A União Europeia medieval

A União Europeia medieval

Joaquina Pires-O,Brien

Resenha do livro Emperor of the West: Carlos Magno and the Carolingian Empire (O Imperador do Oeste: Carlos Magno e o Império Carolíngio) de Hywel Williams. Quercus, Londres. 2010. ISBN: 978-0-85738-162-0. 460 pp. £10.99

Antes da Bélgica, França, Itália, Luxemburgo, Neerlândia e Alemanha Ocidental assinarem o Tratado de Roma em 1957, já houve uma antiga União Europeia sob o império francês de Carlos Magno (742-814) e da dinastia Carolíngia, que perdurou até o 10o século, quando foi substituída pela dinastia Ottoniana. A saga da Velha União Europeia, que incluiu a maior parte da Europa central e ocidental, é o tema deste livro publicado por Hywel Williams, um historiador, jornalista e radialista britânico. A história de Carlos Magno serviu de inspiração para a União Europeia, pois conforme sublinhado por Wlliams, todos os signatários do Tratado de Roma reivindicavam ser herdeiros de Carlos Magno pois seus
respectivos países haviam feito parte do império Carolíngio.

O Imperador do Oeste cobre o período entre os anos 400 e 1000 da era comum, quando as identidades nacionais da Europa foram formadas. É organizado em nove capítulos precedidos por uma criteriosa Introdução. Os dois primeiros capítulos descrevem Carlos Magno e o cenário do processo de cristianização da Europa. A personalidade marcante de Carlos Magno é revelada gradualmente nos diversos capítulos deste livro, e mostra como foi que Carlos se tornou Magno. Carlos era o terceiro filho de Pepino o Breve (714-768), e tinha três anos de idade quando o seu pai ascendeu ao trono em 752, após ter deposto Childerico III, o último rei da dinastia merovíngia. Pepino o Breve educou todos os seus filhos para o poder, dando a eles oportunidades de conhecer as pessoas certas e as medidas da autoridade e do poder. Após a morte de Pepino em 768, Carlos e seu irmão Carlomano foram coroados reis, mas Carlomano morreu pouco tempo depois, fazendo com que Carlos herdasse os três reinos francos da Austrásia, Nêustria e Borgonha, mais a Germânia. Conforme Williams descreve, dai para frente Carlos cresceu em importância, tornando-se o aliado mais importante da Igreja Católica Romana e criando o seu império.

Carlos Magno é apresentado neste livro como um homem que valorizava a família, a tradição e o conselho dos sábios – como o monge inglês Alcuíno de Iorque. Ele entendeu não apenas os poderosos mas também as pessoas comuns. Ele também compreendeu as ameaças dormentes que existem debaixo do verniz da civilização, como evidenciado pelo seu testamento, Divisio Regnorum, onde ele deixou uma ordem por escrito para que os seus filhos não causassem danos de morte, mutilação, cegueira ou tonsura aos seus netos e sobrinhos, sem um inquérito e um julgamento justo.

O terceiro capítulo mostra como Carlos desenvolveu a campanha militar que mudou o mapa da Europa, incorporando a Aquitânia, a Lombardia, a Saxônia e a Bavária. O principal motivo por detrás das guerras de expansão territorial foi cristianizar os reinos daqueles que eram tidos como pagãos e que se viam ameaçados pela ocupação mulçumana. O capítulo quatro descreve como Carlos se tornou no Magno Imperador Romano, ocupando o espaço deixado pela partição oeste do antigo Império Romano.

Os capítulos de cinco a sete descrevem o sistema que Carlos Magno introduziu para governar, como a criação da assembleia franca nacional composta de dois segmentos, uma casa da moeda e outras instituições bem como a natureza da sua parceria com a Igreja Católica Romana. O capítulo oito descreve a vida cultural e intelectual da Europa que deu origem à Renascença Carolíngia. O último capítulo mostra como o império Carolíngio influenciou o resto da Europa, como ele foi dividido depois da morte de Carlos Magno, e como ele foi aos poucos enfraquecido pelos ataques dos vikings. Mostra ainda a emergência do império Ottoniano da Saxônia que eventualmente substituiu o império Carolíngio, depois que Otto I conquistou os lombardos e começou uma campanha para cristianizar a Escandinávia. Em 962 Otto I foi convocado a Roma para se tornar o defensor do Papa e das propriedades do papado, da mesma forma que aconteceu com o seu predecessor Carlos Magno.

