Novas e fiáveis biografias de Lênin, Stalin e Trotsky

Novas e fiáveis biografias de Lênin, Stalin e Trotsky

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha da trilogia de Robert Service: Lenin (2010), Stalin (2010) e Trotsky (2010). London, Pan Books, 561, 715 e 600pp. SBNs: 978-1-447-20184-7; 978-0-330-51837-6; 978-1-447-20186-1. Primeiras edições: 2000, 2004, 2009.

Lênin, Stalin e Trotsky foram os principais atores da Revolução Bolchevista de 1917 que transformou a Rússia num estado totalitário com um só partido e uma só ideologia. As suas biografias escritas por Robert John Service (1947-) são as mais completas e fiáveis que existem, fruto de décadas de pesquisa do autor, um historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente, atualmente ocupando o cargo de professor titular na Universidade de Oxford, Inglaterra. A trilogia de Service reúne as informações já reveladas na literatura acadêmica com aquelas obtidas a partir da disponibilização dos arquivos soviéticos em 1991. A cobertura da trilogia dos três personagens centrais do Bolchevismo, o icing of the cake, é a glosa psicológica sobre as personalidades de Lênin, Stalin e Trotsky. Como o público potencial de biografias tende a ser reduzido e as três biografias são extensas, é pouco provável que esta trilogia seja traduzida para o português. Entretanto, devido ao estilo direto e claro do autor, os livros são fáceis de ler mesmo para quem tem o inglês como segunda língua.

No seu conjunto a trilogia de Service mostra a contradição entre a suposta revolução dos trabalhadores da doutrina de Marx e o fato dos intelectuais marxistas russos serem quase todos oriundos da classe mais privilegiada. Mostra também a evolução da interpretação da teoria de Marx, da ortodoxa até as mais heterodoxas. Enquanto jovens, Lênin, Stalin e Trotsky eram propensos à interpretação fiel e ortodoxa de Marx, segundo a qual a revolução socialista dos trabalhadores de todo o mundo começaria numa sociedade industrializada e com significativa força de trabalho como a Alemanha ou da Inglaterra. À medida que Lênin, Stalin e Trotsky começaram a produzir os seus próprios artigos revolucionários, cada qual buscou a interpretação de Marx que melhor se encaixasse com suas próprias opiniões. Lênin e Trotsky achavam que a revolução socialista prevista por Marx poderia prescindir do capitalismo, pois seria validada por revoluções de trabalhadores da Alemanha e de outros países industrializados, que acreditavam ser iminentes. Por sua vez, Stalin forçou uma interpretação da economia russa como sendo essencialmente pré-capitalista e logo descartou a possibilidade de uma iminente revolução de trabalhadores no resto do mundo.

Lênin (1870-1924)
Vladimir Lênin, ou Vladimir Ilich Ulyanov, nasceu em Simbirsk, atualmente Ulyanovsk, no vale do Volga, uma importante via de conexão com o Mar Cáspio ao sul da Rússia, para onde sua família havia se mudado no ano anterior, depois de seu pai ter sido nomeado inspetor de escolas da província. Vladimir era o terceiro dos quatro filhos do casal, mais novo que Alexander e Anna e mais velho que Maria. A família Ulyanov vivia confortavelmente, empregava uma cozinheira e passava férias na confortável casa dos avós maternos em Kokushkino. Os valores familiares giravam em torno da educação dos filhos, todos eles considerados alunos brilhantes; o ambiente familiar era altamente motivador. Embora a escolaridade que Vladimir recebera fosse considerada estreita, a mesma foi profunda o suficiente para lhe conferir a necessária confiança. Na juventude, Vladimir leu A Cabana do Pai Tomás, da escritora Harriet Beecher, publicado em 1852, livro que lhe deu uma visão da sociedade escravista dos Estados Unidos e que possivelmente contribuiu para sua futura predisposição marxista. Vladimir tinha um enorme respeito pelo seu irmão mais velho Alexandre, e teve acesso aos livros e outra literatura avulsa sobre o Marxismo do irmão depois da morte do mesmo. Vladimir usou diversos pseudônimos antes de finalmente optar pelo de Lênin.

