O caminho da secularização

O caminho da secularização

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro The future of human nature (O futuro da natureza humana) de Jürgen Habermas. Polity Press, Cambridge. 2008. ISBN: 13 978-0-7456-2987-2. 127 pp. Publicado inicialmente em 2003.

Tradicionalmente na sociedade Ocidental, o conflito entre os porta-vozes da ciência institucionalizada e os da religião institucionalizada tem sido mantido sob uma trégua. Entretanto, esta trégua voou pela janela após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001, que foram motivados pela crença religiosa. Desnorteados pelos barbarismos dos ataques de 11/9, a sociedade Ocidental começou a reavaliar a sua tolerância com vistas a retirá-la daqueles que são intolerantes. O que veio depois disso foi a guerra contra o terrorismo, que tem sido uma guerra diferente de todas a outras. As preocupações ligadas à guerra contra o terrorismo apenas se somaram às preocupações correntes sobre a globalização do livre mercado e a engenharia genética. Um dos indivíduos mais capazes de avaliar essas incertezas é Jürgen Habermas (1929-), um dos filósofos mais conceituados de todo o mundo.

O objetivo deste livro é passar um ferro sobre as questões morais do mundo pós 11/9. Ele consiste de três aulas, duas escritas antes de 11/9 e uma escrita após, com um postscript escrito após 11/9 acrescentado às primeiras. A primeira aula é intitulada ‘Existem respostas pós-metafísicas à pergunta: O que é uma ‘vida correta’? O mesmo começa com um lembrete de que as doutrinas sobre ‘a vida correta’ e ‘a sociedade justa’ faziam parte da ética e da política e formavam um conjunto harmonioso, mas que a individualização dos modos de vida havia mudado isso. Agora, como no liberalismo político do filósofo John Rawls (1921-2002) ‘a vida correta’ se tornou algo que depende das escolhas e capacidades de cada indivíduo, enquanto que ‘a sociedade justa’ foi simplificada para ‘como os indivíduos desejam gastar o tempo que têm para viver’. De acordo com Habermas ‘Embora a nossa autocompreensão existencial ainda possa continuar se nutrindo da substância dessas tradições como sempre fez, a filosofia já não tem o direito de intervir nesta batalha entre os deuses e os demônios’.

A segunda palestra, intitulada ‘O debate da autocompreensão ética da espécie’, trata das questões éticas, não apenas da engenharia genética e outras tecnologias ligadas ao genoma, como as células tronco, mas também do controle de natalidade com o emprego de dispositivos intrauterinos, e da destruição de células ovo. Os problemas em questão incluem a distinção entre aquilo que as pessoas são por natureza e aquilo que as pessoas podem ser pela intervenção biotecnológica. Uma das conclusões deste ensaio vem sob a forma de um lembrete de que o homem sempre se ateve ao código binário de julgamentos morais, que ele deseja preservar, mesmo numa sociedade pós-secular – uma referência às sociedades afluentes da Europa, Canadá, Austrália, Nova Zelândia etc., onde a maioria das pessoas têm apenas vínculos frouxos com religiões organizadas e tende a buscar propósito em coisas como as artes. Habermas acrescenta que essas últimas não transformaram as pessoas em cínicos frios ou em relativistas indiferentes.

A sociedade pós-secular, uma tradução da palavra alemã ‘Säkularisierung’, é o tema da terceira e última aula de Habermas, intitulada ‘A Fé e o Conhecimento’. Conforme Habermas explica, embora a sociedade pós-secular seja sugestiva de uma sociedade de um período após o fim do processo de secularização, a palavra secularização significa ‘o processo em andamento onde as comunidades religiosas continuam a existir dentro de uma sociedade pós-secular’. Embora a sociedade pós-secular seja também uma sociedade liberal que garante a liberdade de religião como um direito individual básico, ela reserva o direito de manter o monopólio do conhecimento secular. Para Habermas, isso era uma coisa tida como certa até 11/9, mas que a guerra contra o terrorismo desestabilizou com as situações de conflito que criou entre os porta-vozes da religião institucionalizada e as autoridades científicas da sociedade pós-secular.

As visões de Habermas oscilam entre o liberal e o conservador, dando contribuições úteis aos três debates mais significativos do século 21: ‘a busca da felicidade, as implicações éticas das decisões biológicas e a integração das comunidades religiosas dentro da sociedade pós-secular’. Tudo o que é necessário para terminar o conflito acima é o bom senso: ficar pregando um para o outro não leva a nada, pois a sociedade como um todo precisa chegar ao consenso público através do debate. As sociedades seculares precisam permanecer sensíveis à força da articulação própria do linguajar religioso, e as sociedades religiosas precisam aceitar a ciência como um agente bem informado do bom senso. Em outras palavras, os dois lados precisam abarcar as perspectivas recíprocas. Na minha opinião este livro é de uma leitura difícil porém edificante, e indubitavelmente uma ótima fonte de bons conselhos.

Citação:
HABERMAS, J. The future of human nature. Cambridge, Polity Press, 2013. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). O caminho da secularização. PortVitoria, UK, v. 6, Jan-Jun, 2013. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html