Débora P. Finamore

Resenha do livro A lentidão, de Milan Kundera. Tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira e Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo, Companhia do Bolso, 2011.

Milan Kundera, autor tcheco nascido em 1929, vive na França desde 1975. É conhecido por romances nos quais reflete sobre as decepções das relações humanas. A insustentável leveza do ser (1983), sua obra mais famosa, narra os encontros e desencontros de quatro personagens, durante duas décadas.

Kundera adquiriu a cidadania francesa em 1980, contudo, somente em 1995, escreveu seu primeiro livro em francês. Trata-se de A lentidão (Cia da Letras, 2011), novela composta por 51 capítulos breves, e densos, nos quais um narrador-personagem – que logo revela ser, também, um narrador intruso – relata duas histórias paralelas e faz digressões filosóficas a partir das mesmas.

A primeira se passa no século XX, em um castelo francês, transformado num luxuoso hotel, que, naquele momento, além de receber hóspedes como o narrador (o próprio Kundera) e sua mulher, sedia um congresso de entomologia que nos levará aos outros personagens: um intelectual, um político, um cientista tcheco, uma jornalista, um cameraman, uma recepcionista, entre outros. A segunda se passa no século XVIII, no mesmo castelo francês, quando este era a moradia de Madame de T. e de seu marido. E, trata-se, na verdade, de uma paráfrase do conto de Vivant Denon (1747-1825), Point de lendemain, que conta com apenas mais dois outros personagens: o marquês, amante de Madame de T., e o falso amante desta.

A maestria técnica de Milan Kundera nessa novela filosófica, escrita à moda de Voltaire e de outros iluministas, se revela tanto no conteúdo quanto na forma.

Em termos conteudísticos, afora o enredo das duas tramas em si, chamam a atenção as digressões que pontuam a novela, desde o primeiro capítulo, quando o narrador-personagem, acompanhado por Vera, sua mulher, está dirigindo em uma estrada que os levará ao castelo. Percebendo, atrás deles, um motorista que acelera e parece irritado por não conseguir ultrapassá-los, Vera inicia um diálogo com o marido sobre o comportamento deste tipo de motorista. Esta é a deixa de que o narrador precisa para iniciar as divagações filosóficas sobre lentidão e velocidade que desenvolverá, no decorrer do livro, a fim de compreender como a noção de tempo se transformou na sociedade pós-moderna em que vivemos. Confira:

“A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem. (…) Curiosa aliança: a fria impessoalidade da técnica e as chamas do êxtase.” (p. 8)

“Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. (…) o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.” (p. 30-1)

“(…) nossa época se entrega ao demônio da velocidade e é por essa razão que se esquece tão facilmente de si mesma. Ou prefiro inverter essa afirmação e dizer: nossa época está obcecada pelo desejo do esquecimento e é para saciar esse desejo que se entrega ao demônio da velocidade (…)” (p. 91-2)

Esse narrador intruso vai permear as cenas – cômicas, estapafúrdias, eróticas – de sua novela com reflexões sobre a qualidade das relações humanas estabelecidas pelo ritmo que nos impõe a sociedade midiática em que vivemos. Ora se vale do pensamento de Epicuro para pensar o hedonismo ou do de Sade para tratar de limites, ora se vale de seus personagens para expor a mídia contemporânea como um não-espaço para velhos e como um espaço para crianças e “dançarinos”, os exibicionistas da vida pública. Para fazer essa nova abordagem da sociedade do espetáculo, delineada por Guy Debord, em 1967, Kundera traz o conto de Vivant Denon, a fim de comparar o público do século XVIII – restrito e visível – com o público do século XX – irrestrito e invisível –, bem como para caracterizar o espetáculo exibido a este público: no século XVIII, um espetáculo formal e vagaroso; no século XX, um espetáculo “espontâneo” e fugaz.

Em termos formais, as duas tramas envolvem o leitor no paralelismo estabelecido entre os amores, paradoxalmente satisfeitos e frustrados, dos personagens dos séculos XX e XVIII. O leitor arguto também se deleita com o cumprimento da regra das três unidades aristotélicas: ação, tempo e espaço. Ambas as histórias se passam num único espaço – no castelo francês; no decorrer de um só tempo – um dia apenas; em torno de uma única ação – no século XX, Vincent conhece, ama e perde Julie; e, no século XVIII, Madame de T. seduz, ama e rompe com seu falso amante. Kundera também lança mão de três outros artifícios formais que encantam o leitor: a representação da mescla entre realidade e ficção; a circularidade narrativa; e a interpenetração das tramas. A mescla entre ‘real’ e ficcional se dá no capítulo em que Vera, acorda sobressaltada com o som da Nona Sinfonia de Beethoven que Kundera (narrador, personagem e autor) havia, apenas, imaginado como trilha sonora para uma cena da novela A lentidão. A circularidade ocorre, visto que a história de Kundera e de Denon se iniciam e se findam no mesmo momento narrativo: a chegada e a partida dos amantes do castelo. A interpenetração das tramas se dá no final das narrativas, quando, por um breve momento, Vincent e o falso amante se encontram e, num arremedo de diálogo, falham nos seus desejos de narrar suas experiências amorosas daquela noite – intensas, mas frustradas.

Mesmo em francês, o tcheco Milan Kundera ainda reflete sobre as decepções das relações humanas; das decepções dos seres humanos entre si e das decepções dos seres humanos com seu tempo.


Débora P. Finamore é colaboradora e membro do conselho editorial de PortVitoria.

Nota. A presente resenha publicada originalmente no Caderno de ideias, blog do Instituto Cultural Freud (https://icfcaderno.wordpress.com/category/suplementoliterario/).

Norman Berdichevsky

Reseña del libro El hombre razonable y otros ensayos de Joaquina Pires-O’Brien. Beccles, UK, KDP, 2016. Disponible en Amazon.com.

El anuncio de la adopción de la nueva palabra post-truth (posverdad) por los autores del diccionario Oxford, en el 16 de noviembre de 2016, llegó días después de la publicación de O homem razoável e outros ensaios, un e-book en portugués y ya traducido para el español (El hombre razonable y otros ensayos) – una colección de 23 ensayos sobre algunos de los más definitorios, y controvertidos, aspectos de la civilización occidental. La proximidad de los dos eventos muestra que la autora es de hecho bien sintonizada con la civilización occidental y sus problemas. Uno de los ensayos de este libro se ocupa específicamente del posmodernismo, la doctrina o mentalidad da cual que la palabra post-truth se originó. Además del posmodernismo, este libro abarca otros temas de actualidad como la educación liberal, las dos culturas (la división entre la ciencia y las artes y las humanidades) y el 9/11, así como algunos temas atemporales como la utopía, el amor, y el apego humano a los mitos. La autora, Jo Pires-O’Brien, una brasileña residente en el Reino Unido, es la editora de PortVitoria, periódico en línea, bianual, sobre actualidades, cultura y política, centrado en la cultura ibérica y su diáspora, cuyos artículos son publicados en español, portugués e inglés.

El ensayo con el tema más difícil de se entender – en cualquier idioma – es precisamente lo que habla del posmodernismo, el cual es descrito través de su fascinación con el concepto de ‘narrativas’; es decir, donde muchos hacen de los medios de comunicación un juguete – una actitud escéptica o desconfianza en relación a las ideologías y los diversos principios del pensamiento racional, incluyendo la existencia de una realidad objetiva, de la verdad, y de las nociones de progreso que existen – el posmodernismo afirma que el conocimiento y la verdad son productos de los sistemas históricos y sociales y de la interpretación política. La preocupación da autora con el postmodernismo de la amenaza no es sin justificación. El término post-truth, – adoptado en 2016 por los autores del diccionario Oxford – capta la idea posmodernista de que ‘no hay hechos, hay interpretaciones’. Si no hay hechos, entonces la ciencia y otros elementos de la moderna Civilización Occidental, como el canon literario, son irrelevantes.

El título del libro fue tomado del primero ensayo, que se ocupa del hipotético ‘hombre razonable’ (reasonable man), conservado en el derecho civil y contractual en Gran Bretaña y en los Estados Unidos, pero sin una definición precisa. Tal ‘hombre razonable’ – sin el artículo definido que aparece en las versiones en portugués y español – o ‘el hombre en el ómnibus de Clapham’ en el folklore británico, es una persona dotada de sentido común y cuya opinión es tomada como la opinión pública, y por eso, valorada en muchos casos particulares, como en la definición de cómo alguien debe comportarse (en términos de acción o inacción) en relación con otro en situaciones de amenaza. No hay necesidad de establecer una intención maliciosa, y es esperado que dicha persona ficticia pueda cometer ‘errores razonables’ de acuerdo con las circunstancias, siendo, por lo tanto, una cuestión de la ética. Hay, efectivamente, mucho alimento de reflexión acerca de cuanto de los sistemas legales del Occidente, os cuales, sobre todo en los países anglosajones, decoren de alguna tradición distinta. A partir del ensayo aprendemos que el concepto del hombre razonable se extiende a la Antigüedad, al concepto de ‘phronēsis’ o ‘sabiduría práctica’ de los antiguos griegos. Para Sócrates, ‘phronēsis’ (frónesis) era la capacidad de discernir cómo y por qué alguien debe actuar virtuosamente, mientras que Aristóteles, – y en la víspera de la edad moderna, Spinoza, – lo definió como la capacidad de pensar lógicamente. La calidad de una sociedad depende de su riqueza humana, medida por la proporción de ciudadanos razonables. El tema de la ley vuelve a aparecer en otro ensayo que se ocupa del delito affray – o riña – el uso o amenaza del uso de la violencia ilegal contra otra persona para que una persona de ‘firmeza razonable’ en el tema de la escena por su propia seguridad. La etimología de la palabra affray es explicada, demostrando que proviene de una palabra en protogermánica con un radical protoindo-europeu.

Varios ensayos se ocupan de pensadores influyentes como Friedrich Hayek, Jacques Jean-Jacques Rousseau, Thomas Hobbes, Elias Canetti, Stefan Zweig y George Orwell. El ensayo titulado ‘El filósofo de la libertad’ habla de Hayek, notoriamente desaventajado por los críticos de izquierda de las sociedades opulentas modernos y sus políticas económicas. Hayek fue uno de los pocos que no perdió la fe en el capitalismo el día siguiente al viernes negro de noviembre de 1929. En Camino de servidumbre (1944), que se convirtió en un éxito de ventas, Hayek explicó los malentendidos sobre el sistema económico del capitalismo y destacó el valor de la libertad de cada uno de usar su propia iniciativa empresarial y sus habilidades para progresar y, sobre todo, afirmó que la democracia no era un valor final, sino un medio para alcanzar la libertad. Los fundamentos de la libertad es otro gran libro de Hayek, aunque no ha sido un éxito de ventas. Hayek fue muy admirado por la primera ministra Margaret Thatcher, que una vez llevó el libro Los fundamentos de la libertad para una sesión en el Parlamento y golpeó el mismo contra la caja de despacho en cuanto dijo: “Esto es lo que creemos”. Otra personalidad que evidencio es George Orwell (Eric Blair), autor de 1984 y Sin blanca en París y Londres, el cual es cubierto en dos ensayos; un que da un resumen crítico acerca de la vida de Orwell y otro que describe las poderosas metáforas contenidas en su libro 1984.