O poder de liderança de Lênin começou a evidenciar-se em 1898, na ocasião em que ajudou a criar o Partido Operário Social-Democrata –POSDR– bem como o Iskra (A Centelha), o jornal do partido, do qual era editor juntamente com o já famoso teórico Marxista Georgi Plekhanov e outros líderes revolucionários, Pavel Axelrod, Vera Zasulich, Julius Martov e Aleksandr Potresov. Impresso em diversas cidades da Europa, o Iskra era levado clandestinamente para a Rússia por uma rede de agentes do partido. Os artigos assinados por Lênin no Iskra foram essenciais para a sua confirmação como líder do POSDR. Embora o objetivo principal do POSDR fosse unificar diversos grupos de socialistas que competiam entre si, uma disputa pelo poder entre Lênin e Plekhanov causou um racha indelével no partido, gerando uma ala majoritária ou bolchevista e uma ala minoritária ou menchevista, a primeira formada pelos seguidores de Lênin e a segunda pelos seguidores de Plekhanov.

Depois de passar muitos anos no exílio, de onde comandava o movimento dos trabalhadores russos, Lênin retornou à Rússia em Março de 1917, depois da queda do império pela Revolução de Fevereiro e instalação de um governo provisório. Em outubro do mesmo ano ele liderou a revolução que destituiu o governo provisório. Ao formar o novo governo Lênin mostrou-se antidemocrático até para com seu próprio partido, ao colocar apenas bolchevistas no poder, deixando de fora os menchevistas. Após ter ficado parcialmente incapacitado em 1922, Lênin lutou para continuar influenciando as decisões políticas do governo, mas seus esforços foram frustrados.

Stalin (1878-1953)
Josef Stalin (Dzhughashvili), ou Josef Vissarionovich, nasceu em Gori, na província de Tiflis, na região do Cáucaso, Georgia, que havia passado para o domínio russo em 1859, depois da vitória das forças imperiais sobre os Islamitas. Seu pai, Besarion, era um sapateiro e mais tarde se empregou numa fábrica de calçados, e sua mãe, Ketevan, costumava fazer trabalhos avulsos como faxineira e costureira. A pobreza não era o maior problema da família Vissarionovich. O pai era chegado à bebida, era violento, e costumava bater no filho. A mãe tinha uma reputação duvidosa quando solteira, embora depois de casada passasse a ser uma cristã devota, e tinha um enorme apego ao filho. Outro problema da família era a discrepância de valores educacionais. A mãe queria que Josef recebesse uma boa educação e até conseguiu matricular o menino no seminário de Tblisi, provavelmente a única opção educacional dos mais pobres. Entretanto, o pai tirou o menino do seminário para que pudesse ganhar uns trocados trabalhando na fábrica de calçados. Inconformada, a mãe pediu a ajuda dos padres de Gori para persuadir o marido a deixar que o menino voltasse para o seminário. Josef permaneceu no seminário até 1899, mas deixou o mesmo sem fazer os exames finais. Besarion eventualmente abandonou o lar e se afogou na bebida, tendo morrido jovem, de cirrose hepática. Na ausência do pai, a mãe foi trabalhar como costureira para a família Davrishevis, cujo filho Josef Davrishevi regulava com Josef Dzhughashvili, e os dois se tornaram amigos.

Não era só o ambiente familiar de Josef Dzhughashvili que era inadequado, mas todo o seu ambiente social. Nele, a vida dos jovens girava em torno de gangues e volta e meia Josef se metia em brigas. Pobre, sem um pai ou parentes que zelassem por ele, o jovem aprendeu sozinho a se esquivar das gangues que o atormentavam e ele próprio logo se tornou um bully. A pior consequência desse tipo de ambiente foi ter deixado no jovem Josef Dzhughashvili a impressão de que a violência era normal. Nesse ambiente violento forjou a sua persistência e ambição bem como a sua personalidade irritadiça e volátil. A curta experiência na fábrica de sapatos onde a mão de obra era explorada da maneira mais ignóbil certamente foi um dos marcos que facilitaram a futura doutrinação marxista do jovem Josef, que começou com leituras de materiais proibidos dentro do próprio seminário e amadureceu quando em Tiflis ele se associou a outros jovens marxistas da cidade, principalmente o grupo liderado por Lev Rozenfeld, que se tornou conhecido pelo pseudônimo de Kamenev, que mais tarde se casaria com Olga, irmã mais nova de Trotsky, e mais tarde ainda se tornaria seu inimigo.

