Biografia

Bob Dylan nasceu Robert Allen Zimmerman, em 24 de maio de 1941 em Duluth, Minnesota, trocando de nome quando começou a gravar. Muito antes de Robert Zimmerman virar Bob Dylan ele já havia impressionado as pessoas a seu redor com a sua criatividade e ambição musical. Começou a escrever poesias quando tinha apenas dez anos e aprendeu sozinho a tocar violão e piano. Em 1959 ele matriculou-se na Universidade de Minnesota onde ele começou a ouvir os pioneiros da música folk e do roque como Hank Williams, Robert Johnson e Woody Guthrie, ao invés de aplicar-se ao estudo. Foi nessa época que ele aprendeu a tocar harmônica, começou a tocar nos cafés da cidade e adotou o nome de Bob Dylan. Não é sabido ao certo de onde ele tirou o nome ‘Dylan’, mas é presumido que foi do poeta galês Dylan Thomas.

No ano seguinte Bob Dylan deixou os estudos e foi para New York com a ambição de firmar-se no cenário artístico musical da Greenwich Village e conhecer o seu ídolo, Woody Guthrie. O sucesso chegou em 1961 através de um contrato de gravação com a Columbia Records. O seu primeiro álbum chamava-se simplesmente ‘Bob Dylan’ e continha músicas músicas folk tradicionais ao inv[es de suas próprias composições. Essas apareceram no seu segundo álbum, com o qual Dylan firmou-se no cenário muical. Dylan começou a tocar em cafés e a despertar a curiosidade de outros artistas. Foi nessa época que ele compôs as músicas que viraram lendas na década de sessenta. Foi no seu próximo álbum, ‘Free Wheelin Bob Dylan’, onde ele gravou as suas músicas mais famosas como ‘A hard rains a-gonna fall’, ‘Don’t think twice, it’s all right’ e ‘Blowin in the wind’.

O próximo álbum de Dylan, intitulado ‘The Times They Are A-Changin’, caracterizou-se pelas músicas de protesto. Foi nessa época que Bob Dylan fez amizade com Joan Baez. Esta começou a cantar músicas inéditas de Dylan e Dylan começou a aparecer nos seus concertos. A imagem de Dylan cantando e tocando guitarra acústica e harmônica ficou marcada nas mentes de seus admiradores. Entretanto, Dylan eventualmente cansou-se de ser categorizado pelas músicas folk de protesto e assumiu o estilo rock , nos seus próximos dois álbuns, ‘Restless Farwell’ e ‘Another Side of Bob Dylan’. Apesar dos protestos de seus fans, Dylan continuou a sua evolução musical, embora sem abandonar de todo o estilo folk.

Quando em 2011 Dylan completou 70 anos de idade o jornal britânico The Independent publicou um artigo intitulado ‘70 reasons why Bob Dylan is the most important figure in pop-culture culture’ (70 motivos pelos quais Bob Dylan é considerado uma das mais importantes figuras da história da cultura pop). E, em 2016, quando completou 75 anos, Dylan foi agraciado com o Nobel de Literatura. Precisa dizer mais?

Principais prêmios recebidos:

Durante a sua carreira musical Bob Dylan ganhou um Oscar (2001, por uma música) e 10 Grammys.

Em maio de 2012, Bob Dylan recebeu do Presidente Barack Obama a Medal of Freedom, a maior condecoração civil dos Estados Unidos.

Em maio de 2013, Bob Dylan recebeu a medalha da Legion d’honneur, do governo francês.

Em 13 de outubro de 2016, Bob Dylan recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, tornando-se o primeiro liricista a receber essa honraria.


Letras de músicas de Bob Dylan (com versões em português)

Blowing in the wind

Bob Dylan

How many roads must a man walk down

Before you can call him a man?

Yes and how many seas must a white dove sail

Before she sleeps in the sand?

Yes and how many times must cannonballs fly

Before they’re forever banned?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind

The answer is blowin’ in the wind

 

Yes, how many years must a mountain exist

Before it is washed to the sea

Yes and how many years can some people exist

Before they’re allowed to be free?

Yes and how many times must a man turn his head

And pretend that he just doesn’t see?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind

The answer is blowin’ in the wind

 

Yes, how many times must a man look up

Before he can really see the sky?

Yes and how many ears must one man have

Before he can hear people cry?

Yes and how many deaths will it take till he knows

That too many people have died?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind

The answer is blowin’ in the wind

 

Quantas estradas um homem precisará andar

Bob Dylan

Antes que possam chamá-lo de homem?

Quantos mares uma pomba branca precisará sobrevoar

Antes que ela possa dormir na areia?

Sim, e quantas balas de canhão precisarão voar

Até serem para sempre banidas?

A resposta, meu amigo, está soprando ao vento

A resposta está soprando ao vento

Sim, e quantos anos uma montanha pode existir

Antes que ela seja dissolvida pelo mar?

Sim, e quantos anos algumas pessoas podem existir

Até que sejam permitidas a serem livres?

Sim, e quantas vezes um homem pode virar sua cabeça

E fingir que ele simplesmente não vê?

A resposta, meu amigo, está soprando ao vento

A resposta está soprando ao vento

Sim, e quantas vezes um homem precisará olhar para cima

Antes que ele possa ver o céu?

Sim, e quantas orelhas um homem precisará ter

Antes que ele possa ouvir as pessoas chorar?

Sim, e quantas mortes ele causará até saber

Que pessoas demais morreram

A resposta, meu amigo, está soprando ao vento

A resposta está soprando ao vento?

(Traduzida por Flavius)

 

The times they are changing

Bob Dylan

Come gather ’round people

Wherever you roam

And admit that the waters

Around you have grown

And accept it that soon

You’ll be drenched to the bone

If your time to you

Is worth savin’

Then you better start swimmin’

Or you’ll sink like a stone

For the times they are a-changin’

 

Come writers and critics

Who prophesize with your pen

And keep your eyes wide

The chance won’t come again

And don’t speak too soon

For the wheel’s still in spin

And there’s no tellin’ who

That it’s namin’

For the loser now

Will be later to win

For the times they are a-changin’

 

Come senators, congressmen

Please heed the call

Don’t stand in the doorway

Don’t block up the hall

For he that gets hurt

Will be he who has stalled

There’s a battle outside

And it is ragin’

It’ll soon shake your windows

And rattle your walls

For the times they are a-changin’

 

Come mothers and fathers

Throughout the land

And don’t criticize

What you can’t understand

Your sons and your daughters

Are beyond your command

Your old road is

Rapidly agin’

Please get out of the new one

If you can’t lend your hand

For the times they are a-changin’

 

The line it is drawn

The curse it is cast

The slow one now

Will later be fast

As the present now

Will later be past

The order is

Rapidly fadin’

And the first one now

Will later be last

For the times they are a-changin’

 

Os Tempos Estão Mudando

Bob Dylan

Vamos reunir as pessoas ao redor

Por onde quer que andem

E admitam que as águas

Á sua volta estão subindo

E aceitem que logo

Vocês estarão cobertos até os ossos.