Williams critica os autores do início da era medieval que não checaram as provas que tinham, dando margem a generalizações falsas do tipo: “… e assim nós aprendemos que os lombardos usavam barbas, que os ávares trançavam o cabelo, e os francos iam para a batalha com um machado conhecido como ‘francisca’. Pormenores desse tipo não são suficientes para distinguir identidades nacionais”, afirma Williams.

O autor é também crítico das pinceladas grossas empregadas para criar as histórias das diversas nações, pois tendem a encobrir fatos importantes. Uma das coisas que ele mostra é que nem mesmo a França pode ser considerada uma ‘nação natural’ pois ela também passou por um longo processo de formação:

Quando Clovis estabeleceu o seu reino franco na Gália em torno do ano 500, os seus súditos falavam uma gama de línguas e dialetos germânicos, e eram uma pequena minoria em comparação com a população romanizada e os outros grupos de povos bárbaros que já estavam assentados na província. Levou mais de 300 anos para que essa minoria se imiscuir na língua da maioria, enquanto que foi bastante longo o processo pelo qual os nativos aprenderam a aceitar que eles também eram francos.

As identidades nacionais da Europa foram forjadas gradualmente entre 400 e 1000, conforme mostrado pelo surgimento de vocábulos que não existiam anteriormente o que evidencia que foram criados para ajudar o processo de construção das nações. Este foi o período quando os nomes como dinamarqueses, búlgaros, croatas, sérvos, poloneses, checos, húngaros e muitos outros surgiram e se tornaram rótulos de pessoas. Os nomes das diversas regiões da Europa como Borgonha, Lombardia, Bavária e Saxônia também surgiram no início da Idade Média. O surgimento de rótulos para pessoas e lugares ajudou a imagem dos povos germânicos – que até então eram chamados ‘bárbaros’ pelos romanos, um termo que significava simplesmente ‘estrangeiros’. Foi aí que os anglos e os saxões se transformaram nos ingleses e quando os habitantes da Germânia Romana se tornaram germanos.

Williams também explica as diferenças entre a história da Espanha e a história da Itália. Durante o século sete, a Espanha, que até então estava sobre o governo dos visigodos, tinha uma cultura que era tida como sendo superior àquela dos francos, embora tivesse desaparecido devido à conquista dos mouros no século oito. O caso da Itália é um pouco mais complicado não só por ser ocupada tanto pelos lombardos quanto pelos ostrogodos mas também por ser a terra natal dos antigos romanos. A falta de uma identidade comum entre esses invasores e a população romana local explica porque o Sul da Itália não se integrou à cultura ocidentalizada do resto da Europa até o século onze, com a chegada dos invasores normandos.

Embora a era Carolíngia tenha terminado no final do primeiro milênio, o legado de Carlos Magno continuou sob a dinastia Ottoniana, e permitiu que o sonho da hegemonia europeia continuasse. Williams completa o seu argumento mostrando as similaridades entre os habitantes dos impérios Carolíngio e Ottoniano: ambos eram formados pela mistura das populações romanas originais com os povos bárbaros que se romanizaram.

As narrativas sobre Carlos Magno e os indivíduos que construíram a Europa na Idade Média contidas em O Imperador do Oeste são costuradas umas com as outras com grande esmero, como uma colcha de retalhos muito bem planejada. As 14 páginas de referências de fontes primárias e 47 páginas de referências secundárias indicam que essas narrativas foram também muito bem pesquisadas. Com dezesseis páginas de belas e significativas ilustrações, O Imperador do Oeste (Emperor of the West) oferece uma leitura informada, criteriosa, relevante e altamente cativante.

Citação:

WILLIAMS, H. Emperor of the West: Carlos Magno and the Carolingian Empire. London, Quercus, 2010, ISBN 978-0-85738-162-0. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). A União Europeia medieval. PortVitoria, UK, v. 6, Jan-Jun, 2013. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html