Joaquina Pires-O’Brien

Welcome to PortVitoria, a Big Picture magazine providing reviews and informed articles on a wide range of topics for the worldwide Lusophono and Hispanic language communities. The planning for PortVitoria started before I registered the domain with 1&1 four years ago. In the various blue prints that the process required one thing did not change: the idea that PortVitoria should be a space for Lusophone and Hispanic writers.

The idea that well informed individuals make the best citizens is widely recognised in the democratic world. However, many issues which are highly relevant to society are so complex that the discussions around them are mostly restricted to the academic journals. Good reviews of the relevant topics would allow laypersons to grasp the big picture and to become better informed. The writer of reviews need not be an expert but simply someone with the skills to digest a complex topic and to write a clear summary of it.

PortVitoria’s mission is to be a global medium for the Portuguese and Hispanic cultures worldwide, providing relevant, objective and unbiased information on a wide range of topics such as language, literature, history, geography, political science and science & technology.

In this first issue the article by the American geographer, historian and linguist Norman Berdichevsky provides a different and quite interesting insight on the ‘rediscovery’ of America, where he ponders on the possibility that the voyage of Christopher Columbus was a in fact a mission of espionage by the Portuguese and the Danish, whose alliance goes back to the time when Don Pedro, brother of Prince Henry the Navigator, fought alongside the Danish king Erik VII and visited him in 1426. According to Berdichevsky, the other motive of the Danish-Portuguese cooperation was the sibling nations’ rivalry that took place in the two peninsulas that guard the entrance of Europe: Portugal with Spain and Denmark with Sweden.

There are still two other special contributions for the present issue. One is an illustrated article on the history of the English language by Ricardo Schütz, reprinted from the internet site English Made in Brazil (www.sk.com.br). The other is an article commemorating the 50 years since the death of Gabriela Mistral, the Chilean poet and Nobel laureate who died on 10 January 1957, reprinted from the Chilean e-magazine Critica.cl. We are grateful to Norman Berdichevsky, Ricardo Schütz and Ricardo Cuadros for their contributions.

We hope that PortVitoria will be a useful resource to secondary teachers, learners of foreign languages, cultural tourists and anyone with an inquisitive mind. In subsequent issues we will address wider concerns than those presented in this first issue.

July 2010


Pires-O’Brien. Welcome to PortVitoria! Editorial. PortVitoria, UK, v. 1, Jul-Dec, 2011. ISSN 2044-8236.

Jane Bichmacher de Glasman

O objetivo do presente trabalho é apresentar alguns exemplos de influência judaica na língua portuguesa, a partir de uma ampla pesquisa sociolinguística que venho desenvolvendo há anos. A opção por judaica (e não hebraica) deve-se a uma perspectiva filológica e histórica mais abrangente, englobando dialetos e idiomas judaicos, como o ladino (judeu-espanhol) e o iídiche (alemão), entre os mais conhecidos, além de vocábulos judaicos e expressões hebraicas que passaram a integrar o vernáculo a partir de subterfúgios e/ ou corruptelas, cuja origem remonta à bagagem cultural de colonizadores judeus, cristãos-novos e marranos.

Há uma significativa probabilidade estatística de brasileiros descendentes de ibéricos, principalmente portugueses, terem alguma ancestralidade judaica. A base histórica para tal é a imigração maciça de judeus expulsos da Espanha, em 1492, para Portugal, devido à contiguidade geográfica e às promessas (não cumpridas) do Rei D. Manuel I, que traziam esperança de sua sobrevivência judaica como tal. Mesmo com a expulsão de Portugal em 1497, os judeus (além dos cristãos-novos e dos cripto-judeus ou marranos) chegaram a constituir 20 a 25% da população local.

Sefaradim (de Sefarad, Espanha, da Península Ibérica) procuraram refúgio em países próximos no Mediterrâneo, norte da África, Holanda e nas recém- descobertas terras de além-mar nas Américas, procurando escapar da Inquisição. Até hoje é controversa a origem judaica ou criptojudaica de descobridores e colonizadores do Brasil, para onde imigraram incontáveis cristãos-novos, alternando durante séculos uma vida como judeus assumidos e marranos, praticando o judaísmo secretamente (fora os que permaneceram efetivamente católicos), de acordo com os ventos políticos, sob o domínio holandês ou a atuação da Inquisição, variando de um clima de maior tolerância e liberdade à total intolerância e repressão.

Comparando apenas sob o ponto de vista cronológico, nem sempre lembramos que, enquanto o Holocausto na Segunda Guerra Mundial foi tão devastador, especialmente nos quatro anos de extermínio maciço de judeus, a Inquisição durou séculos, pelo menos três dos cinco da história “oficial” do Brasil, isto é, após o descobrimento. Tantos séculos de medo, denúncias, processos e mortes, geraram, por um lado, um ambiente psicológico de terror para os judeus e cristãos novos no Brasil; por outro, um antissemitismo evidente ou subliminar que permaneceu arraigado na população, inclusive como autodefesa e proteção.

Uma característica do comportamento de cristãos-novos “suspeitos” foi procurar ser “mais católicos do que os católicos”, buscando sobreviver à intolerância e determinando práticas socioculturais e linguísticas.

A citada alternância entre vidas assumidamente judaicas e marranas, praticando judaísmo em segredo, com costumes variados, unificados pela “camuflagem” de seu teor judaico, gerou comportamentos e aspectos culturais (abrangendo rituais, superstições, ditados populares, etc.) que se arraigaram à cultura nacional. A maioria da população desconhece que muitos costumes e dizeres que fazem parte da cultura brasileira têm sua origem em práticas criptojudaicas. Apresentarei alguns exemplos bem como suas origens e explicações, a partir da origem judaica “marrana”.

“Gente da nação” é uma das denominações para designar marranos, judeus, cristãos-novos e criptojudeus, embora existam diferenças entre termos e personagens.

Cristãos-novos foi denominação dada aos judeus que se converteram em massa na Península Ibérica nos séculos XIII e XIV; é preconceituosa devido à distinção feita entre os mesmos e os “cristãos-velhos”, concretizado nas leis espanholas discriminatórias de “Limpieza de Sangre” do século XV.

Criptojudeus eram os cristãos-novos que mantiveram secretamente seu judaísmo. Gente da nação era a expressão mais utilizada pela Inquisição e Marranos, como ficaram mais conhecidos. Embora todos fossem descendentes de judeus, só poucos voltaram a sê-lo, e em países e épocas que o permitiram.

O próprio termo “marrano” possui uma etimologia diversificada e antitética. Unterman (1992: 166), conceitua de forma tradicional, como “nome em espanhol para judeus convertidos ao cristianismo que se mantiveram secretamente ligados ao judaísmo. A palavra tem conotação pejorativa” geralmente aplicada a todos os criptojudeus, particularmente aos de origem ibérica. Em 1391 houve uma maciça conversão forçada de judeus espanhóis, mas a maioria dos convertidos conservou sua fé. Já Cordeiro (1994), com base nas pesquisas de Maeso (1977), afirma que a tradução por “porco” em espanhol tornou-se secundária diante das várias interpretações existentes na histografia do marranismo.

Para o historiador Cecil Roth (1967), marrano, velho termo espanhol que data do início da Idade Média que significa porco, aplicado aos recém-convertidos (a princípio ironicamente devido à aversão judaica à carne de porco), tornou-se um termo geral de repúdio que no século XVI se estendeu e passou a todas as línguas da Europa ocidental.

A designação expressa a profundidade do ódio que o espanhol comum sentia pelos conversos com quem conviviam. Seu uso constante e cotidiano carregado de preconceito turvou o significado original do vocábulo. Em “Santa Inquisição: terror e linguagem”, Lipiner (1977) apresenta as definições: “Marranos: As derivações mais remotas e mais aceitáveis sugerem a origem hebraica ou aramaica do termo. Mumar: converso, apóstata. Da raiz hebraica mumar, acrescida do sufixo castelhano ano derivou a forma composta mumrrano, abreviado: Marrano. Tratar-se-ia, pois de um vocábulo hebraico acomodado às línguas ibéricas. Marit-áyin: aparência, ou seja, cristão apenas na aparência. Mar-anús: homem batizado à força. Mumar-anus: convertido à força. Contração dos dois termos hebraicos, mediante a eliminação da primeira sílaba”. Anus, em hebraico, significa forçado, violentado.

Antes de exemplificar a contribuição linguística marrana, convém ressaltar que a vinda dos portugueses para o Brasil trouxe consigo todos os empréstimos culturais e linguísticos que já haviam sido incorporados ao cotidiano ibérico, desde uma época anterior à Inquisição, além de novos hábitos e características; muitas palavras e expressões de origem hebraica foram incorporadas ao léxico da língua portuguesa mesmo antes de os portugueses chegarem ao Brasil. Elas encontram-se tão arraigadas em nosso idioma que muitas vezes têm sua origem confundida como sendo árabe ou grega. Exemplo: a “azeite”, comumente atribuída uma origem árabe por se assemelhar a um grande número de palavras começadas por “al-” (como alface, alfarrábio, etc.), identificadas como sendo de origem árabe por esta partícula corresponder ao artigo nesta língua. O artigo definido hebraico é a partícula “a-” e “azeite” significa, literalmente, em hebraico “a azeitona” (ha-zait).

Apesar da presença judaica por tantos séculos, em Portugal como no Brasil, as perseguições resultaram também em exclusões vocabulares. A maior parte dos hebraísmos chegou ao português por influência da linguagem religiosa, particularmente da Igreja Católica, fazendo escala no grego e no latim eclesiásticos, quase sempre relacionados a conceitos religiosos, exemplos: aleluia, amém, bálsamo, cabala, éden, fariseu, hosana, jubileu, maná, messias, satanás, páscoa, querubim, rabino, sábado, serafim e muitos outros.

Algumas palavras adotaram outros significados, ainda que relacionados à ideia do texto bíblico. Exemplos: babel indicando bagunça; amém passando a qualquer concordância com desejos; aleluia usada como interjeição de alívio.

O preconceito marca palavras originárias do hebraico usadas de forma depreciativa, como: desmazelo (de mazal – negligência, desleixo), malsim (de mashlin – delator, traidor), zote (de zot / subterrâneo, inferior, parte de baixo – pateta, idiota, parvo, tolo), ou tacanho (de katan – que tem pequena estatura, acanhado; pequeno; estúpido, avarento); além de palavras relacionadas a questões financeiras, como cacife, derivada de kessef = dinheiro.

Dezenas de nomes próprios têm origem hebraica bíblica, como: Adão, Abraão, Benjamim, Daniel, Davi, Débora, Elias, Ester, Gabriel, Hiram, Israel, Ismael, Isaque, Jacó, Jeremias, Jesus, João, Joaquim, José, Judite, Josué, Miguel, Natã, Rafael, Raquel, Marta, Maria, Rute, Salomão, Sara, Saul, Simão e tantos outros. Alguns destes, na verdade, são nomes aramaicos, oriundos da Mesopotâmia, como Abraão (Avraham), que se incorporaram ao léxico hebraico no início da formação do povo hebreu.

Podemos citar centenas de nomes e sobrenomes de judaizantes e números de seus dossiês, desde a instalação da Inquisição no Brasil, a partir dos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, e de livros como Wiznitzer (1966), Carvalho (1982), Falbel (1977), Novinsky (1983), Dines (1990), Cordeiro (1994), etc. Sobrenomes muito comuns, tanto no Brasil como em Portugal, podem ser atribuídos a uma origem sefardita, já que uma das características marcantes das conversões forçadas era a adoção de um novo nome. Muitos conversos adotaram nomes de plantas, animais, profissões, objetos, etc., e estes podem ser encontrados em famílias brasileiras, até hoje, em número tão grande que seria difícil enumerá-los. Exemplos: Alves, Carvalho, Duarte, Fernandes, Gonçalves, Lima, Silva, Silveira, Machado, Paiva, Miranda, Rocha, Santos, etc. Não devemos excluir a possibilidade da existência de outros sobrenomes portugueses de origem judaica.

Porém é importante ressaltar que não se pode afirmar que todo brasileiro cujo sobrenome conste dos processos seja descendente direto de judeus portugueses; para se ter certeza é necessária uma pesquisa profunda da árvore genealógica das famílias.

Há ainda algumas palavras e expressões oriundas do misticismo judaico, tão desenvolvido na idade média. O estudo do Talmud e da Cabalá trouxe também contribuições do aramaico, como a conhecida expressão “abracadabra”, que é tida pela nossa cultura como uma “palavra mágica” (num sentido fabuloso), mas que, na realidade pode ser traduzida como “criarei à medida que falo” (num sentido real e sólido para a cultura judaica).

