A formação da identidade espanhola

A formação da identidade espanhola

Mark Falcoff

Resenha do livro The disinherited: Exile and the making of Spanish culture, 1492-1975 (Os deserdados: O exílio e a construção da cultura hispânica, 1492-1975) de Henry Kamen. 2007. Allen Lane, 508pp. ISBN 9780713997675.

15_henrykamen_the-disinheritedHenry Kamen é, no momento, o melhor historiador da Espanha em qualquer língua. Nascido (de alguma forma improvável) em Rangun, em 1936, e educado em Oxford, ele chegou à Espanha no início da década de 1960, totalmente ignorante da língua espanhola. Desde então produziu mais de uma dúzia de estudos inovadores sobre diversos aspectos da história peninsular, desde a expansão ultramarina da Espanha até o conflito cultural e religioso ocorrido na Catalunha no século XVII, bem como as importantes biografias de Felipe II e do duque de Alba.

Eu me lembro bem da excitação que senti, quando era aluno de pós-graduação, ao encontrar o seu livro Spanish Inquisition (1965), no qual ele apresentou seu argumento original de que a perseguição dos cripto-judeus e conversos no século XVI havia sido inspirada na necessidade das elites governantes da Espanha de neutralizar potenciais antagonismos de classe por parte dos pobres (usualmente os “cristãos antigos”), oferecendo-lhes uma espécie de indenização abstrata na forma da superioridade racial. Entretanto, Kamen já não acredita nesta interpretação, e, em 1998, ele produziu uma revisão drástica, cujas principais linhas ele reafirma neste volume.

“As expulsões continuadas … produziram uma constante reviravolta nas elites nativas, impossibilitando criar continuidade na formação de uma tradição cultural aceitável.”

Em termos amplos, The disinherited é a história da cultura espanhola, com o tema do exílio formando um fio unificador que, no entanto, desaparece ocasionalmente sob o peso da vasta erudição do autor. Indubitavelmente, as inquietações políticas e sociais da Espanha ao longo dos séculos fizeram com que o exílio se tornasse central à experiência nacional. Kamen estima que, entre 1492 e 1975, cerca de 3 milhões de pessoas tenham deixado o país por motivos políticos ou religiosos. Isso foi uma realidade não apenas para os judeus e os muçulmanos, que foram oficialmente expulsos em 1492 e 1568, respectivamente, mas também para os Jesuítas, os nobres ligados à casa dos Habsburgos, que fugiram após a vitória das forças dos Burbons na Guerra da Sucessão (1700-1715), bem como os colaboradores do regime de José Bonaparte (1808-1812), irmão de Napoleão, e os carlistas derrotados na década de 1830 e novamente na de 1870.

Pode-se também acrescentar os emigrantes econômicos – que somam cerca de 3,5 milhões – que foram para Cuba, Argentina, e México, entre 1880 e 1936. A emigração mais significativa dos últimos tempos foi a que ocorreu durante a guerra civil (1936-39) e logo depois da mesma.

Aqui, Kamen está tratando não meramente das consequências humanas de mudanças de regime ou alianças políticas, mas com a versão espanhola daquilo que os historiadores franceses gostam de chamar ‘a guerra franco-francesa’ – uma guerra cultural sobre a identidade nacional. Conforme ele descreve com uma enorme economia de palavras, “As expulsões continuadas … produziram uma constante reviravolta nas elites nativas, impossibilitando criar continuidade na formação de uma tradição cultural aceitável.”

Como ponto factual, todos os reis da Espanha, depois de Isabel, a Católica (1474-1504), eram de origem estrangeira. Os Habsburgos eram austríacos; os Burbons, assim como os Bonapartes, eram franceses (tecnicamente, esses últimos eram corsos). A avó materna do atual rei(1) era inglesa e alemã, e a sua mãe é Bourbon-Duas Sicílias (isto é, tanto francesa quanto italiana). A sua esposa(2) consorte, apesar de ser formalmente grega, é de fato alemã e dinamarquesa. (Dizem que eles conversam entre si em inglês.) Quem, pergunta Kamen apropriadamente, são os espanhóis mais autênticos, “aqueles que partem ou aqueles que ficam?” A resposta, evidentemente, é nenhum ou ambos.