Se seu tempo para você

Vale a pena ser poupado

Então é melhor começar a nadar

Ou irá se afundar como uma pedra

Pois os tempos estão mudando

Venham escritores e críticos

Aqueles que profetizam com suas canetas

E mantenham seus olhos abertos

A chance não virá novamente

E não falem tão cedo

Pois a roda ainda está girando

E não há como dizer

Quem será nomeado

Pois o perdedor de agora

Mais tarde vencerá

Pois os tempos estão mudando

Venham senadores, congressistas

Por favor escutem o chamado

Não fiquem parados no vão da porta

Não congestionem o corredor

Pois aquele que se machuca

Será aquele que nos impediu

Há uma batalha lá fora

E está rugindo

E logo irá balançar suas janelas

E fazer ruir suas paredes

Pois os tempos estão mudando

Venham mães e pais

De toda os lugares…

E não critiquem

O que vocês não podem entender…

Seus filhos e filhas

Estão além de seu comando

Seu velho caminho

Está rapidamente envelhecendo

Por favor saiam da frente

Se não puderem dar uma mãozinha

Pois os tempos estão mudando

A linha está traçada

A maldição está lançada…

E o mais lento agora

Será o rápido mais tarde…

Assim como o presente de agora

Será mais tarde o passado…..

A ordem está

Rapidamente se esvaindo

E o primeiro agora

Será o último depois….

Pois os tempos estão mudando

(Traduzida por Flavius)

 

Mr Tambourine man

Bob Dylan

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

I’m not sleepy and there is no place I’m going to

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

 

Though I know that evenin’s empire has returned into sand

Vanished from my hand

Left me blindly here to stand but still not sleeping

My weariness amazes me, I’m branded on my feet

I have no one to meet

And the ancient empty street’s too dead for dreaming

 

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

I’m not sleepy and there is no place I’m going to

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

 

Take me on a trip upon your magic swirlin’ ship

My senses have been stripped, my hands can’t feel to grip

My toes too numb to step

Wait only for my boot heels to be wanderin’

I’m ready to go anywhere, I’m ready for to fade

Into my own parade, cast your dancing spell my way

I promise to go under it

 

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

I’m not sleepy and there is no place I’m going to

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

 

Though you might hear laughin’, spinnin’, swingin’ madly across the sun

It’s not aimed at anyone, it’s just escapin’ on the run

And but for the sky there are no fences facin’

And if you hear vague traces of skippin’ reels of rhyme

To your tambourine in time, it’s just a ragged clown behind

I wouldn’t pay it any mind

It’s just a shadow you’re seein’ that he’s chasing

 

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

I’m not sleepy and there is no place I’m going to

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

 

Then take me disappearin’ through the smoke rings of my mind

Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves

The haunted, frightened trees, out to the windy beach

Far from the twisted reach of crazy sorrow

Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free

Silhouetted by the sea, circled by the circus sands

With all memory and fate driven deep beneath the waves

Let me forget about today until tomorrow

 

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

I’m not sleepy and there is no place I’m going to

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me

In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Senhor Tocador de Tamborim

 

Senhor Tocador de Tamborim

Bob Dylan

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Não estou com sono e não há lugar onde eu possa ir

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Embora eu saiba que todo império retornou ao pó

Varrido de minha mão

Deixando-me cegamente aqui parado, mas ainda não dormindo.

Meu cansaço me espanta, estou plantado por meus pés

Não tenho quem encontrar

E a velha rua vazia está muito morta para sonhar

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Não estou com sono e não há lugar onde eu possa ir

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Leve-me a uma viagem em sua mágica nave ressoante

Meus sentidos foram arrancados, minhas mãos não podem segurar

Meus pés estão muito dormentes para pisar,

esperando apenas minhas botas

Para perambular

Estou pronto para ir a qualquer lugar, estou pronto para desaparecer

Em minha própria parada, moldando sua dança a meu caminho,

Eu prometo segui-la

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Não estou com sono e não há lugar onde eu possa ir

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Embora você possa ouvir-me rindo, girando,

dançando loucamente através do sol

Não está vendo ninguém, está só fugindo correndo

Pois no céu não há cercas revestidas

E se você ouvir traços vagos de rimas enroladas

Para o seu tamborim no momento, é apenas um rude palhaço atrás

Eu não lhe pagaria mente alguma, é apenas a sua sombra

Visto que está lhe perseguindo

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Não estou com sono e não há lugar onde eu possa ir

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Na aguda manhã desafinada eu o seguirei

Então me faça desaparecer através dos anéis de fogo de minha mente

Abaixo das ruínas nebulosas do tempo,

passando ao longe das folhas congeladas.

O assombro, árvores assustadoras, para fora da praia ventosa

Longe do alcance distorcido da tristeza insana

Sim, para dançar sob o céu de diamantes com uma mão acenando livremente

Em silhueta para o mar, circulado por areias circulares

Com toda a memória e destino navegando profundamente abaixo das ondas

Deixe-me esquecer do hoje até amanhã

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Não estou com sono e não há lugar onde eu possa ir

Hei! Senhor Tocador de Tamborim, toque uma canção para mim

Na aguda manhã desafinada eu o seguirei.

(Traduzida por Flavius)

Don’t think twice, it’s all right

Bob Dylan

It ain’t no use to sit and wonder why, babe

If you don’t know by now

An’ it ain’t no use to sit and wonder why, babe

It’ll never do somehow

When your rooster crows at the break of dawn

Look out your window and I’ll be gone

You’re the reason I’m trav’lin’ on

But don’t think twice, it’s all right

 

It ain’t no use in turnin’ on your light, babe

That light I never knowed

An’ it ain’t no use in turnin’ on your light, babe

I’m on the dark side of the road.

But I wish there was somethin’ you would do or say

To try and make me change my mind and stay

But we never did too much talkin’ anyway

But don’t think twice, it’s all right.

 

So it ain’t no use in callin’ out my name, gal

Like you never done before

It ain’t no use in callin’ out my name, gal

I can’t hear you anymore

I’m a-thinkin’ and a-wond’rin’ walking down the road

I once loved a woman, a child I’m told

I give her my heart but she wanted my soul

But don’t think twice, it’s all right.

 

So long, honey bee

Where I’m bound, I can’t tell

But goodbye’s too good a word, babe

So I’ll just say fare thee well

I ain’t sayin’ you treated me unkind

You could have done better but I don’t mind

You just kinda wasted my precious time

But don’t think twice, it’s all right

Não Pense Duas Vezes, Está Tudo Bem

Bob Dylan

Bem, não adianta sentar e se perguntar por quê, querida

Se você não sabe até agora

E não adianta sentar e se perguntar por quê, querida

De qualquer jeito, não dará em nada.

Quando o seu galo cantar ao nascer do dia

Olhe pela sua janela e eu terei ido

Você é a razão por eu estar indo embora

Mas não pense duas vezes, está tudo bem

E não adianta acender sua luz, amor

A luz que eu nunca conheci

E não adianta acender sua luz, amor

Estou do lado escuro da estrada

Mas eu gostaria que houvesse algo que você pudesse

fazer ou dizer

Que pudesse me fazer mudar de ideia e ficar

Mas de qualquer jeito, nunca fomos de muita conversa

Então não pense duas vezes, está tudo bem

Não adianta chamar meu nome, garota

Como você nunca fez antes

Não adianta chamar meu nome, garota

Não consigo mais te ouvir

Estou pensando e imaginando, andando pela estrada

Eu amava uma mulher; uma criança, me dizem.

Eu lhe dei o meu coração mas ela queria minha alma

Mas não pense duas vezes, está tudo bem

Até mais, querida

Aonde vou, não sei dizer

Mas “adeus” é uma palavra boa demais, querida

Então direi apenas “passar bem”

Não estou dizendo que você me tratou mal

Você poderia ter feito melhor mas não me importo

Você apenas me fez perder o meu precioso tempo

Mas não pense duas vezes, está tudo bem

(Traduzida por Flavius)

 

Fontes: http://www.angelfire.com/on/dylan/bio.html & https://www.letras.mus.br/

 Citação:

Pires-O’Brien, J., compiladora. Bob Dylan (1941 – ). PortVitoria, Beccles, UK, v.14, Jan-Jun, 2017. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

 

Débora P. Finamore

Resenha do livro A lentidão, de Milan Kundera. Tradução de Maria Luiza Newlands da Silveira e Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo, Companhia do Bolso, 2011.

