Retrospection: Agassiz’s Expeditions in Brazil

But for Agassiz, the trip to Brazil was about more than science. Not only was evolution – a process not immediately observable to the human eye – deeply antithetical to Agassiz’s staunch empiricism, evolution was profoundly at odds with his perceived world order.

Michelle Y. Raji

Three decades after the then-obscure scientist Charles Darwin quietly sketched his now-famous finches aboard the HMS Beagle in the Galapagos, influential Harvard professor Louis Rodolphe Agassiz set out with much greater fanfare on a lesser-known expedition. In 1865, Agassiz and his wife, accompanied by a small group of Harvard scientists and students [including the 23 years old William James], set sail from New York to Rio de Janeiro on The Colorado.

In a lecture en route to Brazil, Agassiz challenged Darwin’s revolutionary theory of evolution on the grounds that the theory relied too much on argument and too little on fact. Agassiz posited that evolution was not plausible according to the geologic record. The trip to Brazil was an attempt to disprove Darwin once and for all. Agassiz saw in the unique biodiversity of Brazil a perfect laboratory to test his counter-theories of phylogenetic embryology and glacial catastrophe in the tropics.

But for Agassiz, the trip to Brazil was about more than science. Not only was evolution  – a process not immediately observable to the human eye – deeply antithetical to Agassiz’s staunch empiricism, evolution was profoundly at odds with his perceived world order. Though only moderately religious, Agassiz believed in the existence of a creator in all his work. Fortunately for Agassiz, this belief fit well with comparative zoology, which at the time focused heavily on hierarchal classification.

Agassiz applied this penchant for classification to his views on race. Part of the expedition involved sketching and describing mixed-race Brazilians. Agassiz saw the rampant miscegenation in Brazil as a ‘mongrelization’ of pure racial types that would ultimately result in sterility. Agassiz categorized humans into different ‘species.’ In his book on the Brazil trip, Agassiz notes, ‘the fact that [the races] differ by constant permanent features is in itself sufficient to justify a comparison between the human races and animal species.’

Director of David Rockefeller Center for Latin American Studies and Organismic and Evolutionary Biology professor Brian D. Farrell says that Agassiz’s trip typified the paternalistic approach of Latin American studies at the time. In an essay appended to his wife’s travelogue, ‘Journey in Brazil,’ Agassiz gives his general impressions on Brazilian society and suggestions for improvement. Though he felt a ‘warm sympathy, a deep-rooted belief in her future progress and prosperity,’ he didn’t see ‘among them something of the stronger and more persistent qualities of the Northern races’ – a distinction that fit his divided view of nature – ‘as ancient as the tropical and temperate zones themselves.’

For Agassiz, the expedition was also profoundly personal. Agassiz’s founding of the Museum of Comparative Zoology in 1859 coincided with the publishing of the momentous ‘On the Origin of Species.’

The high point of Agassiz’s professional career and physical culmination of his particular brand of empirical pedagogy in a museum also marked the beginning of a professional fall from grace. At the time of the expedition, Darwin’s theory of evolution had gained significant intellectual traction at Harvard. According to Museum of Comparative Zoology director and OEB professor Jim Hanken, even the students in the unofficial Agassiz Zoological Society (a kind of Agassiz fan club) were beginning to embrace Darwin’s theories.

Hanken describes Agassiz as a ‘sensational figure in his day’ for his unique pedagogy which combined engaging lectures with specimen-based study. One of Agassiz’s students, Samuel Scudder, wrote that on his first day of class Agassiz simply gave him a fish to describe and draw. After three days, Scudder turned in his assignment. A nonplussed Agassiz advised him to ‘look again. Look again!’

Under the patronage of Nathaniel Thayer and Emperor of Brazil Pedro II, Agassiz set out on his 16-month long expedition to Brazil with the aim of proving Darwin wrong. According to Louis Menand’s ‘Metaphysical Club,’ Agassiz got a hero’s welcome in Rio, even though he arrived with his entire academic career at stake.

Agassiz travelled along Amazon for over 2,000 miles. Over the course of the trip, more than 80,000 specimens were collected and shipped to the Museum of Comparative Zoology in Cambridge. In his final lecture, Agassiz claimed that the fact that fish do not migrate upstream disproved Darwin’s idea of evolution by exposure to different environments. His unlikely observations drew criticism from his colleagues, and his findings were disproved shortly after publication. Agassiz’s attempt to save his career became its death knell.

In Farrell’s mind, Agassiz ‘saw what he wanted to see.’ The autocratic Agassiz, darling of the Boston intelligentsia and the face of American professional science, never acknowledged his mistakes.

Among the students in Agassiz’s lectures was future psychologist and philosopher William James, who was largely disgusted by the way Agassiz’s biases infused his passion and professed empiricism. In James’s view, according to Menand, Agassiz should have opened possibilities for inquiry in Brazil rather than try to close them. James also believed that science was never properly independent of a society’s interests and preferences– no one could ever profess pure empiricism.

On his deathbed, the man who failed to see the truth in Darwin’s theory was asked to name his greatest achievement. His response? ‘I have taught men to observe.’

                                                                                                                      

This article was originally published in the magazine of The Harvard Crimson, a student-run non-profit, in the section Disqus.

Note from the editor. This essay is linked to the book William James: Letters, Diaries, and Drawings, (1865-1866), edited by Maria Helena P. T. Machado.

O Marquês de Pombal

Joaquina Pires-O’Brien

O Marquês de Pombal era um personagem proscrito na história que aprendi no curso médio no Brasil. Eu atribuo isso à inclinação política de esquerda que predominava na época; tal inclinação era um ponto cego que impedia uma visão completa do personagem, com seus vícios e virtudes. Os professores de história argumentam que o ‘iluminismo’[1] de Pombal, apesar de seu longo alcance, foi primariamente um mecanismo para aumentar a autocracia às custas da liberdade individual e, especialmente, uma aparelhagem para esmagar a oposição, suprimir críticas, e ampliar a explotação econômica colonial, bem como intensificar a censura da imprensa e  consolidar controle e ganhos pessoais. Apenas em 1995 o público interessado teve acesso a uma visão bem mais abrangente do marquês, através do livro de Kenneth Maxwell, Pombal: Paradoxo do Iluminismo.

Uma importante característica de Portugal do século XVIII era a sua rígida estrutura de classes sociais. E conforme escreveu Manuel Fernando Vizela Marques Cardoso, “A ordem social, mantida por costumes antigos, estava claramente definida e quase ninguém punha em causa este sistema que a própria religião e o ensino toleravam.” Assim, não é difícil entender que Pombal incomodou muita gente ao romper com essa tradição. A nobreza de Portugal o menosprezava pelo fato dele não pertencer à mesma. E as pessoas ordinárias se referiam a ele como ‘estrangeirado`, devido às suas ideias avançadas aprendidas durante suas residências em Londres e em Viena. Foi um golpe de sorte para Portugal ter um monarca capaz de reconhecer a competência de Pombal, e um golpe de sorte duplo para o próprio Pombal,  ter sobrevivido e ter tido a oportunidade de demonstrar seu valor. Para uma época definida pelas governanças absolutistas isso não é a coisa de se jogar fora, principalmente se levarmos em conta a quantidade de mentes brilhantes que são desprezadas pelas viciadas máquinas governamentais dos países democráticos de hoje em dia.

Em 1o de novembro de 1755, quando Lisboa foi atingida por um violento terremoto com magnitude estimada de 9 na escala Richter, tendo sido sentido até em Hamburgo e nas ilhas dos Açores. O terremoto foi seguido de um tsunami que também destruiu os portos do golfo de Cádiz, na Espanha, com ondas de 5 a 15 metros de altura. O abalo sísmico e o tsunami foram seguidos por diversos incêndios, resultando na destruição da maior parte da cidade de Lisboa.

Na época em que Lisboa foi acometida pelo terremoto, a população de Portugal era ignorante acerca das leis físicas acerca da gravidade e do movimento dos corpos celestes, e o seu entendimento acerca do universo era entrelaçado às crenças na revelação divina bem como a especulações sem fundamento. Entretanto, na França, Inglaterra, e Alemanha, onde as ideias do Iluminismo já estavam espalhadas na população leiga, esta tinha ao menos uma ideia vaga de que o terremoto de Lisboa tinha sido um fenômeno normal da natureza. Foi a primeira vez na história da Europa em que um cataclismo de grande porte foi assim entendido. Quão diferente foi, por exemplo, do incêndio de Londres de 1625 e da Grande Peste de 1665 a 1666, ambos caracterizados por buscas irracionais de causas e responsáveis.

Logo após o terremoto de Lisboa, o filósofo francês Voltaire (François-Marie Arouet; 1694 – 1778), se concentrou em explicar as suas causas naturais e dissipar a teodiceia reinante de que havia sido uma punição de Deus. Por tudo isso, o terremoto de Lisboa de 1755 tornou-se o marco do limite inicial do Iluminismo, apesar de que este ainda não havia chegado a Portugal. Ali predominava a teodiceia. Em meio às centenas de corpos e aos escombros da cidade, os padres chamavam a população para rezar e pregavam que o terremoto havia sido um castigo divino. Pombal foi o quem trouxe a luz à população paralisada de medo logo após o terremoto de 1755, com sua atitude resoluta e sua competente liderança.  Uma frase dele que se tornou famosa é: “O que fazer agora? Enterramos os mortos e curamos os vivos!”.O presente ensaio visa mostrar que o personagem histórico Pombal tem outros ângulos além do de déspota esclarecido. E, é bom lembrar que poderia ter sido muito pior, se ao invés de esclarecido ele fosse estúpido e inculto.

Súmula biográfica

Dom Sebastião José de Carvalho e Melo, 1o Marquês de Pombal, 1o Conde de Oeiras (13 maio de 1699 – 8 Maio de 1782) foi um diplomata e estadista português. Durante o reinado de Dom José I de Portugal, de 1750 a 1777, ele ocupou o posto de Secretário de Estado do Reino de Portugal e do Algarve, cargo equivalente a um Primeiro Ministro contemporâneo, quando foi o chefe do governo português de fato. Melo recebeu seu primeiro título de nobreza aos 60 anos de idade, quando, em 1759, D. José I nomeou-o Conde de Oeiras. O rei lhe concedeu o título de Marquês de Pombal onze anos depois, em 1770, quando tinha 71 anos de idade.

Pombal já tinha 78 anos de idade quando deixou o cargo de Secretário de Estado, após o falecimento do rei D. José I, uma idade avançada até para os padrões contemporâneos. Em circunstâncias normais, um servidor público comum já teria se aposentado há pelo menos duas décadas. Mas Pombal era um homem de elevada diligência, o que sugere que teria optado por continuar contribuindo para a reconstrução de Lisboa e a modernização de Portugal. Não foi por acaso que surgiu o termo ‘pombalino’ para descrever o estilo de arquitetura que marcou a Lisboa de após o grande terremoto, bem como a gestão de Pombal. E o que aconteceu a Pombal depois da morte de  D. José I?

Por ter perseguido os jesuítas, Pombal tornou-se um desafeto D. Maria I[i], um católica devota e sob o domínio dos primeiros. Diz-se que até mesmo a menção do nome de Pombal induzia ataques de raiva na rainha. Não contente em retirar todos os cargos de Pombal, ela também o acusou de corrupção, e num julgamento fantoche, sem o devido direito de defesa,  Pombal foi condenado. Em seguida, a rainha também emitiu uma das primeiras ordens de restrição da história, ordenando que o marquês não estivesse a menos de 32 quilômetros de sua presença. O cumprimento do decreto real exigia que Pombal se retirasse de sua morada, na eventualidade da rainha ter que viajar para alguma localidade próxima. Finalmente, e seguindo a cartilha de Maquiavel, a rainha buscou dar mostra de sua magnanimidade, publicando um edito dizendo que perdoava ao marquês pelos seus crimes e, como ele era senil e doente, não se exigiria que ele saísse do país.  É claro que essa concessão da rainha não serviu de conforto Pombal, cujo anseio maior era limpar o seu nome. Como o belo palácio que Pombal havia construído em Oeiras ficava a menos de 32 quilômetros de Lisboa, ele não pode permanecer lá depois de ter se retirado da corte. Pombal foi morar na vila de Pombal, em Leiria, numa casa de campo de propriedade de seu tio-avô, onde morreu placidamente em 1782, aos 82 anos.

Apesar de Pombal ter sido descartado pela rainha, os seus feitos passados selaram a sua reputação. Depois que os estudiosos de outros países reconheceram o valor de Pombal no avanço da secularização, colocando-o no centro do Iluminismo europeu. Aos poucos, a contribuição de Pombal voltou a ser reconhecida em Portugal. Em 1934 Pombal foi homenageado com com uma estátua em bronze dele ao lado de um leão, em cima de um pedestal de pedra trabalhada de cerca de 40 metros de altura, numa importante praça de Lisboa que também leva o seu nome.

Os primeiros anos

Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu Casconho, próximo a Soure, na região de Coimbra, na primavera de 1699. Era filho de  Manuel de Carvalho e Ataíde, um proprietário de terras na região de Leiria, e de Teresa Luísa de Mendonça e Melo. Quando jovem ele estudou na Universidade de Coimbra e serviu ao exército por um curto período de tempo. Em seguida, ele se mudou para Lisboa e evadiu-se com Teresa de Mendonça e Almada (1689–1737), viúva sem filhos de seu primo António de Mendonça Furtado, falecido em 1718, a qual era onze anos mais velha do que ele. Apesar da família da noiva ter organizado o casamento do jovem casal, eles optaram por ir morar numa propriedade dos Melo, próxima de Pombal. O casal não teve filhos e Teresa faleceu em Lisboa, em 6 de fevereiro, aos 51 anos.

Em 1733 Pombal foi nomeado sócio da Academia Real de História Portuguesa, fundada em 1720 por D. João V, o Magnífico, e cuja moto era Restituet Omnia, que significa ‘restaurar todas as coisas’. Em 1740, um ano depois de ter ido para Londres como embaixador, ele foi eleito membro da Royal Society,[3] onde possivelmente teve oportunidades de ouvir os iluminados época, inclusive o francês Voltaire, eleito membro em 1741.

Carreira política

Sebastião José de Carvalho e Melo ainda não tinha nenhum título de nobreza quando, em 1938,  aos  39 anos de idade, recebeu o seu primeiro cargo público importante, durante o reinado de D. João V. Isso ocorreu quando o então primeiro ministro (secretário de Estado), o cardeal D. João da Mota, nomeou-o embaixador (plenipotenciário da corte) junto à corte da Grã Bretanha. Em 1745, Melo serviu também como embaixador de Portugal na Áustria[4].

