Miguel de Cervantes (1547 – 1616). Biografia

Miguel de Cervantes2Miguel de Cervantes Saavedra nasceu na cidade de Alcalá de Henares, na grande Madri, Espanha, em 29 de setembro de 1547. Miguel foi o quarto dos sete filhos de Rodrigo Cervantes, um barbeiro-médico (zurujano sangrador), e Leonor de Cortinas. Apesar do pai ter uma profissão respeitada, era surdo e ganhava pouco.

A família de Rodrigo Cervantes morou pouco tempo em Alcalá de Henares, mudando-se para Valladolid quando Miguel tinha quatro anos de idade, para retornar a Alcalá de Henares daí a dois anos. Mudar era um hábito da família Cervantes, possivelmente para fugir de eventuais credores. Miguel de Cervantes voltou adulto para Valladolid e foi nessa cidade que escreveu o prólogo de “Don Quixote”.

No ano em que Miguel de Cervantes nasceu, a imprensa móvel que Johannes Gutenberg introduziu em Mainz, na Alemanha, na década de 1450, contava com 98 anos, e, já havia sido transplantada para outras cidades da Europa. Isso significa que Cervantes nasceu na era da imprensa, quando a população leiga não apenas ganhou acesso aos livros, mas também começou a cogitar escrevê-los. Os pesquisadores acreditam que Cervantes cultivou desde criança o hábito da leitura, o que teria complementado a sua educação informal. Miguel de Cervantes tinha apenas 22 anos de idade quando viu o seu nome impresso pela primeira vez, devido a algumas poesias que escreveu para o Memorial da rainha Élisabeth de Valois, a terceira esposa do rei Felipe II, publicado em 1569.

Quando tinha vinte e poucos anos de idade Cervantes foi para a Itália a serviço do Cardeal Giulio Acquaviva. Saiu desse emprego para alistar-se como soldado na armada espanhola da Liga Sagrada, uma coalizão formada pelos Estados católicos da Europa – Espanha, Veneza, Gênova – e os Cavalheiros de Malta, organizada pelo Papa Pio V com o objetivo de derrotar os turcos-otomanos. Esses últimos foram vencidos na Batalha de Lepanto, ao norte do Golfo de Corinto e a oeste da Grécia, em 7 de outubro de 1571. Segundo os historiadores, Miguel de Cervantes sofreu ferimentos no peito e na mão esquerda, que mais tarde foi amputada. Na viagem de volta à Espanha, a galera onde ele viajava foi capturada por corsários argelinos, os quais o prenderam juntamente com seu irmão Rodrigo. Os irmãos Cervantes permaneceram cinco anos detidos, até serem libertados graças a um resgate de 500 peças de ouro, o qual foi negociado pelos monges da Trindade com a ajuda de mercadores argelinos. Tal episódio levou a família de Cervantes à ruina financeira.

De volta à Espanha, Cervantes resolveu fixar-se em Madri e tentar arranjar um emprego que lhe permitisse também se dedicar à uma carreira literária. Consta que ele teve dois empregos. O primeiro, em 1580, como comissário de provisões da Armada Invencível, que consistia na coleta de suprimentos de grãos para comunidades rurais. O segundo, em 1594, quando foi nomeado coletor de impostos de Granada. Ambos os empregos terminaram com Cervantes sendo acusado de má-gestão e malversação do serviço público e ele sendo preso por diversos meses. Em 1584, ele se casou com Catalina de Salazar y Palácios. Embora o casal não tivesse tido filhos, Miguel teve uma filha ilegítima, Isabel de Saavedra (1585-1652), com Ana Franca de Rojas, uma mulher casada.

A primeira publicação de importância literária de Miguel de Cervantes foi o romance La Galatea (1585). Em seguida ele escreveu peças teatrais como La Numancia e El trato de Argel. Cervantes publicou a primeira parte de Don Quixote em 1605, mas a segunda só saiu em 1615, quando o autor já se encontrava adoentado, com cirrose e artrite. Em 22 de abril de 1616, Cervantes faleceu e foi enterrado no convento das Trinitárias Descalças, no Bairro das Letras, em Madrid. O convento foi reconstruído mas os túmulos de Cervantes e de sua esposa foram perdidos. Em 2014, um ataúde duplo, encontrado na Igreja desse Convento, foi julgado como sendo os restos mortais do casal, o que foi confirmado, em 2015, através de análise de DNA.

Don Quixote, cujo título completo é O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, consagrou Cervantes como um dos grandes nomes da literatura universal. Entretanto, Cervantes também escreveu muitas poesias, incluindo algumas que fazem parte do livro Don Quixote. Veja, abaixo, seis poesias de Cervantes no original em espanhol, cada qual seguida da versão inglesa feita por Paul Archer.

Ovillejos

M. de Cervantes

¿Quién menoscaba mis bienes?

¡Desdenes!

Y ¿quién aumenta mis duelos?

¡Los celos!

Y ¿quién prueba mi paciencia?

¡Ausencia!

 

De este modo en mi dolencia

ningún remedio se alcanza,

pues me matan la esperanza,

desdenes, celos y ausencia.

 

¿Quién me causa este dolor?

¡Amor!

Y ¿quién mi gloria repuna?

¡Fortuna!

Y ¿quién consiente mi duelo?

¡El cielo!

 

De este modo yo recelo

morir deste mal extraño,

pues se aúnan en mi daño

amor, fortuna y el cielo.

 

¿Quién mejorará mi suerte?

¡La muerte!

Y el bien de amor, ¿quién le alcanza?

¡Mudanza!

Y sus males, ¿quién los cura?

¡Locura!

 

Dese modo no es cordura

querer curar la pasión,

cuando los remedios son

muerte, mudanza y locura.

 

 

Ovillejos

M. de Cervantes

Translation by Paul Archer

What undermines all I attempt?

Contempt!

What heaps sorrow onto me?

Jealousy!

And what gnaws me through and through?

Missing you!

That’s why nothing will do

To make my distress less –

I’m killed by hopelessness,

Contempt, jealousy and missing you!

What is it that makes me feel so rough?

Love!

What makes my puffed-up pride deflate?

Fate!

And what’s allowed all this to happen?

Heaven!

That’s why I have no time for them,

These evil strangers that thwart me,

Ganging up together to hurt me:

Love, fate and heaven!

What will change my luck? What’s left?

Only death!

And as for love, in all its profusion?

Delusion!

For all its woes, what’s the only redress?

Madness!

See how we get into this crazy mess

When trying to heal love’s pains,

If, after all else, the final cure remains

Only death, delusion and madness!

 

Al túmulo del Rey Felipe II en Sevilla

M. de Cervantes

Voto a Dios que me espanta esta grandeza

y que diera un doblón por describilla;

porque ¿a quién no sorprende y maravilla

esta máquina insigne, esta riqueza?

Por Jesucristo vivo, cada pieza

vale más de un millón, y que es mancilla

que esto no dure un siglo, ¡oh gran Sevilla!,

Roma triunfante en ánimo y nobleza.

Apostaré que el ánima del muerto

por gozar este sitio hoy ha dejado

la gloria donde vive eternamente.

Esto oyó un valentón, y dijo: “Es cierto

cuanto dice voacé, señor soldado.

Y el que dijere lo contrario, miente.”

Y luego, incontinente,

caló el chapeo, requirió la espada,

miró al soslayo, fuese, y no hubo nada.

 

 

At the Tomb of King Philip II in Seville

M de Cervantes

Translation by Paul Archer

My God! I’m stunned by its grandeur.

I’d pay a doubloon to do it justice

In words, for whom wouldn’t wonder

At this famous work, such richness?

Christ alive! Each part’s worth a mill

Or even more and it’s such a pity

It won’t last a century. Oh Seville!,

Like triumphant Rome, what a great city!

