Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do Livro Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana de Steven Pinker. Tradução de Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras. 2004. ISBN 85-359-049-8

Título Original: The Blank Slate: The Modern Denial of Human Nature. Copyright © Steven Pinker, 2002. ISBN 13:978-0-140-27605-3. ISBN 10: 0-140-277605-X

A maioria das pessoas certamente já ouviu a frase retirada de uma poesia de William Ross Wallace (1819-1881) convertida em ditado popular: ‘as mãos que balançam o berço dirigem o mundo’. Tal frase reflete a crença de que o adulto é mais um produto da criação do que da natureza. Em outras palavras, são os pais e/ou educadores – os que balançam o berço – quem fazem o adulto. Essa crença, por sua vez, baseia-se na doutrina da tábula rasa, segundo a qual a mente humana no nascimento é completamente destituída de predisposições, daí a responsabilidade dos educadores. A doutrina da tábula rasa (ou da lousa limpa) permaneceu na teoria das ciências sociais associada à ‘condição humana’ defendida por essas últimas, e acabou por gerar a polêmica da natureza versus criação, quando as ciências sociais continuaram a negar a importância da biologia na formação da condição humana, mesmo depois da teoria evolutiva ter sido confirmada pela genética.

A questão da natureza versus criação é o tópico principal do livro de Steven Pinker Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana, originalmente publicado em 2002. Nesse livro Pinker demole não apenas o mito da tábula rasa, mas também dois outros mitos associados ao mesmo: o do ‘nobre selvagem’ e o do ‘fantasma na máquina’. A ideia da tábula rasa foi acolhida por diversos pensadores do período Romântico incluindo o filósofo francês, nascido na Suíça, Jean Jacques Rousseau (1712-78). Rousseau levou a ideia adiante, ao introduzir o conceito do ‘nobre selvagem’, onde ele contrastou a fidalguia e nobreza do ‘homem no estado da natureza’ com a maldade do ‘homem no estado social’. Como mostra Pinker, o início do desmoronamento das teorias da tábula rasa e do selvagem nobre foi o descobrimento de furos nas pesquisas da antropóloga cultural Margareth Mead (1901-78). Mead havia ficado famosa em todo o mundo na década de trinta, com os seus livros descrevendo os nativos da Nova Guiné como pacíficos, igualitários e materialmente satisfeitos; e os da Samoa Oeste como sendo livres de conflitos sexuais. Entretanto, a sugestão de Mead de que as pessoas deveriam aprender com os nativos da Nova Guiné e da Samoa Oeste não passou de um anseio influenciado pelo seu determinismo cultural.

Quando o antropólogo Derek Freeman revisitou algumas comunidades da Samoa Oeste alguns anos mais tarde, ele ficou sabendo que duas das informantes usadas por Mead haviam pregado uma peça nela, com relação à informação de que tinham uma vida sexual sem problemas. Aquelas confessaram que, na realidade, a verdade era o oposto. Os Samoanos costumavam bater e até matar as filhas se elas não fossem virgens na sua noite de núpcias; e a família de uma adúltera podia agredi-la e até matá-la. Apesar de ter um grande respeito por Mead e de reconhecer a profundidade de suas visões, Freeman decidiu corrigir os erros das suas observações de campo. Outros estudos antropológicos posteriores também mostraram que a violência não era exclusiva das sociedades avançadas e que era corriqueira entre as pré-sociedades indígenas.

O mito da tábula rasa fez com que as pessoas interpretassem as conexões observadas entre o comportamento dos pais e de seus filhos como uma prova do mesmo. Entretanto, uma boa parte das semelhanças entre pais e filhos deve-se aos genes que os mesmos compartilham. Filhos de bons pais às vezes tornam-se maus; e filhos de maus pais, ou crianças que cresceram em famílias que fogem das normas aceitáveis, muitas vezes tornam-se bons adultos.

Se a impressão cultural pressupõe uma tábula rasa a ser impressa pela educação, os conceitos da tábula rasa e do selvagem nobre apontam um terceiro conceito ainda mais poderoso que os dois primeiros: a ideia da existência de um componente imaterial dentro do corpo, descrito como alma, mente ou espírito. Tal componente imaterial encontra-se presente na mitologia de todas as civilizações e foi amplamente discutido pelos filósofos seguidores de Pitágoras e mais tarde por Platão. Durante a fase inicial do Cristianismo, o escolástico católico São Tomás de Aquino tomou emprestado algumas ideias filosóficas de Pitágoras e de Platão, incluindo o dualismo da mente e matéria, traduzido ainda como alma e corpo. A doutrina do dualismo foi elaborada pelo filósofo cristão René Descartes (1596-1650), o qual afirmou que, sem a mente, o corpo não passa de uma máquina. Quando o filósofo inglês Gilbert Ryle (1900-76) revisou o dualismo cartesiano no seu livro The concept of mind (O conceito da mente), publicado em 1949, ele referiu-se ao mesmo com o ‘fantasma na máquina’, uma sátira que desde então vem sendo amplamente citada.

Quando Pinker ainda era um estudante de graduação em Montreal, ele acompanhou a celeuma em torno do livro Sociobiology (Sociobiologia), de Edward Wilson, uma síntese da vasta literatura sobre o comportamento dos animais sociais e cujo derradeiro capítulo é dedicado à espécie humana. Desde então, Pinker passou a acompanhar de perto a pesquisa existente sobre biologia evolutiva, da qual ele extraiu muitas das ideias que ele depois desenvolveu. Mais tarde, quando ele foi para Harvard para fazer o seu PhD, ele conheceu Wilson, então professor daquela universidade. Outro biólogo cujas ideias o impressionaram foi Richard Dawkins, cujo livro The selfish gene (O gene egoísta), publicado em 1976, e tratando da base genética do altruísmo humano, também tinha atraído tanta polêmica quanto o livro de Wilson já mencionado. De alguma forma, Pinker conseguiu expor ideias similares às de Wilson e Dawkins, porém, sem atrair a mesma ira que os outros dois atraíram. Dando mostra de seu grande cavalheirismo, Pinker reconheceu a sua grande sorte pelo fato de não ter sofrido o mesmo tipo de agressão que sofreram os seus predecessores.

Dos três mitos que Pinker erradicou da teoria das ciências sociais, o do ‘fantasma na máquina’ é o que causou a maior polêmica, devido às implicações do mesmo com a fé e a religião. Se a mente e o corpo são a mesma coisa, então não existe a alma independente do corpo, nem a vida depois da morte e tampouco a divindade sobrenatural. Para Pinker, a única fissura dualista que existe é aquela entre objetos físicos, e respectivos conceitos.

Nesse livro Pinker enfrenta cada um dos grandes medos relativos à explicação biológica da condição humana, apontando as falácias que se escondem por detrás dos mesmos. O primeiro grande medo, a imperfectibilidade, tem duas causas: a crença de que a condição humana é inalterável, e a crença que tudo o que é natural é bom. Tal medo tem a ver com a preocupação de que, se a violência, o adultério e o etnocentrismo forem comprovadamente naturais no homem, eles seriam inevitáveis. Entretanto, conforme frisou Pinker, o homem já nasce com um senso de moralidade, o qual inclui a distinção entre o certo e o errado. O segundo grande medo é o determinismo, a noção de que, no fundo, as nossas escolhas são dirigidas pelo destino. Tal medo reside nisso poder significar o fim da responsabilidade pessoal e tornar inútil a busca da melhoria da sociedade. Pinker contra-argumenta que a existência de uma explicação biológica para uma má ação em particular, não significa que tal ação seja desculpável. O terceiro grande medo é o niilismo, a ideia de que, sem um grande propósito de vida eterna, tudo o que nos resta são as tentativas dos nossos genes de se replicarem. Tal medo tem a ver com a percepção comum de que a falta da divindade eterna traria apenas o vazio e a ausência de moral, solidariedade e empatia. Nesse ponto, Pinker faz uso da proposição de Richard Dawkins, segundo a qual, dentro do egoísmo da replicação dos nossos genes existem comportamentos altruísticos genuínos, tais como o amor pelos filhos e a fidelidade nos relacionamentos com nossos cônjuges e amigos. O conhecimento de que a alma não é eterna e que o inferno não existe, não justifica que o homem seja mal e egoísta. Pelo contrário, quando a vida no além for retirada do quadro, as pessoas terão mais tempo para usufruir com os filhos e amigos, enquanto que mais recursos poderão ser disponibilizados para fazerem o bem aqui mesmo na terra.