A despeito de tudo, o jovem Josef Dzhughashvili era inteligente, desembaraçado e altamente persistente, o que o ajudou a ser aceito no meio intelectual da Georgia. Preso por ter se envolvido numa rebelião em Batumi, Dzhughashvili, foi mandado para Kutaisi, no centro da Sibéria, onde travou contato com outros revolucionários. Em 1903 conseguiu escapar e retomar as atividades revolucionárias em Tbilisi, escrevendo artigos de jornais e participando da fundação do periódico Proletarians Brdzola (Luta Proletária). Nesse meio tempo Lênin havia sido escolhido líder do POSDR, e logo no segundo congresso do partido houve o racha das alas majoritária ou bolchevique e minoritária ou menchevique. Stalin optou pelos bolcheviques e passou a se corresponder com Lênin, e logo depois se tornou o líder do Comitê Bolchevista de Tiflis. Foi mais ou menos nessa época que Josef Dzhughashvili resolveu optar pelo nome Josef Stalin.

No primeiro congresso do Politburo do Partido, em Tampere, na Finlandia, logo depois da Revolução de Outubro de 1905, Stalin compareceu como representante do partido de Tblisi, e finalmente conheceu em pessoa Lênin e Trotski. Em 1906, quando Stalin se casou com Ketevan Svanidze, irmã de um ex-colega de seminário, ele já era o principal líder bolchevique da Georgia. Entretanto, Ketevan faleceu de tuberculose em menos de dois anos, deixando um filho pequeno, Yakob, que foi entregue aos avós maternos. Daí até a Revolução de Outubro de 1917 passaram-se anos de prisão, fugas, recapturas e exílio.

Depois da Revolução de Outubro de 1917, Stalin ocupou o cargo de Comissário do Povo, encarregado de organizar o sistema de abastecimento interno. Mais tarde, quando sucedeu Lênin, Stalin já havia compreendido a realidade do socialismo de um único país, o que permitiu que concentrasse esforços internamente ao invés de dissipá-los no incitamento de revoluções socialistas em todo o mundo. Todas as pessoas que criticaram Stalin tornaram-se seus inimigos, sendo Trotsky o mais notório dos mesmos. Dentro da União Soviética a imagem pública de Stalin era boa, pois havia sido fabricada pela máquina de propaganda do regime. Entretanto, fora da União Soviética, principalmente após o período do terror entre 1937 e 1938, Stalin passou a ser visto como um monstro sanguinário responsável pela morte de quase três milhões de pessoas.

Trotsky (1879-1940)
Lev (Leiba) Davidovich Bronstein, Lev Trotsky, nasceu numa fazenda de propriedade de seus pais em Yanovka, na província de Kherson, na Ucrânia. Ele foi o quinto dos oito filhos de David e Anna Bronstein, embora apenas quatro chegassem à idade adulta, tendo os demais morrido de difteria. Seu irmão mais velho se chamava Alexander, e suas duas irmãs mais novas, Elisheba (Yelizaveta) e Golda, que mais tarde passou a se chamar Olga. Apesar de a família Bronstein ter hábitos simples, eles eram considerados os judeus mais abastados da região. Leiba, como Lev Trotsky era chamado, completou a escolarização primária numa vila próxima da fazenda, hospedando-se durante a semana na casa de uma tia. A fim de fazer o curso secundário, Leiba foi morar com a família de um primo, Moshe Shpnster e sua esposa Fanni, em Odessa. Shpnster era dono de uma gráfica e Leiba logo se encantou com a máquina de impressão e com todas as demais atividades ligadas ao mundo da publicação. Os primos logo perceberam que o menino era superdotado, fato que também transparecia nos seus boletins escolares.