This dead man’s soul, I bet you,

Is even now here, taking in the view,

Leaving eternal life and all its glories.

A loudmouth came over and said: “It’s true

What you say, soldier, and who

Ever says otherwise, lies. “

Then, as if caught by surprise,

He pulled down his hat, checked his sword,

Looked sideways, then went without a word.

 

 

A la entrada del duque de Medina en Cádiz

M. de Cervantes

Vimos en julio otra Semana Santa

atestada de ciertas cofradías,

que los soldados llaman compañías,

de quien el vulgo, no el inglés, se espanta.

Hubo de plumas muchedumbre tanta,

que en menos de catorce o quince días

volaron sus pigmeos y Golías,

y cayó su edificio por la planta.

Bramó el becerro, y púsoles en sarta;

tronó la tierra, oscurecióse el cielo,

amenazando una total ruina;

y al cabo, en Cádiz, con mesura harta,

ido ya el conde sin ningún recelo,

triunfando entró el gran duque de Medina.

 

On The Duke Of Medina Entering Cadiz

M. de Cervantes

Translation by Paul Archer

It was Holy Week in July and we saw

All the usual gangs getting in the way,

Brothers-in-arms, so the soldiers say,

Scaring all, except the English in war.

There was such a teeming mass in town

In less than fourteen or fifteen days

The Pygmies and the Goliaths raised

All the buildings to the ground.

The hobbled calf bellowed his

Heart out, all was turmoil and affray,

Earth shook, the sky couldn’t get darker,

And then, into half-starved Cadiz –

The unsuspecting Count gone away –

In triumph entered the Grand Duke of Medina.

Quem deixará, do verde prado umbroso,

as frescas ervas e as lustrais nascentes?

Quem, de seguir com passos diligentes

a solta lebre, o javali cerdoso?

Quem, com o canto amigo e sonoroso,

não prenderá as aves inocentes?

Quem, nas horas da sesta, horas ardentes,

não buscará nas selvas o repouso,

por seguir os incêndios, os temores,

os zelos, iras, raivas, mortes, teias

do falso amor que tanto aflige o mundo?

Do campo são e hão sido meus amores,

rosas são e jasmins minhas cadeias,

livre nasci, e em livre ser me fundo.

 

 

Don Belianís De Grecia A Don Quijote De La Mancha

M. de Cervantes

Rompí, corté, abollé, y dije e hice

más que en el orbe caballero andante;

fui diestro, fui valiente y arrogante,

mil agravios vengué, cien mil deshice.

 

Hazañas di a la fama que eternice;

fui comedido y regalado amante;

fue enano para mí todo gigante,

y al duelo en cualquier punto satisfice.

 

Tuve a mis pies postrada la Fortuna

y trajo del copete mi cordura

a la calva ocasión al estricote.

Mas, aunque sobre el cuerno de la luna

siempre se vio encumbrada mi ventura,

tus proezas envidio, ¡oh, gran Quijote!

 

Sir Belianis of Greece to Don Quixote de la Mancha

M de Cervantes

Translation by Paul Archer

I did my cutting, thrusting, hacking away more

Than any other in a long line of valiant knights;

I was brave and bold and clever in arts of war,

Put over a hundred thousand wrongs to rights.

My deeds will live on in history;

In courtly love I was gallant and skillful;

I took on giants like they meant nothing to me,

And in fighting duels I played by every rule.

I made Dame Fortune grovel at my knees

And was smart enough to grab opportunity

By the balls, make it do what I please,

I took on all comers with impunity

And was on top of my game in my heyday,

But I envy your prowess, oh great Don Quixote!

 

 

A la guerra me lleva

M. de Cervantes

A la guerra me lleva

mi necesidad;

si tuviera dineros

no fuera en verdad.

 

War calls me

M de Cervantes

Translation by Paul Archer

War calls me

And I have to go.

If I had money

It wouldn’t be so.

 

Busco en la muerte la vida

M. de Cervantes

Busco en la muerte la vida,

salud en la enfermedad,

en la prisión libertad,

en lo cerrado salida

y en el traidor lealtad.

Pero mi suerte, de quien

jamás espero algún bien,

con el cielo ha estatuido,

que, pues lo imposible pido,

lo posible aún no me den.

 

I Look in Death for Life

M. de Cervantes

Translation by Paul Archer

I look in death for life,

in sickness for health,

for freedom in the prison,

a way out in the impasse,

and loyalty in the Judas.

But my destiny, from which I would

never expect anything good,

has decreed with heaven

that, since I ask for the impossible,

they won’t even give me the possible.

 

Pires-O’Brien, J. Miguel de Cervantes (1547 – 1616). Biografia. PortVitoria, Beccles, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Sem picadinho, sem newspeak

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left (Tolos, fraudes e incendiários. Pensadores da Nova Esquerda), de Roger Scruton. London, Bloomsbury, 2015.

O que é Esquerda? O que é Direita? O que é Nova Esquerda? Essas são algumas das perguntas que Roger Scruton explora no seu livro Fools, frauds and firebrands (Tolos, fraudes e incendiários, inédito em português). Esse título abrasivo está, sem dúvida, relacionado com o permanente confronto do autor com a Nova Esquerda. Nele, Scruton descreve como os acadêmicos e outros intelectuais da Nova Esquerda se empoderaram, unindo-se contra o inimigo comum – o capitalismo e sua burguesia –, bem como adotando um linguajar idiossincrático próprio, semelhante ao newspeak  da fictícia sociedade totalitarista de George Orwell. Contrariamente àquilo que o provocante título possa sugerir, o tratamento de Scruton à Nova Esquerda é mais bondoso do que o tratamento que ele recebeu dos partidários desta, os quais puseram nele o rótulo calunioso de ‘sectarista da direita’. No seu estilo franco, sem picadinho ou newspeak, Scruton disseca o irracionalismo por detrás do ataque da Nova Esquerda a tudo aquilo que torna a sociedade possível – propriedade, costumes, hierarquia, família, negociação, governo e instituições –, mostrando que tal ataque tem sido feito na crença de que o mesmo vai levar a uma sociedade com absoluta   igualdade. Ele também sublinha a injustiça da Nova Esquerda em comparar a sua perfeita sociedade imaginada com a sociedade real.

Qualquer pessoa de fora que esteja familiarizada com o liberalismo britânico ficaria chocada em descobrir que o livro de Scruton, Thinkers of the New Left, publicado em 1985, sua primeira tentativa de perseguir este assunto, foi retirado das livrarias pela editora devido à pressão recebida do establishment  acadêmico. Qualquer semelhança disso com os julgamentos de hereges do Antigo Regime deve-se ao fato de que a ideologia da Nova Esquerda gozou um status dogmático parecido. Entretanto, o dogmatismo da Nova Esquerda dissolveu-se três anos depois com a queda do Muro de Berlim, que desencadeou o processo de desintegração da antiga União Soviética. Scruton conecta os dois eventos quando afirma que decidiu reescrever o livro em 1989, momento no qual ‘as pessoas começaram a perceber que nem tudo o que foi dito, pensado ou feito em nome do socialismo foi intelectualmente respeitável ou moralmente certo’.