La carrera anterior de la autora en Brasil, como investigadora botánica con un doctorado en ecología forestal, se pone de manifiesto en un ensayo sobre el nefasto ‘Proyecto Floram’, un proyecto de reforestación. La autora basó su ensayo en los archivos del Instituto de Estudios Avanzados de la Universidad de São Paulo (IEA/USP) así como en su memoria personal. En este ensayo, ella muestra cómo el proyecto Floram fue concebido y explica cómo la murmuración pública inmerecida hizo con que los inversores del sector privado retirasen su apoyo. La inhibición del Proyecto Floram es sintomática de uno de los principales problemas de nuestro tiempo – el calentamiento global. Como Pires-O’Brien correctamente concluyó… “… el Proyecto Floram es un ejemplo de la eterna contienda entre lo real y lo ideal”.

Un ensayo corto, pero afilado, habla de la cultura y el relativismo cultural, trazando el nuevo significado dado à la palabra cultura por algunos antropólogos y sociólogos, y muestreando su conexión con el relativismo cultural. Los ensayos restantes se ocupan de las grandes ideas que florecieron en el Occidente y ayudaron a formar la Civilización Occidental – la Bíblia, la idea del paraíso, la utopía, el aprendizaje al longo de la vida, el amor, la mente sana en un cuerpo sano y la educación liberal –, así como tratan de los mayores retos y amenazas actuales de la Civilización Occidental: el posmodernismo y el extremismo islámico. Aunque se trata de una ecléctica colección de ensayos, hay un denominador común en su temática: la lucha de la razón contra la irracionalidad.

Por último, pero no menos importante, la autora aborda el extremismo islamita responsable de los ataques del 9/11 y el uso del yihad, como un medio para alcanzar el poder político. Esto se hace en forma de una serie de preguntas y respuestas que abordan no sólo a los perpetradores de los ataques del 9/11, sino también muchos temas relevantes a cerca de la religión islámica: la historia de los conspiradores y su motivación; la naturaleza del Corán; la rivalidad entre las sectas islámicas rivales (chiíes y suníes); el yihad; el wahabismo y el salafismo; la Hermandad Musulmana; la aspiración de un nuevo califato; las creencias de la mayoría de los musulmanes comúns que non son fundamentalistas; y, ayunque, el fracaso, la falta de cooperación y los supuestos ingenuos de las agencias de inteligencia de los Estados Unidos. Todo eso es explicado de forma clara y sin exageros.

Este es un libro para leer y volver a leer, con el fin de ayudarnos a poner en perspectiva ideas diferentes pero cruciales. Como un usuario cuyo primer idioma es el inglés y con una capacidad razonable de leer en español, encontré el texto en español bastante fácil de leer – claro, preciso y leve, tanto entretiene cuanto informa. El estilo es el tipo que captura la atención del lector y sin ‘vagar’ o ‘cansar’ como es común en casos de textos similares, que abarcan docenas de temas diversos y provocativos. Otro diferencial de El hombre razonable es que sus ensayos de temática variada están bien conectados.

En el momento, el libro apareció en portugués y en español, y hay una declaración en el prefacio que una traducción al inglés no está sobre la mesa: “El repertorio de los temas abordados ya es bien conocido en los países situados en el centro de la Civilización Occidental pero no en los países de la periferia. La presente recopilación tiene por objetivo contribuir a corregir esa distorsión.” Aunque esto es probablemente cierto, creo que, mismo en la lengua inglesa, hay un espacio en la literatura para una análisis concisa y clara como esta, que reflecte acerca de las ideas que formaron la Civilización Occidental y acerca de aquellas que son una amenaza à misma. Tengo una profunda esperanza de que una edición en inglés ocupe de pronto esto espacio. Este es un libro valioso que debería ser una lectura obligatoria para los estudiantes que están a entrar en la universidad para estudiar historia, filosofía, ciencias sociales y relaciones internacionales.

                                                                                                                                               

Dr. Norman Berdichevsky es un estadounidense especializado en geografía humana y con fuerte interés en las culturas hispánica y portuguesa. Es autor de varios libros y numerosos artículos y ensayos, y forma parte del Consejo Editorial de PortVitoria.

Norman Berdichevsky

Resenha do livro O homem razoável e outros ensaios (El hombre razonable y otros ensayos) de Joaquina Pires-O’Brien. Beccles, UK, KDP, 2016. Disponível na Amazon.com.

O anúncio da adoção da nova palavra post-truth (pós-verdade) pelos autores do dicionário Oxford, em 16 de novembro de 2016, chegou dias depois da publicação de um e-book em português chamado O homem razoável e outros ensaios, já traduzido para o espanhol (El hombre razonable y otros ensayos) – uma coleção de 23 ensaios sobre alguns dos mais definidores, e controversos, aspectos da Civilização Ocidental. A proximidade dos dois eventos mostra que a autora é deveras bem sintonizada com a Civilização Ocidental e os seus problemas. Um dos ensaios desse livro trata especificamente do pós-modernismo, a doutrina ou mentalidade da qual a palavra post-truth se originou. Além do pós-modernismo, esse livro cobre outros temas contemporâneos como a educação liberal, as duas culturas (o racha entre a ciência e as artes e humanidades) e o 9/11, assim como alguns temas atemporais como a utopia, o amor e o apego humano aos mitos. A autora, Jo Pires-O’Brien, uma brasileira residente no Reino Unido, é editora de PortVitoria, revista online, bianual, sobre atualidades, cultura e política, centrada na cultura ibérica e sua diáspora, cujos artigos são publicados em espanhol, português e inglês.

O ensaio com o tema mais difícil de entender – seja lá em que língua – é precisamente o que fala do pós-modernismo, o qual é descrito através de sua fascinação com o conceito de ‘narrativas’; isto é, onde muitos fazem da mídia um brinquedo – uma atitude de ceticismo ou desconfiança no tocante a ideologias e aos diversos princípios do pensamento racional, incluindo a existência de realidade objetiva, da verdade e das noções de progresso existentes – o mesmo afirma que o conhecimento e a verdade são produtos de sistemas históricos e sociais e da interpretação política. A preocupação da autora com a ameaça do pós-modernismo não é sem justificativa. O termo post-truth adotado em 2016 pelos autores do dicionário Oxford, captura a ideia pós-modernista de que ‘não existem verdades, mas apenas interpretações’. Se não há verdade, então a ciência e outros elementos da Civilização Ocidental moderna, como o cânone literário, são irrelevantes.

O título do livro foi tirado do primeiro ensaio, o qual trata do hipotético ‘homem razoável’ (reasonable man), preservado no direito civil e na lei contratual na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, embora sem uma definição precisa. Tal ‘homem razoável’ – sem o artigo definido que aparece nas versões em português e em espanhol – ou ‘o homem no ônibus de Clapham’ no folclore britânico, representa uma pessoa dotada de bom senso e cuja opinião é tomada como sendo a opinião pública, e, por isso, valorizada em diversos casos particulares, como, por exemplo, na definição de como uma pessoa deve se portar (em termos de ação ou inação) em relação a outras em situações de ameaça. Não há necessidade de estabelecer uma intenção maliciosa, e é esperado que tal indivíduo fictício possa cometer ‘erros razoáveis’ de acordo com as circunstâncias, o que, como tal, é uma questão da ética. Há deveras muito alimento para pensar acerca de quanto dos sistemas legais do Ocidente, os quais, particularmente nos países anglo-saxões, são uma função de alguma tradição distinta. A partir do ensaio, aprendemos que o conceito do homem razoável se estende até a Antiguidade, ao conceito da phronesis ou ‘sabedoria prática’ dos antigos gregos. Para Sócrates, a phronesis era a capacidade de discernir como e porque alguém deve agir virtuosamente, enquanto que Aristóteles – e, também, já na antevéspera da Idade Moderna, Spinoza, – definiu-a como sendo a capacidade de pensar logicamente. A qualidade de uma sociedade depende de seu cabedal humano, medido pela proporção de ‘cidadãos razoáveis’. O tema da lei reaparece num outro ensaio que trata do crime de affray – ou rixa – usar ou ameaçar usar violência ilícita para com outra pessoa de tal modo que uma pessoa de ‘razoável firmeza’ presente na cena tema pela própria segurança. A etimologia da palavra affray é explicada, mostrando que vem de uma palavra em protogermânico com um radical protoindo-europeu.

Diversos ensaios tratam de pensadores influentes, tais como Friedrich Hayek, Jacques Jean-Jacques Rousseau, Thomas Hobbes, Elias Canetti, Stefan Zweig e George Orwell. O ensaio intitulado ‘O filósofo da liberdade’ fala de Hayek, notoriamente desfavorecido entre os críticos esquerdistas das sociedades afluentes modernas e suas políticas econômicas. Hayek foi um dos poucos que não perdeu a fé no capitalismo no dia seguinte ao Black Friday de novembro de 1929. Em O caminho da servidão (1944), que virou um best-seller, Hayek explicou os mal-entendidos acerca do sistema econômico do capitalismo e sublinhou o valor da liberdade de cada um de utilizar seu próprio empreendedorismo e suas habilidades para progredir, e, acima de tudo, esclareceu que democracia não era um valor final mas um meio para alcançar a liberdade. A constituição da liberdade é outro grande livro de Hayek, muito embora não tenha sido um best-seller. Hayek era altamente admirado pela primeira ministra Margaret Thatcher, que uma vez levou o livro A constituição da liberdade para uma sessão no Parlamento e bateu-o contra a caixa de despachos enquanto dizia: “É nisso que nós acreditamos”. Outra personalidade que evidencio é George Orwell (Eric Blair), autor de 1984 e Na pior em Paris e Londres, o qual é tratado em dois ensaios; um que apresenta um resumo crítico da vida de Orwell e outro que descreve as poderosas metáforas contidas no seu livro 1984.

A carreira anterior da autora no Brasil, como pesquisadora botânica com PhD em ecologia florestal, é revelada num ensaio sobre o malfadado ‘Projeto Floram’, um projeto de reflorestamento. Ela baseou este ensaio nos arquivos do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) bem como na sua memória pessoal. Nesse ensaio, ela mostra como o Projeto Floram foi concebido e explica como a maledicência pública imerecida fez com que os investidores do setor privado retirassem seu suporte. A inibição do Projeto Floram é sintomática de um dos maiores problemas do nosso tempo – o aquecimento global. Conforme Pires-O’Brien corretamente concluiu…“O Projeto Floram foi um exemplo da contenda constante entre a situação real e a ideal”.

Um ensaio curto, porém afiado, fala sobre a cultura e o relativismo cultural, traçando o novo significado conferido à palavra cultura por alguns antropólogos e sociólogos, e mostrando a sua conexão com o relativismo cultural. Os ensaios restantes tratam das grandes ideias que floresceram no Ocidente e ajudaram a formar a Civilização Ocidental – a Bíblia, a noção do paraíso, a utopia, a aprendizagem ao longo da vida, o amor, a mente sã num corpo são e a educação liberal –, bem como tratam dos seus maiores desafios e ameaças correntes à Civilização Ocidental: o pós-modernismo e o extremismo islâmico. Embora seja uma coleção eclética de ensaios, há um denominador comum na temática deles: a luta da razão contra a irracionalidade.

