Wislawa Szyborska (1923-2012), poeta polonesa

Wislawa Szyborska (1923-2012), poeta polonesa

wislawaszymborska_newbioimageEsta edição de PortVitoria está dedicada à poeta polonesa Wisława Szymborska, cujas poesias retratam a universalidade humana contra o contexto social e político da Polônia a partir da Segunda Guerra. O extrato abaixo sobr Szymborska foi tirado de diversos sítios da internet.

Szymborska nasceu em Pozman, na Polônia em 2 de julho de 1923, mas em 1931 a sua família mudou-se para Cracóvia, onde, de 1945 a 1948, ela estudou literatura polonesa e sociologia na Universidade Jagellonian. Enquanto era aluna desta universidade, ela envolveu-se com o meio literário de Cracóvia, onde conheceu o poeta e escritor polonês de origem Lituânia Czeslaw Milosz, cuja obra poética sobre os horrores da Segunda Guerra lhe serviu de inspiração. Em 1945, Szymborska publicou o seu primeiro poema, “Szukam slowa” (I Seek the World; Eu Vejo o Mundo), no jornal Dziennik Polski. Ela completou a sua primeira coletânea de poemas três anos depois, mas o governo pós-guerra da Polônia impediu a sua publicação, alegando que suas poesias não contribuíam para a agenda comunista. Szymborska mudou o tom de suas poesias para refletir o apoio ao Estado socialista e assim conseguiu publicar o seu primeiro livro de poesias intitulado Dlagtego Zyjemy (That’s What We Live For; É para isso que vivemos) em 1952. Em 1953 ela foi trabalhar na revista de crítica literária Życie Literackie (Vida Literária), na qual permaneceu durante quase três décadas. Szymborska escrevia poesias, ensaios, e resenhas, e também traduzia.

Szymborska publicou cerca de quinze livros de poesia, e diversas coleções de suas poesias foram traduzidos para o inglês, espanhol, português e outras línguas. Ela também publicou um livro em prosa, intitulado Nonrequired Reading (Leitura não-obrigatória), publicado pela editora Harcourt, em 2002.

Embora uma das características da poesia de Szymborska seja o fato de ela ter abordado fatos históricos da Polônia desde a Segunda Guerra Mundial, ela negava que suas poesias eram políticas, pois mostravam no primeiro plano as pessoas e suas preocupações ordinárias. Na introdução do seu livro Miracle Fair (Feira de milagres) Czeslaw Milosz apontou o paralelo ente as poesias austeras de Szymborska e a visão desesperadora de Samuel Beckett e Philip Larkin, completando que, contrariamente a estes, Szymborska oferece um mundo onde é possível respirar.

Em 1996, Szymborska ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, pelo fato de “sua poesia conter uma precisão irônica capaz de permitir que contextos históricos e biológicos ganhem a luz através de fragmentos da realidade humana”. Seus outros prêmios incluem o prêmio do Pen Club polonês, um título de Doutor Honoris Causa da Universidade Adam Mickiewicz, o Prêmio Herder e o Prêmio Goethe.

Numa entrevista que Szymborska concedeu ao The Washington Post em 1998, ela disse que “Durante o período da opressão, era um dever do poeta falar pela nação”. Numa outra entrevista que ela concedeu ao Los Angeles Times, ela disse que as suas ações fizeram sentido no clima político da época e na esperança que muitos europeus ocidentais tinham no comunismo. “Agora as pessoas não entendem a situação naquela época,” disse ela. “Eu realmente queria salvar a humanidade, mas eu escolhi a pior maneira possível. Eu fiz pelo amor à humanidade. Foi então que eu entendi que a gente não deve amar a humanidade, mas sim amar pessoas… Isso foi uma dura lição para mim. Foi um erro da minha juventude. Foi cometido de boa fé, e, infelizmente, muitos poetas fizeram a mesma coisa. Eles mais tarde seriam mandados para a prisão por terem mudado suas ideologias. Eu afortunadamente fui poupada de tal destino, pois eu nunca tive a natureza de um verdadeiro ativista político.”

