O conhecimento do indivíduo

O conhecimento do indivíduo

Joaquina Pires-O’Brien

O papel do conhecimento não é dar ao homem olhos, mas guiar, governar e direcionar os seus passos. Michel de Montaigne.

A educação é a descoberta progressiva da nossa própria ignorância. Will Durant

O conhecimento habilita o indivíduo a contribuir positivamente para a opinião pública, considerada a condição necessária da boa governança e da democracia. O tipo de conhecimento ao qual eu me refiro é o ‘conhecimento geral’, que representa uma visão panorâmica de todo o conhecimento existente tanto das ciências quanto das artes, e que inclui o conhecimento da sociedade e da civilização. Neste ensaio, procurarei mostrar a evolução do conhecimento em termos de quantidade de saber acumulado e do número de pessoas que tem acesso ao mesmo o conhecimento. Procurarei, também, analisar o conhecimento a partir do século XX, em face a dois fenômenos apontados como aviltadores do conhecimento: o crescimento das massas, especialmente as do período entre guerras, e a Idade Digital.

O conhecimento e os seus donos evoluíram numa trajetória convoluta de avanços e retrocessos. Na Antiguidade, era um privilégio da elite controladora do poder enquanto que o povo comum era presumido como sendo ignorante. A partir da Renascença, a filiação ao estabelecimento já não era uma condição obrigatória para a busca do conhecimento. Durante o Iluminismo, período compreendido entre 1687 e 1750, o número de estudiosos na Europa Oeste cresceu vertiginosamente. Seus adeptos entenderam a necessidade da educação mínima para todos e do desenvolvimento da massa crítica da população. A criação da primeira Enciclopédia, reunindo todo o saber existente, foi uma das muitas contribuições do Iluminismo.

O conhecimento sofreu um retrocesso quando os revolucionários socialistas do século XIX decidiram que todas as elites de poder eram perniciosas, inclusive as cientistas e intelectuais, uma visão que foi mantida pelos promotores da correção politica do século XX. Essa questão é abordada por Mário Vargas Llosa no seu livro A civilização do espetáculo, 2012. Nesse livro, Vargas Llosa definiu a cultura como senso ‘a bússola da civilização’, ‘um guia que permite que as pessoas se orientem no espesso emaranhado de conhecimentos sem perder a direção, e que permite reconhecer o caminho principal e os desvios inúteis’. Os promotores da correção politica conseguiram fazer com que tudo virasse cultura. Entretanto, aponta Vargas Llosa, se tudo é cultura nada é cultura. O remédio contra o ar de superioridade das elites intelectuais acabou sendo pior do que a doença, pois agora somos obrigados a viver sem rumo e num mundo amorfo e confuso.

As revoluções socialistas, a ascensão da esquerda, a Guerra das Culturas, tudo isso atrapalhou o avanço do conhecimento no Ocidente. Pode-se dizer que no último quarto do século, pelo menos no Ocidente, o conhecimento já era algo totalmente aberto a quem quer que o desejasse. Essa época coincidiu com os avanços do metaconhecimento, ou seja, o conhecimento do conhecimento, o qual é uma área reconhecidamente interdisciplinar. E, por último, coincidiu, também, com o surgimento da revolução digital. O cenário do século XXI mostra que o conhecimento não tem mais o prestígio que outrora já teve. Os motivos disso são diversos, incluindo desde a competição com a tecnologia da informação até a mudança nos anseios da população maior.

O conhecimento da Antiguidade ao Iluminismo
Na Antiguidade, o conhecimento estava associado à realeza e a ignorância ao povo. Um exemplo dessa associação são os boatos que corriam sobre Alexandre o Grande (356-323 a.C.). A própria mãe de Alexandre, para se vingar de Filipe II, por este ter arrumado outra esposa, espalhou o boato de que Alexandre não era filho de Felipe II, mas sim de Hércules. O boato de que Alexandre era filho de Hércules puxava outro boato, de que ele era invencível. Percebendo que tais boatos o ajudavam nas suas conquistas, Alexandre foi adiante com os mesmos, traindo a educação que havia recebido.