Milan Kundera, autor tcheco nascido em 1929, vive na França desde 1975. É conhecido por romances nos quais reflete sobre as decepções das relações humanas. A insustentável leveza do ser (1983), sua obra mais famosa, narra os encontros e desencontros de quatro personagens, durante duas décadas.

Kundera adquiriu a cidadania francesa em 1980, contudo, somente em 1995, escreveu seu primeiro livro em francês. Trata-se de A lentidão (Cia da Letras, 2011), novela composta por 51 capítulos breves, e densos, nos quais um narrador-personagem – que logo revela ser, também, um narrador intruso – relata duas histórias paralelas e faz digressões filosóficas a partir das mesmas.

A primeira se passa no século XX, em um castelo francês, transformado num luxuoso hotel, que, naquele momento, além de receber hóspedes como o narrador (o próprio Kundera) e sua mulher, sedia um congresso de entomologia que nos levará aos outros personagens: um intelectual, um político, um cientista tcheco, uma jornalista, um cameraman, uma recepcionista, entre outros. A segunda se passa no século XVIII, no mesmo castelo francês, quando este era a moradia de Madame de T. e de seu marido. E, trata-se, na verdade, de uma paráfrase do conto de Vivant Denon (1747-1825), Point de lendemain, que conta com apenas mais dois outros personagens: o marquês, amante de Madame de T., e o falso amante desta.

A maestria técnica de Milan Kundera nessa novela filosófica, escrita à moda de Voltaire e de outros iluministas, se revela tanto no conteúdo quanto na forma.

Em termos conteudísticos, afora o enredo das duas tramas em si, chamam a atenção as digressões que pontuam a novela, desde o primeiro capítulo, quando o narrador-personagem, acompanhado por Vera, sua mulher, está dirigindo em uma estrada que os levará ao castelo. Percebendo, atrás deles, um motorista que acelera e parece irritado por não conseguir ultrapassá-los, Vera inicia um diálogo com o marido sobre o comportamento deste tipo de motorista. Esta é a deixa de que o narrador precisa para iniciar as divagações filosóficas sobre lentidão e velocidade que desenvolverá, no decorrer do livro, a fim de compreender como a noção de tempo se transformou na sociedade pós-moderna em que vivemos. Confira:

“A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem. (…) Curiosa aliança: a fria impessoalidade da técnica e as chamas do êxtase.” (p. 8)

“Há um vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. (…) o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.” (p. 30-1)

“(…) nossa época se entrega ao demônio da velocidade e é por essa razão que se esquece tão facilmente de si mesma. Ou prefiro inverter essa afirmação e dizer: nossa época está obcecada pelo desejo do esquecimento e é para saciar esse desejo que se entrega ao demônio da velocidade (…)” (p. 91-2)

Esse narrador intruso vai permear as cenas – cômicas, estapafúrdias, eróticas – de sua novela com reflexões sobre a qualidade das relações humanas estabelecidas pelo ritmo que nos impõe a sociedade midiática em que vivemos. Ora se vale do pensamento de Epicuro para pensar o hedonismo ou do de Sade para tratar de limites, ora se vale de seus personagens para expor a mídia contemporânea como um não-espaço para velhos e como um espaço para crianças e “dançarinos”, os exibicionistas da vida pública. Para fazer essa nova abordagem da sociedade do espetáculo, delineada por Guy Debord, em 1967, Kundera traz o conto de Vivant Denon, a fim de comparar o público do século XVIII – restrito e visível – com o público do século XX – irrestrito e invisível –, bem como para caracterizar o espetáculo exibido a este público: no século XVIII, um espetáculo formal e vagaroso; no século XX, um espetáculo “espontâneo” e fugaz.

Em termos formais, as duas tramas envolvem o leitor no paralelismo estabelecido entre os amores, paradoxalmente satisfeitos e frustrados, dos personagens dos séculos XX e XVIII. O leitor arguto também se deleita com o cumprimento da regra das três unidades aristotélicas: ação, tempo e espaço. Ambas as histórias se passam num único espaço – no castelo francês; no decorrer de um só tempo – um dia apenas; em torno de uma única ação – no século XX, Vincent conhece, ama e perde Julie; e, no século XVIII, Madame de T. seduz, ama e rompe com seu falso amante. Kundera também lança mão de três outros artifícios formais que encantam o leitor: a representação da mescla entre realidade e ficção; a circularidade narrativa; e a interpenetração das tramas. A mescla entre ‘real’ e ficcional se dá no capítulo em que Vera, acorda sobressaltada com o som da Nona Sinfonia de Beethoven que Kundera (narrador, personagem e autor) havia, apenas, imaginado como trilha sonora para uma cena da novela A lentidão. A circularidade ocorre, visto que a história de Kundera e de Denon se iniciam e se findam no mesmo momento narrativo: a chegada e a partida dos amantes do castelo. A interpenetração das tramas se dá no final das narrativas, quando, por um breve momento, Vincent e o falso amante se encontram e, num arremedo de diálogo, falham nos seus desejos de narrar suas experiências amorosas daquela noite – intensas, mas frustradas.

Mesmo em francês, o tcheco Milan Kundera ainda reflete sobre as decepções das relações humanas; das decepções dos seres humanos entre si e das decepções dos seres humanos com seu tempo.


Débora P. Finamore é colaboradora e membro do conselho editorial de PortVitoria.

Nota. A presente resenha publicada originalmente no Caderno de ideias, blog do Instituto Cultural Freud (https://icfcaderno.wordpress.com/category/suplementoliterario/).

Norman Berdichevsky

Reseña del libro El hombre razonable y otros ensayos de Joaquina Pires-O’Brien. Beccles, UK, KDP, 2016. Disponible en Amazon.com.

El anuncio de la adopción de la nueva palabra post-truth (posverdad) por los autores del diccionario Oxford, en el 16 de noviembre de 2016, llegó días después de la publicación de O homem razoável e outros ensaios, un e-book en portugués y ya traducido para el español (El hombre razonable y otros ensayos) – una colección de 23 ensayos sobre algunos de los más definitorios, y controvertidos, aspectos de la civilización occidental. La proximidad de los dos eventos muestra que la autora es de hecho bien sintonizada con la civilización occidental y sus problemas. Uno de los ensayos de este libro se ocupa específicamente del posmodernismo, la doctrina o mentalidad da cual que la palabra post-truth se originó. Además del posmodernismo, este libro abarca otros temas de actualidad como la educación liberal, las dos culturas (la división entre la ciencia y las artes y las humanidades) y el 9/11, así como algunos temas atemporales como la utopía, el amor, y el apego humano a los mitos. La autora, Jo Pires-O’Brien, una brasileña residente en el Reino Unido, es la editora de PortVitoria, periódico en línea, bianual, sobre actualidades, cultura y política, centrado en la cultura ibérica y su diáspora, cuyos artículos son publicados en español, portugués e inglés.

El ensayo con el tema más difícil de se entender – en cualquier idioma – es precisamente lo que habla del posmodernismo, el cual es descrito través de su fascinación con el concepto de ‘narrativas’; es decir, donde muchos hacen de los medios de comunicación un juguete – una actitud escéptica o desconfianza en relación a las ideologías y los diversos principios del pensamiento racional, incluyendo la existencia de una realidad objetiva, de la verdad, y de las nociones de progreso que existen – el posmodernismo afirma que el conocimiento y la verdad son productos de los sistemas históricos y sociales y de la interpretación política. La preocupación da autora con el postmodernismo de la amenaza no es sin justificación. El término post-truth, – adoptado en 2016 por los autores del diccionario Oxford – capta la idea posmodernista de que ‘no hay hechos, hay interpretaciones’. Si no hay hechos, entonces la ciencia y otros elementos de la moderna Civilización Occidental, como el canon literario, son irrelevantes.