No outono de 1895, aos 16 anos, depois de ter concluído o curso secundário em Odessa, Leiba foi mandado para Nikolaev para completar os estudos na Realshule. Na nova escola Leiba se ocupava com diversas outras atividades que não o estudo, mas tamanha era sua inteligência que mesmo assim continuava a ser o primeiro da classe. Através de seu colega de escola Vyacheslav, ele conheceu o irmão mais velho do mesmo, Franz Shvigovski, um intelectual checo de inclinação revolucionária e conhecedor do Marxismo. Aos dezoito anos Leiba passou a frequentar as reuniões políticas realizadas na casa dos Shcvigovski, e tomou enorme gosto pelos debates sobre política contemporânea e outros assuntos. Quando o pai o visitava e procurava dissuadir o filho do perigo de seguir o caminho que Leiba insistia em seguir. Quanto mais o pai o criticava, mais ele passava a desprezar as suas expectativas e valores; para desespero do pai, a irmã mais nova Golda (Olga), resolveu seguir os passos do irmão. Leiba imiscuiu-se no novo movimento intelectual em torno da sociedade socialista e igualitária, baseada na tradição de autogovernabilidade das comunidades rurais da Rússia. O grupo mantinha a ideia comum de que o capitalismo não era inevitável ou imprescindível e que a Rússia poderia muito bem saltar do feudalismo para o socialismo sem passar pela etapa do capitalismo. Assim como a convivência com os primos de Odessa ensinou-lhe a arte da impressão, a convivência com o grupo de intelectuais de Nikolaev permitiu que o jovem Leiba exercitasse sua retórica e seus poderes de persuasão. Sem que Leiba soubesse, a casa dos Shvigovski se encontrava sob a vigilância da polícia, e num dia de janeiro de 1898, ao chegar lá carregado de panfletos subversivos para distribuição, Leiba foi preso juntamente com os demais revolucionários presentes, entre eles Alexandra, sua amiga mais chegada. A fim de garantir que fossem juntos para o exílio na a Sibéria, Leiba e Alexandra se casaram.

Após passar dois anos na Sibéria, e já com duas filhas, Leiba teve uma oportunidade de escapar, desde que sozinho. Ele agarrou a chance, deixando para trás a mulher e as duas filhas. Já com o nome assumido de Lev Trotsky, ele chegou a Samara de onde partiu imediatamente para Viena. Em Viena Trotsky conheceu Viktor Adler, o líder do partido na Áustria, bem como os famosos editores do jornal Iskra, Pavel Axelrod e Georg Plekanov. Ao perceber que o dinamismo do Iskra estava ligado a Lênin, que vivia em Londres, Trotsky seguiu para lá em outubro de 1902, quando conheceu Lênin e sua esposa Nadezhda. Em Londres Trotsky conheceu também Natalya Sedova que, como ele, era oriunda de uma respeitada família da Ucrânia; dois anos mais tarde, em Berlin, passaram a viver juntos como marido e mulher.

Trotsky permaneceu no exílio, mudando de um lugar para outro até a época de retornar à Rússia. Após ter sido expulso da Espanha em 1916, ele se encontrava em Nova Iorque com Natália e os dois filhos Sergei e Leva, onde fazia palestras para auditórios lotados nos sindicatos laborais. Ele ainda estava lá em janeiro de 1917 quando ocorreu a Revolução de Fevereiro que depôs o Czar e instalou o Governo Provisório. Trotsky imediatamente providenciou documentos de viagem junto ao consulado Russo e em 27 de março embarcou com a família de volta à Rússia. Cerca de trezentas pessoas foram se despedir dele no cais do porto levando bandeirolas e flores e alguns revolucionários americanos compraram passagens no mesmo navio. Entretanto, quando o navio em que viajava parou para apanhar novos passageiros no porto de Halifax, no Canadá, as autoridades canadenses (sob o domínio britânico) apreenderam Trotsky e outros membros da comitiva. Levou diversos dias até que a soltura de Trotsky fosse conseguida pelo Governo Provisório russo, permitindo que Trotsky e a sua família continuasse sua viagem num outro navio.

Embora Trotsky tivesse permanecido em cima do muro durante a briga entre as facções bolchevistas e menchevistas do Partido, ao chegar a Petrogrado em 1917 optou por apoiar os bolchevistas revolucionários liderados por Lênin para depor o Governo Provisório. Para Trotsky nenhum preço humano era grande demais para essa causa e no interesse de uma revolução mundial ele chegou a contemplar o sacrifício em massa dos trabalhadores e lavradores russos. Logo depois da revolução Trotsky ocupou o cargo de comandante do Exército Vermelho (1917-18) e de Comissário para assuntos da marinha e exército (1918-24), e participou ativamente da fundação do Comitê Executivo da Internacional Comunista, também conhecido como Comintern ou Komintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo.