Outra característica da Antiguidade era a desconfiança que havia pelo detentor do conhecimento que não fosse um membro do estabelecimento. Aqui o exemplo mais contundente é o de Sócrates (469-399 a.C.), que em 399 a.C. foi oficialmente acusado de impiedade e de corrupção dos jovens, e, em seguida, condenado à morte. Sócrates era despojado, costumava andar descalço e mal vestido, e conversava com todos sem distinção, pobre ou rico, novo ou velho, livre ou escravo, homem ou mulher. Sabemos das conversas de Sócrates através da obra de Platão (427-347 a.C.), que as registrou nos seus livros. Conforme mostrou Platão, as conversas ou diálogos de Sócrates tinham sempre um caráter inquiridor, pois, segundo este último, “a vida não examinada não vale a pena ser vivida por um ser humano.” Sócrates tinha diversos seguidores jovens, que costumavam imitar a sua forma de questionar, irritando os mais velhos. O fato de Sócrates possuir conhecimento sem ser um membro do estabelecimento incomodou muitos atenienses de sua época, e em especial a classe dos professores já estabelecidos – os sofistas – que ensinavam aos jovens como obter sucesso na vida pública. Ao ser acusado de exercer a profissão de professor, Sócrates retrucou que nunca havia aceitado dinheiro pelo que fazia. Ao ser interpelado se ele concordava com os rumores de que ele era o homem de maior conhecimento de Atenas, Sócrates negou, dizendo “Quanto mais eu sei, menos eu sei”.

A morte de Sócrates tipificou a desconfiança que existia contra aqueles que têm conhecimentos, mas que não são afiliados do estabelecimento. Sócrates deixou um enorme legado que inclui o esclarecimento entre o saber e a ignorância. Na sua frase “Quanto mais eu sei, menos eu sei”, Sócrates quis dizer que o conhecimento pleno era impossível e que quem quer que julgasse tê-lo só poderia estar enganado. Sócrates era sábio porque conhecia a própria ignorância.

O regime antigo europeu (1), que perdurou da Antiguidade até o fim do Feudalismo medieval, não era muito diferente da Antiguidade Grega. A maioria da população era praticamente analfabeta, e o conhecimento existente concentrava-se na elite detentora do poder, que consistia na nobreza, formada pelo monarca reinante e pelos aristocratas, e no clero. A última fase do Feudalismo medieval europeu desenrolou-se concomitantemente à Renascença ou Renascimento. Na Europa, o Renascimento surgiu em épocas diferentes na França, Itália, Alemanha e Grã Bretanha, e com características próprias em cada país. A Renascença incomodou bastante o clero, que se sentiu ameaçado pela nova elite de humanistas e cientistas independentes do poder tradicional.

A elite de humanistas e cientistas independentes do poder tradicional que começou a surgir na Renascença expandiu-se enormemente no Iluminismo, período compreendido mais ou menos entre 1687 e 1750. Alguns historiadores optam por separar os Iluminismos pelos seus países de ocorrência, falando de Iluminismo britânico, francês, alemão, etc. Outros procuram mostrar que houve um Iluminismo bom e outro ruim. Entretanto, tais separações são falhas, uma vez que o Iluminismo foi um movimento universal voltado a reinterpretar o mundo à luz das novas descobertas científicas.