Num capítulo especial, Scruton examina como a Nova Esquerda desenvolveu a sua ‘consciência revolucionária’ que causou as guerras da cultura da década de 1980. O processo retroage à década de 1960, quando o desaparecimento da real classe dos trabalhadores na Grã-Bretanha e noutras partes do Ocidente criou as condições perfeitas para a Nova Esquerda emergir. Primeiro, os intelectuais procuraram ser reconhecidos como membros honorários da classe dos trabalhadores e, em seguida, começaram a fazer uma revolução em nome desta, a ser travada no mundo dos livros. Eis como Scruton a descreve:

Pela primeira vez era possível observar de perto a ‘consciência revolucionária’, sem incorrer em nenhum risco de violência, tirando a violência das palavras. Em particular, era possível observar a rapidez e a destreza com que a mensagem da esquerda era envolvida em dogma, quão energeticamente os novos revolucionários levavam adiante o negócio de inventar perguntas falaciosas, polêmicas inúteis e pedantismos arcanos, a fim de  desviar quaisquer interrogações intelectuais para longe das perguntas fundamentais, cuja necessidade emocional implorava um favorecimento, incluindo a questão da própria revolução: o que é exatamente uma revolução e para que serve?

Ao descrever o surgimento da Nova Esquerda na Grã-Bretanha, Scruton reflete sobre as idiossincrasias da sociedade britânica que facilitaram o processo, tais como a tradição britânica de tratar os historiadores como líderes no mundo das ideias e a sua tradição ímpar de crítica social e literária. Ele lembra mudanças nas instituições de ensino superior britânicas tão cedo quanto 1964, as quais, em sua opinião, marcaram a transição da Velha Esquerda para a Nova Esquerda. Scruton também descreve as opiniões dos socialistas britânicos mais influentes da época, tais como escritor e crítico galês Raymond Williams (1921-88), e os historiadores socialistas que forneceram versões socialistas da Revolução Industrial. Essas mudanças marcaram o início da revolução intelectual pelo controle da cultura. Na Grã-Bretanha, tais mudanças concentraram-se nos departamentos de humanidades, nos quais o antigo currículo baseado nos padrões objetivos do Iluminismo foi aos poucos substituído por um currículo pós-moderno guiado pelo consenso.

Scruton também descreve os primeiros dias da Nova Esquerda em outros países. Na Alemanha, os principais condutores da Nova Esquerda foram os professores e pensadores afiliados ao Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt. A Escola de Frankfurt, como é melhor conhecida, foi a pioneira na ideia do ‘humanismo marxista’. Embora tivesse sido fechada em 1933 pelos nazistas, apenas três anos depois de ter sido fundada por Max Horkeheimer (1895-1973), ela sobreviveu através da cooperação com universidades nos Estados Unidos, voltando a funcionar em Frankfurt em 1951. Além de   Horkeheimer, a Escola de Frankfurt incluiu muitos dos grandes nomes da Nova Esquerda como Herbert Marcuse (1898-1979), Erich Fromm (1900-80) e Theodor Adorno (1903-69). Scruton critica o fato de os membros da Escola de Frankfurt que tiveram a oportunidade de continuar as suas carreiras no ensino superior nos Estados Unidos não terem retribuído com a mesma moeda. Horkeheimer e Adorno deslancharam um ataque sem descanso   ao Iluminismo, proclamando que o mesmo era um produto do raciocínio burguês, enquanto que Marcuse denunciou a ‘repressiva tolerância’  dos Estados Unidos e ‘o universo totalitário do racionalismo tecnológico’. Jürgen Habermas (1929-), o representante ainda vivo da Frankfurt School, é exonerado de culpa por ter sobrepujado a sua agenda absurda.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda nos Estados Unidos ressalta o pragmatismo de Richard Rorty (1931-2007) e de Edward Said (1935-2003), encapsulados por um conjunto de ideias relativistas segundo as quais ‘não importam as velhas ideias de objetividade e verdade universal, pois tudo o que importa é aquilo que foi concordado.’ Segundo Scruton, tanto Rorty quanto Said puseram dúvidas na mente americana e tentaram subtrair da herança cultural americana a crença em sua própria legitimidade. Rorty introduziu a ideia de um currículo novo e pós-moderno, para substituir o currículo antigo baseado no Iluminismo. No caso de Said, Scruton afirma que ele menosprezou e envenenou a maneira como o Ocidente retratou o Oriente, contudo nunca considerou a maneira como o Oriente retratou o Ocidente. Os ataques de Said incluíram não apenas os especialistas vivos, mas todo o saber ocidental, o que Scruton apresenta como uma evidência da miopia de Said. Entretanto, o que aconteceu no final das contas foi que o livro seminal de Edward Said, Orientalism, foi posteriormente exposto como sendo resultante de um estudo mal conduzido, quando Robert Irwing expôs seus erros, descuidos e mentiras descaradas. Scruton completa a sua crítica a Rorty e Said, mostrando os ótimos exemplos de Estudos Orientais que vieram do Iluminismo: a tradução francesa do livro As mil e uma noites, feita por Antoine Galland em 1717, a tradução alemã da coleção de poemas persas West-Östlicher Diwan, feita por Johann Goethe, e a tradução inglesa do livro Rubaiyat de Omar Khayan, por Edward FitzGerald. Scruton complementa seus exemplos, citando a dedicação de sir William Jones para preservar a poesia persa e árabe e a elaboração do seu estudo pioneiro sobre as línguas indianas.

A avaliação que Scruton faz da Nova Esquerda inclui a construção de sua própria marca, diferente da marca da Velha Esquerda. Ele também aponta duas coisas importantes que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda: o hábito de criar cultos em torno de figurões e o linguajar. Após reconhecer a necessidade de um líder representativo exclusivo, os teóricos da Nova Esquerda escolheram Antonio Gramsci (1891-1937), um comunista revolucionário italiano que foi preso pelo governo fascista, de 1926 até a sua morte aos 46 anos de idade. Houve motivos que fizeram com que escolhessem Gramsci em vez de outro qualquer. O primeiro foi a ideia da ‘práxis revolucionária’ de Gramsci com a qual ele nutria a esperança de criar uma nova e objetiva cultura hegemônica que substituísse a cultura burguesa. Em resumo, a ideia de Gramsci consistia de dar prioridade à ‘prática’ sobre a ‘teoria’ e encaixava-se bem com a mensagem que a Nova Esquerda queria expressar. O segundo foram as circunstâncias da morte de Gramsci numa prisão fascista, um fato que dá crédito ao espectro político concebido pela Nova Esquerda, no qual o comunismo está localizado numa extremidade e o fascismo na outra. Tudo o que a Nova Esquerda precisava fazer para que o culto em torno de Gramsci pegasse era exagerar as suas credenciais.

A existência de um espectro político, no qual a extremidade ‘Esquerda’ é o presumido domínio de todas as coisas ‘intelectualmente respeitáveis ou moralmente corretas’ e a extremidade ‘Direita’ o presumido domínio do oposto, é um disparate total para Scruton. Numa tentativa de jogar alguma luz sobre o tópico, Scruton mostra como os termos ‘Esquerda’ e ‘Direita’ se originaram, nos primeiros dias da França pós-revolucionária. Quando a possibilidade de transformar a França numa Monarquia Constitucional estava sendo considerada, os Estados Gerais, uma entidade representativa do clero (Primeiro Estado), da nobreza (Segundo Estado) e do povo comum (Terceiro Estado), que não se reunia desde 1614, foi reconvocada. Na Assembleia de 1789, os representantes do povo sentaram-se à esquerda do Rei Luís XVI, enquanto que os demais sentaram-se à sua direita. Esse evento marcou o início da associação da Esquerda com o povo e da Direita com a elite. Desde então, muitos truques foram empregados para esticar o significado da Esquerda para incluir anarquistas, marxistas dogmáticos, niilistas e liberais do estilo americano, e, para juntar, na Direita, fascistas, nazistas e liberais econômicos. Scruton fecha o seu argumento, relevando o denominador comum que une o comunismo e o fascismo:

O comunismo, como o fascismo, envolvia a tentativa de criar um movimento popular de massa e um Estado que fossem unidos sob um partido único no qual há uma coesão total em torno de um objetivo comum. Envolvia a eliminação da oposição, por qualquer meio, e a substituição da disputa ordenada entre partidos pela ‘discussão’ clandestina dentro de uma única elite governante. Envolvia assumir – ‘em nome do povo’ – o controle dos meios de comunicação e educação, e incutir uma base de comando através da economia.