A participação de Melo na corte de Lisboa lhe deu a oportunidade de conhecer a culta e poliglota rainha consorte, a arquiduquesa Maria Anne Josepha, da Áustria (1683–1754)[5], a  qual simpatizou de imediato com Melo. Quando este ficou viúvo de Teresa, sua primeira esposa, a rainha arranjou o casamento dele com Eleonora Ernestina von Daun, filha do Marechal de campo austríaco Leopold Josef, conde von Daun. Entretanto, o rei D. João V, não aprovou o casamento, e o chamou de volta em 1749. O casal teve sete filhos, sendo que o segundo, D. Henrique José Maria Adão Crisóstomo de Carvalho e Melo (1748-1812), passou a ser o 2º Marquês de Pombal, eventualmente imigrou para o Brasil. Com a morte deste, sem ter deixado descendentes legítimos, o título passou ao seu irmão D. José Francisco de Carvalho Melo e Daun.

A carreira pública de Melo é restaurada em 1950, quando D. João V morre e é sucedido pelo seu filho D. José, que era afeiçoado a ele. Melo passa a trabalhar diretamente com D. José I, e logo passa a ser o braço  direito do monarca. A experiência pregressa de Melo em Londres e em Viena foi crucial para o seu novo cargo de Secretário de Estado de Negócios Interiores, cargo equivalente a primeiro ministro. Melo era um anglófilo que procurou entender as causas do sucesso econômico inglês, e  buscou implementar políticas econômicas semelhantes em Portugal. Pombal aboliu o exército e a marinha, aboliu os Auto de fé e os estatutos civis de ‘Limpeza de Sangue’ e suas discriminações contra os novos cristãos (judeus que haviam se convertido ao cristianismo a fim de escapar da Inquisição portuguesa, e seus descendentes).

As reformas pombalinas

As reformas pombalinas consistiram de uma serie de reformas voltadas a fazer com que Portugal se tornasse uma nação autossuficiente e economicamente robusta, através da expansão do território brasileiro, do enxugamento da administração do Brasil colonial, e reformas fiscais e econômicas tanto em Portugal quanto nas colônias.

Durante a Idade do Iluminismo Portugal era considerado um país pequeno e atrasado. Em 1750 a população de Portugal era de três milhões de habitantes; cerca de 200 mil pessoas viviam nos 538 mosteiros do país. Embora a economia de Portugal antes das reformas fosse relativamente estável, esta dependia do Brasil para suporte econômico, e da Inglaterra para suporte na manufatura, através do Tratado de Mutuem de 1703. Até mesmo os produtos portugueses exportados eram intermediados por mercadores expatriados, como os exportadores ingleses de vinho do Porto e os negociantes franceses como Jácome Ratton, cujas crônicas são altamente críticas à eficácia de suas contrapartidas portuguesas.

A necessidade de expandir o setor manufatureiro em Portugal tornou-se ainda mais imperativo devido aos gastos excessivos da coroa portuguesa, o terremoto de Lisboa de 1755, as despesas com as guerras com a Espanha por territórios da América do Sul, e a exaustão das minas de outo e diamantes no Brasil.

Suas maiores reformas foram, no entanto, econômicas e financeiras, com a criação de várias empresas e ‘guildas’ para regular todas as atividades comerciais. Ele criou a empresa ‘Douro Wine’, que demarcou a região vinícola do Douro, para garantir a qualidade do vinho do Porto; essa foi a primeira tentativa na Europa de controlar a qualidade e a produção de vinho. Diz-se que Melo governou com mão pesada, impondo leis estritas a todas as classes da sociedade portuguesa, da alta nobreza à classe trabalhadora mais pobre, e através de sua ampla revisão do sistema tributário do país. Essas reformas lhe renderam inimigos nas classes altas, especialmente entre a alta nobreza, que o desprezava como um iniciante social.

Outras reformas importantes realizadas por Melo foram na educação. Em 1759 ele criou a base para escolas primárias e secundárias públicas seculares, introduziu treinamento profissional, criou centenas de novos postos de ensino, adicionou departamentos de matemática e ciências naturais à Universidade de Coimbra e introduziu novos impostos para custear por essas reformas.

O terremoto de Lisboa

Um desastre caiu sobre Portugal na manhã de 1º de novembro de 1755, quando Lisboa foi atingida por um violento terremoto com magnitude estimada de 9 na escala Richter. A cidade foi arrasada não apenas pelo terremoto mas também pelo tsunami e incêndios que se seguiram. Melo sobreviveu por um golpe de sorte e imediatamente embarcou na reconstrução da cidade, com sua famosa citação: “O que fazer agora? Enterramos os mortos e curamos os vivos!”.

Apesar da calamidade, Lisboa não sofreu epidemias e, em menos de um ano, já estava sendo reconstruída. A nova área central de Lisboa foi projetada para resistir a terremotos subsequentes. Modelos arquitetônicos foram construídos para testes, e os efeitos de um terremoto foram simulados por marchas de tropas ao redor dos modelos. Os edifícios e as principais praças do centro pombalino de Lisboa são uma das principais atrações turísticas de Lisboa: são os primeiros edifícios à prova de terremotos do mundo. Melo também deu uma contribuição importante ao estudo da sismologia, projetando um questionário que foi enviado a todas as paróquias do país.

O questionário perguntou se cães ou outros animais se comportavam estranhamente antes do terremoto, se havia uma diferença notável na elevação ou queda do nível da água nos poços e quantos edifícios haviam sido destruídos e que tipo de destruição ocorreu. As respostas recebidas permitiram aos cientistas portugueses modernos reconstruir o evento com precisão.

Campanha contra e os autos da fé e contra os jesuítas

Melo fez uma forte campanha para por fim aos autos de fé, aquelas cerimônias públicas organizadas pelo Tribunal do Santo Ofício, também conhecido como Inquisição, e que incluía uma procissão que terminava numa estrutura em cadafalso, em cima do qual os réus eram apresentados ao público. Melo sabia que não podia exterminar a Inquisição, e assim, ele se limitou a tentar influencia-la. Para tal, ele nomeou seu irmão, D. Paulo Antônio de Carvalho e Mendonça, inquisidor-mor. Ele também usou a inquisição para combater a ordem dos jesuítas, isto é, dos padres católicos pertencentes à Sociedade de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola em 1540, em Paris.

Inicialmente o ingresso na Sociedade de Jesus requeria um elevado padrão educacional de seus aspirantes. Os jesuítas eram mandados para as colônias europeias na América, Ásia e África, com a missão de converter os nativos e trazê-los ao seio da cristandade. Lá eles compilaram dicionários, e ensinaram música e teatro, além de outras coisas, como fizeram o Padre Manoel da Nóbrega e o Padre José de Anchieta no Brasil. Entretanto, passados quase dois séculos, a Sociedade de Jesus entrou em decadência. Muitos padres jesuítas eram incultos e ignorantes, como aqueles que pregavam que o terremoto de Lisboa havia sido um castigo divino.

Tendo morado em Viena e Londres, esta última sendo importante centro do Iluminismo, Melo acreditava cada vez mais que a Sociedade de Jesus, cujos membros são conhecidos como ‘jesuítas’, com seu domínio da ciência e da educação, era um resistência inerente a um iluminismo independente em estilo português.

Melo conhecia bem a tradição anti-jesuita do Reino Unido, e, em Viena, fez amizade com Gerhard van Swieten, confidente da imperatriz Maria Teresa e forte adversário da influência dos jesuítas austríacos. Melo empregou a sua autoridade e seus relacionamentos para expulsar os jesuítas de Portugal, engajando-se numa campanha pública a contra os jesuítas, que foi observada de perto pelo resto da Europa. Durante o caso Távora, quando um membro dessa família tentou assassinar o rei D. José I, ele acusou a Companhia de Jesus de envolvimento. Os jesuítas foram expulsos de Portugal e seus bens confiscados pela coroa. E em 1773 os jesuítas foram expulsos de toda a Europa e suas colônias, quando os reis absolutistas europeus forçaram o Papa Clemente XIV a emitir uma bula papal  que os autorizava a suprimir a ordem em seus domínios.

O affair Távora

A diligência de Melo logo em seguida ao terremoto de 1º de novembro de 1755 fez com que D. José I lhe atribuísse ainda mais autoridade. Segundo consta, foi aí que e Melo tornou-se numa espécie de ditador. À medida que seu poder cresceu, os seus inimigos aumentaram em número, e disputas amargas com a alta nobreza se tornaram frequentes. A maior dessas disputas amargas foi o affair Távora, iniciado em 1758, quando D. José I foi gravemente ferido em uma tentativa de assassinato, ao retornar de uma visita à sua amante, a jovem marquesa de Távora.

Melo jogou todo o seu poder contra a família Távora e também contra o duque de Aveiro, que estavam envolvidos. Melo não mostrou piedade, processando todas as pessoas envolvidas, até mulheres e crianças. Foi uma grande vitória do primeiro-ministro contra os seus inimigos da aristocracia. Após o caso Távora, o novo conde de Oeiras não conheceu oposição. Como recompensa por sua rápida determinação, D. José I tornou o seu leal ministro conde de Oeiras em 1759. Mais tarde, em 1770 foi nomeado Marquês de Pombal.

O affair Távora ainda não é um capítulo encerrado da história. Há uma tese de que os mandantes do crime não foram os Távora mas sim a rainha, D. Mariana Vitória, e que o verdadeiro alvo seria a marquesa, a amante de D. João V, que o acompanhava.

A invasão da Espanha

Em 1761, a Espanha concluiu uma aliança com a França, pela qual a Espanha entraria na Guerra dos Sete Anos, em um esforço para impedir a hegemonia britânica. Os dois países viam Portugal como o aliado mais próximo do Grã-Bretanha, devido ao Tratado de Windsor. Como parte de um plano mais amplo para isolar e derrotar a Grã-Bretanha, enviados espanhóis e franceses foram mandados a Lisboa para exigir que o rei e Pombal concordassem em cessar todo o comércio ou cooperação com a Grã-Bretanha ou enfrentar uma guerra. Embora Pombal desejasse tornar Portugal menos dependente da Grã-Bretanha, esse era um objetivo a longo prazo, e ele e o rei rejeitaram o ultimato de Bourbon.

Em 1762, a Espanha declarou guerra a Portugal e enviou tropas através da fronteira. Apesar de terem conseguido capturar Almeida, eles logo pararam. Pombal havia enviado mensagens urgentes a Londres solicitando assistência militar, mas nenhuma tropa britânica foi enviada. Em vez disso, a Grã-Bretanha enviou William, o conde de Schaumburg-Lippe e alguns de seus militares para organizar o exército português.

Após a Batalha de Valência de Alcântara, os espanhóis foram empurrados de volta à fronteira. O Tratado de Paris pedia a restauração de todo o território português em troca dos britânicos devolverem Cuba, e Almeida foi evacuado.

Nos anos após a invasão, e apesar da crucial assistência britânica, Pombal começou a se preocupar cada vez mais com o aumento do poder britânico. Apesar de ser um anglófilo, ele suspeitava que os britânicos cobiçavam o Brasil e ficou alarmado com a aparente facilidade com que haviam tirado Havana e Manila da Espanha em 1762.

Relações com o Brasil

Pombal deu atenção ao Brasil, assim como às demais colônias portuguesas.

Em 1751, criou o Tribunal de Relações do Rio de Janeiro. Juntas de justiça foram instituídas nas capitanias.

Em 1763, mudou a capital do Brasil, de Salvador para o Rio de Janeiro.

Organizou a fundação de numerosas comarcas e vilas foram fundadas. A capitania de Mato Grosso, criada por D. João V, só então foi instalada. Criou a capitania do Piauí, e resolveu a questão entre as fronteiras das capitanias de São José do Rio Grande e de Rio Grande de São Pedro.

Renomeou o Estado do Maranhão, criado em 13 de junho de 1621, como Estado do Grão-Pará  e Maranhão, que permanece como uma colônia autônoma portuguesa até 1823.

Incentivou a diversificação da agricultura, fazendo com que o Brasil passasse a plantar mais arroz, tabaco, algodão e cacau.

Tornou o português a língua oficial em todo o território do Brasil.

Declínio e morte

Efetivamente, Melo governou Portugal até a morte de D. José I em 1777, quando ele foi sucedido por sua filha, Dona Maria I, cujo marido, tornou-se Dom Pedro III, um rei consorte. D. Maria I era uma católica devota e sob a influência de padres jesuítas, em decorrência de que o Marquês de Pombal era um desafeto. Assim que subiu ao trono, ela fez o que havia prometido: retirou todos os cargos políticos de Melo.

D. Maria I também emitiu uma das primeiras ordens de restrição da história, ordenando que o marquês não estivesse a menos de 32 quilômetros de sua presença. Se ela viajasse perto de suas propriedades, ele era obrigado a se retirar de sua casa para cumprir o decreto real. Diz-se que a menor referência em sua audição a Pombal induzia ataques de raiva na rainha. Dona Maria I era conhecida inicialmente como ‘a piedosa’, mas mais tarde ficou evidente que a sua piedade era uma exagerada manifestação de sua insanidade, e após ser interditada em 1792, entrou para a história como ‘a louca’. Logo no início do seu governo, de 1777 a 1792, ela afastou o Marquês de Pombal da corte, depois que este foi acusado de corrupção e condenado num julgamento fantoche. Entretanto, para mostrar-se como benemérita, a rainha fez publicar uma decisão dizendo que perdoava ao marquês por seus crimes e, como era senil e doente, não se exigiria que ele saísse do país.

Em Oeiras, entre Lisboa e Cascais, Pombal havia construído um belo palácio, completo com jardins franceses formais, com paredes decoradas com tradicionais azulejos portugueses e vinhedos entremeados por chafarizes e córregos artificiais. Entretanto, devido a proximidade do Palácio de Oeiras com Lisboa, após o seu banimento da corte, Pombal foi morar num solar de campo de propriedade de seu tio-avô, na vila de Pombal (Leiria), onde morreu placidamente em 1782, aos 82 anos.

Pombal foi enterrado no cemitério da igreja do convento de Santo Antônio, na vila de Pombal. Em 1856/7, o Marechal Saldanha, seu neto por via materna, trasladou para Lisboa os restos mortais do marquês, que foram depositados na ermida das Mercês, onde o Marquês de Pombal fora batizado e que pertencia à irmandade. Em 1923, os restos mortais passaram em definitivo para a Igreja da Memória, em Lisboa, onde se encontram até ao presente.

O julgamento da História

D. Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, recebeu o julgamento da história em prestações. Foi déspota, líder cruel e implacável, e déspota esclarecido. Talvez a maior mancha na sua reputação foi ter permitido o julgamento rápido dos acusados do crime de tentativa de regicídio contra D. José I. Essa é uma acusação procedente pois a justiça para ser justa precisa ser isenta de influência política. Por outro lado, os crimes de lese-majesté eram considerados hediondos e acompanhados de pena de morte.