Algumas palavras também designam práticas judaicas ou formas de encobri-las, especialmente observável nos costumes alimentares. Por exemplo: os judeus são proibidos pela Torá de comer carne de porco, porque tem os cascos fendidos e não rumina, sendo, portanto, impuro. Para simular o abandono desse princípio e enganar espiões da Inquisição, os cristãos-novos inventaram as alheiras, embutidos à base de carne de vitelo, pato, galinha, peru – e nada de porco. Após algumas horas de defumação já podem ser consumidos. Da mesma forma, peixes “de couro” (sem escamas) não serviam para consumo.

Passando às expressões, apresento alguns exemplos, sua origem e explicação:

– “Ficar a ver navios” – Em 1492 foi determinado que os judeus que não se convertessem teriam de deixar a Espanha até ao fim de julho. Centenas de milhares então se fixaram em Portugal. O casamento do rei D. Manuel com D. Isabel, filha dos Reis Católicos, levou-o a aceitar a exigência espanhola de expulsar todos os judeus residentes em Portugal que não se convertessem ao catolicismo, num prazo que ia de Janeiro a Outubro de 1497. O rei Dom Manuel precisava dos judeus portugueses, pois eram toda a classe média e toda a mão de obra, além da influência intelectual. Se Portugal os expulsasse logo como fez a Espanha, o país passaria por uma crise terrível. Na realidade D. Manuel não tinha qualquer interesse em expulsar esta comunidade, que então constituía um destacado elemento de progresso nos setores da economia e das profissões liberais. A sua esperança era que, retendo os judeus no país, os seus descendentes pudessem eventualmente, como cristãos, atingir um maior grau de aculturação. Para obter os seus fins lançou mão de medidas extremamente drásticas, como ter ordenado que os filhos menores de 14 anos fossem tirados aos pais a fim de serem convertidos. Então fingiu marcar uma data de expulsão na Páscoa. Quando chegou a data do embarque dos que se recusavam a aceitar o catolicismo, alegou que não havia navios suficientes para os levar e determinou um batismo em massa dos que se tinham concentrado em Lisboa à espera de transporte para outros países. No dia marcado, estavam todos os judeus no porto esperando os navios que não vieram. Todos foram convertidos e batizados à força, em pé. Daí a expressão: “ficaram a ver navios”. O rei então declarou: não há mais judeus em Portugal, são todos cristãos (cristãos-novos). Muitos foram arrastados até a pia batismal pelas barbas ou pelos cabelos.

– “Pensar na morte da bezerra”: frase tão comumente dita por sertanejos quando querem referir-se a alguém que está meditando com ares de preocupação: “está pensando na morte da bezerra”. Registram as denunciações e as confissões feitas ao Santo Oficio, a noção popular, naquele distante período, do que seria o livro fundamental do judaísmo: a Torá. De Torá veio Toura e depois, bezerra, havendo inclusive quem afirmasse ter visto em cara de alguns cristãos-novos, o citado objeto, com chifres e tudo.

– “Passar a mão na cabeça”, com o sentido de perdoar ou acobertar erro cometido por algum protegido, é memória da maneira judaica de abençoar de cristãos-novos, passando a mão pela cabeça e descendo pela face, enquanto pronunciava a bênção.

– Seridó, região no Rio Grande do Norte, tem seu nome originário da forma hebraica contraída: Refúgio dele. Porém, não é o que escreve Luís da Câmara Cascudo, indicando uma origem indígena do nome da região, de “ceri-toh”. Em hebraico, a palavra Sarid significa sobrevivente. Acrescentando-se o sufixo ó, temos a tradução sobrevivente dele. A variação Serid, “o que escapou”, pode ser traduzido também por refúgio. Desse modo, a tradução para o nome seridó seria refúgio dele ou seus sobreviventes.

– Passar mel na boca: quando da circuncisão, o rabino passa mel na boca da criança para evitar o choro. Daí a origem da expressão: “Passar mel na boca de fulano”.

– Para o santo: o hábito sertanejo de, antes de beber, derramar uma parte do cálice, tem raízes no rito hebraico milenar de reservar, na festa de Pessach (Páscoa), um copo de vinho para o profeta Elias (representando o Messias que virá, anunciado pelo Profeta Elias).

– “Que maçada!” –usada para se referir a uma tragédia ou contratempo, é uma alusão à fortaleza de Massada na região do Mar Morto, Israel, reduto de Zelotes, onde permaneceram anos resistindo às forças romanas após a destruição do Templo em 70 d.C., culminando com um suicídio coletivo para não se renderem, de acordo com relato do historiador Flávio Josefo.

– “Pagar siza” significando pagar imposto vem do hebraico e do aramaico (mas = imposto, em hebraico, e misa, em aramaico).

– “Vestir a carapuça” ou “a carapuça serve para …” vem da Idade Média inquisitorial, quando judeus eram obrigados a usar chapéus pontudos (ou com três pontas) para serem identificados.

– “Fazer mesuras” origina-se na reverência à Mezuzá (pergaminho com versículos de DT.6, 4-9 e 11,13-21, afixado, dentro de caixas variadas, no batente direito das portas).

– “Deus te crie” após o espirro de alguém é uma herança judaica da frase Hayim Tovim, que pode ser traduzido como tenha uma boa vida.

– “Pedir a bênção” aos pais, ao sair e chegar em casa, é prática judaica que remonta à bênção sacerdotal bíblica, com a qual pais abençoam os filhos, como no Shabat e no Ano Novo.

– “Entrar e sair pela mesma porta traz felicidade” bem como o costume de varrer a casa da porta para dentro, costume arraigado até os dias de hoje, para “não jogar a sorte fora” é uma camuflagem do respeito pela Mezuzá, afixada nos portais de entrada, bem como aos dias de faxina obrigatória religiosa judaica, como antes do Shabat (Sábado, dia santo de descanso semanal) e de Pessach.

– “Apontar estrelas faz crescer verrugas nos dedos” era a superstição que se contava às crianças para não serem vistas contando estrelas em público e denunciadas à Inquisição, pois o dia judaico começa no anoitecer do dia anterior, ao despontar das primeiras estrelas, dado necessário para identificar o início do Shabat e dos feriados judaicos.

Para concluir, gostaria de mencionar um tema polêmico decorrente deste intercâmbio cultural e religioso: sua influência no português, em vocábulos que adquiriram uma conotação pejorativa e negativa. Os mais discutidos são: judeu, significando usurário, o verbo judiar (e o substantivo judiação) com o sentido de maltratar, torturar, atormentar. Seja sua origem a prática de “judaizar” (cristãos- novos mantendo judaísmo em segredo e/ ou divulgando-o a outros), seja como referência ao maltrato e às perseguições sofridas pelos judeus durante a Inquisição, o fato é que, sem dúvidas, sua conotação é negativa, e cabe a nós estudiosos do assunto e vítimas do preconceito, esclarecer a população e a mídia, alertando e visando à erradicação deste uso, não só pelo desgastado “politicamente correto”, que leva a certos exageros, mas para uma conscientização do eco subliminar de um longo passado recente, Pelo qual não basta o pedido de perdão, se não conduzir a uma mudança no comportamento social.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, Flávio Mendes de. Raízes judaicas no Brasil. São Paulo: Arcádia, 1982.

CORDEIRO, Hélio Daniel. Os marranos e a diáspora sefaradita. São Paulo: Israel, 1994.

DINES, Alberto. Vínculos do fogo. São Paulo. Cia. das Letras. 1990.

FALBEL, Nachman & GUINSBURG, Jacó. (org.) Os Marranos. São Paulo: CEJ; USP, 1977.

GONSALVES DE MELLO, José Antonio. Gente da Nação In: Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. 1979.

HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque de. Novo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

HOUAISS, Antonio. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

LIPINER, Elias. Santa inquisição: Terror e linguagem. Rio de Janeiro. Documentário, 1977.

MAESO, David Gonzalo. A respeito da etimologia do vocábulo ‘marrano’. São Paulo, CEJ, 1977.

NOVINSKY, Anita. A inquisição. São Paulo. Brasiliense, 1983.

ROTH, Cecil (ed.) Enciclopédia judaica. Rio de Janeiro. Tradição, 1967.

UNTERMAN, Alan. Dicionário judaico de lendas e tradições. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.

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Jane Bichmacher de Glasman é especialista na língua hebraica e em cultura e literatura judaica e professora universitária.

Nota

Cortesia do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos. Republicado com a permissão.

Fonte:

http://www.coisasjudaicas.com/2010/06/presen ca-judaica-na-lingua-portuguesa.html

Citação

Glasman, J. B. de. Presença Judaica na Língua Portuguesa. Expressões e Dizeres Populares em Português de Origem Cristã-Nova ou Marrana. PortVitoria, UK, v.11, Jul- Dec, 2015. ISSN 2044-8236

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From the Editor

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On Iberian Jews, Conversos and the Inquisition

This edition of PortVitoria is about the Iberian Jews, a theme which has been in the media since 2014, when Portugal passed a law granting nationality to descendants of its Jewish populations expelled in 1497 and whose regulation was approved at the end of January 2015. This historical milestone is taken up by Norman Berdichevsky, whose article revisits Portugal’s past attempts to make reparations to the Jews in the 20th century.

‘Jews first settled in the Iberian Peninsula before the arrival of the Phoenicians in around 900 BCE. Jewish merchants settled along the coast of Spain during the time of King Solomon when this region was called Tarsus, or Tarshish’. This is taken from Ivone Garcia’s brief history of the Jews in the Iberian Peninsula and is republished here from the internet site of the Association of Crypto Jews of the Americas.

As a result of new discoveries in archaeology, linguistics, and improvements in analytical methods, Jewish history is being rewritten in order to integrate into the world system history. Warwick Ball’s 2009 book ‘Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the Discovery of Europe’, reviewed in this edition, also mentions that the biblical place ‘Tarshish’ is now thought to be ‘Tartessus’ or ‘Tartessia’, in Iberia.

The cultural legacy of the Iberian Jews survives to this day in all places where Portuguese and Spanish are spoken. One example is the Jewish legacy in the Portuguese language, a theme explored by Jane Bichmacher de Glasman in her amusing article.

The designation ‘crypto-Jews’, which simply means ‘secret Jews’, applies to the converted Jews who continued to practice Judaism secretly and for that reason a target of the Inquisition. The latter is treated in the article by Joseph Pérez, a distinguished Spanish historian. In Pérez’s view, the Spanish Inquisition was an ideological mask used by the Catholic kings to appease the mobs and the aristocracy who felt threatened by the incipient bourgeoisie of the Spanish crypto-Jews.

A large number of Iberian Jews became exiles in other parts of Europe and in the Americas. One of the most notorious was Michael de Espinosa van Vidiger, father of the philosopher Benedictus Spinoza (1632-1677), a Portuguese Jew who had settled in the Netherlands. The article by Antonio Bento is about the original spelling of the name of Spinoza as well as the location in Portugal from where Spinoza’s family originated. Also on the subject of Spanish exiles we offer a review of Henry Kamen’s 2007 book ‘The Disinherited: Exile and the Making of Spanish Culture, 1492-1975’ by Mark Falcoff, an emeritus scholar of the American Enerprise Institute.

Undoubtdely the expulsion of the Jews of Spain and Portugal led to a prolonged period of intellectual and economical impoverishment in these countries. If we have learned anything from this lesson of history there are some relevant questions we should never stop asking. If the Inquisition was an ideological mask, what other types of masks could be serving other vested interests? What is the cost to society of yielding to mobs and failing to exercise tolerance and inclusiveness?

Joaquina Pires-O’Brien – July 2015

Pires-O`Brien, J. On Iberian Jews, Conversos and the Inquisition. Editorial. PortVitoria, UK, v.11, Jul-Dec, 2015. ISSN 2044-8236.

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Biografia

16_titolucreciocaro2_tumblr_inline_n98w7jxtv51r0hqx4_jpg_26c62aa9be1079c81b92a266f0577441Pouco se sabe sobre a vida do poeta e filósofo romano Tito Lucrécio Caro (c. 99-57 AEC) conhecido pelo seu poema didático-filosófico De Rerum Natura, escrito por volta de 50 AEC. Segundo uma biografia atribuída a Eusébio e reeditada por São Jerônimo, Lucrécio nasceu em 94 AEC e suicidou-se aos 44 anos de idade ingerindo um filtro amoroso. Tal biografia afirma ainda que Lucrécio era um louco e que escrevia nos intervalos de lucidez. Os estudiosos não sabem até que ponto essas afirmações são apuradas, primeiro porque vêm de duas autoridades do cristianismo, e segundo porque há suspeita de que a perda da obra de Lucrécio foi devido à queima deliberada dos volumes existentes, a mando de autoridades cristãs. Felizmente, um volume escapou das fogueiras insanas e foi achado por Poggio Bracciolini num mosteiro italiano, em 1417, um milênio e meio depois de ter sido escrito.