The disinherited é cheio de proposições revisionistas, algumas das quais irão claramente sobressaltar até mesmo aqueles que pensam que sabem alguma coisa sobre a história espanhola. Para começar, Kamen diminui drasticamente o número real de judeus que foram expulsos da Espanha após 1492 – não mais que 50 mil, ou seja, quase um terço ou um quarto das estimativas anteriores. Ele disputa a noção de que o propósito do Edito de Expulsão tenha sido unificar o país em torno da religião. (“Como poderia ser”, pergunta ele, “na presença de uma população de muçulmanos cinco vezes maior?”) Em vez disso, alega, o propósito foi pôr fim à aceitação pública da religião judaica, que já havia desaparecido do solo espanhol há quatro séculos. Os judeus, ou seja, pessoas de descendência reconhecidamente judaica que, forçadamente ou voluntariamente, haviam se convertido ao catolicismo (os “cristãos-novos” ou conversos), continuaram a ter um importante papel na vida espanhola, alguns como respeitáveis membros do clero, estudiosos, poetas, e escritores.

Além do mais, argumenta Kamen, as atitudes e estilos de vida dos conversos continuaram constantes na vida espanhola: no folclore, na literatura, na música, e, até, na culinária. Embora a Inquisição tivesse sido criada originalmente para extirpar os judeus cuja adoção do cristianismo era alegadamente insincera, a caçada aos cripto-judeus havia terminado de fato em 1530, o que significa que durou apenas uma geração depois da expulsão formal. O que permaneceu foi um antissemitismo sutil e corrosivo que se transformou em um dos componentes mais típicos da cultura espanhola.” Mesmo hoje em dia, o governo anticlerical de esquerda da Espanha salienta-se como um dos mais hostis do Ocidente à existência do Estado de Israel.

No tópico da Inquisição, Kamen revoga todas as suas visões anteriores. O número real de suas vítimas não era grande, argumenta ele, particularmente quando contrastado com as perseguições religiosas noutros países europeus durante o mesmo período. Os franceses sob Henrique II executaram duas vezes mais hereges; os ingleses sob a rainha Mary três vezes mais; e, a famosamente tolerante Holanda (Neerlândia), na realidade, exterminou dez vezes mais do que os seus contemporâneos espanhóis. A Inquisição como instituição foi abolida em 1813, restaurada brevemente no ano seguinte, novamente abolida em 1820, e restaurada mais uma vez antes de ser eliminada de vez em 1834.

Na realidade, os historiadores protestantes exageraram enormemente o alcance e a longevidade da Inquisição. Eles parecem não ter notado, enquanto isso, que durante o início do século XIX, uma boa parte da emigração da Espanha não era formada por dissidentes anticatólicos, mas por padres, monges e freiras que fugiam das recorrentes ondas violentas de anticlericalismo.

Em certas localidades da Espanha, a Igreja foi efetivamente expulsa e a prática da religião suspensa; …um fenômeno… tão assombroso que desafiou, e ainda desafia qualquer explicação.

Durante meados da década de 1830, a maioria dos mosteiros foi fechada, e mais de 7 mil clérigos foram mortos por hordas, numa espécie de ensaio geral para os sanguinolentos eventos que ocorreram no verão de 1936.

Se a dicotomia clericalismo/anticlericalismo foi uma variante crucial da história espanhola moderna, havia ainda uma outra linha de fratura, introduzida pela Revolução Francesa, particularmente pela sua breve expressão napoleônica na Espanha. O rei José I (como ele se apresentava) foi imposto no trono espanhol literalmente pelas baionetas francesas. Mas, ao mesmo tempo, ele representou os valores iluministas e as ideias sociais e econômicas modernas que uma boa parte da elite educada da Espanha há longo tempo abraçava.

Na verdade, em muitos aspectos ele meramente se propôs a continuar e expandir as reformas truncadas de Carlos III (1759-1788), o seu antecessor Bourbon. A guerra da independência (como é oficialmente conhecida) foi, na realidade, uma guerra civil entre as forças da tradição e da modernidade, com uma boa parte da população – agitada pelo clero – confundindo a última com o invasor estrangeiro. Quando o regime bonapartista foi expulso, em grande parte graças à expedição britânica sob o comando do Lord Wellington, cerca de 12 mil famílias fugiram na sua frente. A volta dos Burbons na pessoa de Fernando VII (mal apelidado “o desejado”) não representou, como os adeptos do antigo regime haviam esperado, uma restauração da velha ordem; ao invés disso, abriu-se na Espanha um novo capítulo, no confronto entre uma monarquia autoritária e as diversas formas de liberalismo.

Essa disputa malquista continuou bem adentro do século XX, atingindo o clímax na guerra civil da década de 1930. Aqui, Kamen baseia-se numa grande quantidade da literatura revisionista que havia gradualmente se acumulado desde o estabelecimento da democracia na Espanha três décadas atrás.