Uma linguagem especial e idiossincrática é a outra característica que a Nova Esquerda preservou da Velha Esquerda. Scruton a descreve como “um desdenhoso linguajar marxista criado para denunciar, exortar e condenar”. Ele também busca mostrar as similaridades entre o linguajar da Nova Esquerda e o newspeak, a língua oficial do país Oceania, no livro de Orwell, Mil novecentos e oitenta e quatro. Scruton descreve o newspeak como “uma nova língua fortificada, criada com o propósito de criar uma ‘política de verdade’ a ser empregada no lugar da verdade em si.” Esse linguajar, de acordo com Scruton, inclui o efeito maniqueísta em palavras, a fim de enganar as pessoas, fazendo com que pensem que só há duas alternativas, como na manipulação do significado de certas palavras como ‘capitalismo’ e ‘burguesia’. Ao apresentar a palavra ‘capitalismo’ como um sinônimo de exploração, a Nova Esquerda arranja uma desculpa para condenar economias livres. Ao apresentar a palavra ‘burguesia’ como ‘uma classe hegemônica de pessoas com propriedade que controlam os meios de produção e, por assim fazer, exploram a classe dos trabalhadores ou proletariado’, a Nova Esquerda justifica a sua chamada para a guerra entre classes. Scruton admite que muitas das coisas erradas da sociedade britânica identificadas pela Nova Esquerda são verdade, mas ele objeta com a forma através da qual a Nova Esquerda descreve tais erros, arranjando as acusações de uma forma tal que não deixa nenhum espaço para a defesa, quer pelas pessoas apontadas quer pelo sistema no qual tais erros estão inseridos.

O ponto central que Scruton acentua em Fools, frauds and firebrands é que a Nova Esquerda não está comparando coisa com coisa quando justapõe o seu projeto contra a Civilização Ocidental. A Grã-Bretanha pode ter muitas falhas, mas é uma sociedade real. Não é o caso do ‘Reino dos Fins’ (Kingdom of Ends), termo que Scruton usa para descrever a sociedade de perfeita igualdade imaginada pela Nova Esquerda.

Ele termina o seu livro defendendo a sua posição de que a Grã-Bretanha deve permanecer como é e apontando que quaisquer melhorias devem vir de dentro. Melhorias devem ser feitas através do aperfeiçoamento das sociedades civis, das instituições e da personalidade. Por sociedades civis, Scruton quer dizer os pequenos pelotões que existem em todo o país, tais como bandas de música, grupos de estudos, corais, clubes de críquetes, danças, clubes de férias etc. Como exemplos de instituições, Scruton cita organizações profissionais, tais como os ‘Inns of Court’, quatro organizações da profissão do direito na Inglaterra, embora essas sejam também sociedades civis. Por personalidade, Scruton quer dizer a agência e a responsabilização dos indivíduos e das instituições que os acolhem. A despeito de sua antipatia pela terminologia do espectro político, Scruton descreve o que a Direita representa:

A Direita baseia a sua defesa na representação e na lei. Advoga instituições autônomas que medeiam entre o Estado e o cidadão, e uma sociedade civil que cresce de baixo para cima sem pedir permissão aos seus governantes. Enxerga o governo da mesma forma que todas as questões responsabilizáveis: não como uma coisa, mas como uma pessoa. Tal governo responde a outras pessoas: ao cidadão individual, às corporações e a outros governos. É também responsabilizável perante a lei. Tem direitos contra os cidadãos individuais, mas também deveres para com os mesmos: é tutor e companheiro da sociedade civil, o objeto das nossas piadas e o ocasional recebedor da nossa irritação. Situa-se perante nós numa relação humana, e essa relação é mantida e vindicada pela lei, perante a qual apresenta-se como uma pessoa dentre outras, em pé de igualdade com aqueles que estão também sujeitos à sua soberania.

Tal Estado tem como acomodar e barganhar. Reconhece que é obrigado a respeitar as pessoas não apenas como um meio mas como fim por si próprias. Tenta não liquidar a oposição, mas acomodá-la, e os socialistas têm também um papel nesse processo, desde que reconheçam que nenhuma mudança, nem mesmo as mudanças em suas direções preferidas, é ou deve ser irreversível.

Muitas das ideias do livro Fools, frauds and firebrands de Scruton serão cuidadosamente consideradas pelos seus admiradores do Leste Europeu e da América Latina, muito embora ele o tenha escrito pensando na Grã-Bretanha. Scruton deseja preservar a Grã-Bretanha, porque ele a ama e porque acredita que merece ser preservada. Ele também acha que, caso a ideologia da Nova Esquerda se torne realidade, o resultado será a escravidão. A chamada de Scruton para preservar a sociedade não exclui microajustes. Entretanto, antes de se decidir quais ajustes são necessários, as pessoas precisam compreender os dois componentes básicos da sociedade: o Estado e a sociedade civil. Na visão de Scruton, a sociedade civil é que deve aplicar mudanças ao Estado e não o contrário. Assim sendo, todas as mudanças devem vir de baixo para cima, a partir de mudanças dentro das pessoas. Somos nós que precisamos mudar para uma vida que leve ao autoconhecimento, o qual por sua vez nos permitirá reconhecer que a nossa felicidade depende do desejo das coisas certas, ao invés das coisas que capturam a nossa atenção ou que inspiram a nossa luxúria. Tais sugestões ressonam como ideias frequentemente associadas com a Esquerda e, por conseguinte, ilustram o contrassenso do espectro político.

Scruton não acha que tudo o que os pensadores da Nova Esquerda escreveram está errado. Em sua avaliação de Gramsci, por exemplo, embora Scruton tivesse qualificado a obra deste como uma ‘sociologia do bom senso’ ao invés de filosofia de ponta, ele reconheceu nele uma ‘franqueza que os marxistas ortodoxos não tinham’. Para Scruton, Gramsci ‘foi enfraquecido pelo repúdio da própria noção de objetividade e pela obra essencialmente negativa do professorado na América’. Essa visão sugere que Scruton entendeu Gramsci melhor do que aqueles que o glorificaram.

Fools, frauds and firebrands de Roger Scruton é produto do embate de toda uma vida do autor contra a Nova Esquerda e a nova ordem de coisas que a Nova Direita buscou introduzir na Grã-Bretanha. Scruton viveu consideráveis tormentas em resultado desse embate, e isso pode explicar o veio de pessimismo que ele revela no final desse livro, sob a forma de perguntas deixadas sem respostas. Se os professores das universidades mais prestigiadas do Ocidente podem se enganar dessa forma, que esperança pode haver para o restante da humanidade? Se a espécie humana possui uma carência religiosa intrínseca que nenhum pensamento racional consegue vencer, por acaso isso não torna todos os argumentos sem significado? Se as pessoas são muito mais predispostas ao abstrato do que ao concreto, qual é o ponto em defender aquilo que é meramente real? Essas perguntas servem como alimento de reflexão para todos aqueles que amam o seu país e desejam preservá-lo. Talvez fosse isso o que Scruton tinha em mente quando as formulou.

                                                                                                                                                                                   

Jo Pires-O’Brien edita uma revista digital chamada PortVitoria, sobre a cultura ibérica e sua diáspora no mundo.