O terremoto de Lisboa de 1755 foi a primeiro grande calamidade da Europa a ser explicada ao povo pelas suas causas naturais e não pela vontade Divina e outras a causas improváveis. A atuação de Pombal foi crucial para essa mudança, e o colocou no centro do Iluminismo. Quando não era mais possível retirar de Pombal o rótulo de ‘iluminado’, ele passou a ser chamado ‘déspota esclarecido’.

Um dos mais cruéis julgamentos de Pombal, anteriormente mencionado, afirma que o ‘iluminismo’  do marquês foi primariamente um mecanismo para aumentar a autocracia às custas da liberdade individual e, especialmente, uma aparelhagem para esmagar a oposição, suprimir críticas, e ampliar a explotação econômica colonial, bem como intensificar a censura da imprensa e  consolidar controle e ganhos pessoais. Entretanto, esse julgamento é típico da miopia dos ideólogos de esquerda e sua noção de que a sociedade é formada por opressores e oprimidos.

O governo português reconheceu os feitos do Marquês de Pombal em 1934, com a construção um importante monumento histórico colocado na praça em Lisboa que também leva o seu nome, no topo da Avenida da Liberdade. Em 1978, na cidade de Pombal, foi criado o Museu Marquês de Pombal, que guarda a coleção de objetos relacionados ao marquês, colecionados pelo antiquário Manuel Gameiro. E, no município Oeiras, onde Pombal construiu seu magnífico palácio, marca com um feriado a data em que Sebastião José Carvalho e Melo foi elevado à dignidade de Conde de Oeiras, em 7 de Junho de 1759.

Diversas biografias recentes do Marquês de Pombal, aparentam oferecer julgamentos bem mais equilibradas do que os até então vigentes, como as abaixo citadas.

Maxwell, Kenneth. Pombal: Paradox of the Enlightenment. (Pombal: Paradoxo do Iluminismo; 1996).  do Marquês de Pombal. O Homem e o Estadista. 2016. 160 p. (Veja abaixo trecho da resenha)

Barata, José. A vida e a obraAzevedo, João Lúcio. O Marquês de Pombal e a sua época. Wentworth Press, 2019.

Em conclusão, o bom senso é muito mais chegado à objetividade do que a ideologia, que é sempre acompanhada de vieses. Na vida real, a maior parte das pessoas tem suas boas qualidades e seus defeitos, bem como os seus acertos e seus erros, e tudo deve ser levado em conta no julgamento honesto da história. O Marquês de Pombal não foi um santo mas tampouco foi o demônio como muitos o pintaram.

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Retrato do Marquês dfe Pombal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 1. Marquês de Pombal.

 

Figura 2. Praça rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, a 19 de março, dia seguinte ao decreto de ‘estado de emergência’ do Covid19. (Guia da Cidade.pt)

 

 Marquês de Pombal: O déspota esclarecido

Derek Beales

Resenha do livro Pombal: Paradox of the Enlightenment by Kenneth Maxwell. Cambridge University Press, 1995, 200 pp.

Por duas vezes na sua história, Portugal teve um papel de liderança na Europa. No século XV, foi pioneiro em explorações e descobertas em outros continentes, o que resultou em sua transformação num vasto império, que incluía postos avançados na Ásia, partes substanciais da África e metade da América do Sul, principalmente no atual território do Brasil. Outras potências logo seguiram o exemplo de Portugal – embora não a Áustria. O império português ainda estava em grande parte intacto, e no Brasil ainda estava em expansão, quando em 1759 Portugal tomou outra grande iniciativa, a expulsão e expropriação dos jesuítas da pátria e de suas colônias. Um por um, os outros poderes católicos, novamente com a grande exceção da Áustria, seguiram o exemplo de Portugal. Em 1773, a pressão deles sobre o papa Clemente XIV se tornou forte demais para ele resistir, e ele decretou a supressão total da ordem jesuíta. A Áustria obedeceu.

A primeira iniciativa de Portugal foi certamente uma das mais significativas da história registrada. Se o segundo não pode ser colocado na mesma classe, ainda foi um evento que surpreendeu o mundo e o mudou muito. Ninguém duvida que um homem tenha sido o principal responsável pela expulsão de Portugal dos jesuítas: o marquês de Pombal, o primeiro ministro do rei José I durante todo o seu reinado de 1750 a 1777. É a ação pela qual Pombal é mais conhecido, mas ele foi um governante excepcionalmente enérgico e implacável, que tentou transformar a maior parte dos aspectos da economia e da sociedade de seu país. O historiador Leo Gershoy o chamou de “o reformador mais espetacular e dinâmico do século” – uma reivindicação grande feita ao escrever sobre a era de Pedro, o Grande e Catarina, a Grande da Rússia, Frederick William I e Frederick, o Grande da Prússia, Maria Teresa e José II da Áustria e seu ministro, o príncipe Kaunitz.

A nova biografia de Pombal, de Kenneth Maxwell, é uma conquista notável. Em apenas 166 páginas de texto, nas quais também foram encontradas 47 ilustrações, ele explica os desenvolvimentos no Brasil e em Portugal, coloca os dois países em seus cenários mundiais, expõe a carreira do ministro, seus objetivos e ações, e depois os discute como um caso de despotismo esclarecido – tudo com evidente domínio e deleite. O livro é baseado em uma extensa pesquisa, que rendeu algumas citações esplendidamente apontadas. Se muito disso já figurou em Conflitos e conspirações: Brasil e Portugal, 1750–1808, de Maxwell, a concentração no próprio Pombal nesta biografia levou-o a considerar muitos assuntos não relevantes para o livro anterior, como a reforma educacional e a reconstrução de Lisboa, com a qual Pombal esteve profundamente envolvido. Pombal representa um imenso avanço sobre qualquer coisa publicada anteriormente em inglês sobre o assunto e, até onde eu sei, não há nada comparável a isso em qualquer idioma.

O primeiro problema sobre Pombal é o seu nome. Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em 1699 em uma família nobre. Em 1759 foi designado conde de Oeiras, e apenas em 1769 marquês de Pombal. A sua carreira começou…

                                                                                                             

Resenha publicada em inglês no The New York Review of Books. April 18, 1996. Tradução de JPO.

 

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The New York Review of Books. April 18, 1996.

Notas

[1] O Iluminismo, ou ‘século das Luzes’, foi um movimento intelectual da segunda metade do século XVII nos países mais avançados da Europa, caracterizado por uma visão de mundo inteiramente naturalista, em contrapartida à visão supernaturalista que até então dominava. Embora o naturalismo já estivesse bem assentado nas mentes mais avançadas do século XVII,  foi apenas no século XVIII que as pessoas ordinárias começaram a se interessar tanto pelas ciências naturais quanto pelas ciências sociais e políticas.

[2] Dona Maria I conhecida como ‘a rainha louca’ foi eventualmente interditada, sendo que o governo de Portugal passou para o Príncipe Regente D. João, que após a morte de Dona Maria I passou a ser D. João VI.

[3] A Royal Society é uma das primeiras academias de ciência do mundo, fundada em Londres em 1660.

[4] É pertinente lembrar a situação política da época tanto Grã Bretanha quanto na Áustria.  Na Grã Bretanha, o monarca reinante era George II (r. 1727-1760), da casa de Hannover, escolhida pelo parlamento para ascender ao trono Britânico em 1714, tomando o lugar da casa dos Stuart. Precisamente no reinado de George II, Charles Edward, filho de James Francis Stuart e bisneto de James II, o último rei Stuart da Grã Bretanha, chega à Escócia para tentar reaver o trono britânico, provocando uma série de batalhas, sendo a última a de Culloden, em abril de 1746. Na Áustria, o poder monárquico centrava na Imperatriz Maria Teresa (r. 1740-1780), e não no seu marido, Francisco (François Étienne ou Francico Estevão), que era natural de Lorena (atualmente na França), o qual foi eleito Sacro Imperador Romano, com a designação de Francisco I.  Maria Teresa e Francisco I tiveram dezesseis filhos, dentre os quais a ultima rainha da era pre-revolucionaria da Franca, Maria Antoinette. (1755–1793).

[5] Maria Ana Josefa de Áustria (Linz, 7 de setembro de 1683 - Lisboa, 14 de agosto de 1754) era filha do imperador Leopoldo I, e da sua terceira mulher, a condessa Leonor Madalena. Era irmã dos imperadores José I e Carlos VI, também pretendente ao trono espanhol, e meia-irmã de Maria Antônia de Áustria, eleitora da Baviera, entre outros. Foi rainha consorte de Portugal de 1708 a 1750, enquanto mulher do Rei D. João V de Portugal. Três dos seus filhos sentaram-se no trono: D. José, Rei de Portugal, D. Pedro, rei-consorte de Portugal pelo seu casamento com a sua sobrinha, e D. Maria Bárbara, Rainha de Espanha pelo casamento.

Em quê Freud acertou

Wilfred M. McClay

Poderíamos viver juntos melhor se acreditássemos que fomos criados para isso. W.H. Auden

 

Poucas linhas do poeta W.H. Auden é mais familiar do que sua declaração, em uma elegia comovente (embora às vezes estranhamente sentimental) chamada “Em Memória de Sigmund Freud”, que o fundador da psicanálise era “... não mais uma pessoa / agora, mas todo um clima de opinião / sob a quem conduzimos nossas vidas diferentes: / Como o clima, ele só pode atrapalhar ou ajudar ... ”[1]. Palavras amáveis ​​e retumbantes, cheias de admiração. Mas está claro o que Auden quis dizer com elas?

O que, por exemplo, significa “um clima inteiro”? Será que Auden quis dizer que Freud era uma influência intelectual e cultural tão titânica e central que absolutamente tudo na cultura do mundo foi transformado por sua própria existência, seja diretamente através de seus escritos e práticas ou indiretamente através de seus efeitos sobre atitudes gerais em relação à sexualidade, agressão, criação de filhos, sonhos, memória reprimida e uma infinidade de outras coisas? E que doravante poderíamos dividir todo o tempo entre Antes de Freud e Depois de Freud?

Ou será ele quis dizer algo muito menos abrangente, e bem mais modesto: que Freud estava “lá” em nossa cultura da mesma maneira que o clima está lá, como pano de fundo, um elemento no contexto em que nossas ações ocorrem, mas muito longe de ser a força determinante por trás dessas ações? Como as nuvens sombrias que escurecem o nosso humor, a tempestade que dificulta a nossa viagem ou o céu ensolarado que eleva os nossos corações, o clima pode “atrapalhar ou ajudar”, pode fazer a diferença nas margens, como impedimento ou apoio, mas, caso contrário, tem um alcance limitado. Freud, “esse médico” (como Auden o chamou de maneira reveladora), era um dos “que nos faziam algo de bom / que sabia que nunca era suficiente, mas esperava melhorar um pouco vivendo”. Isso parece um endosso muito menos dramático, lembrando a afirmação de Freud de que seu objetivo era converter “a miséria histérica em infelicidade comum”. O que não é uma coisa pequena, com certeza, mas não é bem um clima.

E, de qualquer forma, o clima muda. Como argumenta o sociólogo Howard L. Kaye[2] neste estudo altamente inteligente e artisticamente compactado de Freud: “Faz quase oitenta anos desde a morte de Freud: um período que pode ser dividido aproximadamente em quarenta anos de idealização, seguidos por quarenta anos de difamação. “Poucas figuras estimularam uma gama tão ampla de paixões em um período tão curto de tempo. E, no entanto, a imagem idealizada de Freud como o gênio solitário, o ‘conquistador’ (como ele às vezes se imaginava), que vestiu seu capacete brilhante e se aventurou bravamente nas terras exóticas do inconsciente, onde nenhum homem moderno ousara se aventurar antes, tal imagem é principalmente uma coisa do passado. A originalidade de suas visões, a eficácia de suas terapias, a validade científica de suas afirmações, o radicalismo de sua perspectiva: tudo isso sofreu uma imensa desvalorização nos últimos anos. Pode até parecer que chegamos a um ponto de exaustão em nosso interesse por Freud e suas influências, que o clima tenha mudado decisivamente.

Ou, talvez seja mais uma questão de a coruja de Minerva voando ao entardecer. Talvez o recuo da reputação de Freud abra caminho para uma apreciação mais racional e moderada dele, que não reclame (ou negue) demais e não seja excessivamente manchada por paixão ou partidarismo. Essa seria uma descrição justa do que o livro de Kaye tenta fazer. Aluno de Philip Rieff, que compartilha algumas das ambivalências de seu professor em relação a Freud, Kaye não procura elogiá-lo desordenadamente nem enterrá-lo prematuramente, mas sim entendê-lo com mais precisão e defender sua importância duradoura como pensador social. Não como cientista, ele insiste. Freud, ele argumenta, apresentou-se ao mundo como cientista médico como um meio de ‘encobrir’ os seus pensamentos em um respeitável jaleco branco de laboratório e garantir que suas muitas especulativas e indomáveis ideias se beneficiassem e fossem protegidas pela deferência  mostrada à ciência.

Mas, de fato, argumenta Kaye, o próprio Freud entendeu que ele não era realmente um cientista e que ‘filosofia social e crítica cultural’ sempre foram os pontos focais de seus interesses mais profundos. O que Freud realmente buscava era uma nova ‘interpretação da cultura’, uma que se prestaria à transformação da cultura. A ciência foi valorizada não por sua capacidade de determinar a verdade incontestável, mas pelo seu poder como uma arma crítica, um solvente cultural capaz de dissolver o domínio ilusório de forças opressivas como religião, hierarquia social e moralidade burguesa. O abandono juvenil de Freud ao direito e à [ciência] política em favor da ciência não era, como argumentaram o historiador Carl Schorske e outros, um retiro ‘epimeteano’[3], no qual Freud optou por ‘escutar’ os ‘processos eternos’ da natureza, em vez de tentar mudar o mundo. Foi melhor entendido como uma mudança de tática em busca desse mesmo fim.

Qual era o âmago dessa nova filosofia social? No centro havia uma certa concepção da natureza humana, para a qual Freud se aproximara de forma incremental, às vezes tropeçando. Mas a sua direção final ficou clara a partir do momento em que ele rejeitou a ‘teoria da sedução’ – que havia localizado a fonte da neurose nas experiências de abuso sexual real na infância – a favor de uma teoria que afirmava que era a administração dos desejos e fantasias duradouras, e dos impulsos associados à infância, que constituíam o problema fundamental por detrás da formação das neuroses. Foi a projeção externa da vida interna selvagem e confusa do indivíduo, incluindo a sexualidade infantil, ao invés da internalização da experiência externa, que se tornou o ponto de partida de Freud. Como Kaye expressa, “podemos, com o tempo, nos tornar animais políticos e morais, mas mais fundamentalmente, estamos fantasiando e estetizando animais”.

