Norman Berdichevsky

Resenha do livro O homem razoável e outros ensaios (El hombre razonable y otros ensayos) de Joaquina Pires-O’Brien. Beccles, UK, KDP, 2016. Disponível na Amazon.com.

O anúncio da adoção da nova palavra post-truth (pós-verdade) pelos autores do dicionário Oxford, em 16 de novembro de 2016, chegou dias depois da publicação de um e-book em português chamado O homem razoável e outros ensaios, já traduzido para o espanhol (El hombre razonable y otros ensayos) – uma coleção de 23 ensaios sobre alguns dos mais definidores, e controversos, aspectos da Civilização Ocidental. A proximidade dos dois eventos mostra que a autora é deveras bem sintonizada com a Civilização Ocidental e os seus problemas. Um dos ensaios desse livro trata especificamente do pós-modernismo, a doutrina ou mentalidade da qual a palavra post-truth se originou. Além do pós-modernismo, esse livro cobre outros temas contemporâneos como a educação liberal, as duas culturas (o racha entre a ciência e as artes e humanidades) e o 9/11, assim como alguns temas atemporais como a utopia, o amor e o apego humano aos mitos. A autora, Jo Pires-O’Brien, uma brasileira residente no Reino Unido, é editora de PortVitoria, revista online, bianual, sobre atualidades, cultura e política, centrada na cultura ibérica e sua diáspora, cujos artigos são publicados em espanhol, português e inglês.

O ensaio com o tema mais difícil de entender – seja lá em que língua – é precisamente o que fala do pós-modernismo, o qual é descrito através de sua fascinação com o conceito de ‘narrativas’; isto é, onde muitos fazem da mídia um brinquedo – uma atitude de ceticismo ou desconfiança no tocante a ideologias e aos diversos princípios do pensamento racional, incluindo a existência de realidade objetiva, da verdade e das noções de progresso existentes – o mesmo afirma que o conhecimento e a verdade são produtos de sistemas históricos e sociais e da interpretação política. A preocupação da autora com a ameaça do pós-modernismo não é sem justificativa. O termo post-truth adotado em 2016 pelos autores do dicionário Oxford, captura a ideia pós-modernista de que ‘não existem verdades, mas apenas interpretações’. Se não há verdade, então a ciência e outros elementos da Civilização Ocidental moderna, como o cânone literário, são irrelevantes.

O título do livro foi tirado do primeiro ensaio, o qual trata do hipotético ‘homem razoável’ (reasonable man), preservado no direito civil e na lei contratual na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, embora sem uma definição precisa. Tal ‘homem razoável’ – sem o artigo definido que aparece nas versões em português e em espanhol – ou ‘o homem no ônibus de Clapham’ no folclore britânico, representa uma pessoa dotada de bom senso e cuja opinião é tomada como sendo a opinião pública, e, por isso, valorizada em diversos casos particulares, como, por exemplo, na definição de como uma pessoa deve se portar (em termos de ação ou inação) em relação a outras em situações de ameaça. Não há necessidade de estabelecer uma intenção maliciosa, e é esperado que tal indivíduo fictício possa cometer ‘erros razoáveis’ de acordo com as circunstâncias, o que, como tal, é uma questão da ética. Há deveras muito alimento para pensar acerca de quanto dos sistemas legais do Ocidente, os quais, particularmente nos países anglo-saxões, são uma função de alguma tradição distinta. A partir do ensaio, aprendemos que o conceito do homem razoável se estende até a Antiguidade, ao conceito da phronesis ou ‘sabedoria prática’ dos antigos gregos. Para Sócrates, a phronesis era a capacidade de discernir como e porque alguém deve agir virtuosamente, enquanto que Aristóteles – e, também, já na antevéspera da Idade Moderna, Spinoza, – definiu-a como sendo a capacidade de pensar logicamente. A qualidade de uma sociedade depende de seu cabedal humano, medido pela proporção de ‘cidadãos razoáveis’. O tema da lei reaparece num outro ensaio que trata do crime de affray – ou rixa – usar ou ameaçar usar violência ilícita para com outra pessoa de tal modo que uma pessoa de ‘razoável firmeza’ presente na cena tema pela própria segurança. A etimologia da palavra affray é explicada, mostrando que vem de uma palavra em protogermânico com um radical protoindo-europeu.

Diversos ensaios tratam de pensadores influentes, tais como Friedrich Hayek, Jacques Jean-Jacques Rousseau, Thomas Hobbes, Elias Canetti, Stefan Zweig e George Orwell. O ensaio intitulado ‘O filósofo da liberdade’ fala de Hayek, notoriamente desfavorecido entre os críticos esquerdistas das sociedades afluentes modernas e suas políticas econômicas. Hayek foi um dos poucos que não perdeu a fé no capitalismo no dia seguinte ao Black Friday de novembro de 1929. Em O caminho da servidão (1944), que virou um best-seller, Hayek explicou os mal-entendidos acerca do sistema econômico do capitalismo e sublinhou o valor da liberdade de cada um de utilizar seu próprio empreendedorismo e suas habilidades para progredir, e, acima de tudo, esclareceu que democracia não era um valor final mas um meio para alcançar a liberdade. A constituição da liberdade é outro grande livro de Hayek, muito embora não tenha sido um best-seller. Hayek era altamente admirado pela primeira ministra Margaret Thatcher, que uma vez levou o livro A constituição da liberdade para uma sessão no Parlamento e bateu-o contra a caixa de despachos enquanto dizia: “É nisso que nós acreditamos”. Outra personalidade que evidencio é George Orwell (Eric Blair), autor de 1984 e Na pior em Paris e Londres, o qual é tratado em dois ensaios; um que apresenta um resumo crítico da vida de Orwell e outro que descreve as poderosas metáforas contidas no seu livro 1984.

A carreira anterior da autora no Brasil, como pesquisadora botânica com PhD em ecologia florestal, é revelada num ensaio sobre o malfadado ‘Projeto Floram’, um projeto de reflorestamento. Ela baseou este ensaio nos arquivos do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) bem como na sua memória pessoal. Nesse ensaio, ela mostra como o Projeto Floram foi concebido e explica como a maledicência pública imerecida fez com que os investidores do setor privado retirassem seu suporte. A inibição do Projeto Floram é sintomática de um dos maiores problemas do nosso tempo – o aquecimento global. Conforme Pires-O’Brien corretamente concluiu…“O Projeto Floram foi um exemplo da contenda constante entre a situação real e a ideal”.

Um ensaio curto, porém afiado, fala sobre a cultura e o relativismo cultural, traçando o novo significado conferido à palavra cultura por alguns antropólogos e sociólogos, e mostrando a sua conexão com o relativismo cultural. Os ensaios restantes tratam das grandes ideias que floresceram no Ocidente e ajudaram a formar a Civilização Ocidental – a Bíblia, a noção do paraíso, a utopia, a aprendizagem ao longo da vida, o amor, a mente sã num corpo são e a educação liberal –, bem como tratam dos seus maiores desafios e ameaças correntes à Civilização Ocidental: o pós-modernismo e o extremismo islâmico. Embora seja uma coleção eclética de ensaios, há um denominador comum na temática deles: a luta da razão contra a irracionalidade.

Por último mas não menos importante, a autora aborda o extremismo islâmico responsável pelos ataques do 9/11 e o emprego do jihad, como um meio para alcançar o poder político. Isso é feito na forma de uma série de perguntas e respostas que tratam não apenas dos perpetradores dos ataques do 9/11, como também de diversos tópicos relevantes acerca da religião do islamismo: o fundamentalismo islâmico; a história dos conspiradores e sua motivação; a natureza do Corão; as rivalidades entre as seitas islâmicas adversárias (xiitas e sunitas); o jihad; o wahhabismo e o salafismo; a Irmandade Muçulmana; a aspiração de um novo califado; as crenças da maioria dos muçulmanos comuns que não são fundamentalistas; e, ainda, a falha, a falta de cooperação e as suposições ingênuas das agências de inteligência norte-americanas. Tudo isso é explicado com clareza e sem exagero.

Este é um livro para ler e reler, a fim de nos ajudar a colocar em perspectiva ideias diversas porém cruciais. Na qualidade de resenhista cuja primeira língua é o inglês e com uma razoável capacidade de ler espanhol, achei o texto em espanhol bastante fácil de ler; claro, preciso e leve, tanto entretém quanto informa. O estilo é do tipo que cativa a atenção do leitor e que não ‘vagueia’ ou ‘cansa’ como é frequente em casos de textos similares, que abarcam dúzias de temas diversos e provocativos. Outro diferencial de O homem razoável é que seus ensaios de temática variada estão bem conectados.

Até o momento, o livro apareceu em português e em espanhol, e há uma indicação no Prefácio de que uma tradução inglesa não está na mesa: “O repertório dos temas abordados já é bem conhecido nos países situados no âmago da Civilização Ocidental, mas não nos países da periferia. A presente coletânea tem por objetivo contribuir para corrigir essa distorção”. Embora isso provavelmente seja verdade, acredito que, mesmo na língua inglesa, há um espaço na literatura para uma análise concisa e clara como esta, que reflete sobre as ideias que formaram a Civilização Ocidental e sobre aquelas que são uma ameaça à mesma. Tenho uma esperança fervorosa de que uma edição em inglês em breve ocupará esse espaço. Esse é um livro valioso cuja leitura deveria ser obrigatória para alunos que estão entrando na universidade para estudar nas áreas de história, filosofia, ciências sociais e relações internacionais.


Dr. Norman Berdichevsky é um norte-americano especializado em geografia humana e com forte interesse nas culturas hispânica e portuguesa. É autor de diversos livros e muitos artigos e ensaios, e, faz parte do Conselho Editorial de PortVitoria.

Amy Cox Hall

 

Resenha do livro Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller (O homem de Darwin no Brasil: a ciência evoluidora de Fritz Müller) de David A. West. Tallahasse University Press of Florida, 2016. 344 pp. $79.95 (cloth), ISBN 978-0-8130-6260-0.

 

O detalhado estudo de David West sobre a vida e o trabalho de Fritz Müller, biólogo evolutivo e colaborador de Charles Darwin, resulta da culminação de três décadas de pesquisa. A profundeza e a amplitude da pesquisa acerca dessa figura singular é impressionante, estendendo-se por cinco países e obtendo informações de uma impressionante quantidade de arquivos, universidades, bibliotecas, e outras instituições. Embora West fosse treinado em genética e ornitologia pela Cornell University, ele se tornou um interessado em borboletas e começou a fazer pesquisas no Brasil. West teve a sua atenção voltada ara Müller depois de uma visita de pesquisa ao Brasil em 1982, no meio de uma longa carreira ensinando na Virginia Tech University, entre 1962 e 1998. Assim inspirados, West e sua esposa Lindsay embarcaram num estudo sobre a vida e o trabalho de Fritz Müller, vida essa que foi marcada tanto pela produção científica quanto pela tragédia pessoal. O resultado é uma análise pormenorizada da pessoa humana e das realizações do cientista.

Ao contrário de outros cientistas que trabalharam em história natural na América do Sul, Müller não é bem conhecido. Ele não escreveu histórias intrépidas de aventuras e, aparentemente, tampouco escreveu clichês racistas sobre a vida no Brasil como era comum na sua época. Em termos de apelações, não há narrativas de conquistas. Ao invés, Müller publicou trabalhos sobre borboletas, fertilização de orquídeas, abelhas, lianas, crustáceos, cupins, e formigas cortadeiras (cabeçudas). O leitor desse livro rapidamente irá notar a minuciosidade, o cuidado e a precisão com que Müller conduziu suas pesquisas. As suas análises e conclusões decorrem de observações continuadas e feitas a longo prazo, parecendo um contraste impressionante com a maneira pressurizada e apressada de como a ciência é conduzida hoje em dia.

West começa a biografia de Müller com um capítulo sobre a vida dele quando jovem na Alemanha. Müller frequentou a universidade para se formar em medicina, mas, como era um ateísta declarado, foi-lhe negado o diploma. Em um dos capítulos mais interessantes, West descreve como Müller recusou-se a prestar o juramento cristão no qual ele era obrigado a dizer, “que Deus e seu evangelho sagrado me ajudem ” (p. 27). Embora Müller tivesse tentado isentar-se de dizer a frase através de uma petição, o pedido dele foi indeferido. Após ter completado o seu treinamento médico, ele não recebeu o diploma, e se tornou um professor particular. Por fim, ele se mudou para o sul do Brasil, assentando-se numa nova colônia alemã organizada por Hermann Blumenau, um químico alemão. Embora eu preferisse ter sabido mais informações acerca da colonização alemã no Brasil e o impacto que esses colonizadores tiveram no Brasil, West afirma que o desejo de Müller de se relocar não foi conduzido pela atração do Brasil. Müller queria, apenas, escapar da terrível perseguição aos não crentes e às associações não religiosas na Alemanha. O Brasil era uma avenida para uma vida de liberdade. Müller também enxergou o Brasil como uma oportunidade de usar o seu treinamento médico num lugar onde os médicos eram raros. Embora ele tivesse usado o seu treinamento médico, ele também ensinou aritmética, álgebra, geometria, e história natural aos alunos do liceu da província. Em dado momento, ele se cansou de ensinar e propôs à administração da província que o tornasse um ‘naturalista da província’ – recolhendo, estudando as plantas nativas e introduzidas da região e avaliando a melhor maneira de cultivá-las e disseminá-las –, cargo que ocupou por muitos anos. Assim, West descreve Müller tanto como um pioneiro quanto como um homem de convicção. Embora a maioria de nós tenha ciência de que o estudo da evolução era polêmico, devido ao seu questionamento do criacionismo religioso, o capítulo descreve a luta, a profundidade, e o impacto que essa tensão teve em indivíduos como Müller.

Finalmente, West procura situar Müller na rede de relacionamentos de Darwin, dando a Müller o merecido reconhecimento como um dos principais interlocutores da evolução. Ele é bem sucedido em mostrar como Darwin apoiou-se em Müller no tocante a importantes observações de campo e experimentos, e como Müller apoiou-se em Darwin para inspiração, suporte, e orientação. No seu primeiro livro – Für Darwin – (traduzido para o inglês como: Facts and Argument for Darwin; Fatos e argumentos a favor de Darwin), Müller testa as teorias de Darwin através de uma análise de crustáceos. Ao invés de rejeitar Darwin de cara, ele conduziu experimentos planejados nos minuciosos detalhes para dar suporte às ideias de Darwin, contribuindo para a eventual aceitação do pensamento evolucionista. West nota que Darwin acreditava que o livro de Müller era  “talvez a mais importante contribuição de suporte às suas ideias” (p. 93). Esse argumento é estendido um pouco mais por West no capítulo sobre o experimento deste cientista voltado a testar se as borboletas já nascem sabendo exatamente que tipo de inflorescência possui néctar, ou se tal capacidade era aprendida, e, na pesquisa feita mais tarde, sobre a predação de borboletas. A pesquisa de Müller indicou que as borboletas aprendiam pela experiência sobre o tipo de inflorescência que possui néctar, algo que foi confirmado um século depois. Além disso, a pesquisa de Müller sobre o modo como as borboletas adotam as características de aviso a outras borboletas para esquivar-se de predadores similares, hoje em dia conhecida como mimetismo mülleriano, foi uma maneira importante de demonstrar as afirmações tanto de Darwin quanto de Müller de que a seleção natural era uma força causadora de mudanças. West argumenta que a despeito de Müller não ser bem conhecido, a sua pesquisa foi influente na comunidade científica e deveria ser reconhecida.

No meio da ampla documentação dos experimentos individuais de Müller e de seus artigos científicos há uma curiosa subtrama acerca do modo como o conhecimento científico funcionava e circulava do meio do século XIX ao fim deste. As observações de Müller foram precisas e demoradas. Por exemplo, ele observou a polinização de uma planta de Lantana para afirmar, corretamente, que as flores mais velhas do capítulo eram mantidas para que permanecessem conspícuas aos  polinizadores. O que se torna evidente durante toda a apreciação de West às observações pormenorizadas e interessantes de Müller é que a ciência era tanto uma rede humana quanto uma relação íntima com a natureza. Os seus professores na Alemanha, por exemplo, eram professores que haviam sido influenciados por Alexander von Humboldt e as suas coleções da América do Sul. Como o único darwinista no Brasil, Müller apoiou-se numa rede global de estudiosos, em geral baseados na Europa e nos Estados Unidos, para promover a compreensão científica da teoria evolutiva. Artigos e correspondência circularam entre os colegas, às vezes levando anos para completar o círculo.

A maior parte do texto enfoca a ciência de Müller. Consequentemente, a audiência principal será composta por interessados na história da biologia evolutiva. Embora os leigos não sejam impedidos de gostar do livro, para os que não têm um interesse nessa área, a discussão dos experimentos de Müller e suas descobertas seria melhor dada por um conhecimento geral acerca da evolução assim como sobre as maneiras como biologia evolutiva é hoje conhecida. Na qualidade de leitora que não é da área, eu frequentemente me vejo a imaginar as implicações nos dias de hoje dos experimentos e observações de Müller. Embora West faça um bom trabalho em explicar como os estudos e as conclusões de Müller são percebidos atualmente, a quantidade de informação pode ser confusa para os que não têm uma especialização na área. Nesse sentido, há uma oportunidade perdida de levar as contribuições de Müller a um público mais amplo, pois com exceção do capítulo sobre borboletas, o texto é talvez demasiadamente denso para atrair o interesse de um público maior ou mais casual. A minha percepção depois de ler o livro foi que a intenção de West era apresentar um exame sério e profundo sobre um cientista pouco conhecido, de um cientista de cientistas; e nisso ele acertou.