 Key words: Fools, frauds and firebrands, Roger Scruton, Richard Rorty, Edward Said, Lenin, Stalin, Mao, Ho Chi Minh, Che Guevara, Antonio Gramsci, Newspeak, New Left, Old Left, guerra das culturas, Raymond Williams, Escola de Frankfurt, Herbert Marcuse , Erich Fromm, Max Horkeheimer, Theodor W Adorno, Jürgen Habermas, György Lukács, humanismo marxista;

 

Revisão: Débora Finamore

 Citation:

SCRUTON, ROGER. Fools, frauds and firebrands. Thinkers of the New Left. London, Bloomsbury, 2015. Resenha de PIRES-O’BRIEN, J. Sem Picadinho, sem Newspeak. PortVitoria, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Knowing the unknowable Clarice

Jenny McPhee

Review of the book Complete Stories, by Clarice Lispector. New York, New Directions, 2015. ISBN: 9780811219631.

Of all the eclectic posts on my Web site blog, the one that has consistently received the most views over the years contains two stories by the Brazilian writer Clarice Lispector translated by the poet Elizabeth Bishop. A link to my post regularly turns up on syllabi all over the world. Since her death in 1977, Lispector’s stature as a writer has grown so great in Brazil that she has become a household name. Elsewhere, her work, especially her stories, has remained relatively unknown and untranslated, hard to find except in random corners of the Internet.

Benjamin Moser, author of the excellent biography Why This World: A Biography of Clarice Lispector (2009), has devoted much of his career to bringing this wonderfully weird writer to a wider audience. In 2012, Moser oversaw the translation and publication of four of her nine novels by New Directions: Near to the Wild Heart, A Breath of Life, Água Viva, and The Passion According to G. H. Now he has edited the Complete Stories (also for New Directions), an unprecedented single-volume collection of all eighty-four of Lispector’s stories from the first, written when she was a teenager, to the last, published posthumously.

When I first read Lispector in the 1980s, I fell deeply, inexplicably in love. I wanted to know her work inside and out; I wanted to know everything about her. I read all I could find, which was not much and mostly in French translation as she was a darling of the French feminists. Hélène Cixous described her as what Kafka would have been had he been a woman, or if Rilke had been a Jewish Brazilian born in the Ukraine. If Rimbaud had been a mother, if he had reached the age of fifty. If Heidegger could have ceased being German.

No author before Lispector had ever spoken to me so directly, so obliquely, challenged me at once drastically and playfully to move to new places within and beyond language, within and beyond the body. No author had ever shown me so clearly, forcefully, profoundly, and humorously how the female experience is the human experience.

As Moser notes in his introduction to Complete Stories, however, Lispector is not for everyone. A reader’s love for her work usually comes immediately and instinctively. Many don’t get her. Her prose can be deliberately messy; whatever plot there is is often located in her characters’ wandering minds. Traditional narrative, logic, and linearity are of little interest to her. So what makes me love her? Is it because, as Moser writes, “her sympathy for silent and silenced women haunts these stories”? Is it because she gleefully, brutally, mystically, physically breaks all the rules and creates her own literary tradition? It certainly has much to do with the fact that I can’t fully articulate why.

Reading this collection, Moser notes, is to “follow a lifetime of artistic experimentation through a vast range of styles and experiences.” Seen, I would add, through a peculiar feminine gaze. Also animating her work is what Moser calls “an essentially spiritual impulse.” His biography extensively explores Lispector’s roots in Jewish mysticism: “As the Kabbalists found divinity by rearranging letters, repeating nonsensical words, parsing verses, and seeking a logic other than the rational, so did Clarice Lispector.” In their odd yet quotidian observations replete with a strange grammar, Lispector’s stories contain the weight and wonder of the world.

Lispector’s own life contained much weight and wonder. Born in Western Ukraine to Jewish parents, her family was constantly threatened by the pogroms of the Russian Civil War. Her mother contracted syphilis after being raped by a Russian soldier; in the belief that pregnancy would cure her of the disease, Lispector was conceived. Two years later, the family fled to Recife in Brazil, and nine years later her mother died. The family then moved to Rio; with her father’s encouragement, Lispector pursued an education and eventually enrolled in Rio’s prestigious law school, supporting herself through journalism. At the age of twenty-three, she published her first novel, Near to the Wild Heart, to overwhelming acclaim. Soon after, she married a diplomat and spent the next fifteen years living abroad, struggling with her writing career, as well as raising two sons.

In her stories, Lispector writes about, among many things: a chicken who lays an egg; an octogenarian’s sexual desire; an ontological alarm clock; a pygmy woman from equatorial Africa; an encounter between a bourgeois woman and a homeless man; a woman’s search for carnage at the Zoological Gardens. She can be philosophically grand—“What matter am I made of in which elements and foundations for a thousand other lives mingle but never merge? I go down every path and still none is mine”—but mostly dwells in the philosophically mundane: “Something uneasy was happening. Then she saw: the blind man was chewing gum.” Among the earlier stories’ dominant themes is the discombobulation of young women as they realize they must learn to exist in a man’s world: “Little by little I was adapting,” she writes in “Jimmy and I,” “to his elongated head.”

In the middle and later stories, Lispector focuses on the female condition from a more mature perspective:  “She’d been married for twelve years and three hours of freedom had restored her almost entirely to herself: –the first thing to do was to see if things still existed” (“The Escape”); “Would anyone happen to see, in that tiniest point of surprise lodged in the depths of her eyes, would anyone see in that tiniest affronted speck the lack of the children she’d never had?” (“The Imitation of the Rose”). She offers advice: “I would like to tell you that having passions does not mean living beautifully, but rather suffering pointlessly… If you cannot free yourself from desiring passions, read novels and adventure stories, for that is also why writers exist” (“Letters to Hermengardo”). She reflects on the writing process: “My entanglement comes from how a carpet is made of so many threads that I can’t resign myself to following just one; my ensnarement comes from how one story is made of many stories” (“The Disasters of Sofia”). Lispector’s similes can be hilarious: “Everyone exchanged polite glances, smiling blindly, abstractedly as if a dog had peed in the room” (“Happy Birthday”); and her metaphors astonishing: “Yet feelings are the water of an instant” (“The Foreign Legion”).

Much praise is to be heaped on Katrina Dodson for her translation of these stories. She has conveyed in English Lispector’s distorted grammar, syntax, and punctuation, maintaining both the purposefully foreign feeling of the language as well as its odd fluidity and overall command. As a translator myself, I am always intrigued by how inevitable untranslatability is handled. For example, Lispector’s story “A Hope” revolves around the dual significance of the Portuguese word esperança as both “cricket” and “hope.” Dodson handles this tricky problem quite brilliantly.

As Moser writes of Lispector: “Hers is an art that makes us want to know the woman; she is a woman who makes us want to know her art.” Her genius, however, is that as much of herself as she offers in her writing, she remains rigorously unknowable—as we all are. The Complete Stories will make the great Clarice Lispector much more widely unknown.

                                                                                                                                   

Jenny McPhee’s books include A Man of No Moon, No Ordinary Matter, The Center of Things, and Girls: Ordinary Girls and their Extraordinary Pursuits. Her most recent translations are of Primo Levi’s short story collections Flaw of Form and Natural Histories.

 

Notes

Copyright 2015 Jenny McPhee

Source: Book Review From the September 2015 issue: Geography of the Peruvian imagination. http://www.wordswithoutborders.org/book-review/clarice-listpector-complete-stories-knowing-the-unknowable-clarice#ixzz3w4XhEA7m

 Citation

LISPECTOR, C. Complete Stories. New York, New Directions, 2015. Review by: MCPHEE, J. Knowing the Unknowable Clarice. PortVitoria, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

A desconstrução criativa de Miguel de Cervantes

Débora P. Finamore

Resenha do livro Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes de Saavedra. (Tradução de Ernani Ssó; introdução de John Rutherford; posfácios de Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia.) São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2012.