Por último mas não menos importante, a autora aborda o extremismo islâmico responsável pelos ataques do 9/11 e o emprego do jihad, como um meio para alcançar o poder político. Isso é feito na forma de uma série de perguntas e respostas que tratam não apenas dos perpetradores dos ataques do 9/11, como também de diversos tópicos relevantes acerca da religião do islamismo: o fundamentalismo islâmico; a história dos conspiradores e sua motivação; a natureza do Corão; as rivalidades entre as seitas islâmicas adversárias (xiitas e sunitas); o jihad; o wahhabismo e o salafismo; a Irmandade Muçulmana; a aspiração de um novo califado; as crenças da maioria dos muçulmanos comuns que não são fundamentalistas; e, ainda, a falha, a falta de cooperação e as suposições ingênuas das agências de inteligência norte-americanas. Tudo isso é explicado com clareza e sem exagero.

Este é um livro para ler e reler, a fim de nos ajudar a colocar em perspectiva ideias diversas porém cruciais. Na qualidade de resenhista cuja primeira língua é o inglês e com uma razoável capacidade de ler espanhol, achei o texto em espanhol bastante fácil de ler; claro, preciso e leve, tanto entretém quanto informa. O estilo é do tipo que cativa a atenção do leitor e que não ‘vagueia’ ou ‘cansa’ como é frequente em casos de textos similares, que abarcam dúzias de temas diversos e provocativos. Outro diferencial de O homem razoável é que seus ensaios de temática variada estão bem conectados.

Até o momento, o livro apareceu em português e em espanhol, e há uma indicação no Prefácio de que uma tradução inglesa não está na mesa: “O repertório dos temas abordados já é bem conhecido nos países situados no âmago da Civilização Ocidental, mas não nos países da periferia. A presente coletânea tem por objetivo contribuir para corrigir essa distorção”. Embora isso provavelmente seja verdade, acredito que, mesmo na língua inglesa, há um espaço na literatura para uma análise concisa e clara como esta, que reflete sobre as ideias que formaram a Civilização Ocidental e sobre aquelas que são uma ameaça à mesma. Tenho uma esperança fervorosa de que uma edição em inglês em breve ocupará esse espaço. Esse é um livro valioso cuja leitura deveria ser obrigatória para alunos que estão entrando na universidade para estudar nas áreas de história, filosofia, ciências sociais e relações internacionais.


Dr. Norman Berdichevsky é um norte-americano especializado em geografia humana e com forte interesse nas culturas hispânica e portuguesa. É autor de diversos livros e muitos artigos e ensaios, e, faz parte do Conselho Editorial de PortVitoria.

David Gordon

Resenha do livro Intellectuals and Society (Intelectuais e sociedade) de Thomas Sowell. New York Basic Books, 2009.

O livro Intellectuals and Society de Thomas Sowell é perspicaz, mas é cortado por uma tensão fundamental. Os intelectuais enxergam erradamente o livre mercado como um jogo de somatória zero.

Dentre as consequências da iliteracia econômica da maioria dos intelectuais está a visão de somatória zero da economia… na qual os ganhos de um indivíduo ou de um grupo representam uma perda correspondente para um outro indivíduo ou um outro grupo… A noção vulgarizada, que se coalesce na doutrina de que é preciso ‘tomar partido’ na formulação das políticas públicas ou mesmo na interpretação de decisões judiciais, ignora o fato de que as transações econômicas não continuariam ocorrendo a menos que ambas as partes julgassem que fazer tais transações fosse preferível a não fazer tais transações (pp. 56–57).

Os intelectuais não conseguem compreender um ponto que Ludwig von Mises frisou repetidamente: o mercado é o principal meio pelo qual as pessoas se beneficiam da cooperação social. Mas quem são esses intelectuais que são tão carentes de percepção? Sowell estabelece uma distinção acentuada entre pessoas que produzem bens e serviços e aqueles que lidam apenas com ideias:

No âmago da noção de intelectual, como tal, está o negociante de ideias, mas não a aplicação pessoal de ideias como os engenheiros que aplicam complexos princípios científicos para criar estruturas ou mecanismos físicos. O trabalho de um intelectual começa e termina com ideias, independentemente de quão influentes essas ideias sejam em coisas concretas – nas mãos dos outros. Adam Smith nunca administrou um negócio e Karl Marx nunca administrou um Gulag (p.3).

Porque os intelectuais trabalham com ideias, eles frequentemente superestimam a importância do planejamento consciente. Eles creem que, assim como eles são capazes de idealizar soluções para os seus enigmas intelectuais, também a sociedade deve ser guiada pelo design racional. Essa visão os leva a subestimar o potencial do livre mercado, que se escora na inteligência dispersa de milhões de pessoas, coordenada através de preços. Sowell, com sua característica habilidade de fazer citações pertinentes, cita diversas observações que mostram essa atitude para com o planejamento: “John Dewey, por exemplo, deixou isso claro: ‘Tendo o conhecimento, nós podemos nos aplicar com confiança a um projeto de invenção social e engenharia experimental.’ Mas, a pergunta ignorada é: Quem – se por acaso alguém – possui esse tipo de conhecimento?” (p. 18).

Os intelectuais, então, subestimam o mercado livre, porque a operação deste se choca contra o seu modo característico de pensar. Até aqui tudo bem: entretanto, Sowell também vê muitos intelectuais de uma forma que, em parte, está em desacordo com a visão apresentada. Aqui, o problema com esses intelectuais é que eles rejeitam a ‘visão trágica’, que enxerga os problemas do mundo como sendo no geral intratáveis. Sowell descreve a visão trágica desta maneira:

As ‘soluções’ não são esperadas por aqueles que veem muitas das frustrações e anomalias da vida – a tragédia da condição humana – como sendo devidas a restrições inerentes aos seres humanos, isoladas ou coletivamente, no contexto do mundo físico em que vivem. Na visão trágica, a barbárie está sempre esperando por debaixo das asas, e a civilização é simplesmente ‘uma crosta fina em cima de um vulcão’. Essa visão tem poucas soluções a oferecer e muitas permutas difíceis para refletir (pp. 77-78).

Sowell contrasta essa visão trágica com uma visão da sociedade “em que há muitos ‘problemas’ a serem ‘resolvidos’ aplicando as ideias das elites dos intelectuais moralmente ungidos” (p. 77). Nesse contraste, ele ignora um importante impulso de seu próprio trabalho, e, desse modo, cria a tensão que mencionei anteriormente. Nos comentários recém citados, Sowell divide os intelectuais naqueles que afirmam que as suas ideias podem resolver os problemas do mundo e aqueles que negam tal coisa, afirmando que esses problemas não podem ser resolvidos. Como é que esta proposição pode ser conciliada à sua reivindicação anterior, a de que o mercado livre oferece uma oportunidade para as pessoas agarrarem através da cooperação social, um fato que muitos intelectuais não conseguem entender? Nessa visão, se não impedirmos o mercado livre, não estaremos condenados à tragédia. É claro que adotar essa visão não nos compromete a afirmar que todos os problemas do mundo podem ser resolvidos, mas se o mercado livre possui os benefícios que Sowell lhe atribui, uma vasta seção da realidade encontra-se imune à visão trágica que ele defende.

O melhor de Sowell, e que é deveras muito bom, se dá quando ele lida com o mercado livre. Ele aponta uma falácia nas queixas de muitos críticos do mercado que enfatizam a distribuição desigual da riqueza e da renda na América contemporânea.

Embora essas discussões tenham sido formuladas em termos de pessoas, a evidência empírica citada de fato é sobre o que aconteceu ao longo do tempo às categorias estatísticas – e isso é diretamente oposto ao que tem acontecido ao longo do tempo com seres humanos de carne e osso, a maioria dos quais se desloca de uma categoria para outra ao longo do tempo. (…) Apesar de a renda da categoria estatística do topo –  0,1% dos pagadores de impostos – ter crescido tanto absolutamente quanto relativamente em relação à renda das outras categorias de seres humanos de carne e osso, aqueles indivíduos que estavam inicialmente na primeira categoria viram os seus rendimentos despencar um colossal 50% entre 1996 e 2005. (pp. 37-38).

O hábil emprego da evidência de Sowell surge novamente quando ele confronta outra acusação popular contra o mercado livre. Muitos intelectuais reclamam do controle dos mercados exercidos pelas grandes corporações. Sowell ressalta que essas empresas, longe de restringir as opções disponíveis aos consumidores, expandem as opções abertas a eles. Uma empresa que adquire uma grande parte do mercado faz isso oferecendo produtos a que os consumidores preferem em relação aos de seus concorrentes. Além disso,

… diversas empresas, acusadas de ‘controlar’ a maior parte de seus mercados, não só perderam essa parcela de mercado, mas também faliram dentro de poucos anos depois do seu suposto domínio do mercado. A Smith Corona, por exemplo, vendeu mais da metade das máquinas de escrever e processadores de texto nos Estados Unidos em 1989, mas, apenas seis anos depois, registrou falência, pois a disseminação dos computadores pessoais deslocou [do mercado] as máquinas de escrever e os processadores de texto (pp. 65- 66).

Os intelectuais antimercado geralmente condenam o mercado em termos moralistas. Não é verdade que muitas empresas exploram os pobres? As empresas financeiras especializadas em empréstimos de ‘dia-de-pagamento’ são um excelente exemplo. Ao cobrar juros exorbitantes, essas empresas nefastas não estariam se aproveitando dessas pessoas em circunstâncias desesperadoras? Sowell responde expondo um emprego enganoso das estatísticas.

Aqui, o virtuosismo verbal é frequentemente usado mostrando as taxas de juros em termos de percentagens anuais, quando, de fato, os empréstimos feitos nos bairros de baixa renda para atender a alguma necessidade do momento são geralmente por semanas, ou mesmo dias. As somas de dinheiro emprestado são geralmente de algumas centenas de dólares, emprestado por algumas semanas, com juros de cerca de US$ 15 por cada US$ 100 emprestado. Isso resulta em taxas de juros anuais no patamar das centenas – o tipo de estatísticas que produz alvoroço na mídia e na política (p. 46).

Se a visão trágica não oferece a melhor maneira de se pensar sobre os benefícios do mercado livre, isso de modo algum significa que essa perspectiva seja inútil em outras áreas. Muito pelo contrário, Sowell argumenta de forma eficaz que a política externa tem sido frequentemente prejudicada por esquemas utópicos que ignoram as limitações humanas. O desastre aparece quando os intelectuais percebem que as imensas mudanças trazidas pela guerra lhes dão uma oportunidade de implementar esses esquemas. “John Dewey… via a guerra como constrangedora ‘da tradição individualista’, à qual ele se opôs, e estabelecedora ‘da supremacia da necessidade pública sobre as posses privadas’” (p.207).

Sowell mostra que muitos membros do Movimento Progressista americano, na busca de sua visão utópica, desejaram estender as bênçãos da democracia americana às pessoas ‘atrasadas’ no exterior.

O clássico da Era Progressista, The Promise of American Life, do editor da New Republic, Herbert Croly, argumentou que a maioria dos asiáticos e africanos tinha poucas possibilidades de desenvolver nações democráticas modernas sem a superintendência das democracias ocidentais (p.206).

Sowell é também devidamente cético com a decisão de Woodrow Wilson de envolver os Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Ele questiona se Wilson não teria desejado entrar na guerra como “uma ocasião conveniente para lançar uma cruzada ideológica internacional… Como muitos outros intelectuais, para Wilson, as ações tomadas sem motivos materiais ficam, de alguma forma, num plano moral superior às ações tomadas para promover os interesses econômicos dos indivíduos ou os interesses territoriais das nações” (p.209).