Três filósofos de destaque do iluminismo foram o inglês John Locke (1632-1704), o escocês David Hume (1711-76) e o prussiano Emanuel Kant (1724-1804). No seu livro Essay concerning human understanding (Ensaio sobre o entendimento humano), publicado em 1690, Locke justapôs a razão humana aos avanços da ciência, concluindo que todo conhecimento é fundamentado e deriva-se do senso… ou sensação. As duas importantes implicações disso sobre o conhecimento são: (i) existe apenas um conhecimento; e (ii) como o conhecimento vem da consciência, é possível aplicar as leis da moral a todos, inclusive aos pagãos e ateístas. Hume levou adiante as ideias de Locke sobre o conhecimento. No seu livro A treatise of human nature (Tratado sobre a natureza humana), 1739-40, Hume expressou a diferença que existe entre conhecimento e crença. Segundo Hume, como a crença vem da fé religiosa e a fé religiosa é uma revelação, então a crença não é uma forma legítima de conhecimento. Entretanto, o marco do início da filosofia moderna é o livro de Kant Crítica da razão pura, de 1781. A visão de Kant é entendida pelas suas duas fases, a primeira caracterizada pelo religioso imerso na teologia vigente e a segunda pelo filósofo maduro que procurou colocar a moral no vazio deixado pela religião. O seu livro Crítica da razão prática (1788), ou Segunda crítica, contrasta o raciocínio científico e o raciocínio prático e mostra as interfaces entre a ciência e a filosofia.

O Iluminismo recebeu os mais diversos ataques por diversas doutrinas antimaterialistas, algumas de caráter bastante fundamentalista, como a do clérigo irlandês George Berkeley (1685-1753) o qual afirmou que o mundo e o conhecimento do mundo são idênticos, pois a única realidade física são os pensamentos ou ideias.

Quando a Certeza é Indevida
Diversos observadores notaram que as pessoas mais estúpidas são cheias de certeza enquanto que as pessoas mais inteligentes são cheias de dúvidas. É que a inteligência e a ignorância nem sempre são apartadas com a facilidade com que se separa o trigo do joio. O fenômeno da certeza indevida é complicado pela inabilidade das pessoas de entender os diversos tipos de conhecimentos que existem. Além dos conhecimentos que são específicos para o desempenho de uma arte ou profissão, existem ainda os conhecimentos gerais, que conferem o rumo existencial. Os conhecimentos gerais formam a base da educação liberal, que, por sua vez, contrasta com a educação vocacional ou profissional. Consequentemente, as duas coisas são necessárias para uma educação completa.

O filósofo inglês Sir Francis Bacon (1561-1626) reconheceu as armadilhas da certeza e afirmou que o avanço do conhecimento começa com dúvidas e não com certezas. Bacon, que é conhecido pela frase “Saber é poder” (Knowledge is power), apontou os quatro maiores ‘ídolos’ derivados da ignorância e que impedem a visão da razão. São eles: (i) os ídolos da tribo, representados pelos os erros causados pela tendência natural das pessoas de buscar evidência para aquilo que já acreditam ser a verdade; (ii) os ídolos da caverna, representados pelos preconceitos e pelos precondicionamentos que cada pessoa tem devidos ao seu distinto ambiente físico e intelectual; (iii) os ídolos do mercado, representados pelos desentendimentos de linguagem e as mentiras inerentes à atividade do comércio que induzem ao erro; (iv) os ídolos do teatro, representados pelos dogmatismos e preconceitos repassados através dos sofismas embutidos nos sistemas tradicionais de conhecimento, incluindo a filosofia.

William Shakespeare (1564-1616) aproveitou em suas peças o slogan ‘conhece-te a ti próprio’ (nosce teipsum) dos sábios da Antiguidade para demonstrar as fraquezas e imprevisibilidades da natureza humana. Em As you like it (Como lhe aprouver), uma comédia pastoral escrita entre 1599 e 1600, o personagem Touchstone, um bobo da corte, diz: “O tolo pensa que é sábio, mas o sábio sabe que ele próprio é um tolo” (The fool doth think he is wise, but the wise man knows himself to be a fool.).
Na sua poesia ‘Ensaio sobre a crítica’ (An essay on criticism), uma metacrítica da poesia de tamanho épico, Alexander Pope (1688-1744) aborda os temas do conhecimento e da ignorância em diversos epigramas, como os dois abaixo:

(1) Fools rush in where angels fear to tread.
‘Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar.’
e
(2) A little learning is a dangerous thing.
‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa.’