El título del libro fue tomado del primero ensayo, que se ocupa del hipotético ‘hombre razonable’ (reasonable man), conservado en el derecho civil y contractual en Gran Bretaña y en los Estados Unidos, pero sin una definición precisa. Tal ‘hombre razonable’ – sin el artículo definido que aparece en las versiones en portugués y español – o ‘el hombre en el ómnibus de Clapham’ en el folklore británico, es una persona dotada de sentido común y cuya opinión es tomada como la opinión pública, y por eso, valorada en muchos casos particulares, como en la definición de cómo alguien debe comportarse (en términos de acción o inacción) en relación con otro en situaciones de amenaza. No hay necesidad de establecer una intención maliciosa, y es esperado que dicha persona ficticia pueda cometer ‘errores razonables’ de acuerdo con las circunstancias, siendo, por lo tanto, una cuestión de la ética. Hay, efectivamente, mucho alimento de reflexión acerca de cuanto de los sistemas legales del Occidente, os cuales, sobre todo en los países anglosajones, decoren de alguna tradición distinta. A partir del ensayo aprendemos que el concepto del hombre razonable se extiende a la Antigüedad, al concepto de ‘phronēsis’ o ‘sabiduría práctica’ de los antiguos griegos. Para Sócrates, ‘phronēsis’ (frónesis) era la capacidad de discernir cómo y por qué alguien debe actuar virtuosamente, mientras que Aristóteles, – y en la víspera de la edad moderna, Spinoza, – lo definió como la capacidad de pensar lógicamente. La calidad de una sociedad depende de su riqueza humana, medida por la proporción de ciudadanos razonables. El tema de la ley vuelve a aparecer en otro ensayo que se ocupa del delito affray – o riña – el uso o amenaza del uso de la violencia ilegal contra otra persona para que una persona de ‘firmeza razonable’ en el tema de la escena por su propia seguridad. La etimología de la palabra affray es explicada, demostrando que proviene de una palabra en protogermánica con un radical protoindo-europeu.

Varios ensayos se ocupan de pensadores influyentes como Friedrich Hayek, Jacques Jean-Jacques Rousseau, Thomas Hobbes, Elias Canetti, Stefan Zweig y George Orwell. El ensayo titulado ‘El filósofo de la libertad’ habla de Hayek, notoriamente desaventajado por los críticos de izquierda de las sociedades opulentas modernos y sus políticas económicas. Hayek fue uno de los pocos que no perdió la fe en el capitalismo el día siguiente al viernes negro de noviembre de 1929. En Camino de servidumbre (1944), que se convirtió en un éxito de ventas, Hayek explicó los malentendidos sobre el sistema económico del capitalismo y destacó el valor de la libertad de cada uno de usar su propia iniciativa empresarial y sus habilidades para progresar y, sobre todo, afirmó que la democracia no era un valor final, sino un medio para alcanzar la libertad. Los fundamentos de la libertad es otro gran libro de Hayek, aunque no ha sido un éxito de ventas. Hayek fue muy admirado por la primera ministra Margaret Thatcher, que una vez llevó el libro Los fundamentos de la libertad para una sesión en el Parlamento y golpeó el mismo contra la caja de despacho en cuanto dijo: “Esto es lo que creemos”. Otra personalidad que evidencio es George Orwell (Eric Blair), autor de 1984 y Sin blanca en París y Londres, el cual es cubierto en dos ensayos; un que da un resumen crítico acerca de la vida de Orwell y otro que describe las poderosas metáforas contenidas en su libro 1984.

La carrera anterior de la autora en Brasil, como investigadora botánica con un doctorado en ecología forestal, se pone de manifiesto en un ensayo sobre el nefasto ‘Proyecto Floram’, un proyecto de reforestación. La autora basó su ensayo en los archivos del Instituto de Estudios Avanzados de la Universidad de São Paulo (IEA/USP) así como en su memoria personal. En este ensayo, ella muestra cómo el proyecto Floram fue concebido y explica cómo la murmuración pública inmerecida hizo con que los inversores del sector privado retirasen su apoyo. La inhibición del Proyecto Floram es sintomática de uno de los principales problemas de nuestro tiempo – el calentamiento global. Como Pires-O’Brien correctamente concluyó… “… el Proyecto Floram es un ejemplo de la eterna contienda entre lo real y lo ideal”.

Un ensayo corto, pero afilado, habla de la cultura y el relativismo cultural, trazando el nuevo significado dado à la palabra cultura por algunos antropólogos y sociólogos, y muestreando su conexión con el relativismo cultural. Los ensayos restantes se ocupan de las grandes ideas que florecieron en el Occidente y ayudaron a formar la Civilización Occidental – la Bíblia, la idea del paraíso, la utopía, el aprendizaje al longo de la vida, el amor, la mente sana en un cuerpo sano y la educación liberal –, así como tratan de los mayores retos y amenazas actuales de la Civilización Occidental: el posmodernismo y el extremismo islámico. Aunque se trata de una ecléctica colección de ensayos, hay un denominador común en su temática: la lucha de la razón contra la irracionalidad.

Por último, pero no menos importante, la autora aborda el extremismo islamita responsable de los ataques del 9/11 y el uso del yihad, como un medio para alcanzar el poder político. Esto se hace en forma de una serie de preguntas y respuestas que abordan no sólo a los perpetradores de los ataques del 9/11, sino también muchos temas relevantes a cerca de la religión islámica: la historia de los conspiradores y su motivación; la naturaleza del Corán; la rivalidad entre las sectas islámicas rivales (chiíes y suníes); el yihad; el wahabismo y el salafismo; la Hermandad Musulmana; la aspiración de un nuevo califato; las creencias de la mayoría de los musulmanes comúns que non son fundamentalistas; y, ayunque, el fracaso, la falta de cooperación y los supuestos ingenuos de las agencias de inteligencia de los Estados Unidos. Todo eso es explicado de forma clara y sin exageros.

Este es un libro para leer y volver a leer, con el fin de ayudarnos a poner en perspectiva ideas diferentes pero cruciales. Como un usuario cuyo primer idioma es el inglés y con una capacidad razonable de leer en español, encontré el texto en español bastante fácil de leer – claro, preciso y leve, tanto entretiene cuanto informa. El estilo es el tipo que captura la atención del lector y sin ‘vagar’ o ‘cansar’ como es común en casos de textos similares, que abarcan docenas de temas diversos y provocativos. Otro diferencial de El hombre razonable es que sus ensayos de temática variada están bien conectados.

En el momento, el libro apareció en portugués y en español, y hay una declaración en el prefacio que una traducción al inglés no está sobre la mesa: “El repertorio de los temas abordados ya es bien conocido en los países situados en el centro de la Civilización Occidental pero no en los países de la periferia. La presente recopilación tiene por objetivo contribuir a corregir esa distorsión.” Aunque esto es probablemente cierto, creo que, mismo en la lengua inglesa, hay un espacio en la literatura para una análisis concisa y clara como esta, que reflecte acerca de las ideas que formaron la Civilización Occidental y acerca de aquellas que son una amenaza à misma. Tengo una profunda esperanza de que una edición en inglés ocupe de pronto esto espacio. Este es un libro valioso que debería ser una lectura obligatoria para los estudiantes que están a entrar en la universidad para estudiar historia, filosofía, ciencias sociales y relaciones internacionales.