Embora Pinker se descreva como um psicólogo cognitivo, o peso de sua bagagem coloca-o entre as super-estrelas da ciência contemporânea. Nascido em 1954 numa comunidade de judeus anglófonos de Montreal, no Canadá, ele graduou-se com honras em psicologia na McGill University em 1976, seguido-se um doutorado na Harvard, em 1979, e um pós-doutorado no MIT. Antes de sua nomeação definitiva para lecionar em Harvard em 2003, ele passou vinte anos no MIT, cuja cultura de interdisciplinaridade permitiu que ele interagisse profissionalmente com filósofos, neurobiologistas e linguistas, bem como com pesquisadores interdisciplinares

Tomei conhecimento de Pinker em 1999, quando li o seu livro How the mind works (Como a mente funciona), publicado em 1997, tendo ficado impressionada com a capacidade do mesmo de explicar os mais complexos temas através de trivialidades. Durante uma viagem ao Brasil em 2004, eu encontrei numa livraria a edição em português do livro The blank slate, lançada em 2004 pela Companhia das Letras, e traduzido por Laura Teixeira Motta. Comprei o livro com vista a estudar a tradução, já que nessa altura eu nutria o desejo de traduzir livros de não-ficção. A tradução de Motta é de excelente qualidade, mostrando competência em todos os aspectos necessários, como precisão da terminologia científica, a fluidez do texto e a preservação do estilo original do autor.

Com Tábula rasa, Pinker mais uma vez conseguiu demonstrar não apenas o seu conhecimento do assunto, mas também a facilidade com que ele consegue transitar de uma disciplina científica para outra. Cada grande tema e seus subtemas são abordados com um elevado grau de seriedade e humor. O resultado maior foi extirpar e reduzir à categoria de mitos, três grandes disparates das ciências sociais: a tábula rasa, o nobre selvagem e o dualismo. O único desapontamento que o leitor poderá ter será descobrir que, se a mente ao nascimento não é uma tábula rasa, então as mãos que balançam o berço não são necessariamente as mãos que governarão o mundo futuro. Tirar toda essa pressão dos pais e educadores não é tão ruim como parece. Se nascer numa boa família, receber uma boa educação parental e frequentar boas escolas fossem condições absolutamente necessárias para o sucesso na idade adulta, que esperança haveria para milhões e milhões de jovens de todo o mundo que foram privados de tais condições?
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Citação:

PINKER, S. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. São Paulo, Companhia das Letras, 2004. ISBN 85-359-049-8. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2011). As mãos que balançam o berço. PortVitoria, UK, v. 2, Jan-Jun, 2011. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Joaquina Pires-O’Brien

Book Review of Historia de la Lengua Española by Rafael Lapesa. Biblioteca Románica Hispánica/Editorial Gredos, Madrid. 1981, 9th ed. ISBN 84-249-0072-3.

Rafael Lapesa’s book Historia de la Lengua Española has been a major reference on the history of the Spanish language for nearly three decades, as can be deduced from its numerous editions and reprints since it was first published in 1981. It encompasses not just the major evolutionary phases of the Spanish language but also the cultural background behind it. Although the specialised readership can profit the most from this book, it has also a great deal of interesting things to amuse the non-specialised readership. One example is the clear and authoritative narrative of the historical backdrop that allowed the formation and the evolution of the Spanish language.

Spanish is one of the many Romance languages, together with Catalan, Portuguese, French, Italian, Romanian and many dialects. They all derived from the Vulgar Latin spoken by the Romans who occupied most of Europe and the Mediterranean from about one hundred years BCE (Before the Common Era) to the year 476, when the Visigoths’ last assault on Rome brought down the Western Roman Empire. However, Vulgar Latin was not the only origin of Spanish and Portuguese. The Ecclesiastical Latin introduced in the Iberian Peninsula by the first Christians during the second half of the occupation also left its mark, while the creation of Modern Latin in the 15th century facilitated the creation of the first Romance grammars.

Lapesa’s book starts before the Roman Empire and its occupation of the Iberian Peninsula. The latter was already occupied by other peoples including the Basques, whose descendants still live in the Pyrenees, on third and second centuries BCE. At that time Latin was just one among many other languages spoken in the regions of Italy and the Levant prior to the start of the Roman Empire. In the ancient Greek writing compiled by Herodotus (ca 480-430 BCE), there are many references to Iberia, such as the region in Huelva, Spain, which was occupied by Iberian settlers that came from Northern Africa. Another indication of the presence of pre-Roman occupiers in the Iberian Peninsula is the matching of place names from Huelva to the Pyrenees in Etruria and other Italian regions.

According with the ancient Greek writings, the region of modern Andalucía and Southern Portugal was inhabited by the Turdetans, which belonged to the Tartesia civilization. The Turdetans would have received their influences from the seafarers from the Far East and are thought to be linked to the Tysens of Lydia in Asia Minor, who originated the Tyrens and Ethruscs of Italy. The Spanish linguist Don Manuel Gómez-Moreno, decoded the Turdetan inscriptions found in Iberia and those from the original location, as well as most of the ancient inscriptions found in Iberia.

The Etruscans would also have settled in the Spanish coast from Levant to Mediodía (in the Pyrenees). The Phoenicians established themselves in the coast of Spain and founded the town of Gádir in 1100 BCE, in Gadir, now Cádiz. Another Phoenician colony is Malaga, in Andalusia, and Abdera (presently Adra), in Almeria. The city Cartagena was the New Carthage that the ancient Carthaginians founded in the region of Murcia.

There were also Greeks in the Iberian Peninsula before the Romans. Their settlements went from the South to the Levant region, where they spoke Lucent. Towards the middle and the West of Iberia there is archaeological evidence from cultivated fields and burial grounds suggesting the presence of Indo-European settlements from Central Europe, at about 1000 BCE.

Herodotus also refers to the presence of Celts in Portugal and in the Low Andalucía in the year 445 BCE, and further Celtic settlements are also thought to be likely. The Ligurian presence in Spain, which was also mentioned by other Greek historians, is supported by coincidences of place names in Spain and in the Liguria region of Italy. As recorded by the Greek geographer Estrabón, at the time of Augustus there was a great diversity of languages in the Hispanic Peninsula. After the arrival of the Romans, the whole of Iberia apart from the Basque region took up the language spoken by the Romans, by converting their vocabulary into Vulgar Latin. There is a long list of words from the Spanish vocabulary that cannot be traced to Latin or to other languages, as well as many suffixes that are clearly Pre-Roman.

The early Iberians gave up their language after the Roman occupation, partly due to the pressures from the Romans and partly as a trade off for the security that came with the Roman rule of law introduced in the provinces by the emperor Vespasian. In 212 the emperor Caracalla made the Hispanics citizens of the Roman Empire. The Roman conquest changed the Iberian society. The customs the Romans introduced included those of the Hellenic civilization incorporated in their own culture. After the arrival of Christianity, the introduction of ecclesiastical Latin, including the text of the New Testament, helped to complete the latinization of the Iberian language.

