Saramago, o bravo autodidata das letras

Saramago, o bravo autodidata das letras

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do Livro Biografia – José Saramago de João Marques Lopes. Guerra e Paz, Editores S.A. e Edições Pluma Unipessoal, Ltda. 2009. ISBN 978-989-8174-52-9

Conforme mostra a presente biografia, José Saramago nasceu em 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, no concelho ribatejano de Golegã. Seu pai, José de Souza, trabalhava como jornaleiro, e sua mãe, Maria da Piedade, cuidava do lar. A pobreza de família de Saramago afetou o jovem em diversas maneiras, a começar pela a sua identidade. Para evitar a multa pelo atraso no registro de nascimento desse seu segundo filho, o pai informou o dia 18 de Novembro como sendo a data do nascimento. O escrivão do cartório, que estava sob a influência do álcool na ocasião do registro, decidiu por conta própria acrescentar o nome ‘Saramago’ à certidão de nascimento da criança. O analfabetismo da mãe possivelmente a impediu de confrontar as faltas tanto do marido quanto do escrivão do registro civil. A pobreza da família imporia ao jovem outras dificuldades, como a privação do carinho materno, após a morte prematura do irmão mais velho, e o estreitamento das suas opções escolares.

Em 1923 o pai de Saramago arranjou um emprego na Polícia de Segurança Pública de Lisboa, para onde família mudou-se no ano seguinte. Os anos formativos de Saramago foram marcados pela insegurança social da sua família, refletida nas constantes mudanças de moradia, a qual quase sempre era compartilhada com terceiros. Ter conseguido terminar a escolaridade básica já foi por si um marco de sucesso do jovem, levando-se em conta os indicadores educativos da época. Após o ensino fundamental, Saramago matriculou-se no Liceu Gil Vicente, mas devido ao elevado custo das mensalidades, após os dois primeiros anos letivos ele deixou o liceu para ingressar na escola técnica, onde obteve a qualificação de serralheiro mecânico.

A epifania literária de Saramago se deu aos dezesseis anos de idade, quando ele descobriu nas bibliotecas públicas ‘a possibilidade de desenvolver autodidaticamente a sua formação para além da mera aprendizagem escolar’. Saramago foi um autodidata que se aventurou na literatura sem nenhuma orientação formal ou informal. Quando era ainda um neófito, ele se apaixonou pela poesia de Ricardo Reis antes de saber que o mesmo era um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Ele também desconhecia o neo-realismo da ficção portuguesa da década de quarenta bem como os textos da literatura marxista. De leitor assíduo Saramago passou a escrever poesias. Quando tinha 24 anos de idade ele datilografou quarenta e quatro poemas seus, que ainda estão inéditos e preservados no seu arquivo. Em 1947 nasceu a sua primeira e única filha, Violante, fruto do seu casamento com Ilda Reis, sua primeira esposa. Nesse mesmo ano ele publicou o seu primeiro livro, A terra do pecado, embora a publicação, pela Editorial Minerva, tivesse sido condicionada à renúncia do direito autoral.

A militância de esquerda de Saramago foi um processo que também começou a partir de uma epifania ocorrida quando Saramago tinha apenas dezenove anos de idade e trabalhava como serralheiro mecânico das oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa. De acordo com seu biógrafo, Saramago encontrava-se a comer a sua marmita, juntamente com outros colegas, quando todos os presentes com exceção dele próprio, se puseram de pé em sinal de respeito à entrada inesperada do chefe acompanhado de um visitante, que entraram e saíram do pressinto sem ao menos reconhecer as suas presenças. A epifania de Saramago foi a conscientização da sua condição como integrante do segmento menos favorecido da sociedade. Tal conscientização social, por sua vez, serviria de base para a sua conscientização política que seria formada alguns anos depois. Um importante elo nesse processo foi a revista Seara Nova, então a circular na clandestinidade.

A publicação do primeiro livro foi uma enorme injeção de ânimo para Saramago, o que ficou refletido nos romances, contos, peças de teatro e poemas que escreveu entre 1947 e 1953. Os seus contos começaram a aparecer nos importantes jornais e revistas da época. Nessa altura, Saramago escrevia sempre nas suas horas vagas, já que ainda dependia do emprego diurno para sustentar sua família. Seu segundo livro, Clarabóia, foi submetido à Empresa Nacional de Publicidade em 1953, a qual sequer se dignou a dar uma resposta ao autor.

Depois de ter passado algum tempo trabalhando para os Hospitais Civis de Lisboa, primeiro como serralheiro mecânico e depois como auxiliar administrativo, Saramago continuou a trabalhar em funções de cunho burocrata. Segundo seu biógrafo Saramago foi um empregado assíduo, pontual e rigoroso, e que não deixou que a sua atividade criativa atrapalhasse o seu desempenho no trabalho. Foi nessa época que Saramago tomou conhecimento da revista Seara Nova, controlada por um grupo de intelectuais que se opunham ao regime fascista e ditatorial de Oliveira Salazar. Foi também nessa época que Saramago definiu a própria posição contrária ao regime salazarista, entretanto, sem se expor às represálias que eram comuns no mesmo regime.

