Kingsley L. Dennis

O celebrado pensador Edward de Bono apontou, que “Se todos estão indo numa mesma direção, qualquer um que esteja indo numa direção diferente está ‘errado’. A outra direção pode ser melhor – mas ainda assim está errada.”

Assim é a poderosa força de atração do conformismo social. As pessoas não se sentem confiantes em dizer e fazer o que pensam ser certo, se os outros a seu redor estão todos expressando uma opinião contrária. Isso se deve ao fato de que a atração do conformismo social, seja ela consciente ou inconsciente, é demasiadamente forte. O perigo aqui é que, em ambientes desse tipo, uma pessoa fica muito mais propensa a entregar a sua responsabilidade pessoal do que a agir por si mesma. Um grupo é, no geral, mais propenso a exibir falta de responsabilidade por parte de seus membros, pois cada pessoa pensa que a responsabilidade geral pode ser compartilhada. Como não há nenhuma inculpação individual a ser contabilizada, uma pessoa tende a renunciar à sua própria responsabilidade. O resultado disso é que cada pessoa dá suporte à inércia da outra. Desse modo, a inação torna-se, de fato, a norma aceitável dentro do grupo. Essa inércia é posteriormente reforçada e validada, muitas vezes através da renúncia do indivíduo a seus valores, já que muito já foi investido no grupo.

Estar errado pode causar muita ansiedade a um indivíduo; portanto, o melhor é racionalizar as ações de alguém como estando corretas. Esse ‘medo da responsabilidade’ é um produto da socialização que torna um indivíduo menos capaz de lidar fluidamente com as incertezas e as complexidades inerentes da vida plena. O resultado é a tendência de as pessoas a preferirem se submergir dentro da ‘massa’; em outras palavras, ser uma parte silenciosa do comportamento coletivo da multidão. E é exatamente esse tipo de comportamento que tem sido repetidamente aproveitado pelos ditadores e pelos ‘líderes’ espertalhões como uma forma de ganhar autoridade e legitimação.

A obediência às figuras de autoridade[i] é uma característica que há muito tempo foi condicionada no indivíduo desde a mais tenra idade. Uma criança é exposta primeiramente aos seus pais, depois aos professores de sua escola; depois a servidores públicos uniformizados; e finalmente, aos seus chefes. Um indivíduo é assim treinado a operar, e responder corretamente, dentro da hierarquia estabelecida no sistema social. Isso cria a ‘crença’ de que uma pessoa nunca é totalmente livre no seu comportamento; as pessoas estão, quase sempre, sob a autoridade de alguém acima delas que influencia eventos. Paradoxalmente, muitas pessoas insistem consigo mesmas que têm liberdade pessoal, e, ainda assim, demonstram ter medo de exibir ‘demasiada’ liberdade. Já é sabido que as pessoas que mais se conformam são as mais propensas a ter menos tolerância à incerteza e à ambiguidade.

A conformidade social inculca a sensação de segurança: o pertencer é um paraíso seguro onde a pessoa se sente protegida. Mas, tais sensações – de conforto e desconforto – são frequentemente programações socialmente condicionadas desde o nascimento. Portanto, muito do nosso ‘comportamento humano’ é derivado das influências que nos moldaram. Entretanto, o que muitas vezes não é considerado é o grau em que essas forças sociais são deliberadamente construídas com o objetivo de moldar e governar uma massa coletiva. Através de uma gama de instituições sociais, são estabelecidos ‘sistemas de conhecimento’ específicos, os quais, frequentemente servem para suprir uma gama de estímulos suaves e consensuais. A ‘realidade’ da situação é que nós somos sutilmente coagidos a subscrever a sistemas de imitação por meio dos quais somos treinados a memorizar informações as quais nos são passadas como conhecimento. Essas informações são, então, reforçadas por instituições autoritárias (tais como a ciência e os ‘especialismos’), fazendo com que pareçam verdadeiras.

Os diversos métodos empregados para nos moldar incluem o modo como os Estados empregam a ‘realidade da verdade’ através do lançamento de estatísticas aparentemente apuradas que descrevem situações plausíveis. Essa é a tática do ‘perito de avental branco’. Para que tal informação seja eficaz, ela não pode se desviar muito da verdade; em outras palavras, ela deve ter a aparência de realidade. As estatísticas acerca de comércio, emprego, e finanças são exemplos disso. Quais membros do grande público têm o conhecimento e/ou os recursos para checar e confirmar tais estatísticas? Quem é que se preocupa de fato com isso? As pessoas que sabem são, em geral, as que têm algum interesse encoberto na manutenção da ilusão, como os negociantes e os financistas. E, uma vez que uma afirmação falsa (ou ‘adulterada’) é disseminada e aceita pelo público, ela se estabelece de forma difícil de ser desconstruída ou invalidada.