Segundo a Enciclopédia Stanford de Filosofia (Stanford Encyclopedia of Philosophy), o poema De Rerum Natura sobreviveu virtualmente intacto, mas existe uma disputa se Lucrécio teria vivido o suficiente para ter colocado nele os últimos retoques. Na opinião dos especialistas, Lucrécio escreveu De Rerum Natura para ensinar aos romanos os amplos preceitos do epicurismo, uma filosofia naturalista parecida com o budismo, que englobava religião, sexo, superstição, morte, ciência, moralidade, prazer, política, doença e um universo sem um desenhista. Epicuro não era um ateísta, pelo menos abertamente, pois acreditava na existência de deuses. Entretanto, para Epicuro os deuses existiam simplesmente para si próprios e não interferiam pessoalmente no universo.

De Rerum Natura não é uma leitura fácil. Consiste de 7400 hexâmetros2 – versos de seis sílabas, sem rimas, porém com ritmo marcado pela sucessão de sílabas longas e breves –, que os poetas clássicos empregavam, numa imitação dos épicos gregos de Homero (a Ilíada e a Odisseia). É subdividido em seis livros sem títulos. O poema captura tanto a natureza quanto a experiência humana dentro da mesma. Lucrécio exorta o bem viver através da calma e da tranquilidade, bem como a erradicação das superstições e das crenças religiosas, as quais ele condena como fontes da maldade e da miséria humanas. Critica a vida faustosa e artificial de sua época, explica a física atomista de Leucito e Demócrito e chega a sugerir a evolução das espécies. De Rerum Natura de Lucrécio é um testemunho do elevado estágio do desenvolvimento do conhecimento humano de sua época, quando já havia uma explicação inteiramente naturalista sobre o mundo. Isso faz de Lucrécio o verdadeiro fundador da modernidade.

No início do século XVI, menos de um século depois de o poema De Rerum Natura ter sido redescoberto, a Igreja baniu-o oficialmente junto com todos os livros que defendiam ideias epicuristas. Qualquer um que fosse encontrado com tais livros incorria ser acusado de heresia. Apenas no século XX, Lucrécio foi reabilitado pela sociedade secularista, quando o seu poema ganhou traduções para diversas línguas, inclusive o espanhol e o português. A versão na língua espanhola foi publicada no ano 2000 pela Alianza Editorial e a versão na língua portuguesa em 2015 pela Editora Relógio d’Água. Os trechos a seguir correspondem a outras e mais antigas traduções de fragmentos do poema de Lucrécio:

Da Natureza das Coisas

Tito Lucrécio Caro

Sobre o medo do inferno:

‘… Assim como as crianças, que no escuro tremem de medo e temem tudo,
nós, na claridade, às vezes temos receio de certas coisas
que não são mais terríveis do que aquelas que as crianças temem
no escuro e pensam que acontecerão a elas’.
‘Na verdade, aqueles suplícios que dizem existir
no profundo Inferno, estão todos aqui, nas nossas vidas’

Sobre os átomos:

‘… átomo algum interrompe jamais o seu movimento no vácuo,
antes se move sem cessar, empurrando e sendo empurrado
Em várias direcções, e as suas colisões provocam,
Consoante o caso, maior ou menor ressalto.
Quando combinamos da forma mais densa,
A intervalos muito próximos, com o espaço entre si
Mais obstruído pelo entrelaçado da figura,
Dão-nos a rocha, o diamante, o ferro,
Coisas dessa natureza. (Não existem muitas espécies de átomos
Que errem, pequenos e solitários, através do vácuo.)

Apesar de se encontrarem em constante movimento,
O seu todo aparenta absoluta quietude,
Salvo, aqui e ali, alguma oscilação particular.
A sua natureza está além do alcance dos nossos sentidos,
Muito, muito além. Já que não somos capazes de ver
As coisas como são na realidade, elas são obrigadas a esconder-nos os seus movimentos,
Especialmente porque, mesmo as que conseguimos ver, muitas vezes
Nos ocultam também os seus movimentos, quando à distância.

Tomemos por exemplo um rebanho a pastar
Numa encosta; sabemos que esses animais de caracóis de lã.
Se movimentam para onde quer que os atraia a bela erva,
Em qualquer lugar onde esta se encontre,
ainda cravejada de joias de orvalho cintilantes, e que os cordeiros,
Já saciados, saltam e brincam, brilhando ao sol.
Tudo isto, porém, visto á distância, é apenas uma mancha azulada
Esbranquiçada, repousando numa colina verde.’

Sobre a evolução das espécies – Livro V (em espanhol)

1179

‘… Todo lo muda la Naturaleza,
Todo lo altera, todo lo transforma:
Pues empobrece un cuerpo y se consume
A fuerza de años; otro cresce y sale
A la verdad del cieno: de este modo
Todo lo muda el tiempo, y de continuo
Pasa la tierra de un estado a otro
Y pierde la energía que tenía
Por hacerse de nuevas propiedades,
Y la Tierra aún entonces se esforzaba
Por sacar animales de figura
Y de disposición extraordinaria.’

 

1222 –

‘…Porque los animales existentes
Que ves ahora, sólo se conservan
O por astucia, o fuerza, o ligereza
De que ellos al nacer fueron dotados,
Menos un cierto número que habemos
Puesto nosotros bajo nuestro amparo
Por las utilidades que acarrean.
La fuerza protegió a la raza fiera
De los leones y feroces bestias,
A las zorras el dolo y fuga a ciervos:
Empero el fiel y vigilante perro,
Y acémilas, y ovejas regaladas,
Y bueyes laboriosos son especies
Generalmente confiadas, Memmio,
A la guarda y tutela de los hombres:’ 

1314-
‘Cuando las hierbas, árbores y frutos
Que aún hoy dia produce en abundancia
Jamás pueden nacer entre si unidos.
Cada ser tiene su progresso propio,
Y confome a las leyes inmutables
De la Naturaleza entre sí guardan
Todas las diferencias de su espécie.’

Notas

  1. AEC: Antes da Era Comum; EC: Era Comum.
  2. Segundo o dicionario eletrônico Houaiss, verso hexâmetro é uma descrição do verso clássico grego ou latino composto de seis pés, podendo os quatro primeiros ser dátilos (que tem quatro tempos, sendo uma sílaba longa e duas subsequentes breves) ou espondeus (que tem duas sílabas longas, correspondente a quatro tempos), sendo o quinto dátilo e o sexto espondeu.Compilação: Joaquina Pires-O’Brien (UK)
  3.  

 

Pires-O’Brien, J., compiladora. Tito Lucrécio Caro (c.99 – 57 AEC). PortVitoria, Beccles, UK, v.12, Jan-Jun, 2016. ISSN 2044-8236, https:portvitoria.com

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro Sultans of Rome. The Turkish world expansion. (Os sultões de Roma. A expansão turca no mundo), de Warwick Ball. London, East & West Publishing, 2012).

Para Warwick Ball (WB), um arqueólogo australiano com extensa experiência em culturas antigas, não existe uma pura cultura Ocidental ou Oriental. Há bastante evidência arqueológica do intercâmbio cultural entre a cultura ocidental e a oriental resultante das incursões feitas nos territórios uns dos outros. WB reconhece o fato de que ‘cada cultura enxerga a história em relação a si própria’. Entretanto, reconhece também que conceito ‘Oeste versus Leste’ é errado, e que impede que a Europa reconheça os elementos orientais de sua cultura. Sultans of Rome trata dos turcos na Europa. É o terceiro livro de uma série de quatro intitulada ‘Asia in Europe and the Making of the West’, da East & West Publishing. O título deste livro foi tirado de uma citação dos turcos Seljúcidas após a vitória destes contra o exército bizantino do Imperador Romanes IV, em Manzikerta, em 1071, quando eles se declararam ser os novos sultões dos ‘Rum’, ou seja, da ‘terra dos Romanos’. Os outros três livros da referida série tratam dos fenícios e árabes (volume 1), dos persas (volume 2) e dos povos da estepe eurasiana conhecidos coletivamente como cíticos (volume 4).

Talvez por terem sido os últimos a chegar na Europa, ou talvez por seguirem uma nova religião que ameaçava a cristandade, ou ambas as coisas, os turcos atraíram uma má publicidade na Europa em comparação como outros povos orientais que ali se assentaram. O exemplo clássico disso é a representação dos otomanos que sitiaram Viena em 1683 como sendo asiáticos rudes e bárbaros. Entretanto, eles já viviam há mais de mil anos na Europa, e portanto a sua invasão não era diferente da dos romanos ou dos normandos. O outro exemplo que WB cita é mais recente. Trata-se da relutância da União Europeia (UE) de admitir a República da Turquia com membro. WB argumenta que o principal motivo pelo qual a Turquia não foi aceita como membro da UE é a continuada tensão entre a Europa e os muçulmanos, o que é uma justificativa inválida considerando que o secularismo é um dos pilares mais sagrados da EU.

WB começa a sua discussão sobre os turcos na Europa com as perguntas ‘o que é a Europa?’ e ‘o que é um turco?’ Pode surpreender a muitos leitores o fato de que a população da Turquia atual não se identifica como turca, pelo menos no sentido étnico, referindo-se a si próprios como anatolianos. WB cita comportamentos similares noutros países. A população da Bulgária considera-se eslava embora o próprio nome do país vem de ‘búlgaros’, uma tribo turca. Outro exemplo é o caso dos habitantes de uma região do meio do rio Volga que era habitada por turcos que ali permaneceram, e que hoje em dia se identificam como tártaros. WB cita o antropólogo social Fredrik Barth, que afirmou que ‘a identidade do grupo não passa de uma conveniência do momento’, o que ele julga correto, uma vez que leva em conta o fato de que as pessoas podem ter mais do que uma identidade.

O livro de WB é bastante acadêmico, mas as suas ilustrações, que consistem de 8 mapas e 98 pranchas coloridas, o torna acessível ao leitor leigo. As pranchas são úteis para capturar a imaginação do leitor sobre quem eram os turcos. Os mapas ajudam a entender as rotas de migração dos turcos: O mapa 1 mostra onde no mundo a língua turca é falada – não apenas na Turquia mas também em Quirguistão, Cazaquistão, Uzbequistão, Turquemenistão, e Azerbaijão. Entretanto, no texto do seu livro WB explica que existe significativas minorias turca na China, Rússia, Afeganistão, Irã, Chipre, Bulgária e Ucrânia. O mapa 2 mostra as áreas do mundo que em 2011 eram servidas pelas Aerolínhas Turcas. O mapa 3 delineia o primeiro e o segundo império turco, bem como as fronteiras do império sassânida, o último império persa antes da conquista turco muçulmana. O mapa 4 mostra as fronteiras dos impérios Gaznavida e Karakhanida. O império Gaznavida era o mais importante da Idade Média e o primeiro a levar o Islã até a Índia numa escala substancial. O ‘kagnato’ (império) Karakhanida era o original, que foi posteriormente subdividido nos ramos Oeste e Leste. Os karakhanidas são especialmente reconhecidos por terem introduzido a escrita turca no século onze. O mapa 5 mostra o império Seljúcida, na Anatólia e no Irã, ocupando uma área similar à do antigo império Aquemênida (persa). O mapa 6 mostra os territórios ocupados pelos seljúcidas na Anatólia em 1086 e em 1243. O mapa 7 mostra a distribuição dos turcos no mundo, incluindo os seus três grandes impérios: o Otomano (Anatólia, Norte da África, Israel, Líbano, Síria e Iraque), o Safávide (Irã, Turquemenistão e Afeganistão) e o Moghul (Índia). O mapa 8 mostra o Império Otomano no seu ponto mais alto, ocupando toda a região dos Balcãs – cujo nome vem das montanhas Balcãs do Sudeste da Europa, região que se estende do leste da Sérvia ao Mar Negro até o lesta da Bulgária, incluindo a Albânia, Bósnia & Herzegovina, Bulgária, Croácia, Grécia, Kosovo, República da Macedônia, Montenegro, Sérvia, Eslovênia e a porção europeia da Turquia –, bem como o Norte da África, Israel & Palestina, Líbano, Síria, Norte do Irã, Azerbaijão, Armênia e Geórgia.