Tendo dito tudo isso, eu teria gostado de mais informações sobre a política em torno de Müller e da colônia alemã no Brasil. Uma contextualização mais profunda das formas como Müller e a colônia foram recebidos no Brasil na época seria particularmente bem-vinda uma vez que West discute a maneira como Müller, embora vivendo  no Brasil, continuava bem dentro do mundo da ciência europeia. Muitos dos colonizadores não queriam perder a língua, os costumes e a identidade alemã, ou tornar-se brasileiros, quer em língua quer em costumes. Isso aguçou a minha curiosidade e eu queria entender mais sobre a política e a história da colônia e sobre como outros cientistas no Brasil impactaram o trabalho de Müller. Eu imaginei acerca do colonialismo desses imigrantes e por quê tais pesquisas científicas que contribuíram para a nossa compreensão da evolução não tiveram um alcance maior. Por acaso os estrangeiros eram melhor recebidos do que os locais? Por acaso as suas pesquisas científicas eram tratadas diferentemente? Por que um médico alemão foi escolhido como o naturalista da província? O conhecimento que Müller adquiriu pelo fato de encontrar-se no Brasil ficou conhecido pelos grupos de brasileiros natos que viviam na região? Com quem ele manteve contato? Por um lado, Müller era similar a Humboldt, na quantidade de coleções e de observações feitas. Por outro lado, ele era bastante diferente, ao fazer um trabalho de campo de toda uma vida numa colônia em crescimento. Essas conexões poderiam ter sido mais claras e teriam dado suporte ao argumento de West sobre as qualidades ímpares de Müller como cientista, bem como às excepcionais qualidades de sua pesquisa e suas contribuições. Finalmente, eu teria gostado de saber mais se o trabalho de Müller impactou ou não a compreensão coletiva e o estudo da raça na ocasião. West menciona a sua correspondência com Alexander Agassiz, filho do famoso poligenista1 Louis Agassiz; uma discussão sobre a forma como a pesquisa deste impactou ou deixou de impactar o entendimento do conceito de raça teria sido bem recebida.

Ainda assim, a vasta pesquisa sobre Müller é admirável e eu espero que esse livro alcance o objetivo intencionado – de estimular a reflexão e incentivar outras pesquisas sobre a vida de Müller, fazendo com que as contribuições deste granjeiem o merecido reconhecimento. E isso não é coisa de pouca monta.

 

1.Referente à teoria da poligenia, segundo a qual o ser humano não tem origem comum, sendo os diversos grupos da humanidade atual descendentes de espécies distintas. Essa teoria tornou-se obsoleta depois da teoria evolucionista de Darwin.

Nota

Artigo licenciado para uso não comercial através da ‘Creative Commons’,. Reproduzido de: Amy Cox Hall. Resenha do livro de West, David A., Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller. H-LatAm, H-Net Reviews. 14 fevereiro, 2017. URL: https://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=47557

 

Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien

Revisora: Débora Finamore

Referência:

WEST, DAVID A., Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller. Tallahasse University Press, 2016. Resenha de HALL, A. C.,  O primeiro evolucionista do Brasil. PortVitoria, UK, v.15, Jul-Dec, 2017. ISSN 20448236. https://portvitoria.com

Norman Berdichevsky

The great joy of my hobby as a collector of banknotes has been the unexpected journey of discovery it has afforded me. I have made it a point to try and find appropriate souvenir banknotes for the destinations I have spoken about in my talks to passengers as a guest lecturer with the title of “Destination Enrichment Speaker” for a number of cruise lines. The fascinating information I have gained has enabled me to acquire an appreciation of personalities, landscapes and events that would have remained dry facts had I learned about them by simply looking necessary information to do research.

Being selected to appear on any country’s paper currency is a great honor although sometimes it is a cheap way to make partial and symbolic amends for past injustices and assuage guilt – witness the many American postage stamps honoring American Indian chiefs such as Sitting Bull and Crazy Horse or German stamps honoring outstanding German-Jewish personalities in the fields of science, music, literature and art.

I recently returned from a two week cruise to Spain and Portugal including Madeira, the Canary Islands and Lisbon. In my most recent university position as an instructor in the Hebrew language and Judaic Studies at the University of Central Florida in Orlando (2010-2013), I was proud to have utilized my knowledge of Spanish and Portuguese to develop a new course on The Sephardim – their Culture, History and Folklore.

In Madeira, I had the chance for a few minutes to encounter a dealer in coins and banknotes. One note quickly caught my attention featuring the portrait of Garcia de Orta on the face and a market scene in Goa on the reverse. The combination struck my attention as my wife and I had spent one of our most enjoyable holidays in Goa where we had been guests at the home of a descendant of the last Portuguese governor before the Indian take over in 1973.

Upon returning home, one of my first enjoyable tasks after getting over unpacking, jetlag, and sorting through the accumulated mail was to find out more about Garcia de Orta and why he must have had some connection with Goa. I was stunned, humbled and embarrassed by my ignorance in discovering that he had been one of the greatest scientists, physicians and linguists Portugal had produced and that as in the case with Germany, his homeland had for centuries repaid him, his family and descendants with ritual murder, hatred, persecution, humiliation, and contempt. To make the final score even worse, his elevation to the honors bestowed on him not only by banknotes, coins, and public gardens in his name in Lisbon and Goa, his memory had been manipulated during the last few years of the Salazar regime and its successors in order to justify Portugal’s attempts to hold on to its empire in India, Africa and Southeast Asia.

Garcia de Orta was born in 1501 four years after the expulsion of all the Jews in Portugal – both the native born and the refugees from the explusion of 1492 from Spain by Ferdinand and Isabella. He was the son of Fernão (Isaac) da Orta, a merchant, and Leonor Gomes. His siblings were three sisters, Violante, Catarina and Isabel. Their parents were Jews from the Spanish town of Valencia de Alcántara who were among the many refugees from the 1492 expulsion and who had paid a huge fee to be allowed to take up residence in Portugal.

All had been forcibly converted to Christianity in 1497, although the Portuguese monarchs were for a time not anxious to follow the strict requirements of the Inquisition and resented being regarded as under the thumb of Spain. Nevertheless, they eventually regarded their new Jewish subjects as a despised caste – the Cristãos Novos (New Christians). Many of them secretly maintained their Jewish faith but the Portuguese monarch King Manuel I proclaimed a twenty year “moratorium” on examining the fidelity of the “former Jews” to the Church, less out of real tolerance than simple opportunism. Portuguese records show that the approximately 120,000 Jews legally crossing the frontier in 1492 before the expiration of the official eight-months deadline and had to pay a fee of eight cruzeiros each. He also granted preferential permanent legal residence to 630 of the wealthiest and most talented Spanish-Jewish families. The exploitation of this elite was clearly a cynical move by the Portuguese king to take maximum advantage of the expulsion

Garcia studied medicine, arts and philosophy at the Universities of Alcalá de Henares and Salamanca – the two greatest institutions of learning in Spain. Following his father’s death, he graduated and returned to Portugal in 1523. He practiced medicine initially in his home town and then in 1526 in Lisbon, where he gained a professorship at the university in 1530.
By 1534, he sought to emigrate (normally forbidden to all the “New Christians”) to Goa, fearing the increasing power of the Portuguese Inquisition. He sailed for Portuguese India in 1534 as Chief Physician aboard the fleet of Martim Afonso de Sousa, later to be named Governor and who became a close friend and his protector. He accompanied Sousa on various campaigns and soon had a flourishing medical practice, becoming chief physician concurrently to Burhan Nizam Shah I of the Nizam Shahi dynasty of Ahmadnagar, and to several successive Portuguese Viceroys and governors of Goa.

Garcia de Orta married a rich New Christian relative, Brianda de Solis, in 1543 (another likely indication of his loyalty to his ancestral faith). The marriage however was unhappy, but the couple had two daughters. In 1549, his mother and two of his sisters, who had been imprisoned as Jews in Lisbon, managed to join him in Goa (probably due to his connections with Governor Sousa). According to a confession by his brother-in-law after his death, Garcia de Orta privately continued to assert that “the Law of Moses was the true law”.

In 1565, the Inquisition was introduced to the Indian Viceroyalty and an inquisitorial court was opened in Goa. Active persecution against Jews, secret Jews, Hindus and New Christians began although Garcia managed to escape its clutches and died in 1568. Nevertheless, his sister Catarina was arrested as a Jew in the same year and burned at the stake for Judaism in Goa in 1569. Garcia himself was “posthumously convicted of Judaism.” His remains were exhumed and burned in an auto da fé in 1580. The fate of his daughters is not known.

His work in Goa
Garcia de Orta’s learned all he could about Goa, its tropical environment, the neighboring regions and their culture. He met other physicians, and spice merchants from many parts of southern Asia and the Indian Ocean coasts. His fantastic ability in languages enabled him to work and do research in Portuguese, Spanish, Hebrew, Latin, Greek and Arabic and had some knowledge of Persian, and the local languages – Marathi, Konkani, Sanskrit and Kannada. Correspondents and agents sent him seeds and plants; he also traded in spices, drugs and precious stones. He kept a laboratory and botanical garden and produced the greatest source of knowledge about Eastern spices and drugs, Colóquios dos simples e drogas he cousas medicinais da Índia (“Conversations on the simples, drugs and medicinal substances of India”), published at Goa in 1563.

He was the first European to describe cholera and other Asiatic tropical diseases. He often challenged the traditional dependence on the texts of ancient authorities, Greek, Latin and Arabic. The book includes the first published verses by his friend the poet Luís de Camões, regarded as Portugal’s national poet.

Garcia de Orta’s work became recognized across Europe when translations appeared in Latin and other languages. Large parts of it were included in a similar work published in Spanish in 1578 by Cristóbal Acosta, Tractado de las drogas y medicinas de las Indias orientales (“Treatise of the drugs and medicines of the East Indies”). Public gardens in both Lisbon and Goa bear his name today.

It was the Portuguese who first achieved independence and national unity and then established a far flung colonial empire only to lose out later in large part to Spain resulting in a prolonged feeling towards its neighbor as an upstart and arrogant Big Brother (see PortVitoria 2012, “Six centuries of Iberian Rivalry” and comments on Marenhas Barreto’s book The Portuguese Columbus: Secret Agent of King John II Hardcover – June 1, 1992; Reginald A. Brown,Translator. Palgrave MacMillan. ISBN-13: 978-0312079482). The Portuguese kings of the early fourteenth century had the strongest relations with the Jewish community, who enjoyed the most far-reaching royal privileges in Europe.

Columbus established friendly relations with the nobility, wealthy men, high church and court officials immediately upon taking up permanent residence in Spain, which was unthinkable for an immigrant Genoese sailor. Strong Portuguese-Jewish links are hinted at by Columbus setting sail with conversos such as the interpreter Luis de Torres (with a knowledge of both Hebrew and Arabic) and the doctors on the Santa Maria, and several Portuguese seamen, including the pilot of the Niña, Sancho Roiz da Gama, who was related to the Portuguese Admiral Vasco de Gama.

The Jews as pawns in modern opportunistic Portuguese and Spanish schemes
Due to the defeat of Spain in the 1898 War with the United States and the loss of its last vestiges of empire – Cuba and Puerto Rico, and the Philippines, a number of intellectuals, writers and philosophers began to argue and agitate that the reactionary policies and heritage of the intolerant Inquisition had crippled Spain and expelled many of its most productive citizens. Foremost among them was a physician, Dr. Angel Pulido. In the summer of 1903 he made a trip along the Danube and was impressed and delighted by the conversational 15th century Spanish (variously known as Judeo-Español, Ladino or Hequetia in North Africa) he heard a group of Sephardim (the descendants of the 1492 expulsion) speaking.

Upon his return, he launched a campaign to restore Spain’s dignity, prosperity and conscience by readmitting the Jews and apologizing for their mistreatment in the past. He published numerous articles and several books – Los israelitas españoles y el idioma castellano, and Los españoles sin patria y la raza sefardí, and argued for close relations with the Sephardim to benefit Spain’s economy and trade throughout the Mediterranean. He even exercised considerable influence in getting King Alfonso XIII to influence Germany to intervene with the Turkish authorities on behalf of the Jewish community in Tel Aviv to rescind an order of their expulsion. Pulido’s work was also recognized in Portugal, where a republican revolution ended the monarchy as well as its close links with the Catholic Church in 1910 and also reconsidered the possible utility of encouraging relations with the Sephardi communities around the world.

The Portuguese Republic and an Opportunistic Scheme to Settle Jews in Angola
The Portuguese broke with the past overnight, introducing a new flag and a national anthem, separating church and state, and adopting a new constitution as well as ending the monarchy – all anathema to the ruling circles in Spain. Portugal’s republican leaders also toyed with the idea of offering parts of their African colonies, particularly in Angola open for Jewish colonization as both a practical solution to dramatically increasing the white population and to win support from liberal Jewish circles. By June, 1912 the Portuguese chamber of deputies passed the final version of a bill to authorize concessions to Jewish settlers. Its articles clearly indicate the republic’s desire to use Jewish immigration to consolidate its hold over Angola. Colonists wishing to settle the Benguela Plateau would immediately become naturalized Portuguese citizens at their port of entry upon payment of a nominal fee. The Jewish settlements would be required not to have any ‘religious character’ and Portuguese was to be the exclusive language of instruction in any schools the Jewish colonists might build. No practical financial support was enlisted and by the end of 1913, many officials of the Jewish Territorial Organization in London that had entertained the proposal had begun to turn against it in response to the steady progress being made in Palestine under the direction of the Zionist movement.

Restoration of Garcia de Orta’s reputation and promotion of “Lusotropicalism”!
By 1932, Portugal was no longer a liberal republic but an authoritarian state under the rule of conservative economist Antonio Salazar and those around him committed to traditional values and a reconciliation with the Catholic Church. Nevertheless, Salazar eventually found it both a cheap and convenient policy to resuscitate the memory of Portugal’s great Jewish philosophers, cartographers, astronomers and physicians such as Garcia de Orta. In addition to appealing more to American opinion and winning support for retention of Goa, Portugal’s leaders had a card to play in choosing to focus on rehabilitating Garcia de Orta,- the man whose very bones had been an affront to Portugal’s proclaimed Catholic identity in the 16th century. His humanitarian work in Goa was proclaimed to be the very essence of Portugal’s role as a tolerant civilization that embraced diverse peoples and geographic regions, all united by the Portuguese language and culture.

In order to support his colonial policies, Salazar adopted Gilberto Freyre’s notion of “Lusotropicalism”, maintaining that since Portugal had been a multicultural, multiracial nation since the 15th century, country would be dismembered by losing any of its overseas territories which would spell the end for Portuguese independence. Salazar had originally opposed Freyre’s ideas throughout the 1930s, partly because of his fear of miscegenation, and only adopted Lusotropicalism as a means of arguing Portugal’s case abroad. In this regard, Garcia de Orta, like the Angolan Scheme were small pawns in a larger political game. Portugal desperately tried to prevent the Indian seizure of Goa by proclaiming how it violated the noble idea of Lusotropicalism.
On August 15, 1955, 3000–5000 unarmed Indian activists attempted to enter Goa at six locations and were violently repulsed by Portuguese police officers, resulting in approximately 25 deaths. Public opinion in India against the presence of the Portuguese in Goa was mobilized and India shut its consul office in Goa. In 1956, Prime Minister Salazar argued in favor of a referendum in Goa to determine its future. India’s foreign Minister Nehru stated to the press that “Continuance of Goa under Portuguese rule is an impossibility” provoking an American response warning India that if and when India’s armed action in Goa was brought to the UN security council, it could expect no support from the US delegation. Nevertheless, the Portuguese military was resigned that to try and defend Goa was a suicide mission and surrendered quickly followed a full scale Indian invasion in December 1961.
Approval of the 20 escudo note with its portrait of Garcia de Orta and a picture of a market in Goa was given and introduced into circulation in 1968, the same year Salazar suffered a brain hemorrhage forcing his retirement. He died two years later. History had the last laugh – all of the remaining Portuguese colonial possessions won their independence in quick succession after Goa like a collapsing house of cards. The banknote celebrating the life of Garcia de Orta is an ironic reminder that the honor accorded him came four hundred years too late.


Norman Berdichevsky is an American specialist in human geography with a strong interest in Hispanic and Portuguese cultures. He is the author of several books and numerous articles and essays. He is on the Board of Editors of PortVitoria.

Citation:
Berdichevsky, N. The rise, fall and Rehabilitation of Garcia de Orta. PortVitoria, UK, v.10, Jan-Jun, 2015. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

José Ortega y Gasset

“Lo característico del momento es que el alma vulgar, sabiéndose vulgar, tiene el denuedo de afirmar el derecho de la vulgaridad y lo impone donde quiera… Quien no sea como todo el mundo, quien no piense como todo el mundo, corre el riesgo de ser eliminado.” JOG

Hay un hecho que, para bien o para mal, es el más importante en la vida pública europea de la hora presente. Este hecho es el advenimiento de las masas al pleno poderío social. Como las masas, por definición, no deben ni pueden dirigir su propia existencia, y menos regentar la sociedad, quiere decirse que Europa sufre ahora la más grave crisis que a pueblos, naciones, culturas, cabe padecer. Esta crisis ha sobrevenido más de una vez en la historia. Su fisonomía y sus consecuencias son conocidas. También se conoce su nombre. Se llama la rebelión de las masas. Para la inteligencia del formidable hecho conviene que se evite dar desde luego a las palabras «rebelión», «masas», «poderío social», etc., un significado exclusiva o primariamente político. La vida pública no es sólo política, sino, a la par y aun antes, intelectual, moral, económica, religiosa; comprende los usos todos colectivos e incluye el modo de vestir y el modo de gozar.