Szymborska é extremamente popular em sítios da internet e a sua popularidade é atribuída à agudeza e ironia de suas poesias, que examinam pormenores domésticos ou situações ordinárias. É com enorme prazer que apresentamos duas poesias de Szymborska: O Fim e o Princípio e Amor à Primeira Vista, traduzidas para o português, o espanhol e o inglês.

PORTUGUÊS

O FIM E O PRINCÍPIO
Depois de cada guerra
alguém tem de fazer a limpeza.
As coisas não se limpam
a si próprias, afinal.

Alguém tem de afastar os escombros
Para a berma da estradas,
Para que as carroças com os cadáveres
Possam passar.

Alguém tem de meter-se
por entre a lama e as cinzas
por entre as molas dos sofás
por entre os vidros partidos
por entre os farrapos ensanguentados.

Alguém tem de arrastar a trave
Que escorará a parede,
Alguém tem de por o vidro na janela
E colocar a porta nos gonzos.

Nada disto é digno de ser fotografado
E demora anos.
As máquinas fotográficas partiram já
Para outras guerras.

As pontes têm de ser reconstruídas
E as estações ferroviárias também.
As mangas das camisas ficarão rotas
De tanto serem arregaçadas.
Alguém, vassoura na mão,
Se lembra ainda de como foi.

Outro alguém escuta, acenando que sim
Com a cabeça
Mas já outros, ali perto
Acham tudo aquilo um pouco maçador.
De vez em quando alguém
Desenterra ainda numa moita
Um velho argumento enferrujado
E lança-o na lixeira.

Os que sabem
o porquê e o como
vão ceder lugar
aos que pouco sabem.
E aos que sabem menos ainda.
E por fim mesmo nada.

E na erva que vai crescer
Sobre as causas e os efeitos
Alguém deverá deitar-se
de espiga nos dentes
olhando as nuvens

ESPANHOL

FIN Y PRINCIPIO
Después de cada guerra
alguien tiene que limpiar.
No se van a ordenar solas las cosas,
digo yo.

Alguien debe echar los escombros
a la cuneta
para que puedan pasar
los carros llenos de cadáveres.

Alguien debe meterse
entre el barro, las cenizas,
los muelles de los sofás,
las astillas de cristal
y los trapos sangrientos.

Alguien tiene que arrastrar una viga
para apuntalar un muro,
alguien poner un vidrio en la ventana
y la puerta en sus goznes.

Eso de fotogénico tiene poco
y requiere años.
Todas las cámaras se han ido ya
a otra guerra.

A reconstruir puentes
y estaciones de nuevo.
Las mangas quedarán hechas jirones
de tanto arremangarse.

Alguien con la escoba en las manos
recordará todavía cómo fue.
Alguien escuchará
asintiendo con la cabeza en su sitio.
Pero a su alrededor
empezará a haber algunos
a quienes les aburra.

Todavía habrá quien a veces
encuentre entre hierbajos
argumentos mordidos por la herrumbre,
y los lleve al montón de la basura.

Aquellos que sabían
de qué iba aquí la cosa
tendrán que dejar su lugar
a los que saben poco.
Y menos que poco.
E incluso prácticamente nada.

En la hierba que cubra
causas y consecuencias
seguro que habrá alguien tumbado,
con una espiga entre los dientes,
mirando las nubes.

De “Fin y principio” 1993 Versión de Abel A. Murcia

INGLÊS

THE END AND THE BEGINNING
After every war
someone has to clean up.
Things won’t
straighten themselves up, after all.

Someone has to push the rubble
to the sides of the road,
so the corpse-laden wagons
can pass.

Someone has to get mired
in scum and ashes,
sofa springs,
splintered glass,
and bloody rags.

Someone must drag in a girder
to prop up a wall.
Someone must glaze a window,
rehang a door.

Photogenic it’s not,
and takes years.
All the cameras have left
for another war.