                                                                                                                                               

Dr. Norman Berdichevsky es un estadounidense especializado en geografía humana y con fuerte interés en las culturas hispánica y portuguesa. Es autor de varios libros y numerosos artículos y ensayos, y forma parte del Consejo Editorial de PortVitoria.

Norman Berdichevsky

Resenha do livro O homem razoável e outros ensaios (El hombre razonable y otros ensayos) de Joaquina Pires-O’Brien. Beccles, UK, KDP, 2016. Disponível na Amazon.com.

O anúncio da adoção da nova palavra post-truth (pós-verdade) pelos autores do dicionário Oxford, em 16 de novembro de 2016, chegou dias depois da publicação de um e-book em português chamado O homem razoável e outros ensaios, já traduzido para o espanhol (El hombre razonable y otros ensayos) – uma coleção de 23 ensaios sobre alguns dos mais definidores, e controversos, aspectos da Civilização Ocidental. A proximidade dos dois eventos mostra que a autora é deveras bem sintonizada com a Civilização Ocidental e os seus problemas. Um dos ensaios desse livro trata especificamente do pós-modernismo, a doutrina ou mentalidade da qual a palavra post-truth se originou. Além do pós-modernismo, esse livro cobre outros temas contemporâneos como a educação liberal, as duas culturas (o racha entre a ciência e as artes e humanidades) e o 9/11, assim como alguns temas atemporais como a utopia, o amor e o apego humano aos mitos. A autora, Jo Pires-O’Brien, uma brasileira residente no Reino Unido, é editora de PortVitoria, revista online, bianual, sobre atualidades, cultura e política, centrada na cultura ibérica e sua diáspora, cujos artigos são publicados em espanhol, português e inglês.

O ensaio com o tema mais difícil de entender – seja lá em que língua – é precisamente o que fala do pós-modernismo, o qual é descrito através de sua fascinação com o conceito de ‘narrativas’; isto é, onde muitos fazem da mídia um brinquedo – uma atitude de ceticismo ou desconfiança no tocante a ideologias e aos diversos princípios do pensamento racional, incluindo a existência de realidade objetiva, da verdade e das noções de progresso existentes – o mesmo afirma que o conhecimento e a verdade são produtos de sistemas históricos e sociais e da interpretação política. A preocupação da autora com a ameaça do pós-modernismo não é sem justificativa. O termo post-truth adotado em 2016 pelos autores do dicionário Oxford, captura a ideia pós-modernista de que ‘não existem verdades, mas apenas interpretações’. Se não há verdade, então a ciência e outros elementos da Civilização Ocidental moderna, como o cânone literário, são irrelevantes.

O título do livro foi tirado do primeiro ensaio, o qual trata do hipotético ‘homem razoável’ (reasonable man), preservado no direito civil e na lei contratual na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, embora sem uma definição precisa. Tal ‘homem razoável’ – sem o artigo definido que aparece nas versões em português e em espanhol – ou ‘o homem no ônibus de Clapham’ no folclore britânico, representa uma pessoa dotada de bom senso e cuja opinião é tomada como sendo a opinião pública, e, por isso, valorizada em diversos casos particulares, como, por exemplo, na definição de como uma pessoa deve se portar (em termos de ação ou inação) em relação a outras em situações de ameaça. Não há necessidade de estabelecer uma intenção maliciosa, e é esperado que tal indivíduo fictício possa cometer ‘erros razoáveis’ de acordo com as circunstâncias, o que, como tal, é uma questão da ética. Há deveras muito alimento para pensar acerca de quanto dos sistemas legais do Ocidente, os quais, particularmente nos países anglo-saxões, são uma função de alguma tradição distinta. A partir do ensaio, aprendemos que o conceito do homem razoável se estende até a Antiguidade, ao conceito da phronesis ou ‘sabedoria prática’ dos antigos gregos. Para Sócrates, a phronesis era a capacidade de discernir como e porque alguém deve agir virtuosamente, enquanto que Aristóteles – e, também, já na antevéspera da Idade Moderna, Spinoza, – definiu-a como sendo a capacidade de pensar logicamente. A qualidade de uma sociedade depende de seu cabedal humano, medido pela proporção de ‘cidadãos razoáveis’. O tema da lei reaparece num outro ensaio que trata do crime de affray – ou rixa – usar ou ameaçar usar violência ilícita para com outra pessoa de tal modo que uma pessoa de ‘razoável firmeza’ presente na cena tema pela própria segurança. A etimologia da palavra affray é explicada, mostrando que vem de uma palavra em protogermânico com um radical protoindo-europeu.

Diversos ensaios tratam de pensadores influentes, tais como Friedrich Hayek, Jacques Jean-Jacques Rousseau, Thomas Hobbes, Elias Canetti, Stefan Zweig e George Orwell. O ensaio intitulado ‘O filósofo da liberdade’ fala de Hayek, notoriamente desfavorecido entre os críticos esquerdistas das sociedades afluentes modernas e suas políticas econômicas. Hayek foi um dos poucos que não perdeu a fé no capitalismo no dia seguinte ao Black Friday de novembro de 1929. Em O caminho da servidão (1944), que virou um best-seller, Hayek explicou os mal-entendidos acerca do sistema econômico do capitalismo e sublinhou o valor da liberdade de cada um de utilizar seu próprio empreendedorismo e suas habilidades para progredir, e, acima de tudo, esclareceu que democracia não era um valor final mas um meio para alcançar a liberdade. A constituição da liberdade é outro grande livro de Hayek, muito embora não tenha sido um best-seller. Hayek era altamente admirado pela primeira ministra Margaret Thatcher, que uma vez levou o livro A constituição da liberdade para uma sessão no Parlamento e bateu-o contra a caixa de despachos enquanto dizia: “É nisso que nós acreditamos”. Outra personalidade que evidencio é George Orwell (Eric Blair), autor de 1984 e Na pior em Paris e Londres, o qual é tratado em dois ensaios; um que apresenta um resumo crítico da vida de Orwell e outro que descreve as poderosas metáforas contidas no seu livro 1984.

A carreira anterior da autora no Brasil, como pesquisadora botânica com PhD em ecologia florestal, é revelada num ensaio sobre o malfadado ‘Projeto Floram’, um projeto de reflorestamento. Ela baseou este ensaio nos arquivos do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) bem como na sua memória pessoal. Nesse ensaio, ela mostra como o Projeto Floram foi concebido e explica como a maledicência pública imerecida fez com que os investidores do setor privado retirassem seu suporte. A inibição do Projeto Floram é sintomática de um dos maiores problemas do nosso tempo – o aquecimento global. Conforme Pires-O’Brien corretamente concluiu…“O Projeto Floram foi um exemplo da contenda constante entre a situação real e a ideal”.

Um ensaio curto, porém afiado, fala sobre a cultura e o relativismo cultural, traçando o novo significado conferido à palavra cultura por alguns antropólogos e sociólogos, e mostrando a sua conexão com o relativismo cultural. Os ensaios restantes tratam das grandes ideias que floresceram no Ocidente e ajudaram a formar a Civilização Ocidental – a Bíblia, a noção do paraíso, a utopia, a aprendizagem ao longo da vida, o amor, a mente sã num corpo são e a educação liberal –, bem como tratam dos seus maiores desafios e ameaças correntes à Civilização Ocidental: o pós-modernismo e o extremismo islâmico. Embora seja uma coleção eclética de ensaios, há um denominador comum na temática deles: a luta da razão contra a irracionalidade.