Embora comumente ouvirmos referências à uma língua turca, na realidade não há uma língua turca mas muitas. Essas são classificadas num dos três troncos do grupo linguístico Altaico, juntamente com o mongol e o manchu-tungue. Embora o turco tivesse ganho uma forma escrita ainda no século oito, na Mongólia, com base na escrita arábica, a escrita turca só ficou estabelecida no século onze, também com base na escrita arábica. Eventualmente, quase todos os países falantes de turco mudaram para o alfabeto latino. Uma exceção é a dos uighures, uma das minorias turcas da China, que ainda usam a escrita arábica.

Antes de sua islamização, os turcos da China, Mongólia e das estepes eurasianas experimentaram diversas religiões como o zoroastrianismo, o maniqueísmo e até o cristianismo nestoriano. Em algum ponto eles abraçaram o budismo e o adotaram como religião oficial, apesar do budismo ser uma filosofia e não uma religião no sentido ordinário. A Europa encontrou os turcos depois da islamização destes, sob intimidação, o que ocorreu após a internacionalização do Islã, logo após a Revolução Abássida de 750, quando o califado foi mudado de Damasco para Bagdad. No ano 824 os árabes penetraram nas estepes de Oghuz (Cazaquistão) e capturaram cerca de dois mil turcos, que eles presentearam como escravos ao califa al-Mutawakkil. Tais escravos foram os primeiros turcos a entrar no Iraque. Um mercado de escravos turcos foi estabelecido onde crianças turcas eram sistematicamente tomadas como escravos. Um paralelo interessante que WB traça é com a metáfora europeia do ‘selvagem nobre’. Quando os turcos foram primeiramente mostrados aos árabes eles eram tidos como belos e bárbaros, da mesma maneira como os índios do Novo Mundo seriam percebidos pela Europa Ocidental daí a quase mil anos.

Os escravos turcos no Oriente Médio e no Norte da África eram conhecidos como ghulamos ou mamelucos. Eles se distinguiram como guerreiros, e foram colocados para servir em unidades especiais de mercenários dos exércitos muçulmanos. Devido à sua superioridade como guerreiros e ao fato de não estarem ligados às tribos locais, eles subiram na sociedade do Oriente Médio até que se tornaram o principal poder do sistema de califado muçulmano. O mundo islâmico gradualmente tornou-se turco. Depois de assassinar o Califa Al-Mutawarrkil em 861, os próprios turcos tornaram-se califas.

Sobre a ancestralidade étnica dos turcos, WB explica que aquilo que é conhecido foi compilado pelos chineses, e que assim como acontece em outras histórias antigas, há muitas especulações na história inicial dos turcos. Eles entraram na China e no interior da Mongólia no final do terceiro século da Era Comum (EC) como parte de uma aliança de tribos da estepe. Os seus líderes fundaram a Dinastia Wei do Norte da China em 386, centrado em Pingcheng, atual Tatung. Da China e Interior da Mongólia, os turcos atravessaram as fronteiras da Mongólia e sul da Sibéria, e eventualmente chegaram às estepes eurasianas onde eles se tornaram um dos grupos dominantes. Em 552 EC a Confederação Turca da China foi derrotada, e os turcos forçados a se mudar para as estepes da Mongólia, onde formaram o seu primeiro império ou ‘kaganato’ cujo primeiro imperador ou ‘kagan’ foi Bumin. Bumin foi sucedido pelos seus dois filhos Muhan (553-72), que governou a parte localizada na Mongólia, e Ishtemi (553-?) que governou a parte oeste, no atual Cazaquistão. Eles tinham uma cavalaria de elite conhecida como ‘lobos’, dotada de armadura metálica, considerada uma das razões do seu sucesso. Ishtemi ficou conhecido como sendo o líder que derrotou o Império Hephthalita (formado por um povo da estepe aparentado com os Hunos) da Ásia Central e da Fronteira da Índia. Ele foi ainda o primeiro turco a estabelecer relações diplomáticas com Constantinopla, para onde enviou um emissário, em 563, para propor uma aliança voltada a combater um inimigo comum, o Império Sassânida (persa), bem como os avaras, descendentes do grupo turco dissente Juan-Juan.

No início do século VII um conflito emergiu entre os impérios turcos do oeste e do leste. Esse último eventualmente se desintegrou e o seu povo foi absorvido por grupos de povos chineses. Por volta de 616/617 o Império Turco do Oeste penetrou-se no Império Sassânida (persa), que ocupava mais ou menos o mesmo território do Império Aquemênida (persa) precedente. Em 619 o Império Turco do Oeste fez novas conquistas, incorporando a Bacia do Tarima (Província Chinesa de Xinjiang), Ferghana (leste do Uzbequistão), Bactria (uma província do império persa localizada no atual Afeganistão, Uzbequistão, e Tajiquistão), bem como partes do Afeganistão e do norte do Paquistão, alcançando o rio Induz em 625. Após a morte do líder T’ung Yabgu em 630, o Império Turco do Oeste começou a se desintegrar. Um segundo Império Turco foi formado mas eventualmente se desintegrou.

O principal poder turco que emergiu entre diversos foi o dos seljúcidas. Esses últimos começaram a se mover na direção oeste para ‘terra dos romanos’: Irã, Iraque, Síria e Anatólia. Em 1071 os seljúcidas derrotaram o exército do imperador bizantino Romanes IV na batalha de Manzikerte, quando eles se proclamaram ‘sultões de Roma’. Entretanto, os seljúcidas não tinham interesse em estender a sua conquista à Anatólia. Com a passagem do tempo eles se miscigenaram com as famílias dos anatolianos, tanto de origem grega quanto romana. Conforme WB apontou, a derrota bizantina foi mais simbólica do que real: houve mais destruição à vidas e propriedades bizantinas em resultado da guerra civil ocorrida após a derrota em Manziquierte do que como resultado da própria Manziquerte’.

Os seljúcidas já se encontravam em declínio quando emergiu outro grupo turco: os otomanos, cujo nome é derivado de Osman ou Otman (Uthman, em árabe), seu primeiro líder. Em 1453 os otomanos conquistaram Constantinopla e a sua vitória marcou o fim do Império Romano do Oriente. Segundo WB, os livros de história europeus trazem muitos erros acerca dos otomanos que ele espera esclarecer. Alguns exemplos que ele cita são: (i) a afirmação de que a tomada de Constantinopla pelos turcos foi uma conquista asiática, (ii) a descrição dos otomanos como hordas oriundas das estepes asiáticas, e (iii) a representação dos otomanos como inimigos da cristandade. Conforme WB apontou, os otomanos eram muçulmanos e a sua expansão foi agressiva e até brutal, mas eles possuíam uma cultura altamente desenvolvida e eram tolerantes em relação ao cristianismo.

Sob o sultão Selim I, o novo Império Otomano fixou-se na Anatólia, de onde a Síria e o Egito foram incorporados. Após vencer a Pérsia, o Sultão Selim I adicionou todo o Oriente Próximo (de cultura árabe) ao seu império. Após ter conquistado Cairo em 1517, o Sultão Selim I acrescentou o título de Califa ao seu título. Ele foi sucedido pelo seu filho, Sulimão o Magnífico, que reinou de 1520 a 1566. O reinado de Sulimão é considerado como sendo o zênite do Império Otomano. Constantinopla permaneceu como uma capital mundial da cultura e até teve um Renascimento próprio.

Conforme WB apontou, os otomanos deixaram uma enorme pegada cultural nas áreas que ocuparam. O seu sistema conhecido como devsirme, que envolvia tirar meninos de suas famílias a fim de educá-los para o servir o Sultão, é considerado a primeira meritocracia da Europa. Outra instituição otomana, o kulliye, combinou o religioso com o secular, servindo como lugares de aprendizagem, bibliotecas, asilos e cozinhas de alimentar os pobres.

WB procede corrigindo uma outra ideia errada sobre os otomanos ligada ao papel das mulheres em sua sociedade, em especial a sua falta de direitos e de liberdade. Ele sublinha que embora a poligamia fosse aprovada pela lei muçulmana, apenas cerva de cinco por cento dos casamentos do século XVIII eram polígamos, enquanto que a segregação das mulheres não era diferente da praticada no resto da Europa no mesmo período. Outro engano acerca dos Otomanos que WB dissipa é a crença de que a sua derrota na Batalha de Lepanto em 7 de outubro de 1571, contra uma coalizão formada pela Espanha, Veneza, Gênova e os Cavaleiros de Malta, marcou o início do seu declínio. Tal engano é atribuído a Miguel de Cervantes, o autor hispânico de Dom Quixote, que lutou em Lepanto. Entretanto, Lepanto mudou pouca coisa para os otomanos e não estancou a sua expansão.

O Império Otomano representou o ápice dos feitos dos turcos e perdurou por mais de seis séculos até ser dissolvido em 1923. Começou a declinar depois de ser derrotado na guerra turco Russa de 1877-78. Em resultado desse conflito o Império Otomano perdeu um terço do seu território e os cristãos passaram a ser o maior segmento de sua população. WB tenta livrar os otomanos da acusação de ter perpetrado o massacre da população de armênios nas suas terras pouco antes do colapso de seu império. Ele sugere que a responsabilidade pelo massacre situa-se alhures uma vez que tanto os gregos quanto os armênios sobreviveram dentro do regime otomano.

Neste livro WB dissipa os principais mal-entendidos acerca dos turcos. Ele mostra que os turcos que se assentaram na Turquia começaram a sua marcha em direção ao oeste cerca de mil anos antes 1453, o ano em que conquistaram Constantinopla. Portanto, os turcos que sitiaram Viena em 1683, não eram bárbaros e sim uma cultura já estabelecida na Europa. WB também mostra que a Turquia atual foi o palco de diversas grandes civilizações incluindo não apenas os persas, os gregos e os romanos mas também algumas das civilizações mais antigas do mundo. A Turquia possui a maior concentração de sítios arqueológicos do mundo e a sua riqueza em ruinas clássicas gregas e romanas não tem equiparação em nenhum de seus vizinhos. Um último fio deste livro encontra-se na pergunta que deixa em aberto. Se a Europa interpretou errado tantos fatos acerca dos turcos antigos, não poderia ter também errado sobre a República da Turquia?

                                                                                                                                               

Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista cultural eletrônica para falantes de português e espanhol.

 

Abreviaturas

AEC: Antes da Era comum

EC: Era Comum

 

Key words: turcos, Turquia, Anatólia, império Seljúcida, seljúcidas, império Aquemênida, império Bizantino, império Otomano, Manzikerta, gregos, armênios, sítio a Viena, devsirme, caganato, história, arqueologia

 

Reconhecimentos

Revisão: Débora Finamore

 

Citation:

WARWICK BALL. Sultans of Rome. The Turkish World Expansion. London, East & West Publishing, 2012. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. Os Turcos na Europa. PortVitoria, UK, v.12, Jan-Jun, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro Towards one world. Ancient Pérsia and the West. (Em direção a um só mundo. A Pérsia antiga e o Oeste), de Warwick Ball. London, East & West Publishing, 2010).

Para Warwick Ball (WB), um arqueólogo australiano especializado em culturas antigas, a contribuição da Pérsia à Europa foi negligenciada, e o seu livro Towards one world objetiva corrigir isso. Para WB, ao singularizar a civilização grega para ser as suas raízes, a Europa gerou a falácia ‘Grego, portanto europeu’, que, por sua vez, originou duas ideias erradas: a máxima de que a cultura do Oeste é inteiramente ocidental e o estereótipo do ‘Oeste versus Leste’.

Um esclarecimento que WB fornece logo no início deste livro é sobre os nomes Pérsia e Irã. Ao contrário do que muita gente pensa, ‘Irã’ não é o nome moderno da ‘Pérsia’ e, sim, o nome mais correto desse país. A explicação é simples. O nome ‘Pérsia’ é uma forma helenizada de Farsi ou Parsi, uma província ao sul do Irã que faz limite com o Golfo Persa, enquanto que o nome ‘Irã’ deriva de ‘Eranshabar’, que significa ‘país do Irã’. O nome ‘Pérsia’ é o empregado neste livro, pois é assim que o Irã era conhecido na Antiguidade.

WB descreve a Pérsia antiga como uma civilização que era não apenas poderosa, como também sábia. A sabedoria da Pérsia antiga está implícita no próprio título desse livro, uma referência à antiga ideia iraniana de um único mundo universal que transcende fronteiras étnicas e políticas. O Oeste apenas desenvolveu uma ideia similar – o ‘universalismo’ –, durante o Iluminismo do século XVIII. Outro ponto que WB sublinha é que, embora a presença persa na Europa tivesse ocorrido nas suas margens e durado apenas 60 anos, o legado da Pérsia à Europa é comparável aos dos fenícios, árabes e turcos, que permaneceram no continente europeu por séculos.