A convenção popular entende que a vitória do general Franco, em 1939, e o estabelecimento subsequente de um estado quase fascista, levou a um enorme empobrecimento da cultura espanhola, empurrando para o exílio os melhores pensadores, escritores e artistas do país. Isso é verdade, até à própria medida, mas omite alguns pormenores cruciais que modificam amplamente o quadro geral. Por um lado, como Kamen explica:

As figuras mais proeminentes não foram para o exílio no fim da guerra mas no seu começo… eles escolheram o exílio porque estavam desiludidos com o fracasso da república e não porque se opunham a uma hipotética futura tirania fascista.

Por outro lado, continua Kamen, o motivo principal para a rápida saída deles foi o fracasso, por parte da esquerda revolucionária, em distinguir entre democratas burgueses e fascistas. Por incrível que isto possa parecer, a lista de executáveis anarquistas, de junho de 1936, incluía figuras como o violoncelista Pablo Casals e o diplomata beletrista Salvador de Madariaga, que fugiram antes de serem “levados para dar uma volta” (no linguajar macabro da época). No exílio, eles prontamente se juntaram aos virtualmente ‘Quem é Quem’ da alta cultura: o filósofo José Ortega y Gasset, o crítico Ramón Menéndez Pidal, o poeta Antonio Machado, o médico e escritor Gregorio Marañón, o beletrista Ramón Pérez de Ayala, o poeta Juan Ramón Jiménez, o historiador Américo Castro, o novelista Ramón Gómez de la Serna, o historiador Rafael Altamira – a relação parece infindável.

Ironicamente, aqueles que permaneceram como apoiadores não críticos do novo regime e que saíram apenas em 1939 – notavelmente o poeta Rafael Alberti e o cineasta Luis Buñuel – foram os que mais prosperaram no exílio, tornando-se beneficiários do mito meticulosamente cultivado da martirizada democracia espanhola.

A maior parte das figuras notáveis da cultura espanhola que fugiu primeiro para a França, eventualmente acabou no México, Cuba ou Argentina, onde eles tiveram tempo de sobra para refletir sobre o destino de seu país. Havia até uma república-no-exílio cujo “presidente” ficava em Paris e cujo governo era reconhecido diplomaticamente pelo México, embora por nenhum outro país. A questão do que estava errado com a república (e de quem era a culpa) continuou a encher as páginas de publicações efêmeras e a agitar as mesas dos cafés, assim como a questão se seria politicamente correto (caso fosse) retornar à Espanha antes do esperado colapso ou da queda do regime de Franco.

Pelos idos da década de 1960, o caudilho, que então presidia uma modesta recuperação econômica e que, graças aos caprichos da política da Guerra Fria, inspirava uma nova respeitabilidade internacional, sentiu-se confiante o suficiente para perdoar os exilados que não tinham prévias afiliações comunistas. Marañón defendeu a sua decisão de retornar, afirmando: “Eu prefiro a Inquisição do que a Inquisição com pedantismo mais hipocrisia,” exemplificados pelas querelas sem sentido das facções dos exilados.

O ditador não tinha mais motivos para temer os intelectuais, pois o surgimento de uma sociedade de consumo empurravam-nos para as margens da vida pública. Aqueles que aguardaram até depois da sua morte enfrentaram um choque ainda maior do que aqueles que retornaram mais cedo. Max Aub, que retornou do México, reclamou que o seu país “já não era o lugar de lutas e de heróis, mas sim uma Espanha da mediocridade, da geladeira e da máquina de lavar.”

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Mark Falcoff é pesquisador residente emérito do American Enterprise Institute (AEI).

 

Notas

  1. Juan Carlos I, na ocasião em que Mark Falcoff escreveu essa resenha; Juan Carlos I renunciou em 2 de junho de 2014 em favor de seu filho Felipe, o atual Felipe VI.
  2. Sofia da Grécia.

Agradecimentos:

The Weekly Standard (TWS) que, generosamente, autorizou a republicação em português desta resenha em PortVitoria. A resenha de Falcoff foi originalmente publicada no TWS em 11 de agosto de 2008.

Fonte: https://www.aei.org/publication/at-war-with-itself/

Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien (UK)

Revisora: Débora Finamore (Brasil)

 

Citação

KAMEN, H. The disinherited: Exile and the making of Spanish culture, 1492-1975 de Henry Kamen. 2007. Allen Lane, 508pp. ISBN 9780713997675. Resenha de: Mark Falcoff. A formação da identidade espanhola. PortVitoria, UK, v.11, jul-dec, 2015. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html.