No primeiro epigrama o termo ‘tolos’ refere-se às pessoas cujas aspirações estão acima de suas capacidades, enquanto que o termo ‘anjos’ refere-se às pessoas esclarecidas e que conhecem as próprias limitações. No segundo epigrama Pope procura mostrar que o conhecimento pode ser profundo ou superficial e que, dessas duas formas, apenas o conhecimento superficial é perigoso, pois embriaga a mente e engana as pessoas. Pope mostra ainda o denominador comum desses dois epigramas: a batalha constante entre o ímpeto de julgar e a resistência para não julgar. Os que enxergam melhor as coisas percebem as dificuldades e são mais propensos a resguardar-se de julgar. Os que se precipitam a julgar são os que pensam que enxergam, mas não enxergam, pois suas mentes estão simplesmente embriagadas pelos seus limitados conhecimentos.

O naturalista britânico Charles Darwin (1809-82) também notou o comportamento de confiança nas pessoas e considerou a possibilidade de a confiança ser uma característica favorável à adaptação e portanto passível de ser selecionada pela seleção natural. No seu livro The descent of man and sexual selection (A origem do homem e a seleção sexual), publicado em 1871, Darwin afirmou que “a ignorância gera mais frequentemente a confiança do que o conhecimento”.

Muitos filósofos e pensadores que vieram depois de Darwin concordaram com a asserção do naturalista. O filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970) afirmou: “O problema com o mundo é que os estúpidos são cheios de certeza e os inteligentes cheios de dúvidas” (The trouble with the world is that the stupid are cocksure and the intelligent are full of doubt.).
O método científico que envolve a falsificação de hipóteses com a finalidade de derrubá-las possibilitou testar cientificamente diversas ideias de Darwin. No campo da psicologia evolutiva, os pesquisadores têm examinado a possibilidade de certas características do ser humano como confiança, memória, percepção e língua serem objeto da seleção natural. A cognição ou capacidade de adquirir conhecimento é a variável que a psicologia evolutiva usa para medir o conhecimento e uma pesquisa que se destacou nesta área é a de Justin Kruger e David Dunning da Universidade de Cornell (1999).

Dunning e Krueger fizeram quatro estudos sobre humor, raciocínio lógico e gramática num experimento que envolveu 140 voluntários que eram alunos de graduação da universidade de Cornell. Logo depois de fazer os testes, foi pedido aos participantes que estimassem o número de seus acertos, gerando os dados de ‘capacidade percebida’ que foram comparados com a ‘capacidade atual’, resultante dos testes aplicados. Em todos os testes os indivíduos que acertaram mais se subestimaram, enquanto que os que erraram mais se superestimaram. No quarto estudo, eles manipularam a competência dos indivíduos para ver se isso alterava as habilidades metacognitivas que afetam a autoavaliação. Para tanto, eles deram um treinamento em metacognição para a metade dos participantes antes de pedirem a eles que estimassem o número de seus acertos. O fenômeno da subestimação e superestimação dos percentis superiores e inferiores também apareceu nesse quarto experimento. Dentro do segmento que recebeu o treinamento em metacognição, os indivíduos dos percentuais superiores reduziram as suas subestimações, mas nenhum efeito significativo foi notado entre os indivíduos dos percentuais inferiores. Dunning e Krueger provaram o viés da autoavaliação e o atribuíram à má calibração da cognição. Eles concluíram que a superestimação da capacidade é mais problemática do que a subestimação, pois esta não só se trata de uma incompetência mas é também acompanhada da incapacidade de enxergar o próprio mau desempenho.