A liberdade de pensamento ‘permitida’ dentro da sociedade é, em geral, uma expressão de livre pensamento dentro de um sistema pré-descrito: ela não denota uma liberdade do tipo externo ao sistema. Os exemplos incluem uma gama sem fim de clichês, como, por exemplo, os do mundo do rock, que inspiram os rebeldes excitáveis a maluquices tais como a de destruir quartos de hotéis e jogar aparelhos de televisão pela janela. Todos esses clichês são posteriormente amalgamados em textos de publicidade pelo setor de relações públicas do rock corporativo. Em essência, tais ‘rebeldes’ são tolerados, e até mesmo encorajados, porque as suas maluquices vendem discos. As rebeldias desse tipo são, portanto, um outro tipo de contribuição a uma sociedade consumista, muito embora sob um prisma diferente.

Por outro lado, sistemas de pensar alternativos são frequentemente rotulados como subversivos e acabam sujeitos a atos humanos de modificação e/ou rejeição. Dessa forma, modelos físicos, mentais, e padrões emocionais específicos são arraigados, reforçados, e modulados pelas instituições humanas. As estandardizações têm sido exploradas como sendo a chave para se ordenar uma sociedade de população numerosa. Entretanto, esse mesmo método de consciência consensual e de padrões de pensar controlados são uma anátema à necessidade natural do pensamento consciente evolutivo. Além disso, tal acondicionamento, passo a passo voltado a arrebanhar as pessoas num ambiente social cada vez mais controlado, devido à sua natureza intrínseca, serve para debilitar os agentes de mudança social.

Os agentes sociais de mudança são aquelas pessoas de cada sociedade que não têm medo de escapulir das normas do condicionamento social e que aprendem a pensar por si próprias – muitas vezes, contra a força de atração das massas, indo no caminho errado e na direção ‘certa’. Mais do que nunca, nos encontramos em demanda do indivíduo acordado, cujos pensamento e comportamento conscientes possam, concriando a melhor saída do pântano que nos rodeia, iluminar o caminho que segue certo na direção ‘errada’.


Kingsley L. Dennis, PhD, é sociólogo, pesquisador, e escritor. É autor de Dawn of the Akashic Age (O amanhecer da era Akashic, em coautoria com Ervin Laszlo, 2013); Breaking the Spell (Quebrando o encanto; 2013); New Revolutions for a Small Planet (Novas revoluções para um pequeno planeta; 2012); The Struggle for Your Mind: Conscious Evolution & The Battle to Control How We Think (A luta pela sua mente: a evolução da consciência & a batalha para controlar como nós pensamos; 2012); e New Consciousness for a New World (Nova consciência para um novo mundo; 2011). Ele é também coeditor de The New Science & Spirituality Reader (Nova ciência & leitor de espiritualidade; 2012). É co-autor, com John Urry, de After the Car (Depois do carro; editora Polity, 2009), que examina as sociedades pós-pico de petróleo e a mobilidade. Visite-o em: http://www.kingsleydennis.com/.

Notas

© 2012, Kinglesy L. Dennis, todos os direitos são reservados. Republicada com permissão.

Tradução: Jo Pires-O’Brien (UK)

Revisão: Débora Finamore (BR)

 Referência

DENNIS, KINGSLEY L. Indo no caminho certo na direção errada. A arte de pensar por nós mesmos. PortVitoria, UK, v.16, Jan-Jun, 2018. ISSN 20448236, https://portvitoria.com/ https://portvitoria.com
 

[i] Vejam-se os famosos experimentos de Stanley Milgram em ‘Obedience to Authority’ (Obediência à autoridade).

“Ser você mesmo num mundo que está constantemente tentando fazer outra coisa de você é a maior realização.” Ralph Waldo Emerson

Joaquina Pires-O’Brien

O individualismo é entendido diferentemente por socialistas e liberais. Para os socialistas, o individualismo é a primazia dos valores ligados ao indivíduo e ao seu bem-estar sobre os valores ligados à comunidade e ao bem-estar comunitário. Para os liberais, individualismo é a visão moral, política e social que prega a independência humana e a importância da autoconfiança e da liberdade. Essas duas definições de individualismo são contrárias e não podem estar ambas corretas. Por acaso o individualismo é uma forma de egoísmo, como afirmam os socialistas, ou é uma simples preferência pelo indivíduo, em contraposição ao coletivo, como afirmam os liberais?