Embora Saramago tenha sido um jovem bastante tímido, aos poucos ele conseguiu vencer a timidez, e passou a se entrosar com um grupo de amigos que costumavam se reunir no Café Chiado. Foi ali que Saramago travou amizade com o crítico musical Humberto d’Ávila, através do qual ele conheceu os escritores antifascistas que também costumavam se reunir no mesmo café. Tais contatos abriram as portas de um emprego, em 1955, como produtor de livros na Editorial Estúdios Cor. Como tal emprego era em regime de tempo parcial, Saramago manteve o emprego normal numa seguradora. Nesse mesmo ano, Saramago também iniciou a trabalhar como tradutor, traduzindo livros do francês para o português. Apenas em 1959, após ter sido promovido a diretor literário da mesma editora, é que Saramago deixou o emprego na seguradora, permanecendo no posto até 1971. Uma vez estabelecido como editor e tradutor Saramago também se empenhou na própria produção literária. E o resto, é história.

A opção de Saramago pelo socialismo marxista-leninista e a sua atuação junto ao Partido Comunista de Portugal (PCP), ao qual ele se afiliou em 1969, é a parte menos conhecida da sua vida, a qual, só pode ser entendida dentro do cenário político de Portugal.

Num breve repasso, o período de 1932 a 1974 foi dominado pelo salazarismo, ditadura fascista imposta por Antônio de Oliveira Salazar, e, após o afastamento deste último por motivo de saúde, em 1968, continuada pelo ex-ministro Marcelo Caetano. Em 25 de Abril de 1974, um golpe das forças armadas que ficou conhecido como Revolução dos Cravos, põe fim ao salazarismo e forma uma junta governamental de sete membros, comandada pelo general António de Spínola. Entretanto, em 1974/1975, o golpe militar foi apropriado pelas forças populares de movimentação social e política, instigadas pelo PCP, as quais se tornaram conhecida pela sigla PREC – Processo Revolucionário em Curso. De Abril de 1974 a Agosto de 1975 Portugal viveu o período conhecido como ‘gonçalvismo’, assim chamado pelo fato dos Governos Provisórios II, III, IV e V terem sido dominados pelo governo de extrema-esquerda do Primeiro Ministro provisório Vasco Gonçalves, caracterizado pelas nacionalizações e expropriações bem como por ter permitido prisões e perseguições arbitrárias. Entretanto, em Setembro de 1975 este último foi afastado por pressão do exército, e substituído pelo governo provisório, encarregado de produzir a nova Constituição. Nas eleições de Abril de 1976, o Partido Socialista (PS) ganhou a maioria dos lugares, fazendo do seu líder, Mário Soares, o novo primeiro-ministro. O Partido Social-Democrata (PSD), fundado em Maio de 1974, após dividir o poder com o PS de 1983 a 1985, ganhou o poder inteiro após vencer as eleições de 1985.

Durante o salazarismo Saramago sentiu o peso da censura sobre os textos que costumava enviar para jornais e revistas. Findo o mesmo, em 1974, Saramago foi nomeado diretor adjunto do Diário de Notícias (DN), um dos principais jornais portugueses, embora apenas sete meses depois ele seria demitido do cargo sob a acusação (infundada) de ‘gonçalvismo’, ou seja, de colocar o DN a serviço do PCP. O último embate entre Saramago e o governo deu-se em 1991, quando Portugal já era considerado uma democracia plena. Neste ano Saramago havia publicado o seu livro mais famoso, O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O que ocorreu foi que o governo do PSD, através da sua Secretaria de Estado da Cultura, tomou uma decisão nada democrática de vetar a candidatura do romance de Saramago para o Prêmio Literário Europeu, por julgar o mesmo ofensivo para a população católica portuguesa.

Conforme sublinhou seu biógrafo, a afiliação de Saramago ao PCP não significou o apoio irrestrito deste ao partido. Por exemplo, ele posicionou-se contra o golpe de Agosto de 1991 em Moscou e desaprovou o fuzilamento dos dissidentes cubanos em 2003. Apesar de ter opiniões muitas vezes contestadas pelo PCP Saramago permaneceu fiel ao partido. Um exemplo disso é a sua visão de que as recriminações contra os regimes autoritários do Leste deviam-se aos exageros e falsidades da propaganda ocidental. Como articulista Saramago soube aproveitar a visibilidade que lhe acresceu o Nobel para explorar a mídia a que levantasse seus temas, muitos dos quais cercados de polêmica.

Saramago tinha uma grande desconfiança da União Européia e defendia a alternativa da integração econômica da Península Ibérica, conhecida como ‘iberismo’, o que o levou a ser acusado de ‘favorecer a descaracterização da soberania e da identidade nacionais’. Em 2002 Saramago envolveu-se numa polêmica em torno da questão da Palestina, quando ele comparou a ocupação militar do Exército israelita a Auschwitz. A crítica mais contundente que recebeu veio do seu colega, o escritor Amós Oz, para quem injustiça da ocupação não significava que uma coisa fosse comparável à outra.

A presente biografia de José Saramago é a quarta de João Marques Lopes, que também biografou Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Trata-se de um apanhado honesto da vida de Saramago e da sua prodigiosa produção literária, numa interessante e coerente narrativa. O livro é dividido em dez capítulos acompanhados de uma sinopse cronológica da vida de Saramago bem como de relação das suas principais obras. Através de eventos triviais ou não da vida de Saramago, Lopes vai revelando o perfil do homem, deixando transparecer a sua determinação, seu autodidatismo, seu crescimento intelectual, sua militância de esquerda e por fim a sua rica obra literária. Esta é uma biografia que vale a pena ler e ter como referência.
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Citação:
LOPES, J. M. Biografia – José Saramago. Guerra e Paz e Edições Pluma Unipessoal, 2009. ISBN 978-989-8174-52-9. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2011). Saramago, o bravo autodidata das letras. PortVitoria, UK, v. 2, Jan-Jun, 2011. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/archive.html