A tradição que conta

A tradição que conta

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro O mistério inglês e a corrente de ouro de João Carlos Espada. 222 pp. Alêtheia Editores, Lisboa. 2010. ISBN: 978-989-622-267-3.

‘As grandes mentes que deixaram grandes legados à humanidade são tão raras que é improvável que encontremos qualquer uma em qualquer sala de aula’, afirmou o filósofo Leo Strauss em 1959 num discurso de formatura1. João Carlos Espada é um sujeito de sorte pois conheceu dois: o filósofo Karl Popper e o pensador Ralf Dahrendorf. O próprio Popper aconselhou Espada a fazer o doutorado na Inglaterra, pois só assim ele iria conseguir entender o ‘mistério inglês’, uma expressão de Popper em referência à singularidade do caráter inglês ao qual ele atribui não só o sucesso do Império Britânico mas também as conquistas do povo britânico como a Magna Carta – o primeiro reconhecimento oficial de direitos individuais da Europa –, e a monarquia constitucional implementada através da Revolução Gloriosa de 1688. O livro O mistério inglês e a corrente de ouro de Espada é uma coletânea das crônicas sobre a educação do gentleman, a valoração do passado e outras tradições britânicas.

No primeiro capítulo Espada fornece uma interessante explicação das duas expressões contidas no título deste livro. Como já visto, a expressão ‘o mistério inglês’ é uma criação de Popper, e refere-se ainda a um conjunto de costumes ingleses como a fleuma, a preservação da vida privada e a tolerância à excentricidades e contradições. Foi na Grã-Bretanha que Popper se baseou ao criar o seu conceito de ‘sociedade aberta’. Popper achava também que a Grã-Bretanha foi quem salvou a democracia no século XX ante a ameaça da revolução Marxista. Quanto à expressão ‘corrente de ouro’, Espada explica que foi cunhada por Randolph Churchill, destacado parlamentar britânico e pai de Winston Churchill, para denotar a inquebrantável união que há na Grã-Bretanha entre o passado e o presente, permitindo que a tradição e o progresso convivam ao mesmo tempo.

Os capítulos 2 a 10 são sobre os indivíduos que contribuíram para a preservação da liberdade e o desenvolvimento da democracia: Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, James Madison, Ralf Dahrendorf, Karl Popper, Friedrich A. Hayek, Michael Oakeshott, Leo Strauss, Isaiah Berlin e Irving Kristol. Em cada capítulo Espada conseguiu sintetizar com sucesso os principais os pontos desse distintíssimo elenco. Os demais capítulos revisitam alguns dos temas clássicos da filosofia política procurando esclarecer alguns enganos comuns como a sobrevalorização da soberania popular, o relativismo ou historicismo, a busca da certeza sem pressupostos e os conflitos inerentes ao pluralismo.

Nos capítulos XVII e XVIII o ‘mistério inglês’ reaparece no tema da conversação, uma referência ao diálogo ou debate entre concepções ou traduções concorrentes e que é uma tradição característica das sociedades de língua inglesa. Faz parte dessa conversação a educação do gentleman, que segundo descrita por Burke consiste em ‘ser educado num lugar de estima; não ver nada baixo ou sórdido desde a infância; ser ensinado a respeitar-se a si próprio; ser habituado à inspeção crítica do olhar público; (…) ter tempo para ler, refletir, conversar; (…) ser ensinado a desprezar o perigo no cumprimento da honra e do dever; (…) possuir as virtudes da diligência, ordem, constância e regularidade, e ter cultivado um atenção habitual à justiça comutativa: estas são as circunstâncias dos homens que formam aquilo que eu chamo de aristocracia natural [por contraste com aristocracia feudal], sem a qual uma nação não pode existir.’

A educação para o gentlemanship2, que é considerada a melhor forma de educação para os dirigentes do espaço público, é a educação liberal (liberal education) que é feita através do estudo dos grandes livros. Tal leitura permite uma conversação silenciosa entre as pessoas vivas e as grandes mentes que já morreram mas deixaram grandes legados e essa é a conversação tratada no capítulo XVIII. Mas a educação liberal não é mais um privilégio dos indivíduos que lêem inglês pois uma boa parte das grandes obras já estão disponíveis noutras línguas modernas. Espada cita o livro mais recente de Anthony O’Hear – Os grandes livros – publicado em 2008, e cuja edição em português foi lançada em 2009 pela editora Alêtheia. Trata-se de um compêndio de literatura clássica que cobre um período de 2.500 anos, começando com a Ilíada e a Odisseia e chegando ao Fausto de Goethe, passando ainda por Dante, Camões e Shakespeare.

A figura mais recorrente deste livro é Winston Churchill, considerado um exemplo de como a boa educação não só permite o desenvolvimento do espírito crítico mas também impede a simples resignação à opinião dominante. Conforme mostrou Espada, na primeira metade do século XX a opinião dominante entre os intelectuais da Europa era favorável às marés revolucionárias do comunismo e do nacional-socialismo. Winston Churchill foi um dos poucos que enxergou o perigo que ambas essas pressões representavam para a corrente de ouro que sustenta os peculiares méritos ingleses e a própria soberania da vida inglesa.

A maior mensagem das entrelinhas deste livro é demonstrar o potencial da educação liberal, caracterizada pela conversação silenciosa entre os vivos e os mortos através do estudo das grandes obras. Espada mostra como as sociedades de língua inglesa prezam a educação liberal. A tradição inglesa conta. Como diz um ditado popular, quem é inteligente aprende com os próprios erros mas quem é sábio aprende com os erros dos outros. O papel da educação liberal é preparar o indivíduo para a discussão racional, que Espada sublinha como sendo a melhor forma de conviver com as tensões da constante necessidade de optar entre diferentes interpretações ou ações. O exemplo dado por Espada é a tensão entre a secularização e a dessecularização da sociedade.

O Mistério inglês e a corrente de ouro de João Calos Espada é sem dúvida uma importante contribuição para o desenvolvimento do debate racional necessário para a conduzir a democracia pelo caminho da liberdade e integridade dos indivíduos. O livro de Espada é ainda uma leitura cativante não só pela pertinência dos temas tratados mas também pelo estilo conversacional do autor.
_______________________________________________________________________
Notas:
1. Leia a versão em português do discurso de Leo Strauss na página Articles desta edição de PortVitoria.

2. Embora a palavra ‘gentlemanship’ signifique literalmente ‘a formação do cavalheiro’, onde ‘cavalheiro’ denota ‘homem bem-educado’, o termo é usado no sentido de ‘civilidade’.

Citação
ESPADA, J. C. O mistério inglês e a corrente de ouro. LISBOA, Alêtheia Editores, 2010. ISBN: 978-989-622-267-3. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2014). A tradição que conta. PortVitoria, UK, v. 8, Jan-Jun, 2014. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html