Por último mas não menos importante, a autora aborda o extremismo islâmico responsável pelos ataques do 9/11 e o emprego do jihad, como um meio para alcançar o poder político. Isso é feito na forma de uma série de perguntas e respostas que tratam não apenas dos perpetradores dos ataques do 9/11, como também de diversos tópicos relevantes acerca da religião do islamismo: o fundamentalismo islâmico; a história dos conspiradores e sua motivação; a natureza do Corão; as rivalidades entre as seitas islâmicas adversárias (xiitas e sunitas); o jihad; o wahhabismo e o salafismo; a Irmandade Muçulmana; a aspiração de um novo califado; as crenças da maioria dos muçulmanos comuns que não são fundamentalistas; e, ainda, a falha, a falta de cooperação e as suposições ingênuas das agências de inteligência norte-americanas. Tudo isso é explicado com clareza e sem exagero.

Este é um livro para ler e reler, a fim de nos ajudar a colocar em perspectiva ideias diversas porém cruciais. Na qualidade de resenhista cuja primeira língua é o inglês e com uma razoável capacidade de ler espanhol, achei o texto em espanhol bastante fácil de ler; claro, preciso e leve, tanto entretém quanto informa. O estilo é do tipo que cativa a atenção do leitor e que não ‘vagueia’ ou ‘cansa’ como é frequente em casos de textos similares, que abarcam dúzias de temas diversos e provocativos. Outro diferencial de O homem razoável é que seus ensaios de temática variada estão bem conectados.

Até o momento, o livro apareceu em português e em espanhol, e há uma indicação no Prefácio de que uma tradução inglesa não está na mesa: “O repertório dos temas abordados já é bem conhecido nos países situados no âmago da Civilização Ocidental, mas não nos países da periferia. A presente coletânea tem por objetivo contribuir para corrigir essa distorção”. Embora isso provavelmente seja verdade, acredito que, mesmo na língua inglesa, há um espaço na literatura para uma análise concisa e clara como esta, que reflete sobre as ideias que formaram a Civilização Ocidental e sobre aquelas que são uma ameaça à mesma. Tenho uma esperança fervorosa de que uma edição em inglês em breve ocupará esse espaço. Esse é um livro valioso cuja leitura deveria ser obrigatória para alunos que estão entrando na universidade para estudar nas áreas de história, filosofia, ciências sociais e relações internacionais.


Dr. Norman Berdichevsky é um norte-americano especializado em geografia humana e com forte interesse nas culturas hispânica e portuguesa. É autor de diversos livros e muitos artigos e ensaios, e, faz parte do Conselho Editorial de PortVitoria.

Joaquina Pires-O’Brien

La etimología de la palabra ‘pasaporte’, una combinación de las palabras ‘pase’ y ‘puerto’, da la idea del papel original del pasaporte, una autorización para la entrada de un navío en un puerto. Aunque el pasaporte o ‘pase-porte’ haya surgido más o menos a partir de 1500, eso no significa que antes de eso los navíos podían atracar donde bien entendiesen. Las antiguas civilizaciones del Oriente Medio tenían registros de control de embarcaciones desde que la escritura fue inventada hace cerca de tres mil años.

En Europa, el pasaporte evolucionó en tres fases. En la primera fase, evolucionó de una autorización de atracar navíos a una autorización para tránsito de cargas. En la segunda fase, se volvió un documento de presentación, protección y facilitación de personas, aunque de uso bastante restringido. Sólo en una tercera fase, que empezó al final del siglo XVII, el pasaporte se volvió un documento accesible al público común, el cual servía no sólo para identificar al portador como siendo un ciudadano de determinado país, sino también para garantizar la salida y reentrada segura en un país. Al mismo tiempo en que eso acontecía, los gobiernos creaban autoridades civiles y militares específicamente para verificar los pasaportes de los viajantes.

Los salvoconductos

El registro histórico muestra que las autorizaciones específicas para personas también existen hace más de tres mil años. En Europa, el pasaporte fue antecedido por los salvoconductos, ‘sauf-conduit’ o ‘laissez-passer’, usados para garantizar que un emisario de determinado país entrase en otro país con un fin específico. Un ejemplo era el de los embajadores, que no residían en el país extranjero, pero eran enviados a fin de ejecutar alguna misión diplomática. Otro ejemplo era el de los mensajeros de un país enemigo, a quien era dado un salvoconducto a fin de negociar la cesación de hostilidades. El sistema feudal empleó el salvoconducto para los campesinos, que precisaban el mismo para salir de la propiedad de sus señores. Los peregrinos religiosos que viajaban a determinado lugar también eran obligados a portar un documento de salvoconducto. Una evidencia del requerimiento del salvoconducto es el viaje clandestino de un grupo de puritanos ingleses a Holanda, en 1608, en un navío holandés atracado entre Grimsby y Hull. Tal grupo entró en la historia cuando regresó a Inglaterra en 1620 a fin de embarcar en el navío Mayflower que los llevaría a la Nueva Inglaterra, llegando el 9 de noviembre.

En Gran Bretaña, existen diversos registros de que Isabel I (1533-1603) estaba acostumbrada a recibir pedidos de pasaporte. Un embajador de España en Gran Bretaña que iba a dejar el país le pidió a Isabel I que le concediese, como regalo de despedida, pasaportes para Flandes para todos los monjes, padres y monjas católicos, los cuales habían perdido sus funciones después de que Enrique VIII rompió con la Iglesia Católica. En 1559, cuando el inglés James Hamilton llegó a Inglaterra después de haber huido de una prisión francesa, los franceses pidieron que el mismo fuese extraditado, pero Isabel I le emitió un pasaporte con nombre falso y lo mandó a Escocia en una misión para crear revueltas. Isabel I usaba su poder para dar o negar pasaportes a su voluntad. Ella se negó a emitir un pasaporte a María, la Reina de los Escoceses, que se encontraba en Francia en ocasión del fallecimiento de su madre, María de Guise, que gobernaba Escocia como regente. Al recibir el rechazo, María decidió embarcar directamente hacia Escocia, comenzando así la cadena de embates con Isabel I que culminó con su ejecución en la Torre de Londres.

Según lo encima mostrado, desde la era Tudor, Gran Bretaña ya tenía un sistema de pasaportes para personas. Con todo, en ese sistema, los pasaportes aun eran documentos raros que requerían la autorización del soberano o de un alto dignatario de la corte. Situaciones parecidas ocurrían en toda Europa, donde la evolución del pasaporte finalmente se completó al final del siglo XVII. Entre tanto, cada país tenía un sistema diferente de emisión y control de pasaportes. El requerimiento de un pasaporte para viajar de un país a otro también necesitaba una visa del país de destino, otra burocracia que también variaba de país a país.

En Inglaterra, el sistema de emisión de pasaportes era altamente burocrático, pero el control de pasaportes era bastante liberal. Para recibir un pasaporte inglés, el solicitante precisaba conocer personalmente al Secretario de Asuntos Extranjeros, o conocer alguien que lo conociese, o tener una recomendación de un banco de buena reputación. Sin embargo, los visitantes extranjeros podían viajar dentro del país sin tener que presentar sus pasaportes en todas las ciudades que visitasen.

En Francia ocurría lo contrario de Inglaterra. La emisión de pasaportes era liberal, pero el control de pasaportes era altamente burocratizado. Cuando un viajante desembarcaba en un puerto cualquiera de Francia, presentaba su pasaporte el cual era mandado a París y el viajante recibía un sustituto. Al llegar a la capital, el visitante era entonces obligado a comparecer a una comisaría de policía (préfecture de police) para que su pasaporte original recibiese visas para las próximas ciudades a ser visitadas. En cada ciudad, la administración de los hoteles era obligada a presentar los pasaportes de sus huéspedes a la comisaría de policía local para ser verificados y anotados.