After the end of the Roman Empire, however, the provinces became separated from one another and the result of that was that their language fragmented into different languages and dialects. From the third century the Germanic Vandals began to invade the Iberian Peninsula, causing a lot of destruction along their path. In 409, they invaded it again in massive numbers, shortly before the Visigoth king Alaric carried out the first ransack of Rome.

The mark of the Germanic peoples in the Romance languages is widely discussed by Lapesa. The Romance languages were to receive further changes from the Arabs, which moved to Southern Iberia to spread the new religion of Islam, arriving in Iberia just as the German invaders had began to settle. The first primer to teach how to write Romance was published in 1532 by Bernabé Busto, a court tutor, and it was during the rule of Phillip II that school children began to learn the grammar of the vulgar language.

The Christian reconquest began slowly from the 9th century. The culture of the early Christian Iberians combined their old customs with violent Visigoth habits of bloody revenges and family feuds, while disputes were resolved by force rather than by a rule of law. From the 9th to the 11th century there were some Christian kingdoms in Iberia, with defined legal provinces and parishes.

Castilian, as the Spanish language was called, began to emerge at the end of the medieval period when Hispanic writers decided to emulate their Italian counterparts and to write in the vulgar language instead of Latin. The first texts, from the 12th century, were with epic poems evoking past heroes and glories ( Mío Cid, Roncesvalles and Los Infantes de Lara) while poems containing narratives (Alexandre and Apolonio) appeared later. In 1490 Alfonso de Palencia published the first vocabulary and in 1492 Antonio de Nebrija published the first grammar. After that, the first dictionary of Latin appears and the Bible is translated into vernacular. The Spanish prose finally came of age with the novels Cárcel de Amor (ca 1480), and La Celestina (1499) and Amadis (1508) which were translated into other languages.

The reverse of the Roman conquest occurred during a period after the discoveries when Portugal and Spain became powerful empires. Under Alfonso V, the Spanish empire gained control over Naples and from then on it was to exert a powerful influence over the entire Europe. This plus the rivalry between the Spanish and the English led the Spanish to publish Spanish dictionaries and Spanish grammars. Now it was the turn of Spain and its language to influence the rest of Europe. Examples of Hispanic influence include sforzato, sforzo, sussiego, grandioso, disinvoltura in Italian; brave, bravoure, désinvolte, grandiose, fanfarrron, in French. The Americanisms that entered in Europe did so via Spanish, with words such as potato, caiman, canoe, cochineal, hammock, hurricane, maize, pirogue and tobacco.

According to Lepesa, the raise of Castilian as a literary language coincided with the decline of Catalan and it was due to the use of Castilian at the court and to the need for unity in internal and external communication. The Castilian language was also spoken in Portugal. Lepesa mentions the bilingualism of the early classic Portuguese writers such as the authors of the Cancioneiro de Resende, Gil Vicente, Camões and Rodrigo Lobo e Melo.

The modern Romance languages came of age during the Renaissance. To Lapesa, this was not just due to the new fashion of reshaping them according to the Greeks and Roman classics, but also because of the new fashion in that period of exulting nature and spontaneity. One of the works of the period worthy of mention is Juan de Valdés 1535 book Diálogo de la Lengua. Just after the Renaissance period came the Golden Age of the Spanish literature, whose greatest work is undoubtly Don Quixote by Miguel de Cervantes, characterized by familiar dialogues and a realistic prose.

After examining the work of other writers of the Golden Age of the Spanish literature, Lapesa moves on to Modern Spanish and the creation of the Spanish Royal Academy in 1713. The latter fomented the Spanish language through the publication of reference books, the republication of various other books including a sumptuous edition of Don Quixote and the stirring of orthographic reforms. The Academy continues to guide the evolution of Modern Spanish especially after the introduction of innumerous Gallicisms and Anglicisms in the 20th century.

The last chapters deal with the variations of Spanish in Spain and in the Americas and the rest of the world. After discussing the archaisms preserved in the Spanish spoken by the Jewish-Spanish communities of Morocco and other parts of Northern Africa and Turkey, who settled in these regions after their expulsion from Spain, Lapesa moves on to the Spanish that was taken to America. He discusses the indigenous influences in the American Spanish and produces a map of Central and South America showing the various linguistic regions based on their preferences regarding and the ‘y-ism’ in the pronunciation of certain consonants.

The American Spanish that resembles most the Spanish of Andalucía is that spoken in the Caribbean and the Antilles, which Lapesa attributes to the migrations that took place in the 16th century and their continued relations with the Canaries. In relation to the continent, the speech of the mountains is closer to that of Castilian than that of the Llanos and the coastal zones. American Spanish shows a divide between the cultivated and the uncultivated form of speech, but so does the Iberian Spanish. In spite of all the differences that the linguists have catalogued there is still a unity in the Spanish language of Iberia and the New World. The increased cultural exchange and communication that appeared in the latter part of the 20th century has staved off the fear of language split.

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Citation:

LAPESA, R. Historia de la Lengua Española. Madrid, Biblioteca Románica Hispánica – Editorial Gredos, 9th ed., 11th rpt 2001. ISBN 84-249-0072-3. Review by: PIRES-O’BRIEN, J. (2010). The history of Spanish. PortVitoria, UK, v. 1, Jul-Dec, 2011. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

 

Joaquina Pires-O’Brien

Book Review of The Horse the Wheel and Language: How Bronze-age Riders from the Eurasian Steppes Shaped the Modern World by David W. Anthony. Princeton University Press, Princeton and Oxford. 2007. ISBN 13:978-0-691-05887-0

David W. Anthony is a professor of anthropology at Harwick College, a small private college in Oneonta, NY, who has conducted extensive fieldwork in Ukraine, Russia and Kazakhstan. His book The Horse the Wheel and Language: How Bronze-age Riders from the Eurasian Steppes Shaped the Modern World, published in 2007, is a well organised synthesis of the theory that places the location of Proto-Indo-European in the steppes of southern Ukraine, Russia and Kazakhstan. He accompanied closely all the archaeological work being carried out in the Eurasian steppes as well as the research on the reconstruction of Proto-Indo-European by comparative linguists. His account swings backs and forth from linguistics to archaeology with his personal interpretation of the archaeological-anthropological cultures at the centre of the theory.

Although Europe and Asia form one super-continent, there is an extensive mountain chain separating them — The Urals, which spans in the north-south direction for more than 2,000 km; they are crossed by a seven thousand long belt of steppes that stretches from Eastern Europe on the west, between Odessa and Bucharest, to the Great Wall of China on the east. The Urals make east-west migration difficult but not impossible, except in the five year period just after the end of the last Ice Age, when the Black and the Caspian Seas on its West side, formed a huge body of water that isolated the inhabitants from either side of what is known as the Ural-Caspian frontier.

The region West of the Urals and north of the Black and the Caspian Seas, referred to as the Pontic-Caspian frontier due to the region above the Black Sea being known by the ancient Greeks as Pontus Euxeinos, is the supposed original place of Proto-Indo-European, the language that originated the 12 branches of the Indo-European language family which in turn originated the languages that originated Sanskrit, Greek and Latin. The precise area is that of the steppes that extend east ways from southern Ukraine and Russia to Kazakhstan. This theory is known as the Kurgan theory, in reference of the Kurgan culture that formed the original speakers of Proto-Indo-European. It surpassed the alternative Anatolian theory proposed by Sir Colin Renfrew, which links the expansion of language to the expansion of agriculture. There are two problems of the latter theory, which places the first separation between the parent Indo-Hittite language and Proto-Indo-European between 6,700 and 6,500, when the Anatolia farmers would have migrated to Greece. The first problem is that the presence of carts in Europe only appears in the archaeological record around 3,500 BCE (Before the Common Era). The second problem is that around that time when the first carts appeared, the Indo-European language should have been more diversified and rich for it would be over three thousand years old.

