Uma história de tirania

Uma história de tirania

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do Livro A festa do bode de Mario Vargas LLosa. Tradutor: Wladir Dupont. Mandarim, Brasil. 2006. (Primeira edição em espanhol: 2000). ISBN: 853540211X

Este livro é uma história de tirania com lições para qualquer um que valoriza a sua dignidade e liberdade. É provavelmente um dos romances mais sofisticados do escritor peruano Mario Vargas LLosa, que em 2010 ganhou o Prêmio Nobel de literatura. Ele recria habilidosamente na ficção os últimos anos da ditadura na República Dominicana de Rafael Leônidas Trujillo Molina, assim como os distúrbios políticos ocorridos após o seu assassinato em 1961. Os cenários são reais e as situações são perfeitamente plausíveis na narração de Urania Cabral, uma das diversas vítimas do tirano, que fora mandada para os Estados Unidos pelas irmãs de caridade da academia católica que frequentava para estudar numa escola equivalente em Adrian, no estado de Michigan. Após concluir o segundo grau em Michigan, ela se mudou para Boston a fim de frequentar a universidade de Harvard e após ter se formado ela foi trabalhar para o Banco Mundial, em Washington, D.C. Uri, como ela é chamada pelos seus amigos nos Estados Unidos –um apelido bem diferente daqueles de deboche que eram tão comuns naquela época na República Dominicana–, corta todos os laços com seu pai e sua família, e decide não retornar jamais ao seu país de origem. Agora uma senhora de quarenta e nove anos, de figura esguia e grandes olhos castanhos, ela está bem adaptada aos Estados Unidos onde atualmente trabalha para um escritório de advocacia de Nova Iorque. Solteira, ela vive para o seu trabalho e gasta o seu tempo de lazer lendo e pesquisando a história da Era Trujillista. Embora Urania nunca tivesse tirado férias antes, ela toma uma decisão de última hora de passar uma semana visitando a sua terra natal. Ela imagina consigo mesma o motivo de ter tomado essa decisão apressada e se ela não iria eventualmente se arrepender.

A narrativa de Urania se dá inteiramente durante a semana que ela passa em Santo Domingo. Ela se desenrola em parte através de monólogos em frente ao seu pai Augustín Cabral, paralisado por um derrame, o qual foi uma importante figura no antigo regime até ser posto de lado por Trujillo sem nenhuma razão aparente. Urania deseja falar ao pai sobre isso e sobre as verdades que ela havia apurado sobre Trujillo e os seus colaboradores mais próximos, e também sobre si própria. Seu pai não ouve o que ela diz; os seus olhos se focalizam na sua boca como se estivesse tentando fazer uma leitura de lábios. Mesmo assim, ela continua a falar. Alguns flashbacks da sua infância ajudam a completar algumas das lacunas da história, um enorme quebra-cabeça, que ela agora consegue completar usando os seus conhecimentos.

O título deste livro tem a ver com o complô para assassinar o ditador, que já nos seus últimos anos passou a ser chamado de ‘o Bode’ pelos seus detratores, assim como com a festa popular do bode, cuja carne é bastante apreciada em toda a América Latina. Levaram-se quase trinta anos para as pessoas perceberem a real personalidade do ditador. Antes disso, ele era conhecido pelos mais bajuladores títulos como ‘O Pai da Nova Nação’, ‘Sua Excelência’, ‘O Generalíssimo’, ‘O Benfeitor’ ou simplesmente ‘O Chefe’. Para os seus detratores, Trujillo se tornou a personificação do demônio, pois ele roubava as almas das pessoas tornando-as não-pessoas. Num de seus flashbacks Urania relembra as visitas do ditador à casa do Ministro Don Froilan, na ausência deste, para ter encontros sexuais com sua esposa. Ela então se recorda de que o Generalíssimo tinha o hábito de visitar as esposas dos seus ministros quando eles estavam ausentes. Ela está triste porque o seu pai fez vista grossa para aquilo e não consegue deixar de imaginar se Trujillo não teria feito a mesma coisa com a sua própria mãe. O julgamento da história que se cristalizou décadas mais tarde revelou Trujillo como sendo um bully, um psicopata viciado em poder que ordenou o massacre de milhares de haitianos e trouxe a ruína para o seu próprio povo.

