Nômades e colonizadores. Os quatro estágios da cultura

Nômades e colonizadores. Os quatro estágios da cultura

Zenaide Ragozin

Não importa o quanto regressamos ao passado, os povos que encontramos habitando qualquer país no alvorecer da tradição – sempre se pode mostrar – vieram de algum outro lugar e também não foram os primeiros a ali chegar. Z. Ragozin

Os homens, quaisquer que sejam seus interesses ou negócios, só podem viver de duas maneiras: ou permanecer onde estão, ou vagar de um lugar para outro. No atual estado do mundo, nós geralmente fazemos um pouco das duas coisas. Existe um lugar, seja na cidade, na vila, ou no campo, onde temos a nossa casa e o nosso trabalho. De tempos em tempos nós vamos para outros lugares, para visitar ou a negócios, ou então, nós viajamos por um determinado tempo para os mais diversos lugares, percorrendo grandes distâncias, por instrução e por prazer. Entretanto, existe sempre algum lugar que consideramos ser a nossa casa e para o qual retornamos.

Viajar ou vagar não é a nossa condição natural ou permanente. Mas, existem culturas para as quais isso é assim. Os árabes beduínos constituem a mais importante e melhor conhecida dessas culturas. Quem não leu com prazer as narrativas de suas vidas selvagens nos desertos da Arábia e do Norte da África, tão cheias de aventuras e romance, sobre os seus maravilhosos e inestimáveis cavalos, que para eles são como os seus próprios filhos, sobre as suas nobres qualidades, bravura, hospitalidade e generosidade, tão estranhamente misturadas ao seu apego à pilhagem e à paixão por assaltar caravanas? Eles não se tornaram assaltantes e ladrões por escolha própria, mas pelas características de seu país. A sua condição de nômades, como tais raças vagantes são chamadas na história e na geografia, deve-se ao fato de que é impossível construir cidades nas areias do deserto, onde as pequenas manchas de pastagens e de palmeiras, mantidas frescas e verdes por fontes isoladas, os oásis, são demasiadamente distantes uns dos outros e distantes demais das regiões permanentemente habitadas para sustentar assentamentos. No sul da Arábia e ao longo da costa, onde a terra é fértil e convidativa, eles vivem de uma maneira bem parecida com as demais nações. E, há mil anos atrás, quando os árabes conquistaram países vastos e ricos na Europa, Ásia e na África, eles não só se transformaram em agricultores e pecuaristas exemplares, como também construíram algumas das melhores cidades do mundo, implementaram leis sábias e bem cumpridas, e assumiram a liderança na literatura e na ciência.

Bem diferentes são as dispersas tribos dos nômades que ainda vagueiam pelas estepes do leste da Rússia, da Sibéria e da Ásia Central. Tais tribos não são tão bem-dotadas quanto as dos árabes, mas provavelmente se fixariam rapidamente na agricultura, se não fosse pelo fato de que a sua riqueza consiste em rebanhos de carneiros e de cavalos, que requerem a abundante pastagem das estepes. Como eles vivem do leite de suas éguas e da carne de suas ovelhas, quando a forragem da estepe onde estão se esgota, eles se mudam para outra estepe, e assim sucessivamente, carregando consigo suas tendas de feltro e seus simples utensílios. Já as tribos de índios do oeste norte-americano apresentam um outro aspecto da vida nômade: a do caçador, feroz e totalmente indomado; são os mais simples e selvagens de todos os nômades.

De um modo geral, a vida nômade no dia de hoje é uma exceção. Na maior parte das nações que não são selvagens, as pessoas vivem em casas, e não em tendas portáveis; em cidades, e não em acampamentos; e formam comunidades compactas e solidamente interligadas, e não conjuntos soltos de tribos que são ora amigáveis ora hostis umas com as outras. Mas, isso nem sempre foi assim. Já houve tempos em que a vida assentada era a exceção e a vida nômade a norma. E, quanto mais para trás nos tempos, menor é a quantidade de comunidades permanentes e maior é a quantidade de tribos vagantes. O nomadismo em busca de melhores lugares deve ter sido um dos primeiros impulsos do Homo sapiens.