Anthony’s book contains a massive amount of evidence obtained from archaeology, comparative linguistics, anthropology and geography, including 24 pages of notes on the sources used in each chapter and 38 pages of references. He also took the painstaking job of cross-referencing a variety of sources to compile the tables and to prepare the illustrations he used to build his case. The illustrations include all sorts of maps, diagrams of excavation sites and settlements, ceramics, tools etc. One illustration I found interesting and gruesome compares the maces (large hammers used to crack heads of cattle) of Old Europe, Suvorovo Danube and Transylvania and the Pontic-Caspian steppes.

The big picture that Anthony so well manages to deliver includes the notion that archaeology is not just bones and fragments of objects. There are the thousands of old inscriptions in ceramic fragments which archaeological linguists must decipher, catalogue and compare. Dead languages are reconstructed by contrasting preserved scripts with living ‘fossils’ of live languages – recognised through their irregular forms. As Anthony explains, the process of discovery of the homeland of Proto-Indo-European started by seeking the earliest phase of Indo-European, that is, the oldest of the Indo-European languages. It is a complex process that involves examining the ancient vocabularies preserved in the archaeological record or reconstructed by some indirect means.

The oldest branch of Indo-European was Anatolian, from which stems three branches: Hittite, Luwian and Palaic, all of which extinct. Of these the best known is Hittite, which was spoken by the Hittite Empire. Central Anatolia, a region that comprises Kayseri, in modern Turkey, was occupied by the Hittites as early as 1900 BCE, although the Hittite empire there was created later, between 1650 and 1600 BCE. The dating of Proto-Anatolian was estimated at 3,400 BCA, based on the date when Luwian and Hittite would have separated. The next question was when did the root of the Anatolian branch separated from the rest of Proto-Indo-European.

In the ‘Old Europe’ that existed before the arrival of the Indo-Europeans, there were farming communities in the Danube valley which were “technologically advanced and aesthetically sophisticated”. In the Eurasian steppes just north of the Black Sea, lived a culture of Neolithic pioneer herders that arrived there at around 5,800 BCE and whose cattle could have originated from the Danube valley, through the Caucasus Mountains. The harsh environment of the Eurasian steppes “laid the foundation for the kinds of power politics and rituals that defined early Proto-Indo-European culture”. Their social organisation gradually became more complex and their culture prospered. They could convert grass, make textiles, tents and clothing and how to produce yogurt and cheese. They even composed poetry and valued it as a currency. In contrast to them, on the East side of the Urals, which had been cut off from the West side by the large sea that appeared after the last Ice Age, lived a much more primitive human society whose inhabitants rejected the domestication of cattle and remained foragers for the next few thousands of years. Both societies West and East of the Urals remained separated from the civilised world for thousands of years, until the society on the West acquired the habit of horseback ridding and created a corridor connecting themselves to the other civilizations.

Anthony’s account describes the construction of maps of the various regions of the ancient world showing where there were horses and carts, from bones (especially teeth) and wheel parts preserved in the archaeological record. After the peoples who lived west of the Urals developed the habit of horseback ridding, sometime before 4,200 BCE, a corridor of transcontinental communication was created putting an end to their isolation from the civilised world.

The oldest reconstructed Indo-European languages such as Imperial Hittite, Mycenaean Greek and the most ancient forms of Sanskrit (or Old Indic) allowed scholars to describe their cultures as “militaristic societies that seemed to erupt into the ancient world driving chariots pulled by swift horses”. The chariots empowered the Proto-Indo-European culture to penetrate into Old Europe at about 4,200 BCE and to spread themselves to the rest of the continent. The archaeological record shows that the old warfare was firstly based on chariots and that the cavalry of mounted archers only appeared around 800 BCE. It also shows that between 1700 and 700 BCE the chariots were the favoured weapons of pharaohs and kings throughout the ancient world, which in turn suggests that the Indo-European speakers could have been the first to have chariots.

Anthony’s account of the Kurgan theory that places the oldest speakers of Proto-Indo-European in the Eurasian steppes is fully documented by the archaeological record and is consistent with all other historical evidence. The association between man and his horse made all the difference not just in surviving but also for the development of the intellect. He shows how the same warriors in horse driven carriages who created havoc as they penetrated into Europe could also sing, give prayers to their gods and praise their past heroes in epic oral poems. Anthony’s narrative showing how the horse and the cart gave the inhabitants of the Pontic steppes the edge to survive and thrive is a well documented work of synthesis and one of the most fascinating reads that I have discovered in recent years.

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Citation:

ANTHONY, D. W. The horse the wheel and language: how Bronze-age riders from the Eurasian steppes shaped the Modern World. Princeton and Oxford, Princeton University Press, 2007. ISBN 13:978-0-691-05887-0. Review by: PIRES-O’BRIEN, J. (2010).The strategic partnership of man and his horse. PortVitoria, UK, v. 1, Jul-Dec, 2011. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left (Tolos, fraudes e incendiários. Pensadores da Nova Esquerda), de Roger Scruton. London, Bloomsbury, 2015.

O que é Esquerda? O que é Direita? O que é Nova Esquerda? Essas são algumas das perguntas que Roger Scruton explora no seu livro Fools, frauds and firebrands (Tolos, fraudes e incendiários, inédito em português). Esse título abrasivo está, sem dúvida, relacionado com o permanente confronto do autor com a Nova Esquerda. Nele, Scruton descreve como os acadêmicos e outros intelectuais da Nova Esquerda se empoderaram, unindo-se contra o inimigo comum – o capitalismo e sua burguesia –, bem como adotando um linguajar idiossincrático próprio, semelhante ao newspeak  da fictícia sociedade totalitarista de George Orwell. Contrariamente àquilo que o provocante título possa sugerir, o tratamento de Scruton à Nova Esquerda é mais bondoso do que o tratamento que ele recebeu dos partidários desta, os quais puseram nele o rótulo calunioso de ‘sectarista da direita’. No seu estilo franco, sem picadinho ou newspeak, Scruton disseca o irracionalismo por detrás do ataque da Nova Esquerda a tudo aquilo que torna a sociedade possível – propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo e instituições –, mostrando que tal ataque tem sido feito na crença de que o mesmo vai levar a uma sociedade com absoluta   igualdade. Ele também sublinha a injustiça da Nova Esquerda em comparar a sua perfeita sociedade imaginada com a sociedade real.

Qualquer pessoa de fora que esteja familiarizada com o liberalismo britânico ficaria chocada em descobrir que o livro de Scruton, Thinkers of the New Left, publicado em 1985, sua primeira tentativa de perseguir este assunto, foi retirado das livrarias pela editora devido à pressão recebida do establishment  acadêmico. Qualquer semelhança disso com os julgamentos de hereges do Antigo Regime deve-se ao fato de que a ideologia da Nova Esquerda gozou um status dogmático parecido. Entretanto, o dogmatismo da Nova Esquerda dissolveu-se três anos depois com a queda do Muro de Berlim, que desencadeou o processo de desintegração da antiga União Soviética. Scruton conecta os dois eventos quando afirma que decidiu reescrever o livro em 1989, momento no qual ‘as pessoas começaram a perceber que nem tudo o que foi dito, pensado ou feito em nome do socialismo foi intelectualmente respeitável ou moralmente certo’.