Diante dessas opiniões, poder-se-ia esperar que Sowell fosse um mordaz crítico do imbróglio do governo Bush, mas tal não demonstra ser o caso. Sowell, como muitos outros, está agarrado às supostas leituras da conferência de Munique de 29 e 30 de setembro de 1938. Num esboço histórico da política britânica da década de 1930, escorada nos discursos de Winston Churchill como fonte primária, ele desencadeia a lição universal de que as nações devem resistir aos ditadores com ambições estrangeiras, para que não nos encontremos numa conflagração mundial. (Esta resenha não é o lugar adequado para discutir a política britânica em relação a Hitler, mas o excelente livro  March 1939: The British Guarantee to Poland de Simon Newman [Oxford, United Kingdom: Oxford University Press, 1976] oferece um relato acadêmico dos motivos e métodos da política britânica que se mostra totalmente em desacordo com a discussão de Sowell.)

A ‘lição’ de Munique promove uma tendência para enxergar cada César local como o próximo Hitler. Sowell não enxerga que a guerra do Iraque é exatamente o tipo de empreendimento imperialista que Herbert Croly tinha em mente. Respondendo aos críticos da recente política de ‘surto’ ao Iraque, Sowell observa: “Num resumo, o general Petraeus foi acusado de mentir… face a evidências crescentes de várias outras fontes de que a invasão aumentou substancialmente a violência no Iraque” (p. 270). Certamente é necessário mais para justificar uma guerra, se houver uma, do que o fato de uma determinada operação ter baixas reduzidas. Entretanto, se Sowell falhou sobre este ponto, no conjunto ele escreveu um excelente livro.

                                                                                                                                               

David Gordon é pesquisador sênior do Ludwig von Mises Institute. Estudou na UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles), onde obteve o seu PhD em História da Intelectualidade. É autor dos livros Resurrecting Marx: The Analytical Marxists on Exploitation, Freedom, and Justice, The Philosophical Origins of Austrian Economics, An Introduction to Economic Reasoning, e Critics of Marx. É ainda editor de Secession, State, and Liberty e coeditor do livro de H. B. Acton’s Morals of Markets and Other Essays. Também é o editor de The Mises Review, e colaborador de diversos periódicos, como The International Philosophic Quarterly, The Journal of Libertarian Studies, e The Quarterly Journal of Austrian Economics.


Notas

© David Gordon

Publicado primeiramente em: The Independent Review. A Journal of Political Economy (15 (2), Fall 2010.

Tradução: Jo Pires-O’Brien (UK)

Revisão: Dpebora Finamore (BR)

 Referência

SOWELL, THOMAS. Intellectuals and Society (Intelectuais e sociedade). New York Basic Books, 2009. Resenha de GORDON, DAVID. Intelectuais e sociedade. PortVitoria, UK, v.16, Jan-Jun, 2018. ISSN 20448236, https://portvitoria.com

Andrew Wheatcroft

Resenha do livro Danubia: A Personal History of Habsburg Europe (Danúbios: Uma história pessoal da Europa Habsburg) de Simon Winder. Illustrated. Farrar, Straus and Giroux, 2013, $30, 551 páginas.

 

Como uma sereia, o rio Danúbio seduziu pelo menos três autores ao longo dos séculos. O primeiro foi o conde Luigi Ferdinando Marsigli de Bologna, no século XVII. O seu trabalho culminou em seis volumes maravilhosamente ilustrados, publicados em latim, em 1726. O segundo foi Claudio Magris, de Trieste, no século XX. Professor, estudioso e novelista, ele fez uma excursão ao Mar Negro em 1986, pouco antes da queda dos antigos regimes comunistas da Europa Leste. Como Marsigli, ele não tinha uma ideia muito clara sobre o tipo de livro que queria escrever, e, no final, Magris produziu Danube (Danúbio), uma obra magistral.

Nas suas mãos, o rio não é apenas uma força majestática da natureza, mas torna-se o herói silencioso do livro. Como fez Laurence Sterne com Tristram Shandy (The Life and Opinions of Tristram Shandy Gentleman; A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy), Magris descobriu as circunstâncias improváveis das origens do Danúbio, pelo menos no folclore. Era um fio d’água saído de uma torneira, que ninguém havia conseguido fechar. Por um momento, ele imaginou o que poderia ter acontecido se alguém tivesse conseguido estancar o grande rio em sua fonte, e, Bratislava, Belgrado e Budapeste tivessem ficado ‘completamente sem água’.

Agora, no século XXI, há um terceiro autor, Simon Winder, de Londres. Entretanto, ele é o primeiro historiador do Danúbio a tentar um humor espetacular.

Os britânicos experimentaram o ridículo na história desde que dois humoristas, sobreviventes da Primeira Guerra, publicaram 1066 and All That (1066 e tudo aquilo) em 1930. Uma amostra: “A nova política de paz do rei Edward foi um grande sucesso e culminou na Grande Guerra a fim de terminar a Guerra da … Foi a causa dos dias de hoje e do fim da História”. O público amou, especialmente quando adaptado como peça de teatro.

O Danubia de Magris é uma grande obra de literatura, mas sem leviandade. A inspiração de Winder, em contraste, é contar a história como uma pantomima inglesa. Ele já havia experimentado essa abordagem na sua esplêndida Germania (2010), onde fez troças contando piadas. Funcionou perfeitamente. Entretanto, com toda a sua comédia, Danubia: A Personal History of Habsburg Europe teria que ser, como ele afirma, “um livro menos ensolarado do que Germania”, pois os povos do antigo Império Habsburgo tiveram uma história sombria; as cicatrizes são notadas até hoje.

No mundo de fala inglesa, a Europa Central era tão estranha e remota como o Deserto de Gobi ou o Ártico. Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, numa fala à nação britânica sobre um confronto com Hitler a respeito da Áustria e da Tchecoslováquia, referiu-se à irrelevância de uma “guerra num país distante entre povos sobre os quais nós nada sabemos”. Ele enfatizou o “nós” e o “nada.” Tal isolamento continuou mesmo após 1945. Viena permaneceu sob ocupação até 1955, e, até pouco antes da queda do Muro de Berlim em 1989, apenas a Iugoslávia, dentre os países sob o controle comunista, havia desenvolvido o turismo internacional.

O Danubia de Winder descreve um mundo que continua desconhecido para muitas pessoas, mas, logo de início, ele deve ter tomado uma decisão crucial. Diferentemente de Marsigli e de Magris, ele escolheu como tema não apenas o Danúbio, mas os Danúbios. Apenas duas letras diferentes, mas um oceano de novas significações: Ao contrário do rio, Danubia não existe. É simplesmente uma ideia, imaterial, produto de uma imaginação fértil.

Winder cobre toda a varredura das antigas terras dos Habsburgos, levando-nos de Cracóvia e Leópolis, ao extremo norte, a Ragusa (Dubrovnik), ao sul. A oeste essa área inclui Braunau (com seu matacão ameaçador perto do local de nascimento de Adolf Hitler), enquanto que Ruse, o local de nascimento do escritor Elias Canetti, é a principal localidade do extremo leste.

Durante quatro anos, Winder perambulou pela Europa Central caçando relíquias como um monge mendicante. Checou os santuários onde alguma coisa inusitada poderia ser encontrada – a abadia de Melk, os mosteiros de Caríntia e Eslovênia, as cidadezinhas, os cantos esquecidos dos museus. As suas narrativas são fascinantes, pois ele não se apoia simplesmente em arquivos ou bibliotecas, mas leva o leitor para o mundo real. E, ele não para com o fim dos Habsburgos em 1918, mas continua até o século XXI.

O livro de Winder demanda mais do que qualquer um dos seus predecessores. A sua história pessoal é como um coral de diferentes vozes, cada qual contando uma parte. Começa com as risadas altas, na provinciana cidade de Pécs, na Hungria, onde “os capuchinhos são umas figurinhas difíceis”. A seguir, Winder transforma-se no homem conhecedor de fala macia, explicando em poucas sentenças o que aconteceu em Pécs em torno de 400 da era comum (EC), quando todo mundo “fugiu ou foi morto, ou foi levado como escravo pelos invasores hunos”.

Caso você fique frustrado com qualquer dos atores do drama de Winder, logo vem outro, embora o mais cativante de todos é o próprio autor com o seu tom preocupado e desafiante. “Quanto mais tempo eu gasto pensando sobre esse livro mais ojeriza e horror eu sinto pelo nacionalismo, que se parece com a peste bubônica.” Isso foi verdade tanto após 1945 quanto antes de 1914. Em Leópolis/Lviv/Lemberg/Lemberik/Lwow/Lvov “quase toda a população foi morta ou deportada – por ser judia, por ser polonesa, por ser alemã, por ser rica, por ser pró-nazista ou pró-comunista”.

Com suas muitas partes e com o seu elenco de milhares, Danubia é menos uma narrativa do que um mosaico gigantesco. Os incidentes que Winder descreve são as tesselas do mosaico – são as pedra de toque que levam adiante a narrativa. Apenas um exemplo: no Museu de História Natural em Viena, ele caminha passando por prosaicas exibições modernas para encontrar  “num canto escondido… um pequeno frasco de vidro com um lagarto preservado em álcool”. É uma réplica, mas dá a Winder a perfeita transição para Praga e o Imperador Rodolfo II, um dos poucos Habsburgs que o cativa.

Uma ‘história livro pessoal’ é, dessa forma, necessariamente, imprevisível e idiossincrática, e qualquer um que almeje uma marcha sólida e moderada através das terras dos Habsburgos pode ignorar esse livro. Isso seria um grande erro. Por detrás da disparatada pantomima, há um intelecto ágil e agudo trabalhando, o que permite que Winder se mova sem esforço do Tema Maior (relatado com gravidade, numa voz parecida com a do dr. Kissinger) aos detalhes mais pontilhistas. Ele escreve sobre Fafnir, um dragão particularmente assustador, que é “a crítica nacionalista da monarquia Habsburg,  … mas bastante interessante”. E deveras é, mas apenas pelo fato de que Winder consegue então explicar em poucas e decisivas linhas as complexas e mutantes políticas do imperador Francisco José. “Os Habsburgos são vistos universalmente como um gigante tolo… Para ser justo, Francisco José tenta empregar o Tarnhelm”  um capacete mágico e que muda de forma  – “para melhorar a sua posição, alternando do absolutismo a bocados de democracia, do ativismo à inércia, do centralismo ao federalismo, mas quase sempre de formas que parecem ser tarde demais, cínicas e incompetentes. Com o seu capacete mágico ele fica mudando de formas, mas ainda assim dá para ver as costeletas.”

Winder é o mais bem lido cicerone que alguém pode imaginar. Ele nunca cessa de falar e raramente faz pausa para respirar. Entretanto, mesmo assim você deseja dizer a ele: Esqueça a respiração e apenas continue a falar. Danubia é um livro longo, mas ainda assim o leitor não se importaria se fosse ainda mais longo.

                                                                                                                                               

Andrew Wheatcroft é professor de Publicações e Comunicação Internacional e Diretor do Centro de Estudos de Publicações da Universidade de Stirling. É autor de Infidels (Infiéis),The Habsburgs (Os Habsburgos), e The Ottomans (Os Otomanos).

 

Nota

A presente resenha foi extraída do New York Times, Sunday Book Review, 17 jan, 2014, versão online; uma versão impressa dessa resenha foi publicada em 19 de janeiro 19, 2014, BR, página 9,  Sunday Book Review, sob o título ‘Fabled Lands’.

