu nome no título do livro da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1938), que originou o epônimo filme de Holywood estrelado por Merryl Streep e Robert Radford. Já o subtítulo, este aplica à própria Europa os conceitos de ‘descobrir’ e ‘descobrimento’ que foram motivos de protestos durante as celebrações dos quinhentos anos do descobrimento da América. Se para os povos indígenas do Novo Mundo os ‘descobridores’ espanhóis e portugueses eram simplesmente como usurpadores de suas terras e suas riquezas, também os povos europeus da antiguidade estranharam a chegada dos fenícios. O autor traça paralelos interessantes entre a descoberta da América e a descoberta da Europa, como, por exemplo, a existência, em ambos os continentes, de ‘eldorados’. Na historiografia da exploração fenícia dos povos ibéricos, tal eldorado era Granada, onde os mercadores fenícios trocavam ouro e prata por quinquilharias.

Além de salientar as contribuições dos fenícios e árabes para o Ocidente, o autor apresenta também exemplos da universalidade humana, como a tendência universal de enxergar o mundo através da própria cultura. Conforme Warwick Ball explica, a visão do ‘nós e os outros’ deriva da preocupação de todos os povos com a própria identidade cultural, preocupação essa que impele as pessoas a buscarem o que é diferente entre a própria cultura e as demais. Trocando em miúdos, a Europa também já foi ‘o outro’, ou ‘os selvagens’, quando descoberta pelos fenícios. Outros exemplos dessa tendência são a separação que os gregos antigos faziam entre eles e os demais povos, os quais eles chamavam de ‘bárbaros’, bem como aquela que os muçulmanos fazem entre dar al-salam (a terra islâmica ou a esfera da paz) e a dar al-harb (a terra não islâmica ou a esfera da guerra).

A narrativa da presença dos árabes na Europa evidencia como eles foram objetos de suspeita, desprezo, discriminação e perseguição. Não obstante, eles também deixaram na Europa um significativo legado cultural. Um apanhado da contribuição comum dos fenícios e árabes à Civilização Ocidental inclui: a introdução do papel, do alfabeto e da álgebra, do código de leis de Hamurabi, da escola de direito de Beirute, da navegação marítima, dos mapas de Ulugh Beg, do planejamento urbano, de novas técnicas agrícolas, da religião e da arte islâmica. Além disso, propiciaram o redescobrimento da arte e filosofia clássica que permitiu o Renascimento.

Como arqueólogo, Warwick Ball entende perfeitamente que apesar de o passado tornar os fatos inalteráveis, há uma enorme dificuldade em registrá-los adequadamente. A visão do ‘nós e os outros’ é um dos motivos disso, juntamente com a tentativa de usar a história para legitimar ambições políticas. O livro Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the discovery of Europe de Warwick Ball é uma interessantíssima narrativa sobre a presença dos fenícios e dos árabes na Europa, muito bem escorada nos recentes avanços da arqueologia terrestre e marinha.

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Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista cultural eletrônica para falantes de português e espanhol.

 

Agradecimento:

Revisora: Débora Finamore (Brasil)

 Citação:

BALL, W. Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the discovery of Europe. London, East & West Publishing, 208pp. ISBN 9781907318009. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. A Contribuição dos fenícios e árabes à civilização Ocidental. PortVitoria, UK, v.11, Jul-Dec, 2015. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html.