Num capítulo especial, Scruton examina como a Nova Esquerda desenvolveu a sua ‘consciência revolucionária’ que causou as guerras da cultura da década de 1980. O processo retroage à década de 1960, quando o desaparecimento da real classe dos trabalhadores na Grã-Bretanha e noutras partes do Ocidente criou as condições perfeitas para a Nova Esquerda emergir. Primeiro, os intelectuais procuraram ser reconhecidos como membros honorários da classe dos trabalhadores e, em seguida, começaram a fazer uma revolução em nome desta, a ser travada no mundo dos livros. Eis como Scruton a descreve:

Pela primeira vez era possível observar de perto a ‘consciência revolucionária’, sem incorrer em nenhum risco de violência, tirando a violência das palavras. Em particular, era possível observar a rapidez e a destreza com que a mensagem da esquerda era envolvida em dogma, quão energeticamente os novos revolucionários levavam adiante o negócio de inventar perguntas falaciosas, polêmicas inúteis e pedantismos arcanos, a fim de  desviar quaisquer interrogações intelectuais para longe das perguntas fundamentais, cuja necessidade emocional implorava um favorecimento, incluindo a questão da própria revolução: o que é exatamente uma revolução e para que serve?

Ao descrever o surgimento da Nova Esquerda na Grã-Bretanha, Scruton reflete sobre as idiossincrasias da sociedade britânica que facilitaram o processo, tais como a tradição britânica de tratar os historiadores como líderes no mundo das ideias e a sua tradição ímpar de crítica social e literária. Ele lembra mudanças nas instituições de ensino superior britânicas tão cedo quanto 1964, as quais, em sua opinião, marcaram a transição da Velha Esquerda para a Nova Esquerda. Scruton também descreve as opiniões dos socialistas britânicos mais influentes da época, tais como escritor e crítico galês Raymond Williams (1921-88), e os historiadores socialistas que forneceram versões socialistas da Revolução Industrial. Essas mudanças marcaram o início da revolução intelectual pelo controle da cultura. Na Grã-Bretanha, tais mudanças concentraram-se nos departamentos de humanidades, nos quais o antigo currículo baseado nos padrões objetivos do Iluminismo foi aos poucos substituído por um currículo pós-moderno guiado pelo consenso.

Scruton também descreve os primeiros dias da Nova Esquerda em outros países. Na Alemanha, os principais condutores da Nova Esquerda foram os professores e pensadores afiliados ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. A Escola de Frankfurt, como é melhor conhecida, foi a pioneira na ideia do ‘humanismo marxista’. Embora tivesse sido fechada em 1933 pelos nazistas, apenas três anos depois de ter sido fundada por Max Horkeheimer (1895-1973), ela sobreviveu através da cooperação com universidades nos Estados Unidos, voltando a funcionar em Frankfurt em 1951. Além de   Horkeheimer, a Escola de Frankfurt incluiu muitos dos grandes nomes da Nova Esquerda como Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm (1900-80) e Theodor Adorno (1903-69). Scruton critica o fato de os membros da Escola de Frankfurt que tiveram a oportunidade de continuar as suas carreiras no ensino superior nos Estados Unidos não terem retribuído com a mesma moeda. Horkeheimer e Adorno deslancharam um ataque sem descanso   ao Iluminismo, proclamando que o mesmo era um produto do raciocínio burguês, enquanto que Marcuse denunciou a ‘repressiva tolerância’  dos Estados Unidos e ‘o universo totalitário do racionalismo tecnológico’. Jürgen Habermas (1929-), o representante ainda vivo da Frankfurt School, é exonerado de culpa por ter sobrepujado a sua agenda absurda.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda nos Estados Unidos ressalta o pragmatismo de Richard Rorty (1931-2007) e de Edward Said (1935-2003), encapsulados por um conjunto de ideias relativistas segundo as quais ‘não importam as velhas ideias de objetividade e verdade universal, pois tudo o que importa é aquilo que foi concordado.’ Segundo Scruton, tanto Rorty quanto Said puseram dúvidas na mente americana e tentaram subtrair da herança cultural americana a crença em sua própria legitimidade. Rorty introduziu a ideia de um currículo novo e pós-moderno, para substituir o currículo antigo baseado no Iluminismo. No caso de Said, Scruton afirma que ele menosprezou e envenenou a maneira como o Ocidente retratou o Oriente, contudo nunca considerou a maneira como o Oriente retratou o Ocidente. Os ataques de Said incluíram não apenas os especialistas vivos, mas todo o saber ocidental, o que Scruton apresenta como uma evidência da miopia de Said. Entretanto, o que aconteceu no final das contas foi que o livro seminal de Edward Said, Orientalism, foi posteriormente exposto como sendo resultante de um estudo mal conduzido, quando Robert Irwing expôs seus erros, descuidos e mentiras descaradas. Scruton completa a sua crítica a Rorty e Said, mostrando os ótimos exemplos de Estudos Orientais que vieram do Iluminismo: a tradução francesa do livro As mil e uma noites, feita por Antoine Galland em 1717, a tradução alemã da coleção de poemas persas West-Östlicher Diwan, feita por Johann Goethe, e a tradução inglesa do livro Rubaiyat de Omar Khayan, por Edward FitzGerald. Scruton complementa seus exemplos, citando a dedicação de sir William Jones para preservar a poesia persa e árabe e a elaboração do seu estudo pioneiro sobre as línguas indianas.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda inclui a construção de sua própria marca, diferente da marca da Velha Esquerda. Ele também aponta duas coisas importantes que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda: o hábito de criar cultos em torno de figurões e o linguajar. Após reconhecer a necessidade de um líder representativo exclusivo, os teóricos da Nova Esquerda escolheram Antonio Gramsci (1891-1937), um comunista revolucionário italiano que foi preso pelo governo fascista, de 1926 até a sua morte aos 46 anos de idade. Houve motivos que fizeram com que escolhessem Gramsci em vez de outro qualquer. O primeiro foi a ideia da ‘práxis revolucionária’ de Gramsci com a qual ele nutria a esperança de criar uma nova e objetiva cultura hegemônica que substituísse a cultura burguesa. Em resumo, a ideia de Gramsci consistia de dar prioridade à ‘prática’ sobre a ‘teoria’ e encaixava-se bem com a mensagem que a Nova Esquerda queria expressar. O segundo foram as circunstâncias da morte de Gramsci numa prisão fascista, um fato que dá crédito ao espectro político concebido pela Nova Esquerda, no qual o comunismo está localizado numa extremidade e o fascismo na outra. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

A existência de um espectro político, no qual a extremidade ‘Esquerda’ é o presumido domínio de todas as coisas ‘intelectualmente respeitáveis ou moralmente corretas’ e a extremidade ‘Direita’ o presumido domínio do oposto, é um disparate total para Scruton. Numa tentativa de jogar alguma luz sobre o tópico, Scruton mostra como os termos ‘Esquerda’ e ‘Direita’ se originaram, nos primeiros dias da França pós-revolucionária. Quando a possibilidade de transformar a França numa Monarquia Constitucional estava sendo considerada, os Estados Gerais, uma entidade representativa do clero (Primeiro Estado), da nobreza (Segundo Estado) e do povo comum (Terceiro Estado), que não se reunia desde 1614, foi reconvocada. Na Assembleia de 1789, os representantes do povo sentaram-se à esquerda do Rei Luís XVI, enquanto que os demais sentaram-se à sua direita. Esse evento marcou o início da associação da Esquerda com o povo e da Direita com a elite. Desde então, muitos truques foram empregados para esticar o significado da Esquerda para incluir anarquistas, marxistas dogmáticos, niilistas e liberais do estilo americano, e, para juntar, na Direita, fascistas, nazistas e liberais econômicos. Scruton fecha o seu argumento, relevando o denominador comum que une o comunismo e o fascismo:

O comunismo, como o fascismo, envolvia a tentativa de criar um movimento popular de massa e um Estado que fossem unidos sob um partido único no qual há uma coesão total em torno de um objetivo comum. Envolvia a eliminação da oposição, por qualquer meio, e a substituição da disputa ordenada entre partidos pela ‘discussão’ clandestina dentro de uma única elite governante. Envolvia assumir – ‘em nome do povo’ – o controle dos meios de comunicação e educação, e incutir uma base de comando através da economia.