Assim, chegamos à filosofia freudiana da natureza humana, uma visão de nossa natureza que colocou desejo e fantasia no centro da vida mental humana. Como Kaye acrescenta, foi o padrão universal desses desejos e fantasias, fundamentado em nossa dotação biológica – a saber, o complexo de Édipo, entre muitos outros exemplos – que determinou a agenda do pensamento social. Ou seja, havia certas fixidades na natureza humana –  um ‘certo conteúdo intratável’, como Kaye afirma –  conteúdo esse específico para o termo ‘natureza humana’, um conteúdo que poderia ser cruel, egoísta, brutal e até impronunciável em sua perversidade, mas isso não pode ser desejado ou condicionado. O trabalho da filosofia social era criar um equilíbrio ideal entre os elementos intratáveis ​​da natureza humana e as exigências da vida vivida em conjunto, em uma sociedade avançada e organizada. Que esse equilíbrio pudesse ser, como Freud o expressou de maneira tão memorável em Civilização e seus descontentes, uma coisa bastante tênue e desconfortável, algo que não podia ser evitado.

Aqui, curiosamente, Kaye está em rebelião aberta contra uma das principais tendências de sua própria disciplina da sociologia: a sua tendência a adotar uma concepção ‘supersocializada’ do homem, na qual os seres humanos são definidos como ‘seres sem natureza’ que podem ser transformados em qualquer coisa que uma determinada ordem social exija. Ou, nas palavras de Richard Rorty, “somos capazes de transformar-nos em qualquer coisa que nossa habilidade e coragem permita imaginar”. Tal afirmação soa quase como a sabedoria convencional de nosso tempo, de uma forma um pouco mais respeitável do que a habitual psicodiscurso dos terapeutas de Hollywood e dos mascates da Madison Avenue. O espírito de Freud, com sua insistência nas fixações da natureza humana, sempre esteve em firme oposição a tais coisas. De fato, foi precisamente esse aspecto de Freud, como um antídoto para todo o poder da cultura consumidora, que atraiu pensadores como Lionel Trilling para ele.

Por melhor que este livro seja, ele poderia ter sido ainda melhor por duas coisas. Primeiro, Kaye poderia ter explicado, com mais detalhes do que fez, as maneiras específicas pelas quais o pensamento social de Freud permanece de valor duradouro para nós, mesmo que a base científica de suas reivindicações tenha sido demolida. Essa é uma consideração importante porque, se a teoria social de Freud foi fundamentada em uma visão do indivíduo que não é apoiada pelo estado atual do entendimento científico, como é que as extrapolações dessa visão resultaram em uma teoria social que é maior que o interesse histórico (que é o caso que Kaye fortemente sugere)?

Kaye acha que eles podem, o que me leva a uma segunda preocupação relacionada, que procede de uma das maiores virtudes do livro. O tratamento de Freud por Kaye lembra, sob muitos aspectos, a grande era dos escritos sociológicos, quando a sociologia era uma investigação filosófica da mais alta ordem, e seus praticantes – Durkheim, Marx, Weber, Simmel, Tönnies, entre outros – pertenciam a uma longa e ilustre sucessão intelectual cuja trajetória pode ser traçada a Tocqueville, Hume, Hobbes (a quem Kaye compara Freud), e até os antigos. Mas o que torna essa sucessão tão ilustre é o fato de que todo pensador que nela se encontra ainda está, de uma certa forma, disponível para nós. Não em todos os aspectos, é claro, mas muito mais do que muitos imaginam. Por exemplo, nossa rejeição da maioria dos aspectos da ciência da natureza de Aristóteles e sua afirmação de doutrinas como a escravidão natural não esgotam seu interesse por nós. Temos todos os motivos para nos interessarmos por um pensador que entende os indivíduos humanos como sendo, em certo sentido, feitos para a vida em comunidade, ao invés de vê-los como feitos para a gratificação isolada de desejos instintivos, e tornados sociais apenas pela disciplina coercitiva da socialização.

Kaye, no entanto, traça uma linha dura entre o pensamento social antigo e o moderno, e embora eu ache que ele caracterize a diferença com precisão – os antigos entendendo a ‘natureza’ como uma expressão do melhor e mais completo desenvolvimento humano, ocorrendo dentro de um contexto social, e os modernos entendendo a ‘natureza’ como aqueles propulsores e impulsos que nos motivam sem referência à sociedade – ele não fornece uma razão para favorecer o segundo em detrimento do primeiro. Dada a escassez de evidências para reivindicações freudianas a favor deste último, para não mencionar a falta de evidências de que algo como um estado ‘hobbesiano’ da natureza já existiu – algo que seria muito difícil para o tipo de mamífero que somos – talvez não seja um mau momento para reconsiderarmos. Poderíamos viver juntos melhor se acreditássemos que fomos criados para isso.

                                                                                                                                   

Ensaio originalmente publicado em inglês  no The Hedgehog Review 22.1 (Spring 2020). Tradução e notas de rodapé de JPO.

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[1] O poema citado foi publicado no livro de W. H. Auden Another Time (Random House. 1940). Link.

[2] Kaye, H. L., Freud as a Social and Cultural Theorist: On Human Nature and the Civilizing Process (Classical and Contemporary Social Theory). Routledge, 2018. Originalmente publicado pela Yale University Press em 1986.

[3] Na mitologia grega, Epimeteu (/ ɛpɪˈmiːθiiəs /; grego: Ἐπιμηθεύς, que poderia significar ‘retrospectiva’, literalmente ‘pensador’) era o irmão de Prometeu (tradicionalmente interpretado como ‘previsão’, literalmente ‘pensador’), um par de Titãs que ‘atuavam como representantes da humanidade’.

George Santayana and his friendship with Frank Russell

Jo Pires-O’Brien

The Spanish-American philosopher George Santayana (1863-1952) described Frank Russell, (1865-1931), the 2nd Earl Russell and the older brother of Bertrand Russell (1872-1970), as the most extraordinary of his friends. They met in 1886, in circumstances that can be described as extraordinary, too. Santayana was 22 years old and in his last year as an undergraduate at Harvard University. The young Earl Russell had been sent to Boston by his paternal grandmother to seek a tutor. His guide in Boston, Herbert Lyman, a friend of Santayana, took Russell to meet Santayana at his student accommodation in Hollis Hall. In his memoirs, Santayana reveals that he never knew for sure why Lyman thought that Russell might have liked to meet him. Could it be because his room in Hollis Hall had a view of a picturesque brick path? Was it because Lyman thought that Santayana was a comparatively articulate bloke and known to write poetry? Or could it be because Lyman was his friend? Perhaps Lyman took all of these things into account. Here is Santayana’s description of Russell, taken from his 1947 book The Middle Span:

He was a tall young man of twenty, still lithe though large of bone, with abundant tawny hair, clear little steel-blue eyes, and a florid complexion. He moved deliberately, gracefully, stealthily, like a tiger well-fed and with a broad margin of leisure for choosing his prey. There was precision in his indolence; and mild as he seemed, he suggested a latent capacity to leap, a latent astonishing celerity and strength, that could crush at one blow. Yet his speech was simple and suave, perfectly decided and strangely frank. He had some thoughts, he said, of becoming a clergyman. He seemed observant, meditative, as if comparing whatever he saw with something in his mind’s eye. As he looked out of the window at the muddy paths and shabby grass, the elms standing scattered at equal intervals, the ugly factory-like buildings, and the loud-voiced youths passing by, dressed like shop assistants, I could well conceive his thoughts, and I said apologetically that after Oxford all this must seem to him rather mean; and he replied curtly: “Yes it does.” I explained our manner of life, our social distinctions, our choice of studies, our sports, our food, our town amusements. He listened politely, obviously rather entertained and not displeased to find that, according to my description, all I described might be dismissed for ever without further thought. Then he sat good-naturedly on the floor and began to look at my books – a rather meagre collection in some open shelves. He spied Swinburne’s Poems, and took out the volume. Did I like Swinburne? Yes, perhaps he was rather verbose; but did I know the choruses in Atlanta in Calydon? No? Then he would read me one.  And he read them all, rather liturgically, with a perfect precision and clearness, intoning them almost, in a sort of rhythmic chant, and letting the strong meaning shine through the steady processional march of the words. It seemed the more inspired and oracular for not being brought out by human change of tome or of emphasis. I had not heard poetry read in this way before. I had not known that the English language could become, like stained-glass, an object and a delight in itself.

He stayed a long time, until, the daylight having decidedly failed, he remembered that he was to dine with the James’. My own dinner was long since cold. He was off the next day, he said; but I must look him up whenever I come to London. I saw no more of him at that time; but I received through the post a thin little book bound in white vellum, The Bookbills of Narcissus, by Richard Le Gallienne, inscribed “from R.” And William James not long afterwards took occasion to interrupt himself, as his manner was, as if suddenly thought had struck him, and to say to me: “I hear you have seen this young grandson of Lord John Russell. He talked about you; you seem to have made an impression.” The impression I had made was that I was capable of receiving impressions. With young Russell, who completely ignored society and convention, this was the royal road to friendship. (pp. 51-52)

The opportunity for a second meeting between Santayana and Russell came in March 1887, when Santayana, who had been studying in Germany since the fall of 1886, travelled to England. Russell was not in London but in Reading, looking after the Royal, his 100 tons steam yacht, that was moored at the Kennet Canal. It was there that Santayana met him. When Santayana arrived, Russell was discussing boating matters with the mechanic, and only after he finished he greeted Santayana properly. On that occasion Santayana noticed that Russell had a knack for the latest mechanical novelties such as the small dynamo used for the illumination of the yacht.  When Santayana asked Russel what electricity was, Russell pulled him to stand close to the dynamo’s large magnet, and when Santayana felt the pull, he said to him: ‘That is what electricity is.’ The two young friends spent a couple of nights at the local inn, and when the yacht was ready, Russell and Santayana sailed it down the Thames towards London, while Santayana did his best to learn what was required of him as a second mate.

Later that same year Santayana met Russell again in Marseilles, for another trip on the Royal. To Santayana, that second trip sealed their friendship, for it enabled the two young men to get to know each other better. Here is Santayana’s recollection of it.

Two men in their early twenties eating and sleeping for three weeks in the same cabin, seeing the same sights and living through the same incidents without one moment of boredom, without one touch of misunderstanding or displeasure, could not but become very good friends. But we were predestined to become friends before, in fact ever since our acquaintance; and I don’t think this trip through Burgundy made such a difference. Friendship in any case didn’t mean for Russell what it meant to me. There was no dramatic curiosity in it for him, no love of speculation and unanimity. He cared nothing about what other people might be in themselves or in their feelings and careers; nor did he have the least need of embosoming himself. He was frank enough and didn’t take the pains to disguise facts in his own life, when the interest of the moment led him to refer to them.

In spite of their different social circumstances, the friendship that Santayana had with Russell lasted for many years. Santayana explained that on the fact that neither of them were a nuisance to the other. As he wrote in his memoirs, “he respected my freedom unconditionally and gladly, and I respected his.”

References

Santayana, G. The Middle Span: The background of my life. London, Constable, 1947.

Anna-Teresa Tymieniecka and her friendship with Pope John Paul II

Joaquina Pires-O’Brien

Anna-Teresa Tymieniecka (1923- 2014), the woman who gained posthumous fame for having had a friendship with Pope John Paul II (Karol Wojtyla) for more than thirty years, was a Polish American phenomenologist philosopher. In this essay I try  to show that although it was Tymieniecka’s  friendship with Pope John Paul II that has caught the interest of the greater media, she was an accomplished individual in her own right.

At the time of Tymieniecka’s death in 2014, age 91, she was still active in the World Phenomenology Institute (WPI), the institution that she founded in 1968, in Hanover, New Hampshire.  She served WPI for many years, as its president and as the editor of its official publications: Analecta Husserliana and of Phenomenological Inquiry.  A search of her books in Amazon shows her name as editor until close to her death. Tymieniecka’s biography provide many clues to her motivation as well as to her personality.

According with Marek Jerzy Minakowski, a Polish genealogist who has an extensive blog in the internet (https://minakowski.pl/), the biography of Anna-Teresa Tymieniecka (1923- 2014) that appears in Wikipedia is not completely accurate. The version in Wikipedia states that “she was born into an aristocratic Polish-French family,” but although she comes from an aristocratic family, it was a Polish-Jewish one, for her connections to French aristocrats are too remote to count. Minakowski states that was the great-granddaughter of Abraham Loewenstein, from the Jewish commune in Kazimierz, and a descendant of Szmul Niederkowir, the richest Polish Jew of early ‘9th century. The version in Wikipedia also states that Anna-Teresa’s mother, Maria-Ludwika de Lanval Tymieniecka, introduced her to philosophy of Henri Bergson (1859-1941). To that, Minakowski makes two points. The first is that Tymieniecka’s mother probably had a proper Jewish name at birth, inferring that she was the daughter of Jews who converted to Catholicism. The second is that she would know the French philosopher Henri Bergson, because he too was a descendant of Szmul Niederkowir.[1]

Tymieniecka was born on an estate in Masovia, Poland, in a well to do family. As a young woman, she was drawn to the Lvov–Warsaw Philosophical School, the most important movement in the history of Polish philosophy, established by Kazimierz Twardowski (1866-1938) at the end of the 19th century in the Ukrainian city of Lviv, capital of the province of Galicia, which at that time was part of the Austro-Hungarian Empire[2]. She was especially interested in Twardowski’s most important book Zur Lehre vom Inhalt und Gegenstand der Vorstellungen (On the content and object of presentations). As far as her formal higher education is concerned, Tymieniecka studied simultaneously and the Kraków Academy of Fine Arts. At the Jagiellonian University she began systematic studies of philosophy under the guidance of Roman Ingarden (1893-1970), who himself had studied with Kazimierz Twardowski and Edmund Husserl (1859-1938).  At the end of her undergraduate studies, she moved to Switzerland to continue studies under another important Polish philosopher and logician, Józef Maria Bocheński (1902-1995), at the University of Fribourg. Her doctoral study, dedicated to explorations of the fundamentals of phenomenology in Nicolai Hartmann and Roman Ingarden’s philosophies, was later published as Essence and Existence (1957). From Fribourg, Tymieniecka moved to Paris, where she enrolled herself at the Sorbonne, to study French philosophy and literature, obtaining her second Ph.D. from this institution in 1951. In the years 1952-1953 she did postdoctoral researches in the field of social and political sciences at the College d’Europe in Brugge, Belgium. According to her main biographer, from that moment on, Tymieniecka started her own way in philosophy, by developing a special phenomenological attitude that was neither entirely Husserlian, nor entirely Ingardenian.