O primeiro passo no processo de entendimento de qualquer palavra terminada em ‘ismo’ é procurar descobrir a mensagem por detrás desse sufixo, que indica tendência, viés ou preconceito. O segundo passo é entender a palavra sem o ‘ismo’. A palavra  ‘individualismo’ surgiu na década de 1820, entre os seguidores franceses do socialismo de Claude-Henri Saint-Simon (1760–1825), sendo logo exportada para a Inglaterra, Alemanha e outros países.

O significado da palavra sem o ‘ismo’ pode elucidar o sentido verdadeiro da mesma palavra com o ‘ismo’. A palavra ‘indivíduo’ vem do latim (indīviduus), cujo significado é ‘indivisível’ ou ‘inseparável’, e nos remete à palavra grega para ‘átomo’ (άτομο), cujo significado é o mesmo. Na doutrina do ‘individualismo’, a palavra indivíduo refere-se à pessoa humana  (antropos) considerada a unidade básica da sociedade. Como o contrário de ‘indivíduo’ é o ‘coletivo’, o contrário do individualismo é o coletivismo. Portanto, ‘individualismo’ significa valorizar o ‘indivíduo’ em preferência ao ‘coletivo’. Um possível motivo da conotação negativa imputada ao individualismo está na visão ultrassimplificada do mundo como um jogo de somatório zero, no qual o ganho de um representa sempre uma perda para o outro. Finalmente, podemos perguntar se o ‘individualismo’ não seria um direito natural das pessoas, considerando-se que desde tempos imemoriais a sociedade reconhece indivíduos, ainda que que a palavra ‘individualismo’ só tenha aparecido no século XIX.

Os liberais acreditam no individualismo devido ao fato de que a responsabilidade e a responsabilização – os ingredientes essenciais da boa cidadania e da boa governança –, residem no indivíduo e não no grupo. Acreditam,  ainda que a corruptibilidade e a incorruptibilidade são atributos do indivíduo, pois é o indivíduo e não o grupo, que pode ser chamado a juízo. Finalmente, individualismo é acompanhado da regra dourada a qual afirma que devemos tratar o outro da forma como desejamos que o outro nos trate. Tal regra implica no reconhecimento dos direitos do outro, o que é suficiente para desfazer a conotação de egoísmo do individualismo.

O individualismo é, portanto, a preferência pelo hábito de ser e agir independente e com iniciativa própria. Ser um ‘individualista’ significa ter o hábito de cultivar a própria mente, de refletir sobre ideias e, se necessário, desafiar as normas ou padrões da sociedade. Sobre as raízes do individualismo, embora alguns cientistas sociais as tenham colocado no cristianismo e o seu entendimento acerca da individualidade da vida e da salvação, a maioria aceita que o individualismo tem raízes mais profundas, incluindo o estoicismo.

Alguém poderia argumentar que o reconhecimento de talentos natos e das capacidades implica, também, no reconhecimento dos individualismos psicopatológicos como o autismo, a sociopatia e a megalomania. Tal não é o caso, e o motivo é a  diminuição de responsabilidade dessas pessoas, a qual é normalmente levada em contra pela legislação de cada país.

Liberdade e igualdade

Liberdade e igualdade são valores atrelados, o que significa necessariamente que o aumento de um requer uma diminuição do outro. A discrepante visão acerca da liberdade e da igualdade entre socialistas e liberais também atrapalha o entendimento do individualismo. Enquanto os socialistas enxergam a igualdade como algo que tende para o absoluto, para os liberais a igualdade é simplesmente ser tratado igual pela lei. Conforme já visto, a visão dos socialistas de que o ganho de uns resulta sempre na perda de outros costuma ser usada como justificativa para aumentar o valor da igualdade em detrimento da liberdade.