Onde exatamente a Pérsia penetrou na Europa? Qual foi, exatamente, o legado persa à Europa? A presença da Pérsia na Europa foi deveras pequena e breve. Ocorreu quando a colônia grega Jônia e as terras gregas adjacentes à costa oeste da Anatólia (na atual Turquia) se tornaram parte do Império Aquemênida. Este último foi o império criado em torno de 550 AEC por Ciro, o Grande, a partir de uma coalizão de tribos persas sob a casa de Aquemênida, sendo o maior império da Antiguidade Clássica. Durou até 331 AEC quando foi conquistado por Alexandre, o Magno.

A fim de entender onde, na cultura Oeste, as ideias persas podem ser encontradas, é necessário, primeiramente, entender os três principais descritores do Oeste: a tradição religiosa judaico-cristã, a clássica filosofia grega e o conjunto de valores formados em torno da democracia liberal, tais como o conceito de ‘sociedade aberta’. Começando por esse último descritor, se considerarmos que uma sociedade aberta é uma sociedade aberta à influência externa, então a cultura persa antiga era uma. ‘O Império Persa criou um mundo internacional o qual permitia que as pessoas, mercadorias, ideias e a criatividade artística se movessem numa escala muito maior do que a da Rota da Seda’, afirma WB. Durante a sua presença na península da Anatólia, os persas impuseram uma unidade que não só sobreviveu o seu próprio império, mas também preservou a ideia de uma civilização capaz de dar e receber.

No tocante à tradição religiosa judaico-cristã do Oeste, esta absorveu muitos conceitos do zoroastrismo, uma religião persa, que já incluía as ideias de um único criador universal, do juízo final e do paraíso. E, quanto à filosofia clássica grega, o último descritor da cultura Ocidental, esta foi valorizada pelos persas muito antes de o Oeste decidir resgatá-la da lata de lixo da sua própria história. Embora seja comumente sabido que a Europa recuperou a filosofia clássica grega dos árabes muçulmanos durante a Renascença, foi dos persas que estes a adquiriram. Uma narrativa de como isso aconteceu é fornecida nesse livro. Tudo começou em 260 EC, quando o rei Shāpūr I, da dinastia sassânida persa, depois de ter vencido a batalha de Edessa (na atual Urfa, na Turquia), levou muitos prisioneiros romanos, incluindo o Imperador Valeriano, e enviou-os para diversas cidades recém-fundadas da Pérsia, especialmente Gundishapur (ou Jundaisabur), em Susiana. Gundishapur foi, não apenas, o centro de aprendizagem grega que recebeu os professores da Academia de Platão em Atenas, depois que esta fora fechada a mando do papa, como também foi um centro de traduções do grego para o siríaco – uma variação do aramaico e a língua oficial do Império Persa. Por acaso, o siríaco figura entre as primeiras línguas que adotaram o sistema de alfabeto que os fenícios inventaram no fim do segundo milênio AEC Depois que a Pérsia foi islamizada, os muçulmanos falantes de árabe acessaram, dos persas, os textos gregos clássicos que eles haviam preservado.

Outra coisa que percebemos nesse livro é que a arqueologia fez enormes avanços, desde que emergiu da atividade conhecida como ‘antiquariato’. Se, no início, a arqueologia corria atrás da história, hoje, é a história que corre atrás da arqueologia, graças às suas novas técnicas e aos seus novos métodos de estudar as relíquias do passado. No passado, os fortes elementos da arquitetura grega clássica impediram os estudiosos de se dar conta dos outros elementos culturais empregados conjuntamente, diz WB. Embora os persas antigos tenham tomado emprestado a arquitetura grega, eles, frequentemente, juntavam à mesma elementos de outras culturas. Um exemplo citado é o do túmulo de Mausolo (Maussollus) – um sátrapa, ou prefeito, da Anatólia, província do Império Persa, em Halicarnasso (na atual Bodrum, Turquia) –, considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. Durante muitos anos, o seu estilo foi considerado puramente grego; hoje em dia, é reconhecido que também há traços da tradição funerária da Anatólia.

A Pérsia antiga deixou uma influência duradoura não só na Europa, bem como na Ásia. A maior influência da Pérsia em todo o mundo está ligada à sua decisão prática de adotar, em vez da língua persa, o sírio-aramaico – então uma língua global –, como língua oficial do império. Devido a essa decisão, as línguas afins da Ásia Central, tais como o báctrio, o karostianida e o sogdiano, sobreviveram bem até o primeiro milênio da EC. Além disso, no século IX, os uigures adotaram a escrita aramaica-sogdiana para criar a escrita turca. Por último, mas não finalmente, temos o mongol que Gêngis Khan comissionou aos estudiosos uigures e que sobrevive até hoje, embora, durante a década de 1920, o seu alfabeto tenha sido trocado para o cirílico.

Conforme já mencionado, WB é um crítico ferrenho do conceito ‘Oeste versus Leste’ o qual, para ele, é um estereótipo que apenas atrapalha as relações entre os países. Um exemplo disso é o uso da frase ‘Oeste versus Leste’ para explicar o terrorismo praticado sob o manto do jihad islâmico. WB mostra que o Oeste tem uma parte da responsabilidade sobre isso, pois o jihad islâmico foi criado como uma contraofensiva à guerra santa das Cruzadas, uma ideia concebida em 622 por Heráclio, o imperador do Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino, (610-641), quando ele introduziu a ideia de que matar era uma ato de piedade sagrada, aprovada pela própria providência divina.

Desde a insurgência do Estado Islâmico (EI ou ISIS) até o programa nuclear do Irã e a enorme onda de refugiados sírios que chega à Europa, muitos dos problemas do século XXI estão ligados ao estereótipo do ‘Oeste versus Leste’. Para WB, pôr de lado tal estereótipo significa dar um passo à frente, a fim de encontrar o melhor curso de ação para lidar com tais problemas, pois isso facilitaria que as partes envolvidas dialogassem entre si.

O livro Towards one world transmite a mensagem de que a cultura persa não só permeou as sociedades helênicas e romanas, como também deixou marcas na sua religião e no seu modelo e organização política. Este livro endireita uma gama de vieses e enganos históricos sobre o relacionamento entre a Pérsia e a Europa.

Embora o primeiro alvo desse livro sejam os europeus, há nele uma delicada sugestão de que também serviria aos iranianos anglófilos, contida nas seguintes afirmações: (i) A Pérsia antiga já foi uma sociedade altamente tolerante e pluralista; (ii) a civilização persa sobreviveu à investidura do Islã; e (iii) a nova Pérsia que emergiu era diferente da antiga.

Uma pergunta que WB deixa subentendida é: quanto dos valores da antiga Pérsia ainda estão latentes nas mentes das pessoas da República Islâmica do Irã que existe desde 1979?

O livro de WB é de nível acadêmico, mas é também acessível ao leitor leigo, o que se deve à clareza das ideias do autor e às belas e didáticas ilustrações oferecidas. As visões de WB são equilibradas e podem ser tomadas como uma contribuição ao processo de encontrar uma solução pacífica para os problemas que afetam tanto o Oeste quanto o Irã. Embora não haja uma resposta simples, esse livro pelo menos aponta a direção certa. Ele termina com um poema escrito no século XIII pelo poeta persa Sadi, gravado no hall de entrada do prédio das Nações Unidas em Nova Iorque:

The sons of Adam are limbs of each other,

Having been created of one essence.

When the calamity of time affects the limb

The other limb cannot remain at rest.

If though hast no sympathy for the troubles of others

Though art unworthy to be called by the name of a human.

Sadi, Gulistan ou ‘O Jardim das Rosas’, Livro I x (ca. 1259)

 

Versão em português (Wikipedia):

Os seres humanos são parte de um todo,

Na criação de uma essência e alma.

Se um membro sofre dor,

Outros membros permanecerão inquietos.

Se você não tiver simpatia pela dor humana,

Você não pode reter o nome de humano.

                                                                                                                                               

Jo Pires-O’Brien é uma brasileira que reside na Inglaterra de onde ela edita a revista eletrônica PortVitoria, sobre a cultura ibérica no mundo.

 

Abreviaturas

AEC: Antes da Era comum.

EC: Era Comum

 

Key words: persa, Pérsia, Irã, Anatólia, Império Aquemênida, gregos, Grécia, Ciro, Alexandre, Aristóteles, Sadi, Gulistão, sogdiano, siríaco, aramaico, Mausolo, Halicarnasso, Bódrum, Gundishapur, jihad, Guerra Santa, história, arqueologia

 

Reconhecimentos

Revisão: Débora Finamore

 

Citation:

WARWICK BALL. Towards one world. Ancient Pérsia and the West. London, East & West Publishing, 2010. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. As conexões iranianas da Europa. PortVitoria, UK, v.12, Jan-Jun, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Joaquina Pires-O’Brien

O humanismo é a ideia de que a ética e a governança política devem basear-se no melhor conhecimento existente sobre a natureza, o qual, por sua vez, refere-se às melhores teorias correntes sobre o mundo, incluindo a condição humana. O humanismo é um tópico tratado pelos filósofos éticos, notadamente pelo britânico A. C. Grayling. Este afirma que o humanismo não é uma doutrina acabada, mas, sim, um caminho de vida no qual cada indivíduo trabalha em direção a objetivos que ele próprio escolheu com base nos valores humanistas. Pela própria definição, o humanismo tem bastante afinidades com o secularismo ou governança social secular ou laica, e com o ateísmo, que se refere à negação da existência de agenciamentos ou agentes sobrenaturais.

O entendimento dos valores humanistas requer compreender o sentido da palavra ‘ natureza’ e de seus derivados, o que pode ser um pouco confuso pelo fato de que ‘ natureza’ vem de ‘natural’ e ‘natural’ é, geralmente, entendido pela contraposição com ‘artificial’, ou seja, com as coisas que o homem construiu ou modificou. Portanto, quando pensamos em ‘natureza’, em geral, estamos pensando em paisagens, plantas ou animais; enfim, em coisas que estão próximas de nós, aqui mesmo no nosso planeta. Na filosofia, entretanto, a natureza é entendida contrastando-a com aquilo que não é natureza, ou seja, com o sobrenatural, termo que significa simplesmente ‘ aquilo que fica além da natureza’. Portanto, para a filosofia, ‘natureza’ é todo o universo físico, abrangendo matéria, energia, constituintes do mundo biológico, seres vivos, incluindo os seres humanos, bem como a sociedade humana e seus produtos. As demais coisas que não têm uma existência física, como as entidades e fenômenos sobrenaturais, sejam do folclore sejam da religião, como bruxas, fadas, duendes, anjos, demônios, espíritos, fantasmas e milagres, são designadas pela filosofia como ‘sobrenaturais’.

Críticas ao humanismo
Embora existam muitas críticas negativas ao humanismo, tais críticas devem ser tomadas como algo positivo, mesmo porque uma crítica é sempre melhor do que um silêncio. A reconhecida justaposição do humanismo com o ateísmo faz com que uma boa parte das críticas ao humanismo coincida com aquelas dirigidas ao ateísmo. Ateístas tendem a ser vistos com receio e, às vezes, como inimigos da sociedade, como é o caso do pensador britânico Richard Dawkins, notabilizado pela estridente campanha em favor do ateísmo. Também o humanismo incorre no risco de ser escorraçado pelos zelotes da religião, devido à sua pretensão de trocar a crença por princípios verdadeiros. Entretanto, os humanistas de um modo geral concordam que o humanismo deve ser disseminado com sensitividade, a fim de não alienar os interlocutores religiosos porém módicos, cuja participação no diálogo é considerada um avanço.

Outra crítica aplicável tanto ao humanismo quanto ao ateísmo é a pouca representatividade das mulheres. O humanismo da Antiguidade foi um humanismo pela metade, pois a maioria dos sábios desse período não aceitava que as mulheres tivessem a mesma capacidade intelectual que os homens. A única exceção conhecida é Sócrates, que, num dos seus diálogos escritos por Platão, afirmou que não existia nenhuma ocupação a qual não pudesse ser exercida tanto por homens quanto por mulheres, e defendeu a educação igual para homens e mulheres na sociedade ideal imaginada por Platão. Todavia, a opinião de Sócrates não foi levada a sério pelos seus interlocutores. Apenas a partir do Iluminismo do século XVIII é que as mulheres começaram a ser incluídas nos meios intelectuais. Não obstante, a participação das mulheres nos debates intelectuais tem crescido com demasiada lentidão. Todos os principais porta-vozes do ateísmo moderno são homens: Friedrich Nietzsche, Karl Marx, Charles Darwin, Sigmund Freud, Richard Dawkins, Christopher Hitchens, Sam Harris e Daniel Dennett.