Tymieniecka imigrated to the United States in 1954. Upon her arrival she held two short term academic appointments, the first to teach philosophy at the University of California at Berkeley, and the second to teach mathematics at Oregon State University, in Corvallis. According to her biography, after these she did postdoctoral research at Yale, and after that, in 1957, she became an assistant professor of philosophy at Pennsylvania State University, lecturing also at Bryn Mawr College, also in Pennsylvania. From 1961 to 1966 she taught at the Institute for Independent Study at Radcliffe College, a women’s liberal arts college in Cambridge, Massachusetts. Her last academic post was as a  professor of Philosophy at St. John’s University, New York city, from 1972-1973.

In 1956 Tymieniecka married Hendrik S. Houthakker (1924-2008), Professor of Economy at Stanford University (1954-1960) and Harvard University (from 1960) and member of President Nixon’s Council of Economic Advisers from 1969 to 1971. The couple had three children: Isabella Houthakker, Louis Houthakker and Jan-Nicolas Houthakker. Although Tymieniecka’s biography does not provide any details of her married life, one could make an educated guess that she must have endured the usual hardships of trying to find a job somewhere near that of her husband’s. However, Tymieniecka had the courage and the determination to carve her own working niche, founding the WPI and locating it somewhere accessible to her family home, first in Lebanon (NH) and then in Pomfret (VT). This is the kind of compromising that spouses do for the sake of their relationship and their family. We cant’t know for sure that the married of Tymieniecka and Houthakker was a happy one, but the evidence points to that.

The WPI that Tymieniecka founded soon made its mark through its various activities and publications. Many of its meetings were conducted in rooms rented at Harvard University. Tymieniecka herself was well respected in the academic circles.  About the time Tymieniecka was founding the WPI, she became acquainted with two books by the Cardinal Karol Wojtyla, after which she developed an interest in meeting Wojtyla in person. These books were Miłość i Odpowiedzialność  (Love and Responsibility; 1960) and Osoba i czyn (Person and act or The acting person; 1967). Love and Responsibility is about the complexity of sexual feeling and response, and an extension of the Thomist view that all sexuality must be generative. The Acting Person stresses that man must ceaselessly unravel his mysteries and strive for a new and more mature expression of his nature, which includes his struggle to live with dignity.

The opportunity for Tymieniecka to meet Wojtyla appeared in 1973, when she was invited by the Seventh Centennial International Thomas Aquinas Congress to represent American scholarship on its Scientific Committee. She decided to invite the Cardinal Wojtyla to present a paper in the phenomenology section, of which she was the moderator, and to travel to Poland to deliver the invitation in person. Their first meeting must have been as momentous as one would expect of a meeting of two kindred spirits with sharing interests. After their first meeting, Tymieniecka and Cardinal Wojtyla became friends.

A friendship between a priest and a married woman is bound to raise eyebrows, especially so with the priest happens to be a Cardinal or a Pope. There is no evidence of impropriety in the friendship between Tymieniecka and Cardinal Wojtyla. On the contrary, their friendship served to show that it is possible for a spiritual leader to cultivate the life of the spirit and be engaged with the world. Tymieniecka’s husband, Houthakker, who was intelligent and cosmopolitan did not object to hi wife’s friendship with Cardinal Wojtyla. In fact, he too became a friend of the Cardinal according to biographers Carl Bernstein and Marco Politi in their book His Holiness (1997). We learn from their book that Cardinal Wojtyla and his private secretary, Father Stanislaw Dziwisz, visited Tymieniecka and her husband in their Vermont country home in the summer of 1976. According to them, the cardinal celebrated mass each morning at a picnic table in the backyard; he borrowed her husband’s shorts to wear beneath his swimming trunks when they swam in a neighbour’s pond; and they took long walks (usually in the company of Dziwisz) to discuss philosophy and their work. After Wojtyla was elected to the papacy in October 1978, he insisted in carrying on meeting with Tymieniecka. Their friendship lasted until the death of Wojtyla in 2005.

There are two important things about Tymieniecka that her biographers agree. The first is that she was intellectually equal to her kindred spirited friend, the late Pope John Paul II. The second is that their friendship was platonic. We can go further to say that their friendship was of the ‘complete’ (teleion) type described by Aristotle, which is only possible between those who are sensible and virtuous.

Tymieniecka’s  exceptional intelect can be infered both from her academic qualifications and her books. As shown in her selected bibliography, below, Tymieniecka is the author of seven books of great significance. She was the editor of Analecta Husserliana and of Phenomenological Inquiry, the two main publications of The World Phenomenology Institute. In addition to that, she was also a co-Editor of the Springer (formerly Kluwer Academic Publishers) book series: Islamic Philosophy and Occidental Phenomenology in Dialogue, with Gholamreza Aavani and Nader El-Bizri. Tymieniecka’s editorial signature can be deduced from the various titles she helped to put into print, which included the aforementioned books by Karol Wojtyla, Pope John Paul II.

Tymieniecka sold her archive to the National Library of Poland in 2008, but the letters she reveived from Pope John Paul II were handed to them only after her death, on June 7, 2014, in Pomfret, Vermont, United States.

When in The World Phenomenology Institute held its 39th Annual Cambridge Conference, in June 4-6, 2015, one of its Session was entitled ‘Homage to Anna-Teresa Tymieniecka. Its plenary session was conducted by Daniela Verducci[3], WPI CoPresident (European/Asian Division), who spoke on The Subject/Object Relationship According to the Phenomenology of Life of Anna Teresa Tymieniecka.

Conclusion

As a long admirer of Karol Wojtyla, the late Pope John Paul II, when I learned about his long lasting friendship with the philosopher Anna-Teresa Tymieniecka, I simply dismissed any innuendos of wrong doing. My recent interest in the philosophy of  friendship drove me do this brief inquire into the life of his friend Tymieniecka, and not to my surprise, I discovered another exceptional person. The friendship between Tymieniecka and Wojtyla was of the complete type that Aristotle described. This type of friendship only happens between very exceptional people. Complete friendships are the diamonds of humanity: tough, beautiful and extremely rare. They are morsels of meaning that fill the void of existence.

Selected bibliography of Tymieniecka

Tymieniecka, A.-T. Essence et existence: Étude à propos de la philosophie de Roman Ingarden et Nicolai Hartmann (Paris: Aubier, Editions Montaigne, 1957).

—. For Roman Ingarden; nine essays in phenomenology (’s-Gravenhage: M.Nijhoff, 1959), viii + 179 p.

—. Phenomenology and science in contemporary European thought. With a foreword by I. M. Bochenski ([New York]: Farrar, Straus and Cudahy, 1962), xxii + 198 p.

—. Leibniz’ cosmological synthesis (Assen: Van Gorcum, 1964), 207 p.

—. Why is there something rather than nothing? Prolegomena to the phenomenology of cosmic creation (Assen: Van Gorcum & Comp., 1966), 168 p.

—. Eros et Logos (Paris: Beatrice-Nauwelaerts, 1972), 127 p.

—. Logos and Life (Dordrecht; Boston: Kluwer Academic, 1987–2000, 4 vols.).

Bibliography

Bernstein, Carl and Politi, Marco. His Holiness. 1997.

Minakowski, Marek Jerzy. The next friend of the Pope was a descendant of Jewish bankers. https://minakowski.pl/najblizsza-przyjaciolka-papieza-byla-potomkini-zydowskich-bankierow/ . Consulted on 09.04.2019.

Stourton, Ed. The secret letters of Pope John Paul II. BBC News, 15 February 2016. Source: https://www.bbc.co.uk/news/magazine-35552997

Verducci, Daniela. The ‘Sacred River’ Toward God: Anna-Teresa Tymieniecka’s Phenomenology of Religious Experience. Open Theology 4:630-639, 2018.

Wikipedia. Anna-Teresa Tymieniecka (February 28, 1923 – June 7, 2014). https://en.wikipedia.org/wiki/Anna-Teresa_Tymieniecka

                                                                                                                             

Joaquina (Jo)  Pires-O’Brien is the editor of PortVitoria, a magazine of the Iberian culture, being published since July 2010.

Key words: Anna-Teresa Tymieniecka; Pope John Paul II; Cardinal Karol Wojtyla; Analecta Husserliana; The World Phenomenology Institute; Aristotle; Henri Bergson; complete friendship; Daniela Verducci;

Notes

[1] Bergson was a Jew who regarded Catholicism with sympathy, as shown in his book Les deux sources de la morale et la religion (1932), which was very influential to a number of Catholic thinkers. During World War II, when France was occupied by the Germans, Vichy regime issued a decree ordering the Jews to register themselves, but in a separate decree it exempted those Jews who had achieved distinction in the areas of science, literature, art, etc. Although the 80 year old Bergson fitted the latter category he opted to register in solidarity to other Jews. He died soon after that, on January 3, 1941.

[2] Its other members included Tadeusz Kotarbiński, Stanisław Leśniewski, Jan Łukasiewicz and Alfred Tarski.

[3] Verducci is the author of La fenomenologia della vita di Anna-Teresa Tymieniecka. Prova di sistema (Italian) Paperback, 1 Jan 2012. Verducci’s more recent paper about Tymieniecka appeared in 2018 in the journal Open Theology.

Dora Ferreira da Silva. Brazilian poet

Shala Andirá

Tradutora renomada dos poetas Rainer Maria Rilke e Friedrich Hölderlin, do psicólogo suíço Carl Gustav Jung e do místico São João da Cruz, Dora Ferreira da Silva (1918-2006), merece especial atenção por sua obra poética, pela qual foi contemplada com três prêmios Jabuti e com o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

Dora, nasceu em Conchas, São Paulo, em primeiro de julho de 1918. Casou-se aos 19 anos com o filósofo Vicente Ferreira da Silva (1916-1963), com quem estabeleceu  uma vida de companheirismo e parceria nos estudos, por 23 anos, até a morte brutal de Vicente em um acidente de carro.

A residência do casal era ponto de encontro e estadia de escritores, poetas e pensadores interessados no dialogismo e na continuidade do pensamento crítico. Com este espírito, Dora e Vicente criaram a revista Diálogo, nos anos 60, a qual contou com 16 números, interrompidos com a morte prematura deste. Um ano após a morte do marido, Dora fundou a revista Cavalo Azul que contou com 12 números dedicados à literatura e, em especial, à poesia.

A poeta foi, também, docente de História da Arte e de História das Religiões em universidades paulistas.

Ganhou o Jabuti com seu primeiro livro, Andanças. Uma coletânea de poemas produzidos a partir de 1948, e lançado na maturidade, em 1970, embora o amor pela poesia tenha surgido na infância, na biblioteca do pai, que falecera quando ela tinha apenas um ano de vida.

Publicou ao longo da vida, além de ensaios e traduções, 15 livros de poesia, entre eles sua Poesia Reunida, de 1999, que levou o prêmio Machado de Assis. Em 2003, incansável, cria, o Centro de Estudos Cavalo Azul que incorporou poetas como Cláudio Willer. Em 2004, chama novamente a atenção da crítica e dos leitores com o livro Hídrias, que reúne uma série de poemas no qual retoma um tema recorrente em sua obra: as fronteiras do sagrado.

Com a morte, em 2006, aos 87 anos, deixa inconcluso o livro no qual trabalhava três séries de poemas: O leque, Appassionata, e Transpoemas. Entre 2007 e 2009, essas séries são lançadas em três livros independentes.

Humana, entre o céu e a profundidade da terra, Dora reúne a força do ventre feminino e a sutileza nos detalhes de sua natureza com maestria de gênio.

 

Seleção de poemas de Dora Ferreira da Silva

 

PORTUGUESE

 

Eterno presente

Um mundo apenas nosso abraço unia

O céu e a Terra mal chegando ao porto

Nuvens e cabelos mar revolto

De marinheiros despertando ao dia.

 

As gaivotas forçavam nossa porta

Quando o linho das velas se abatia

Cantava o vento eterna melodia

À juventude de nossa alma absorta.

 

Isso foi ontem logo será outrora

Outros dias flutuam sobre o mar

E esse silêncio cada vez mais fundo

 

Recolhe o som que diz: “Chegada é a hora.”

Alguém responde em confidência ao ar

De um amor que no Amor gerou seu mundo.

 

 

Fronteira II

Esperava-se a fronteira.

Onde e quando?

Andávamos

sem perguntar

tão liso o dia

Ondulada a noite.

Evolava-se o ruído

do capim rasteiro.

Houve um grito? Era a fronteira

Talvez

Sua cancela aberta.

Os cães recuaram e os sentidos.

Quem nos transpôs?

Dionisos dendrites

Seu olhar verde penetra a Noite entre tochas acesas

Ramos nascem de seu peito

Pés percutem a pedra enegrecida

Cantos ecoam tambores gritos mantos desatados.

 

Acorre o vento ao círculo demente

O vinho espuma nas taças incendiadas.

Acena o deus ao bando: Mar de alvos braços

Seios rompendo as túnicas gargantas dilatadas

E o vaticínio do tumulto à Noite –

Chegada do inverno aos lares

Fim de guerra em campos estrangeiros.

 

As bocas mordem colos e flancos desnudados:

À sombra mergulham faces convulsivas

Corpos se avizinham à vida fria dos valados

Trêmulas tíades presas ao peito de Dionisos trácio,

Sussurra a noite e os risos de ébrios dançarinos

Mergulham no vórtice da festa consagrada.

 

E quando o sol o ingênuo olhar acende

Um secreto murmúrio ata num só feixe

O louro trigo nascido das encostas.

 

Kóre (I)

Por que sempre voltas mendiga

com braceletes de ouro e súplices olhos

de violeta?

Tuas sandálias te trazem nos andrajos

de púrpura. É primavera.

O vento se debate

nos arbustos brilhantes.

O jardim te espelha, pétalas refletem

teu sorriso

e se ofuscam.

Voltas. Sempre de novo és tu

e me assedias:

vaso antigo, cítara,

coluna entre o arvoredo.

Queres cantar comigo na relva da manhã?

Conheço tuas pálpebras, os anéis do teu cabelo,

a curva de teu colo. Sem te ouvir

sei como cantas.

Voltaste: é primavera.

O jardim se adorna

com joias do teu cofre

pérolas frementes.

Forças, amiga, demasiado as cordas

do meu canto.

Revela-se em mim tua fragilidade.

Demora, se puderes, e com o orvalho de teus colares claros

guarda meu pranto

quando ainda mais uma vez te fores.

SPANISH

 Kóre (I)

¿Por qué siempre regresas mendiga

com brazaletes de oro y suplicantes ojos

de violeta?

Tus sandálias te traenn en harapos

de púrpura. Es primavera.

El viento se debate

en los arbustos brillantes.

El jardín te esparce pétalos que reflejan

tu sonrisa

y se ofuscan.