A subversão da opinião pública pelas massas
Durante o período entre guerras do século XX, o Ocidente foi assolado pelas massas que apoiaram o fascismo e suas diversas variantes, como o nazismo alemão. Tal fenômeno tem sido o objeto de muitos estudos pelos especialistas. O grande problema das massas que os especialistas identificaram é a subversão da opinião pública. Mas o que é opinião pública? A opinião pública é o resultado do debate construtivo e racional conduzido na esfera pública, isto é, a esfera situada entre a sociedade civil e o estado, e cujos atores são os indivíduos que se reúnem para discutir a política, bem como a mídia, através dos jornais de ampla circulação e da indústria da publicidade. Tal definição é dada pelo sociólogo e filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-). Em que situação a opinião pública é subvertida? Quais os fatores que propiciam tal subversão? Habermas também responde a essas perguntas. No seu livro The Structural Transformation of the Public Sphere (A transformação estrutural da esfera pública; título original: Strukturwandel der Öffenlichet), inicialmente publicado em 1962, Habermas sublinha a importância do debate construtivo e racional para a manutenção da sociedade democrática. Ele também aponta as falhas do Estado que propiciam a manipulação da esfera pública, como a elevada burocracia, a ausência de estímulo à autossuperação e a inexistência de igualdade de oportunidades nos cargos públicos e privados.

Os indivíduos dotados de conhecimento geral tendem a ter uma maior sensibilidade em relação à esfera pública e por essa razão eles são os principais formadores da opinião pública genuína, resultante do debate público. As massas do período entre guerras foram formadas pela manipulação da esfera pública. Nessa manipulação, a opinião dos indivíduos é anulada e a única opinião que conta é a do controlador da massa. Três estudiosos se destacaram no estudo do fenômeno das massas do período entre guerras do século XX: o espanhol José Ortega y Gasset (1883-1955), o alemão Teodoro Adorno (1903-69) e o búlgaro naturalizado britânico Elias Canetti (1905-94).

Ortega identificou a subversão da opinião pública pelos movimentos coletivistas, dando lugar à ‘sociedade circunstancial ao poder das massas’. O seu livro A rebelião das massas (1929) mostra como era a relação entre o conhecimento e a opinião pública no século XIX. Para ele, embora no século XIX os donos do conhecimento ainda fossem uma minoria, a população era possuidora de uma razoável sensibilidade para entender isso. Havia um público sensível que buscava o conhecimento da minoria e procurava debater os mais diversos assuntos nos cafés e noutros recintos públicos. A explicação que Ortega oferece para o fenômeno das massas baseia-se na desigualdade intelectual das pessoas. Ortega identifica dois tipos de pessoa: o ‘homem vulgar’ e o ‘homem excelente’. O ‘homem vulgar’ é o indivíduo que é suscetível à massa; ele não impõe sobre si próprio nenhum esforço voltado à busca da perfeição, pois já se sente satisfeito consigo mesmo. O ‘homem excelente’ é um tipo superior de indivíduo, capaz de impor enormes demandas sobre si próprio, incluindo tarefas difíceis e árduas responsabilidades.

Adorno atribuiu o surgimento da massa à criação da ‘sociedade de consumo’ pela indústria publicitária apoiada nos potentes meios de comunicação do rádio e do cinema. No seu livro Dialética do Iluminismo (Dialektik der Aufklarung), em co-autoria com Max Horkheimer, publicado em 1947, Adorno mostrou os efeitos colaterais da cultura de massa como a substituição gradual da individualidade pela pseudo-individualidade, e a própria negação da biologia natural do homem.

Canetti fez um apanhado histórico do fenômeno das massas e cogitou a possibilidade de haver um elemento catalisador da massa, que ele denomina ‘cristal de massa’, metáfora que ele buscou na química, a sua disciplina de estudo na universidade. No seu livro Masse und Macht (Massa e poder, publicado em português em 1983 ), Canetti afirma que a massa resulta de uma reação social que ocorre na presença do ‘cristal de massa’. A metáfora do ‘cristal de massa’ de Canetti embute a ideia de que a massa, por ser um produto de uma reação social, é reversível da mesma forma que certas reações químicas também são.