Miguel de Cervantes só obteve o sucesso literário aos 57 anos, com a publicação da primeira parte de Dom Quixote, em 1605. Muitos leitores desconhecem o fato de a obra mais famosa de Cervantes ter sido publicada em duas partes, com um intervalo de dez anos entre elas e com uma segunda parte apócrifa de permeio.

A saga do Engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, escrita em prosa e em língua vulgar, surge como uma paródia dos ainda populares romances de cavalaria que vieram a público a partir do século XII. Cervantes, portanto, busca desconstruir com ironia e humor uma literatura cuja hegemonia perdurava há aproximadamente 500 anos.

Na primeira parte (O engenhoso fidalgo dom Quixote de La Mancha ), dividida em 52 capítulos, um narrador que revela estar fazendo um relato de segunda mão – a história teria sido escrita pelo historiador árabe Cide Hamete Benengeli que, como veremos mais adiante, trata-se de um alter ego de Miguel de Cervantes – narra duas viagens de um fidalgo de sobrenome Queixada ou Queijada que beirava os 50 anos, possuía compleição rija e rosto enxuto, era seco de carnes, grande madrugador e amante da caça. Tal fidalgo, em determinado momento de sua vida, dera para ler nas horas ociosas – que eram muitas – romances de cavalaria, e apenas romances de cavalaria.

Esse é o fato que o leva a empreender sua primeira viagem (capítulos 1 a 5) já intitulando-se dom Quixote, mesmo que só venha a ser sagrado cavaleiro alguns capítulos depois por um vendeiro em cuja casa se hospeda (capítulo 3).

A segunda viagem (capítulos 7 a 52) já será feita em companhia de Sancho Pança, um vizinho lavrador, elevado à condição de escudeiro do dito cavaleiro. Nessa viagem, entre tantos episódios célebres, ocorre o embate contra os moinhos de vento; moinhos de vento para Sancho e para nós, os leitores ‘realistas’, gigantes para o visionário dom Quixote.

A primeira parte do livro finda com o segundo retorno de dom Quixote a sua casa, depois de passar por muitas peripécias, que vão transformando os olhares do cavaleiro e do escudeiro — dom Quixote começa a ver não apenas com a lente do ideal, mas também com a do real; Sancho Pança, por sua vez, se deixa encantar pelos ideais da cavalaria e da arte. Todavia, o ladino narrador diz-nos ter encontrado novos relatos do Quixote os quais nos promete apresentar em breve ocasião.

Embora o livro (essa primeira parte) fizesse enorme sucesso – só a Bíblia o ultrapassava em número de vendas –, quase dez anos se passaram sem que Cervantes desse ao público a prometida segunda parte. Nesse vácuo, um escritor de pseudônimo Alonso Fernadez de Avellaneda publicou, em 1614, a continuação das aventuras de dom Quixote e Sancho Pança. Mesmo sem a maestria do original, o texto apócrifo alcançou algum sucesso. Possivelmente movido por esta intrusão autoral, contra a qual o criador não poderia lutar, visto que o livro inautêntico fora publicado com a devida aprovação da Igreja e do Rei, Cervantes pôs-se a escrever a sua segunda parte, a qual veio a lume em 1615.

Na segunda parte (O engenhoso cavaleiro dom Quixote de La Mancha ), dividida em 74 capítulos, a terceira e última viagem de dom Quixote é narrada pelo mesmo narrador de segunda mão, desta vez ainda mais ladino, na medida em que intensifica as marcas do texto cervantino que justificam o fato de Miguel de Cervantes ser considerado um divisor de águas entre a literatura antiga e a literatura moderna. Uma dessas marcas encontra-se na inversão e na duplicação do paradoxo entre ‘real’ e ‘ideal’ – o razoável Sancho embarca cada vez mais na fantasia, enquanto o louco dom Quixote recobra pouco a pouco sua lucidez.

Nessa parte, embora o cavaleiro ainda vivencie muitas de suas tresloucadas aventuras, o que chama atenção do leitor é o fato de o cavaleiro se aproximar cada vez mais do real que abandonara em nome do ideal motivador de suas duas primeiras viagens. Logo no início (capítulo 10), dom Quixote pede a Sancho que promova um encontro entre ele e sua amada; Sancho, fazendo o jogo fantasioso do cavaleiro, apresenta-lhe três lavadeiras como sendo Dulcineia del Toboso e suas aias. Dom Quixote, então, surpreende Sancho e o leitor, quebrando o jogo fantasioso, ao dizer que vê somente três lavadeiras montadas em seus burricos.

O uso da metalinguagem é outra das marcas do texto cervantino que justificam sua modernidade. Nessa segunda parte, o narrador desdenha com preciso sarcasmo a obra apócrifa de Avellaneda, explicitando a autoria da mesma em vários episódios. Num deles (capítulo 59), o cavaleiro e seu escudeiro encontram, em uma estalagem, dois fidalgos, dom Juan e dom Jerônimo, que leem a segunda parte apócrifa das aventuras de dom Quixote. Tanto ele como Sancho discutem com os cavaleiros, renegando a versão apresentada, por essas conter muitos erros em relação ao dom Quixote “real”; por exemplo, dom Quixote se indigna de o falso autor o apresentar já desenamorado de Dulcineia del Toboso. Noutro episódio (capítulo 70), uma personagem, Altisidora, sonha com diabos que jogam livros como se jogassem bola, e, entre os livros que serviam como bola, encontra-se a falsa segunda parte de Avellaneda. Ainda num outro episódio (capítulo 72), a autoria verdadeira e a autoria falsa da história de dom Quixote, ou seja, a versão de Cide Hamete (alter ego de Miguel de Cervantes) e a versão do autor tordesilhesco (Cervantes não se digna a nomear Alonso de Avellaneda, refere-se a ele apenas pelo adjetivo gentílico) são colocadas em xeque no encontro que se dá, em uma hospedaria, entre Sancho Pança, dom Quixote e dom Álvaro Tafer. Este último é um personagem do livro de Avellaneda, tido como amigo de dom Quixote que, entretanto, não vê nenhuma semelhança entre o dom Quixote do tordesilhesco e o cervantino que se encontra à sua frente.

O ápice dos paradoxos — real x ideal; verdadeiro x falso; loucura x sanidade; vida x arte —, desenvolvidos nas partes 1 e 2 da saga do Dom Quixote de la Mancha, se dá no capítulo final (capítulo 74). Nesse capítulo, dom Quixote faz seu testamento como Alonso Quixano, o Bom e nosso narrador de segunda mão assume sua condição de autor único e ‘verdadeiro’ do personagem Quixote/Quixano.

Há, no Brasil, dezenas de edições brasileiras da tradução lusitana do Dom Quixote feita pelos viscondes de Castilho e de Azevedo, publicada em Portugal desde 1876 e no Brasil desde 1898 até o momento presente.

Já a primeira tradução brasileira de que se tem notícia foi feita por Milton Amado e Almir de Andrade (editora José Olympio), em 1952. Três décadas depois, em 1983, aparece a tradução de Eugênio Amado (editora Itatiaia). Com a chegada do século XXI, que marca o quadricentenário da obra-prima de Miguel de Cervantes, novas traduções brasileiras vem sendo lançadas. Alguns exemplos: a de Sérgio Molina (editora 34), em 2002 e 2007; a de Carlos Nougué e José Luis Sanchez (editora Record), em 2005; e a de Ernani Ssó (Penguin/Companhia das Letras), em 2012. Essa resenha tomou como texto base essa última tradução.

                                                                                                                                               

Débora P. Finamore é colaboradora e membro do conselho editorial de PortVitoria.