 

Regresas. Siempre como tú

y me asedias:

vaso antiguo de cítara inspiración,

columna entre el arbolado.

Quieres cantar conmigo en el césped de mañana.

Conozco tus párpados, los rizos de tus cabellos,

la curva de tu cuello. Sin oírte

sé cómo cantas.

 

Regresaste, es primavera.

El jardín se adorna

con joyas de tu cofre,

perlas trémulas.

 

Fuerzas amiga demasiado las cuerdas

de mi canto.

Se revela en mí tu fragilidad.

Demora si puedes y con las cuentas de tus collares claros

guarda mi llanto

incluso cuando te vayas

(Versión de Consuelo Olvera T.)

La coruscante visión moral de André Glucksmann

Adam Gopnik

André Glucksmann, que murió en la noche del lunes [10 Noviembre 2015] en París, fue una de las grandes figuras y pensadores maestros de la vida francesa contemporánea, con la ironía de que gran parte de su grandeza dependía de su desmantelamiento apasionado de la idea de ‘grandes hombres’ y ‘maestros pensadores’, que él consideraba haber desfigurado la vida europea por mucho tiempo. Su muerte, a los setenta y ocho años, es más que dolorosa; es desconcertante y desorientadora. Si tuviera la suerte de conocerlo, todavía era posible imaginar un viaje de metro a su gran apartamento bohemio repleto de libros en el norte de París y, con su esposa brillante, Fanfan, empeñada a su lado – en una atmósfera siempre de algún modo más chekhoviana que francesa – tomando té y hablando sobre el mundo.

Glucksmann, cuya franja plateada y ojos de águila encapuchados, se convirtió en un icono familiar del intelecto francés – en los años setenta, cuando emergió como uno de los Nuevos Filósofos, sus cualidades telegénicas habían sido una parte innegable del paquete – no era el tipo de filósofo que le gustaba argumentar por sí mismo. Él prefería la verdad, si la pudieras encontrar, por el bien de los demás. Él tomaría todo el tiempo del mundo en busca de eso, por más remoto que fuera el caso: las luchas de los chechenos, ucranianos y ruandeses eran tan vivas para él como las preocupaciones locales de Francia. Su globalismo era un recordatorio del mejor lado del universalismo francés en un momento de contracción de horizontes.

Después de una tarde de Glucksmann, usted emergía sintiéndose un tanto avergonzado, no importa cuál fuera el asunto, de los equívocos periodísticos con los que usted podría haber llegado – y viendo, con una claridad estimulante, la verdad moral más simple de la circunstancia. La última vez que lo visité fue cuando llegué a París para escribir sobre la crisis del pueblo Roma, los gitanos. Él escuchó mientras yo me preocupaba por las muchas facetas de la ‘cuestión’ – la verdad de que los gitanos estaban involucrados en pequeños crímenes, el comprensible miedo popular de los inmigrantes, etc. Entonces él dijo simplemente: “Debemos releer a Victor Hugo. Todos están implicados. La cara feliz del nomadismo es que todos los franceses se dirigieron a Londres para ser banqueros. La cara miserable es la del pobre gitano en sus campamentos”. En el libro Les Misérables, el inspector Javert, la cruel personificación de la mente del policía, era hijo, bastardo de una familia de gitanos. Estamos todos implicados.

La erudición fácil fue más conmovedora por haber sido tan duramente conquistada. Glucksmann nació de dos apasionados peregrinos intelectuales judíos del tipo que ya fue la gloria de la mente europea. (Sus padres se conocieron cuando, en los años treinta, en Jerusalén, cada uno reconoció la capa roja del diario de Karl Kraus en sus bolsillos.) Durante la guerra fue deportado con su familia a Bourg-Lastic, una estación de espera en el camino de Auschwitz. (Ver su madre enfrentarse a la policía francesa allí, anunciando con franqueza a los internados que estaban siendo enviados a la muerte, fue, como él relató en su libro de memorias urgente, Une Rage d’Enfant (una rabia de niño), fue una la experiencia de ancla para él, probando que, confrontada con el mal, la resistencia es siempre más valiosa que la obediencia.) La experiencia de 68 lo transformaría primero en radical y luego, brevemente, en maoísta – esto ocurrió cuando las ilusiones del maoísmo sugirió que podría ser una alternativa populista al estalinismo del Partido Comunista Francés, una noción loca ahora, pero que, para entender, era preciso estar allí. Entonces, en los años setenta, bajo la influencia de Solzhenitsyn en particular, Glucksmann se volvió decisiva y permanentemente contra todas las formas de totalitarismo.

Él a veces lamentaba las posiciones anteriores, pero no la experiencia juvenil. Por entender que era fácil perseguir la pasión por la justicia y la revolución usando medidas obscenas, Glucksmann podía entender la tentación totalitaria como respuesta a una necesidad profunda e inexpugnable de la naturaleza humana por un maestro, un guía. Su amigo y compañero un tanto más joven, el escritor Pascal Bruckner, cuando se le pidió a destilar la contribución de Glucksmann al pensamiento francés, dijo que fue poner fin a cualquier romance sobre el comunismo, pero, más importante, re definir la sintonía del entendimiento francés: él dejó claro que construir un mundo más ideal era una tarea menos importante que arreglar el mal en este. “No puedo decir que debes estar a favor. Pero sé lo que estar en contra”, era una de las locaciones favoritas de Glucksmann. Era difícil saber cómo hacer un mundo mejor. Pero era fácil ver lo que se había vuelto terrible. Diseñar el orden ideal era un trabajo imposible. Guardar las víctimas de aquellos involucrados en la planificación de órdenes ideales no era, en realidad, tan difícil como nuestra pereza nos permite fingir que era.

Así, en Ruanda, en Chechenia o dondequiera que las personas fueran víctimas del ogro, él estaba allí – siempre en espíritu y muchas veces personalmente. Todos nosotros, en el curso normal de la vida, aceptamos alguna crueldad o brutalidad como esencial para el funcionamiento del mundo, o la integridad de nuestro lado, y construimos un muro de aislamiento aceptable en torno a nuestras almas. Ese ataque de drone, esa masacre de inocentes – bien, lamentable, pero, ciertamente, posiblemente necesario? Él no aceptaba nada de eso. Un admirador dijo que Glucksmann no estaba a favor de ‘derechos humanos’ sino a favor de los ‘derechos del hombre’. Esta distinción, intrigante en la superficie, era fundamental: ‘derechos humanos’ pueden ser atribuidos a grupos, clases, naciones y movimientos. Los ‘derechos del hombre’ residen sólo en individuos que tienen una reivindicación sobre nuestra humanidad, no importa cuánto parezcan estar en el camino de los derechos generales abstractos de algún otro grupo, quizás mayor.

Como Bruckner apunta, una de las singularidades de la vida de Glucksmann era que, aunque admiraba la contribución americana a la definición de libertad, nunca conoció a América. Esto lo hizo susceptible, particularmente en la época de la guerra de Irak, a una visión a veces irrealista de la pureza de las intenciones estadounidenses. Aunque algunos han dicho que ‘rabia’ – esa ‘rabia’ – fue la nota principal en su mente, la verdad es que su ‘rabia’ era más parecida a lo que llamamos indignación, y la indignación puede ser marcada por la inocencia. (Él chocó a muchos de sus amigos al endosar a Sarkozy en las elecciones de 2007 – un endoso que no retiró exactamente, pero se flexionó después de que la actitud menos acogedora de Sarkozy hacia las personas indefensas como los gitanos se hizo evidente.)

A veces era llamado el Orwell francés, y él era, de hecho, igualmente sin temor en sus compromisos, tomando lados a la izquierda ya la derecha sin la menor preocupación sobre cómo alcanzar a cualquier otra persona – quién podría enajenar, o lo que determinada la escuela de pensamiento podría desaprovecharse. Pero su estilo estaba lejos de la lucidez angloamericana, y aunque él generalmente era llamado filósofo, él no era de todo un filósofo en nuestro sentido académico de alguien que explora una serie de tópicos resumiendo el pensamiento pasado y después argumentando por una nueva conclusión. Él era realmente un ensayista, en la tradición francesa, trayendo consigo un denso enmarañado de evocaciones históricas, polémicas, ejemplos personales, ironías y discursos emocionales, todos desempeñando un papel al lado del resumen aforístico de las ideas de los filósofos más antiguos.

El estilo a veces podía ser abrumador y muchas veces era un instrumento más eficaz de placer intelectual que la persuasión política. Pero, en cambio, produjo miles de pequeñas epifanías -por ejemplo, su adorable punto ‘al dente’, detallado en uno de sus libros, que entre el ‘crudo’ y el ‘cocido’ – el amado binario simple del estructuralismo – había siempre el ‘popurrí’, el cariado, el podrido. Nuestro rechazo a aceptar el pudrimiento como una categoría propia fue, sugirió, con una encantada visaje literaria, una especie de ceguera moral, parte de una falsa dialéctica que nos cegó hacia la verdad confusa y turbulenta del mundo. El mundo real no estaba compuesto de fuerzas dialécticas oscilantes; era compuesto de reales y sufridas personas, aplastadas entre aquellas fuerzas.

Lo que era difícil de ver, a través de los elevados obituarios de esta semana, era lo dulce que un amigo podría ser: sin pretensión o arrogancia, un hombre de pura pasión intelectual, pero sin la pompa o la autoestima que aflige a la categoría. En una de esas largas tardes de conversación, él oía los varios lados de un dilema actual, en Francia o en cualquier otro lugar, observándolo con ojos somnolientos y benevolentes, y después pensaba y finalmente hablaba – más rabínico que filosófico, buscando la verdad moral central de una circunstancia complicada. Él solía comenzar esa intervención con una sonrisa cansada y quebrada y después decía otra de sus locuciones favoritas: “Óptimo. Ahora, vamos a contar hasta dos”. La verdad de que la guerra estadounidense en Vietnam estaba equivocada no significa que fuimos obligados a idealizar a sus vencedores o ver a las víctimas del poder norte-vietnamita. Sí, por supuesto, había elementos en Chechenia que eran menos que admirables – eso no alteraba el deber de rescatarlos del Putinismo. O – una verdad más desconcertante para un liberal americano involucrarse – no parece extremadamente provinciano permitir que la antipatía a George W. Bush ciegue a alguien para el mal de Saddam Hussein? Un tipo de verdad no negaba otro. Una verdad, de hecho, exigía la otra. El legado de Glucksmann tiene una simplicidad esencial que es casi tolstoiana: sea contra el mal porque usted nunca puede tener confianza sobre el bien, y cuente al menos hasta dos cuando hacer su aritmética moral. Esas son buenas verdades para dejar atrás, más bellas por lo que son engañosamente difíciles de vivir.


***

Adam Gopnik, escritor de la casa, ha contribuido a The New Yorker desde 1986. Durante su estancia en la revista, él escribió textos de ficción y de humor, reseñas de libros, perfiles, y reportó materias de otros países. Actuó como el crítico de arte de la revista de 1987 a 1995, y como corresponsal de París de 1995 a 2000. De 2000 a 2005, él escribió sobre la vida en Nueva York. Sus libros, que van desde colecciones de ensayos sobre París a alimentos e historias para niños, incluyen: Paris to the Moon (De París a la luna); The King in the Window (El rey en la ventana); Through the Children’s Gate: A Home in New York (A través de la puerta de los niños: un hogar en Nueva York); Angels and Ages: A Short Book About Darwin, Lincoln and Modern Life (Los ángeles y las edades: un pequeño libro sobre Darwin, Lincoln y la vida moderna); The Table Comes First: Family, France, and the Meaning of Food (La mesa viene primero: familia, Francia y el significado de la comida); y Winter: Five Windows on the Season (Invierno: cinco ventanas en la estación). Gopnik ganó tres premios de revistas nacionales, para ensayos y críticas, y el premio George Polk de reportajes en revistas. En marzo de 2013, Gopnik fue galardonado con la medalla de Caballero de la Orden de las Artes y las Letras de Francia. También hace charlas ocasionales, y en 2011 fue el orador invitado de las Conferencias Massey de la Canadian Broadcasting Corporation. Su primer musical, ‘The Most Beautiful Room in New York,’ (El cuarto más bonito de Nueva York) fue lanzado en 2017, en el teatro Long Wharf, en New Haven, Connecticut.

 

Notas

El presente artículo fue publicado el 11 de noviembre de 2015 en la revista semanal estadounidense The New Yorker. Fuente: https://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/the-coruscating-moral-vision-of-andre-glucksmann

© The New Yorker and Adam Gopnik.

Traducción: J Pires-O’Brien (UK).

A coruscante visão moral de André Glucksmann

Adam Gopnik

André Glucksmann, que morreu na noite de segunda-feira [10 de novembro de 2015], em Paris, foi uma das grandes figuras e pensadores mestres da vida francesa contemporânea, com a ironia de que grande parte de sua grandeza dependia de seu desmantelamento apaixonado da ideia de ‘grandes homens’ e ‘mestres pensadores’, que ele achava ter desfigurado a vida europeia por muito tempo. Sua morte, aos setenta e oito anos, é mais do que dolorosa; é desconcertante e desorientadora. Se você tivesse a sorte de conhecê-lo, ainda era possível imaginar uma viagem de metrô para seu grande apartamento boêmio repleto de livros no norte de Paris e, com sua esposa brilhante, Fanfan, empenhada a seu lado – numa atmosfera sempre de algum modo mais chekhoviana que francesa – tomando chá e falando sobre o mundo.

Glucksmann, cuja franja prateada e olhos de águia encapuzados, tornou-se um ícone familiar do intelecto francês – nos anos setenta, quando emergiu como um dos ‘Novos Filósofos’, suas qualidades telegênicas tinham sido uma parte inegável do pacote – não era o tipo de filósofo que gostava de argumentar por si próprio. Ele preferia a verdade, se você a pudesse encontrar, pelo bem dos outros. Ele tomaria todo o tempo do mundo em busca disso, por mais remoto que fosse o caso: as lutas dos tchetchenos, ucranianos e ruandeses eram tão vivas para ele quanto as preocupações locais da França.  O seu globalismo era um lembrete do melhor lado do universalismo francês em um momento de contração de horizontes.

Depois de uma tarde de Glucksmann, você emergiria sentindo-se um tanto envergonhado, não importa qual fosse o assunto, dos equívocos jornalísticos com os quais você poderia ter chegado – e vendo, com uma claridade estimulante, a verdade moral mais simples da circunstância. A última vez que o visitei foi quando cheguei a Paris para escrever sobre a crise do povo Roma, os ciganos. Ele escutou enquanto eu me preocupava com as muitas facetas da ‘questão’ – a verdade de que os ciganos estavam envolvidos em pequenos crimes, o compreensível medo popular dos imigrantes, etc. Então ele disse simplesmente: ‘Devemos reler Victor Hugo. Todos estão implicados. A face feliz do nomadismo é que todos os franceses foram para Londres para serem banqueiros. A face miserável é a do pobre cigano em seus acampamentos. Por ‘nós’, ele quis dizer ‘você ‘, e eu fui para casa e reli Hugo, e descobri o que Glucksmann já sabia – que, no livro Les Misérables, o inspetor Javert, a cruel personificação da mente do policial, era filho bastardo de uma família de ciganos. Estamos todos implicados.