 

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien

Revisão: Débora Finamore

Referência

WINDER, SIMON. Danubia: A Personal History of Habsburg Europe (Danúbios: Uma história pessoal da Europa Habsburg). Ilustrado. Farrar, Straus and Giroux, 2013. Resenha de Wheatcroft, Andrew, Terras das fábulas. PortVitoria, UK, v. 15, Jul-Dec 2017. ISSN 20448236. https://portvitoria.com

Amy Cox Hall

 

Resenha do livro Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller (O homem de Darwin no Brasil: a ciência evoluidora de Fritz Müller) de David A. West. Tallahasse University Press of Florida, 2016. 344 pp. $79.95 (cloth), ISBN 978-0-8130-6260-0.

 

O detalhado estudo de David West sobre a vida e o trabalho de Fritz Müller, biólogo evolutivo e colaborador de Charles Darwin, resulta da culminação de três décadas de pesquisa. A profundeza e a amplitude da pesquisa acerca dessa figura singular é impressionante, estendendo-se por cinco países e obtendo informações de uma impressionante quantidade de arquivos, universidades, bibliotecas, e outras instituições. Embora West fosse treinado em genética e ornitologia pela Cornell University, ele se tornou um interessado em borboletas e começou a fazer pesquisas no Brasil. West teve a sua atenção voltada ara Müller depois de uma visita de pesquisa ao Brasil em 1982, no meio de uma longa carreira ensinando na Virginia Tech University, entre 1962 e 1998. Assim inspirados, West e sua esposa Lindsay embarcaram num estudo sobre a vida e o trabalho de Fritz Müller, vida essa que foi marcada tanto pela produção científica quanto pela tragédia pessoal. O resultado é uma análise pormenorizada da pessoa humana e das realizações do cientista.

Ao contrário de outros cientistas que trabalharam em história natural na América do Sul, Müller não é bem conhecido. Ele não escreveu histórias intrépidas de aventuras e, aparentemente, tampouco escreveu clichês racistas sobre a vida no Brasil como era comum na sua época. Em termos de apelações, não há narrativas de conquistas. Ao invés, Müller publicou trabalhos sobre borboletas, fertilização de orquídeas, abelhas, lianas, crustáceos, cupins, e formigas cortadeiras (cabeçudas). O leitor desse livro rapidamente irá notar a minuciosidade, o cuidado e a precisão com que Müller conduziu suas pesquisas. As suas análises e conclusões decorrem de observações continuadas e feitas a longo prazo, parecendo um contraste impressionante com a maneira pressurizada e apressada de como a ciência é conduzida hoje em dia.

West começa a biografia de Müller com um capítulo sobre a vida dele quando jovem na Alemanha. Müller frequentou a universidade para se formar em medicina, mas, como era um ateísta declarado, foi-lhe negado o diploma. Em um dos capítulos mais interessantes, West descreve como Müller recusou-se a prestar o juramento cristão no qual ele era obrigado a dizer, “que Deus e seu evangelho sagrado me ajudem ” (p. 27). Embora Müller tivesse tentado isentar-se de dizer a frase através de uma petição, o pedido dele foi indeferido. Após ter completado o seu treinamento médico, ele não recebeu o diploma, e se tornou um professor particular. Por fim, ele se mudou para o sul do Brasil, assentando-se numa nova colônia alemã organizada por Hermann Blumenau, um químico alemão. Embora eu preferisse ter sabido mais informações acerca da colonização alemã no Brasil e o impacto que esses colonizadores tiveram no Brasil, West afirma que o desejo de Müller de se relocar não foi conduzido pela atração do Brasil. Müller queria, apenas, escapar da terrível perseguição aos não crentes e às associações não religiosas na Alemanha. O Brasil era uma avenida para uma vida de liberdade. Müller também enxergou o Brasil como uma oportunidade de usar o seu treinamento médico num lugar onde os médicos eram raros. Embora ele tivesse usado o seu treinamento médico, ele também ensinou aritmética, álgebra, geometria, e história natural aos alunos do liceu da província. Em dado momento, ele se cansou de ensinar e propôs à administração da província que o tornasse um ‘naturalista da província’ – recolhendo, estudando as plantas nativas e introduzidas da região e avaliando a melhor maneira de cultivá-las e disseminá-las –, cargo que ocupou por muitos anos. Assim, West descreve Müller tanto como um pioneiro quanto como um homem de convicção. Embora a maioria de nós tenha ciência de que o estudo da evolução era polêmico, devido ao seu questionamento do criacionismo religioso, o capítulo descreve a luta, a profundidade, e o impacto que essa tensão teve em indivíduos como Müller.

Finalmente, West procura situar Müller na rede de relacionamentos de Darwin, dando a Müller o merecido reconhecimento como um dos principais interlocutores da evolução. Ele é bem sucedido em mostrar como Darwin apoiou-se em Müller no tocante a importantes observações de campo e experimentos, e como Müller apoiou-se em Darwin para inspiração, suporte, e orientação. No seu primeiro livro – Für Darwin – (traduzido para o inglês como: Facts and Argument for Darwin; Fatos e argumentos a favor de Darwin), Müller testa as teorias de Darwin através de uma análise de crustáceos. Ao invés de rejeitar Darwin de cara, ele conduziu experimentos planejados nos minuciosos detalhes para dar suporte às ideias de Darwin, contribuindo para a eventual aceitação do pensamento evolucionista. West nota que Darwin acreditava que o livro de Müller era  “talvez a mais importante contribuição de suporte às suas ideias” (p. 93). Esse argumento é estendido um pouco mais por West no capítulo sobre o experimento deste cientista voltado a testar se as borboletas já nascem sabendo exatamente que tipo de inflorescência possui néctar, ou se tal capacidade era aprendida, e, na pesquisa feita mais tarde, sobre a predação de borboletas. A pesquisa de Müller indicou que as borboletas aprendiam pela experiência sobre o tipo de inflorescência que possui néctar, algo que foi confirmado um século depois. Além disso, a pesquisa de Müller sobre o modo como as borboletas adotam as características de aviso a outras borboletas para esquivar-se de predadores similares, hoje em dia conhecida como mimetismo mülleriano, foi uma maneira importante de demonstrar as afirmações tanto de Darwin quanto de Müller de que a seleção natural era uma força causadora de mudanças. West argumenta que a despeito de Müller não ser bem conhecido, a sua pesquisa foi influente na comunidade científica e deveria ser reconhecida.

No meio da ampla documentação dos experimentos individuais de Müller e de seus artigos científicos há uma curiosa subtrama acerca do modo como o conhecimento científico funcionava e circulava do meio do século XIX ao fim deste. As observações de Müller foram precisas e demoradas. Por exemplo, ele observou a polinização de uma planta de Lantana para afirmar, corretamente, que as flores mais velhas do capítulo eram mantidas para que permanecessem conspícuas aos  polinizadores. O que se torna evidente durante toda a apreciação de West às observações pormenorizadas e interessantes de Müller é que a ciência era tanto uma rede humana quanto uma relação íntima com a natureza. Os seus professores na Alemanha, por exemplo, eram professores que haviam sido influenciados por Alexander von Humboldt e as suas coleções da América do Sul. Como o único darwinista no Brasil, Müller apoiou-se numa rede global de estudiosos, em geral baseados na Europa e nos Estados Unidos, para promover a compreensão científica da teoria evolutiva. Artigos e correspondência circularam entre os colegas, às vezes levando anos para completar o círculo.

A maior parte do texto enfoca a ciência de Müller. Consequentemente, a audiência principal será composta por interessados na história da biologia evolutiva. Embora os leigos não sejam impedidos de gostar do livro, para os que não têm um interesse nessa área, a discussão dos experimentos de Müller e suas descobertas seria melhor dada por um conhecimento geral acerca da evolução assim como sobre as maneiras como biologia evolutiva é hoje conhecida. Na qualidade de leitora que não é da área, eu frequentemente me vejo a imaginar as implicações nos dias de hoje dos experimentos e observações de Müller. Embora West faça um bom trabalho em explicar como os estudos e as conclusões de Müller são percebidos atualmente, a quantidade de informação pode ser confusa para os que não têm uma especialização na área. Nesse sentido, há uma oportunidade perdida de levar as contribuições de Müller a um público mais amplo, pois com exceção do capítulo sobre borboletas, o texto é talvez demasiadamente denso para atrair o interesse de um público maior ou mais casual. A minha percepção depois de ler o livro foi que a intenção de West era apresentar um exame sério e profundo sobre um cientista pouco conhecido, de um cientista de cientistas; e nisso ele acertou.

Tendo dito tudo isso, eu teria gostado de mais informações sobre a política em torno de Müller e da colônia alemã no Brasil. Uma contextualização mais profunda das formas como Müller e a colônia foram recebidos no Brasil na época seria particularmente bem-vinda uma vez que West discute a maneira como Müller, embora vivendo  no Brasil, continuava bem dentro do mundo da ciência europeia. Muitos dos colonizadores não queriam perder a língua, os costumes e a identidade alemã, ou tornar-se brasileiros, quer em língua quer em costumes. Isso aguçou a minha curiosidade e eu queria entender mais sobre a política e a história da colônia e sobre como outros cientistas no Brasil impactaram o trabalho de Müller. Eu imaginei acerca do colonialismo desses imigrantes e por quê tais pesquisas científicas que contribuíram para a nossa compreensão da evolução não tiveram um alcance maior. Por acaso os estrangeiros eram melhor recebidos do que os locais? Por acaso as suas pesquisas científicas eram tratadas diferentemente? Por que um médico alemão foi escolhido como o naturalista da província? O conhecimento que Müller adquiriu pelo fato de encontrar-se no Brasil ficou conhecido pelos grupos de brasileiros natos que viviam na região? Com quem ele manteve contato? Por um lado, Müller era similar a Humboldt, na quantidade de coleções e de observações feitas. Por outro lado, ele era bastante diferente, ao fazer um trabalho de campo de toda uma vida numa colônia em crescimento. Essas conexões poderiam ter sido mais claras e teriam dado suporte ao argumento de West sobre as qualidades ímpares de Müller como cientista, bem como às excepcionais qualidades de sua pesquisa e suas contribuições. Finalmente, eu teria gostado de saber mais se o trabalho de Müller impactou ou não a compreensão coletiva e o estudo da raça na ocasião. West menciona a sua correspondência com Alexander Agassiz, filho do famoso poligenista1 Louis Agassiz; uma discussão sobre a forma como a pesquisa deste impactou ou deixou de impactar o entendimento do conceito de raça teria sido bem recebida.

Ainda assim, a vasta pesquisa sobre Müller é admirável e eu espero que esse livro alcance o objetivo intencionado – de estimular a reflexão e incentivar outras pesquisas sobre a vida de Müller, fazendo com que as contribuições deste granjeiem o merecido reconhecimento. E isso não é coisa de pouca monta.

 

1.Referente à teoria da poligenia, segundo a qual o ser humano não tem origem comum, sendo os diversos grupos da humanidade atual descendentes de espécies distintas. Essa teoria tornou-se obsoleta depois da teoria evolucionista de Darwin.