Tal vez la mejor manera de acercarse a este fenómeno histórico consista en referirnos a una experiencia visual, subrayando una facción de nuestra época que es visible con los ojos de la cara. Sencillísima de enunciar, aunque no de analizar, yo la denomino el hecho de la aglomeración, del «lleno». Las ciudades están llenas de gente. Las casas, llenas de inquilinos. Los hoteles, llenos de huéspedes. Los trenes, llenos de viajeros. Los cafés, llenos de consumidores. Los paseos, llenos de transeúntes. Las salas de los médicos famosos, llenas de enfermos. Los espectáculos, como no sean muy extemporáneos, llenos de espectadores. Las playas, llenas de bañistas. Lo que antes no solía ser problema empieza a serlo casi de continuo: encontrar sitio.

Nada más. ¿Cabe hecho más simple, más notorio, más constante, en la vida actual? Vamos ahora a punzar el cuerpo trivial de esta observación, y nos sorprenderá ver cómo de él brota un surtidor inesperado, donde la blanca luz del día, de este día, del presente, se descompone en todo su rico cromatismo interior. ¿Qué es lo que vemos, y al verlo nos sorprende tanto? Vemos la muchedumbre, como tal, posesionada de los locales y utensilios creados por la civilización. Apenas reflexionamos un poco, nos sorprendemos de nuestra sorpresa. Pues qué, ¿no es el ideal? El teatro tiene sus localidades para que se ocupen; por lo tanto, para que la sala esté llena. Y lo mismo los asientos del ferrocarril, y sus cuartos el hotel. Sí; no tiene duda. Pero el hecho es que antes ninguno de estos establecimientos y vehículos solían estar llenos, y ahora rebosan, queda fuera gente afanosa de usufructuarlos. Aunque el hecho sea lógico, natural, no puede desconocerse que antes no acontecía y ahora sí; por lo tanto, que ha habido un cambio, una innovación, la cual justifica, por lo menos en el primer momento, nuestra sorpresa.

Sorprenderse, extrañarse, es comenzar a entender. Es el deporte y el lujo específico del intelectual. Por eso su gesto gremial consiste en mirar al mundo con los ojos dilatados por la extrañeza. Todo en el mundo es extraño y es maravilloso para unas pupilas bien abiertas. Esto, maravillarse, es la delicia vedada al futbolista, y que, en cambio, lleva al intelectual por el mundo en perpetua embriaguez de visionario. Su atributo son los ojos en pasmo. Por eso los antiguos dieron a Minerva la lechuza, el pájaro con los ojos siempre deslumbrados.

La aglomeración, el lleno, no era antes frecuente. ¿Por qué lo es ahora? Los componentes de esas muchedumbres no han surgido de la nada. Aproximadamente, el mismo número de personas existía hace quince años. Después de la guerra parecería natural que ese número fuese menor. Aquí topamos, sin embargo, con la primera nota importante. Los individuos que integran estas muchedumbres preexistían, pero no como muchedumbre. Repartidos por el mundo en pequeños grupos, o solitarios, llevaban una vida, por lo visto, divergente, disociada, distante. Cada cual -individuo o pequeño grupo- ocupaba un sitio, tal vez el suyo, en el campo, en la aldea, en la villa, en el barrio de la gran ciudad. Ahora, de pronto, aparecen bajo la especie de aglomeración, y nuestros ojos ven dondequiera muchedumbres. ¿Dondequiera? No, no; precisamente en los lugares mejores, creación relativamente refinada de la cultura humana, reservados antes a grupos menores, en definitiva, a minorías. La muchedumbre, de pronto, se ha hecho visible, se ha instalado en los lugares preferentes de la sociedad. Antes, si existía, pasaba inadvertida, ocupaba el fondo del escenario social; ahora se ha adelantado a las baterías, es ella el personaje principal. Ya no hay protagonistas: sólo hay coro.

El concepto de muchedumbre es cuantitativo y visual. Traduzcámoslo, sin alterarlo, a la terminología sociológica. Entonces hallamos la idea de masa social. La sociedad es siempre una unidad dinámica de dos factores: minorías y masas. Las minorías son individuos o grupos de individuos especialmente cualificados. La masa es el conjunto de personas no especialmente cualificadas. No se entienda, pues, por masas, sólo ni principalmente «las masas obreras». Masa es el «hombre medio». De este modo se convierte lo que era meramente cantidad -la muchedumbre- en una determinación cualitativa: es la cualidad común, es lo mostrenco social, es el hombre en cuanto no se diferencia de otros hombres, sino que repite en sí un tipo genérico. ¿Qué hemos ganado con esta conversión de la cantidad a la cualidad? Muy sencillo: por medio de ésta comprendemos la génesis de aquella. Es evidente, hasta perogrullesco, que la formación normal de una muchedumbre implica la coincidencia de deseos, de ideas, de modo de ser, en los individuos que la integran. Se dirá que es lo que acontece con todo grupo social, por selecto que pretenda ser. En efecto; pero hay una esencial diferencia. En los grupos que se caracterizan por no ser muchedumbre y masa, la coincidencia efectiva de sus miembros consiste en algún deseo, idea o ideal, que por sí solo excluye el gran número.

Para formar una minoría, sea la que fuere, es preciso que antes cada cual se separe de la muchedumbre por razones especiales, relativamente individuales. Su coincidencia con los otros que forman la minoría es, pues, secundaria, posterior, a haberse cada cual singularizado, y es, por lo tanto, en buena parte, una coincidencia en no coincidir. Hay cosas en que este carácter singularizador del grupo aparece a la intemperie: los grupos ingleses que se llaman a sí mismos «no conformistas», es decir, la agrupación de los que concuerdan sólo en su disconformidad respecto a la muchedumbre ilimitada. Este ingrediente de juntarse los menos, precisamente para separarse de los más, va siempre involucrado en la formación de toda minoría. Hablando del reducido público que escuchaba a un músico refinado, dice graciosamente Mallarmé que aquel público subrayaba con la presencia de su escasez la ausencia multitudinaria.

En rigor, la masa puede definirse, como hecho psicológico, sin necesidad de esperar a que aparezcan los individuos en aglomeración. Delante de una sola persona podemos saber si es masa o no. Masa es todo aquel que no se valora a sí mismo -en bien o en mal- por razones especiales, sino que se siente «como todo el mundo» y, sin embargo, no se angustia, se siente a saber al sentirse idéntico a los demás. Imagínese un hombre humilde que al intentar valorarse por razones especiales -al preguntarse si tiene talento para esto o lo otro, si sobresale en algún orden-, advierte que no posee ninguna cualidad excelente. Este hombre se sentirá mediocre y vulgar, mal dotado; pero no se sentirá «masa». Cuando se habla de «minorías selectas», la habitual bellaquería suele tergiversar el sentido de esta expresión, fingiendo ignorar que el hombre selecto no es el petulante que se cree superior a los demás, sino el que se exige más que los demás, aunque no logre cumplir en su persona esas exigencias superiores. Y es indudable que la división más radical que cabe hacer de la humanidad es ésta, en dos clases de criaturas: las que se exigen mucho y acumulan sobre sí mismas dificultades y deberes, y las que no se exigen nada especial, sino que para ellas vivir es ser en cada instante lo que ya son, sin esfuerzo de perfección sobre sí mismas, boyas que van a la deriva. Esto me recuerda que el budismo ortodoxo se compone de dos religiones distintas: una, más rigurosa y difícil; otra, más laxa y trivial: el Mahayana -«gran vehículo», o «gran carril»-, el Himayona -«pequeño vehículo», «camino menor»-. Lo decisivo es si ponemos nuestra vida a uno u otro vehículo, a un máximo de exigencias o a un mínimo.

La división de la sociedad en masas y minorías excelentes no es, por lo tanto, una división en clases sociales, sino en clases de hombres, y no puede coincidir con la jerarquización en clases superiores e inferiores. Claro está que en las superiores, cuando llegan a serlo, y mientras lo fueron de verdad, hay más verosimilitud de hallar hombres que adoptan el «gran vehículo», mientras las inferiores están normalmente constituidas por individuos sin calidad. Pero, en rigor, dentro de cada clase social hay masa y minoría auténtica. Como veremos, es característico del tiempo el predominio, aun en los grupos cuya tradición era selectiva, de la masa y el vulgo. Así, en la vida intelectual, que por su misma esencia requiere y supone la calificación, se advierte el progresivo triunfo de los seudointelectuales incualifícados, incalificables y descalificados por su propia contextura. Lo mismo en los grupos supervivientes de la «nobleza» masculina y femenina. En cambio, no es raro encontrar hoy entre los obreros, que antes podían valer como el ejemplo más puro de esto que llamamos «masa», almas egregiamente disciplinadas.

Ahora bien: existen en la sociedad operaciones, actividades, funciones del más diverso orden, que son, por su misma naturaleza, especiales, y, consecuentemente, no pueden ser bien ejecutadas sin dotes también especiales. Por ejemplo: ciertos placeres de carácter artístico y lujoso o bien las funciones de gobierno y de juicio político sobre los asuntos públicos. Antes eran ejercidas estas actividades especiales por minorías calificadas -calificadas, por lo menos, en pretensión-. La masa no pretendía intervenir en ellas: se daba cuenta de que si quería intervenir tendría, congruentemente, que adquirir esas dotes especiales y dejar de ser masa. Conocía su papel en una saludable dinámica social.

Si ahora retrocedemos a los hechos enunciados al principio, nos aparecerán inequívocamente como nuncios de un cambio de actitud en la mesa. Todos ellos indican que ésta ha resuelto adelantarse al primer piano social y ocupar los locales y usar los utensilios y gozar de los placeres antes adscritos a los pocos. Es evidente que, por ejemplo, los locales no estaban premeditados para las muchedumbres, puesto que su dimensión es muy reducida, y el gentío rebosa constantemente de ellos, demostrando a los ojos y con lenguaje visible el hecho nuevo: la masa que, sin dejar de serlo, suplanta a las minorías.

Nadie, creo yo, deplorará que las gentes gocen hoy en mayor medida y número que antes, ya que tienen para ello el apetito y los medios. Lo malo es que esta decisión tomada por las masas de asumir las actividades propias de las minorías no se manifiesta, ni puede manifestarse, sólo en el orden de los placeres, sino que es una manera general del tiempo. Así -anticipando lo que luego veremos-, creo que las innovaciones políticas de los más recientes años no significan otra cosa que el imperio político de las masas. La vieja democracia vivía templada por una abundante dosis de liberalismo y de entusiasmo por la ley. Al servir a estos principios, el individuo se obligaba a sostener en sí mismo una disciplina difícil. Al amparo del principio liberal y de la norma jurídica podían actuar y vivir las minorías. Democracia y ley, convivencia legal, eran sinónimos. Hoy asistimos al triunfo de una hiperdemocracia en que la masa actúa directamente sin ley, por medio de materiales presiones, imponiendo sus aspiraciones y sus gustos. Es falso interpretar las situaciones nuevas como si la masa se hubiese cansado de la política y encargase a personas especiales su ejercicio. Todo lo contrario. Eso era lo que antes acontecía, eso era la democracia liberal. La masa presumía que, al fin y al cabo, con todos sus defectos y lacras, las minorías de los políticos entendían un poco más de los problemas públicos que ella. Ahora, en cambio, cree la masa que tiene derecho a imponer y dar vigor de ley a sus tópicos de café. Yo dudo que haya habido otras épocas de la historia en que la muchedumbre llegase a gobernar tan directamente como en nuestro tiempo. Por eso hablo de hiperdemocracia.

Lo propio acaece en los demás órdenes, muy especialmente en el intelectual. Tal vez padezco un error; pero el escritor, al tomar la pluma para escribir sobre un tema que ha estudiado largamente, debe pensar que el lector medio, que nunca se ha ocupado del asunto, si le lee, no es con el fin de aprender algo de él, sino, al revés, para sentenciar sobre él cuando no coincide con las vulgaridades que este lector tiene en la cabeza. Si los individuos que integran la masa se creyesen especialmente dotados, tendríamos no más que un caso de error personal, pero no una subversión sociológica. Lo característico del momento es que el alma vulgar, sabiéndose vulgar, tiene el denuedo de afirmar el derecho de la vulgaridad y lo impone dondequiera. Como se dice en Norteamérica: ser diferente es indecente. La masa arrolla todo lo diferente, egregio, individual, calificado y selecto. Quien no sea como todo el mundo, quien no piense como todo el mundo, corre el riesgo de ser eliminado. Y claro está que ese «todo el mundo» no es «todo el mundo». «Todo el mundo» era, normalmente, la unidad compleja de masa y minorías discrepantes, especiales. Ahora «todo el mundo» es sólo la masa.


Biografia de José Ortega y Gasset
El ensaysta y filósofo español José Ortega y Gasset(1883-1955) nació en Madrid el 9 de mayo de 1883. Su padre, José Ortega y Munilla, dirigía el periódico “El Imparcial”, propiedad de la familia de su madre, Dolores Gasset, perteneciente a la burguesía liberal e ilustrada de finales del siglo XIX. La tradición liberal y la actividad periodística de su familia determinarán la futura actividad de Ortega en un doble ámbito: en su participación en la vida política española y en su actividad periodística. Ortega publica numerosos artículos de prensa, culturales y políticos; además, el estilo periodístico puede reconocerse también en sus obras más técnicas y filosóficas.

Tras sus primeros estudios en Madrid, Ortega comienza en 1891 en Málaga los estudios de Bachillerato en el colegio de los jesuitas de Miraflores del Palo. Allí entra en contacto con otros jóvenes de la burguesía malagueña. Su próxima estación será Deusto donde comienza sus estudios en 1898, estudios que continuará, poco después, en la Universidad de Madrid. Son los años de la guerra hispano-norteamericana, y de la consiguiente pérdida de las colonias (Cuba, Filipinas y Puerto Rico) que marcarán, como se sabe, la conciencia política y cultural de buena parte de los intelectuales españoles, elevando el tema de la decadencia de España al primer plano de la reflexión, así como el de la necesidad de una regeneración.

En 1902 obtiene la licenciatura en Filosofía y dos años después defiende su tesis doctoral. En 1905 viaja a Alemania (universidades de Leipzig, Berlín y Marburgo), donde entra en contacto con los neokantianos H. Cohen y P. Natorp, en 1906, asistiendo a sus cursos. Ambos ejercen una gran influencia en su pensamiento, aunque Ortega no se limitó a aceptar los principios neokantianos sin más, sino que adoptó una actitud crítica y constructiva ante ellos. En 1908 regresa a Madrid y en 1910 accede, por concurso, a la cátedra de Metafísica de la Universidad de Madrid. Ese mismo año contrae matrimonio con Rosa Spottorno y Topete.

Su actividad pública a partir de 1911 es agitada e incansable. Intenta llevar a la práctica sus ideas regeneracionistas. Con ese fin funda en 1914 la “Liga de Educación Política Española”; en 1915 la revista “España”; y en 1916 será cofundador del diario “El Sol”. Al mismo tiempo publica sus primeras obras, como las “Meditaciones del Quijote”, (en 1914), “El Espectador”, (en 1916), iniciando el período perspectivista de su filosofía, que predominará en su obra hasta 1923.

En 1923 se instaura en España la dictadura de Primo de Rivera. Ese año fundará la “Revista de Occidente”, de marcada oposición política a la dictadura, oposición que le llevará, en 1929, a dimitir de su cátedra en la Universidad de Madrid, continuando sus actividades filosóficas en lugares no vinculados anteriormente a la filosofía, como la Sala Rex y el Teatro Infanta Beatriz (actualmente el conocido restaurante Teatriz), impartiendo clases a modo de conferencia, algunas de las cuales serán recogidas posteriormente en su obra “¿Qué es filosofía?”, y cuyos contenidos corresponden ya al período racio-vitalista de su pensamiento, iniciado en 1923.

En 1930 vuelve a la cátedra de la Complutense, bajo la dictadura de Berenguer, más tolerante que la de Primo de Rivera, aunque continúa su actividad pública. Ese mismo año publicará “La rebelión de las masas”, una de sus obras más célebres. En 1931, junto con otros intelectuales de la talla de Gregorio Marañón o Pérez de Ayala funda la “Agrupación al Servicio de la República” y es elegido diputado a las Cortes Constituyentes de la recién proclamada II República por la provincia de León. Después de su experiencia parlamentaria retornará a la actividad académica publicando, en 1934, “En torno a Galileo”, y en 1935 “Historia como sistema”, siendo homenajeado ese mismo año por la Universidad de Madrid.

