Fernando Rodrígues Genovés. Sobre o seu novo livro La ilusión de la empatía. Ponerse en el lugar del otro y demás imposturas morales (A ilusão da empatia. O coloque-se no lugar do outro e outras imposturas morais). Nov 2012.

Fernando Rodrígues Genovés. Sobre o seu novo livro La ilusión de la empatía. Ponerse en el lugar del otro y demás imposturas morales (A ilusão da empatia. O coloque-se no lugar do outro e outras imposturas morais). Nov 2012.

Dr. Fernando Rodríguez Genovés é professor de filosofia da Universidade de Valência, atualmente em ano sabático. É crítico literário e de cinema, autor de diversos ensaios e livros, blogueiro e um dos fundadores de El Catoblepas, revista crítica da atualidade de periodicidade mensal, publicada desde 2002, na qual escreve habitualmente.

Porque a Apoteose da Empatia Restringe a Responsabilidade Pessoal.
Joaquina Pires-O’Brien (JPO): Por que no seu livro o senhor afirma que a proposição popular de ‘colocar-se no lugar do outro’ é uma impostura moral?
Fernando Rodríguez Genovés (FRG): Eu optei por empregar o termo ‘impostura’, a fim de sublinhar os problemas que detecto no fenômeno da empatia — e mais especificamente, na proposição de ‘colocar-se no lugar do outro’, pois ele identifica com bastante precisão um assunto que trata não só de atitudes morais mas também de lugares e posicionamentos teóricos. Não negarei que tal escolha terminológica convide também uma cumplicidade intelectual com o célebre trabalho de Alan Sokal e Jean Bricmont intitulado Intellectual Impostures (edição do Reino Unido; original norte-americano: Fashionable Nonsense: Postmodern Intellectuals’ Abuse of Science). A empatia representa efetivamente uma impostura intelectual pois além de ser uma proposta cientificamente absurda e teoricamente insustentável, ela constitui acima de tudo um enorme artifício que não está longe do fingimento, e como consta no próprio título do ensaio, não está isento da ilusão. Existem ilusões óticas, mas também crenças ilusórias. A empatia é uma delas.

JPO: O que diz a filosofia moral a propósito da compaixão e da necessidade de entender os nossos concidadãos?
FRG: Não há apenas uma única filosofia moral a respeito disso, mas sim diversas e bastante variadas. As que estão diretamente implicadas no nosso tema são aquelas que se inclinam mais para o amor próprio, o cuidado de si mesmo e o autorrespeito, em primeira instância, a começar por aquelas que poderíamos denominar ‘altruístas’, ou seja, que põem o outro na frente — ou acima — da própria pessoa. A compaixão é um instinto humano, assim como a agressividade e a sexualidade. Portanto, não é um valor moral por si própria, e sim uma propensão natural das pessoas, que, como tal, deve ser governada e contida pela razão. O que sucede é que, de repente, alguns conceitos encontram-se cobertos por um verniz teórico e/ou ideológico que, literalmente, os altera, o que sugere fazer sua oportuna crítica. Isso ocorre com a noção da ‘compaixão’, bem como com o significado de ‘entender’, uma vez que ‘entender o outro’ não deve levar, obrigatoriamente, a concordar com tudo o que um indivíduo diz, e nem tampouco ter que apadrinha-lo, adotá-lo ou ‘colocar-se no lugar dele’, mas sim, em primeira instância, entender as razões pelas quais atua.

JPO: O senhor poderia dar um exemplo de como a responsabilidade do indivíduo e sua autoestima são dificilmente compatíveis com a proposição popular de ‘colocar-se no lugar do outro’?
FRG: A responsabilidade moral significa, basicamente, a capacidade do indivíduo de assumir a sua própria existência e de responder pelos seus atos. A responsabilidade (assim como a identidade), por ser pessoal, é intransferível. Dessa forma, ‘responder pelo outro’ como uma norma significa interferir com a autonomia das pessoas, destituir-lhes da palavra, querer mantê-los intelectual e moralmente como menores de idade. Entender os outros significa levá-los a sério e respeitá-los, isto é, não fazer nada que os impeça agir pela própria vontade e livremente. É esta a melhor maneira de construir uma sociedade de indivíduos livres e responsáveis, e não levar o intervencionismo e o protecionismo ao espaço das emoções, nem para um terreno tão privativo como a moral.