As visões díspares dos socialistas e liberais tanto sobre o individualismo quanto sobre a liberdade e a igualdade têm diversas implicações importantes para a sociedade. A facilidade com que os socialistas sacrificam a liberdade a fim de ganhar mais igualdade, é conducente ao Estado grande e oneroso. A desconfiança dos socialistas no individualismo é acompanhada da desconfiança da excelência, que para eles é uma forma de elitismo. Enquanto que, pela ótica socialista, o indivíduo é coagido a curvar-se ao denominador comum da maioria, que é a própria mediocridade, pela ótica liberal, o indivíduo é encorajado a desenvolver ao máximos seus talentos natos e suas capacidades. O individualismo, e não o coletivismo, é o melhor caminho para a boa governança, pois além de favorecer a boa cidadania, favorece o bom desenvolvimento do homem razoável do direito inglês, que é mais conducente à excelência do indivíduo, da qual toda a sociedade se beneficia.

Declarações de direitos do homem nos Estados Unidos e França

Os primeiros estados a adotar declarações de direitos do homem foram os Estados Unidos e a França. A Declaração de Independência dos Estados Unidos, aprovada pelo Congresso norte-americano, em 4 de julho de 1776, sublinhou os direitos do homem junto ao direito de se revoltar contra o domínio político. Em 1787, a Constituição dos Estados Unidos da América foi aprovada, e, em 15 de dezembro de 1791, recebeu dez emendas, chamadas coletivamente de ‘Bill of Rights’, garantindo uma relação de direitos do indivíduo, como o direito à vida, à propriedade e à liberdade. Na França, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi aprovada em 1789, pela Assembleia Constituinte, poucos meses depois da tomada da Bastilha. O problema dessa Declaração é que a mesma interpretou a lei como uma “expressão da vontade do povo”, cuja intenção era promover tal igualdade de direitos e proibir “apenas as ações danosas à sociedade”. A interpretação ao pé da letra do termo “vontade do povo” levou à ditadura da facção majoritária dos jacobinos.

O primeiro crítico de peso das declarações de direitos do homem dos Estados Unidos e da França foi o pensador francês Alexis de Tocqueville (1805-59) que, em sua viagem aos Estados Unidos em 1831, feita com o objetivo de pesquisar o sistema prisional deste país, estudou os mais diversos aspectos da sociedade norte-americana. Tocqueville publicou as suas observações, feitas a partir desta viagem, no livro Democracy in America (1835 e 1440; A Democracia na América), dividido em dois volumes.

Antes mesmo de viajar para os Estados Unidos, Tocqueville havia reconhecido os problemas causados pela democracia direta, implementada na França pós-revolucionária, e acreditava que era possível aperfeiçoar o regime através de reformas. Mais tarde, durante a crise da Segunda República Francesa, ele apoiou o Partido da Ordem (Parti d’Ordre) contra os socialistas, mas, em dado momento, desencantou-se com a política e com os jogos dos arrivistas do poder.

Qual deve ser a esfera do governo?

A extensão da esfera do governo é a maneira de decidir como deve ser o equilíbrio entre liberdade e igualdade. Um dos primeiros pensadores modernos que se preocupou com isso foi Karl Wilhelm von Humboldt (1767-1835), pensador alemão e irmão mais velho do naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859), que viajou pela América do Sul e fez a primeira descrição científica de suas paisagens. É mister notar que os dois irmãos foram educados por pensadores do Iluminismo como o médico kantista Marcus Herz e o botânico Karl Ludwig Willdenow.

Karl Humboldt foi o grande visionário da unificação da Alemanha ocorrida em 18 de janeiro de 1871, quando Guilherme I da Prússia foi elevado a Imperador da Alemanha. O seu livro The Sphere and Duties of Government (1854; A esfera e os deveres do governo), escrito em 1791 e publicado postumamente em 1852, trata dos dois objetos da política, a questão de quem deve governar e ser governado; e a questão da demarcação das esferas do governo e dos governados. Para Von Humboldt, a segunda é mais importante do que a primeira, pois a delimitação da esfera do cidadão abarca a sua vida privada e os limites de sua liberdade.

…existem dois grandes objetos, a mim me parece, que devem ser mantidos distintamente sob a vista, nenhum dos quais podendo ser ignorado ou ser subordinado sem causar um dano grave ao modelo comum; esses são – primeiro, determinar, no tocante à nação em questão, quem deve governar, quem deve ser governado, e organizar o funcionamento do poder constituído; e segundo, prescrever a esfera exata à qual o governo, uma vez construído, deve estender ou confinar as suas atuações. O último objeto, o qual abraça mais imediatamente as vidas privadas do cidadão, e de uma maneira mais especial determina os limites de sua atividade livre e espontânea, é, estritamente falando, o propósito verdadeiro e final; o primeiro é apenas um meio necessário de como chegar à esse importante fim. Contudo, por mais estranho que possa parecer, é no alcance do primeiro desses objetivos que o homem direciona a sua melhor atenção; e, como nos cabe mostrar, esta busca exclusiva de um propósito definido coincide apenas com a manifestação usual da atividade humana.