A raíz del golpe de estado de 1936 contra la II República, que dará lugar a la guerra civil española, Ortega se autoexilia, estableciendo su residencia primero en París, y luego en Holanda y Argentina, hasta 1942, año en que establecerá su residencia en Portugal. Al finalizar la segunda guerra mundial regresará a España, en 1945 y, aunque se le autoriza un ciclo de conferencias en el Ateneo de Madrid, no se le permite recuperar su cátedra de Metafísica, ante lo cual funda, en 1948, el “Instituto de Humanidades”, donde vuelve a impartir docencia ante un público no universitario. En 1950 realiza un último viaje a Alemania, decepcionado ante las dificultades de su estancia en España, siendo nombrado en 1951 Doctor Honoris Causa por las universidades de Marburgo y Glasgow. Regresará a España en 1955, donde muere el 18 de octubre en Madrid.
Fuente: http://www.rinconcastellano.com/sigloxx/ortega.html#

Nota
El presente artigo es el primero capítulo de lo livro La Rebellion de las Masas de José Ortega y Gasset, publicado em 1930. Fuente: http://bibliotecasolidaria.blogspot.com.es/2009/05/la-rebelion-de-las-masas-de-ortega-y.html

Citation:
Ortega y Gasset, J. El hecho de aglomeraciones. PortVitoria, UK, v.10, Jan-Jun, 2015. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

José Ortega y Gasset

“A nota característica do nosso tempo é a triste verdade de que a alma medíocre, a mente lugar-comum, mesmo sabendo-se medíocre, tem a audácia de asseverar o seu direito à mediocridade, e continua se impondo onde quer que consiga.” JOG

Há um fato que, para bem ou para mal, é o mais importante na vida publica europeia da hora presente. Este fato é o advento das massas ao pleno poderio social. Como as massas, por definição, não devem nem podem dirigir sua própria existência, e menos reger a sociedade, quer dizer-se que a Europa sofre agora a mais grave crise que a povos, nações, culturas, cabe padecer. Esta crise sobreveio mais de uma vez na história. Sua fisionomia e suas consequências são conhecidas. Também se conhece seu nome. Chama-se a rebelião das massas. Para a inteligência do formidável fato convém que se evite dar, desde já, as palavras “rebelião”, “massas”, “poderio social”, etc. um significado exclusivo ou primariamente politico. A vida pública não e só politica, mas, ao mesmo tempo e ainda antes, intelectual, moral, econômica, religiosa; compreende todos os usos coletivos e inclui o modo de vestir e o modo de gozar.

Talvez a melhor maneira de aproximar-se a este fenômeno histórico consista em referir-nos a uma experiencia visual, sublinhando uma feição de nossa época que é visível com os olhos da cara Simplicíssima de enunciar, ainda que não de analisar, eu a denomino o fato da aglomeração, do “cheio”. As cidades estão cheias de gente. As casas cheias de inquilinos. Os hotéis cheios de hóspedes. Os trens, cheios de viajantes. Os cafés, cheios de consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. As salas dos médicos famosos, cheias de enfermos. Os espetáculos, desde que não sejam muito extemporâneos, cheios de espectadores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não era problema, começa a sê-lo quase de continuo: encontrar lugar.

Nada mais. Há fato mais simples, mais notório, mais constante, na vida atual? Vamos agora puncionar o corpo trivial desta observação, e nos surpreendera ver como dele brota um repuxo inesperado, onde a branca luz do dia, deste dia, do presente, se decompõe em todo o seu rico cromatismo interior. Que e o que vemos e ao vê-lo nos surpreende tanto? Vemos a multidão, como tal, possuidora dos locais e utensílios criados pela civilização. Apenas refletimos um pouco, nos surpreendemos de nossa surpresa. Mas que, não é o ideal? O teatro tem suas localidades para que se ocupem; portanto, para que a sala esteja cheia. E do mesmo modo os assentos o vagão ferroviário e seus quartos o hotel. Sim; não há duvida. Mas o fato é que antes nenhum destes estabelecimentos e veículos costumavam estar cheios, e agora transbordam, fica fora gente afanosa de usufruí los. Embora o fato seja lógico, natural, não se pode desconhecer que antes não acontecia e agora sim; portanto, que houve uma mudança, uma inovação, a qual justifica, pelo menos no primeiro momento, nossa surpresa.

Surpreender-se, estranhar, e começar a entender. E o esporte e o luxo especifico do intelectual. Por isso sua atitude gremial consiste em olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza. Tudo no mundo é estranho e é maravilhoso para umas pupilas bem abertas. Isso, maravilhar-se, e a delicia vedada ao futebolista e que, ao contrário, leva o intelectual pelo mundo em perpetua embriaguez de visionário.Seu atributo são os olhos em pasmo. Por isso, os antigos deram a Minerva a coruja, o pássaro com os olhos sempre deslumbrados.

A aglomeração, ou cheio, antes não era frequente. Por que o e agora? Os componentes dessas multidões não surgiram do nada. Aproximadamente, o mesmo numero de pessoas existia há quinze anos. Depois da guerra pareceria natural que esse número fosse menor. Aqui topamos, entretanto, com a primeira nota importante. Os indivíduos que integram estas multidões preexistiam, mas não como multidão. Repartidos pelo mundo em pequenos grupos, ou solitários, levavam uma vida, pelo visto, divergente, dissociada, distante. Cada qual – indivíduo ou pequeno grupo – ocupava o lugar, talvez o seu, no campo, na aldeia, na vila, no bairro da grande cidade. Agora, de repente, aparecem sob a espécie de aglomeração, e nossos olhos vem por toda a parte multidões. Por toda a parte? Não, não; precisamente nos lugares melhores, criação realmente refinada da cultura humana, reservados antes a grupos menores, em definitiva, a minorias. A multidão, de repente, tornou-se visível, e instalou-se nos lugares preferentes da sociedade. Antes, se existia, passava inadvertida, ocupava o fundo do cenário social; agora adiantou-se ate as gambiarras, ela e o personagem principal. Já não há protagonistas: só há coro.

O conceito de multidão é quantitativo e visual. Traduzamo-lo, sem alterá-lo, a terminologia sociológica. Então achamos a ideia de massa social. A sociedade é sempre uma unidade dinâmica de dois fatores: minorias e massas. As minorias são indivíduos ou grupos de indivíduos especialmente qualificados. A massa é o conjunto de pessoas não especialmente qualificadas. Não se entenda, pois, por massas só nem principalmente “as massas operárias”. Massa é “o homem médio”. Deste modo se converte o que era meramente quantidade – a multidão – numa determinação qualitativa: é a qualidade comum, é o monstrengo social, é o homem enquanto não se diferencia de outros homens, mas que repete em si um tipo genérico. Que ganhamos com esta conversão da quantidade para a qualidade? Muito simples: por meio desta compreendemos a gênese daquela. É evidente, até acaciano, que a formação normal de uma multidão implica a coincidência de desejos, ideias, de modo se ser nos infivíduos que a integram. Dir-se-á que é o que acontece com todo grupo social, por seleto que pretenda ser. Com efeito; mas há uma diferença essencial. Nos grupos que se caracterizam por não ser multidão e massa, a coincidência efetiva de seus membros consiste em algum desejo, ideia ou ideal, que por si exclui o grande numero.

Para formar uma minoria, seja qual seja, e preciso que antes cada qual se separe da multidão por razoes essenciais, relativamente individuais. Sua coincidência com os outros que formam a minoria e, pois, secundário, posterior a haver-se cada qual singularizado, e é, portanto, em boa parte uma coincidência em não coincidir. Há casos em que esse caráter singularizador do grupo aparece a céu descoberto: os grupos ingleses que se chamam a si mesmos “não conformistas”, isto e, a agrupação dos que concordam só em sua desconformidade a respeito da multidão ilimitada. Este ingrediente de juntarem-se os menos precisamente para separar-se dos demais vai sempre misturado na formação de toda minoria. Falando do reduzido publico que ouvia um musico refinado, diz graciosamente Mallarmé que aquele publico salientava com a presença de sua escassez a ausência multitudinária.

A rigor, a massa pode definir-se, como fato psicológico, sem necessidade de esperar que apareçam os indivíduos em aglomeração. Diante de uma só pessoa podemos saber se e massa ou não. Massa e todo aquele que não se valoriza a si mesmo – no bem ou no mal – por razoes especiais, mas que se sente “como todo o mundo”, e, entretanto, não se angustia, sente-se a vontade ao sentir-se idêntico aos demais. Imagine-se um homem humilde que ao tentar valorizar-se por razoes especiais – ao perguntar de si para si se tem talento para isto ou para aquilo, se sobressai em alguma ordem – adverte que não possui nenhuma qualidade excelente. Este homem sentir-se-á medíocre e vulgar, e mal dotado; mas não se sentira “massa”. Quando se fala de “minorias seletas”, a velhacaria habitual costuma tergiversar o sentido desta expressão, fingindo ignorar que o homem seleto não e o petulante que se supõe superior aos demais, mas o que exige mais de si que os demais, embora não consiga cumprir em sua pessoa essas exigências superiores. E é indubitável que a divisão mais radical que cabe fazer na humanidade, e esta em duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres, e as que não exigem de si nada especial, mas que para elas viver e ser em cada instante o que já são, sem esforço de perfeição em si mesmas, boias que vão a deriva. Isto me lembra que o budismo ortodoxo se compõe de duas religiões distintas: uma, mais rigorosa e difícil; outra, mais frouxa e trivial; ou Mahayana – “grande veiculo” ou “grande carril” – e o Hinayana – “pequeno veiculo”, “caminho menor”. 0 decisivo e se pomos nossa vida num ou no outro veiculo, a um máximo de exigências ou a um mínimo.

A divisão da sociedade em massas ou minorias excelentes não é, portanto, uma divisão em classes sociais, mas em classes de homens, e não pode coincidir com a hierarquização em classes superiores e inferiores. Claro está que nas superiores, quando chegam a sê-lo e enquanto o forem de verdade há mais verossimilitude em achar homens que adotam o “grande veículo”, enquanto as inferiores estão normalmente constituídas por indivíduos sem qualidade. Mas, a rigor, dentro de cada classe social há massa e minoria autêntica. Como veremos, é característico do tempo o predomínio, ainda nos grupos cuja tradição era seletiva, da massa e do vulgo. Assim, na vida intelectual, que por sua própria essência requer e supõe a qualificação, adverte-se o progressivo triunfo dos pseudointelectuais inqualificados, inqualificáveis e desclassificados por sua própria contextura. 0 mesmo nos grupos sobreviventes da “nobreza” masculina e feminina. A seu turno, não é raro encontrar hoje entre os obreiros, que antes podiam valer como o exemplo mais puro disto que chamamos “massa”, almas egregiamente disciplinadas.

Ora bem: existem na sociedade operações, atividades, funções da ordem mais diversa, que são, por sua mesma natureza, especiais, e, consequentemente, não podem ser bem executadas sem dotes também especiais. Por exemplo: certos prazeres de caráter artístico e luxuoso, ou bem as funções de governo e de juízo politico sobre os assuntos públicos. Antes eram exercidas estas atividades especiais por minorias qualificadas – qualificadas, pelo menos, em pretensão -. A massa não pretendia intervir nelas: percebia-se que se queria intervir teria congruentemente de adquirir esses dotes especiais e deixar de ser massa. Conhecia seu papel numa saudável dinâmica social.

Se agora retrocedermos aos fatos enunciados a princípio, eles nos aparecerão inequivocamente como anúncios de uma mudança de atitude na massa. Todos eles indicam que esta resolveu avançar para o primeiro plano social e ocupar os locais e usar os utensílios e gozar dos prazeres antes adstritos aos poucos. É evidente que, por exemplo, os locais não estavam premeditados para as multidões, posto que sua dimensão seja muito reduzida e o povo transborde constantemente deles, demonstrando aos olhos e com linguagem visível o fato novo: a massa, que, sem deixar de sê-lo, suplanta as minorias.

Ninguém, creio eu, deploraria que as pessoas gozem hoje em maior medida e numero que antes, já que tem para isso os apetites e os meios. O mal é que esta decisão tomada pelas massas de assumir as atividades próprias das minorias, não se manifesta, nem pode manifestar-se, só na ordem dos prazeres, mas que é uma maneira geral do tempo. Assim – antecipando o que logo veremos -, creio que as inovações políticas dos mais recentes anos não significam outra coisa senão o império político das massas. A velha democracia vivia temperada por uma dose abundante de liberalismo e de entusiasmo pela lei. Ao servir a estes princípios o indivíduo obrigava-se a sustentar em si mesmo uma disciplina difícil. Ao amparo do princípio liberal e da norma jurídica podiam atuar e viver as minorias. Democracia e Lei, e convivência legal, eram sinônimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma hiperdemocracia em que a massa atua diretamente sem lei, por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos. É falso interpretar as situações novas como se a massa se houvesse cansado da política e encarregasse a pessoas especiais seu exercício. Pelo contrário. Isso era o que antes acontecia, isso era a democracia liberal. A massa presumia que, no final das contas, com todos os seus defeitos e vícios, as minorias dos políticos entendiam um pouco mais dos problemas públicos que ela. Agora, por sua vez, a massa crê que tem direito a impor e dar vigor de lei aos seus tópicos de café. Eu duvido que tenha havido outras épocas da história em que a multidão chegasse a governar tão diretamente como em nosso tempo. Por isso falo de hiperdemocracia.

O mesmo acontece nas demais ordens, muito especialmente na intelectual. Talvez cometa eu um erro; mas o escritor, ao tomar da pena para escrever sobre um tema que estudou intensamente, deve pensar que o leitor médio, que nunca se ocupou do assunto, se o lê, não é com o fim de aprender algo dele, mas, pelo contrário, para sentenciar sobre ele quando não coincide com as vulgaridades que este leitor tem na cabeça. Se os indivíduos que integram a massa se acreditassem especialmente dotados, teríamos não mais que um caso de erro pessoal, mas não uma subversão sociológica. O característico do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito de vulgaridade e o impõe por toda a parte. Como se diz na América do Norte: ser diferente é indecente. A massa atropela tudo que e diferente, egrégio, individual, qualificado e seleto. Quem não seja como todo o mundo, quem não pense como todo o mundo, corre o risco de ser eliminado. E claro está que esse “todo o mundo” não é “todo o mundo”. “Todo o mundo” era, normalmente, a unidade complexa de massa e minorias discrepantes, especiais. Agora todo o mundo e só a massa.


Biografia de José de Ortega y Gasset (por Nelson Jahr Garcia)
José de Ortega y Gasset nasceu em Madrid, a 9 de maio de 1883. A família de sua mãe era proprietária do jornal madrileno “El Imparcial” e seu pai jornalista e diretor desse mesmo diário. Essa relação com o jornalismo foi essencial para o desenvolvimento de sua formação intelectual e seu estilo de expressão literária. Grande parte de seus escritos filosóficos foram produzidos a partir do contato com a imprensa. Ortega, alem de considerado um dos maiores filósofos da língua espanhola também é lembrado como uma das maiores figuras do jornalismo espanhol do seculo XIX. Tendo adquirido as primeiras letras em Madrid foi enviado a cursar o bacharelado em um colégio jesuíta de Málaga. Embora reconhecendo o valor da educação jesuítica recebida, reagiu contra os tênues fundamentos da ciência adquirida, formulando um projeto pessoal de reforma da filosofia europeia. Terminando os estudos em Málaga iniciou seus estudos universitários em Deusto e depois na Universidade de Madrid, onde se doutorou em Filosofia. Buscando uma formação intelectual mais sólida continuou seus estudos em Marburgo, na Alemanha, onde prevalecia o neokantismo. Acabou por adotar uma atitude critica em relação aos seus mestres e a Kant, que se refletiu na afirmação: “Durante dez anos vivi no mundo do pensamento kantiano: eu o respirei como a uma atmosfera que foi, ao mesmo tempo, minha casa e minha prisão (…) Com grande esforço, consegui evadir-me da prisão kantiana e escapei de sua influência atmosférica.” A partir de 1910 iniciou uma vida pública repartida entre a docência universitária e atividades políticas e culturais extra-acadêmicas. Com o inicio da guerra civil espanhola, em julho de 1936, Ortega decidiu andar pelo mundo, viajando a França, Holanda, Argentina, Portugal, países onde proferiu inúmeras conferências. Suas obras se revestem de um caráter extremamente critico, as mais polemicas das quais foram: “Meditaciones del Quijote”, “Que es filosofia?”, “En torno a Galileo”, “Historia como sistema”, “Rebelión de las masas”, “Obras completas”. Foi também o cofundador do diário “El Sol” e fundador e diretor da “Revista de Ocidente”. Ortega y Gasset faleceu em Madrid no dia 18 de outubro de 1955.


Nota
O presente artigo é o primeiro capítulo do livro A rebelião das massas de José Ortega y Gasset, publicado em 1929. Tradução para o português de Herrera Filho. Editora Ridendo Castigat More, versão eBooksBrasil.com.

Citation:
Ortega y Gasset, J. O fato das aglomerações. PortVitoria, UK, v.10, Jan-Jun, 2015. ISSN 2044-8236,

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João Carlos Espada

Ideólogos de obediências várias desprezaram o posicionamento intelectual de Dahrendorf, acusando-o de contraditório. Mas talvez esse posicionamento contraditório seja característico do ‘mistério inglês’. JCE

Alemães Anglófilos
Ralf Dahrendorf nasceu a 1 de Maio de 1929, em Hamburgo, a cidade mais inglesa da Alemanha, como ele próprio gosta de recordar. Também os seus pais nasceram em Hamburgo e os avós, maternos e paternos, foram para Hamburgo a partir de Anglia – esse território muito desejado entre a Alemanha e a Dinamarca de onde terão partido os Anglo-Saxões rumo às ilhas britânicas.

Em meados de 1920, aquela que viria a ser a mãe de Dahrendorf preparava cuidadosamente uma primeira visita a Inglaterra. No último minuto, todavia, uma doença súbita impediu-a de concretizar a viagem e levou-a a ficar numa pequena localidade perto de Hamburgo, conhecida como Hostein Switzerland, onde conheceu o futuro marido, Gustav Dahrendorf. Ambos eram admiradores da Inglaterra e ambos decidiram – como um modesto substituto da viagem falhada – que dariam aos filhos nomes que pudessem ser igualmente usados na Alemanha e em Inglaterra. Daí os nomes Ralf – que se escreve, à alemã, com f, e não com ph – e Frank, o nome do irmão de Ralf Dahrendorf.