Nota

Artigo licenciado para uso não comercial através da ‘Creative Commons’,. Reproduzido de: Amy Cox Hall. Resenha do livro de West, David A., Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller. H-LatAm, H-Net Reviews. 14 fevereiro, 2017. URL: https://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=47557

 

Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien

Revisora: Débora Finamore

Referência:

WEST, DAVID A., Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller. Tallahasse University Press, 2016. Resenha de HALL, A. C.,  O primeiro evolucionista do Brasil. PortVitoria, UK, v.15, Jul-Dec, 2017. ISSN 20448236. https://portvitoria.com

Joaquina Pires-O’Brien, Editor of PortVitoria, jopiresobrien@gmail.com

Joaquina Pires-O’Brien, a Brazilian translator, interpreter, essayist and former research botanist living in England, has published her first book of essays at Kindle Direct on 7 November 2016, in her native Portuguese – O homem razoável e outros ensaios (The reasonable man and other essays). The title of the book was taken from the first essay, which deals with the concept of ‘the reasonable man’ in the law of England and Wales, something she learned while working as a court interpreter in Suffolk and Norfolk.

There are 23 essays in total, covering a variety of topics which are relevant to contemporary issues worldwide. Some essays talk about individuals who captured the spirit of their time and whose work has many useful lessons to today’s problems, such as Friedrich Hayek, Elias Canetti, Stefan Zweig and George Orwell; others explain some thorny contemporary issues, such as post-modernism and its contempt for high culture and science; others still, cover the combined theme of religious faith, and the unintended consequences of religion such as terrorism. Edifying or not, the themes covered are linked to contemporary social problems that need to be discussed in the public sphere.

Pires-O’Brien studied Biology at Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brazil, and Botany at Central Washington State College, now CWU, Ellensburg, from where she received her BA in 1978. She also studied at Oregon State University, Corvallis, where she got her MSc (1980), and at the University of London, where she got her PhD (1991). In her view, it was her liberal arts education, as an undergraduate, that gave her the leverage to switch careers. Between 1999 and 2008, she published a number of essays and book reviews in Contemporary Review, Oxford, and after 2010, in the digital magazine PortVitoria – www.portvitoria.com, dedicated to speakers of Portuguese and Spanish around the world, which she founded in 2010.

Pires-O’Brien’s book O homem razoável e outros ensaios was published, in Kindle format, on 7 November 2016, together with its Spanish translation by Ricardo Pérez Banega – El hombre razonable y otros ensaios. Available at your Kinddle Store at Amazon.

Joaquina Pires-O’Brien

Book Review of Emperor of the West: Charlemagne and the Carolingian Empire
by Hywel Williams. Quercus, London. 2010. ISBN: 978-0-85738-162-0. 460 pages. £10.99

In advance of Belgium, France, Italy, Luxembourg, the Netherlands and West Germany signing the Treaty of Rome in 1957, there was an earlier European Union under the Frankish empire of Charlemagne (742-814) and the Carolingian dynasty that lasted until the 10th century when it was replaced by the Ottonian dynasty. The saga of the Old European Union, which included most of western and central Europe, is the subject of this book published by Hywel Williams, a British historian, journalist and broadcaster. The story of Charlemagne served as an inspiration of the European Union for as pointed out by Williams all the signatories of the Original Treaty of Rome had claims of being heirs to Charlemagne as their countries were once part of the Carolingian empire.

This book covers the period between 400 and 1000 of the common era, when Europe’s national identities were formed. It is organised into nine chapters preceded by a well presented Introduction. The first two chapters describe Charlemagne and the backdrop of the ongoing process of Christianization of Europe. The larger than life personality of Charlemagne is revealed gradually in the chapters of this book and show how Charles became Magnus. Charles was the third son of Pippin the Short (714-768), was three years old when his father ascended to the throne in 752 after deposing Childeric III, the last king of the Merovingian dynasty. Pippin the Short groomed all of his sons for power, providing them with opportunities to meet the right people and to recognise authority and power. After Pippin’s death in 768, Charles and his brother Carloman were crowned kings but Carloman died shortly after and Charles inherited the Frankish kingdoms of Austrasia, Neustria and Burgundy, plus Alamannia. As Williams describes, from then on Charles grew in importance, becoming the most important ally of the Roman Catholic Church and creating his empire.

Charlemagne is shown in this book as a man who valued family, tradition and the counsel of wise men – such as Alcuin of York. He understood not only the powerful but also the common people. He also understood the threats that lie dormant under the veneer of civilization, as evidenced in his will Divisio Regnorum, where he ordered in writing that his sons should not harm by death, mutilation, blind or tonsure any of his grandsons and nephews without a fair trial and enquiry.
The third chapter deals with how Charles developed a military campaign that changed the map of Europe, incorporating Aquitaine, Lombardy, Saxony and Bavaria. The main motive behind the wars of territorial expansion was to Christianize the kingdoms thought to be pagans threatened by Muslim occupation. Chapter four describes how Charles went to become the Magnus Roman Emperor, occupying the void left by the western partition of the old Roman Empire.

Chapters five through seven describe the system that Charlemagne introduced to govern, such as the creation of the Frankish national assembly composed of two segments, minting and other institutions and his partnership with the Roman Catholic Church. Chapter eight describes the cultural and intellectual life in Europe which gave rise to the Carolingian Renaissance. The final chapter shows how the Carolingian empire influenced the rest of Europe, how it was divided after Charlemagne’s death, and how it gradually became weakened by Viking attacks. It also shows the emergence of the Ottonian empire of Saxony which eventually replaced the Carolingian empire, after Otto I conquered the Lombards and began a quest to Christianize Scandinavia. In 962 Otto I was summoned to Rome to become de defender of the Pope and the papal states, just like his predecessor Charlemagne.

Williams criticises the early medieval authors who failed to check the evidence they were given, giving rise to false generalizations such as: “… and so we learn that the Lombards had beards, that Avars wore their hair in braids, and that the Franks went into battle carrying the axe known as ‘francisca’. Details such as these are hardly enough to separate a national identity.”

The author is also critic of the broad-brush strokes used to create the histories of the various nations, which tended to conceal important facts. One of the things he points out that not even France can be considered a ‘natural nation’ for it too had a very long building process:

When Clovis established his Frankish kingdom in the Gaul of c. 500 his people spoke a variety of Germanic languages and dialects, and they were a very small minority compared with the Romanized population and the other groups of barbarian peoples who were already settled in the province. It took well over 300 years for this minority to assimilate itself into the language of the majority, and the process by which the natives learn to accept that they too were now Franks was very long drawn out.

The national identities of Europe were formed gradually between 400 and 1000, as shown by the appearance of words that did not exist previously which is an evidence that such words were created to help the process of nation building. This was the period when names such as Danes, Bulgarians, Croats, Serbs, Poles, Czechs, Hungarians and many others appeared and became labels of individuals. The names of the various regions of Europe like Burgundy, Lombardy, Bavaria and Saxony also appeared in the early Middle Ages. The emergence of labels for peoples and places helped the image of the Germanic peoples – which the Romans referred to as ‘barbarians’, a term which meant simply ‘foreigners’. It was then that the Angles and the Saxons became the English and when inhabitants of Roman Germania became Germans.

Williams also explains the differences between the history of Spain and the history of Italy. During the seventh century, Spain, then under the Visigoth rule, had a culture that was considered superior to that of the Franks, although it was ended by the Muslim conquest of the eighth century. The case of Italy is a bit more complicated because not only it became occupied by the Lombards and the Ostrogoths but also for being the homeland of the ancient Romans. The lack of a common identity between these invaders and the local Roman population explains why Southern Italy did not integrate into the Westernised culture of the rest of Europe until the eleven century, with the arrival of the Norman invaders.

Although the Carolingian era ended with the end of the first millennium, the legacy of Charlemagne continued under the Ottonian dynasty, and so did the dream of European hegemony. Williams completes his argument pointing out the similarities between the inhabitants of the Carolingian and the Ottonian empires: both were a mixture of original Roman populations and Romanized barbarian peoples.

The stories of Charlemagne and the individuals who constructed Europe in the Middle Ages contained in Emperor of the West are sown together with great skill, like a well thought patchwork quilt. This book’s 14 pages of primary source references and 47 pages of secondary ones suggest that the narratives were also well researched. With sixteen pages of beautiful and meaningful illustrations, Emperor of the West offers a relevant, informative, critical and a truly compelling read.
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Citation:
WILLIAMS, H. Emperor of the West: Carlos Magno and the Carolingian Empire. London, Quercus, 2010, ISBN 978-0-85738-162-0. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). The Medieval European Union. PortVitoria, UK, v. 6, Jan-Jun, 2013. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro The meaning of human existence (O significado da existência humana), de Edward O Wilson. 2014. Liveright Publishing, New York, 207pp. ISBN 978-0-87140-100-7.

Eu tomei conhecimento das pesquisas de Edward O. Wilson ainda na década de 1970, primeiro como estudante de graduação na Central Washington State College, e depois como aluna de mestrado na Oregon State University. Embora Wilson fosse um zoólogo e eu estudasse botânica, o seu volumoso e muito bem ilustrado livro Sociobiology, publicado em 1975, impressionou-me bastante, assim como os seus muitos artigos científicos sobre a distribuição geográfica de espécies. De volta ao Brasil, o livro Sociobiology de Wilson salientou-se na minha estante e até atraiu alguma curiosidade, pois eu me recordo de quando um colega zoólogo perguntou-me se apoiava Wilson ou Gould (Steven Jay) na então polêmica sobre como a seleção natural funcionava. Após ter me mudado para a Inglaterra em 1995, eu aproveitei para ler o livro de Wilson On Human Nature (1978) e inteirar-me melhor sobre a referida polêmica. E, com o seu livro Consilience, publicado em 1998, Wilson selou o seu nome como o arquiteto da ponte entre a ciência e as humanidades.

The meaning of human existence de Edward O. Wilson é um livro relativamente pequeno, mas que alega ter a resposta da maior pergunta da humanidade. O livro consiste de quinze ensaios relativamente curtos, agrupados em cinco capítulos que não se fluem com naturalidade de um para o outro, requerendo algum esforço do leitor para preencher as lacunas. Diversos tópicos desse livro foram reciclados de outras publicações, fato que o próprio autor admite. O principal desses é a própria teoria da seleção multinível de Wilson, resultante das suas observações em formigas e outros animais sociais. Esse livro é uma vasta narrativa com uma agenda ambientalista. De fato, é surpreendente que, com tão poucas palavras, Wilson tenha conseguido escanear um território tão vasto – e que cobre a origem da vida na Terra; o desenvolvimento do homem e da sociedade; o Iluminismo, as especializações do conhecimento do século XX; as duas culturas(1); a biodiversidade; os animais sociais; e a sua própria teoria da seleção multinível.

No primeiro ensaio, Wilson explora a conotação da palavra ‘significado’ (meaning) empregada no título. Embora no seu emprego ordinário a palavra ‘significado’ implique intenção, que por sua vez implica desenho (design) e desenhista (designer), Wilson explica que empregou a palavra ‘significado’ no sentido da evolução orgânica das adaptações que caracterizam o homem. Segundo ele, tais adaptações vieram de eventos aleatórios, cada um deles alterando a probabilidade de futuros eventos. Ele também explica que os ‘significados’ podem ser conscientes ou inconscientes e que as representações que o cérebro humano constrói são exemplos de significados conscientes. Como um exemplo de um significado inconsciente, Wilson cita o ‘significado’ do ‘apanhar a mosca’ de uma teia de aranha: a aranha pode não ter consciência deste significado, mas, ainda assim, o mesmo é válido. Continuando, Wilson afirma que a evolução do cérebro humano seguiu o mesmo regime que foi seguido pela seleção da teia de aranha, o qual, uma vez evoluído, criou a conscientização, que deu um sentido ao ‘significado’. Finalmente, Wilson declara sobre o que é este livro; que o ‘significado’ da existência humana envolve saber como e por que o senso intencional evoluiu, como ele nos fez da maneira como somos, e como ele pode nos ajudar a proteger o meio ambiente ao nosso redor para que possamos continuar existindo.