A comparação entre a modernidade e a antiguidade era o grande debate da época pós-revolucionária em que Humboldt viveu. Muitos tomaram partido da modernidade e, em muitos aspectos, cogitaram colocar a antiguidade na lata de lixo da história. Essa não era a postura de Humboldt, o qual reconhecia o quanto os antigos valorizavam a individualidade. Ele ilustrou isso com a seguinte citação da Ética de Aristóteles:  “Pois aquilo que peculiarmente pertence a cada um por natureza é o melhor e o mais prazeroso para cada um; consequentemente, para o homem constituído especialmente pelo intelecto, a vida (mais prazerosa) é aquela de acordo com o intelecto. Essa é, portanto, a vida mais feliz.”

Nessa mesma época pós-revolucionária, quando os primeiros Estados Modernos eram criados, Humboldt entendeu que a pergunta relevante acerca do papel do Estado era: ‘deve este fornecer apenas a seguridade ou deve fornecer a totalidade do bem-estar físico e moral da nação?’. Quem tem apreço pela liberdade na vida privada optaria pela primeira premissa. Infelizmente, os que acham que o Estado deve prover mais do que segurança não pensam na potencial injúria que tal política pode causar à liberdade.

Humboldt reconhece que o Estado Moderno, com sua solicitude de agir pelo indivíduo e prover o seu bem-estar, cria uma necessidade de impostos, enquanto que as legislações criadas nesse sentido acabam limitando a liberdade do indivíduo e valorizando menos o que o indivíduo é e mais o que ele possui. O capítulo II do seu livro The Sphere and Duties of Government trata especificamente do indivíduo e da individualidade. Seu título éof the individual man, and the highest ends of his existence’ (Do homem individual e os objetivos mais elevados de sua existência).

O verdadeiro propósito do homem, ou aquele que é prescrito pelo eterno e imutável ditame da razão, e não sugerido por anseios vagos e transientes, é o mais alto e mais harmonioso desenvolvimento de seus poderes no tocante a um todo completo e consistente. A liberdade é a grande e indispensável condição que a possibilidade de tal desenvolvimento pressupõe; mas ao lado dessa há uma outra que é essencial, – intimamente conectada com a liberdade, na verdade –,  uma variedade de situações. Mesmo o mais livre e autoconfiante dos homens é frustrado e impedido no seu desenvolvimento pela uniformidade de posições. Mas se por um lado é evidente que uma diversidade desse tipo é o resultado constante da liberdade, por outro lado, existe um tipo de opressão que, sem impor restrições no homem em si, gera uma impressão peculiar de suas próprias circunstâncias circundantes; essas condições de liberdade e variedade de situações, podem ser tomadas, num determinado sentido, como sendo uma mesma coisa. Ainda assim, pode contribuir à perspicuidade capaz de apontar a distinção entre elas.

… a razão não pode desejar para o homem nenhuma outra condição do que aquela em que cada indivíduo desfrute da mais absoluta liberdade de se desenvolver por suas próprias energias, em sua perfeita individualidade, mas cuja natureza externa é deixada sem qualquer agência humana, apenas recebendo a impressão de si própria e da autodeterminação que é dada a cada indivíduo, segundo a medida de seus desejos e instintos, e limitado apenas pelos limites de seus poderes e seus direitos.

Humboldt conclui que a razão deve ser a base de cada sistema político e o ponto de partida de toda investigação acerca do mesmo. A razão deve ser usada, a fim de salvar o que é necessário para preservar a liberdade, e nunca deve ceder a pressões para abrir mão da liberdade.

As visões de John Stuart Mill e Bertrand Russell

A visão de Humboldt sobre a esfera do governo impressionou o pensador britânico John Stuart Mill (1806-73), um dos nomes mais importantes do liberalismo britânico, o qual, por sua vez, influenciou seu afilhado Bertrand Russell (1872-1970), o grande divulgador do individualismo no século XX.