Dois totalitarismos
Gustav Dahrendorf foi líder do Partido Social-Democrata durante a República de Weimar e exerceu actividade política ao longo de toda a vida. Pertenceu à resistência ao nazismo e foi preso em 1933, depois em 1938, e novamente a 20 de Julho de 1944, data da tentativa de assassinato de Hitler.

Em Novembro de 1944, com 15 anos, Ralf Dahrendorf foi preso pela Gestapo e enviado para um campo de concentração, donde foi libertado em 1945, no dia em que as tropas soviéticas chegaram. No ano seguinte, em 1946, o pai do jovem Ralf viria de novo a ser quase preso na Alemanha de Leste, desta vez pelos comunistas, por se recusar a participar nas chamadas negociações com vista à unificação forçada do Partido Social-Democrata com o Partido Comunista. Esta dupla experiência do totalitarismo – nazi e comunista – e da resistência contra eles fundaram o comprometimento de Dahrendorf com a causa da liberdade e preveniram-no contra as seduções ideológicas: “Sou kantiano ou, se preferirem, popperiano, o que equivale a dizer que, para mim, um dos aspectos fundamentais da vida humana é que o homem não pode responder a todas as questões. Se alguém quer conhecer a resposta, deve poder duvidar do que dizem. Vivemos numa condição fundamental de incerteza […] e isso deriva do facto de nenhum homem ser Deus” [O Liberalismo e a Europa: Entrevista com Vicenzo Ferrari, Editora Universidade de Brasília, 1983, pp. 13-14].

Liberdade e lei
Outra experiência desta mesma época marcaria o jovem Dahrendorf. Nos dias que se seguiram à derrocada do regime nazi, e antes que novas instituições tivessem sido criadas, o caos invadiu as ruas. Isto levou Dahrendorf a observar que não existe liberdade sem lei, sem regras e sem instituições capazes de aplicar essas regras. Num livro que publicou décadas depois, já nos anos 80, intitulado Law and Order, Dahrendorf escreveria que o sonho rousseauísta de um mundo sem constrangimentos é o caminho mais curto para o pesadelo hobbesiano do Leviatão, o Estado todo-poderoso.

Também num livro ulterior (After 1989: Morals, Revolution and Civil Society, 1997) Dahrendorf regressa a este tema que é particularmente impopular entre os intelectuais liberais dos nossos dias: a crítica do igualitarismo e do relativismo. Nele, Dahrendorf descreve uma “concepção extraviada de democracia”: “Pensa-se que os valores “emergem” de uma ou de outra forma, ao libertar as pessoas de restrições, encorajando-as a revelarem o que de melhor possuem em si, juntando-as para que comuniquem. De algum modo, a verdade, a bondade e a beleza surgirão, como geysers no solo da Islândia. Isto é de Habermas (ainda que caricaturado) e, antes deste, de Rousseau. Mas está errado… A abordagem do “porque não?” relativamente ao que as pessoas fazem, dizem, querem e parecem traduz-se numa aproximação da anomia, a ausência de regras. Contudo, a anomia, tal como entropia, em última análise conduz à morte.”

Sociologia do conflito
Em 1952, Dahrendorf partia para Inglaterra, para a London School of Economics, onde faria o seu segundo doutoramento, desta vez em Sociologia, depois de se ter licenciado e doutorado em Filosofia na Universidade de Hamburgo. Após o doutoramento na LSE, Dahrendorf ingressou no Instituto de Investigações Sociais de Frankfurt, dirigido pelos neomarxistas da chamada escola crítica de Max Horkheimer e Theodor Adorno. «Fiquei lá exactamente oito semanas», explica Dahrendorf. «Depois das primeiras quatro compreendi que reinava uma atmosfera opressiva e autoritária que não me agradava». Em 1959 é publicado o seu clássico Class and Class Conflict in Industrial Societies, no qual Dahrendorf revê criticamente as principais teorias de estratificação social e desenvolve a sua própria perspectiva, que ficaria conhecida como «sociologia do conflito». São as seguintes as palavras finais do livro:

“O monismo totalitário baseia-se na ideia de que o conflito pode e deve ser eliminado, de que uma ordem social e política homogénea e uniforme é a situação desejável. Essa ideia é tão perigosa quanto errónea nas suas premissas sociológicas. Pelo contrário, o pluralismo das sociedades livres baseia-se no reconhecimento e na aceitação do conflito social.”
Europeísta Céptico

Entre 1967 e 1969, Dahrendorf lidera a renovação do Partido Liberal alemão, que culminaria na coligação entre liberais e sociais-democratas, o célebre governo Willy Brandt-Walter Scheel, de que Dahrendorf fez parte como ministro dos Assuntos Parlamentares.

Em 1970 Ralf Dahrendorf foi nomeado comissário alemão na Comissão Europeia, em Bruxelas, onde participou activamente nas negociações de adesão da Inglaterra, mas da qual se afastou em 1974, desapontado com a ausência de accountability nas estruturas supranacionais da Comunidade Europeia. Dahrendorf foi sempre um europeísta convicto, mas um europeísta de tipo especial, céptico relativamente aos grandes projectos federadores e à subestimação das realidades profundas do Estado-nação. Acima de tudo, é um internacionalista multilateral.

Depois da queda do Muro de Berlim, em 1989, tornar-se-ia um empenhado defensor da prioridade do alargamento da União Europeia aos países recém-libertados das ditaduras comunistas.

Regresso à Inglaterra
Depois de se demitir da Comissão Europeia, Dahrendorf foi convidado para Reitor da London School of Economics. Dirigiu-a nos anos difíceis de 1974 a 1984, retribuindo-lhe o prestígio de épocas passadas. A nobre instituição ficou-lhe grata e no 100.º aniversário convidou Dahrendorf para escrever a história dos primeiros cem anos. O resultado é um magnífico volume de 584 páginas, editado pela Oxford University Press em 1995. Oxford seria o destino seguinte de Ralf Dahrendorf, que, entretanto, fora agraciado pela rainha de Inglaterra com o título de Sir em 1981. Em 1987, após dez anos à frente da LSE, Dahrendorf tomaria o posto de warden do St. Antony’s College, na Universidade de Oxford, por mais dez anos, até Julho de 1997. Foi nesse período que tive o privilégio de ser orientado por ele no meu doutoramento. No mês passado, a 1 de Maio, regressei a St. Anthony’s para um fim de semana de homenagem aos 80 anos de Lord Dahrendorf.

Em 1998, Dahrendorf adoptaria a cidadania britânica, passando a poder usar o título de Sir. Em 1994, Sir Ralf ingressaria na Câmara dos Lordes como Lord Dahrendorf of Clare Market in the City of Westminster. Foi aí que dirigiu o célebre comité sobre «Wealth creation and social cohesion in a free society», do qual foi publicado em 1995 um relatório que muito terá inspirado o programa do New Labour de Tony Blair.

Dahendorf e Burke
Uma excelente introdução à obra de Dahrendorf pode ser encontrada no seu livro de 1997, intitulado After 1989: Morals, Revolution and Civil Society. O primeiro ensaio, “As revoluções devem fracassar?”, é uma crítica elegante ao utopismo revolucionário e uma defesa da tradição anglo-americana das “revoluções relutantes” (1688 e 1776), por oposição à revolução utópica ocorrida em França em 1789. Neste capítulo é estabelecido o tom do “liberalismo especial” de Dahrendorf: aberto à mudança, mas respeitando a tradição; a favor da escolha individual, mas contra o individualismo desbragado; firmemente do lado dos mercados livres e da propriedade privada, mas oposto à destruição do “terceiro sector”, que o autor encara como indispensável a uma sociedade civil forte.

Dahrendorf apresenta-se como “um intelectual que continua a querer convencer os outros da ‘singularidade da verdade’, sem confiar em ninguém que afirme possuí-la” (p. 112): “Falar da singularidade da verdade é uma outra forma de afirmar que existem princípios universais, não apenas no que respeita ao conhecimento mas também em relação à moral. Não poderemos nunca, contudo, ter a certeza de os haver encontrado. Por conseguinte, devemos ser tão cautelosos relativamente ao dogmatismo fundamentalista como em relação à libertinagem dos relativistas” (p. 122). Ideólogos de obediências várias desprezaram o posicionamento intelectual de Dahrendorf, acusando-o de contraditório. Mas talvez esse posicionamento seja uma expressão do “mistério inglês”. Talvez ele revele a profunda sabedoria de um gentleman britânico, de origem alemã, cujo sentido de equilíbrio e moderação está bem ilustrado na famosa frase de Edmund Burke, que Dahrendorf cita no final do livro de 1990, Reflexões sobre a Revolução na Europa:

“Tenho pouco para recomendar as minhas opiniões, excepto que se baseiam em observação demorada e muita imparcialidade Elas vêm de alguém que dedicou quase toda a sua vida pública à defesa da liberdade dos outros. Alguém que, quando o equilíbrio da embarcação em que viaja se encontra ameaçado por sobrecarga em um dos lados, procura transportar o pequeno peso dos seus argumentos para o lado que possa preservar o equilíbrio.”

Homenagem parlamentar
A 3 de Novembro de 2009, quase literalmente 20 anos após a queda do Muro de Berlim, [9 de Novembro de 1989], o Parlamento britânico homenageou a vida e obra de Ralf Darendorf, membro da Câmara dos Lordes, falecido a 18 de Junho desse ano.

Foi uma homenagem tocante, profundamente britânica, em que transparecia a personalidade muito especial de Dahrendorf – um inglês nascido alemão, que permaneceu um patriota dos dois países, mas não escondia a sua profunda admiração pelos anacronismos da civilidade britânica. A cerimónia decorreu na Igreja de St. Margaret, na Abadia de Westminster, e foi conduzida pelo reverendo Robert Wright, reitor daquela igreja e capelão do Parlamento britânico. Cá fora, no jardim adjacente, milhares de pequenas cruzes com papoilas vermelhas de papel e nomes gravados, eram cuidadosamente plantadas no relvado. Homenageavam os mortos em combate, sobretudo nas I e II guerras mundiais do século XX, e tinham sido enviadas pelos familiares ou amigos dos defuntos. Dentro da igreja, todos os presentes, que enchiam os lugares disponíveis, usavam a papoila vermelha na lapela.

Velha Inglaterra
Ninguém se podia enganar: estávamos na velha Inglaterra. Aqui honram- se os mortos, e sobretudo os mortos em combate. O país orgulha-se de nunca ter perdido uma guerra, excepto com as colónias americanas, com as quais mantém uma “relação especial”. E o homenageado no interior da igreja, The Lord Dahrendorf of Clare Market in the City of Westminster, tinha sido governante alemão, Comissário europeu pela Alemanha, reitor da London School of Economics (ainda enquanto cidadão alemão), depois reitor do St. Antony’s College, em Oxford, Cavaleiro do Império Britânico e, finalmente, membro da Câmara dos Lordes.

A liturgia e o ritual também não deixavam dúvidas a ninguém. Exactamente à hora marcada, deram entrada, sucessivamente, a representante do Primeiro-Ministro, o Lord Mayor de Westminster e o Lord Speaker. O coro entrou em seguida e a cerimónia teve início. Foram feitas leituras do Antigo e Novo Testamentos. Uma das filhas de Dahrendorf, Nicola, leu um belíssimo poema de TS Eliot.

Tim Garton Ash e Sir Patrick Cormack, um deputado conservador, deixaram testemunhos pessoais (dos quais falarei a seguir). Às 12h 55 em ponto, a hora anunciada no programa distribuído no início, a cerimónia terminou ao som das gaitas de foles do pelotão da Rainha. E os sinos tocaram a rebate.

Muro de Berlim
Timothy Garton Ash fez um testemunho tocante e certeiro sobre a personalidade de Dahrendorf. Observou a coincidência com o 20º aniversário da queda do Muro de Berlim. Lembrou como Dahrendorf tinha festejado com entusiasmo o fim do comunismo soviético. Completava-se a batalha pela liberdade que ele iniciara aos 15 anos, prisioneiro num campo de concentração nazi na sua Alemanha natal. Como Churchill, Dahrendorf, fora sempre um primário anti-nazi e anti-comunista.

Diferentemente de Churchill, Dahrendorf não era um conservador, mas um liberal. Fora como deputado do partido liberal alemão que participara no governo de coligação social-democrata- liberal, liderado por Willy Brandt na década de 1960. Mas foi sempre um liberal muito especial.

Dahrendorf foi profundamente influenciado pelos anacronismos da tradição inglesa (como lhes chamou Garton Ash), com a qual contactara pela primeira vez enquanto estudante de doutoramento na London School of Economics, a seguir à guerra. Voltaria à LSE em 1975, enquanto reitor, após uma breve experiência na Comissão Europeia de Bruxelas, onde nunca se sentiu feliz – e da qual se demitiu.

Garton Ash recordou que o chanceler alemão Konrad Adenauer costumava dizer que há três tipos de europeus: os anti-europeus, os europeus, e os hiper-europeus. Dahrendorf era, simplesmente, um europeu. Não gostava da burocracia e das tendências federalistas da União Europeia. Mas era profundamente favorável ao mercado único e á cooperação descentralizada entre as nações soberanas da Europa.

Anacronismos ingleses
Garton Ash falou dos anacronismos ingleses que Dahrendorf apreciava: o sentido de humor, por um lado, e uma profunda reverência pelo cerimonial e os rituais tradicionais, por outro; o hábito de permanente debate civilizado, por um lado, e o arreigado sentido de unidade patriótica, por outro.

A melhor ilustração destes anacronismos foi talvez o testemunho de um deputado conservador, Sir Patrick Cormack, na homenagem ao liberal Dahrendorf. Sir Patrick não se fez rogado. Começou logo por dizer que era de outro partido, o conservador, e que tinha muita honra em homenagear o liberal Dahrendorf. Até porque ambos punham o sentido de obrigação nacional e de dever cívico acima dos partidos, e não seguiam cegamente os respectivos partidos. Dahrendorf, aliás, era exemplar, enfatizou Sir Patrick. Tinha começado por se sentar na bancada liberal da Câmara dos Lordes (que viria a abandonar), mas sempre divergiu dos Liberais em três pontos essenciais: era contra o federalismo europeu; era contra a representação proporcional; era contra a eleição da Câmara dos Lordes.

Sir Patrick aliás confessou que tinha conhecido Dahrendorf há relativamente pouco tempo, cerca de 15 anos, pouco depois de este entrar na Câmara dos Lordes. E ficaram amigos porque Dahrendorf o convidara a participar num clube que fundara: “clube para a preservação de uma Câmara dos Lordes não eleita.” Dahrendorf sabia muito bem que a democracia não se confunde com o governo da multidão. A tradição inglesa mostrava, para quem a quisesse estudar, que a liberdade é garantida primeiro pela “Rule of Law” e pelo equilíbrio de poderes, não pelo governo das massas.

Rule of Law
À saída da igreja, no final da cerimónia, vagueei por Londres recordando Dahrendorf. Tinha estado com ele em Oxford pouco mais de um mês antes da sua morte, a 1 e 2 de Maio, para a celebração dos seus 80 anos. Houve uma conferência ao fim da tarde, com Timothy Garton Ash, Fritz Stern e Habermas, seguida de High Table no St. Antony’s College. Na manhã de sábado, dia 2, cerca de 20 pessoas reuniram-se à porta fechada com Dahrendorf – no Dahrendorf Room do Founders’ Building – para conversar sobre a sua obra e as interrogações (não as respostas) que nos deixara. Dahrendorf tinha perdido a voz mas esteve sempre connosco. Ainda falou sobre a importância da “Rule of Law” e de impor aos imigrantes muçulmanos o respeito pela “Rule of Law”, interferindo o menos possível nos seus modos de vida e tradições peculiares.

Anos mais felizes
Foi só ao almoço desse dia que Danuta, a mulher de Tim Garton Ash, me segredou que esta talvez fosse a última vez que o víamos. Estava seriamente doente e os médicos previam pouco tempo de vida. Estávamos no fim do almoço. Levantei-me a custo, dirigi-me a Dahrendorf e disse-lhe: “Sabe que mudou a minha vida para sempre. E eu fiquei grato para sempre”. Abraçámo-nos. E eu saí, atordoado. Vagueei por Oxford, com os olhos em lágrimas. Passeei pelos sítios em que passeara durante quatro anos a fio, entre 1990 e 1994, nos anos mais felizes da minha vida, quando Dahrendorf era o meu orientador de doutoramento.

Recebia-me no seu gabinete de 15 em 15 dias, por volta das 5h da tarde, sempre à hora marcada. Sempre de gravata e “brogues” pretos, a cor de Londres, eu usava castanhos, a cor de Oxford. Era uma dissonância ancestral que urgia preservar. Tomávamos chá. Discutíamos o ensaio ou parte da tese que eu lhe deixara dias antes. Por vezes, após o encontro, eu ainda lhe escrevia uma carta: tinha “descoberto” qualquer coisa, um novo argumento, um novo autor (em regra antigo), uma nova pergunta. Queria dar-lhe conta, saber o que pensava sobre a minha “descoberta”. Ele respondia sempre, em regra no dia seguinte.