A partir da segunda metade do século XX, a população do mundo cresceu de uma forma sem precedentes, especialmente em determinados países de fora do eixo do Ocidente. O fenômeno da massa reapareceu nesses países com problemas semelhantes àqueles que o Ocidente teve no período entre guerras. Embora, no final do século XX, o Ocidente não tenha tido outros movimentos de massas comparáveis àqueles do período entre guerras, a manipulação da esfera pública continuou, seja em torno do consumo seja em torno de causas xenofóbicas. Entretanto, a Idade Digital, surgida no final do século XX, introduziu poderosos elementos na esfera pública, como, as gravações de vídeo, o stream on line e as redes sociais. Pode-se argumentar que todos esses elementos são meras ferramentas: o que tais ferramentas fazem ou podem fazer depende da maneira como são usadas.

A Idade Digital e o conhecimento
Muitos observadores sociais já apontaram que Idade Digital supervalorizou a informação e trivializou a cultura. Mas as incursões à Idade Digital também ocorrem no terreno da ficção, como a do personagem ‘Morador do Café’ criado pelo escritor americano, nascido no Egito, R. F. Georgy, que compara a internet a um palácio de cristal e este à caverna de Platão, o reduto da ignorância humana absoluta, no seu livro Notes from the café (2014). Sofrendo de câncer e com pouco tempo de vida o Morador do Café vive a sua grande crise existencial. As suas reflexões e críticas sobre a Idade Digital aparecem em diálogos imaginários com ex-colegas da academia e outras pessoas. O Morador do Café é um velho que, além de indignado e contraditório, encontra-se desmemoriado. Ele tem uma vaga lembrança de ter sido um professor de filosofia, embora não consiga lembrar o próprio nome. Suas colocações são mais um esbravejamento de um velho opinioso tentando passar a vida a limpo. Eis algumas citações (tradução minha) do Morador do Café acerca da Idade Digital:

‘Eu me lembro de uma época quando a informação se curvava perante a sabedoria. Hoje, a informação tornou-se pomposa e arrogante.’
‘Vocês sabiam que nós vivemos numa era na qual os peritos e os especialistas se tornaram os profetas da nossa época, na qual os atores e os jogadores de esportes são heróis mitológicos, e a mediocridade é virtude.’
‘A idade digital não sabe o que fazer dos professores…// Então, vocês não sabiam que hoje em dia os professores são controlados e manipulados pelas empresas de publicação que têm um interesse em passar todas as atividades de ensino para o palácio de cristal virtual?’
‘A idade digital não precisa de professores; não senhores, a idade digital precisa de gestores de informação para manter o nosso palácio virtual se movendo. Esses gestores de informação logo serão substituídos por professores digitais que irão ‘facilitar’ a aprendizagem.’
‘Os cafés não são mais para engajarmos em conversação estimulante. Não senhores, eles são feitos para as pessoas irem lá, com os seus laptops e telefones inteligentes, encontrar um canto a fim de escapar do mundo.’
‘Nós confundimos a informação com o conhecimento, e o conhecimento resultante da informação de alguma forma passa por sabedoria.’
‘O homem moderno não é menos uma criatura de conhecimento do que um escravo da informação. Vocês não perceberam que nós nos tornamos viciados na informação.’’
O homem é estúpido por natureza. Ele é estúpido ao extremo e o pior é que ele não sabe da própria estupidez.’
‘Digam-me, do que a idade digital nos liberou? Nós mudamos da convivência com as sombras para tornar-nos prisioneiros das nossas cavernas privadas. É isso o que a idade digital nos trouxe.’
‘Quem é que precisa de pessoas quando temos essa caixa mágica para nos ocupar por toda a vida? Nós não fomos liberados, senhores, nos fomos aprisionados pela nossa própria arrogância.’
A Idade Digital é apenas um tentáculo do monstro da modernidade, segundo o Morador do Café. Na citação abaixo, ele conta porque acredita em Deus, embora o alvo do seu ódio seja a ciência:
‘Você quer saber se eu creio em Deus?… Eu acredito em Deus por raiva. É isso, não fique tão espantado. De raiva da ciência eu acredito em Deus. Veja você, o mundo moderno me dá duas opções: acreditar num constructo que já foi completamente desmascarado e exposto como um conto de fadas, ou submeter à fria indiferença da ciência. Eu escolho o conforto do constructo. Eu escolho acreditar num conto de fadas ao invés de ser enganado pela sedutora lógica da ciência.’