Uma linguagem especial e idiossincrática é a outra característica que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda. Scruton a descreve como “um desdenhoso linguajar marxista criado para denunciar, exortar e condenar”. Ele também busca mostrar as similaridades entre o linguajar da Nova Esquerda e o newspeak, a língua oficial do país Oceania, no livro de Orwell, Mil novecentos e oitenta e quatro. Scruton descreve o newspeak como “uma nova língua fortificada, criada com o propósito de criar uma ‘política de verdade’ a ser empregada no lugar da verdade em si.” Esse linguajar, de acordo com Scruton, inclui o efeito maniqueísta em palavras, a fim de enganar as pessoas, fazendo com que pensem que só há duas alternativas, como na manipulação do significado de certas palavras como ‘capitalismo’ e ‘burguesia’. Ao apresentar a palavra ‘capitalismo’ como um sinônimo de exploração, a Nova Esquerda arranja uma desculpa para condenar economias livres. Ao apresentar a palavra ‘burguesia’ como ‘uma classe hegemônica de pessoas com propriedade que controlam os meios de produção e, por assim fazer, exploram a classe dos trabalhadores ou proletariado’, a Nova Esquerda justifica a sua chamada para a guerra entre classes. Scruton admite que muitas das coisas erradas da sociedade britânica identificadas pela Nova Esquerda são verdade, mas ele objeta com a forma através da qual a Nova Esquerda descreve tais erros, arranjando as acusações de uma forma tal que não deixa nenhum espaço para a defesa, quer pelas pessoas apontadas quer pelo sistema no qual tais erros estão inseridos.

O ponto central que Scruton acentua em Fools, frauds and firebrands é que a Nova Esquerda não está comparando coisa com coisa quando justapõe o seu projeto contra a Civilização Ocidental. A Grã-Bretanha pode ter muitas falhas, mas é uma sociedade real. Não é o caso do ‘Reino dos Fins’ (Kingdom of Ends), termo que Scruton usa para descrever a sociedade de perfeita igualdade imaginada pela Nova Esquerda.

Ele termina o seu livro defendendo a sua posição de que a Grã-Bretanha deve permanecer como é e apontando que quaisquer melhorias devem vir de dentro. Melhorias devem ser feitas através do aperfeiçoamento das sociedades civis, das instituições e da personalidade. Por sociedades civis, Scruton quer dizer os pequenos pelotões que existem em todo o país, tais como bandas de música, grupos de estudos, corais, clubes de críquetes, danças, clubes de férias etc. Como exemplos de instituições, Scruton cita organizações profissionais, tais como os ‘Inns of Court’, quatro organizações da profissão do direito na Inglaterra, embora essas sejam também sociedades civis. Por personalidade, Scruton quer dizer a agência e a responsabilização dos indivíduos e das instituições que os acolhem. A despeito de sua antipatia pela terminologia do espectro político, Scruton descreve o que a Direita representa:

A Direita baseia a sua defesa na representação e na lei. Advoga instituições autônomas que medeiam entre o Estado e o cidadão, e uma sociedade civil que cresce de baixo para cima sem pedir permissão aos seus governantes. Enxerga o governo da mesma forma que todas as questões responsabilizáveis: não como uma coisa, mas como uma pessoa. Tal governo responde a outras pessoas: ao cidadão individual, às corporações e a outros governos. É também responsabilizável perante a lei. Tem direitos contra os cidadãos individuais, mas também deveres para com os mesmos: é tutor e companheiro da sociedade civil, o objeto das nossas piadas e o ocasional recebedor da nossa irritação. Situa-se perante nós numa relação humana, e essa relação é mantida e vindicada pela lei, perante a qual apresenta-se como uma pessoa dentre outras, em pé de igualdade com aqueles que estão também sujeitos à sua soberania.

Tal Estado tem como acomodar e barganhar. Reconhece que é obrigado a respeitar as pessoas não apenas como um meio mas como fim por si próprias. Tenta não liquidar a oposição, mas acomodá-la, e os socialistas têm também um papel nesse processo, desde que reconheçam que nenhuma mudança, nem mesmo as mudanças em suas direções preferidas, é ou deve ser irreversível.

Muitas das ideias do livro Fools, frauds and firebrands de Scruton serão cuidadosamente consideradas pelos seus admiradores do Leste Europeu e da América Latina, muito embora ele o tenha escrito pensando na Grã-Bretanha. Scruton deseja preservar a Grã-Bretanha, porque ele a ama e porque acredita que merece ser preservada. Ele também acha que, caso a ideologia da Nova Esquerda se torne realidade, o resultado será a escravidão. A chamada de Scruton para preservar a sociedade não exclui microajustes. Entretanto, antes de se decidir quais ajustes são necessários, as pessoas precisam compreender os dois componentes básicos da sociedade: o Estado e a sociedade civil. Na visão de Scruton, a sociedade civil é que deve aplicar mudanças ao Estado e não o contrário. Assim sendo, todas as mudanças devem vir de baixo para cima, a partir de mudanças dentro das pessoas. Somos nós que precisamos mudar para uma vida que leve ao autoconhecimento, o qual por sua vez nos permitirá reconhecer que a nossa felicidade depende do desejo das coisas certas, ao invés das coisas que capturam a nossa atenção ou que inspiram a nossa luxúria. Tais sugestões ressonam como ideias frequentemente associadas com a Esquerda e, por conseguinte, ilustram o contrassenso do espectro político.

Scruton não acha que tudo o que os pensadores da Nova Esquerda escreveram está errado. Em sua avaliação de Gramsci, por exemplo, embora Scruton tivesse qualificado a obra deste como uma ‘sociologia do bom senso’ ao invés de filosofia de ponta, ele reconheceu nele uma ‘franqueza que os marxistas ortodoxos não tinham’. Para Scruton, Gramsci ‘foi enfraquecido pelo repúdio da própria noção de objetividade e pela obra essencialmente negativa do professorado na América’. Essa visão sugere que Scruton entendeu Gramsci melhor do que aqueles que o glorificaram.

Fools, frauds and firebrands de Roger Scruton é produto do embate de toda uma vida do autor contra a Nova Esquerda e a nova ordem de coisas que a Nova Direita buscou introduzir na Grã-Bretanha. Scruton viveu consideráveis tormentas em resultado desse embate, e isso pode explicar o veio de pessimismo que ele revela no final desse livro, sob a forma de perguntas deixadas sem respostas. Se os professores das universidades mais prestigiadas do Ocidente podem se enganar dessa forma, que esperança pode haver para o restante da humanidade? Se a espécie humana possui uma carência religiosa intrínseca que nenhum pensamento racional consegue vencer, por acaso isso não torna todos os argumentos sem significado? Se as pessoas são muito mais predispostas ao abstrato do que ao concreto, qual é o ponto em defender aquilo que é meramente real? Essas perguntas servem como alimento de reflexão para todos aqueles que amam o seu país e desejam preservá-lo. Talvez fosse isso o que Scruton tinha em mente quando as formulou.

                                                                                                                                                                                   

Jo Pires-O’Brien edita uma revista digital chamada PortVitoria, sobre a cultura ibérica e sua diáspora no mundo.