Citação

CERVANTES DE SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. (Tradução de Ernani Ssó; introdução de John Rutherford; posfácios de Jorge Luis Borges e Ricardo Piglia.) São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, 2012. Resenha de FINAMORE, D. P. A desconstrução criativa de Miguel de Cervantes. PortVitoria, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Riqueza para viver melhor: Bertrand de Jouvenel

Fernando R. Genovés

Desde a Antiguidade que o propósito do enriquecimento pessoal tem sido interpretado em termos contrários à moral, como se fosse algo indigno, um pecado, um vício. Tal visão da riqueza e do bem-estar individual repousa sobre uma visão antiga e tradicional do assunto, a qual reprime o crescimento das sociedades modernas. Com uma menor ou maior dose de cinismo, o socialismo, dentre outras doutrinas e ideologias retrógradas, insiste em manter vivo esse credo contrário à liberdade, ou seja, o pobrismo.

Sem embargo, não faltam autores que têm procurado mostrar a compatibilidade entre a riqueza e o viver bem, e, os objetivos da economia e da ética. Um deles é Bertrand de Jouvenel (1903-1987), filho de Henry de Jouvenel, o qual foi casado, em segundas núpcias, com a famosa escritora Colette (Sidonie-Gabrielle Colette). Portanto, teve por pai um senador, embaixador francês e o mais influente membro do Partido Radical, e, por ‘mãe política’ ou madrasta (soa melhor na expressão francesa belle-mère), nada menos que a sensual, vivaz e altamente liberal autora de Querido (1936) e Gigi (1945), e de uma enorme quantidade de romances curtos bem conhecidos (comumente comercializados no formato de livros de bolso. NT).

A relevância da contribuição de Bertrand de Jouvenel ao pensamento econômico, sociológico e político fica patente com uma simples inspeção na sua bibliografia. Ali estão registrados textos capitais como O Poder: História Natural do seu Crescimento (1945), A Ética da Redistribuição (1953), De la souveraineté a la recherche du bien politique (1955; Sobre a soberania) e The Pure Theory of Politics (1963; A Teoria Pura da Política). Nesses, Jouvenel propõe um liberalismo aristocrático (ou ‘melancólico’, segundo afirmou Brian C. Anderson), oposto não só à fatal arrogância do socialismo, mas também à triste debilidade do ‘democratismo’, e, sempre contrário a qualquer expressão de poder político, o temido ‘Minotauro’.

Esta disposição poliédrica da visão do mundo pode explicar, entretanto, a ocasional, ou, a bem dizer, acidental, simpatia que Jouvenel sentiu pelo brilho da economia alemã sob o mandato de Adolf Hitler, assim como a sua adscrição ao bem pouco liberal Partido Popular Francês, dirigido pelo obscurantista Jacques Doriot, um comunista gaulês que, durante a ocupação, cultivou o colaboracionismo com grande paixão, pelo que foi julgado e fuzilado. E, como desgraça pouca é bobagem, outra maior aconteceu, a publicação no Paris Midi, em 26 de fevereiro de 1936, de uma curta entrevista que Jouvenel fez com o ditador alemão. Desde então, a sombra da dúvida não parou de perseguir o cientista político francês. O que pensar dele? Se não um pensador perigoso, no mínimo como um pensador imprudente (Mark Lilla*), como se fosse, do mesmo modo, o teorista alemão Carl Schmitt; cada qual com suas inclinações particulares.

Sem muitos rodeios, o historiador israelita Seev Sternhell acusou Jouvenel de ser um ‘pensador totalitário’ no seu livro Ni droite, ni gauche. L’idéologie fasciste en France (1983; Nem direita nem esquerda: a ideologia fascista na França), o que acabou num processo por difamação, transitado e julgado num tribunal de Paris, em 1983. Uma das pessoas que testemunhou a favor de Jouvenel foi Raymond Aron, o qual afirmou:

É verdade que nós, os homens desta geração, sentíamo-nos desesperados ante a debilidade das democracias. Sentíamos que a guerra se aproximava. Alguns sonharam com outra coisa, com algo que pudesse acabar com essa debilidade.

É certo que muitos escritores e pensadores notáveis daquela geração se perderam nos desfiladeiros do totalitarismo, embriagados pela vaidade e pela autocomplacência, ou, mais apropriadamente, pela ‘malevolente simpatia’ ou ‘o ópio dos intelectuais’.

Afirmar que Aron defendeu Jouvenel até a morte não é uma frase retórica. Convalescendo de um problema cardíaco, e contra a opinião dos médicos, Aron, sempre cortês e elegante, compareceu ao tribunal parisiense para estar com o seu amigo e defendê-lo. Foi um gênio até a morte, pois faleceu quando retornava ao automóvel que o havia transportado a esse seu último ato público. Enquanto isso, Jean-François Revel gravava no seu livro de memórias Le voleur dans la maison vide (1997; O ladrão na casa vazia), que a reputação de colaboracionista e pró-nazista que pesava sobre Jouvenel era ‘imerecida’. Revel, um antigo militante comunista, e Aron, oriundo das fileiras socialistas, entendiam a importância de registrar e contextualizar o passado nas biografias políticas (e, às vezes, também nas pessoais), ou, pelo menos, de conceder às pessoas uma segunda oportunidade. Seja como for, o certo é que outros autores liberais da geração de Jouvenel resistiram melhor que ele à tentação totalitária. Entretanto, é também verdade que nem sempre escreveram textos tão excelentes como os que Jouvenel escreveu.

Há um texto excepcional de Jouvenel que eu gostaria de destacar, uma vez que não é a minha intenção, nesse momento, debater aquilo que poderíamos chamar de passos em falso na história do liberalismo, que é claro que ocorreram, assim como ocorrem nas melhores famílias. Mas isso é um assunto para outra ocasião. Mais acima, eu me referi a alguns dos grandes ensaios de Jouvenel. O que eu quero agora é fixar a atenção num curto, porém substancial, ensaio intitulado ‘Mieux-vivre dans la société riche’ (‘Viver melhor na sociedade rica’. Diogenes, 33, primavera 1961), publicado no livro Arcadia. Essays sur le mieux-vivre (1969; Arcádia: Ensaios para um viver melhor; edição original: Paris). Em umas poucas páginas, encontramos aí uma esplêndida exposição acerca da virtude e da bondade, bem como da fortuna boa, expressão que não sendo oposta à boa fortuna é tampouco idêntica à mesma. Encontramos também uma apologia à ‘crematística’, a ciência da riqueza, a qual sabe por que é melhor viver numa sociedade de ricos do que numa de miseráveis. Neste ponto, o liberalismo ‘melancólico’ de Jouvenel torna-se feliz.

“A riqueza é o grande problema das sociedades ‘modernas’”. Com estas palavras ele principia o ensaio. A predisposição à riqueza não é própria do mundo antigo. Certamente, havia então grandes patrimônios e poderosas fortunas, mas ambos eram reprovados pela maior parte das filosofias e das religiões. A busca individual do enriquecimento era tida como uma força corruptora do homem, infiltrada pela imoralidade. A ideia de fomentar o estado de bem-estar social era impossível de se conceber em um regime escravagista.

Aristóteles, o patriarca da filosofia antiga, faz uma distinção severa entre ‘crematística’ e ‘economia’. Para ele, há uma desmedida e excessiva liberalidade na primeira, enquanto que a segunda caracteriza-se pela contenção e pela moderação. Portanto, para o filósofo grego, o sentido do viver bem reside na frugalidade (manter-se com aquilo que cada qual produz: usando o paradigma agrícola) e na satisfação das necessidades básicas. Não se trata, portanto, de aumentar a produção indefinidamente, mas de limitar os desejos do homem. Essa visão do mundo e da vida chega à Idade Média sob a manta do estoicismo, mas experimenta uma profunda alteração na Era Moderna.