Mesmo quando o homem não tinha abrigos, mas apenas cavernas, e nenhuma meta a não ser caçar animais, cuja carne lhes servia de alimento e cujas peles lhes serviam de vestimenta, eles frequentemente partiam, em famílias ou bandos, a fim de escapar de um ambiente demasiadamente infestado por animais selvagens de grandes dimensões – os quais, durante um tempo povoavam a Terra mais densamente do que os homens –, ou simplesmente porque a quantidade de moradores da caverna tinha se tornado grande demais para acomodar todos eles. Esta última alternativa deve ter sido uma ocorrência bastante frequente: as famílias permaneciam juntas até o momento em que não havia mais espaço, ou que brigavam, quando então elas se separavam. Os que partiam nunca mais veriam o lugar e os parentes que deixaram, embora carregassem consigo as lembranças de ambos, as poucas e simples artes que aprenderam e os costumes que adquiriram. Eles parariam em algum lugar que fosse bom para ficar, do qual partiriam depois de um certo tempo, e o mesmo processo se repetiria sucessivamente.

Como é que o primeiro cavalo foi conquistado, e o primeiro cão selvagem foi domado e acomodado? Como é que o gado foi aliciado para dar ao homem o seu leite, depender do seu cuidado e seguir os seus movimentos? Quem poderia responder? Qualquer que seja a forma como isso aconteceu, é certo que a transição entre a vida selvagem, irregular e quase que totalmente desprovida de leis do caçador, e as atividades mais amenas da vida pastoral deve ter sido causada por enormes mudanças de hábitos e de temperamentos. O sentimento de posse, considerado um dos principais promotores da sociedade organizada, possivelmente se desenvolveu rapidamente com acumulação de riqueza em termos de ovelhas e cavalos, os principais bens das culturas nômades. Entretanto, tais bens não eram do tipo que incentivam o assentamento ou a união em comunidades fechadas; muito pelo contrário.

Os grandes rebanhos necessitam extensas áreas de pastagens. Além disso, é desejável mantê-los separados a fim de evitar confusões e disputas sobre os poços e as fontes, esses raros tesouros das estepes, que são passíveis de ser exauridos ou de secar, o que torna improvável que um dono de rebanho o compartilhe com outro, mesmo quando o outro pertence à sua própria cultura e linhagem. O livro do Gênesis, que na narrativa das vagueações de Abraão e de outros patriarcas hebreus nos dá um retrato tão fiel e animado da vida pastoral das nações antigas, preservou um incidente desse tipo na contenda entre os pastores de Abraão e os de seu sobrinho Lot, o que culminou na separação dos dois. Eis o que Abraão disse a Lot: ‘Não tens esta região toda diante de ti? Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores pela direita, irei pela esquerda’ (Gênesis 13, 7-11). A mesma coisa aconteceu com Esaú, que ‘emigrou para outra terra a fim de ficar longe de seu irmão Jacó, pois os seus rebanhos eram grandes demais para que pudessem permanecer juntos no mesmo lugar’ (Gênesis 36, 6-7). A separação era uma facilidade oferecida por aquelas imensas planícies, ainda não reivindicadas por nenhum povo em particular, e que deve ter evitado muita briga e derramamento de sangue. Entretanto, tal alternativa teria cessado a partir do momento em que alguma tribo, cansada de viver errando ou tentada por algum local mais atraente, ali se assentasse, tomando posse do mesmo para si própria, e demarcando as terras ao seu redor até onde os seus poderes permitissem.

Mesmo hoje em dia, ainda existe no Leste da Europa, algo muito parecido com a modalidade de ocupação acima descrita. Trata-se do Império Turco-Otomano, que ainda é escassamente povoado em muitos lugares, onde há enormes glebas de terras devolutas, às vezes bastante férteis, as quais o governo está disposto a dar legalmente e para sempre, ao primeiro homem que tomar posse das mesmas, desde que as cultive. O governo não pede nenhum pagamento por tais terras, mas impõe impostos sobre as mesmas assim que alguém as reivindique e a terra comece a produzir.

A vida do pastor nômade, assim como a do caçador, é uma vida singularmente livre, tanto de restrições quanto, em termos comparativos, de labuta, já que vigiar e cuidar de rebanhos não é uma ocupação laboriosa, e nenhuma autoridade consegue sempre alcançar ou impor-se pesadamente sobre pessoas que hoje estão aqui e amanhã estarão acolá. Portanto, apenas no terceiro estágio da existência humana, o agrícola, é que a civilização realmente começa, pois tal estágio não consegue existir sem moradas permanentes e sem governo.