Os intelectuais
Costumamos entender os intelectuais como sendo indivíduos obviamente cultivados e dotados de uma extraordinária capacidade de explicar as coisas para o público leigo. A designação correta desses indivíduos é ‘intelectuais públicos’, termo que os separam dos demais intelectuais oriundos tanto das artes quanto das ciências e que não escrevem para o grande público.

Desde os últimos duzentos anos muitos intelectuais públicos têm se posicionado como guias e mentores da humanidade. A influência deles aumenta sempre que acontece alguma calamidade. Uma análise isenta de qualquer calamidade deve apontar o conjunto completo de alternativas possíveis, que deve incluir a opção ‘não fazer nada por enquanto’. Entretanto, não foi o que aconteceu nos Estados Unidos logo depois da quebra da bolsa de valores de 1929 que levou à Grande Depressão. Muitos intelectuais norte-americanos condenaram precipitadamente o capitalismo e formaram uma liga de apoio ao socialismo soviético e ao Partido Comunista dos Estados Unidos. Eles criaram o termo ‘progressivismo’ para servir de manta a esse movimento, e assim, camuflar o que poderia ser interpretado como uma traição aos costumes da liberal democracia da nação norte-americana. E, quando os intelectuais norte-americanos descobriram as atrocidades do regime soviético já no final da década de 30, eles não demonstraram o mesmo interesse em revelá-las a um público já cativo da ideologia socialista.

Os intelectuais públicos são críticos por excelência, mas, raramente, são criticados. No século XX apareceram duas críticas de peso aos intelectuais. A primeira é a do escritor inglês Samuel Johnson, cujo livro Intellectuals. From Marx and Tolstoy to Sartre and Chomsky, de 2007, faz um apanhado das vidas de doze dos mais importantes intelectuais dos últimos duzentos anos. A segunda é o livro The better angels of our nature: the decline of violence in History and its causes (Os melhores anjos da nossa natureza: o declínio da violência na História e suas causas), do psicólogo experimental Steven Pinker, de 2011. Johnson e Pinker mostraram diversos exemplos de comportamentos indignos por parte dos intelectuais públicos como doutrinamento, alarmismo, extrapolação indevida e a profunda incoerência entre aquilo que afirmam para o público e aquilo que fazem na vida privada.

Johnson faz um apanhado histórico da ascensão dos intelectuais desde os últimos duzentos anos, aproveitando o espaço deixado pelos clérigos e pela crescente especialização das disciplinas. Segundo ele, assim como os antigos clérigos, os novos intelectuais assumiram uma posição quase evangélica e ditaram normas de agir. Numa alegoria a Prometeu, o semideus mitológico dos gregos que roubou o fogo celestial e o trouxe para a terra, Johnson chamou esses primeiros intelectuais modernos de ‘prometeanos’, pois eles se veem como substitutos dos deuses.