Depois da morte de Lênin, Trotsy escreveu um artigo criticando Stalin e afirmando que este tinha ‘finalmente lançado sua candidatura a coveiro do partido e da revolução’ o que resultou na reprimenda que recebeu do Comitê Central do Partido. Cansado de perder causas no Politburo e no Comitê Central do Partido, Trotsky acusou Stalin de ter encoberto o testamento político de Lênin, e desafiou-o a que revelasse o mesmo ao partido. A acusação fez com que Trotsky passasse a ser inimigo definitivo de Stalin e em 1927 Trotsky foi expulso da facção conhecida como Oposição Unida e do Politburo. Foi-lhe oferecido um emprego no planejamento do trabalho econômico na longínqua localidade de Astrakhan, na Ucrânia, mas Trotsky declinou em aceitar tal cargo e afirmou que preferia o exílio. Em 16 de fevereiro de 1928, sem aviso prévio, Trotsky, juntamente com a esposa Natalya e o filho caçula Lëva, então com 20 anos, e seu assistente Igor Poznanski, foram escoltados para Alma-Ata, no Kazakistão, numa viajem que levou nove dias. Como Trotsky continuasse a escrever matérias criticando o Politburo e o Comitê Central, em 20 de janeiro de 1929, com Stalin já no comando do governo, Trotsky foi expulso de vez da União Soviética. Após ter conseguido asilo político da Turquia, Trotsky e a família foram para lá, chegando a Istanbul em 22 de fevereiro. Na Turquia Trotsky usou o nome de Lev Davidovich Dedov. Por insistir em continuar criticando o governo soviético, em 20 de fevereiro de 1932 Trotsky teve sua cidadania soviética cancelada, e passou para a condição de indivíduo sem estado. Em 1935 Trotsky e a esposa foram para a França onde passaram algum tempo e em seguida foram para a Escandinávia.

Mesmo destituído de sua cidadania russa, Trotsky foi acusado pelo regime soviético de participar de uma conspiração terrorista internacional, julgado à revelia e condenado à morte em 24 de agosto de 1936. Quando essa sentença foi dada, Trotsky se encontrava na Noruega, cujo governo colocou-o sob prisão domiciliar e contemplava extraditá-lo para a União Soviética, quando ele recebeu asilo político do governo mexicano, graças à intervenção de seu amigo, o pintor Diego Rivera. O asilo político vinha com a condição de que Trotsky não se imiscuísse na política mexicana. Trotsky e sua família embarcaram para o México no cargueiro de petróleo Ruth, em 20 de dezembro de 1936. O navio aportou em Tampico em 9 de janeiro de 1937, e de lá os Trotsky tomaram um trem rumo à cidade do México, a bordo do qual havia diversos jornalistas e a pintora Frieda Kahlo, companheira de seu amigo Diego Rivera, que não pode ir por estar doente. Chegando à cidade do México, o cortejo se dirigiu para Coyoacán, hospedando-se inicialmente na casa azul de Frieda Kahlo. Uma vez assentado no México, Trotsky se movimentou para organizar a Quarta Internacional cujo objetivo era substituir a Terceira Internacional. Entretanto, a Quarta Internacional não obteve o sucesso esperado embora tivesse aprofundado o racha do movimento comunista internacional. Trotsky já havia sofrido diversas tentativas de assassinato, a mando de Stalin. Na tarde do dia 20 de agosto de 1940, Trotsky aceitou receber o namorado de sua secretária Sylvia Ageloff, um indivíduo que conhecia apenas pelo nome de ‘Jacson’, o qual havia pedido conselhos sobre um artigo que desejava publicar. O tal ‘Jacson’, cujo verdadeiro nome era Ramón Mercader, era um agente soviético cubano. Ao entrar na casa de Trotsky, trazia escondida uma picareta de alpinismo no gelo com a qual desfechou um forte golpe no crânio de Trotsky, que contra-atacou o agressor mordendo-lhe a mão antes de desfalecer. Trotsky foi levado para o hospital, mas faleceu no dia seguinte.

Trotsky teve um enterro de herói e mesmo depois de morto continuou a influenciar o socialismo em toda a América Latina. O presidente Mikhail Gorbachëv restaurou o status de Trotsky em Moscou e este passou a ser visto como uma das vítimas de Stalin.