 Key words: Fools, frauds and firebrands, Roger Scruton, Richard Rorty, Edward Said, Lenin, Stalin, Mao, Ho Chi Minh, Che Guevara, Antonio Gramsci, Newspeak, New Left, Old Left, guerra das culturas, Raymond Williams, Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse , Erich Fromm, Max Horkeheimer, Theodor W Adorno, Jürgen Habermas, György Lukács, humanismo marxista;

 

Revisão: Débora Finamore

 Citation:

SCRUTON, ROGER. Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left. London, Bloomsbury, 2015. Resenha de PIRES-O’BRIEN, J. Sem Picadinho, sem Newspeak. PortVitoria, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Jenny McPhee

Review of the book Complete Stories, by Clarice Lispector. New York, New Directions, 2015. ISBN: 9780811219631.

Of all the eclectic posts on my Web site blog, the one that has consistently received the most views over the years contains two stories by the Brazilian writer Clarice Lispector translated by the poet Elizabeth Bishop. A link to my post regularly turns up on syllabi all over the world. Since her death in 1977, Lispector’s stature as a writer has grown so great in Brazil that she has become a household name. Elsewhere, her work, especially her stories, has remained relatively unknown and untranslated, hard to find except in random corners of the Internet.

Benjamin Moser, author of the excellent biography Why This World: A Biography of Clarice Lispector (2009), has devoted much of his career to bringing this wonderfully weird writer to a wider audience. In 2012, Moser oversaw the translation and publication of four of her nine novels by New Directions: Near to the Wild Heart, A Breath of Life, Água Viva, and The Passion According to G. H. Now he has edited the Complete Stories (also for New Directions), an unprecedented single-volume collection of all eighty-four of Lispector’s stories from the first, written when she was a teenager, to the last, published posthumously.

When I first read Lispector in the 1980s, I fell deeply, inexplicably in love. I wanted to know her work inside and out; I wanted to know everything about her. I read all I could find, which was not much and mostly in French translation as she was a darling of the French feminists. Hélène Cixous described her as what Kafka would have been had he been a woman, or if Rilke had been a Jewish Brazilian born in the Ukraine. If Rimbaud had been a mother, if he had reached the age of fifty. If Heidegger could have ceased being German.

No author before Lispector had ever spoken to me so directly, so obliquely, challenged me at once drastically and playfully to move to new places within and beyond language, within and beyond the body. No author had ever shown me so clearly, forcefully, profoundly, and humorously how the female experience is the human experience.

As Moser notes in his introduction to Complete Stories, however, Lispector is not for everyone. A reader’s love for her work usually comes immediately and instinctively. Many don’t get her. Her prose can be deliberately messy; whatever plot there is is often located in her characters’ wandering minds. Traditional narrative, logic, and linearity are of little interest to her. So what makes me love her? Is it because, as Moser writes, “her sympathy for silent and silenced women haunts these stories”? Is it because she gleefully, brutally, mystically, physically breaks all the rules and creates her own literary tradition? It certainly has much to do with the fact that I can’t fully articulate why.

Reading this collection, Moser notes, is to “follow a lifetime of artistic experimentation through a vast range of styles and experiences.” Seen, I would add, through a peculiar feminine gaze. Also animating her work is what Moser calls “an essentially spiritual impulse.” His biography extensively explores Lispector’s roots in Jewish mysticism: “As the Kabbalists found divinity by rearranging letters, repeating nonsensical words, parsing verses, and seeking a logic other than the rational, so did Clarice Lispector.” In their odd yet quotidian observations replete with a strange grammar, Lispector’s stories contain the weight and wonder of the world.

Lispector’s own life contained much weight and wonder. Born in Western Ukraine to Jewish parents, her family was constantly threatened by the pogroms of the Russian Civil War. Her mother contracted syphilis after being raped by a Russian soldier; in the belief that pregnancy would cure her of the disease, Lispector was conceived. Two years later, the family fled to Recife in Brazil, and nine years later her mother died. The family then moved to Rio; with her father’s encouragement, Lispector pursued an education and eventually enrolled in Rio’s prestigious law school, supporting herself through journalism. At the age of twenty-three, she published her first novel, Near to the Wild Heart, to overwhelming acclaim. Soon after, she married a diplomat and spent the next fifteen years living abroad, struggling with her writing career, as well as raising two sons.

In her stories, Lispector writes about, among many things: a chicken who lays an egg; an octogenarian’s sexual desire; an ontological alarm clock; a pygmy woman from equatorial Africa; an encounter between a bourgeois woman and a homeless man; a woman’s search for carnage at the Zoological Gardens. She can be philosophically grand—“What matter am I made of in which elements and foundations for a thousand other lives mingle but never merge? I go down every path and still none is mine”—but mostly dwells in the philosophically mundane: “Something uneasy was happening. Then she saw: the blind man was chewing gum.” Among the earlier stories’ dominant themes is the discombobulation of young women as they realize they must learn to exist in a man’s world: “Little by little I was adapting,” she writes in “Jimmy and I,” “to his elongated head.”

In the middle and later stories, Lispector focuses on the female condition from a more mature perspective:  “She’d been married for twelve years and three hours of freedom had restored her almost entirely to herself: –the first thing to do was to see if things still existed” (“The Escape”); “Would anyone happen to see, in that tiniest point of surprise lodged in the depths of her eyes, would anyone see in that tiniest affronted speck the lack of the children she’d never had?” (“The Imitation of the Rose”). She offers advice: “I would like to tell you that having passions does not mean living beautifully, but rather suffering pointlessly… If you cannot free yourself from desiring passions, read novels and adventure stories, for that is also why writers exist” (“Letters to Hermengardo”). She reflects on the writing process: “My entanglement comes from how a carpet is made of so many threads that I can’t resign myself to following just one; my ensnarement comes from how one story is made of many stories” (“The Disasters of Sofia”). Lispector’s similes can be hilarious: “Everyone exchanged polite glances, smiling blindly, abstractedly as if a dog had peed in the room” (“Happy Birthday”); and her metaphors astonishing: “Yet feelings are the water of an instant” (“The Foreign Legion”).

Much praise is to be heaped on Katrina Dodson for her translation of these stories. She has conveyed in English Lispector’s distorted grammar, syntax, and punctuation, maintaining both the purposefully foreign feeling of the language as well as its odd fluidity and overall command. As a translator myself, I am always intrigued by how inevitable untranslatability is handled. For example, Lispector’s story “A Hope” revolves around the dual significance of the Portuguese word esperança as both “cricket” and “hope.” Dodson handles this tricky problem quite brilliantly.

As Moser writes of Lispector: “Hers is an art that makes us want to know the woman; she is a woman who makes us want to know her art.” Her genius, however, is that as much of herself as she offers in her writing, she remains rigorously unknowable—as we all are. The Complete Stories will make the great Clarice Lispector much more widely unknown.

                                                                                                                                   

Jenny McPhee’s books include A Man of No Moon, No Ordinary Matter, The Center of Things, and Girls: Ordinary Girls and their Extraordinary Pursuits. Her most recent translations are of Primo Levi’s short story collections Flaw of Form and Natural Histories.

 

Notes

Copyright 2015 Jenny McPhee

Source: Book Review From the September 2015 issue: Geography of the Peruvian imagination. http://www.wordswithoutborders.org/book-review/clarice-listpector-complete-stories-knowing-the-unknowable-clarice#ixzz3w4XhEA7m

 Citation

LISPECTOR, C. Complete Stories. New York, New Directions, 2015. Review by: MCPHEE, J. Knowing the Unknowable Clarice. PortVitoria, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Débora P. Finamore

Resenha do livro Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes de Saavedra. (Tradução de Ernani Ssó; introdução de John Rutherford; posfácios de Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia.) São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2012.