Hábitos bárbaros
Um dia, recebi uma carta que começava assim: “pela primeira vez, receberá uma carta não assinada por mim. É um hábito bárbaro a que terei de ceder desta vez porque tenho de ir a Londres com urgência.” (Dahrendorf ditava as cartas para o gravador, que a secretária dactilografava na manhã seguinte, e ele depois assinava). Quando conversei com ele sobre a hipótese de ir ensinar para a América – o que Popper me impôs que aceitasse – Dahrendorf elogiou muito a América (era casado com uma americana), mas lamentou alguns hábitos bárbaros: por exemplo, têm de almoçar sempre em menos de uma hora. Verifiquei depois que, mais uma vez, Dahrendorf tinha razão.

Mudanças imperceptíveis
Ralf Dahrendorf, juntamente com Karl Popper, mudaram para sempre a minha maneira de ver o mundo e a vida. Tomei consciência de algumas dessas mudanças na altura em que ocorreram, enfrentei-as, pensei-as, hesitei, voltei atrás, e finalmente assumi-as. Mas muitas outras foram imperceptíveis, suaves, pequeníssimas. Não dei por elas na altura em que se operavam. Mas estavam a operar-se. E ficaram comigo para sempre.

Não poderia resumi-las aqui. Mas aprendi com Dahrendorf e Popper que realmente sabemos muito pouco e cometemos muitos erros. Podemos, no entanto, aprender com os nossos erros. Ainda assim, saberemos sempre muito pouco, cada um de nós saberá sempre muito pouco. A civilização do Ocidente assenta na consciência desta nossa ignorância e imperfeição fundamentais. Por isso, entramos em conversação uns com os outros, com os que já viveram, com os que vivem hoje, e com os que hão-de vir, como nos recordou Edmund Burke. A liberdade é a condição indispensável a esta conversação a várias vozes. Mas a liberdade não é uma voz particular. É uma conversação. Supõe regras de conduta estritas, sobretudo de auto-controlo, e estrito sentido de dever para com a liberdade. São regras de “gentlemanship”, que nenhum de nós consegue demonstrar racionalmente, mas que podemos justificar racionalmente. No entanto, ninguém as inventou. Herdámo-las em conversação com os nossos antepassados, que por sua vez fizeram o mesmo com os antepassados deles.

Conversação
A liberdade como conversação e as regras de conduta da “gentlemaship” lançam as suas raízes na civilização clássica de Atenas e Roma, e na tensão entre ela e a tradição judaico-cristã. A cultura política de língua inglesa foi a que melhor soube preservar essa ancestral conversação, porque recusou sempre a falsa escolha entre a estagnação e a revolução, entre o dogmatismo e o relativismo, entre os despotismos rivais do imobilismo e da inovação.


João Carlos Espada é diretor e fundador do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e detém a cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilisation no Colégio da Europa, campus de Natolin (Varsóvia). É autor de vários livros na área da teoria política e da história do pensamento político, e mantém uma coluna de opinião regular na imprensa portuguesa desde 1985.

Nota
O presente artigo é um capítulo do livro de J. C. Espada intitulado O mistério inglês e a corrente de ouro, publicado pela Aletheia Editores, Lisboa, em 2010.

Citação
Espada, J. C. (2014). Ralf Dahrendorf: Um germano-britânico invulgar. PortVitoria, UK, v. 8, Jan-Jun, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com.

João Carlos Espada

A liberdade, disse Berlin, não é seguramente o único valor estimável. Existem muitos outros. Mas a ideia monista de que é possível reconciliar todos os valores num todo harmonioso, sem conflito entre eles, é uma ideia errada. Visa alcançar o paraíso na terra. Em regra, gera infernos totalitários. ‘Liberdade é liberdade, não é igualdade, ou equidade, ou justiça, ou cultura, ou felicidade humana, ou uma consciência tranquila”.

Esta é uma das muitas célebres passagens do mais famoso ensaio de Isaiah Berlin (1909-1997), “Two concepts of liberty”. O texto serviu de base a uma conferência em Oxford, em 1958. Ainda hoje continua a ser discutido, objeto de estudo, tema de livros e dissertações académicas. Isaiah Berlin e “os dois conceitos de liberdade” são indissociáveis.

Liberdade negativa
De um lado, temos a liberdade negativa, tal como foi entendida pelos liberais clássicos, de Locke a Benjamin Constant, Tocqueville ou John Stuart Mill. É a liberdade entendida como ausência de coerção intencional por terceiros. Significa que um indivíduo será tanto mais livre quanto menor for a interferência de terceiros na sua esfera de decisão. Em termos políticos, o ideal da liberdade negativa supõe a existência de um Estado limitado, que respeita a esfera privada das decisões pessoais, e cujo principal objectivo é garantir que a liberdade de uns não interfira na liberdade de outros.

Mas, tal como indica a citação inicial deste artigo, a liberdade negativa não pode garantir, só por si, que outros valores ou objetivos estimáveis sejam simultaneamente alcançados. Pessoas livres podem cometer muitos disparates no que respeita a sua vida pessoal. Pessoas igualmente livres perante a lei podem ter entre si profundas desigualdades materiais ou econômicas. E um Estado pequeno e limitado, que respeite a liberdade negativa dos cidadãos, abstém-se de legislar sobre muitos domínios que algumas pessoas, por vezes a maioria, poderiam preferir que fossem objeto de legislação.

Liberdade positiva
Os três problemas acima referidos constituíram em regra os três principais argumentos dirigidos contra a liberdade negativa pelos defensores de um outro conceito de liberdade: a liberdade positiva. O ponto principal do conceito positivo de liberdade consiste em dizer que o conceito negativo não basta. A liberdade não pode ser apenas ausência de coerção. Tem de ser também capacidade para tornar efetiva a escolha que a liberdade negativa permite fazer.

De que serve a liberdade (negativa) de pensar como quiser ao camponês iletrado que segue voluntariamente os preconceitos difundidos pelo padre local? De que serve a liberdade (negativa) de comprar e vender ao mendigo que vive debaixo da ponte e não tem habitação nem dinheiro para a adquirir? De que serve a liberdade (negativa) de viajar ao trabalhador que não dispõe dos meios para adquirir um bilhete de avião? De que serve, finalmente, a liberdade (negativa) de ter opiniões, se as opiniões da maioria não puderem ser soberanas sobre as limitações impostas ao poder político pelas garantias legais individuais, exigidas pelos defensores da liberdade negativa?

Pluralismo
A estas perguntas, Isaiah Berlin respondeu de forma singela: não se pode ter tudo ao mesmo tempo. A liberdade não é seguramente o único valor estimável. Existem muitos outros. Mas a ideia monista de que é possível reconciliar todos os valores num todo harmonioso, sem conflito entre eles, é uma ideia errada. Visa alcançar o paraíso na terra. Em regra, gera infernos totalitários. Por isso, Berlin concluiu que “o pluralismo, com a medida de liberdade negativa que ele implica, parece-me ser um ideal mais verdadeiro e mais humano do que os objetivos daqueles que procuram nas grandes, disciplinadas e autoritárias estruturas o ideal do autogoverno positivo, por classes, ou povos, ou pelo conjunto da humanidade. É mais verdadeiro, porque pelo menos reconhece o fato de que os objetivos humanos são muitos, nem todos eles comensuráveis, e em perpétua rivalidade uns com os outros”.

Guerra Fria
Esta conferência de Oxford sobre os dois conceitos da liberdade foi justamente interpretada como um manifesto anticomunista. E foi-o certamente. Berlin foi um “cold-warrior”. O seu círculo de amizades situava-se sobretudo ao centro-esquerda, é certo, e por vezes sentiam alguma incomodidade com algumas das posições de Berlin. Michael Ignatieff recorda várias destas ocasiões na sua excelente biografia de Isaiah Berlin: “Perante o aborrecimento dos seus amigos da esquerda, Berlin aceitava convites para Downing Street e apreciava a companhia da Sra. Thatcher. Sempre que se encontravam, ela perguntava-lhe em que é que ele estava a trabalhar e, quando ele respondia “nada em especial”, ela levantava o dedo na direção dele e repreendia-o: “Tem de trabalhar, Isaiah, tem de trabalhar!”. “Yes, madam”, respondia ele respeitosamente”. Uma situação semelhante tivera lugar em 1949, quando Berlin publicou o seu belo ensaio sobre Winston Churchill. Este é, ainda de acordo com Ignatieff, “um ensaio merecidamente famoso entre os que criaram o mito churchilliano”. Ignatieff descreve a situação: “Hagiografia era o que os seus amigos da esquerda consideravam ser o seu ensaio. Metade do país tinha despedido Churchill do Governo através do voto em 1945 e encarava-o como uma relíquia reacionária. Em 1949 vislumbrava-se uma nova eleição. Churchill preparava-se para liderar o ataque conservador contra o Governo (trabalhista) de Atlee, e eis que um suposto liberal como Berlin escrevia um elogio ao “maior ser humano do nosso tempo”.

Espírito inglês
Discute-se muito qual era o exato posicionamento político de Isaiah Berlin. Michael Ignatieff recorda que Berlin nascera em Riga, na Letónia, em 1909, e que a família se exilara na Inglaterra em 1921, após ter assistido com horror à Revolução Soviética. Sugere uma resposta interessante: “Durante toda a sua vida [Berlin] atribuiu ao espírito inglês quase todo o conteúdo do seu liberalismo: que o respeito decente pelos outros e a tolerância em relação à discordância são melhores do que o orgulho e o sentido de missão nacional; que a liberdade pode ser incompatível com, e melhor do que, demasiada eficiência; que o pluralismo e um certo desalinho são, para aqueles que valorizam a liberdade, melhores do que a imposição de sistemas abrangentes, por mais racionais e desinteressados que estes sejam, e melhores do que a vontade da maioria contra a qual não haja apelo. Tudo isto, insistia Berlin, era profunda e distintivamente inglês.”

Viver e deixar viver
Quando visitei Isaiah Berlin na sua casa de Headington, em Oxford, em Junho de 1994, passamos toda a manhã a conversar sobre tudo e mais alguma coisa. Inicialmente, eu queria saber as suas opiniões sobre a União Europeia e o alegado nacionalismo das ilhas Britânicas. Ele foi muito prudente acerca da Europa, mas tremendamente enfático em negar que a Inglaterra fosse um país nacionalista. Ainda me lembro claramente de Berlin a recordar todos e cada um dos dissidentes europeus dos séculos XVIII e XIX, tanto da esquerda como da direita, que fugiram para o exílio na Inglaterra. Foi então que ele disse qualquer coisa semelhante ao que se segue, e que cito das minhas notas: “Todos eles estavam autorizados a viver e a exprimir as suas opiniões neste país. A Inglaterra foi sempre um país tolerante. Todos eles o reconheciam, mas costumavam queixar-se do fato de os Ingleses os não levarem a sério. Ora, pergunto-lhe eu agora a si: não será esta, de certa maneira, uma condição da tolerância? Quero dizer, se começarmos a levar tudo e todos terrivelmente a sério, iremos continuar a ser capazes de os tolerar da mesma forma que os toleramos quando adotamos a atitude de “viver e deixar viver”?”

Quadrângulos Oxford
Parece-me que Berlin estava aqui a confiar abertamente num consenso britânico que não era perturbado por sistemas ideológicos totais. Por causa desse consenso – nas maneiras, nas atitudes, nas regras não escritas de comportamento-, a Inglaterra foi capaz de praticar a tolerância, de viver e deixar viver.

Diz-se hoje que esse consenso não é suficientemente fundamentado, que carece de um sistema filosófico coerente. Não sei se Isaiah Berlin gostaria desse ambição pelos sistemas. “O último inglês”, como lhe chamou Ian Buruma, amava Oxford e os seus quadrângulos. Quase todos os colégios de Oxford têm pelo menos um quadrângulo, geralmente relvado, e frequentemente mais do que um. No entanto, o quadrângulo mais antigo, o chamado Mob Quad do Merton College (a origem do nome é desconhecida) “não foi desenhado intencionalmente como um quadrângulo, mas emergiu por acidente”.
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João Carlos Espada é Diretor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica e presidente da Sociedade Churchill de Portugal.

Nota
Texto publicado originalmente no portal: www.ionline.pt

Citação:
Espada, J. Isaiah Berlin: Liberdade e pluralismo. PortVitoria, UK, v. 7, Jul-Dec, 2013. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha da trilogia de Robert Service: Lenin (2010), Stalin (2010) e Trotsky (2010). London, Pan Books, 561, 715 e 600pp. SBNs: 978-1-447-20184-7; 978-0-330-51837-6; 978-1-447-20186-1. Primeiras edições: 2000, 2004, 2009.

Lênin, Stalin e Trotsky foram os principais atores da Revolução Bolchevista de 1917 que transformou a Rússia num estado totalitário com um só partido e uma só ideologia. As suas biografias escritas por Robert John Service (1947-) são as mais completas e fiáveis que existem, fruto de décadas de pesquisa do autor, um historiador especializado na história da Rússia do final do século dezenove até o presente, atualmente ocupando o cargo de professor titular na Universidade de Oxford, Inglaterra. A trilogia de Service reúne as informações já reveladas na literatura acadêmica com aquelas obtidas a partir da disponibilização dos arquivos soviéticos em 1991. A cobertura da trilogia dos três personagens centrais do Bolchevismo, o icing of the cake, é a glosa psicológica sobre as personalidades de Lênin, Stalin e Trotsky. Como o público potencial de biografias tende a ser reduzido e as três biografias são extensas, é pouco provável que esta trilogia seja traduzida para o português. Entretanto, devido ao estilo direto e claro do autor, os livros são fáceis de ler mesmo para quem tem o inglês como segunda língua.

No seu conjunto a trilogia de Service mostra a contradição entre a suposta revolução dos trabalhadores da doutrina de Marx e o fato dos intelectuais marxistas russos serem quase todos oriundos da classe mais privilegiada. Mostra também a evolução da interpretação da teoria de Marx, da ortodoxa até as mais heterodoxas. Enquanto jovens, Lênin, Stalin e Trotsky eram propensos à interpretação fiel e ortodoxa de Marx, segundo a qual a revolução socialista dos trabalhadores de todo o mundo começaria numa sociedade industrializada e com significativa força de trabalho como a Alemanha ou da Inglaterra. À medida que Lênin, Stalin e Trotsky começaram a produzir os seus próprios artigos revolucionários, cada qual buscou a interpretação de Marx que melhor se encaixasse com suas próprias opiniões. Lênin e Trotsky achavam que a revolução socialista prevista por Marx poderia prescindir do capitalismo, pois seria validada por revoluções de trabalhadores da Alemanha e de outros países industrializados, que acreditavam ser iminentes. Por sua vez, Stalin forçou uma interpretação da economia russa como sendo essencialmente pré-capitalista e logo descartou a possibilidade de uma iminente revolução de trabalhadores no resto do mundo.

Lênin (1870-1924)
Vladimir Lênin, ou Vladimir Ilich Ulyanov, nasceu em Simbirsk, atualmente Ulyanovsk, no vale do Volga, uma importante via de conexão com o Mar Cáspio ao sul da Rússia, para onde sua família havia se mudado no ano anterior, depois de seu pai ter sido nomeado inspetor de escolas da província. Vladimir era o terceiro dos quatro filhos do casal, mais novo que Alexander e Anna e mais velho que Maria. A família Ulyanov vivia confortavelmente, empregava uma cozinheira e passava férias na confortável casa dos avós maternos em Kokushkino. Os valores familiares giravam em torno da educação dos filhos, todos eles considerados alunos brilhantes; o ambiente familiar era altamente motivador. Embora a escolaridade que Vladimir recebera fosse considerada estreita, a mesma foi profunda o suficiente para lhe conferir a necessária confiança. Na juventude, Vladimir leu A Cabana do Pai Tomás, da escritora Harriet Beecher, publicado em 1852, livro que lhe deu uma visão da sociedade escravista dos Estados Unidos e que possivelmente contribuiu para sua futura predisposição marxista. Vladimir tinha um enorme respeito pelo seu irmão mais velho Alexandre, e teve acesso aos livros e outra literatura avulsa sobre o Marxismo do irmão depois da morte do mesmo. Vladimir usou diversos pseudônimos antes de finalmente optar pelo de Lênin.

O poder de liderança de Lênin começou a evidenciar-se em 1898, na ocasião em que ajudou a criar o Partido Operário Social-Democrata –POSDR– bem como o Iskra (A Centelha), o jornal do partido, do qual era editor juntamente com o já famoso teórico Marxista Georgi Plekhanov e outros líderes revolucionários, Pavel Axelrod, Vera Zasulich, Julius Martov e Aleksandr Potresov. Impresso em diversas cidades da Europa, o Iskra era levado clandestinamente para a Rússia por uma rede de agentes do partido. Os artigos assinados por Lênin no Iskra foram essenciais para a sua confirmação como líder do POSDR. Embora o objetivo principal do POSDR fosse unificar diversos grupos de socialistas que competiam entre si, uma disputa pelo poder entre Lênin e Plekhanov causou um racha indelével no partido, gerando uma ala majoritária ou bolchevista e uma ala minoritária ou menchevista, a primeira formada pelos seguidores de Lênin e a segunda pelos seguidores de Plekhanov.

Depois de passar muitos anos no exílio, de onde comandava o movimento dos trabalhadores russos, Lênin retornou à Rússia em abril de 1917, depois da queda do império pela Revolução de Fevereiro e instalação de um governo provisório. Em outubro do mesmo ano ele liderou a revolução que destituiu o governo provisório. Ao formar o novo governo Lênin mostrou-se antidemocrático até para com seu próprio partido, ao colocar apenas bolchevistas no poder, deixando de fora os menchevistas. Após ter ficado parcialmente incapacitado em 1922, Lênin lutou para continuar influenciando as decisões políticas do governo, mas seus esforços foram frustrados.