No seu famoso ensaio intitulado ‘Da individualidade’, Mill reconhece que a individualidade, isto é, o caráter de uma pessoa, é o principal ingrediente do progresso social, inspirado no livro The Sphere and Duties of Government (1854; A Esfera e os Deveres do Governo) de Humbolt. O ensaio de Mill começa mostrando que, se todas as pessoas do mundo menos uma, tivessem determinada opinião, tal maioria não justificaria silenciar o indivíduo de opinião divergente. Tirar a liberdade de expressão é sempre condenável, não importa que a opinião seja minoritária ou até errada. Mill concorda com Von Humboldt ser uma pena que a maioria tenda a ver o indivíduo que insiste em sua individualidade como um causador de problemas. Não obstante, as faculdades humanas da percepção, do julgamento, do sentimento discriminador, da atividade mental e da preferência moral, só são exercitadas fazendo-se escolhas. Portanto, o privilégio de ser um ser humano reside em experimentar ser ele próprio a fim de amadurecer as suas faculdades humanas e, com elas, interpretar a experiência de sua própria maneira.

Para Mill, o indivíduo de caráter autêntico é aquele que tem desejos e impulsos próprios que expressam a sua natureza. O homem cujos desejos e impulsos não são dele próprio tem o mesmo caráter que o de uma locomotiva a vapor.  Diz-se que uma pessoa tem um caráter forte quando, além de ter impulsos próprios, tais impulsos são encontram-se sob o controle de uma determinação forte. O indivíduo que desenvolve o seu caráter torna-se mais rico, diversificado e  animado; e, por se tornar mais valioso para si mesmo, é capaz de ser mais valioso para os outros, através de ideias que alimentam o tipo de pensamento elevado que enriquece a sociedade. Como Von Humboldt, Mill também reflete sobre o debate acerca dos antigos versus modernos e reconhece a importância dada pelos primeiros não apenas à individualidade mas também à capacidade intelectual. Identifica que os antigos valorizavam as mentes superiores enquanto que a tendência moderna é dar ascendência à mediocridade pelo fato de a mesma refletir melhor a maioria.

Russell abordou o individualismo na série de palestras intitulada ‘Reith Lectures’ feitas para a BBC, que ele mais tarde transformou em ensaios e publicou no livro Authority and the Individual (1950; A autoridade e o indivíduo)1. Na primeira palestra, intitulada ‘Social Cohesion and Human Nature’ (A coesão social e o indivíduo), Russell fez a pergunta de como conciliar a iniciativa individual que é necessária para o progresso com a coesão social que é necessária para a sobrevivência. Na palestra ‘The role of individuality’ (O papel da individualidade) Russell reafirma a ideia de Mill (seu padrinho), ao sublinhar a importância dos indivíduos não conformes ao progresso social e a própria sobrevivência da sociedade.

Praticamente todo progresso artístico, moral e intelectual depende desse tipo de indivíduos, os quais foram um fator decisivo na transição do barbarismo para a civilização. Se uma comunidade quiser progredir, precisa de indivíduos excepcionais, cujas atividades, embora úteis, não são necessariamente do tipo genérico. Na sociedade altamente organizada há sempre uma tendência para que as atividades de tais indivíduos sejam indevidamente tolhidas; por outro lado, se a comunidade não exercer nenhum controle, o mesmo tipo de iniciativa individual capaz de produzir uma inovação valiosa pode também produzir um criminoso. O problema, como todos aqueles com os quais nós nos preocupamos, é uma questão de equilíbrio; a liberdade de menos traz estagnação, e em excesso, o caos.

Russell termina reclamando da homogeneização da sociedade e da falta de espaço para a espontaneidade e a iniciativa, e portanto, para a individualidade. Para ele, a melhor maneira de as crianças aprenderem é seguindo os seus próprios instintos.

Conclusão

O presente ensaio procurou explicar o individualismo mostrando o que é e o que não  é. O individualismo é a primazia pelo indivíduo em contraposição ao grupo. A razão por detrás do individualismo é o reconhecimento de que os direitos e as responsabilidades humanas são imputáveis apenas a indivíduos. O individualismo não é uma forma de egoísmo, o amor exagerado aos próprios valores e interesses, como ocorre no tipo de comportamento que sacrifica o dever ao interesse particular. O contrário de egoísmo é altruísmo, definido como a inclinação a preocupar-se com o outro sem uma expectativa de ser retribuído. O egoísmo, assim como os outros vícios ou virtudes, independem de ideologias. O individualismo se opõe à conformidade inquestionável do grupo. Ser individualista não significa ignorar as comunidades, mas sim, refletir sobre os seus valores antes de aceitá-los. Conforme Mill e Russell reconheceram, as pessoas diferentes têm uma capacidade maior de descobrir coisas e de reconhecer a originalidade, e, por essa razão, são mais úteis à sociedade.