A propriedade do agricultor marcou o começo do Estado da mesma forma que a fornalha ou lareira marcou o início da família. As diversas atividades do campo, a casa, o processamento do leite, tudo isso requer muita mão de obra e uma distribuição de funções muito bem regulada, a fim de permitir que diversas gerações da família do colonizador permaneçam juntas na mesma fazenda. A vida em comum faz com que seja absolutamente necessário ter um conjunto de regras simples sobre a administração da casa, para prevenir disputas, manter a ordem e a harmonia, e resolver as questões sobre direitos e deveres mútuos. E, quem poderia impor tais regras senão o chefe da família ou o próprio fundador da linhagem, no caso, o patriarca?

E quando a família se torna numerosa demais para ser mantida pela propriedade original e uma parte da mesma tem que encontrar um novo lugar para si, isso não ocorre como nas épocas primitivas dos nômades, quando o desmembramento requeria o rompimento de todos os laços. A parte desmembrada simplesmente cria uma nova unidade familiar num pedaço de terra da família, ou toma posse de um novo pedaço de terra um pouco mais distante, mas a que ainda é fácil de se chegar. No primeiro caso, a terra, que era de propriedade comum, é subdividida em lotes, os quais passam a pertencer aos membros que se separaram do núcleo antigo. Mas, mesmo assim, a autoridade do patriarca é mantida. Num próximo estágio, já há diversas fazendas ou herdades, que formam uma vila, e noutro estágio mais adiante, diversas vilas. Entretanto, a ligação de parentesco, por tradição e costume, é religiosamente preservada, assim como a subordinação ao chefe comum do clã, cujos poderes aumentam à medida que a comunidade cresce em termos de quantidade de habitantes e de extensão de terra.

À medida que os relacionamentos, as propriedades, e as heranças ficar mais complicadas e demandam mais leis e um governo mais restrito, o então Patriarca se torna menos um Pai e mais um Rei. A partir desse estágio é que começam a surgir embates entre assentamentos vizinhos semelhantes, amigos ou hostis, resultando em alianças ou disputas, comércio ou guerra. Nesse estágio, então, nós temos o Estado completo, dotado de organização interna e de política externa. No seu maior desenvolvimento, este estágio da cultura se funde ao quarto e último, o da construção de cidades e da vida nas cidades.

O quarto estágio da cultura ocorre quando indivíduos de uma mesma etnia, conscientes de terem uma origem comum mesmo sendo praticamente estranhos uns aos outros, formam assentamentos de grande escala, que, quando contidos dentro de muralhas, tornam-se locais de refúgio e de defesa, e centros de comércio, indústria e do governo. O início desse estágio se dá pela necessidade de uma especialização ainda maior da mão de obra, decorrente das necessidades de melhorias contínuas por parte das comunidades maiores, nas quais as famílias já não conseguem mais produzir tudo aquilo de que precisam, e uma parte da população especializa-se na manufatura e nas artes, ocupações que são melhor desempenhadas nas cidades, enquanto que o restante continua a cultivar a terra e a criar o gado. Os dois tipos de produtos, os da natureza e os que derivam de mãos e cérebros habilidosos, são permutados uns pelos outros, ou, depois da invenção da moeda, trocados através desse veículo mais conveniente. Da mesma maneira, quando as atribuições do governo tornam-se muito diversas e demasiadamente complicadas para um só homem, o antigo Patriarca, agora Rei, é obrigado a cercar-se de assistentes, em geral os anciões do clã ou da tribo, ou pessoas de sua própria escolha, as quais são mandadas para lugares diferentes, a fim de governar em nome do Rei e sob a autoridade deste. Naturalmente, a cidade, onde o Rei e seus ministros e oficiais mais imediatos residem, torna-se a mais importante, a capital do Estado.