Again we’ll need bridges
and new railway stations.
Sleeves will go ragged
from rolling them up.

Someone, broom in hand,
still recalls how it was.
Someone listens
and nods with unsevered head.
Yet others milling about
already find it dull.

From behind the bush
sometimes someone still unearths
rust-eaten arguments
and carries them to the garbage pile.

Those who knew
what was going on here
must give way to
those who know little.
And less than little.
And finally as little as nothing.

In the grass which has overgrown
causes and effects,
someone must be stretched out,
blade of grass in his mouth,
gazing at the clouds.

Translated from the Polish by Joanna Trzeciak

 

PORTUGUÊS

AMOR À PRIMERA VISTA
Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.
É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não se lembram –
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um “desculpe” em meio à multidão?
uma voz que diz “é engano” ao telefone?
– mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.

Tradução Regina Przybycien

ESPANHOL

AMOR A PRIMERA VISTA
Ambos están convencidos
de que los ha unido un sentimiento repentino.
Es hermosa esa seguridad,
pero la inseguridad es más hermosa.

Imaginan que como antes no se conocían
no había sucedido nada entre ellos.
Pero ¿qué decir de las calles, las escaleras, los pasillos
en los que hace tiempo podrían haberse cruzado?

Me gustaría preguntarles
si no recuerdan
-quizá un encuentro frente a frente
alguna vez en una puerta giratoria,
o algún “lo siento”
o el sonido de “se ha equivocado” en el teléfono-,
pero conozco su respuesta.
No recuerdan.

Se sorprenderían
de saber que ya hace mucho tiempo
que la casualidad juega con ellos,
una casualidad no del todo preparada
para convertirse en su destino,
que los acercaba y alejaba,
que se interponía en su camino
y que conteniendo la risa
se apartaba a un lado.

Hubo signos, señales,
pero qué hacer si no eran comprensibles.
¿No habrá revoloteado
una hoja de un hombro a otro
hace tres años
o incluso el último martes?

Hubo algo perdido y encontrado.
Quién sabe si alguna pelota
en los matorrales de la infancia.

Hubo picaportes y timbres
en los que un tacto
se sobrepuso a otro tacto.
Maletas, una junto a otra, en una consigna.
Quizá una cierta noche el mismo sueño
desaparecido inmediatamente después de despertar.

Todo principio
no es mas que una continuación,
y el libro de los acontecimientos
se encuentra siempre abierto a la mitad.

Versión de Abel A. Murcia
*****

INGLÊS

LOVE AT FIRST SIGHT
They’re both convinced
that a sudden passion joined them.
Such certainty is beautiful
but uncertainty is more beautiful still.

Since they’d never met before, they’re sure
that there’d been nothing between them.
But what’s the word from the streets, staircases, hallways –
perhaps they’ve passed each other by a million times?

I want to ask them
if they don’t remember –
a moment face to face
in some revolving door?
perhaps a “sorry” muttered in a crowd?
a curt “wrong number” caught in the receiver? –
but I know the answer.
No, they don’t remember.

They’d be amazed to hear
that Chance has been toying with them
now for years.

Not quite ready yet
to become their Destiny,
it pushed them close, drove them apart,
it barred their path,
stifling a laugh,
and then leaped aside.

There were signs and signals
even if they couldn’t read them yet.
Perhaps three years ago
or just last Tuesday
a certain leaf fluttered
from one shoulder to another?
Something was dropped and then picked up.
Who knows, maybe the ball that vanished
into childhood’s thickets?

There were doorknobs and doorbells
where one touch had covered another
beforehand.
Suitcases checked and standing side by side.
One night perhaps some dream
grown hazy by morning.

Every beginning
is only a sequel, after all,
and the book of events
is always open halfway through.

Translated by Stanisław Barańczak and Clare Cavanagh

Citation:
Wislawa Szyborska (1923-2012), Poeta Polonesa. PortVitoria, UK, v.10, Jan-Jun, 2015. ISSN 2044-8236, http://www.portvitoria.com/