A erudição fácil foi mais comovente por ter sido tão duramente conquistada. Glucksmann nasceu de dois apaixonados peregrinos intelectuais judeus do tipo que já foi a glória da mente europeia. (Os seus pais se conheceram quando, nos anos trinta, em Jerusalém, cada um reconheceu a capa vermelha do diário de Karl Kraus em seus bolsos.) Durante a guerra ele foi deportado com a sua família para Bourg-Lastic, uma estação de espera a caminho de Auschwitz. (Ver sua mãe enfrentar a polícia francesa lá, anunciando com franqueza aos internados que eles estavam sendo enviados para a morte, foi, como ele relatou em seu livro de memórias urgente, Une Rage d’Enfant (Uma raiva de criança), foi uma experiência de âncora para ele, provando que, confrontada com o mal, a resistência é sempre mais valiosa do que a obediência.) A experiência de 68 transformaria ele primeiro em radical e depois, brevemente, em maoista – isto ocorreu quando as ilusões do maoismo sugeriram que poderia ser uma alternativa populista ao Estalinismo do Partido Comunista Francês, uma noção maluca agora, mas que, para entender, era preciso estar lá. Então, nos anos setenta, sob a influência de Solzhenitsyn em particular, Glucksmann se voltou decisiva e permanentemente contra todas as formas de totalitarismo.

Ele às vezes lamentava as posições anteriores, mas não a experiência juvenil. Por entender que era fácil perseguir a paixão pela justiça e pela revolução usando medidas obscenas, Glucksmann podia entender a tentação totalitária como resposta a uma necessidade profunda e inexpugnável da natureza humana por um mestre, um guia. Seu amigo e colega um tanto mais jovem, o escritor Pascal Bruckner, quando solicitado a destilar a contribuição de Glucksmann ao pensamento francês, disse que foi pôr fim a qualquer romance sobre o comunismo, mas, mais importante, redefinir a sintonia do entendimento francês: ele deixou claro que construir um mundo mais ideal era uma tarefa menos importante do que consertar o mal neste. “Eu não posso te dizer que deves ser a favor. Mas eu sei o que ser contra”, era uma das locuções favoritas de Glucksmann. Era difícil saber como fazer um mundo melhor. Mas era fácil ver o que o estava tornado terrível. Projetar a ordem ideal era um trabalho impossível. Salvar as vítimas daqueles envolvidos no planejamento de ordens ideais não era, na verdade, tão difícil quanto a nossa preguiça nos permite fingir que era.

Assim, em Ruanda, na Chechênia ou onde quer que as pessoas fossem vítimas do ogro, ele estava lá – sempre em espírito e muitas vezes pessoalmente. Todos nós, no curso normal da vida, aceitamos alguma crueldade ou brutalidade como essencial para o funcionamento do mundo, ou a integridade de nosso lado, e construímos um muro de isolamento aceitável em torno de nossas almas. Esse ataque de drone, aquele massacre de inocentes – bem, lamentável, mas, certamente, possivelmente necessário? Ele não aceitava nada disso. Um admirador disse que Glucksmann não era a favor de ‘direitos humanos’ mas a favor dos ‘direitos do homem’. Essa distinção, intrigante na superfície, era fundamental: ‘direitos humanos’ podem ser atribuídos a grupos, classes, nações e movimentos. Os ‘direitos do homem’ residem apenas em indivíduos que têm uma reivindicação sobre a nossa humanidade, não importa o quanto pareçam estar no caminho dos direitos gerais abstratos de algum outro grupo, talvez maior.

Como Bruckner aponta, uma das singularidades da vida de Glucksmann era que, embora ele admirasse a contribuição americana para a definição de liberdade, ele nunca conheceu a América. Isso o tornou suscetível, particularmente na época da Guerra do Iraque, a uma visão às vezes irrealista da pureza das intenções americanas. Embora alguns tenham dito que ‘raiva’ – essa ‘raiva’ – foi a nota principal em sua mente, a verdade é que sua ‘raiva’ era mais parecida com o que chamamos de indignação, e a indignação pode ser marcada pela inocência. (Ele chocou muitos de seus amigos ao endossar Sarkozy nas eleições de 2007 – um endosso que ele não retirou exatamente, mas flexionou depois que a atitude menos que acolhedora de Sarkozy em relação a pessoas indefesas como os ciganos se tornou clara.)

Às vezes ele era chamado o Orwell francês, e ele era, de fato, igualmente destemido em seus compromissos, tomando lados para a esquerda e para a direita sem a menor preocupação sobre como atingiria qualquer outra pessoa – quem poderia alienar, ou o que determinada escola de pensamento poderia desaprovar. Mas o seu estilo estava longe da lucidez anglo-americana, e embora ele geralmente fosse chamado de filósofo, ele não era de todo um filósofo no nosso sentido acadêmico de alguém que explora uma série de tópicos resumindo o pensamento passado e depois argumentando por um nova conclusão. Ele era realmente um ensaísta, na tradição francesa, trazendo consigo um denso emaranhado de evocações históricas, polêmicas, exemplos pessoais, ironias e discursos emocionais, todos desempenhando um papel ao lado do resumo aforístico das ideias dos filósofos mais antigos.

O estilo às vezes podia ser esmagador e muitas vezes era um instrumento mais eficaz de prazer intelectual do que a persuasão política. Mas, em contrapartida, produziu milhares de pequenas epifanias – por exemplo, seu adorável ponto ‘al dente’, detalhado em um de seus livros, que entre o ‘cru’ e o ‘cozido’ – o amado binário simples do estruturalismo – havia sempre o ‘pourri’, o apodrecido, o podre. A nossa recusa em aceitar o apodrecimento como uma categoria própria foi, sugeriu ele, com uma encantada careta literária, uma espécie de cegueira moral, parte de uma falsa dialética que nos cegou para a verdade confusa e turbulenta do mundo. O mundo real não era composto de forças dialéticas oscilantes; era composto de reais e sofridas pessoas, esmagadas entre aquelas forças.

O que era difícil de ver, através dos elevados obituários desta semana, era quão doce um amigo ele poderia ser: sem pretensão ou arrogância, um homem de pura paixão intelectual, mas sem a pompa ou a autoestima que aflige a categoria. Em uma daquelas longas tardes de conversação, ele ouvia os vários lados de um dilema atual, na França ou em qualquer outro lugar, observando-o com olhos sonolentos e benevolentes, e depois pensava e finalmente falava – mais rabínico do que filosófico, buscando a verdade moral central de uma circunstância complicada. Ele costumava começar essa intervenção com um sorriso cansado e quebrado e depois dizia outra de suas locuções favoritas: “Ótimo. Agora, vamos contar até dois”. A verdade de que a guerra americana no Vietnã estava errada não significa que fomos obrigados a idealizar os seus vencedores ou a ver as vítimas do poder norte-vietnamita. Sim, é claro, havia elementos na Chechênia que eram abaixo de admiráveis ​​- isso não alterava o dever de resgatá-los do Putinismo. Ou – uma verdade mais desconcertante para um liberal americano se envolver – não parece extremamente provinciano permitir que a antipatia a George W. Bush cegue alguém para o mal de Saddam Hussein? Um tipo de verdade não negava outro. Uma verdade, de fato, exigia a outra. O legado de Glucksmann tem uma simplicidade essencial que é quase tolstoiana: seja contra o mal porque você nunca pode ter confiança sobre o bem, e, conte pelo menos até dois quando for fazer a sua aritmética moral. Essas são boas verdades para deixar para trás, tornadas mais belas pelo quão enganosamente difíceis elas são de se viver.


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Adam Gopnik, escritor da casa, tem contribuído para o The New Yorker desde 1986. Durante a sua estadia na revista, ele escreveu textos de ficção e de humor, resenhas de livros, perfis, e reportou matérias de outros países. Atuou como o crítico de arte da revista de 1987 a 1995, e como correspondente de Paris de 1995 a 2000. De 2000 a 2005, ele escreveu sobre a vida em Nova Iorque. Os seus livros, que vão de coleções de ensaios sobre Paris a alimentos e histórias para crianças, incluem: Paris to the Moon (De Paris à lua); The King in the Window (O rei na janela); Through the Children’s Gate: A Home in New York (Através do portão de crianças: um lar em Nova Iorque); Angels and Ages: A Short Book About Darwin, Lincoln and Modern Life (Anjos e idades: um pequeno livro sobre Darwin, Lincoln e a vida moderna); The Table Comes First: Family, France, and the Meaning of Food (A mesa vem primeiro: família, França e o significado da comida); e Winter: Five Windows on the Season (Inverno: cinco janelas na estação). Gopnik ganhou três prêmios de revistas nacionais, para ensaios e críticas, e o prêmio George Polk de reportagens em revistas. Em março de 2013, Gopnik foi galhardeado com a medalha de Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras da França. Ele também faz palestras ocasionais, e, em 2011, foi o palestrante convidado das Palestras Massey da Canadian Broadcasting Corporation. O seu primeiro musical, ‘The Most Beautiful Room In New York,’ (O quarto mais bonito de Nova Iorque) foi lançado em 2017, no teatro Long Wharf, em New Haven, Connecticut.

Notas

O presente artigo foi publicado em 11 de novembro de 2015 na revista semanal americana  The New Yorker. Fonte: https://www.newyorker.com/culture/cultural-comment/the-coruscating-moral-vision-of-andre-glucksmann

© The New Yorker and Adam Gopnik.

Tradução: J Pires-O’Brien (UK); Revisão: H el Masri (UK)

La civilización occidental en un casquillo de nuez

Norman Berdichevsky

Reseña del libro El hombre razonable y otros ensayos de Joaquina Pires-O’Brien. Beccles, UK, KDP, 2016. Disponible en Amazon.com.

El anuncio de la adopción de la nueva palabra post-truth (posverdad) por los autores del diccionario Oxford, en el 16 de noviembre de 2016, llegó días después de la publicación de O homem razoável e outros ensaios, un e-book en portugués y ya traducido para el español (El hombre razonable y otros ensayos) – una colección de 23 ensayos sobre algunos de los más definitorios, y controvertidos, aspectos de la civilización occidental. La proximidad de los dos eventos muestra que la autora es de hecho bien sintonizada con la civilización occidental y sus problemas. Uno de los ensayos de este libro se ocupa específicamente del posmodernismo, la doctrina o mentalidad da cual que la palabra post-truth se originó. Además del posmodernismo, este libro abarca otros temas de actualidad como la educación liberal, las dos culturas (la división entre la ciencia y las artes y las humanidades) y el 9/11, así como algunos temas atemporales como la utopía, el amor, y el apego humano a los mitos. La autora, Jo Pires-O’Brien, una brasileña residente en el Reino Unido, es la editora de PortVitoria, periódico en línea, bianual, sobre actualidades, cultura y política, centrado en la cultura ibérica y su diáspora, cuyos artículos son publicados en español, portugués e inglés.

El ensayo con el tema más difícil de se entender – en cualquier idioma – es precisamente lo que habla del posmodernismo, el cual es descrito través de su fascinación con el concepto de ‘narrativas’; es decir, donde muchos hacen de los medios de comunicación un juguete – una actitud escéptica o desconfianza en relación a las ideologías y los diversos principios del pensamiento racional, incluyendo la existencia de una realidad objetiva, de la verdad, y de las nociones de progreso que existen – el posmodernismo afirma que el conocimiento y la verdad son productos de los sistemas históricos y sociales y de la interpretación política. La preocupación da autora con el postmodernismo de la amenaza no es sin justificación. El término post-truth, – adoptado en 2016 por los autores del diccionario Oxford – capta la idea posmodernista de que ‘no hay hechos, hay interpretaciones’. Si no hay hechos, entonces la ciencia y otros elementos de la moderna Civilización Occidental, como el canon literario, son irrelevantes.

El título del libro fue tomado del primero ensayo, que se ocupa del hipotético ‘hombre razonable’ (reasonable man), conservado en el derecho civil y contractual en Gran Bretaña y en los Estados Unidos, pero sin una definición precisa. Tal ‘hombre razonable’ – sin el artículo definido que aparece en las versiones en portugués y español – o ‘el hombre en el ómnibus de Clapham’ en el folklore británico, es una persona dotada de sentido común y cuya opinión es tomada como la opinión pública, y por eso, valorada en muchos casos particulares, como en la definición de cómo alguien debe comportarse (en términos de acción o inacción) en relación con otro en situaciones de amenaza. No hay necesidad de establecer una intención maliciosa, y es esperado que dicha persona ficticia pueda cometer ‘errores razonables’ de acuerdo con las circunstancias, siendo, por lo tanto, una cuestión de la ética. Hay, efectivamente, mucho alimento de reflexión acerca de cuanto de los sistemas legales del Occidente, os cuales, sobre todo en los países anglosajones, decoren de alguna tradición distinta. A partir del ensayo aprendemos que el concepto del hombre razonable se extiende a la Antigüedad, al concepto de ‘phronēsis’ o ‘sabiduría práctica’ de los antiguos griegos. Para Sócrates, ‘phronēsis’ (frónesis) era la capacidad de discernir cómo y por qué alguien debe actuar virtuosamente, mientras que Aristóteles, – y en la víspera de la edad moderna, Spinoza, – lo definió como la capacidad de pensar lógicamente. La calidad de una sociedad depende de su riqueza humana, medida por la proporción de ciudadanos razonables. El tema de la ley vuelve a aparecer en otro ensayo que se ocupa del delito affray – o riña – el uso o amenaza del uso de la violencia ilegal contra otra persona para que una persona de ‘firmeza razonable’ en el tema de la escena por su propia seguridad. La etimología de la palabra affray es explicada, demostrando que proviene de una palabra en protogermánica con un radical protoindo-europeu.