JPO: Os psicólogos estão errados em supervalorizar o papel das relações sociais das pessoas?
FRG: Tampouco neste caso é prudente generalizar. Nem todos os psicólogos sustêm os mesmos pontos de vista a respeito da questão da empatia. Observamos neste grupo profissional o mesmo que ocorre em tantos outros: estão severamente condicionados aos modismos. No campo da psicologia, ontem reinavam a Gestalt e a psicanálise; hoje, quem manda são as correntes inspiradas na ‘inteligência emocional’ e na empatia. Ao mesmo tempo é preciso levar em conta que às margens da prática terapêutica dos psicólogos, há um amplo espectro de novas profissões e novas tendências —como aquelas relacionadas com o coaching, a autoajuda, as técnicas de comunicação, e assim por diante — que funcionam à base de clichês e modelos práticos muito elementares, que buscam antes de tudo atrair a simpatia do público… E não existe coisa mais simpática do que a empatia…! Quem trabalha neste campo do controle da conduta dificilmente permanece imune às forças dominantes, e não nos esqueçamos de que as sociedades ocidentais contemporâneas, autodenominadas ‘sociedades do bem-estar’, estão marcadas por valores fortemente comunitários —a seguridade e a superproteção, a solidariedade e a filantropia, a proliferação dos direitos— e pouco predispostas ao risco, ao empreendimento, à livre competição, e a estender a liberdade a uma quantidade maior de atividades humanas.

JPO: No seu livro A Rebelião das Massas, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset referiu-se à ‘hiperdemocracia’ como uma doença da democracia. O senhor vê alguma similaridade entre a ‘hiperdemocracia’ e a ‘apoteose da empatia’?
FRG: As análises feitas por Ortega y Gasset em A Revolução das Massas, continuam sendo válidas e têm sido corroboradas à medida em que cresce o significado da palavra ‘massa’. A inércia da massa tende transformar a sociedade num totum revolutum, um conglomerado amorfo onde as individualidades e as particularidades são anuviadas ao ponto de serem varridas do mapa. A ‘hiperdemocracia’ é o marco mais propício para celebrar a apoteose da empatia. Nela não há hierarquias, categorias ou meritocracia; segundo o tema, até as simples comparações são odiosas. Qualquer um pode ocupar qualquer lugar, não por mérito ou por esforço, mas pelo direito concedido. As posições e os lugares são intercambiáveis sem exceção: as aulas quem dão são os alunos, ao invés dos professores; a divisão de poderes, a condição principal da sociedade liberal, tornou-se reduzida a uma relíquia do antigo sistema político; nas famílias, os pais são submetidos aos caprichos dos filhos; as redes sociais são feitas para suplantar identidades sem limites, hoje você pode ser um e amanhã outro; e assim por diante. Se a ilusão da empatia se tornasse realidade, presenciaríamos a apoteose do igualitarismo moral.

JPO: Quais os perigos da tolerância e da proteção sem limites no âmbito da família?
FRG: Nas sociedades ocidentais uma boa parte das gerações atuais de pais está atacada emocionalmente por um notório complexo de culpabilidade e um déficit de responsabilidade que os leva a proteger excessivamente os seus filhos (e tudo isso, abrindo parênteses, na eventualidade dos casais resolverem fazer descendentes, pois o problema demográfico na Europa está bastante preocupante devido à queda no índice de natalidade, fato cujos riscos são social e culturalmente suicidas). Por um lado, os pais renunciaram à missão tradicional de educar os filhos, repassando essa tarefa à escola. Por outro lado, eles consentem e toleram tudo, pois temem ‘traumatizá-los’ com as mínimas regras de comportamento. Nesta situação, repare-se o seguinte: no primeiro caso, os mestres se colocam no lugar dos pais; e no segundo, os pais não orientam os seus filhos — e tampouco repreendem ou castigam as faltas que possam cometer—, porque, na ânsia de entendê-los, colocam-se no lugar deles.

JPO: No seu ensaio o senhor cita o filósofo Bernard Williams, que escreveu sobre a ‘heresia dos antropólogos’ a propósito da posição teórica segundo a qual os juízos morais não têm valor universal, de maneira que seria inadequado para uma sociedade condenar ou criticar os comportamentos de outra. Que tipo de problema que este relativismo cultural representa para a compreensão ou o discernimento das coisas?
FRG: Principalmente um: o relativismo moral torna impossível compreender as coisas. De fato, ele nem sequer aspira a tal objetivo. O processo do entendimento exige, pela sua própria natureza, um distanciamento com a realidade que busca compreender. Isto é particularmente exigível no âmbito dos conhecimentos práticos: na ética, na psicologia, no direito, e assim por diante. Vou dar um exemplo: um juiz não pode passar uma sentença justa num caso de assassinato pondo-se no lugar do assassino. Para a antropologia cultural, a que Williams se referia, não existem culturas superiores ou inferiores, civilização ou barbárie. Segundo esta, todas são igualmente ‘respeitáveis’, o que muda o sentido restrito do termo ‘respeito’. A partir dessa perspectiva, só se pode conhecer as sociedades de dentro, e nunca de fora. E isso é um absurdo, pois se as coisas fossem analisadas assim, a investigação histórica e sociológica se tornaria impossível: ninguém consegue ocupar todos os lugares ao mesmo tempo. O correspondente político e ideológico deste assunto não é menos sinistro. O relativismo não conduz ao entendimento, mas apenas agita o sentimento, não propõe a compreensão, mas apenas a conversão. É preciso lembrar que a empatia não deixa de ser uma manifestação do relativismo. Colocando isso na linguagem da economia, a empatia aspira trocar o atual sistema monetário pelo antigo sistema de trocas de mercadorias.