Ainda quando fazia o treinamento de oficial, Trujillo revelou-se como uma pessoa autoconfiante. Sua autoconfiança foi alimentada por um tal Sargento Gittleman, um oficial marine que era encarregado do seu treinamento durante a ocupação americana, que o mentoreou e mais tarde tornou-se seu amigo nos Estados Unidos. Trujillo gostava de se vangloriar da sua disciplina militar e costumava repetir que devia isso aos marines. Ele possuía uma habilidade sagaz de ler a linguagem corporal e as expressões faciais das pessoas, algo que costumava usar para intimidar seus subordinados e oponentes. Pouco antes das eleições presidenciais de 1930, a República Dominicana sofria de uma economia arruinada e pela onda de crimes violentos. Trujillo, então encarregado da Guarda Nacional Dominicana, era um candidato a presidente que havia abraçado a crença popular na época, de que os males do país eram causados pelos imigrantes haitianos. As pessoas passaram a vê-lo não só como sendo o homem que seria capaz de trazer uma solução definitiva para o problema, mas também como uma panacéia para todos os problemas do país. Depois de eleger-se, Trujillo ficou legalmente no posto até 1938, mas conseguiu permanecer no poder até 1961, governando através de uma série de presidentes marionetes. Logo depois de ter assumido o posto ele tornou-se o homem mais rico do seu país assim como o maior proprietário de terras e maior empregador. O fato de ele praticamente deter o monopólio do mercado de trabalho serviu para perpetuar a sua imagem de pai e patrão.

O pai de Urania, o Senador Augustín Cabral, também conhecido como ‘Cerebrito’ devido à sua elevada inteligência, havia sido um personagem importante no regime. Antes de se tornar o Presidente do Senado ele havia sido Ministro do Exterior e Presidente do Partido Dominicano. Infelizmente, a sua inteligência não o impediu de compartilhar do racismo popular que existia contra os haitianos. E certamente não o tornou um conhecedor de caráter: ele admirava a pontualidade, a ordem, a exatidão e a disciplina do Chefe, mas era cego para com as suas faltas. A seu favor, o Senador Cabral era um homem honesto que jamais aproveitou da sua posição de poder para ganho pessoal. O mesmo não pode ser dito dos demais homens do circuito mais próximo do ditador. Joaquín Balaguer, o Presidente marionete, era um político astuto, capaz de manter a calma em qualquer situação. Senador Henry Chirinos, cujo apelido tinha a ver com o seu hábito de beber e sua retórica floreada, era um hipócrita que após o fim do regime, fingiu ser um democrata para obter o cargo de embaixador nos Estados Unidos. Como Urania descobriu durante a época em que ela trabalhou para o Banco Mundial, foi ele quem havia traído o seu pai, causando a sua queda.

O Presidente marionete, assim como os dois senadores, Cabral e Chirinos eram apenas carrancas que serviam para dar ao país uma fachada de democracia. Dentre os homens do circuito mais próximo do ditador apenas os chefes militares tinham poderes reais, especialmente o General José René (Pupo) Román, o chefe das forças armadas, e o Coronel Johnny Abbes García, o ex-informante que recentemente fora nomeado chefe do Serviço de Inteligência Militar, SIM. Conhecido por um chulo apelido ligado à sua má aparência, Garcia era um torturador e assassino frio e cruel. A despeito dessas credenciais o Chefe conseguia intimidá-lo por ter falhado na missão de assassinar o Presidente Betancourt da Venezuela.

Todos os homens que conspiraram contra Trujillo eram desafetos recentes, cada qual com seus próprios motivos. Antonio de la Maza, que havia vindo de uma família anti-Trujillista que chegou a lutar contra o ditador, em alguma altura sucumbiu ao carisma de Trujillo e até trabalhou para ele junto com o seu irmão recentemente morto pelo ditador. Um exemplo de história mais típica é o do Tenente Amado García Guerrero, conhecido como Amadito, um soldado exemplar treinado em obedecer ordens. Ele odiava Trujillo porque este o proibiu de se casar com Luisa Gil, a mulher que ele amava, e por tê-lo tornado em um assassino durante um teste de lealdade imposto, quando ele deu dois tiros na cabeça de um prisioneiro sem saber que se tratava do irmão de Luisa. A conspiração tinha duas linhas principais: a eliminação do ditador e a formação do novo governo.