Reputações e realidade
Dentro da característica humana de ‘querer melhorar o mundo’ há duas distintas predisposições, uma revolucionária e outra reformista. A predisposição revolucionária difere da predisposição reformista pelo fato de aceitar a violência como meio de se chegar ao fim desejado, e inclui valores totalmente alheios ao humanitarismo. Tal comprometimento cego com o fim faz da predisposição revolucionária um distúrbio de personalidade. Como mostra a psicologia, os distúrbios de personalidade são invariavelmente complexos, isto é, tendem a vir acompanhados de outros distúrbios. A predisposição revolucionária era denominador comum de Lênin, Stalin e Trotsky. Esta foi alimentada pelo Marxismo, doutrina que passou a dominar no meio intelectual da Rússia desde a década de 1890, apesar de que a Rússia daquela época, e mesmo a das duas primeiras décadas do início do século vinte, tinha uma economia medieval, bem diferente do sistema capitalista que segundo Marx incitaria a revolução dos trabalhadores. As três biografias estão lotadas de exemplos de comportamentos que evidenciam valores marginais e distúrbios psicológicos.

Dentre os três líderes revolucionários soviéticos, Trotsky era o que preenchia todos os quadrinhos das características esperadas de um líder. Além de inteligentíssimo e muito bem preparado, ele era bem apessoado, e talvez até bonito, com suas fartas madeixas, lábios espessos e olhos azuis. O apelido de Trotsky de ‘A Caneta’ refletia a sua capacidade de escrever bem mesmo nas piores condições. Até quando ele ditava, conseguia produzir frases completas e perfeitamente corretas logo na primeira tentativa. Trotsky enxergava longe o que os outros não eram capazes de enxergar nem de perto. O grupo de seguidores de Trotsky julgou, erradamente, que o Partido iria valorizar a sua capacidade de analisar as possíveis repercussões das proposições políticas do novo governo, colocando-se à ‘esquerda’ do Partido e dentro da chamada ‘Oposição Unida’. Entretanto, os outros membros da ‘Oposição Unida’ se enfureceram por Trotsky falar em nome deles e os membros do Comitê Central, especialmente Stalin, tomavam as críticas como ataques pessoais. A inépcia social de Trotsky e seu temperamento impaciente, teimoso e explosivo não só criou-lhe inimigos, mas também o alienou perante os amigos.

O fato de Lênin ter morrido ainda relativamente jovem, aos 53 anos de idade, somado à propaganda criada em torno de sua pessoa, fez dele um ícone do bolchevismo. Quando em 1956, Khruschëv resolveu levantar a questão dos abusos do governo de Stalin, denunciando-o como o monstro que mandou milhares à morte e rompeu a tradição criada por Lênin, tudo o que conseguiu foi fazer com que Lênin ganhasse a fama de santo. Movimentos comunistas de todo o mundo aproveitaram para mostrar que os ideais bolchevistas ainda podiam ser resgatados, bastando que o Marxismo-Leninismo fosse reimplantado. Mas, conforme mostrou Service, Lênin não era nenhum santo. Segundo ele, a frieza de Lênin para com o sofrimento humano era colossal. Ele não se moveu com a fome de 1891-2 que assolou a bacia do Volga, ou com as enormes fatalidades da Guerra Sino-Russa de 1904-5 e durante a Primeira Guerra Mundial, Lênin não só torceu pela vitória alemã, por achar que a mesma era mais favorável à revolução dos trabalhadores, mas também passou a desejar uma guerra civil que se estendesse por toda a Europa. Service também mostra como Lênin forçou o Marxismo para o tipo de revolução que ele desejava, dividindo os socialistas tanto da Rússia quanto da Europa em campos antagônicos. Dono de uma mente brilhante e tendo tido amplas oportunidades educacionais, Lênin falhou em canalizá-las para aumentar a sua compreensão da cultura humana e escolheu ignorar os pensadores importantes de seu tempo que sublinhavam as virtudes da individualidade, como Max Weber, Robert Michels, Gaetano Mosca e Gustave le Bon. Julgando-se um ‘escolhido’ para a missão de fazer a revolução dos trabalhadores, Lênin limitou a sua literatura àquelas que eram condizentes com suas teorias preferidas, e procurava não deixar que nada atrapalhasse a sua trajetória revolucionária.