JPO: O senhor cita também o filósofo Elias Canetti (1905-1994) em cujo livro Massa e Poder (1960), ele fala da ansiedade e da dor resultantes de uma experiência incompleta e frustrante, e de como o peso da individualidade, quando se torna insuportável, faz com que o indivíduo a busque alívio mediante a integração no grupo. O senhor acredita que a análise de Canetti, feita durante os anos 20 e 30 na Alemanha e na Áustria, pode aplicar-se ao fenômeno das massas de hoje em dia?
FRG: O livro Massa e Poder de Elias Canetti é uma obra nascida no seu tempo, mas por se tratar de um pensamento superior, possui uma dimensão universal e perene, onde a particularidade convive com a generalidade do assunto em exame; a mesma coisa ocorre com A Revolução das Massas de Ortega y Gasset. Ambas essas obras nos têm ajudado a compreender que o poder da massa aumenta proporcionalmente à eclipse das individualidades, à supressão das distâncias e ao avanço do nivelamento nas sociedades. Nesse sentido, em Massa e Poder Canetti fez uma luminal descrição da tenaz ambição da massa pelo nivelamento mediante um processo de absorção das pessoas que acaba por anulá-las como entes autônomos. Em resumo, com o avanço da massa, a integração do todo suprime a integridade de cada um. Pois bem, a proposição de ‘colocar-se no lugar do outro’ deve muito a esse ‘nivelamento com o outro’ mencionado por Canetti.

JPO: Uma pessoa física perde a sua identidade quando se junta à massa?
FRG: Desde o mesmo momento em que o indivíduo é ‘engolido’ pela massa, ele perde a própria identidade de pessoa física… e moral. Fisicamente, já não é um ser pleno e autônomo, mas apenas uma parte de um todo, uma peça a mais num conjunto, uma mera fibra do ‘tecido social’. Observe isto: dentro do grupo, no interior da massa, o sujeito não atua, ele simplesmente se deixa levar, seguindo a corrente; ele não decide, ele obedece; ele não fala, ele vocifera. Para ilustrar a homogeneidade de um grupo na hora de se manifestar basta dizer que ‘fala como uma pessoa única’. Eis aqui o ideal coletivista. Recordemo-nos, finalmente, que Octavio Paz costumava se referir ao Estado como ‘o monstro filantrópico’. Pois bem, não são poucas as vozes que equiparam as noções de ‘filantropia’ e ‘empatia’.

JPO: No final do seu livro o senhor recria situações engraçadas de ‘colocar-se no lugar do outro’, tiradas de comédias televisivas e dos filmes de Hollywood, cujos personagens são aparentemente pessoas que consideraríamos razoáveis e inteligentes. Qual é a finalidade desse Apêndice no conjunto do ensaio?
FRG: O ensaio contém um Apêndice final que eu denominei ‘A empatia como pilhéria’. O propósito do mesmo é mostrar como o postulado ‘colocar-se no lugar do outro’ acabou se tornando um lugar comum, um coringa que reaparece não só em determinados meios acadêmicos e profissionais, mas também nos meios de comunicação e no linguajar corriqueiro. O cinema e a televisão (sem esquecer as tiras de quadrinhos e os desenhos animados) não ficaram à margem da dita influência, que aparece umas vezes de modo explícito, e noutras, subentendidos. A comédia, em particular, é um gênero perfeito para levar ao limite as situações cotidianas, e, por que não, também ao absurdo. Provavelmente, tal Apêndice seja, para muitos leitores, mais esclarecedor do que os prévios capítulos analíticos para compreender o grande desatino que a empatia significa. A sátira e a ironia, pela sua habitualidade, conseguem ser mais persuasivas e eficazes do que intrépidos discursos e austeras explicações.

JPO Como melhorar a compreensão das pessoas através do emprego da razão?
FRG: No tocante ao entendimento com os outros, o sentimento é necessário e imprescindível. Não somos máquinas, mas seres racionais dotados de coração. Não obstante, a via para a compreensão das coisas não é o sentimento, mas a razão. Nós não amamos, apreciamos ou odiamos os outros em decorrência de uma reflexão racional, mas sim como consequência da experiência emocional, que acaba condensada em afeto ou desafeto. Dessa forma, cada coisa tem seu lugar e cada um tem o seu espaço. Desconfio das teorias que são chegadas a misturas intelectivas e a coquetéis práticos, ou seja, aquelas que põem os conceitos da razão e do sentimento num mesmo nível, até o ponto de igualá-los, trocando uma noção por outra, conforme convenha ao interesse.

JPO: Gostaria de agradecer ao senhor por ter concedido essa entrevista para a revista PortVitoria. Muito obrigada e boa sorte com o seu novo livro!
FRG: Muito obrigado a você pela sua gentileza.
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Nota
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