O humanismo tem recebido duas críticas específicas. A primeira é que tem se apresentado como se fosse uma religião. A segunda é que não vale pena buscar valores baseados nas pessoas, pois a natureza humana é corrupta e vil.

A primeira crítica é baseada nas cerimônias promovidas pela Associação Humanista Britânica, que possui uma rede de celebrantes acreditados que presidem funerais, casamentos e uniões cíveis e cerimônias de dar nomes a bebês. A introdução de tais cerimônias ocorreu em resposta à grande crítica feita à abolição das religiões: o que é que vamos colocar no lugar das mesmas. O humanismo organizado é uma agremiação secular e não uma religião. Seja qual a designação dada ao humanismo, este não tem o principal caracterizador da religião que é o agente ou agentes supernaturais.

A outra crítica ao humanismo, de que não vale pena buscar valores baseados nas pessoas, pois a natureza humana é corrupta e vil, é rebatida por dois argumentos. O primeiro é a visão otimista do humanismo, que enxerga a corrupção humana como uma espécie de erro no processo de seleção natural, que deve diminuir à medida que o conhecimento avança. O segundo argumento é o fato de que natureza humana é o que é, independentemente de crenças religiosas. O filósofo Daniel Dennet cita um estudo o qual revelou que não existe nenhuma evidência de que as pessoas que não creem no derradeiro prêmio ou punição sejam mais propensas a matar, estuprar, roubar ou quebrar promessas feitas. Dennett também cita outro estudo, na área dos valores de família, o qual revelou que ateístas tinham a menor proporção de divórcios e que cristãos renascidos, a maior.

Origens do humanismo
Há duas suposições erradas sobre a origem do humanismo. A primeira é a de que humanismo surgiu no Renascimento, uma suposição baseada na existência de um ‘ humanismo renascentista’. A segunda é a de que o humanismo é contemporâneo, uma vez que o secularismo e o ateísmo nos quais se baseia também o são. Contudo, o chamado ‘humanismo renascentista’ refere-se ao estudo das humanidades no Renascimento e não ao humanismo objeto deste ensaio. Conforme mostrou Grayling, o estudo das humanidades no Renascimento ocorreu sempre sob a vigia constante das autoridades eclesiásticas, quer da Igreja Católica, quer das Igrejas Reformadas. Greyling mostrou, ainda, que isso não significa que não havia humanistas durante o Renascimento, mas, apenas, que o pensamento humanista no Renascimento era o mesmo da filosofia clássica grega e romana.

Na época clássica, já havia filosofias de caráter humanista como o debate sobre o bem viver, a tranquilidade e segurança interior (ataraxia) e o dever. Sócrates, cujas ideias chegaram até nós através de Platão, encorajava as pessoas a pensar seriamente sobre as suas vidas. Platão desenvolveu as noções do ‘bem’ e do ‘bem viver’ de Sócrates, mostrando que as pessoas têm uma alma na qual reside não só a razão como também as emoções (timo), e que é preciso proteger a razão do domínio das emoções, caso contrário, o indivíduo se torna um escravo das coisas que são evanescentes, como riquezas e prazeres corporais. O humanismo de Platão aparece com mais firmeza no dilema de Êutifron, um exemplo da circularidade do argumento da moral religiosa: um determinado ato é errado, porque uma divindade afirmou que é; ou é proibido pela divindade, porque é errado?

Dentre os antigos, Aristóteles foi o que mais contribuiu para o humanismo pelo fato de ter desenvolvido uma filosofia ética, baseada inteiramente na análise do comportamento humano e focalizada no desenvolvimento do bom caráter. Aristóteles fez isso, aplicando a noção do bem viver às coisas práticas, isto é, fazendo da virtude a própria razão prática. No seu livro Ética a Nicômaco, Aristóteles afirma que a felicidade é a vida plena, na qual a alma (psyche) age de acordo com a virtude (arete). Esse tipo de felicidade é o bem supremo (summum bonum) que dá o objetivo e mede o valor de todas as atividades humanas, e somente está disponível aos indivíduos realmente livres. Nesse mesmo tratado, Aristóteles questiona as disposições (hexeis) da pessoa para fazer algo ou desejar uma coisa, e afirma que o homem virtuoso não almeja diretamente a felicidade, mas, sim, a realização.

Os valores humanistas continuaram a ser desenvolvidos nas duas escolas de filosofia do mundo helênico, que valorizavam a serenidade ou ataraxia: a dos epicuristas e a dos estoicos.

As escolas de filosofia ética
Os valores humanistas têm bastante afinidade com aqueles disseminados pelo epicurismo e pelo estoicismo, as duas principais escolas de filosofia ética. Ambas são naturalistas e baseiam-se na busca da felicidade (ataraxia) no sentido de serenidade e contentamento. A escola de Epicuro (341-270 a.C.) de Samos, ou epicurismo, pregava que as pessoas deviam buscar o prazer em referência às coisas imateriais e evitar sofrer com coisas que estão fora do nosso controle, como a ansiedade quanto à morte e ao que vem depois. A respeito da própria morte, Epicuro escreveu: ‘Eu não era; fui; não sou mais; não me importo.’. Estes dizeres tem sido frequentemente usados nos funerais humanistas na Inglaterra. Infelizmente, os valores do epicurismo foram, posteriormente, deturpados, passando a representar o hedonismo ou o apego às coisas materiais, que é o oposto daquilo que Epicuro pregava.

A outra escola de filosofia ética, o estoicismo, pregava que o desapego e o cultivo da temperança eram o caminho da ataraxia. O desapego para os estoicos significa ser indiferente ou neutro em relação às questões da vida, enquanto que a temperança significa ter autocontrole sobre os nossos pensamentos. Assim, o estoico se distancia das questões e evita se imiscuir em altercações, e encara, com coragem, as vicissitudes da vida que escapam ao nosso controle. Podemos considerar o estoicismo como um antecedente da ‘filosofia pública’ contemporânea, pois ganhou o suporte da população de elevado nível educacional, independentemente da classe social. De fato, os dois grandes expoentes do estoicismo, Epiteto (Epictetus, viveu no primeiro século) e Marco Aurélio (121-80), vieram de extremidades opostas de classe social. Epiteto era um escravo e Marco Aurélio foi imperador de Roma. Outros estoicos notáveis são Cícero (106-43 a.C.), Sêneca (2 a.C-65 d.C.) e o pensador árabe Averroes (1126-98).

Plutarco
O filósofo Plutarco (46-c.122) segue a mesma linha de ensinamentos pelo discurso e debate usada nos ‘Simpósios’ de Platão. O filósofo Grayling cita o seu ensaio ‘O Simpósio’, cuja tradução para o português é ‘O Banquete dos Sete Sábios’, a fim de ilustrar uma visão bastante humanista, que é a responsabilidade do indivíduo de se autoaprimorar a fim de alcançar a boa convivência. No seu ensaio, Plutarco descreve os diálogos dos filósofos convidados a um banquete no século VI AEC, no início da Antiguidade Clássica, na vicinalidade de Lequeum, próximo ao altar de Afrodite. O anfitrião do banquete é Periandro, originário de Corinto, um homem de um certo despotismo que havia sido rejeitado para o círculo dos sábios, mas que, apesar disso, gostava da boa companhia. Assim como Periandro, os sábios também gostavam da boa companhia e por isso aceitaram de bom grado o convite para o banquete. Eles eram: Tales de Mileto, Bias de Priene, Pítaco de Mitilene, Sólon de Atenas, Quílon de Esparta, Cleóbulo de Lindos e Anacarsi de Cítica. Plutarco introduz, ainda, outros personagens, incluindo duas mulheres, e outras narrativas. Durante a conversação do banquete, os sábios ponderaram que a preparação do banquete não era uma responsabilidade apenas do anfitrião, mas de todos os convidados. A preparação correta dos convidados a um banquete vai muito além do vestuário, pois o melhor ornamento do indivíduo é o seu caráter. Os bons convidados dão prazer pela boa conversação, enquanto os maus convidados são descorteses e incomodam os demais. Portanto, o convidado a um banquete tem a obrigação de saber conversar, o que requer uma longa preparação em termos de adquirir conhecimentos, ter opiniões e saber expressá-las e defendê-las.

Marco Túlio Cícero
Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) é o incontestado precursor do humanismo moderno. Tal é a importância de Cícero que são muitos os intelectuais humanistas que escreveram sobre ele. Durante o Renascimento, Cícero ganhou a admiração tanto dos intelectuais renascentistas quanto das próprias autoridades eclesiásticas, que imitaram o seu estilo nas traduções latinas da Bíblia. A obra de Cícero que mais se identifica com o humanismo é um ensaio dramático De Senectude (‘A Velhice’ ou ‘ Saber Envelhecer’, em traduções em língua portuguesa) escrito em 45 a.C., cujo protagonista maior é Marco Catão, o velho, em uma idade avançada. Outros dois personagens são Lélio, o jovem, e Scipio, o jovem. Na casa de Catão, Lélio e Scipio comentam que estão surpresos em ver como Catão estava bem pela idade dele e pedem-lhe conselhos. Cícero utiliza-se dos diálogos criados para pensar sobre a própria situação, visto que acaba de completar seus sessenta anos. Termina com o reconhecimento de que a velhice é o último ato do drama da vida, do qual devemos procurar escapar quando o este se torna pesado demais ou quando achamos que demos o que tínhamos que dar.

Tito Lucrécio Caro
Tito Lucrécio Caro (c. 99-57 a.C.) ou simplesmente Lucrécio, é conhecido pelo seu poema didático De Rerum Natura (Da Natureza das Coisas), escrito por volta de 50 a.C., em seis volumes de versos hexâmetros, nos quais ele explica as teorias de ponta acerca da origem do universo, ao mesmo tempo em que tenta erradicar a superstição e as crenças religiosas, as quais ele condena como fontes da maldade e da miséria humanas. Lucrécio valoriza o bem viver através da calma e tranquilidade. A importância de Lucrécio é que ele representa um estágio do desenvolvimento do conhecimento humano que foi atropelado pela chegada do cristianismo, o qual o difamou, fazendo com que sua obra fosse condenada e esquecida.

A obra de Lucrécio foi perdida e reencontrada apenas em 1417. Foi revalorizada no século XX, quando ganhou traduções para diversas línguas. Nela, Lucrécio faz uma crítica às superstições da sociedade romana e dá uma explicação sobre o mundo, inteiramente baseada na matéria da qual o mundo é formado, sem interferências supranaturais. Acerca das superstições, Lucrécio se refere ao medo do inferno, como mostram os versos abaixo citados:

‘Assim como as crianças, que no escuro tremem de medo e temem tudo, nós, na claridade, às vezes temos receio de certas coisas
que não são mais terríveis do que aquelas que as crianças temem
no escuro e pensam que acontecerão a elas’.

‘Na verdade, aqueles suplícios que dizem existir
no profundo Inferno, estão todos aqui, nas nossas vidas’

Quanto à explicação naturalística do mundo, um dos tópicos mais conhecidos, descreve a teoria atômica de Demócrito, sobre a qual ele menciona os átomos se movendo no espaço como as partículas de poeira na luz do sol. Lucrécio Giovanni Criatofolini, um professor de botânica de Bologna, Itália, chamou a atenção para o fato de que Lucrécio delineou as ideias da descendência com modificações, da sobrevivência das espécies melhor adaptadas, e da seleção natural, o que o torna o precursor da teoria evolutiva. Segundo Criatofolini, Darwin, possivelmente, desconhecia a obra de Demócrito, pois o único autor da Antiguidade que ele cita é Aristóteles.

O Iluminismo
O Iluminismo do século XVIII, movimento caracterizado pela primazia da razão e da ciência na resolução dos problemas políticos e sociais, permitiu que o humanismo moderno se estendesse da elite pensante à população leiga bem informada. O Iluminismo opôs-se às barreiras do progresso humano como a monarquia absolutista, a religião organizada, a superstição e o clericalismo. Os seus motes eram: tolerância, liberdade de pensamento e expressão, ciência e sociedade política apoiada no contrato social. Durante o Iluminismo, muitos filósofos e pensadores declararam abertamente ser ateístas, como o Barão de Holbach (Paul-Henri Thiry, 1723-89), Denis Diderot (1713-84), David Hume (1711-76) e o Marquês de Condorcet (Marie-Jean-Antoine-Nicolas de Caritat, 1743-94). O ideário iluminista sofreu um retrocesso a primeira metade do século XIX, o qual perdurou até 1859 com a publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin (1809-82). Em suma, no Ocidente, o Iluminismo gerou a sociedade secular moderna capaz de entender e valorizar o humanismo.