No segundo ensaio (reciclado de uma matéria publicada, em fevereiro de 2013, no The New York Times Opinionator), Edward O. Wilson articula quais são as melhores perspectivas para decifrar ‘o enigma do ser humano’.

‘A evolução e o nosso conflito interior’ é o título do terceiro ensaio, um instantâneo do ser humano mostrando o que é bom e o que é ruim. Ele, então, passa a explicar que a evolução social, incluindo a evolução dos níveis de cooperação mais elevados, ocorreu em muitas espécies de animais e não apenas no homem. A seleção natural funciona através da pressão e os seres humanos estão constantemente sob a pressão do conflito, explica Wilson, que cita como exemplo o fato de as pessoas usarem dois ‘pesos e medidas’, – um para avaliar a si próprio e outro para avaliar os demais. Wilson fornece um exemplo pessoal nas duas maneiras como ele percebeu o valor do prêmio Pulitzer: como uma conquista de menor importância quando o prêmio de não-ficção de 1978 foi dado ao seu colega Carl Sagan, mas como uma enorme conquista, quando ele próprio recebeu o prêmio no ano seguinte.

Wilson prossegue, afirmando que os neurobiólogos conectaram características humanas tais como a devoção à música à liberação de dopamina no estriado do cérebro, o que permite inferir que a devoção à música foi fisicamente incorporada ao cérebro humano através da evolução. Uma vez estabelecida a existência de uma conexão genética com a devoção humana à música, os neurobiólogos se perguntaram se o mesmo tipo de conexão não poderia explicar outras características humanas como o tribalismo, a devoção à religião e o desejo ardente de espiritualidade. Essas características estão interligadas, e a força instintual do tribalismo nos genes de religiosidade é bem mais forte do que o desejo ardente de espiritualidade’. Isso mais a percepção de que as grandes religiões causaram sofrimentos constantes e desnecessários aos seres humanos tornam o estudo da religião uma prioridade da pesquisa da neurociência. O estudo científico da religião deve escrutinar não apenas a disposição para aceitar dogmas, mitos e absurdidades, mas também a falta de disposição para aceitar que alguns problemas jamais serão solucionados. O mapeamento do cérebro humano era uma tarefa que Darwin considerava impossível, mas que agora está se tornando uma realidade. Gradualmente, outros fenômenos naturais no homem estão sendo descobertos, obrigando o retraimento de diversas explicações sobrenaturais.

Edward O. Wilson aponta que as disciplinas tradicionalmente ligadas à filosofia, tentaram estudar a condição humana, a fim de responder a pergunta ‘de onde viemos’. Entretanto, essas disciplinas conseguiram apenas responder a perguntas do tipo ‘que’ (em inglês ‘what’), conquanto apenas a ciência consegue responder perguntas do tipo ‘por quê’ (em inglês ‘why’). Trocando em miúdos, apenas a ciência tem a chave para explicar porque nós possuímos a nossa natureza especial. Wilson prossegue listando as cinco disciplinas científicas que têm a resposta: biologia evolutiva, paleontologia-arqueologia, neurociência, inteligência artificial e robótica.

No quarto ensaio, intitulado ‘The new Enlightenment’ (O novo Iluminismo), Wilson afirma que precisamos abraçar a ideia iluminista do cosmos como um tempo-espaço contínuo, que se estende das coisas microscópicas às macroscópicas.

Prosseguindo na sua narrativa, Wilson explica que, a fim de obter uma medida das dimensões do cosmos real, nós precisamos explorar uma multiplicidade de contínuos. Wilson aponta a importância da educação liberal, ressalvando que esta deve ter no âmago a relação entre a ciência e as humanidades. A seu ver, a educação liberal e o pensamento criativo estão conectados: “os estágios iniciais do pensamento criativo não se originam da especialização em quebra-cabeças’ e que ‘o cientista mais bem sucedido pensa como um poeta – de uma forma bem ampla e por vezes fantástica – e trabalha como um guarda-livros”. Entretanto, o tema mais notável desse ensaio é a biodiversidade. Considerando-se que milhares de novas espécies são descobertas a cada ano, o número total de espécies – de plantas, animais, fungos e micróbios do planeta – é superior a dois milhões.

No quinto ensaio, Wilson retorna as humanidades ao sublinhar os seus dois papéis especiais na decifração do enigma da existência humana: fornecer uma visão “de fora para dentro” da evolução cultural e avaliar criticamente o crescente número de dilemas sociais.

O tema do descobrimento de como o comportamento social instintivo evoluiu é tratado no sexto ensaio. Nele, Wilson apresenta a sua própria teoria e a de seus oponentes. Explica que a sua teoria sobre a organização social derivou-se da teoria da genética de populações, desenvolvida na década de 1920, bem como na síntese da teoria evolutiva desenvolvida na década de 1930. Esta baseia-se em três princípios: (i) que o gene é a unidade da hereditariedade, (ii) que o gene normalmente age como integrante de uma rede, e (iii) que a característica prescrita pelo gene é o alvo da seleção natural. No âmago da contenção sobre a teoria de Wilson está a chamada ‘seleção por grupo’. Citando Wilson:

Um gene para uma característica que afete a longevidade e a reprodução de um membro do grupo em relação a outros membros do mesmo grupo é dito estar sujeito à seleção natural em nível de indivíduo. Um gene para uma característica ligada à cooperação e a outras forças de interação com outros membros do grupo pode ou não estar sujeito à seleção natural em nível de indivíduo. …Porque os grupos competem com outros grupos, tanto em conflito quanto sobre a sua eficácia relativa à extração de recursos, as suas características diferenciais estão sujeitas à seleção natural. Em particular, os genes que prescrevem características interativas (e portanto sociais) estão sujeitos à seleção natural em nível de grupo.(2)

Wilson também descreve a teoria competidora que é designada de ‘fitness inclusivo’:

A teoria do fitness inclusivo…trata o indivíduo membro do grupo, e não os seus genes individuais, como a unidade da seleção. A evolução social, por sua vez, surge da soma das interações do indivíduo com cada um dos demais membros do grupo, multiplicada pelo grau de parentesco hereditário entre cada par. Todos os efeitos dessa multiplicidade de interações no indivíduo, tanto positivos quanto negativos, geram o seu fitness inclusivo.(3)

Recapitulando, a teoria da ‘seleção multinível’ de Wilson opera tanto em nível de indivíduo quanto em nível de grupo, enquanto que a teoria oposta – a teoria do ‘fitness inclusivo’ – considera o indivíduo, em vez do gene, como sendo a unidade da seleção, e rejeita por completo a seleção de grupo.

Em 2010, Wilson e dois modeladores matemáticos publicaram um relatório na revista Nature, afirmando que a teoria do fitness inclusivo não era confiável. Wilson revela, nesse livro, que uma correspondência assinada por 137 biólogos foi remetida à revista Nature, protestando contra o seu relatório, e contra-argumenta que nenhum deles refutou a análise matemática nele contida. O relatório em questão marcou o início da animosidade entre Wilson e Richard Dawkins, que considero contraprodutiva e de mau gosto para dois eminentes cientistas. Afinal de contas, os modelos matemáticos são simplesmente representações da realidade que não podem ser provados ou refutados. Wilson utiliza o Apêndice do seu livro para continuar a argumentar contra a teoria do ‘fitness inclusivo’ do falecido Steven Jay Gould e Richard Lewontin e também contra as ideias de Richard Dawkins.

Wilson é um cientista e um polímata com uma capacidade excepcional para cruzar sem esforços entre a ciência e as artes & humanidades. Quando ele publicou Sociobiology e On human nature, foi altamente criticado por ter trespassado para o território das artes & humanidades. Entretanto, com The meaning of human existence (O significado da existência humana), Wilson foi muito mais longe, tomando a filosofia assim como toda a ciência mais as artes & humanidades. Ele afirma ter feito isso na crença de que a solução do nosso problema existencial irá deixar-nos livres para focalizar no futuro. Mesmo quando feita por um cientista de renome mundial, uma declaração dessa magnitude deve disparar o alarme.

Eu não tenho nenhum problema com a agenda deste livro de salvar o planeta, pois reconheço que somos todos responsáveis pela preservação da natureza e de sua biodiversidade. A agenda que me preocupa é aquela que não está explícita, sobre ‘como o planeta deve ser salvo’. Por acaso estaria Wilson defendendo uma religião ambientalista, o cientista rei, ou ambas as coisas?

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Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista cultural eletrônica para falantes de português e espanhol.

 

Notas

  1. A expressão ‘duas culturas’ denota o cisma entre a ciência (tradicional) e as artes & humanidades. Notabilizou-se pelo livro epônimo do escritor, fisicista e intelectual britânico, C. P. Snow, publicado em 1968.
  2. Original em inglês: A gene for a trait that affects a group member’s longevity and reproduction relative to other members in the same group is said to be subject to individual-level natural selection. A gene for a trait entailing cooperation and other forces of interaction with fellow group members may or may not be subject to individual-level selection… Because groups compete with other groups, in both conflict and their relative efficiency in resource extraction, their differing traits are subject to natural selection. In particular, the genes prescribing interactive (hence social) traits are subject to group-level selection.
  3. Original em inglês: The theory of inclusive fitness’…‘treats the individual group member, not its individual genes, as the unit of selection. Social evolution arises from the sum of all the interactions of the individual with each of the other group members in turn, multiplied by the degree of hereditary kingship between each pair. All the effects of this multiplicity of interactions on the individual, both positive and negative, make up its inclusive fitness.

 

Revisora: Débora Finamore (Brasil)

 Citação:

WILSON, E. O. The meaning of human existence. New York, Liveright Publishing, 207pp. ISBN 978-0-87140-100-7. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. Vasta narrativa com uma agenda. PortVitoria, UK, v.11, Jul-Dec, 2015. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the Discovery of Europe (O êxodo da Arábia. Fenícios, árabes e a descoberta da Europa), de Warwick Ball. 2009. East & West Publishing, 208pp. ISBN 9781907318009.

15_warwickball_outofarabiaA civilização Ocidental, Ocidente, ou simplesmente o Oeste, é definida como um produto das culturas gregas e latinas mais a tradição judaico-cristã. Essa definição é incompleta pois deixa de considerar a contribuição direta do Oriente Próximo. A fim de preencher esta lacuna no conhecimento, a editora inglesa East & West lançou uma série de quatro volumes, da qual este livro de Warwick Ball sobre a Europa é o primeiro. Australiano, radicado na Escócia, Warwick Ball é um arqueólogo especializado em restauração arquitetônica de monumentos históricos, com mais de 25 anos de experiência em escavações na Jordânia, Irã, Iraque, Síria e Afeganistão. Outros livros dele incluem Syria: A historical and architectural guide (1994), Rome in the East: The transformation of an empire (2000), Towards one world (Asia in the Making of the West) (2010), e Sultans of Rome (2012). Ao mesmo tempo em que narra a presença dos fenícios e árabes na Europa, Warwick Ball explica os problemas que impedem o registro correto da história.