No tocante a Stalin, a imagem mais comum que permaneceu é a de que ele não passava de um burocrata medíocre que, tendo ascendido ao poder pelas maquinações políticas, lá permaneceu pela frieza e crueldade com que eliminou todos os seus inimigos. A imagem de Stalin como sendo de inteligência medíocre deveu-se à comparação com Trotsky, cuja genialidade era comparável à de Winston Churchill. Service mostra que quaisquer dos líderes revolucionários pareceriam intelectualmente limitados se comparados com Trotsky. A única exceção foi Plekanov, que percebeu a superioridade de Trotsky e arranjou diversas desculpas para que o rival fosse mantido à distância. De fato, a percepção da inteligência de Stalin requer levar em conta não só o ambiente social onde cresceu e as oportunidades educacionais que teve, mas também as soluções que o mesmo encontrou para vencer os preconceitos que teve de enfrentar contra a origem humilde, a violência familiar, a educação incompleta, a etnia um tanto oriental e o fato de ser natural da Georgia e não da Rússia. Embora pela lógica essas questões não sejam imputáveis ao indivíduo, a realidade costuma ser diferente e injusta. Isso explica porque Stalin não só procurou encobrir os pormenores de sua infância, mas chegou a sanear da sua memória os maus tratos recebidos do seu pai. Procurando corrigir as distorções em torno da imagem de Stalin, Service descreve situações que evidenciam o contrário, mostrando que Stalin também foi um intelectual, um administrador, um estadista e um líder partidário e que sabia ser modesto e charmoso, o que não significa negar que ele tenha sido o frio assassino responsável pela morte de quase três milhões de pessoas.

Quando Service escreveu a sua trilogia, Trotsky era o único cuja imagem continuava no panteão dos heróis benignos da história, onde fora colocado depois do seu assassinato em 1940. Service procura corrigir mais essa distorção, mostrando que as intenções e os atos de Trotsky não eram dissimilares àqueles de Stalin. Em outras palavras, aquilo que Trotsky defendeu depois de sua queda do poder não bate com os seus atos no período em que ocupou o poder: as execuções sumárias de soldados, seu autoritarismo em querer controlar até as coisas mais triviais como consumir bebida e jogar pontas de cigarro no chão, e a maneira cruel como ele costumava esmagar a oposição tanto no partido quanto nos sindicatos laborais. Para Service, a estratégica alternativa do socialismo humanitário de Trotsky era inteiramente implausível. Quanto ao argumento de que Trotsky foi o único dos três a dar alguma importância às artes, Service mostra que, embora Trotsky propalasse que todas as pessoas da sociedade deveriam se beneficiar da alta cultura, ele não era nada liberal com a cultura, tendo defendido a censura do estado e a perseguição de intelectuais anti-Bolcheviques. Se tivesse se tornado ditador, Trotsky possivelmente teria se portado da mesma forma como Lênin e Stalin.

A trilogia de Robert Service mostrou as imagens públicas e privadas de Lênin, Stalin e Trotsky e procurou corrigir algumas distorções com base na evidência por ele levantada. A inteligência convencional de Trotsky beirava a genialidade, especialmente na comunicação, embora a sua inteligência emocional fosse inferior à dos companheiros Lênin e Stalin. Na época de Lênin, Stalin e Trotsky ainda não havia o tribunal internacional de justiça, mas, se houvesse, nenhum dos três poderia alegar incapacitação mental para se desculpar de seus crimes, pois, apesar de serem socialmente mal ajustados, eles não tinham distúrbios severos de comportamento. Embora Stalin tivesse excedido os demais nos crimes cometidos, Lênin e Trotsky também cometeram crimes contra a humanidade.

Num comentário paralelo, Service procurou mostrar o erro de representar tipos como Stalin, Hitler, Mao Tse-tung e Pol Pot como monstros, pois tal representação tende a separar os vilões de nós mesmos, acobertando o fato de que a violência é uma característica humana escondida sob o verniz da civilização. Se para Lênin, Stalin e Trotsky resta somente a justiça da própria história, para nós, os vivos, as suas biografias estão repletas de lições importantes, como a necessidade de refletir mais antes de nos atirar nas ondas da moda ou sancionar sentenças contra quem quer que seja.

Citação:
SERVICE, R. Lenin. London, Pan Books, 2010, ISBN 978-1-447-20184-7; Stalin. London, Pan Books, 2010, ISBN 978-0-330-51837-6; Trotsky. London, Pan Books, 2010, ISBN 978-1-447-20186-1. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). Novas e fiáveis biografias de Lênin, Stalin e Trotsky. PortVitoria, UK, v. 4, Jan-Jun, 2012. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html