Varios ensayos se ocupan de pensadores influyentes como Friedrich Hayek, Jacques Jean-Jacques Rousseau, Thomas Hobbes, Elias Canetti, Stefan Zweig y George Orwell. El ensayo titulado ‘El filósofo de la libertad’ habla de Hayek, notoriamente desaventajado por los críticos de izquierda de las sociedades opulentas modernos y sus políticas económicas. Hayek fue uno de los pocos que no perdió la fe en el capitalismo el día siguiente al viernes negro de noviembre de 1929. En Camino de servidumbre (1944), que se convirtió en un éxito de ventas, Hayek explicó los malentendidos sobre el sistema económico del capitalismo y destacó el valor de la libertad de cada uno de usar su propia iniciativa empresarial y sus habilidades para progresar y, sobre todo, afirmó que la democracia no era un valor final, sino un medio para alcanzar la libertad. Los fundamentos de la libertad es otro gran libro de Hayek, aunque no ha sido un éxito de ventas. Hayek fue muy admirado por la primera ministra Margaret Thatcher, que una vez llevó el libro Los fundamentos de la libertad para una sesión en el Parlamento y golpeó el mismo contra la caja de despacho en cuanto dijo: “Esto es lo que creemos”. Otra personalidad que evidencio es George Orwell (Eric Blair), autor de 1984 y Sin blanca en París y Londres, el cual es cubierto en dos ensayos; un que da un resumen crítico acerca de la vida de Orwell y otro que describe las poderosas metáforas contenidas en su libro 1984.

La carrera anterior de la autora en Brasil, como investigadora botánica con un doctorado en ecología forestal, se pone de manifiesto en un ensayo sobre el nefasto ‘Proyecto Floram’, un proyecto de reforestación. La autora basó su ensayo en los archivos del Instituto de Estudios Avanzados de la Universidad de São Paulo (IEA/USP) así como en su memoria personal. En este ensayo, ella muestra cómo el proyecto Floram fue concebido y explica cómo la murmuración pública inmerecida hizo con que los inversores del sector privado retirasen su apoyo. La inhibición del Proyecto Floram es sintomática de uno de los principales problemas de nuestro tiempo – el calentamiento global. Como Pires-O’Brien correctamente concluyó… “… el Proyecto Floram es un ejemplo de la eterna contienda entre lo real y lo ideal”.

Un ensayo corto, pero afilado, habla de la cultura y el relativismo cultural, trazando el nuevo significado dado à la palabra cultura por algunos antropólogos y sociólogos, y muestreando su conexión con el relativismo cultural. Los ensayos restantes se ocupan de las grandes ideas que florecieron en el Occidente y ayudaron a formar la Civilización Occidental – la Bíblia, la idea del paraíso, la utopía, el aprendizaje al longo de la vida, el amor, la mente sana en un cuerpo sano y la educación liberal –, así como tratan de los mayores retos y amenazas actuales de la Civilización Occidental: el posmodernismo y el extremismo islámico. Aunque se trata de una ecléctica colección de ensayos, hay un denominador común en su temática: la lucha de la razón contra la irracionalidad.

Por último, pero no menos importante, la autora aborda el extremismo islamita responsable de los ataques del 9/11 y el uso del yihad, como un medio para alcanzar el poder político. Esto se hace en forma de una serie de preguntas y respuestas que abordan no sólo a los perpetradores de los ataques del 9/11, sino también muchos temas relevantes a cerca de la religión islámica: la historia de los conspiradores y su motivación; la naturaleza del Corán; la rivalidad entre las sectas islámicas rivales (chiíes y suníes); el yihad; el wahabismo y el salafismo; la Hermandad Musulmana; la aspiración de un nuevo califato; las creencias de la mayoría de los musulmanes comúns que non son fundamentalistas; y, ayunque, el fracaso, la falta de cooperación y los supuestos ingenuos de las agencias de inteligencia de los Estados Unidos. Todo eso es explicado de forma clara y sin exageros.

Este es un libro para leer y volver a leer, con el fin de ayudarnos a poner en perspectiva ideas diferentes pero cruciales. Como un usuario cuyo primer idioma es el inglés y con una capacidad razonable de leer en español, encontré el texto en español bastante fácil de leer – claro, preciso y leve, tanto entretiene cuanto informa. El estilo es el tipo que captura la atención del lector y sin ‘vagar’ o ‘cansar’ como es común en casos de textos similares, que abarcan docenas de temas diversos y provocativos. Otro diferencial de El hombre razonable es que sus ensayos de temática variada están bien conectados.

En el momento, el libro apareció en portugués y en español, y hay una declaración en el prefacio que una traducción al inglés no está sobre la mesa: “El repertorio de los temas abordados ya es bien conocido en los países situados en el centro de la Civilización Occidental pero no en los países de la periferia. La presente recopilación tiene por objetivo contribuir a corregir esa distorsión.” Aunque esto es probablemente cierto, creo que, mismo en la lengua inglesa, hay un espacio en la literatura para una análisis concisa y clara como esta, que reflecte acerca de las ideas que formaron la Civilización Occidental y acerca de aquellas que son una amenaza à misma. Tengo una profunda esperanza de que una edición en inglés ocupe de pronto esto espacio. Este es un libro valioso que debería ser una lectura obligatoria para los estudiantes que están a entrar en la universidad para estudiar historia, filosofía, ciencias sociales y relaciones internacionales.

                                                                                                                                               

Dr. Norman Berdichevsky es un estadounidense especializado en geografía humana y con fuerte interés en las culturas hispánica y portuguesa. Es autor de varios libros y numerosos artículos y ensayos, y forma parte del Consejo Editorial de PortVitoria.

A Civilização Ocidental numa casca de noz

Norman Berdichevsky

Resenha do livro O homem razoável e outros ensaios (El hombre razonable y otros ensayos) de Joaquina Pires-O’Brien. Beccles, UK, KDP, 2016. Disponível na Amazon.com.

O anúncio da adoção da nova palavra post-truth (pós-verdade) pelos autores do dicionário Oxford, em 16 de novembro de 2016, chegou dias depois da publicação de um e-book em português chamado O homem razoável e outros ensaios, já traduzido para o espanhol (El hombre razonable y otros ensayos) – uma coleção de 23 ensaios sobre alguns dos mais definidores, e controversos, aspectos da Civilização Ocidental. A proximidade dos dois eventos mostra que a autora é deveras bem sintonizada com a Civilização Ocidental e os seus problemas. Um dos ensaios desse livro trata especificamente do pós-modernismo, a doutrina ou mentalidade da qual a palavra post-truth se originou. Além do pós-modernismo, esse livro cobre outros temas contemporâneos como a educação liberal, as duas culturas (o racha entre a ciência e as artes e humanidades) e o 9/11, assim como alguns temas atemporais como a utopia, o amor e o apego humano aos mitos. A autora, Jo Pires-O’Brien, uma brasileira residente no Reino Unido, é editora de PortVitoria, revista online, bianual, sobre atualidades, cultura e política, centrada na cultura ibérica e sua diáspora, cujos artigos são publicados em espanhol, português e inglês.

O ensaio com o tema mais difícil de entender – seja lá em que língua – é precisamente o que fala do pós-modernismo, o qual é descrito através de sua fascinação com o conceito de ‘narrativas’; isto é, onde muitos fazem da mídia um brinquedo – uma atitude de ceticismo ou desconfiança no tocante a ideologias e aos diversos princípios do pensamento racional, incluindo a existência de realidade objetiva, da verdade e das noções de progresso existentes – o mesmo afirma que o conhecimento e a verdade são produtos de sistemas históricos e sociais e da interpretação política. A preocupação da autora com a ameaça do pós-modernismo não é sem justificativa. O termo post-truth adotado em 2016 pelos autores do dicionário Oxford, captura a ideia pós-modernista de que ‘não existem verdades, mas apenas interpretações’. Se não há verdade, então a ciência e outros elementos da Civilização Ocidental moderna, como o cânone literário, são irrelevantes.

O título do livro foi tirado do primeiro ensaio, o qual trata do hipotético ‘homem razoável’ (reasonable man), preservado no direito civil e na lei contratual na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, embora sem uma definição precisa. Tal ‘homem razoável’ – sem o artigo definido que aparece nas versões em português e em espanhol – ou ‘o homem no ônibus de Clapham’ no folclore britânico, representa uma pessoa dotada de bom senso e cuja opinião é tomada como sendo a opinião pública, e, por isso, valorizada em diversos casos particulares, como, por exemplo, na definição de como uma pessoa deve se portar (em termos de ação ou inação) em relação a outras em situações de ameaça. Não há necessidade de estabelecer uma intenção maliciosa, e é esperado que tal indivíduo fictício possa cometer ‘erros razoáveis’ de acordo com as circunstâncias, o que, como tal, é uma questão da ética. Há deveras muito alimento para pensar acerca de quanto dos sistemas legais do Ocidente, os quais, particularmente nos países anglo-saxões, são uma função de alguma tradição distinta. A partir do ensaio, aprendemos que o conceito do homem razoável se estende até a Antiguidade, ao conceito da phronesis ou ‘sabedoria prática’ dos antigos gregos. Para Sócrates, a phronesis era a capacidade de discernir como e porque alguém deve agir virtuosamente, enquanto que Aristóteles – e, também, já na antevéspera da Idade Moderna, Spinoza, – definiu-a como sendo a capacidade de pensar logicamente. A qualidade de uma sociedade depende de seu cabedal humano, medido pela proporção de ‘cidadãos razoáveis’. O tema da lei reaparece num outro ensaio que trata do crime de affray – ou rixa – usar ou ameaçar usar violência ilícita para com outra pessoa de tal modo que uma pessoa de ‘razoável firmeza’ presente na cena tema pela própria segurança. A etimologia da palavra affray é explicada, mostrando que vem de uma palavra em protogermânico com um radical protoindo-europeu.

Diversos ensaios tratam de pensadores influentes, tais como Friedrich Hayek, Jacques Jean-Jacques Rousseau, Thomas Hobbes, Elias Canetti, Stefan Zweig e George Orwell. O ensaio intitulado ‘O filósofo da liberdade’ fala de Hayek, notoriamente desfavorecido entre os críticos esquerdistas das sociedades afluentes modernas e suas políticas econômicas. Hayek foi um dos poucos que não perdeu a fé no capitalismo no dia seguinte ao Black Friday de novembro de 1929. Em O caminho da servidão (1944), que virou um best-seller, Hayek explicou os mal-entendidos acerca do sistema econômico do capitalismo e sublinhou o valor da liberdade de cada um de utilizar seu próprio empreendedorismo e suas habilidades para progredir, e, acima de tudo, esclareceu que democracia não era um valor final mas um meio para alcançar a liberdade. A constituição da liberdade é outro grande livro de Hayek, muito embora não tenha sido um best-seller. Hayek era altamente admirado pela primeira ministra Margaret Thatcher, que uma vez levou o livro A constituição da liberdade para uma sessão no Parlamento e bateu-o contra a caixa de despachos enquanto dizia: “É nisso que nós acreditamos”. Outra personalidade que evidencio é George Orwell (Eric Blair), autor de 1984 e Na pior em Paris e Londres, o qual é tratado em dois ensaios; um que apresenta um resumo crítico da vida de Orwell e outro que descreve as poderosas metáforas contidas no seu livro 1984.

A carreira anterior da autora no Brasil, como pesquisadora botânica com PhD em ecologia florestal, é revelada num ensaio sobre o malfadado ‘Projeto Floram’, um projeto de reflorestamento. Ela baseou este ensaio nos arquivos do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) bem como na sua memória pessoal. Nesse ensaio, ela mostra como o Projeto Floram foi concebido e explica como a maledicência pública imerecida fez com que os investidores do setor privado retirassem seu suporte. A inibição do Projeto Floram é sintomática de um dos maiores problemas do nosso tempo – o aquecimento global. Conforme Pires-O’Brien corretamente concluiu…“O Projeto Floram foi um exemplo da contenda constante entre a situação real e a ideal”.

Um ensaio curto, porém afiado, fala sobre a cultura e o relativismo cultural, traçando o novo significado conferido à palavra cultura por alguns antropólogos e sociólogos, e mostrando a sua conexão com o relativismo cultural. Os ensaios restantes tratam das grandes ideias que floresceram no Ocidente e ajudaram a formar a Civilização Ocidental – a Bíblia, a noção do paraíso, a utopia, a aprendizagem ao longo da vida, o amor, a mente sã num corpo são e a educação liberal –, bem como tratam dos seus maiores desafios e ameaças correntes à Civilização Ocidental: o pós-modernismo e o extremismo islâmico. Embora seja uma coleção eclética de ensaios, há um denominador comum na temática deles: a luta da razão contra a irracionalidade.

Por último mas não menos importante, a autora aborda o extremismo islâmico responsável pelos ataques do 9/11 e o emprego do jihad, como um meio para alcançar o poder político. Isso é feito na forma de uma série de perguntas e respostas que tratam não apenas dos perpetradores dos ataques do 9/11, como também de diversos tópicos relevantes acerca da religião do islamismo: o fundamentalismo islâmico; a história dos conspiradores e sua motivação; a natureza do Corão; as rivalidades entre as seitas islâmicas adversárias (xiitas e sunitas); o jihad; o wahhabismo e o salafismo; a Irmandade Muçulmana; a aspiração de um novo califado; as crenças da maioria dos muçulmanos comuns que não são fundamentalistas; e, ainda, a falha, a falta de cooperação e as suposições ingênuas das agências de inteligência norte-americanas. Tudo isso é explicado com clareza e sem exagero.

Este é um livro para ler e reler, a fim de nos ajudar a colocar em perspectiva ideias diversas porém cruciais. Na qualidade de resenhista cuja primeira língua é o inglês e com uma razoável capacidade de ler espanhol, achei o texto em espanhol bastante fácil de ler; claro, preciso e leve, tanto entretém quanto informa. O estilo é do tipo que cativa a atenção do leitor e que não ‘vagueia’ ou ‘cansa’ como é frequente em casos de textos similares, que abarcam dúzias de temas diversos e provocativos. Outro diferencial de O homem razoável é que seus ensaios de temática variada estão bem conectados.

Até o momento, o livro apareceu em português e em espanhol, e há uma indicação no Prefácio de que uma tradução inglesa não está na mesa: “O repertório dos temas abordados já é bem conhecido nos países situados no âmago da Civilização Ocidental, mas não nos países da periferia. A presente coletânea tem por objetivo contribuir para corrigir essa distorção”. Embora isso provavelmente seja verdade, acredito que, mesmo na língua inglesa, há um espaço na literatura para uma análise concisa e clara como esta, que reflete sobre as ideias que formaram a Civilização Ocidental e sobre aquelas que são uma ameaça à mesma. Tenho uma esperança fervorosa de que uma edição em inglês em breve ocupará esse espaço. Esse é um livro valioso cuja leitura deveria ser obrigatória para alunos que estão entrando na universidade para estudar nas áreas de história, filosofia, ciências sociais e relações internacionais.


Dr. Norman Berdichevsky é um norte-americano especializado em geografia humana e com forte interesse nas culturas hispânica e portuguesa. É autor de diversos livros e muitos artigos e ensaios, e, faz parte do Conselho Editorial de PortVitoria.