Miguel de Cervantes só obteve o sucesso literário aos 57 anos, com a publicação da primeira parte de Dom Quixote, em 1605. Muitos leitores desconhecem o fato de a obra mais famosa de Cervantes ter sido publicada em duas partes, com um intervalo de dez anos entre elas e com uma segunda parte apócrifa de permeio.

A saga do Engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, escrita em prosa e em língua vulgar, surge como uma paródia dos ainda populares romances de cavalaria que vieram a público a partir do século XII. Cervantes, portanto, busca desconstruir com ironia e humor uma literatura cuja hegemonia perdurava há aproximadamente 500 anos.

Na primeira parte (O engenhoso fidalgo dom Quixote de La Mancha ), dividida em 52 capítulos, um narrador que revela estar fazendo um relato de segunda mão – a história teria sido escrita pelo historiador árabe Cide Hamete Benengeli que, como veremos mais adiante, trata-se de um alter ego de Miguel de Cervantes – narra duas viagens de um fidalgo de sobrenome Queixada ou Queijada que beirava os 50 anos, possuía compleição rija e rosto enxuto, era seco de carnes, grande madrugador e amante da caça. Tal fidalgo, em determinado momento de sua vida, dera para ler nas horas ociosas – que eram muitas – romances de cavalaria, e apenas romances de cavalaria.

Esse é o fato que o leva a empreender sua primeira viagem (capítulos 1 a 5) já intitulando-se dom Quixote, mesmo que só venha a ser sagrado cavaleiro alguns capítulos depois por um vendeiro em cuja casa se hospeda (capítulo 3).

A segunda viagem (capítulos 7 a 52) já será feita em companhia de Sancho Pança, um vizinho lavrador, elevado à condição de escudeiro do dito cavaleiro. Nessa viagem, entre tantos episódios célebres, ocorre o embate contra os moinhos de vento; moinhos de vento para Sancho e para nós, os leitores ‘realistas’, gigantes para o visionário dom Quixote.

A primeira parte do livro finda com o segundo retorno de dom Quixote a sua casa, depois de passar por muitas peripécias, que vão transformando os olhares do cavaleiro e do escudeiro — dom Quixote começa a ver não apenas com a lente do ideal, mas também com a do real; Sancho Pança, por sua vez, se deixa encantar pelos ideais da cavalaria e da arte. Todavia, o ladino narrador diz-nos ter encontrado novos relatos do Quixote os quais nos promete apresentar em breve ocasião.

Embora o livro (essa primeira parte) fizesse enorme sucesso – só a Bíblia o ultrapassava em número de vendas –, quase dez anos se passaram sem que Cervantes desse ao público a prometida segunda parte. Nesse vácuo, um escritor de pseudônimo Alonso Fernadez de Avellaneda publicou, em 1614, a continuação das aventuras de dom Quixote e Sancho Pança. Mesmo sem a maestria do original, o texto apócrifo alcançou algum sucesso. Possivelmente movido por esta intrusão autoral, contra a qual o criador não poderia lutar, visto que o livro inautêntico fora publicado com a devida aprovação da Igreja e do Rei, Cervantes pôs-se a escrever a sua segunda parte, a qual veio a lume em 1615.

Na segunda parte (O engenhoso cavaleiro dom Quixote de La Mancha ), dividida em 74 capítulos, a terceira e última viagem de dom Quixote é narrada pelo mesmo narrador de segunda mão, desta vez ainda mais ladino, na medida em que intensifica as marcas do texto cervantino que justificam o fato de Miguel de Cervantes ser considerado um divisor de águas entre a literatura antiga e a literatura moderna. Uma dessas marcas encontra-se na inversão e na duplicação do paradoxo entre ‘real’ e ‘ideal’ – o razoável Sancho embarca cada vez mais na fantasia, enquanto o louco dom Quixote recobra pouco a pouco sua lucidez.

Nessa parte, embora o cavaleiro ainda vivencie muitas de suas tresloucadas aventuras, o que chama atenção do leitor é o fato de o cavaleiro se aproximar cada vez mais do real que abandonara em nome do ideal motivador de suas duas primeiras viagens. Logo no início (capítulo 10), dom Quixote pede a Sancho que promova um encontro entre ele e sua amada; Sancho, fazendo o jogo fantasioso do cavaleiro, apresenta-lhe três lavadeiras como sendo Dulcineia del Toboso e suas aias. Dom Quixote, então, surpreende Sancho e o leitor, quebrando o jogo fantasioso, ao dizer que vê somente três lavadeiras montadas em seus burricos.

O uso da metalinguagem é outra das marcas do texto cervantino que justificam sua modernidade. Nessa segunda parte, o narrador desdenha com preciso sarcasmo a obra apócrifa de Avellaneda, explicitando a autoria da mesma em vários episódios. Num deles (capítulo 59), o cavaleiro e seu escudeiro encontram, em uma estalagem, dois fidalgos, dom Juan e dom Jerônimo, que leem a segunda parte apócrifa das aventuras de dom Quixote. Tanto ele como Sancho discutem com os cavaleiros, renegando a versão apresentada, por essas conter muitos erros em relação ao dom Quixote “real”; por exemplo, dom Quixote se indigna de o falso autor o apresentar já desenamorado de Dulcineia del Toboso. Noutro episódio (capítulo 70), uma personagem, Altisidora, sonha com diabos que jogam livros como se jogassem bola, e, entre os livros que serviam como bola, encontra-se a falsa segunda parte de Avellaneda. Ainda num outro episódio (capítulo 72), a autoria verdadeira e a autoria falsa da história de dom Quixote, ou seja, a versão de Cide Hamete (alter ego de Miguel de Cervantes) e a versão do autor tordesilhesco (Cervantes não se digna a nomear Alonso de Avellaneda, refere-se a ele apenas pelo adjetivo gentílico) são colocadas em xeque no encontro que se dá, em uma hospedaria, entre Sancho Pança, dom Quixote e dom Álvaro Tafer. Este último é um personagem do livro de Avellaneda, tido como amigo de dom Quixote que, entretanto, não vê nenhuma semelhança entre o dom Quixote do tordesilhesco e o cervantino que se encontra à sua frente.

O ápice dos paradoxos — real x ideal; verdadeiro x falso; loucura x sanidade; vida x arte —, desenvolvidos nas partes 1 e 2 da saga do Dom Quixote de la Mancha, se dá no capítulo final (capítulo 74). Nesse capítulo, dom Quixote faz seu testamento como Alonso Quixano, o Bom e nosso narrador de segunda mão assume sua condição de autor único e ‘verdadeiro’ do personagem Quixote/Quixano.

Há, no Brasil, dezenas de edições brasileiras da tradução lusitana do Dom Quixote feita pelos viscondes de Castilho e de Azevedo, publicada em Portugal desde 1876 e no Brasil desde 1898 até o momento presente.

Já a primeira tradução brasileira de que se tem notícia foi feita por Milton Amado e Almir de Andrade (editora José Olympio), em 1952. Três décadas depois, em 1983, aparece a tradução de Eugênio Amado (editora Itatiaia). Com a chegada do século XXI, que marca o quadricentenário da obra-prima de Miguel de Cervantes, novas traduções brasileiras vem sendo lançadas. Alguns exemplos: a de Sérgio Molina (editora 34), em 2002 e 2007; a de Carlos Nougué e José Luis Sanchez (editora Record), em 2005; e a de Ernani Ssó (Penguin/Companhia das Letras), em 2012. Essa resenha tomou como texto base essa última tradução.

                                                                                                                                               

Débora P. Finamore é colaboradora e membro do conselho editorial de PortVitoria.

Citação

CERVANTES DE SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. (Tradução de Ernani Ssó; introdução de John Rutherford; posfácios de Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia.) São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2012. Resenha de FINAMORE, D. P. A desconstrução criativa de Miguel de Cervantes. PortVitoria, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com