 Primeros pasaportes

Los primeros pasaportes consistían de una declaración en una sola hoja de papel, sin ninguna descripción de la apariencia del portador. El requirente del pasaporte no era obligado a ser un ciudadano del país emisor del pasaporte. Era una práctica común que los consulados de Francia y de Bélgica emitiesen pasaportes para ciudadanos británicos. Estos optaban por pasaportes franceses y belgas porque eran más baratos y más fácil de obtener que los pasaportes ingleses. Por ejemplo, cuando en 1846 los poetas ingleses Robert Browning e Isabel Barrett Browning huyeron para casarse, probablemente dejaron el país usando un pasaporte francés. Los primeros pasaportes ingleses destinados al público común ni siquiera daban el nombre del portador, afirmando sólo que éste se trataba de un ciudadano inglés.

En Gran Bretaña, el enorme aumento de la demanda por pasaportes llevó el gobierno a aumentar la relación de personas que podían dar recomendaciones a requirentes de pasaportes; ésta pasó a incluir alcaldes, jueces de comarca y jueces de paz. En la época, el precio de un pasaporte británico era seis chelines (30 centavos), independientemente de cuantas personas constasen en el pasaporte.

En el siglo XVII, cada una de las 13 colonias británicas de la Nueva Inglaterra emitía sus propios pasaportes, los cuales servían sólo para viajes internos. Un individuo asentado en Virginia que desease visitar otra colonia precisaba un pasaporte de ese tipo, y uno de los requisitos para obtenerlo era colocar proclamas del viaje intencionado en la puerta de la iglesia local durante dos semanas, a fin de probar que no tenía deudas. Ese sistema permaneció hasta la Guerra de la Independencia de los Estados Unidos. En Nueva Inglaterra, quien quisiese viajar afuera del país precisaba un pasaporte común que era emitido en Inglaterra y enviado a América por medio de instrucciones de los Lords Comisarios del Almirantazgo (Lords Commissioners of the Admiralty), miembros del alto comando de la Marina Real británica.

Al final de la Guerra de la Independencia, los Estados Unidos de América pasaron la emitir sus propios pasaportes. Benjamín Franklin (1730-90), que era el representante de los Estados Unidos en Francia, aprovechó el sistema francés de pasaportes a fin de crear el sistema americano. Él mismo imprimió, en una imprenta en su propia casa, algunos de los primeros pasaportes americanos. A pesar de que los Estados Unidos ya eran un Estado federativo reconocido, sus estados continuaron a emitir sus propios ‘pasaportes departamentales’. En 1856, los Estados Unidos aprobaron una ley señalando el Departamento de Estado como la autoridad única para emitir pasaportes. Los pasaportes americanos, que hasta entonces eran emitidos gratuitamente, pasaron a ser cobrados. La tasa de emisión de pasaporte era de un dólar ($1).

 

El pasaporte moderno

El fin de la costumbre de que un país emitiese pasaportes para ciudadanos de otros países dio origen al pasaporte moderno. Fue preciso un incidente internacional para que eso aconteciese. Tal incidente fue un atentado con bombas en 1858, en París, cuando un terrorista italiano, que había entrado en Francia con un pasaporte inglés obtenido a nombre de otra persona, intentó asesinar al Emperador Napoleón III. Como resultado de ese incidente, Francia anunció que no iba a proveer más pasaportes a los ciudadanos ingleses. Inglaterra, a su vez, fue obligada a perfeccionar su mecanismo de emisión de pasaportes.

 

La era de los viajes

La presión social que forzó a los países de Europa a crear un sistema de rutina de emitir pasaportes en el siglo XVIII fue la Revolución Industrial. Aunque la Revolución Industrial haya ocurrido simultáneamente en diversos países de Europa, fue en Inglaterra que la transformación de los medios de producción ocurrió con mayor vigor y eficacia. En Inglaterra, la industrialización generó dos nuevas clases, la de los trabajadores de las industrias y la clase media de los propietarios de las industrias. El surgimiento de una clase media con aspiraciones de viajar, y con poder adquisitivo para ello, creó una nueva industria: la del turismo.

La invención de las locomotoras a vapor, en 1804, eventualmente llevó a la creación de vías férreas, las cuales aceleraron el proceso industrial y la nueva industria del turismo. La primera vía férrea en Inglaterra, establecida en 1825, ligaba las minas de carbón de Durham a la costa. Las vías férreas pasaron a ser usadas también como transporte público. El transporte ferroviario para personas y cargas se extendió por Europa, Estados Unidos y por el resto del mundo. El transporte marítimo también se transformó con la invención de los navíos a vapor.

Una de las dificultades que los viajantes tenían que enfrentar era el cumplimiento de los diferentes requisitos de las centenas de principados y decenas de ciudades estado libres de Europa, cada cual con grados diferentes de liberalidad.

 

El pasaporte: ¿sugestión o prescripción?

El número de personas que viajaban de un país a otro dentro de Europa creció vertiginosamente con el desarrollo de los transportes ferroviario y fluvial. Viajar se volvió algo banal y tal banalidad hizo que diversos países relajasen el control de entradas y salidas. El escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) escribió, en 1941, que no precisó pasaportes cuando viajó a la India y los Estados Unidos en 1915, y que, hasta entonces, él nunca había visto un pasaporte.

Los países más liberales pasaron a tratar el pasaporte como una prescripción informal, permitiendo que las personas de buena apariencia cruzasen sus fronteras sin ser molestadas. En otros países entre tanto, como Bulgaria, Rumania, Rusia y Turquía, el pasaporte era tomado bastante en serio.

El relajado control de entradas y salidas cesó después del comienzo de la Primera Guerra Mundial en 1914, cuando pasaportes u otros documentos ‘temporales’ de viajes pasaron a ser empleados rutinariamente. En Europa, el control de las fronteras aumentó en las hidrovías, ferrovías y carreteras.

El escritor Elias Canetti cuenta las dificultades que él y su madre tuvieron al cruzar fronteras durante un viaje que hicieron de Viena a Bulgaria en el verano de 1915, principalmente en los países balcánicos. Su madre, cuyo nombre de soltera era Mathilde Arditti, había tenido un pasaporte italiano cuando niña, pero, en el viaje en cuestión, tanto ella como su hijo, entonces con diez años de edad, tenían pasaportes turcos. Sabiendo de la falta de alimentos en Viena, la madre de Canetti había llenado un baúl con verduras deshidratadas para llevar de vuelta. En la estación de Predeal, en Rumania, a los oficiales aduaneros no le gustaron los pasaportes turcos y resolvieron inspeccionar el equipaje, y, para ello, tiraron todo el contenido del baúl en la plataforma mientras se reían. El acto fue claramente un abuso de autoridad, pues los pasajeros se encontraban sólo en tránsito. El vapor dio la señal de que estaba por partir, y, para no perderlo, la madre de Canetti fue obligada a abandonar todo.

 

Pasaporte con Foto

Aunque la fotografía haya sido inventada al comienzo del siglo XIX, sólo en 1915 Gran Bretaña introdujo un nuevo modelo de pasaporte dotado de espacio para la foto del portador. En 1917, los Estados Unidos también introdujeron un nuevo formato de pasaporte con espacio para la foto. Después de que las fotos fueron introducidas en los pasaportes, éstas podían variar. La pose formal para pasaporte sólo sería introducida posteriormente.

