Decálogo do livre pensador

Decálogo do livre pensador

Miguel Ángel Fresdenal

Êxito é o que eu definir como êxito. O que você considera ser êxito ou felicidade eu posso considerar uma forma de gastar mal a vida. Os objetivos da minha vida marco-os eu e não o meio social ou cultural que me rodeia.

Em todas as épocas e em todas as sociedades predomina uma visão coletiva acerca do que é o êxito, imposta socialmente pelos grupos de poder que controlam cada sociedade. Estou no meu direito de não compartilhar com a sociedade da minha época a sua visão sobre o que é o êxito na vida.

Toda informação é variável e provisória. De fato, e como exemplo, as teorias científicas se corrigem com o tempo. Toda informação é parcial e limitada pois provém de outro ser humano, de uma época determinada. Em última instância sou eu quem decide o que fazer, o que pensar e como enfrentá-la .

Não há peritos infalíveis. Considere o que os outros lhe dizem mas confie em si mesmo, em sua própria experiência, em sua situação concreta e em sua inteligência, para tomar as suas decisões. Não se esqueça de que a grande maioria dos experimentos, teorias, artigos e estudos científicos que são publicados e que você lê nos meios de comunicação, são cobrados e pagos por empresas, governos e associações particulares que têm interesses bastante concretos e, por vezes, com o único objetivo final de manipular a sua opinião e a sua conduta.

Uma boa parte da informação que recebo do meu meio (empresas, religiões, amigos, publicidade, TV, vizinhos, livros, colegas de trabalho) é totalmente enviesada pelos interesses que se escondem por trás dos seus transmissores. É perigoso basear o meu pensamento e a minha maneira de viver unicamente na informação que eu recebo do meio social que me rodeia.

Tenho o direito de me equivocar tantas vezes quanto eu crer ser necessário. Sou eu quem toma as decisões na minha vida. Prefiro equivocar-me com a minha opinião do que equivocar-me com a opinião alheia.

Todos os seres humanos são iguais. O que faz com que percebamos que um ser humano seja melhor que outro é a nossa valoração pessoal influída pelo meio, pela nossa personalidade, nossa educação e pela cultura que nos rodeia. Os cemitérios estão repletos de pessoas que se julgavam imprescindíveis.

Criticar os outros faz parte da natureza humana e da sociedade. Estou consciente de que, haja o que houver e digam o que digam, é bastante provável que nos grupos sociais que me rodeiam existe alguém que, por falta do que fazer, critica a minha maneira de agir. Assim sendo, eu não posso basear a minha filosofia de vida ou a minha maneira de agir nas opiniões negativas das pessoas que me rodeiam.

Concentre na sua vida. Não se deixe arrastar pelas pressões sociais. Se você se preocupa mais com o que os demais fazem ou pensam do que com o que você faz e pensa, você não é uma pessoa e sim um escravo psicológico.

Conhecimento é liberdade. Quanto melhor eu conhecer como funciona o mundo e a sociedade em que eu vivo, melhor me desenvolverei.

Reflexão é poder. A reflexão nos torna humanos. O cérebro é um órgão incrivelmente complexo e poderoso. Quanto melhor eu conhecer como funciona a minha mente e a das demais pessoas, maior será o nível de autocontrole que desenvolverei. Se eu não controlo a minha mente e o meu pensamento, outros o farão. Se eu não compreendo as minhas necessidades, se eu não as controlo, então sou mais parecido com uma máquina biológica, a mercê dos processos cognitivos, dos instintos e da bioquímica do meu cérebro.

Eu não tenho a obrigação moral de me adaptar aos grupos sociais que me rodeiam. Ser sociável não implica em ser manipulável. Ser sociável não implica renunciar a minha forma de ser, pensar, agir ou falar.

O número de pessoas que apoiam ou denegam a sua opinião ou o seu modo de vida é, em princípio, irrelevante. Eu vejo com clareza que o fato de duas ou mais pessoas terem uma opinião contrária à minha, não proporciona de uma forma evidente a razão sobre um assunto e tampouco me força moralmente a que eu mude a minha opinião ou a minha forma de vida.

Eu tenho o direito de duvidar de toda informação e de fazer da mesma aquilo que achar certo. Sou eu quem decide em que informação confio ou não confio.

Em todas as sociedades existem grupos exercendo formas de pressão psicológica, que tentam persuadir os indivíduos a adotar a forma de pensar e de viver que convém aos interesses do grupo que exerce essa pressão. Religiões, empresas, ideologias, correntes científicas, partidos políticos, associações, organizações, publicitários, TV etc.

Se Deus existe, não vai deixar de existir porque algum ser humano afirma isso. Se Deus não existe, não vai existir porque outro ser humano afirma isso. Portanto, eu decidirei se creio em Deus e na alma, e de que forma isso afetará a minha vida.

Existe uma série de patologias que descreve aqueles que são incapazes de realizar una análise crítica independente quando necessário fazer isso, ou que são incapazes de tomar decisões sem que se sintam coagidos por opiniões alheiras ou pelo seu ambiente social. Algumas delas são as seguintes:

– Dependência emocional

– Sociotropia

– Bidependência ou dupla dependência

– Codependência emocional

– Dependência instrumental

– Heteronomia da vontade

Algumas pessoas ou grupos tentam influenciar os demais de forma violenta e opressiva a fim de tê-los a seu serviço. As seitas e os ditadores são exemplos. Mediante técnicas sutis de ‘lavagem cerebral’, de recrutamento de potenciais vítimas, de grupos de pressão, de ameaças, de publicidade subliminal, e outras técnicas de persuasão. Por tudo isso, eu entendo que quanto mais informações eu obtenha sobre como essas pessoas e esses grupos funcionam, como agem e quais as suas técnicas de manipulação psicológica e social, mais eficazmente eu poderei me defender dos mesmos, e, ser mais independente e mais livre.

Existe pessoas que gostam ou que se sentem à vontade quando terceiros decidem por elas acerca de como viver e pensar, sem que façam qualquer análise crítica. Estão no direito delas.

                                                                                                                                               

Miguel Ángel Fresdenal é um espanhol que, além de trabalhar num emprego ordinário, escreve poesias e cultiva o hábito de refletir.

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien

Revisão: Debora P. Finamore

Fonte: http://bibliotecabecquer.blogspot.co.uk/search/label/Dec%C3%A1logo%20del%20librepensador