De maneira alguma isso significa que as pessoas, uma vez assentadas, nunca mais vão deixar o seu país adotado. O instinto migratório não morreu de todo, e o nosso próprio gosto de viajar prova isso. Mas, na antiguidade, não era muito infrequente que as tribos numerosas, e até porções de nações, partiam sempre em busca de novos lugares para morar e fundavam novas cidades. Várias coisas compeliam isso, desde o aumento gradativo da população do velho país, discordâncias internas, ou invasões de tribos nômades de outra etnia. No último caso, os antigos colonizadores decidiam retirar-se antes mesmo da chegada dos invasores, pois, se ficassem, poderiam ser massacrados ou submetidos a uma terrível subjugação. Tais invasões, naturalmente, também poderiam ser feitas com o mesmo resultado por exércitos normais, liderados por reis e generais de outro local ou país organizado. As alternativas da servidão e da emigração devem ter sido oferecidas a miude na antiguidade, e a opção pela última certamente foi impulsionada pelo inato espírito de aventura do homem, tentado pelas muitas regiões inexploradas que ainda existiam nas épocas mais remotas.

Assim foi o início das nações. Não há outro modo. Mas, existe ainda uma outra observação que quase nunca se vai provar ser errada. Não importa o quanto regressamos ao passado, os povos que encontramos habitando qualquer país no alvorecer da tradição – sempre se pode mostrar – vieram de algum outro lugar e também não foram os primeiros a ali chegar. Todas as levas de nômades ou de aventureiros, que passa por um país ou que ali param e se assentam, sempre descobrem que tal país já está ocupado. O fato é que as populações mais antigas eram raramente aniquiladas ou deslocadas pelos recém-chegados. Pelo menos uma porção permanecia, inicialmente como uma etnia subjugada, mas que com o tempo acabava se misturando aos novos ocupantes, principalmente através de casamentos. E, mais uma vez, se os recém-chegados fossem de paz e houvesse espaço suficiente, o que acontecia nos primeiros tempos, eles frequentemente seriam forçados a formar assentamentos separados e a viver da terra, onde ficariam numa condição subordinada. Alternativamente, se os recém-chegados fossem de uma cultura mais refinada e mais bem-dotada, eles rapidamente assumiriam uma posição de ascendência e ensinariam aos colonos mais antigos as suas próprias artes e ideias, os seus hábitos e as suas leis. No caso da nova colônia ter sido criada pela conquista, os arranjos eram curtos e simples: os conquistadores, embora menos numerosos, se estabeleciam imediatamente como mestres e formavam a nobreza governante, uma espécie de aristocracia. Por sua vez, os antigos donos da terra, ou pelo menos aqueles que optaram por não emigrar, transformavam-se naquilo que pode ser designado como ‘o povo comum’, obrigado a servir e a pagar tributos ou impostos aos seus novos mestres.

De uma maneira geral, todos os países já experimentaram, em épocas diferentes, todas essas modalidades de invasão. Assim sendo, todas as nações surgiram de forma gradual, como camadas sucessivas, e frequentemente incorporaram elementos bastante diferentes, aos quais se amalgamaram ou dos quais se mantiveram separados, conforme as circunstâncias. A história inicial da Caldeia é, em particular, uma boa ilustração de tudo o que foi dito acima.


Zénaïde A. Ragozin (1835 – 1924) é uma russa-americana, autodidata em história e escritora, que imigrou para os Estados Unidos em 1874. Ela é autora de diversos artigos publicados em revistas russas e norte-americanas, sendo também membro da Sociedade Oriental Americana, da Sociedade Etnológica e do Ateneu Oriental, de Paris, e do Instituto Victoria, de Londres. Seus trabalhos mais importantes são The story of Chaldea (New York, 1886); The story of Assyria (1887); e The story of Media, Babylon, and Persia” (1888), todos da série Story of the Nations.

Nota
O presente artigo foi extraído do livro de Zénaïde A. Ragozin intitulado Chaldaea. From the Earliest Times to the Rise of Assyria (Caldeia. Dos Primórdios ao Surgimento da Assíria). T Fisher Unwin, London, e G P Putnam’s Sons, New York 4ª Edição. 1ª Edição 1886. O texto foi escolhido por dar uma interessante visão da história cultural do homem pela perspectiva de uma intelectual do XIX, e que cobre um momento histórico do mundo anterior ao cataclismo da Primeira Guerra Mundial, cujo início acaba de completar cem anos. O livro de Zénaïde A. Ragozin foi obtido através do Projeto Guttenberg: http://www.gutenberg.org/ebooks/24654

Versão portuguesa: Joaquina Pires-O’Brien (UK)
Revisão: Dévora Finamore (Brasil)

Como citar este artigo:
http://www.portvitoria.com/archive.html