A primeira linha da conspiração era a emboscada, a ser feita por um grupo de sete pessoas: além dos já mencionados Antonio de la Maza e Amadito havia ainda Salvador Estrella Sadhalá (o Turco), Tony Imbert, Pedro Livio Cedeño, Huáscar Tejeda Pimentel e Roberto Pastoriza Neret. A segunda linha da conspiração era por em prática o plano de ação do governo de transição, e tinha o apoio de não outro senão o próprio chefe das Forças Armadas, o General Román. Entretanto, depois que o ditador foi morto em 30 de maio de 1961, a esperada mudança de regime não aconteceu, pois o general Román ficou paralisado de medo ao descobrir que o Chefe havia sido morto, mas que o motorista dele havia sobrevivido à emboscada. A má planejada conspiração falhou em prever a possível necessidade de esconderijos seguros para os sete homens que participaram da emboscada. Devido à sua falha em cumprir a sua parte no acordo, a maior parte dos principais conspiradores foram presos, torturados e tiveram as suas propriedades destruídas; centenas de inocentes parentes e amigos dos conspiradores sofreram o mesmo destino. Do grupo de sete apenas um sobreviveu – Tony Imbert –, graças à ajuda de um casal conscientizado, coisa rara naqueles dias, quando a maioria das pessoas havia perdido a parte melhor de suas humanidades. Dos cinco que foram presos logo de imediato, dois menos desafortunados conseguiram se matar antes de serem levados presos enquanto os demais tiveram que amargar diversos meses de tortura antes de serem executados por Ramfis, o filho de Trujillo, com a total anuência do Presidente Balaguer. Logo a implicação do General Pupo Román na conspiração foi descoberta e ele também foi preso.

Há uma narrativa superposta na trama à volta da operação denominada ‘Matar o Bode’, sob a forma de uma anatomia das sociedades servis que resultam das tiranias. Há também qualquer coisa dickensiana nas situações vis em que alguns personagens se encontraram, e que servem como lembranças de como as coisas não devem ser feitas. Como a tirania não permite a livre expressão, as pessoas não têm ciência daquilo que realmente se passa no governo. É assim que as pessoas são enganadas pela propaganda, doutrinamento e isolamento. Uma vez que os indivíduos abdicam do seu livre arbítrio a favor do líder, elas se tornam como as crianças que eventualmente amam os seus pais autoritários, convencendo a si próprias de que os castigos físicos são para ao seu próprio bem.

As ameaças de uma tirania se estendem além daquelas que as pessoas costumam ouvir dos defensores de direitos humanos tais como prisões arbitrárias, torturas e execuções. Há muitas outras ameaças que envolvem discriminações como as que privam um indivíduo a empregar integralmente a sua capacidade. Tais discriminações são difíceis de detectar, pois ocorrem sob um manto de ‘legitimidade’ fornecido por um simulacro do ’Estado de Direito’ onde a ‘Lei’ é substituída por ‘obscuros regulamentos’ criados pelos caprichos de pequenos ditadores em posições de poder nas oligarquias do estado opressor. O resultado é um simulacro de justiça como aquela que no Brasil era conhecida como a regra do ‘para os amigos tudo, para os inimigos, a lei’. As tiranias podem parecer eficientes pelo seu potencial de resolver problemas de uma forma rápida. Entretanto, não há nenhuma garantia de que suas soluções não ocorram à custa de violações de direitos humanos. O que as tiranias fazem muito bem é fomentar a discriminação por associação, quando familiares e amigos são responsabilizados pelas ações de terceiros. É assim que o cidadão individual é coagido a se conformar ou vê-se obrigado a fazer uso de violência. Numa democracia liberal com um legítimo Estado de Direito, se um líder perde a confiança do eleitorado ele é simplesmente votado fora.

A tirania experimentada pela República Dominicana ou durante a era Trujillista tem lições universais. A primeira lição é a frivolidade em crer que panacéias de qualquer tipo, incluindo utopias e religiões, podem substituir o Estado de Direito. A persona pública de Trujillo fez com que ele fosse visto como uma panacéia para os problemas do seu país, mas o seu regime só trouxe sofrimento e miséria. A segunda lição é a crença enganosa de que as pessoas do círculo mais íntimo de um tirano estão a salvo dos abusos de poder. Na verdade, ninguém está salvo numa tirania, nem menos os amigos do tirano, como no exemplo do pai de Urania, que se tornou num ‘morto vivo’ quando foi escorraçado pelo ditador.

A conclusão desta história de tirania não é sobre vingança mas sobre a reconciliação das vítimas com a sua própria humanidade. No seu retorno a Santo Domingo, Urania se impressiona com a moderna cidade que cresceu no lugar da antiga e imagina se ela própria conseguiria virar a página assim como fez a cidade de Santo Domingo. Ela descobre no seu retorno impulsivo uma oportunidade de revisitar o seu passado a fim de se libertar do mesmo de uma vez por todas. Talvez fosse tarde demais para ela confrontar o seu pai, mas ainda havia tempo para fazer isso com a sua tia e as suas primas. Se a sua tia realmente se preocupa com ela, ela precisa saber a verdade. O processo de virar a página requer que a verdade seja trazida à tona. E não há nenhuma forma indolor de se fazer isso.


Como citar esta resenha:

VARGAS LLOSA, M. A festa do bode. Mandarim, Brasil. 2006, ISBN: 853540211X. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2011). Uma história de tirania. PortVitoria, UK, v. 3, Jul-Dec, 2011. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/