Stalin (1878-1953)
Josef Stalin (Dzhughashvili), ou Josef Vissarionovich, nasceu em Gori, na província de Tiflis, na região do Cáucaso, Georgia, que havia passado para o domínio russo em 1859, depois da vitória das forças imperiais sobre os Islamitas. Seu pai, Besarion, era um sapateiro e mais tarde se empregou numa fábrica de calçados, e sua mãe, Ketevan, costumava fazer trabalhos avulsos como faxineira e costureira. A pobreza não era o maior problema da família Vissarionovich. O pai era chegado à bebida, era violento, e costumava bater no filho. A mãe tinha uma reputação duvidosa quando solteira, embora depois de casada passasse a ser uma cristã devota, e tinha um enorme apego ao filho. Outro problema da família era a discrepância de valores educacionais. A mãe queria que Josef recebesse uma boa educação e até conseguiu matricular o menino no seminário de Tblisi, provavelmente a única opção educacional dos mais pobres. Entretanto, o pai tirou o menino do seminário para que pudesse ganhar uns trocados trabalhando na fábrica de calçados. Inconformada, a mãe pediu a ajuda dos padres de Gori para persuadir o marido a deixar que o menino voltasse para o seminário. Josef permaneceu no seminário até 1899, mas deixou o mesmo sem fazer os exames finais. Besarion eventualmente abandonou o lar e se afogou na bebida, tendo morrido jovem, de cirrose hepática. Na ausência do pai, a mãe foi trabalhar como costureira para a família Davrishevis, cujo filho Josef Davrishevi regulava com Josef Dzhughashvili, e os dois se tornaram amigos.

Não era só o ambiente familiar de Josef Dzhughashvili que era inadequado, mas todo o seu ambiente social. Nele, a vida dos jovens girava em torno de gangues e volta e meia Josef se metia em brigas. Pobre, sem um pai ou parentes que zelassem por ele, o jovem aprendeu sozinho a se esquivar das gangues que o atormentavam e ele próprio logo se tornou um bully. A pior consequência desse tipo de ambiente foi ter deixado no jovem Josef Dzhughashvili a impressão de que a violência era normal. Nesse ambiente violento forjou a sua persistência e ambição bem como a sua personalidade irritadiça e volátil. A curta experiência na fábrica de sapatos onde a mão de obra era explorada da maneira mais ignóbil certamente foi um dos marcos que facilitaram a futura doutrinação marxista do jovem Josef, que começou com leituras de materiais proibidos dentro do próprio seminário e amadureceu quando em Tiflis ele se associou a outros jovens marxistas da cidade, principalmente o grupo liderado por Lev Rozenfeld, que se tornou conhecido pelo pseudônimo de Kamenev, que mais tarde se casaria com Olga, irmã mais nova de Trotsky, e mais tarde ainda se tornaria seu inimigo.

A despeito de tudo, o jovem Josef Dzhughashvili era inteligente, desembaraçado e altamente persistente, o que o ajudou a ser aceito no meio intelectual da Georgia. Preso por ter se envolvido numa rebelião em Batumi, Dzhughashvili, foi mandado para Kutaisi, no centro da Sibéria, onde travou contato com outros revolucionários. Em 1903 conseguiu escapar e retomar as atividades revolucionárias em Tbilisi, escrevendo artigos de jornais e participando da fundação do periódico Proletarians Brdzola (Luta Proletária). Nesse meio tempo Lênin havia sido escolhido líder do POSDR, e logo no segundo congresso do partido houve o racha das alas majoritária ou bolchevique e minoritária ou menchevique. Stalin optou pelos bolcheviques e passou a se corresponder com Lênin, e logo depois se tornou o líder do Comitê Bolchevista de Tiflis. Foi mais ou menos nessa época que Josef Dzhughashvili resolveu optar pelo nome Josef Stalin.

No primeiro congresso do Politburo do Partido, em Tampere, na Finlandia, logo depois da Revolução de Outubro de 1905, Stalin compareceu como representante do partido de Tblisi, e finalmente conheceu em pessoa Lênin e Trotski. Em 1906, quando Stalin se casou com Ketevan Svanidze, irmã de um ex-colega de seminário, ele já era o principal líder bolchevique da Georgia. Entretanto, Ketevan faleceu de tuberculose em menos de dois anos, deixando um filho pequeno, Yakob, que foi entregue aos avós maternos. Daí até a Revolução de Outubro de 1917 passaram-se anos de prisão, fugas, recapturas e exílio.

Depois da Revolução de Outubro de 1917, Stalin ocupou o cargo de Comissário do Povo, encarregado de organizar o sistema de abastecimento interno. Mais tarde, quando sucedeu Lênin, Stalin já havia compreendido a realidade do socialismo de um único país, o que permitiu que concentrasse esforços internamente ao invés de dissipá-los no incitamento de revoluções socialistas em todo o mundo. Todas as pessoas que criticaram Stalin tornaram-se seus inimigos, sendo Trotsky o mais notório dos mesmos. Dentro da União Soviética a imagem pública de Stalin era boa, pois havia sido fabricada pela máquina de propaganda do regime. Entretanto, fora da União Soviética, principalmente após o período do terror entre 1937 e 1938, Stalin passou a ser visto como um monstro sanguinário responsável pela morte de quase três milhões de pessoas.

Trotsky (1879-1940)
Lev (Leiba) Davidovich Bronstein, Lev Trotsky, nasceu numa fazenda de propriedade de seus pais em Yanovka, na província de Kherson, na Ucrânia. Ele foi o quinto dos oito filhos de David e Anna Bronstein, embora apenas quatro chegassem à idade adulta, tendo os demais morrido de difteria. Seu irmão mais velho se chamava Alexander, e suas duas irmãs mais novas, Elisheba (Yelizaveta) e Golda, que mais tarde passou a se chamar Olga. Apesar de a família Bronstein ter hábitos simples, eles eram considerados os judeus mais abastados da região. Leiba, como Lev Trotsky era chamado, completou a escolarização primária numa vila próxima da fazenda, hospedando-se durante a semana na casa de uma tia. A fim de fazer o curso secundário, Leiba foi morar com a família de um primo, Moshe Shpnster e sua esposa Fanni, em Odessa. Shpnster era dono de uma gráfica e Leiba logo se encantou com a máquina de impressão e com todas as demais atividades ligadas ao mundo da publicação. Os primos logo perceberam que o menino era superdotado, fato que também transparecia nos seus boletins escolares.

No outono de 1895, aos 16 anos, depois de ter concluído o curso secundário em Odessa, Leiba foi mandado para Nikolaev para completar os estudos na Realshule. Na nova escola Leiba se ocupava com diversas outras atividades que não o estudo, mas tamanha era sua inteligência que mesmo assim continuava a ser o primeiro da classe. Através de seu colega de escola Vyacheslav, ele conheceu o irmão mais velho do mesmo, Franz Shvigovski, um intelectual checo de inclinação revolucionária e conhecedor do Marxismo. Aos dezoito anos Leiba passou a frequentar as reuniões políticas realizadas na casa dos Shcvigovski, e tomou enorme gosto pelos debates sobre política contemporânea e outros assuntos. Quando o pai o visitava e procurava dissuadir o filho do perigo de seguir o caminho que Leiba insistia em seguir. Quanto mais o pai o criticava, mais ele passava a desprezar as suas expectativas e valores; para desespero do pai, a irmã mais nova Golda (Olga), resolveu seguir os passos do irmão. Leiba imiscuiu-se no novo movimento intelectual em torno da sociedade socialista e igualitária, baseada na tradição de autogovernabilidade das comunidades rurais da Rússia. O grupo mantinha a ideia comum de que o capitalismo não era inevitável ou imprescindível e que a Rússia poderia muito bem saltar do feudalismo para o socialismo sem passar pela etapa do capitalismo. Assim como a convivência com os primos de Odessa ensinou-lhe a arte da impressão, a convivência com o grupo de intelectuais de Nikolaev permitiu que o jovem Leiba exercitasse sua retórica e seus poderes de persuasão. Sem que Leiba soubesse, a casa dos Shvigovski se encontrava sob a vigilância da polícia, e num dia de janeiro de 1898, ao chegar lá carregado de panfletos subversivos para distribuição, Leiba foi preso juntamente com os demais revolucionários presentes, entre eles Alexandra, sua amiga mais chegada. A fim de garantir que fossem juntos para o exílio na a Sibéria, Leiba e Alexandra se casaram.

Após passar dois anos na Sibéria, e já com duas filhas, Leiba teve uma oportunidade de escapar, desde que sozinho. Ele agarrou a chance, deixando para trás a mulher e as duas filhas. Já com o nome assumido de Lev Trotsky, ele chegou a Samara de onde partiu imediatamente para Viena. Em Viena Trotsky conheceu Viktor Adler, o líder do partido na Áustria, bem como os famosos editores do jornal Iskra, Pavel Axelrod e Georg Plekanov. Ao perceber que o dinamismo do Iskra estava ligado a Lênin, que vivia em Londres, Trotsky seguiu para lá em outubro de 1902, quando conheceu Lênin e sua esposa Nadezhda. Em Londres Trotsky conheceu também Natalya Sedova que, como ele, era oriunda de uma respeitada família da Ucrânia; dois anos mais tarde, em Berlin, passaram a viver juntos como marido e mulher.

Trotsky permaneceu no exílio, mudando de um lugar para outro até a época de retornar à Rússia. Após ter sido expulso da Espanha em 1916, ele se encontrava em Nova Iorque com Natália e os dois filhos Sergei e Leva, onde fazia palestras para auditórios lotados nos sindicatos laborais. Ele ainda estava lá em janeiro de 1917 quando ocorreu a Revolução de Fevereiro que depôs o Czar e instalou o Governo Provisório. Trotsky imediatamente providenciou documentos de viagem junto ao consulado Russo e em 27 de março embarcou com a família de volta à Rússia. Cerca de trezentas pessoas foram se despedir dele no cais do porto levando bandeirolas e flores e alguns revolucionários americanos compraram passagens no mesmo navio. Entretanto, quando o navio em que viajava parou para apanhar novos passageiros no porto de Halifax, no Canadá, as autoridades canadenses (sob o domínio britânico) apreenderam Trotsky e outros membros da comitiva. Levou diversos dias até que a soltura de Trotsky fosse conseguida pelo Governo Provisório russo, permitindo que Trotsky e a sua família continuasse sua viagem num outro navio.

Embora Trotsky tivesse permanecido em cima do muro durante a briga entre as facções bolchevistas e menchevistas do Partido, ao chegar a Petrogrado em 1917 optou por apoiar os bolchevistas revolucionários liderados por Lênin para depor o Governo Provisório. Para Trotsky nenhum preço humano era grande demais para essa causa e no interesse de uma revolução mundial ele chegou a contemplar o sacrifício em massa dos trabalhadores e lavradores russos. Logo depois da revolução Trotsky ocupou o cargo de comandante do Exército Vermelho (1917-18) e de Comissário para assuntos da marinha e exército (1918-24), e participou ativamente da fundação do Comitê Executivo da Internacional Comunista, também conhecido como Comintern ou Komintern, cuja missão era coordenar e dirigir o movimento comunista em todo o mundo.

Depois da morte de Lênin, Trotsy escreveu um artigo criticando Stalin e afirmando que este tinha ‘finalmente lançado sua candidatura a coveiro do partido e da revolução’ o que resultou na reprimenda que recebeu do Comitê Central do Partido. Cansado de perder causas no Politburo e no Comitê Central do Partido, Trotsky acusou Stalin de ter encoberto o testamento político de Lênin, e desafiou-o a que revelasse o mesmo ao partido. A acusação fez com que Trotsky passasse a ser inimigo definitivo de Stalin e em 1927 Trotsky foi expulso da facção conhecida como Oposição Unida e do Politburo. Foi-lhe oferecido um emprego no planejamento do trabalho econômico na longínqua localidade de Astrakhan, na Ucrânia, mas Trotsky declinou em aceitar tal cargo e afirmou que preferia o exílio. Em 16 de fevereiro de 1928, sem aviso prévio, Trotsky, juntamente com a esposa Natalya e o filho caçula Lëva, então com 20 anos, e seu assistente Igor Poznanski, foram escoltados para Alma-Ata, no Kazakistão, numa viajem que levou nove dias. Como Trotsky continuasse a escrever matérias criticando o Politburo e o Comitê Central, em 20 de janeiro de 1929, com Stalin já no comando do governo, Trotsky foi expulso de vez da União Soviética. Após ter conseguido asilo político da Turquia, Trotsky e a família foram para lá, chegando a Istanbul em 22 de fevereiro. Na Turquia Trotsky usou o nome de Lev Davidovich Dedov. Por insistir em continuar criticando o governo soviético, em 20 de fevereiro de 1932 Trotsky teve sua cidadania soviética cancelada, e passou para a condição de indivíduo sem estado. Em 1935 Trotsky e a esposa foram para a França onde passaram algum tempo e em seguida foram para a Escandinávia.

Mesmo destituído de sua cidadania russa, Trotsky foi acusado pelo regime soviético de participar de uma conspiração terrorista internacional, julgado à revelia e condenado à morte em 24 de agosto de 1936. Quando essa sentença foi dada, Trotsky se encontrava na Noruega, cujo governo colocou-o sob prisão domiciliar e contemplava extraditá-lo para a União Soviética, quando ele recebeu asilo político do governo mexicano, graças à intervenção de seu amigo, o pintor Diego Rivera. O asilo político vinha com a condição de que Trotsky não se imiscuísse na política mexicana. Trotsky e sua família embarcaram para o México no cargueiro de petróleo Ruth, em 20 de dezembro de 1936. O navio aportou em Tampico em 9 de janeiro de 1937, e de lá os Trotsky tomaram um trem rumo à cidade do México, a bordo do qual havia diversos jornalistas e a pintora Frieda Kahlo, companheira de seu amigo Diego Rivera, que não pode ir por estar doente. Chegando à cidade do México, o cortejo se dirigiu para Coyoacán, hospedando-se inicialmente na casa azul de Frieda Kahlo. Uma vez assentado no México, Trotsky se movimentou para organizar a Quarta Internacional cujo objetivo era substituir a Terceira Internacional. Entretanto, a Quarta Internacional não obteve o sucesso esperado embora tivesse aprofundado o racha do movimento comunista internacional. Trotsky já havia sofrido diversas tentativas de assassinato, a mando de Stalin. Na tarde do dia 20 de agosto de 1940, Trotsky aceitou receber o namorado de sua secretária Sylvia Ageloff, um indivíduo que conhecia apenas pelo nome de ‘Jacson’, o qual havia pedido conselhos sobre um artigo que desejava publicar. O tal ‘Jacson’, cujo verdadeiro nome era Ramón Mercader, era um agente soviético cubano. Ao entrar na casa de Trotsky, trazia escondida uma picareta de alpinismo no gelo com a qual desfechou um forte golpe no crânio de Trotsky, que contra-atacou o agressor mordendo-lhe a mão antes de desfalecer. Trotsky foi levado para o hospital, mas faleceu no dia seguinte.

Trotsky teve um enterro de herói e mesmo depois de morto continuou a influenciar o socialismo em toda a América Latina. O presidente Mikhail Gorbachëv restaurou o status de Trotsky em Moscou e este passou a ser visto como uma das vítimas de Stalin.

Reputações e realidade
Dentro da característica humana de ‘querer melhorar o mundo’ há duas distintas predisposições, uma revolucionária e outra reformista. A predisposição revolucionária difere da predisposição reformista pelo fato de aceitar a violência como meio de se chegar ao fim desejado, e inclui valores totalmente alheios ao humanitarismo. Tal comprometimento cego com o fim faz da predisposição revolucionária um distúrbio de personalidade. Como mostra a psicologia, os distúrbios de personalidade são invariavelmente complexos, isto é, tendem a vir acompanhados de outros distúrbios. A predisposição revolucionária era denominador comum de Lênin, Stalin e Trotsky. Esta foi alimentada pelo Marxismo, doutrina que passou a dominar no meio intelectual da Rússia desde a década de 1890, apesar de que a Rússia daquela época, e mesmo a das duas primeiras décadas do início do século vinte, tinha uma economia medieval, bem diferente do sistema capitalista que segundo Marx incitaria a revolução dos trabalhadores. As três biografias estão lotadas de exemplos de comportamentos que evidenciam valores marginais e distúrbios psicológicos.

Dentre os três líderes revolucionários soviéticos, Trotsky era o que preenchia todos os quadrinhos das características esperadas de um líder. Além de inteligentíssimo e muito bem preparado, ele era bem apessoado, e talvez até bonito, com suas fartas madeixas, lábios espessos e olhos azuis. O apelido de Trotsky de ‘A Caneta’ refletia a sua capacidade de escrever bem mesmo nas piores condições. Até quando ele ditava, conseguia produzir frases completas e perfeitamente corretas logo na primeira tentativa. Trotsky enxergava longe o que os outros não eram capazes de enxergar nem de perto. O grupo de seguidores de Trotsky julgou, erradamente, que o Partido iria valorizar a sua capacidade de analisar as possíveis repercussões das proposições políticas do novo governo, colocando-se à ‘esquerda’ do Partido e dentro da chamada ‘Oposição Unida’. Entretanto, os outros membros da ‘Oposição Unida’ se enfureceram por Trotsky falar em nome deles e os membros do Comitê Central, especialmente Stalin, tomavam as críticas como ataques pessoais. A inépcia social de Trotsky e seu temperamento impaciente, teimoso e explosivo não só criou-lhe inimigos, mas também o alienou perante os amigos.