A amostragem de intelectuais que Johnson analisou revelou que a boa imagem do intelectual nem sempre condiz com a realidade e que os intelectuais podem ser instáveis, irracionais, ilógicos, supersticiosos, egoístas, vãos e desonestos. Muitos intelectuais públicos vêm da academia, e aproveitam a fama adquirida para dar palpite em tudo quanto é assunto. É claro que eles têm o direito de fazer isso. Entretanto, as pessoas comuns necessitam ter conhecimento suficiente para enxergar as incoerências dos intelectuais e perceber as implicações não explícitas contidas nas suas asserções. Do nazismo à eugenia e à limpeza étnica, muitas das atrocidades cometidas por líderes políticos ocorreram em resultado de esquemas apontados por intelectuais, afirma Johnson, para quem os intelectuais públicos possuem a aura que encobre os seus preconceitos, enganos e incoerências. Nós costumamos ver os intelectuais como indivíduos não conformistas, mas eles são ultraconformistas quando se encontram dentro de grupos que eles aprovam, diz Johnson. Uma das incoerências mais comuns dos intelectuais analisados por Johnson é o apego ao dinheiro e à riqueza dos intelectuais socialistas.

Pinker concentrou a sua crítica nos intelectuais que vivem atacando o presente e pregando o apocalipse. Muitos desses ataques são injustificados e mesmo que não sejam eles raramente contribuem para encontrar soluções para os problemas apontados. Conforme mostrou Pinker, o intelectualismo desse tipo corrói as instituições modernas como a democracia, a ciência, e o cosmopolitismo que tornaram as nossas vidas não só mais ricas, mas também mais seguras. Finalmente, Pinker descreve as regras que ele gostaria de impor aos ‘entendedores’: ‘Ninguém poderá lamentar qualquer decadência, declínio, ou degeneração sem fornecer (1) uma medida de como é o mundo de hoje; (2) uma medida de como o mundo era em algum ponto no passado; e (3) uma demonstração de que (1) é pior do que (2)’. Segundo Pinker, ‘tais regras acabariam com os enfadonhos vaticínios apocalípticos que abundam em todo o canto’.

As pessoas ordinárias precisam pensar por si próprias e desenvolver uma dose saudável de ceticismo às ideias e aos ensinamentos de terceiros, mesmo que sejam famosos.

Conclusão
A crítica situação do mundo no final do século XX e início do século XXI tem sido encarada das mais diversas maneiras. A maior parte das visões caracteriza-se pelo pessimismo em relação à humanidade e seu futuro. Uma dessas visões é a de que, no tocante ao conhecimento a humanidade, consiste apenas de minoria e massa. Tal visão pessimista aponta que o conhecimento evoluiu, mas a compreensão das coisas continua igual. Trocando em miúdos, o conhecimento teve, sim, uma revolução, só que no sentido de dar uma volta completa na História. A humanidade do século XXI voltou ao ponto de partida da Antiguidade.

Uma sociedade cuja parcela de indivíduos cultivados é insignificante não tem opinião pública, e é incompreensível e caótica. Os três estudiosos do fenômeno das massas no século XX, Ortega, Adorno e Canetti, reconheceram que os diversos desatinos sociais do século XX, como o fascismo e o nazismo, ocorreram devido à subversão da opinião pública. O conhecimento geral habilita o indivíduo para compor a massa crítica e, por conseguinte, a opinião pública, uma condição essencial da boa governança e da democracia. As pessoas não sabem pensar? A internet e as redes sociais bitolam? Em vez de maldizer a situação, é preciso arranjar um modo de fazer com que cada vez mais indivíduos aceitem o desafio do desenvolvimento pessoal, seja dentro do ensino oficial ou fora dele. A educação ao longo da vida é uma promissora terceira via.


Notas
1. Regime antigo europeu. Embora a Revolução Francesa costume ser usada como o marco divisor entre o regime feudal antigo e o regime moderno, o surgimento dos Estados modernos europeus foi um processo que levou diversos séculos, tendo começado com a Magna Carta inglesa, assinada em junho de 1215, na qual o rei dava certos direitos e garantias aos barões medievais e prometia governar a Inglaterra segundo os costumes da lei feudal.

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Joaquina Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista bianual sobre a cultura Ibero-Americana na Europa e no mundo.

Revisão: Carlos Pires e Débora Finamore
Como citar este artigo:
Pires-O’Brien, J. O conhecimento do indivíduo. PortVitoria, UK, v.10, Jan-Jun, 2015. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html