O individualismo floresceu no século XVIII na Europa e nos Estados Unidos, mas perdeu prestígio durante o século XIX em razão do Movimento Romântico e do avanço do socialismo. O Movimento Romântico enalteceu o espírito comunitário do povo, assim como a sua língua e cultura, e, influenciou o processo de criação de nações durante o século XIX e o início do século XX. Também serviu de suporte para os regimes fascistas, surgidos após a Primeira Guerra Mundial, bem como para a indústria de publicidade e da propaganda. O movimento da contracultura das décadas de 1960 e 1970 teve um veio de liberalismo na promoção da liberdade sexual e da autenticidade do indivíduo. Infelizmente tal movimento não concretizou seu apoio ao individualismo, pois era bem mais simpático coligar-se ao socialismo ou a sua forma mais diluida, o progressismo. Por fim, no que diz respeito à revolução digital do final do século XX , ainda não se sabe se a mesma favoreceu, ou não, o individualismo. O que é sabido é que essa revolução criou as massas do espaço cibernético, que giram em torno de sexo, moda, celebridades e as mais diversas aspirações.

O homem é ao mesmo tempo um indivíduo e um animal social. Tanto a individualidade quanto a coesão social são fatores importantes na configuração da sociedade. Entretanto, conforme Russell e outros identificaram, a conformação social pode acarretar a perda da capacidade de pensar por si próprio, e portanto, a perda da criatividade necessária à sobrevivência da própria  sociedade. Para Russell, é importante conciliar a iniciativa individual à participação na comunidade. A melhor justificativa do individualismo é que o desenvolvimento das capacidades do indivíduo e da excelência beneficia a toda a sociedade. Outra justificativa considerável é que ninguém consegue ser feliz sem ser ele próprio.

[1] Publicou também o livro Unpopular Essays (1950; Ensaios Impopulares).

Referências

Von Humboldt, Baron Wilhelm (1852). The Sphere and Duties of Government. Translated by Joseph Coultlhard Jr. London, John Chapman, 1854. (Ideen zu einem Versuch, die Gränzeen der Wirksamkeit des Staats zu bestimmen).

Mill, J. S. Of individuality. In: Boaz, David, editor. The Libertarian Reader, 1997. New York, Simon & Schuster.

Russell, Bertrand (1950). Authority and the Individual. London, Simon and Schuster. 79 pp.

Tocqueville, Alexis de (1835, 1840). Democracy in America. Volume I. Translated by Henry Reeve. Guttenberg, eBook, released Jan 21 2006, last updated Feb 7 2013.

                                                                                                                                               

Joaquina Pires-O’Brien é uma ex-botânica brasileira residente na Inglaterra, de onde ela edita a revista eletrônica PortVitoria – www.portvitoria.com, sobre generalidades, cultura e política, dedicada a falantes de português e espanhol. Em 2016 ela publicou o O homem razoável (2016), uma compilação de 23 ensaios sobre a Civilização Ocidental e a educaçção liberal, disponível exclusivamente pela Amazon.

Revisão: Débora Finamore

Referência

Pires-O’Brien, J. Sobre o Individualismo. PortVitoria, UK, v. 15, Jul-Dec 2017. ISSN 20448236.

Murray N. Rothbar

Como capacidades e interesses são naturalmente diversos, uma política de tornar as pessoas iguais em todos os aspectos é necessariamente um nivelamento por baixo.” MNR

Toda criança humana chega ao mundo sem as faculdades características dos seres humanos completamente desenvolvidos. Essas não são significam simplesmente as capacidades de enxergar claramente, de se locomover, de se alimentar etc.; acima de tudo, significa que a criança carece do poder do raciocínio — o poder que distingue o homem dos [outros] animais. Entretanto, a distinção crucial entre um bebê e os outros animais é que estes poderes, em particular a capacidade de raciocinar, estão potencialmente dentro do bebê. O processo do crescimento é o processo do desenvolvimento das faculdades da criança. A partir de um estado de incapacitação e incompetência que poucos animais recém-natos compartilham, a criança cresce até a glória da magnitude completa de um adulto.