O fato de Lênin ter morrido ainda relativamente jovem, aos 53 anos de idade, somado à propaganda criada em torno de sua pessoa, fez dele um ícone do bolchevismo. Quando em 1956, Khruschëv resolveu levantar a questão dos abusos do governo de Stalin, denunciando-o como o monstro que mandou milhares à morte e rompeu a tradição criada por Lênin, tudo o que conseguiu foi fazer com que Lênin ganhasse a fama de santo. Movimentos comunistas de todo o mundo aproveitaram para mostrar que os ideais bolchevistas ainda podiam ser resgatados, bastando que o Marxismo-Leninismo fosse reimplantado. Mas, conforme mostrou Service, Lênin não era nenhum santo. Segundo ele, a frieza de Lênin para com o sofrimento humano era colossal. Ele não se moveu com a fome de 1891-2 que assolou a bacia do Volga, ou com as enormes fatalidades da Guerra Sino-Russa de 1904-5 e durante a Primeira Guerra Mundial, Lênin não só torceu pela vitória alemã, por achar que a mesma era mais favorável à revolução dos trabalhadores, mas também passou a desejar uma guerra civil que se estendesse por toda a Europa. Service também mostra como Lênin forçou o Marxismo para o tipo de revolução que ele desejava, dividindo os socialistas tanto da Rússia quanto da Europa em campos antagônicos. Dono de uma mente brilhante e tendo tido amplas oportunidades educacionais, Lênin falhou em canalizá-las para aumentar a sua compreensão da cultura humana e escolheu ignorar os pensadores importantes de seu tempo que sublinhavam as virtudes da individualidade, como Max Weber, Robert Michels, Gaetano Mosca e Gustave le Bon. Julgando-se um ‘escolhido’ para a missão de fazer a revolução dos trabalhadores, Lênin limitou a sua literatura àquelas que eram condizentes com suas teorias preferidas, e procurava não deixar que nada atrapalhasse a sua trajetória revolucionária.

No tocante a Stalin, a imagem mais comum que permaneceu é a de que ele não passava de um burocrata medíocre que, tendo ascendido ao poder pelas maquinações políticas, lá permaneceu pela frieza e crueldade com que eliminou todos os seus inimigos. A imagem de Stalin como sendo de inteligência medíocre deveu-se à comparação com Trotsky, cuja genialidade era comparável à de Winston Churchill. Service mostra que quaisquer dos líderes revolucionários pareceriam intelectualmente limitados se comparados com Trotsky. A única exceção foi Plekanov, que percebeu a superioridade de Trotsky e arranjou diversas desculpas para que o rival fosse mantido à distância. De fato, a percepção da inteligência de Stalin requer levar em conta não só o ambiente social onde cresceu e as oportunidades educacionais que teve, mas também as soluções que o mesmo encontrou para vencer os preconceitos que teve de enfrentar contra a origem humilde, a violência familiar, a educação incompleta, a etnia um tanto oriental e o fato de ser natural da Georgia e não da Rússia. Embora pela lógica essas questões não sejam imputáveis ao indivíduo, a realidade costuma ser diferente e injusta. Isso explica porque Stalin não só procurou encobrir os pormenores de sua infância, mas chegou a sanear da sua memória os maus tratos recebidos do seu pai. Procurando corrigir as distorções em torno da imagem de Stalin, Service descreve situações que evidenciam o contrário, mostrando que Stalin também foi um intelectual, um administrador, um estadista e um líder partidário e que sabia ser modesto e charmoso, o que não significa negar que ele tenha sido o frio assassino responsável pela morte de quase três milhões de pessoas.

Quando Service escreveu a sua trilogia, Trotsky era o único cuja imagem continuava no panteão dos heróis benignos da história, onde fora colocado depois do seu assassinato em 1940. Service procura corrigir mais essa distorção, mostrando que as intenções e os atos de Trotsky não eram dissimilares àqueles de Stalin. Em outras palavras, aquilo que Trotsky defendeu depois de sua queda do poder não bate com os seus atos no período em que ocupou o poder: as execuções sumárias de soldados, seu autoritarismo em querer controlar até as coisas mais triviais como consumir bebida e jogar pontas de cigarro no chão, e a maneira cruel como ele costumava esmagar a oposição tanto no partido quanto nos sindicatos laborais. Para Service, a estratégica alternativa do socialismo humanitário de Trotsky era inteiramente implausível. Quanto ao argumento de que Trotsky foi o único dos três a dar alguma importância às artes, Service mostra que, embora Trotsky propalasse que todas as pessoas da sociedade deveriam se beneficiar da alta cultura, ele não era nada liberal com a cultura, tendo defendido a censura do estado e a perseguição de intelectuais anti-Bolcheviques. Se tivesse se tornado ditador, Trotsky possivelmente teria se portado da mesma forma como Lênin e Stalin.

A trilogia de Robert Service mostrou as imagens públicas e privadas de Lênin, Stalin e Trotsky e procurou corrigir algumas distorções com base na evidência por ele levantada. A inteligência convencional de Trotsky beirava a genialidade, especialmente na comunicação, embora a sua inteligência emocional fosse inferior à dos companheiros Lênin e Stalin. Na época de Lênin, Stalin e Trotsky ainda não havia o tribunal internacional de justiça, mas, se houvesse, nenhum dos três poderia alegar incapacitação mental para se desculpar de seus crimes, pois, apesar de serem socialmente mal ajustados, eles não tinham distúrbios severos de comportamento. Embora Stalin tivesse excedido os demais nos crimes cometidos, Lênin e Trotsky também cometeram crimes contra a humanidade.

Num comentário paralelo, Service procurou mostrar o erro de representar tipos como Stalin, Hitler, Mao Tse-tung e Pol Pot como monstros, pois tal representação tende a separar os vilões de nós mesmos, acobertando o fato de que a violência é uma característica humana escondida sob o verniz da civilização. Se para Lênin, Stalin e Trotsky resta somente a justiça da própria história, para nós, os vivos, as suas biografias estão repletas de lições importantes, como a necessidade de refletir mais antes de nos atirar nas ondas da moda ou sancionar sentenças contra quem quer que seja.

Citação:
SERVICE, R. Lenin. London, Pan Books, 2010, ISBN 978-1-447-20184-7; Stalin. London, Pan Books, 2010, ISBN 978-0-330-51837-6; Trotsky. London, Pan Books, 2010, ISBN 978-1-447-20186-1. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). Novas e fiáveis biografias de Lênin, Stalin e Trotsky. PortVitoria, UK, v. 4, Jan-Jun, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do Livro Biografia – José Saramago de João Marques Lopes. Guerra e Paz, Editores S.A. e Edições Pluma Unipessoal, Ltda. 2009. ISBN 978-989-8174-52-9

Conforme mostra a presente biografia, José Saramago nasceu em 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, no concelho ribatejano de Golegã. Seu pai, José de Souza, trabalhava como jornaleiro, e sua mãe, Maria da Piedade, cuidava do lar. A pobreza de família de Saramago afetou o jovem em diversas maneiras, a começar pela a sua identidade. Para evitar a multa pelo atraso no registro de nascimento desse seu segundo filho, o pai informou o dia 18 de Novembro como sendo a data do nascimento. O escrivão do cartório, que estava sob a influência do álcool na ocasião do registro, decidiu por conta própria acrescentar o nome ‘Saramago’ à certidão de nascimento da criança. O analfabetismo da mãe possivelmente a impediu de confrontar as faltas tanto do marido quanto do escrivão do registro civil. A pobreza da família imporia ao jovem outras dificuldades, como a privação do carinho materno, após a morte prematura do irmão mais velho, e o estreitamento das suas opções escolares.

Em 1923 o pai de Saramago arranjou um emprego na Polícia de Segurança Pública de Lisboa, para onde família mudou-se no ano seguinte. Os anos formativos de Saramago foram marcados pela insegurança social da sua família, refletida nas constantes mudanças de moradia, a qual quase sempre era compartilhada com terceiros. Ter conseguido terminar a escolaridade básica já foi por si um marco de sucesso do jovem, levando-se em conta os indicadores educativos da época. Após o ensino fundamental, Saramago matriculou-se no Liceu Gil Vicente, mas devido ao elevado custo das mensalidades, após os dois primeiros anos letivos ele deixou o liceu para ingressar na escola técnica, onde obteve a qualificação de serralheiro mecânico.

A epifania literária de Saramago se deu aos dezesseis anos de idade, quando ele descobriu nas bibliotecas públicas ‘a possibilidade de desenvolver autodidaticamente a sua formação para além da mera aprendizagem escolar’. Saramago foi um autodidata que se aventurou na literatura sem nenhuma orientação formal ou informal. Quando era ainda um neófito, ele se apaixonou pela poesia de Ricardo Reis antes de saber que o mesmo era um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Ele também desconhecia o neo-realismo da ficção portuguesa da década de quarenta bem como os textos da literatura marxista. De leitor assíduo Saramago passou a escrever poesias. Quando tinha 24 anos de idade ele datilografou quarenta e quatro poemas seus, que ainda estão inéditos e preservados no seu arquivo. Em 1947 nasceu a sua primeira e única filha, Violante, fruto do seu casamento com Ilda Reis, sua primeira esposa. Nesse mesmo ano ele publicou o seu primeiro livro, A terra do pecado, embora a publicação, pela Editorial Minerva, tivesse sido condicionada à renúncia do direito autoral.

A militância de esquerda de Saramago foi um processo que também começou a partir de uma epifania ocorrida quando Saramago tinha apenas dezenove anos de idade e trabalhava como serralheiro mecânico das oficinas dos Hospitais Civis de Lisboa. De acordo com seu biógrafo, Saramago encontrava-se a comer a sua marmita, juntamente com outros colegas, quando todos os presentes com exceção dele próprio, se puseram de pé em sinal de respeito à entrada inesperada do chefe acompanhado de um visitante, que entraram e saíram do pressinto sem ao menos reconhecer as suas presenças. A epifania de Saramago foi a conscientização da sua condição como integrante do segmento menos favorecido da sociedade. Tal conscientização social, por sua vez, serviria de base para a sua conscientização política que seria formada alguns anos depois. Um importante elo nesse processo foi a revista Seara Nova, então a circular na clandestinidade.

A publicação do primeiro livro foi uma enorme injeção de ânimo para Saramago, o que ficou refletido nos romances, contos, peças de teatro e poemas que escreveu entre 1947 e 1953. Os seus contos começaram a aparecer nos importantes jornais e revistas da época. Nessa altura, Saramago escrevia sempre nas suas horas vagas, já que ainda dependia do emprego diurno para sustentar sua família. Seu segundo livro, Clarabóia, foi submetido à Empresa Nacional de Publicidade em 1953, a qual sequer se dignou a dar uma resposta ao autor.

Depois de ter passado algum tempo trabalhando para os Hospitais Civis de Lisboa, primeiro como serralheiro mecânico e depois como auxiliar administrativo, Saramago continuou a trabalhar em funções de cunho burocrata. Segundo seu biógrafo Saramago foi um empregado assíduo, pontual e rigoroso, e que não deixou que a sua atividade criativa atrapalhasse o seu desempenho no trabalho. Foi nessa época que Saramago tomou conhecimento da revista Seara Nova, controlada por um grupo de intelectuais que se opunham ao regime fascista e ditatorial de Oliveira Salazar. Foi também nessa época que Saramago definiu a própria posição contrária ao regime salazarista, entretanto, sem se expor às represálias que eram comuns no mesmo regime.

Embora Saramago tenha sido um jovem bastante tímido, aos poucos ele conseguiu vencer a timidez, e passou a se entrosar com um grupo de amigos que costumavam se reunir no Café Chiado. Foi ali que Saramago travou amizade com o crítico musical Humberto d’Ávila, através do qual ele conheceu os escritores antifascistas que também costumavam se reunir no mesmo café. Tais contatos abriram as portas de um emprego, em 1955, como produtor de livros na Editorial Estúdios Cor. Como tal emprego era em regime de tempo parcial, Saramago manteve o emprego normal numa seguradora. Nesse mesmo ano, Saramago também iniciou a trabalhar como tradutor, traduzindo livros do francês para o português. Apenas em 1959, após ter sido promovido a diretor literário da mesma editora, é que Saramago deixou o emprego na seguradora, permanecendo no posto até 1971. Uma vez estabelecido como editor e tradutor Saramago também se empenhou na própria produção literária. E o resto, é história.

A opção de Saramago pelo socialismo marxista-leninista e a sua atuação junto ao Partido Comunista de Portugal (PCP), ao qual ele se afiliou em 1969, é a parte menos conhecida da sua vida, a qual, só pode ser entendida dentro do cenário político de Portugal.

Num breve repasso, o período de 1932 a 1974 foi dominado pelo salazarismo, ditadura fascista imposta por Antônio de Oliveira Salazar, e, após o afastamento deste último por motivo de saúde, em 1968, continuada pelo ex-ministro Marcelo Caetano. Em 25 de Abril de 1974, um golpe das forças armadas que ficou conhecido como Revolução dos Cravos, põe fim ao salazarismo e forma uma junta governamental de sete membros, comandada pelo general António de Spínola. Entretanto, em 1974/1975, o golpe militar foi apropriado pelas forças populares de movimentação social e política, instigadas pelo PCP, as quais se tornaram conhecida pela sigla PREC – Processo Revolucionário em Curso. De Abril de 1974 a Agosto de 1975 Portugal viveu o período conhecido como ‘gonçalvismo’, assim chamado pelo fato dos Governos Provisórios II, III, IV e V terem sido dominados pelo governo de extrema-esquerda do Primeiro Ministro provisório Vasco Gonçalves, caracterizado pelas nacionalizações e expropriações bem como por ter permitido prisões e perseguições arbitrárias. Entretanto, em Setembro de 1975 este último foi afastado por pressão do exército, e substituído pelo governo provisório, encarregado de produzir a nova Constituição. Nas eleições de Abril de 1976, o Partido Socialista (PS) ganhou a maioria dos lugares, fazendo do seu líder, Mário Soares, o novo primeiro-ministro. O Partido Social-Democrata (PSD), fundado em Maio de 1974, após dividir o poder com o PS de 1983 a 1985, ganhou o poder inteiro após vencer as eleições de 1985.

Durante o salazarismo Saramago sentiu o peso da censura sobre os textos que costumava enviar para jornais e revistas. Findo o mesmo, em 1974, Saramago foi nomeado diretor adjunto do Diário de Notícias (DN), um dos principais jornais portugueses, embora apenas sete meses depois ele seria demitido do cargo sob a acusação (infundada) de ‘gonçalvismo’, ou seja, de colocar o DN a serviço do PCP. O último embate entre Saramago e o governo deu-se em 1991, quando Portugal já era considerado uma democracia plena. Neste ano Saramago havia publicado o seu livro mais famoso, O Evangelho Segundo Jesus Cristo. O que ocorreu foi que o governo do PSD, através da sua Secretaria de Estado da Cultura, tomou uma decisão nada democrática de vetar a candidatura do romance de Saramago para o Prêmio Literário Europeu, por julgar o mesmo ofensivo para a população católica portuguesa.

Conforme sublinhou seu biógrafo, a afiliação de Saramago ao PCP não significou o apoio irrestrito deste ao partido. Por exemplo, ele posicionou-se contra o golpe de Agosto de 1991 em Moscou e desaprovou o fuzilamento dos dissidentes cubanos em 2003. Apesar de ter opiniões muitas vezes contestadas pelo PCP Saramago permaneceu fiel ao partido. Um exemplo disso é a sua visão de que as recriminações contra os regimes autoritários do Leste deviam-se aos exageros e falsidades da propaganda ocidental. Como articulista Saramago soube aproveitar a visibilidade que lhe acresceu o Nobel para explorar a mídia a que levantasse seus temas, muitos dos quais cercados de polêmica.

Saramago tinha uma grande desconfiança da União Européia e defendia a alternativa da integração econômica da Península Ibérica, conhecida como ‘iberismo’, o que o levou a ser acusado de ‘favorecer a descaracterização da soberania e da identidade nacionais’. Em 2002 Saramago envolveu-se numa polêmica em torno da questão da Palestina, quando ele comparou a ocupação militar do Exército israelita a Auschwitz. A crítica mais contundente que recebeu veio do seu colega, o escritor Amós Oz, para quem injustiça da ocupação não significava que uma coisa fosse comparável à outra.

A presente biografia de José Saramago é a quarta de João Marques Lopes, que também biografou Almeida Garrett, Eça de Queirós e Fernando Pessoa. Trata-se de um apanhado honesto da vida de Saramago e da sua prodigiosa produção literária, numa interessante e coerente narrativa. O livro é dividido em dez capítulos acompanhados de uma sinopse cronológica da vida de Saramago bem como de relação das suas principais obras. Através de eventos triviais ou não da vida de Saramago, Lopes vai revelando o perfil do homem, deixando transparecer a sua determinação, seu autodidatismo, seu crescimento intelectual, sua militância de esquerda e por fim a sua rica obra literária. Esta é uma biografia que vale a pena ler e ter como referência.
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Citação:
LOPES, J. M. Biografia – José Saramago. Guerra e Paz e Edições Pluma Unipessoal, 2009. ISBN 978-989-8174-52-9. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2011). Saramago, o bravo autodidata das letras. PortVitoria, UK, v. 2, Jan-Jun, 2011. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com