O caminho humanista
O caminho humanista rejeita tudo quanto é supranatural e, por esta razão, rejeita as religiões. Os humanistas entendem que a religião é um fenômeno natural, isto é, que evoluiu na sociedade humana, juntamente com diversos outros fenômenos também naturais como a música, consciência, cognição e gregarismo. A religião é considerada a mais robusta de todas as criações do homem, pois é defendida por uma dupla armadura, formada pela capacidade de colocar as pessoas sob um encantamento e por criar o tabu do questionamento.

Conforme explicou Grayling, o humanismo é o caminho de vida escolhido pelos humanistas, isto é, pelos indivíduos que optaram por viver de uma maneira cordial em relação aos outros e que buscam a vida de boa qualidade, através das relações com as demais pessoas. Isto inclui optar por decisões morais, baseadas no melhor conhecimento da natureza e da condição humana, sem expectativas egoístas e ingênuas de ajuda de algum agenciamento supranatural.

O humanismo não é uma doutrina, mas um caminho para a vida significativa, baseada inteiramente no respeito mútuo entre as pessoas. Tal respeito implica na aceitação de coisas até então vistas com certo receio como a autodeterminação sexual e o suicídio. O humanismo moderno reconhece a importância do bom relacionamento humano para com as demais pessoas.

Os apologistas da religião costumam definir o humanismo como um comportamento pós-moderno. Entretanto, conforme mostrou Grayling, o humanismo é uma ideia que pode ser traçada à diversos sábios da Antiguidade, desde Sócrates (469-399 a.C.), Platão (c.428-c.348 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) até Plutarco e Cícero. O banquete de Plutarco, por exemplo, representa a participação e a inclusão. Nele, os convidados conversam entre si, trocando ideias. Um dos tópicos que debatem é o que é necessário para que um evento desse tipo seja bem sucedido e concluem que a coisa principal é capacidade de os convidados de conversarem bem. Podemos comparar o sucesso do banquete ao sucesso da nossa vida e da nossa civilização. O saber conversar bem equivale à obrigação de nos engajarmos permanentemente no aprimoramento próprio, a fim de nos relacionarmos bem com os outros.

Embora o humanista seja, geralmente, um ateu, ele não busca convencer os outros a esse respeito. A moralidade humanista inclui encorajar as pessoas a enfrentar os problemas do presente e a ter fé no futuro. Faz isso sem rituais, sem mitos e sem promessas de punições ou premiações numa elusiva vida posterior. O caminho humanista envolve assumir a responsabilidade por encontrar o significado da própria vida. Como isso é feito? Em primeiro lugar, fazendo perguntas, para depois pensar, repensar e julgar por si próprio. Podemos imaginar o humanismo como um clube com certas regras, mas aberto a todos. Tudo que o é preciso para participar desse clube é manter abertos os olhos, a razão e a boa vontade para com nossos semelhantes.

Referências
Aristotle (1986). Nicomachean Ethics (Ethica Nicomachea), translated by W.D.Rodd, p. 339-436. In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief. Great Books of the Western World 9, Aristotle II. William Benton, Publisher, Chicago.

Criatofolini, Giovanni (2015). A Note on Darwin’s Harbingers. The Linnean, 31 (2) October, pp. 7-8.

Dennet, D. C. (2007). Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomena. Penguin. Kindle edition.

Grayling, A. C. (2009). Ideas That Matter: A Personal Guide for the 21st Century: The Case Against Religion and For Humanism. A Weidenfeld & Nicolson ebook.

Grayling, A. C. (2013). The God Argument: The Case Against Religion and For Humanism. Bloomsbury Publishing, London.

Law, S.(2011). Humanism. A Very Short Introduction. Oxford University Press.

Plato (1986). The Dialogues of Plato, translated by Benjamin Jowett. In: Maynard Hutchins, Robert, Editor in Chief, Great Books of the Western World 7, Plato. William Benton, Publisher, Chicago.

Plato (1989). Plato Symposium. Translated with Introduction & notes by Nehamas, A. & Woodruff, P. Hackett Publishing Company, Indianapolis and Cambridge.

Plutarch. Copyright. The work appears in pp345-449 of Vol. II of the Loeb Classical Library’s edition of the Moralia, first published in 1928. It is now in the public domain pursuant to the 1978 revision of the U. S. Copyright Code, since the copyright expired in 1956 and was not renewed at the appropriate time, which would have been that year or the year before. Fonte: Http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Plutarch/Moralia/Dinner _of_the_Seven*.html

Xenophon (1998). The Symposium. Translated by H. G. Dakyns. Ebook no 1181. Project Gutenberg.

Palavras-Chave: Plutarco, Plutarch, Xenofonte, Xenophon, Platão, Plato, symposium, simpósio, banquete, humanismo, iluminismo, A C Grayling, Grayling, Marco Aurélio, Epiteto, Cícero, Sêneca, Darwin, Daniel Dennett


Reconhecimentos

Revisão: Débora Finamore

Citation:

PIRES-O’BRIEN, J. O caminho do humanismo. PortVitoria, UK, v.12, Jan-Jun, 2016. ISSN 2044-8236

Fernando da Mota Lima

Sérgio Buarque de Holanda nasceu em São Paulo no ano de 1902. Era portanto muito jovem quando o modernismo irrompeu ruidosamente na cena cultural brasileira com a Semana de Arte Moderna em 1922. Embora intelectualmente muito atuante ao longo do decênio de 1920, também durante os anos seguintes, somente publicou seu primeiro livro em 1936, quando Raízes do Brasil veio a público. No entanto, o livro, tal como hoje o conhecemos, foi muito modificado entre a primeira edição e a segunda, que data de 1948. Apesar de confessadamente não encarar Raízes do Brasil como seu livro mais importante (preferia Visão do Paraíso, cuja importância capital se impõe cada vez mais aos olhos dos especialistas), o fato é que esta é a obra que o consagrou e se mantém como a mais significativa e estudada no conjunto da sua produção intelectual.

Sérgio Buarque viveu cerca de um ano e meio na Alemanha, entre junho de 1929 e dezembro de 1930. Menciono ligeiramente essa experiência porque teve muita importância na sua vida e formação, além de se refletir de vários modos no texto de Raízes do Brasil. Sérgio Buarque foi para a Alemanha como correspondente de O Jornal, periódico de propriedade de Assis Chateaubriand. Além de observar o clima de violência e tensão social que em 1933 culminou com a ascensão de Hitler e do partido nazista ao poder, leu muito da produção intelectual alemã desconhecida no Brasil. Leu em particular Max Weber e Georg Simmel. Do primeiro aproveitou o conceito de patrimonialismo para melhor compreender a formação do Estado brasileiro e seu aparato burocrático; com o segundo refinou sua percepção analítica dos tipos sociais que certamente ilumina categorias como o semeador e o ladrilhador, núcleo e título do capítulo 4 de Raízes do Brasil.

Desde já esclareço que as citações diretas que acaso faça da obra no texto que segue serão extraídas da edição comemorativa dos 70 anos organizada por Ricardo Benzaquen de Araújo e Lilia Schwarcz, Editora Companhia das Letras, 2006. Além de ser uma edição previsivelmente bem mais ampla e melhor cuidada do que todas as precedentes, vem enriquecida por textos do próprio autor e de estudiosos e especialistas, arrematados pelos “Apontamentos para a cronologia de Sérgio Buarque de Holanda” assinados por Maria Amélia Buarque de Holanda, sua companheira e colaboradora da vida inteira. Além de republicar o sempre citado prefácio de Antonio Candido escrito para a edição dos 30 anos de Raízes do Brasil, são adicionados textos importantes de Alexandre Eulálio, Evaldo Cabral de Mello, Bolivar Lamounier, Antonio Arnoni Prado, Pedro Meira Monteiro e Robert Wegner.

Enriquecem ainda o volume três documentos raros: o muito citado artigo no qual é reposta a controvérsia entre Cassiano Ricardo, autor do artigo, e Sérgio Buarque de Holanda acerca do conceito de homem cordial. Como sabemos, esse conceito, central na argumentação do livro de Sérgio Buarque, tem sido objeto de ampla fortuna crítica, mas também de muito mal-entendido. O mal-entendido aparenta originar-se das críticas formuladas por Cassiano Ricardo. Portanto, é oportuna a inclusão do seu artigo na edição que comento acrescido da resposta de Sérgio Buarque em forma de carta endereçada a Cassiano Ricardo. Essa questão é ainda melhor iluminada pela inclusão de um curto texto de Ribeiro Couto, datado de 1931, no qual ele saúda o surgimento do homem cordial na América originário da fusão do homem ibérico (o espanhol e o português) e as culturas nativas do Novo Mundo. Cuidarei melhor dessa questão no lugar apropriado, quando abaixo discutir o capítulo relativo ao homem cordial brasileiro. Por fim, um texto ainda mais precioso: o ensaio “Corpo e alma do Brasil”, publicado em 1935. Nele Sérgio Buarque sintetiza o que no ano seguinte constituiria a primeira edição de Raízes do Brasil. Como já observei no parágrafo de abertura, a obra foi refundida e ampliada na segunda edição, lançada em 1948, que passou a ser o texto definitivo da obra que estudamos.

O título da obra já indica, de partida, sua regressão às origens da nossa formação histórico-cultural com o propósito de explicar o Brasil. Essa é uma característica comum a todas as obras que compõem a tradição do pensamento social brasileiro. No caso do livro de Sérgio Buarque, porém, o objetivo de estudar o passado visando as questões fundamentais do presente é bem mais nítido, como aliás ressaltou Antonio Candido. Uma das evidências imediatas desse fato consiste nos títulos e na matéria dos dois capítulos finais intitulados “Novos Tempos” e “Nossa Revolução”. Sérgio Buarque recua portanto a nossas origens histórico-culturais para projetar luz sobre o presente, para melhor compreender e esclarecer os problemas fundamentais e impasses da sociedade brasileira.

O autor ressalta nas páginas iniciais duas questões de grande relevância no conjunto da obra. A primeira refere-se ao processo de implantação da cultura europeia no trópico, fator originário da constituição da cultura brasileira. Depois de acentuar as diferenças profundas observáveis entre esses dois mundos que se encontram, entrechocam e por fim geram uma realidade inteiramente nova, Sérgio Buarque escreve um dos períodos mais citados da sua obra: “Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”. (p. 19)

A segunda questão diz respeito à cultura da personalidade típica do homem ibérico. Depois de observar que representou o traço mais importante desse povo, esclarece que ela traduz o valor, a originalidade de cada pessoa que assim se diferencia da coletividade e até a esta se opõe. Salientando a oposição entre o culto da personalidade e as formas de associação características de toda coletividade, Sérgio Buarque assinala que essa forma de personalismo ibérico constituiu e constitui ainda na nossa cultura uma força de oposição à coletividade, além de estar na raiz das forças anárquicas e desordenadoras da nossa sociedade. Paradoxalmente, ela supõe a obediência, que se afirma notadamente em situações de crise de autoridade. Como justamente anota, “Em terra onde todos são barões, não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida”. (p. 21).

Assim, na terra onde medra o personalismo altaneiro, não raro arrogante, em termos políticos o autoritarismo típico da América Latina, medra também a obediência imposta por uma autoridade temida nos momentos de crise. A terra do personalismo ibérico é também fértil na produção de forças sociais anárquicas, como também já ressaltei. Sérgio Buarque acrescenta, a esse propósito, que essas forças sempre se manifestaram na nossa história, não raro favorecidas pela cumplicidade e a leniência das instituições. Importaria esclarecer, visando melhor contextualizar a obra, que ela foi escrita em meio a esse clima no qual se manifestavam forças anárquicas representadas por rebeliões armadas e combates ideológicos e conflitos violentos travados por comunistas e integralistas, ambos buscando soluções políticas e sociais avessas à democracia. É significativo que o Estado Novo, instituído através de um golpe de Estado por Getúlio Vargas em 1937, portanto no ano seguinte ao da publicação de Raízes do Brasil, tenha imposto essa autoridade temida diante da qual o personalismo assina o pacto social da obediência. Como sabemos, o Estado Novo vigorou até 1945. Depois de um período conturbado, durante o qual o Partido Comunista manteve-se na legalidade apenas por um curto período, sobreveio o golpe militar de 1964 e a ditadura militar que se prolongou até 1985. Esses poucos fatos históricos conferem força explicativa ao livro de Sérgio Buarque.