Os fenícios eram povos semíticos que habitavam uma faixa costeira a Leste do Mar Mediterrâneo cuja posição relativa ao sol nascente fez com que ficasse conhecida como o Levante, e que atualmente corresponde à Síria (parte oeste), Líbano, Israel, Palestina e Jordânia. Um dos problemas da elucidação da história dos fenícios foram muitas, diversas e imprecisas designações a eles atribuídas. A própria palavra ‘Fenícia’ é de origem grega, e, consequentemente, indo-europeia, enquanto que eles falavam uma língua semítica pertencente ao mesmo tronco noroeste que deu origem ao árabe, e que inclui ainda o hebraico, o amorita, o nabantino, o aramaico e o siríaco. A palavra ‘Fenícia’ é um epônimo do rei Fênix, um lendário monarca de Tiro, a principal cidade-estado da Fenícia, de onde vinha o corante púrpuro produzido nas redondezas, o qual era conhecido como ‘corante de Tiro’. Em sua etimologia, a palavra ‘fênix’ inclui um radical indo-europeu que significa ‘vermelho’, uma referência ao corante púrpuro de Tiro. O mesmo problema de nome estende-se à designação dos fenícios. Homero e algumas fontes fenícias os designavam ‘sidônios’, embora a Sidônia fosse apenas uma dentre as diversas cidades fenícias. Os fenícios que viviam na costa levantina referiam-se si mesmos como ‘cananitas’, e é assim eles são chamados na bíblia judaica. Enquanto os fenícios da costa levantina tinham uma designação grega, aqueles que viviam nas colônias da costa da África e na Sicília tinham a designação latina de ‘púnicos’ dada pelos romanos. A designação ‘cartagineses’ é fenícia, sendo eponímica de Cartago, sua importante colônia africana, cujo nome fenício é Quart-hadashts, que significa ‘nova cidade’.

Segundo Warwick Ball, a documentação mais antiga dos fenícios na costa levantina, datada de cerca de 2000 a.C., foi encontrada na cidade de Ugarit, situada na atual cidade de Ras Shamra – que que significa ‘cabeça do funcho selvagem’ –, no norte da Síria. O seu apogeu deu-se na segunda metade do segundo milênio a.C., quando dominou o comércio mundial, comercializando o corante púrpuro tírio, e, também, metais, madeira e cereais. Além de Ugarit, Tiro e Sidônia, outras importantes cidades fenícias foram Biblos, Arvad, Beirute e Gaza. Biblos tinha uma arquitetura urbana semelhante a um tabuleiro de xadrez e foi considerada a primeira cidade planejada do Ocidente. Suas vias entrecruzadas foram posteriormente recriadas em algumas colônias da costa africana e na Sicília.

A partir de 1200 a.C., a cultura dos fenícios começou a declinar em decorrência das invasões dos povos do Norte, possivelmente dos dórios, ancestrais dos gregos. Depois disso, os fenícios tiveram uma série de recuperações e reveses. Em torno de 1050 a.C., eles tiveram um renascimento; mais ou menos em 333 a.C., eles foram um dos alvos da brutal invasão macedônia comandada por Alexandre o Magno; voltaram a florescer depois do estabelecimento da Síria Selêucida; em 264 a.C. foram atacados pelos romanos no conflito que ficou conhecido como a Primeira Guerra Púnica; enfrentaram novas investidas dos romanos até serem derrotados de vez na última guerra púnica, ocorrida entre 149 e 146 a.C.

Entretanto, mesmo sob a dominação romana, a cultura fenícia teve uma última renascença por volta do segundo século da era cristã, quando Filo, de Biblos, disponibilizou o arquivo histórico fenício à civilização clássica. Isso possibilitou a preservação de uma boa parte da literatura fenícia, que era escrita em papiro. O escritor fenício de maior importância foi Sancguniathon, que viveu no século VII a.C. Outros incluíram os historiadores da Escola da Antioquia como Eusébio, Procópio, Josefus, Herodian, Ammianus Marcelliunus, Libanius e John Malalas.

Sabemos que os fenícios tiveram a primeira marinha da história e que, devido à sua elevada tecnologia naval, eles criaram colônias tanto na costa Atlântica da África quanto na costa do Mediterrâneo. Entretanto, a datação de artefatos arqueológicos por radiocarbono mudaram diversas datações históricas sobre a presença dos fenícios na África e na Europa. Com base nas novas datações, a ilha de Chipre fez parte do reino de Tiro entre 850 e 600 a.C. As colônias de Rodes, Creta e da Sicília foram fundadas nos séculos X e XI a.C., e, poucos séculos depois, os fenícios estabeleceram-se na ilha de Malta, onde se casaram com a população nativa. O autor ressalta o fato de que Malta é a única localidade em que o fenício conseguiu sobreviver, como o principal componente da língua maltesa.

O autor ainda destaca que os fenícios tiveram a primeira mulher navegadora, Elissa, irmã de Pumayyaton, o rei de Tiro, também conhecida como Dido, que fundou Cartago na costa africana por volta de 814-3 a.C. Outras importantes cidades fenícias na África eram Lixus, no Marrocos, e Utica, na Tunísia. Enquanto a datação dessas cidades foi empurrada para a frente, a presença dos fenícios na Ibéria foi empurrada para trás. A fundação de Gadir, na atual Cádiz, ocorreu em 1110 ou 1104 a.C. As demais colônias fenícias da Ibéria, todas na atual costa do sol da Espanha, em torno de Málaga, foram fundadas posteriormente.

Warwick Ball mostra outros exemplos de mudanças na datação de fatos registrados na história e na Bíblia. Por exemplo, a história de Jezebel, a princesa fenícia que se casou com o príncipe Ahab de Israel, tornando-se uma poderosa rainha, é agora colocada no século IX a.C. Na Bíblia, Jezebel é criticada pelo profeta Elias pelo fato de ter mantido a sua devoção à divindade Baal. Outro exemplo é o do surto de crescimento de Tiro, sob o rei Hiram I, que estabeleceu firmes relações comerciais tanto com o rei David quanto com o rei Salomão, de Israel, agora datado em meados do século X a.C. Na narrativa histórica atualizada, foi nessa época que Tiro ganhou lucrativos mercados asiáticos e mandou uma expedição marítima à ‘Terra de Ofir’, no Mar Vermelho. Um terceiro exemplo tem a ver com a localidade Tarhish, das alegadas expedições de Tiro à Tarhish na época do rei Salomão, mencionadas na Bíblia. Os avanços da arqueologia permitem interpretar a Tarhish da Bíblia como sendo a Tartessia da Ibéria (atuais regiões do Algarve, Alentejo, sul de Estremadura e oeste de Alentejo), que era uma fonte de estanho e de outros metais. Isso confirma ainda que foram os fenícios que forneceram os materiais empregados na construção do famoso templo de Salomão.

A contribuição dos árabes à cultura da Europa, tanto antes quanto depois de Maomé ter estabelecido a religião islâmica, é também sublinhada por Warwick Ball. Assim como os fenícios, os árabes também eram povos semitas. Eles eram subdivididos em dois principais grupos: os nômades beduínos que viviam no deserto, e os sedentários que viviam em cidades e costumavam se conectar com a cultura greco-romana. Os árabes migraram para a Ásia e Europa para onde levaram a religião islâmica. Na Europa, os árabes dominaram a Andaluzia e a Sicília, deixando uma série de edifícios no estilo mouro, como aqueles os mostrados nas belas ilustrações deste livro.

O aspecto mais interessante deste livro são as reflexões do autor sobre as muitas suposições que existem sobre cultura e civilização. A tendência de associar civilizações a continentes impediu o entendimento das raízes fenícias e árabes da Europa, da mesma forma que as diferenças visíveis entre as raças humanas impediram o entendimento da origem única dos humanos explicada pela teoria do ‘êxodo da África’, o ‘out of Africa’, em inglês, que inspirou o título deste livro. Conforme Warwick Ball lembra, essa teoria, por sua vez, buscou o seu nome no título do livro da escritora dinamarquesa Karen Blixen (1938), que originou o epônimo filme de Holywood estrelado por Merryl Streep e Robert Radford. Já o subtítulo, este aplica à própria Europa os conceitos de ‘descobrir’ e ‘descobrimento’ que foram motivos de protestos durante as celebrações dos quinhentos anos do descobrimento da América. Se para os povos indígenas do Novo Mundo os ‘descobridores’ espanhóis e portugueses eram simplesmente como usurpadores de suas terras e suas riquezas, também os povos europeus da antiguidade estranharam a chegada dos fenícios. O autor traça paralelos interessantes entre a descoberta da América e a descoberta da Europa, como, por exemplo, a existência, em ambos os continentes, de ‘eldorados’. Na historiografia da exploração fenícia dos povos ibéricos, tal eldorado era Granada, onde os mercadores fenícios trocavam ouro e prata por quinquilharias.

Além de salientar as contribuições dos fenícios e árabes para o Ocidente, o autor apresenta também exemplos da universalidade humana, como a tendência universal de enxergar o mundo através da própria cultura. Conforme Warwick Ball explica, a visão do ‘nós e os outros’ deriva da preocupação de todos os povos com a própria identidade cultural, preocupação essa que impele as pessoas a buscarem o que é diferente entre a própria cultura e as demais. Trocando em miúdos, a Europa também já foi ‘o outro’, ou ‘os selvagens’, quando descoberta pelos fenícios. Outros exemplos dessa tendência são a separação que os gregos antigos faziam entre eles e os demais povos, os quais eles chamavam de ‘bárbaros’, bem como aquela que os muçulmanos fazem entre dar al-salam (a terra islâmica ou a esfera da paz) e a dar al-harb (a terra não islâmica ou a esfera da guerra).

A narrativa da presença dos árabes na Europa evidencia como eles foram objetos de suspeita, desprezo, discriminação e perseguição. Não obstante, eles também deixaram na Europa um significativo legado cultural. Um apanhado da contribuição comum dos fenícios e árabes à Civilização Ocidental inclui: a introdução do papel, do alfabeto e da álgebra, do código de leis de Hamurabi, da escola de direito de Beirute, da navegação marítima, dos mapas de Ulugh Beg, do planejamento urbano, de novas técnicas agrícolas, da religião e da arte islâmica. Além disso, propiciaram o redescobrimento da arte e filosofia clássica que permitiu o Renascimento.

Como arqueólogo, Warwick Ball entende perfeitamente que apesar de o passado tornar os fatos inalteráveis, há uma enorme dificuldade em registrá-los adequadamente. A visão do ‘nós e os outros’ é um dos motivos disso, juntamente com a tentativa de usar a história para legitimar ambições políticas. O livro Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the discovery of Europe de Warwick Ball é uma interessantíssima narrativa sobre a presença dos fenícios e dos árabes na Europa, muito bem escorada nos recentes avanços da arqueologia terrestre e marinha.

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Jo Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista cultural eletrônica para falantes de português e espanhol.

 

Agradecimento:

Revisora: Débora Finamore (Brasil)

 Citação:

BALL, W. Out of Arabia. Phoenicians, Arabs and the discovery of Europe. London, East & West Publishing, 208pp. ISBN 9781907318009. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. A Contribuição dos fenícios e árabes à civilização Ocidental. PortVitoria, UK, v.11, Jul-Dec, 2015. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com