Devido ao fato de serem imediatamente percebidas pelos sentidos, é fácil superestimar a natureza puramente física dessas mudanças; o crescimento do bebê em termos de altura e peso, o aprender a caminhar e a falar etc., podem ser vistos em termos das atividades isoladas físicas ou musculares envolvidas. A característica realmente importante do processo do crescimento é a mental, o desenvolvimento dos poderes mentais, ou percepção e razão. A criança ao fazer uso de novos poderes mentais aprende e adquire conhecimento — conhecimento não só do mundo a seu redor, mas também sobre si própria. Assim, o seu aprendizado de caminhar e de falar e o seu direcionamento desses poderes dependem de sua capacidade mental de adquirir esse conhecimento e usá-lo. À medida que a criança exercita o seu novo raciocínio, assim como os seus poderes musculares, esses poderes crescem e se desenvolvem, e dão o impulso para novos empregos dessas faculdades pela criança. Especificamente, a criança aprende sobre o mundo a seu redor, sobre outras crianças e adultos, e sobre os seus próprios poderes físicos e mentais.

Cada criança que vem ao mundo chega num determinado tipo de ambiente. Este ambiente consiste de coisas físicas, naturais ou fabricadas, e de outros seres humanos com quem ela entra em contacto de diversas maneiras. E é neste ambiente que a criança exercita os seus poderes em desenvolvimento. A sua razão forma julgamentos sobre outras pessoas, sobre o seu relacionamento com as mesmas e com o mundo em geral; a sua razão revela a ela os seus próprios desejos e os seus poderes físicos. Dessa forma, a criança em crescimento, trabalhando dentro do seu ambiente, desenvolve fins e descobre os meios de obtê-los. Os seus fins são baseados na sua própria personalidade, nos princípios morais que concluiu serem os melhores, e nos seus gostos estéticos; o seu conhecimento de meios é baseado naquilo que ela aprendeu que é mais apropriado. Esse corpo de “teoria” no qual crê, a criança adquiriu com os seus poderes de raciocínio, quer através da experiência direta de si própria ou de terceiros, ou da dedução lógica por si própria ou por terceiros. Quando a criança finalmente chega à idade adulta, ela já desenvolveu as suas faculdades até onde pôde, e já adquiriu um conjunto de valores, princípios, e conhecimentos científicos.

Esse processo completo de crescimento, de desenvolvimento de todas as facetas da personalidade do ser humano, é a educação do indivíduo. É óbvio que uma pessoa adquire a sua educação em todas as atividades de sua infância; todas as horas acordadas são gastas no aprendizado de uma forma ou de outra. Claramente é um absurdo limitar a palavra “educação” à escolaridade formal de uma pessoa. A criança aprende todo o tempo. Ela aprende e forma ideias sobre outras pessoas, sobre os seus desejos e as ações para obtê-los, sobre o mundo e as leis naturais que o governam; e sobre os seus próprios fins, e como obtê-los. Ela formula ideias sobre a natureza do homem e sobre como devem ser os fins dela própria e os das outras pessoas à luz dessa natureza. Isso é um processo contínuo, e é óbvio que a escolarização formal constitui apenas um item desse processo.

Num sentido fundamental e de fato, todo mundo é “autoeducado.” O ambiente físico ou social de uma criança não “determina” as ideias e o conhecimento com os quais a criança emergirá como um adulto. É um fato fundamental da natureza humana que as ideias de uma pessoa são formadas por ela própria; outros podem influenciá-las, mas ninguém pode determinar absolutamente as ideias e os valores que o indivíduo irá adotar ou manter durante a sua vida.


Dr. Murray Rothbard (1926-1995) foi um economista e professor do Instituto Politécnico do Brooklyn, tendo desenvolvido a teoria econômica de Ludwig von Mises, da Escola Austríaca de Economia, e combinado esta última com a defesa da liberdade individual. Além dos seus conhecimentos de economia e de história econômica, Murray se preocupava com a educação como o meio do progresso do indivíduo na sociedade livre. Ele era também conhecido pela sua enorme capacidade de reduzir teorias complicadas à sua essência, como é o caso deste curto trecho da sua monografia “Education: Free and Compulsory” (1977), uma crítica ao currículo escolar da escola pública e sua politização.

© Dr Murray Rothbard
Cortesia de: Ludwig von Mises Institute
Fonte: http://mises.org/daily/2226

Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien
Ver biografia de Rothbar em português em:
http://www.mises.org.br/Default.aspx

Como citar este artigo:
Rothbar, M. A educação do indivíduo. PortVitoria, UK, v. 4, Jan-Jun, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/