A indignação: razão ou impostura?

A indignação: razão ou impostura?

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro La indignación a escena. De pasion moral a la agitación política  de Fernando Rodríguez Genovés. E-book, publicação independente, 115 p., 2012.  Versão Kindle disponível na Amazon.co.uk, £2.60. ISBN 978-84-615-8301-0

Publicado inicialmente na revista El Catobleplas o ensaio La indignación a escena (A indignação encenada. Da paixão moral à agitação política, inédito em português) de Fernando Rodríguez Genovés acaba de ser republicado sob a forma de livro eletrônico. Nesse livro o filósofo espanhol procura mostrar que as manifestações populares e suas sonoras algazarras são encenações das paixões do ‘homem-massa’, designação metafórica do indivíduo cuja personalidade singular foi aos poucos substituída pela personalidade da massa como resultado da massificação cultural da sociedade, segundo o filósofo José Ortega y Gasset (1883-1955). Genovés argumenta que tais manifestações mostram insatisfações e descontentamentos, embora isso não signifique que sejam justificados.

O livro começa citando o filósofo e poeta Antonio Machado (1875-1939), um dos membros da chamada Geração de ’98, movimento de intelectuais unidos pela busca da identidade cultural do povo espanhol, que afirmou que o descontentamento era a única base da ética existente. Em tal afirmação Machado, que também escreveu que “o Homem é por natureza uma besta paradoxal”, naturalmente não intencionava concordar com tal ética mas apenas caracterizá-la.

Tomando como ponto de partida as recentes manifestações públicas contra a austeridade ocorridas na Espanha, Rodríguez Genovés mostra que estas não são inócuas, pois abrem oportunidades para o coletivismo. E a grande ameaça do coletivismo reside em agir sem pensar, pois “a coletividade não pensa mas entretanto se move”. Assim sendo, a presumida superioridade moral das manifestações públicas de indignação é uma falácia. Não existe razão, seja ela de ordem ética, racional ou prática, que justifique a indignação, pois a boa compreensão das coisas requer distanciamento e cabeça fria.

A indignação gera contrariedade e fomenta o descontentamento e a violência, sendo, portanto, um vício acobertador tanto das imposturas próprias quanto das do indignado, sendo ainda contagiosa e pandêmica. Tampouco a voz do homem ressentido deve ser aceita sem restrições, pois o ressentido está demasiadamente perto da questão para poder entendê-la. Apenas os tolos e os políticos demagogos e irresponsáveis aceitam sem questionar a voz da coletividade ao invés da voz das pessoas sensatas.

Portanto, o que a sociedade precisa é de uma nova ética sem indignação, ou seja, uma ética do contentamento, baseada na parcimônia, na liberalidade e na generosidade. Para a construção dessa ética o autor buscou mas não encontrou apoio nas obras de boa parte dos filósofos: eles não tinham fé no homem e sua natureza. Para Montaigne, por exemplo, a indignação faz parte da condição humana. Outro exemplo é o de Pascal, para quem o homem é um anjo caído, frágil e miserável, corrupto e corruptível. Quanto ao entendimento da indignação, Spinoza reconheceu a injustiça que há por detrás da indignação, notando que há uma injustiça na ilegítima apropriação do poder superior de condenar alguém, da maneira com os indignados condenam.

Mesmo depois de descobrir como são raros os filósofos éticos que creem na capacidade do homem de redimir-se, o autor prossegue em traçar a sua ética do contentamento. Segundo ele, para se chegar a ela é necessário ter emoções boas e não emoções ruins. Isso requer uma disposição corporal adequada e que seja mais propensa à sanidade do que à santidade. A sociedade nada ganha com o homem-massa. O que a sociedade precisa é do homem-moral, ajustado não só à sua sociedade, mas também à natureza a seu redor, que sabe se frear ante o primeiro impulso e que faz isso consciente de que agindo assim não irá além dos confins da existência tranquila. O ‘homem-moral’ de Rodríguez Genovés pode ser o mesmo ‘homem excelente’ de Ortega y Gasset, o indivíduo que se esforça para ser o melhor possível, sempre procurando exceder-se a si próprio. La indignación a escena de Genovés propõe a ética do contentamento a qual defende uma moral ativa, e não passiva, e participação ao invés da apatia. As suas premissas são o espírito de cooperação, a busca do equilíbrio, da parcimônia, da contenção e da prudência. La indignación a escena é um livro de filosofia para leigos que mostra um ângulo pouco conhecido do sentimento da indignação e que por esse motivo vale a pena ler.

Citação:
GENOVÉS, F.R. La indignación a escena. De pasion moral a la agitación política. E-book, 115 p, versão Kindle, 2012. ISBN 978-84-615-8301-0. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). A indignação: razão ou impostura? PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html