Penso que as forças anárquicas sublinhadas na obra de Sérgio Buarque também se manifestam em âmbito distinto do estritamente político acima mencionado. Elas são observáveis, por exemplo, no cotidiano da nossa cultura, na nossa incapacidade crônica de instituirmos relações de convívio baseadas na distinção fundamental entre a esfera pública e a privada. Nossas forças de desregramento social são facilmente visíveis numa cena qualquer de rua, no estado típico de uso e conservação da rua. Afinal, é ela quem define culturalmente a concepção inconsciente e a prática de sentido público que imprimimos à nossa experiência social.

Outra questão relevante, também salientada por Sérgio Buarque, liga-se à condição excêntrica do mundo ibérico na Europa. Essa excentricidade resulta tanto da posição geográfica da península ibérica, espremida entre o continente europeu e o africano, quanto de caracteres culturais diferenciadores fruto do contato do ibérico com o árabe e o judeu. Essa experiência de contato cultural com povos do continente africano familiarizou o português com a mestiçagem e lhe foi de grande utilidade no processo de colonização do Brasil onde desde o início, como bem sabemos, livremente se mesclou com as tribos indígenas através do acasalamento com a mulher índia, mais tarde com a negra. Trata-se, em suma, de uma questão antes bem explorada por Gilberto Freyre em CasaGrande & Senzala. Portanto, Sérgio Buarque apenas reitera o que se pode ler nas páginas da obra do seu antecessor.

Retomando a questão pertinente ao culto da personalidade, ela se irmana ao conceito de cordialidade que estudarei adiante. O personalismo ibérico, tão acentuado no livro de Sérgio Buarque, atua como força avessa à organização coletiva da sociedade. Quando se associa, tende a associar-se baseado em relações de sentimento, não de interesse. Esse é um dos aspectos em que é possível notar a profunda diferença entre o individualismo moderno, típico da tradição anglo-saxônica, e o personalismo ibérico. Este produz um tipo de individualismo com razão detestado e detestável, pois se afirma indiferente aos interesses e direitos coletivos. Noutras palavras, o que entre nós ainda vigora não é o princípio segundo o qual minha liberdade termina onde a do outro começa, mas sim o princípio que autoritariamente ordena: os incomodados que se mudem.

Caberia ainda acrescentar, nesse paralelo sumário entre o individualismo de extração anglo-saxônica e o personalismo ibérico, que este mascara interesses explícitos naquele. Já que se baseia nas relações de sentimento, o personalismo rejeita a atuação dos interesses nas relações associativas. Assim procedendo, tende a mascará-los, além de sempre reprovar quem acaso tenha a consciência de explicitar esta verdade elementar: as relações humanas em geral envolvem interesses unilaterais ou recíprocos. Se o individualismo moderno é em muitos sentidos reprovável, na medida em que encoraja em demasia os interesses de ordem privada, tem ele a vantagem de reconhecer sem máscara ou isento de inconsciência danosa o lugar efetivo que os interesses ocupam nas relações humanas. Nosso personalismo, atado às razões sentimentais, repele o individualismo consciente e prático, mas é pautado por interesses inconfessáveis ou inconscientes como os que latejam nessa frase modelar da nossa cultura: antes ter amigos em casa do que dinheiro na praça. Ou ainda esta: para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei.

Concluo essas considerações em torno de alguns aspectos de Raízes do Brasil tecendo algumas anotações relativas ao capítulo intitulado “O homem cordial”. Além da importância fundamental que desempenha no conjunto da obra, o conceito chave aí exposto por Sérgio Buarque, o da cordialidade brasileira, tem dado margem a muito mal-entendido. Houve quem erradamente o interpretasse lendo efetivamente o livro, como foi o caso de Cassiano Ricardo, e houve sobretudo quem remasse nessa canoa furada simplesmente por opinar sem o ler. A canoa furada consiste, noutras palavras, em interpretar cordialidade como sinônimo de bondade. Daí não faltou quem concluísse que Sérgio Buarque de certa forma endossava interpretações ufanistas do Brasil ao caracterizar o brasileiro como acima de tudo bom. Tentarei esclarecer agora esse equívoco indo ao próprio texto da obra.

O próprio autor, visando corrigir a incompreensão de Cassiano Ricardo, assim como de tantos que traduzem cordialidade num sentido incompatível com aquele contido em Raízes do Brasil, cuidou de inserir na obra, a partir da segunda edição, longa e esclarecedora nota explicativa. A ela agora se acrescenta, a partir desta edição comemorativa dos 70 anos em que me baseio para a redação destas notas, a carta que escreveu para Cassiano Ricardo em setembro de 1948. Divergindo deste, que identifica cordialidade com polidez e opõe cordialidade a bondade, Sérgio Buarque deixa claro, aliás desde o texto da primeira edição, conceber a cordialidade como a expressão dos vínculos de cunho emotivo característicos das relações sociais brasileiras. Essa característica, de resto, irmana o conceito de cordialidade com o do culto da personalidade, como acima observei.

Indo adiante na intenção de bem esclarecer o desacordo, Sérgio Buarque alude à etimologia da palavra cordial. Procedendo do latim cordis, isto é, “relativo ao coração”, às expressões humanas de fundo emotivo procedentes do coração, visa ele acentuar a descontinuidade, ou melhor, a oposição entre as relações de fundo emotivo ou pessoal, típicas do homem cordial, e as relações de base legal, que entendo características da democracia moderna baseada nos valores de cunho impessoal, universal e abstrato típicos da ordem legal inspirada no individualismo moderno. O sentido que procuro aqui esboçar parece-me evidente já na abertura do capítulo “O homem cordial”, onde o autor começa por ressaltar a descontinuidade, ou mais exatamente a oposição, entre a ordem familiar, notadamente a ordem familiar patriarcal típica da formação da cultura brasileira, e a ordem do Estado. Como Sérgio Buarque acertadamente pontua, o Estado precisou negar a ordem privada da família para se constituir como expressão política das leis impessoais e abstratas da Cidade. Daí também deriva a oposição clara que estabelece entre cordialidade e polidez. Também nesse ponto volto a recorrer à etimologia, embora Sérgio Buarque não repita esse procedimento que emprega para melhor esclarecer o sentido de cordial, cordialidade. O ser polido é aquele cultivado, educado pelas leis da polis, isto é, da cidade politicamente organizada. Penso que a oposição que o autor fixa entre a ordem familiar e aquela instituída pelo Estado é da mesma natureza da que opõe o homem cordial ao homem polido.

Negando ao brasileiro esta qualidade, a da polidez, o que Sérgio Buarque pretende mais uma vez enfatizar é a prevalência na nossa cultura das relações de fundo emotivo enraizadas no coração. Ora, ele nitidamente identifica nessa nossa característica um traço negativo que precisaria ser superado pela ordem social em formação naquele período, aludo à época em que o livro foi escrito, para que no Brasil efetivamente se realizasse uma democracia moderna, isto é, baseada no império das relações legais, que como tal suprimem os valores oriundos do culto da personalidade e do homem cordial. Em suma, a ordem legal na qual passariam a dominar relações legais baseadas em princípios universais e abstratos.

Fazendo uma aposta otimista acerca do nosso futuro, Sérgio Buarque acreditou que essa nova ordem triunfaria graças ao processo de urbanização em marcha acelerada, à instituição de novos métodos educativos e práticas de organização do trabalho, casos exemplificados no capítulo que comento. Embora acentue ainda a predominância do funcionário patrimonial em oposição ao burocrata, parece-me também clara sua convicção de que este se imporia àquele. Temos aqui uma outra ordem de oposição clara. Enquanto o funcionário patrimonial prende-se à ordem tradicional associada à família patriarcal que se projeta sobre a ordem política privatizando a esfera pública, o burocrata pauta sua função pelos mesmos princípios impessoais e abstratos observáveis na instituição do Estado moderno. Os exemplos que o autor expõe acerca da psicologia moderna aplicada à educação também reiteram e reforçam a oposição que percorre todos os pares acima considerados. Portanto, entendo que em resumo o universo das relações cordiais identifica-se com o império das relações de fundo emotivo, pessoais e antidemocráticas. No outro extremo, situam-se as relações de fundo legal, típicas da democracia moderna.

No frigir dos ovos, se minha interpretação é correta, sem dúvida avançamos em muitos sentidos em direção à ordem legal e democrática postulada na obra de Sérgio Buarque. Ele postula essa mudança e nitidamente declara a esperança de que ela venha a se consumar na sociedade brasileira. Embora possamos constatar avanços inegáveis na direção apontada, infelizmente o homem cordial é ainda uma realidade muito viva na nossa cultura. Seus valores são ambivalentes, como aliás já o reconhecia o autor. Se de um lado estão enraizados em muito da nossa espontaneidade, da nossa aversão a ritualismos estéreis, mas também a ritualismos em geral, e aí a coisa já complica o sentido dos ganhos entre espontaneidade e formalismo social, de outro lado eles estão nas raízes das nossas relações desiguais, do favorecimento dos parentes, amigos e apadrinhados, da ordem social baseada no privilégio e, no limite, na apropriação corrupta do público pelo privado.

Concluindo, o Brasil encontra-se já no início do século 21, sua economia está entre as dez mais poderosas do mundo, mas no âmbito cultural e institucional continuamos nos balançando sem solução entre os valores da cordialidade, ou das relações de fundo emotivo e pessoal, e os valores da ordem social democrática baseada em relações legais de fundo universal e abstrato. Pior para a maioria e portanto para o conjunto da nação, ainda atada a uma ordem de realidade cultural que bem justifica a frase famosa de Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”. Sendo assim, as explicações aqui estudadas sem dúvida muito nos esclarecem, mas não são nem podem ser a solução dos problemas que entravam nosso ingresso na modernidade plena. A solução, suponho, depende de transformações socioculturais e econômicas profundas, que ninguém sabe quando se completarão.

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Fernando da Mota Lima é poeta, ensaísta, resenhista, crítico cultural e professor universitário aposentado. É também membro do conselho editorial de PortVitoria.

Nota

Ensaio publicado inicialmente no blog do autor em junho de 2011.

Fonte: http://fmlima.blogspot.com/

 

Citação

Mota Lima, F. de. Raízes do Brasil. PortVitoria, UK, v.12, Jan-Jun, 2016. ISSN 20448236, https://portvitoria.com

Joaquina Pires-O’Brien

The last year (2015) has been troublesome throughout the world and especially for those individuals affected by failed governments and afflicted by civil wars. What has been positive is that there are great minds illuminating the troubles of mankind, although there is a caveat in the necessity of good public opinion to make use of this light. We can contribute to a good public opinion by learning to think for ourselves and practice this ability in our daily lives. A good public opinion is also crucial to distinguish the knights and the knaves among the intelligentsia. Without it, society is vulnerable to wacky leaders and their radicalisms. While a good public opinion is a defining element in all mature democracies, a trait that reoccurs in all immature democracies is the inability to recognise intelligence, home grown or otherwise.

Almost two and a half centuries ago, the West embraced secularism, following the lead of the great minds of the Enlightenment. Now, the greatest minds of the twenty-first century are trying to persuade humanity of the need to defend life here, and to consider the alternative of a post-theistic morality. Two outstanding minds at the forefront of this movement are Anthony C. Grayling and Daniel Dennett. Grayling is Professor of Philosophy and Master of the New College of the Humanities, in London, while Dennett is an American philosopher, writer, and cognitive scientist. Their ideas are greatly relevant to the troubles of the twenty-first century and are contained in my essay O Caminho do Humanismo (The Path to Humanism), published in this edition.

The two books reviewed in this edition are individually about the Persians and the Turks, two Eastern cultures at the centre of the global problems. They are both by Warwick Ball, an Australian-British archaeologist specialised in ancient cultures, and are part of a series of four entitled ‘Asia in Europe and the Making of the West’, by East & West Publishing. The first is Towards one world: Ancient Persia and the West, and the second is Sultans of Europe: The Turkish world expansion. Warwick Ball’s main idea is that the chasm that separates the West from the East is more psychological than real and the sooner the world understands this the better it will be in terms of good relations between West and East. I hope that you enjoy the reviews and that you may even be prompted to read the books.

January 2016

Citation:

Pires-O’Brien, J. Editorial. The knights out there. PortVitoria, UK, v.12 Jan-Jun, 2016. ISSN 2044-8236.