Conforme assinala Jouvenel, a mudança de perspectiva que ocorre consiste em colocar a riqueza numa posição de honra entre os valores, no lugar de outros como a honra, a terra, a genealogia ou o sacrifício. Não bastava que o desenvolvimento científico e tecnológico favorecesse a mudança do campo para a cidade, ou que a revolução industrial e a produtividade maior modificassem o estado das coisas. Era preciso, ao mesmo tempo, que a percepção dos valores e o sentido da moralidade estivessem à altura dos tempos. E, para poder considerar o enriquecimento e a prosperidade como algo honesto e respeitável, era necessário aceitar que não havia por que produzir necessariamente à custa dos outros, como ocorre com a dominação no propósito da escravidão. Esta revisão de valores, adverte Jouvenel, está ligada à ascensão das classes médias:

A ideia moderna é que todos os membros de uma sociedade possam enriquecer-se coletiva e individualmente por meio de progressos sucessivos na organização do trabalho, e nos seus procedimentos e instrumentos; e que este enriquecimento proporcione por si mesmo os meios para o seu futuro desenvolvimento e que este desenvolvimento possa ser rápido e indefinido.

Um exemplo notável dessa ocorrência é revelado na história dos Estados Unidos da América. Ali o produto por habitante sextuplicou-se de 1839 a 1959, e, até hoje, esse país é considerado o arquétipo da sociedade rica e poderosa. Ocorre que o modelo de vida americano, que agrada ou desagrada a tantas pessoas, triunfou porque soube aplicar eficazmente os três requisitos que, segundo Jouvenel, são necessários para que o enriquecer-se subentenda ao mesmo tempo viver melhor: a mobilidade geográfica do trabalho, o reajuste profissional e a amenidade. Por acaso alguém já bolou algo melhor?

Crematis’ em grego significa ‘empreendimento’ ou ‘negócio’. Em espanhol, ‘crematística’ é uma palavra que, no seu sentido restrito, denota uma acepção humorística. Entre nós espanhóis, muitos preferem a versão latina: neg-otium. Não obstante, vale a pena levar a sério o valor da crematística e a máxima ética de cada qual cuidar dos seus próprios assuntos (his own business). Ao invés de deixar que o façam a política e o Estado, os minotauros e os ogros filantrópicos.

                                                                                                                                               

Fernando R. Genovés (Valência, 1955) é escritor, ensaísta, crítico literário e analista cinematográfico. Doutor em Filosofia pela Universidade de Valência (Espanha). Ganhador do Prêmio Juan Gil-Albert de Ensaio em 1999. É autor de numerosos artigos em jornais e revistas especializadas, como Libertad Digital, ABC Cultural, Claves de Razón Práctica, Debats, Revista de Occidente e El Catoblepas. Até o momento já publicou 13 livros de não ficção, entre os quais cabe citar Marco Aurelio. Uma vida contenida (2012), La ilusión da empatía (2013), Dos veces bueno. Breviario de aforismos y apuntamientos (2014), El alma das ciudades. Relatos de viajes y estancias (2015). Mantém os seguintes blogs: Los viajes de Genovés, Cinema Genovés y Librepensamientos.

 

Nota

© F R Genovés

O presente ensaio foi extraído do libro La riqueza da libertad, 2016. ISBN e-book 978-84-608-6112-6, disponível na Amazon.

Tradução: Jo Pires-O’Brien (UK)

Revisão: Débora Finamore (Br)

 Referência

Genovés, Fernando Rodriguez. Riqueza para viver melhor: Bertrand de Jouvenel. PortVitoria, UK, v.13, Jul-Dec, 2016. ISSN 20448236, https://portvitoria.com

The tetra centenary of Cervantes and Shakespeare

Editorial. The tetra centenary of Cervantes and Shakespeare

This year marks the 400th anniversary of the deaths of Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) and William Shakespeare (1564-1616). Cervantes and Shakespeare died within days of each other; the first on 22 April and the second on 3 May 1616. What do they have in common? They both wrote poetry and plays and were both extremely creative. Harold Bloom, an American literary critic specialised in Shakespeare, wrote that only Shakespeare comes close to Cervantes’ genius. It is a fact that Cervantes and Shakespeare are at the top of the list of western authors.

Cervantes’ place in the pantheon of great writers resulted from his book Don Quixote de la Mancha, whose full title is El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha (The Ingenious Gentleman Don Quixote of La Mancha), published in two volumes in 1605 and 1615. In it, Cervantes introduces the characters of Don Quixote and Sancho Panza, an unlikely duo who have captured readers’ imagination for centuries. To some, Don Quixote is a mad man, to others, a decent human being trying to follow his heart. Sancho Panza too evokes contradictory views. It appears that Cervantes intended to put human contradiction at the heart of his plot. As pointed out by George Orwell (in an essay entitled The Art of Donald McGill, about a postcard caricaturist), Don Quixote and Sancho Panza captivate our imagination for we all have some of their traits within ourselves.

In this edition of PortVitoria, Débora Finamore, a Brazilian literature teacher and a member of our board of editors, provides a review of Don Quixote, underlining the editions available in Portuguese. We also offer six poems by Cervantes chosen by Paul Archer, a British poet and lyricist living in Mallorca, which are followed by English versions translated by Archer himself.

There are two other items in this edition, an article on the thoughts of Bertrand de Jouvenel, Fernando R. Genovés, and a review of Clarice Lispector’s Complete Stories, by Jenny McPhee.

Joaquina Pires-O’Brien – July 2016

Citation:

Pires-O’Brien, J. Editorial. The Tetra Centenary of Cervantes and Shakespeare. PortVitoria, UK, v.13 Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236.

The Tetra Centenary of Cervantes and Shakespeare

Joaquina Pires-O’Brien

This year marks the 400th anniversary of the deaths of Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) and William Shakespeare (1564-1616). Cervantes and Shakespeare died within days of each other; the first on 22 April and the second on 3 May 1616. What do they have in common? They both wrote poetry and plays and were both extremely creative. Harold Bloom, an American literary critic specialised in Shakespeare, wrote that only Shakespeare comes close to Cervantes’ genius. It is a fact that Cervantes and Shakespeare are at the top of the list of western authors.

Cervantes’ place in the pantheon of great writers resulted from his book Don Quixote de la Mancha, whose full title is El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha (The Ingenious Gentleman Don Quixote of La Mancha), published in two volumes in 1605 and 1615. In it, Cervantes introduces the characters of Don Quixote and Sancho Panza, an unlikely duo who have captured readers’ imagination for centuries. To some, Don Quixote is a mad man, to others, a decent human being trying to follow his heart. Sancho Panza too evokes contradictory views. It appears that Cervantes intended to put human contradiction at the heart of his plot. As pointed out by George Orwell (in an essay entitled The Art of Donald McGill, about a postcard caricaturist), Don Quixote and Sancho Panza captivate our imagination for we all have some of their traits within ourselves.

In this edition of PortVitoria, Débora Finamore, a Brazilian literature teacher and a member of our board of editors, provides a review of Don Quixote, underlining the editions available in Portuguese. We also offer six poems by Cervantes chosen by Paul Archer, a British poet and lyricist living in Mallorca, which are followed by English versions translated by Archer himself.

There are two other items in this edition, an article on the thoughts of Bertrand de Jouvenel, Fernando R. Genovés, and a review of Clarice Lispector’s Complete Stories, by Jenny McPhee.

July 2016

Citation:

Pires-O’Brien, J. Editorial. The Tetra Centenary of Cervantes and Shakespeare. PortVitoria, UK, v.13 Jul-Dec, 2016. ISSN 2044-8236.