 

Aviación Civil Internacional (ICAO)

Después que la guerra terminó, la recién creada Liga de las Naciones se reunió en 1920, específicamente para debatir la cuestión del pasaporte y hacer recomendaciones sobre su emisión. La Organización de las Naciones Unidas, que, en 1946, sustituyó a la Liga de las Naciones, creó ese mismo año la organización de Aviación Civil Internacional (ICAO), que asumió el mandato sobre las normas internacionales de pasaportes. La ICAO también elaboró las normas internacionales para los pasaportes biométricos, que son clasificados como ‘documentos de viaje de lectura mecánica (DVLM). Debido a la facilidad introducida por la tecnología, el costo de renovación de pasaportes disminuyó bastante. La tendencia esperada es que tal economía sea pasada a los que solicitan la renovación de sus pasaportes, como ya lo hacen los Estados Unidos.

 

Costo y duración del pasaporte

La emisión de pasaportes es un servicio, por lo tanto es natural que los países cobren por el mismo. Según ya vimos, el pueblo americano reclamó cuando el gobierno resolvió cobrar un dólar por la emisión de pasaportes a partir de 1856. Hoy cuesta $110. Los científicos políticos llaman de ‘rentas’ el dinero que el gobierno recauda por medio de impuestos directos o indirectos. Muchos gobiernos usan el pasaporte como un generador de rentas, cobrando un precio encima del que deberían. Una evidencia de esa práctica es la discrepancia en las tasas cobradas entre los diversos países, según es mostrado en la Tabla 1, abajo.

 

Tabla 1. Comparación del costo y duración de pasaportes de adultos alrededor del mundo (Valores aproximados en 2016, para pasaportes obtenidos en el propio país).

Costo en otras monedas Costo en US$ Duración en Años
Sudáfrica £35

(precio cobrado en el consulado en Londres)

$50 5
Argentina $(ARG) 550 $36 10
Australia AUD 127 / 254 $95 / $189 5 / 10
Brasil R$257 nuevo / renovación

R$334 c/urgencia

R$514 renovación s/presentación del antiguo

$68

$89

$137

10
Canadá CAD 120 / 160 $90 / $120 5 / 10
España €35 $39 5 / 10
Estados Unidos USD 110 nuevo

USD 30 renovación

$110

$30

10
Francia €85 $94 5/10
Italia €116 $128 10
Polonia PLN 140 $36 10
Reino Unido £72,50 $103 10
Suecia SEK 350 $41 5

 

 

Pasaporte y nacionalidad

El pasaporte común moderno es un símbolo de nacionalidad y una prueba de la afiliación a una determinada sociedad. Eso no significa que, antes de su existencia, no hubiese otras maneras de establecer la ciudadanía. En todos los países donde la ciudadanía viene acompañada de ciertos derechos, siempre hubo maneras de separar a los ciudadanos de los demás. Desde la época clásica de la Grecia y del Imperio Romano hasta las modernas naciones de Occidente, la migración de individuos de un país a otro siempre ocurrió, pero los migrantes tienen un status inferior a aquel de los ciudadanos plenos. La excepción a esa norma es la migración hostil o conquista, con la cual los conquistadores pasan a ser la nueva élite después de desalojar a la élite anterior.

No todos los pasaportes son garantías de nacionalidad. La antigua Liga de las Naciones hizo provisiones para que personas ‘sin estado’ obtengan documentos de emergencia de viajes y pasaportes. Tales provisiones pasaron a ser de la alzada de las Naciones Unidas que, en 28 de marzo de 1959, en Ginebra, organizó una Convención para la reducción de la condición de apátrida, la cual fue concluida en Nueva York, el 30 de agosto de 1961. La condición de apátrida le impide a las personas obtener acceso a los derechos humanos básicos. Se estima que haya más de 10 millones de personas ‘sin estado’ en todo el mundo, siendo que, sólo en Europa el número estimado es de 600 mil.

Existen dos principios aceptados de comprobación de nacionalidad: jus soli y jus sanguinis. En el principio jus soli, la nacionalidad es basada en el lugar del nacimiento, y en el principio jus sanguinis la nacionalidad es basada en la parentalidad. Hoy en día, la mayor parte de los países adopta una mezcla de esos dos principios, no dando o negando la nacionalidad sólo porque alguien nació en un país. Existen muchas situaciones que llevan a un individuo a quedar ‘sin estado’, pero la causa más común son brechas en la legislación de nacionalidad, incluyendo la discriminación de las mujeres, cuando son impedidas de transmitir la nacionalidad. Otro motivo ocurre cuando las personas se mudan a otro país en el cual no califican para la naturalización y, al mismo tiempo, no consiguen cumplir eventuales exigencias burocráticas del país de origen. Un tercer motivo se da cuando los países retiran la nacionalidad de sus ciudadanos.

Existen también circunstancias especiales en que un individuo, a pesar de ser ciudadano de algún país, se encuentra en una situación en que no consigue obtener un pasaporte de su país. En 1914, cuando Gran Bretaña había declarado la guerra a Alemania, el consulado de los Estados Unidos en Alemania concedió pasaportes de emergencia a ciudadanos británicos que se encontraban en ese país.

 

El pasaporte como instrumento de represión o coacción

El objetivo del pasaporte es facilitar un viaje internacional. Entre tanto, tal objetivo suele ser olvidado cuando un determinado país usa el pasaporte para mostrar poder, perseguir enemigos o coaccionar a los ciudadanos a cualquier cosa no ligada al viaje.

En 1837, en Fiume, actual Rijeka, Croacia, cuando el vicecónsul inglés fue a averiguar la situación de un ciudadano inglés acusado de viajar con pasaporte falso, quedó conmocionado al encontrarlo preso y engrillado. Al examinar el pasaporte del acusado, el vicecónsul constató que era genuino. El pasaporte había sido impreso durante el reinado de William IV, pero, debido a su muerte súbita, el nombre impreso del soberano fue tachado y, encima del mismo, grabado el nombre de la nueva soberana, la reina Victoria. La explicación del vicecónsul no bastó para los celosos funcionarios de la inmigración de Fiume, los cuales señalaron dos discrepancias más en el pasaporte, la descripción de la persona como teniente coronel y gentleman, al mismo tiempo, y, también, el título de Reverendo. El vicecónsul explicó que, en Inglaterra el hecho de que una persona sea un oficial del ejército no impide que sea también un gentleman. Y, respecto al título de Reverendo, explicó que el mismo se había ordenado por la Iglesia Anglicana, en la cual no hay impedimento para el casamiento de sacerdotes.

El incidente en Fiume tuvo un factor mitigante en el atraso de la civilización del país. Al comienzo del siglo XIX, Francia usó el pasaporte como instrumento de represión sin ningún factor mitigante. El ministro de la policía de Napoleón, José Fouché (1763-1820), quedó conocido por la inflexibilidad, próxima al fanatismo, en el ejercicio de su función. Cuando Madame de Stael, hija del ex ministro de finanzas de Luís XVI se volvió un desafecto de Napoleón debido a sus opiniones políticas, Napoleón no sólo la prohibió de París como también coaccionó a Polonia a no sellar su pasaporte, lo que le impidió permanecer unos días en ese país según había planeado, durante un viaje a Rusia. Dificultades con relación a la obtención de pasaportes también fueron impuestas a sus familiares y amigos.

Aun en el siglo XX, el pasaporte continuó sirviendo como instrumento de represión y coacción. Cuba, en la década de 1970, emitió pasaportes que permitían que los ciudadanos dejasen el país, pero no permitían que retornasen. La reciente apertura política de Cuba aun es un signo de interrogación en relación a la libertad de entrar y salir del país.

Estados Unidos, por medio de su Departamento de Estado, revocó el pasaporte de Edward Snowden, debido al hecho de haber colocado en internet documentos secretos do país. Hay diversos casos semejantes, en los que pasaportes fueron revocados por razones de seguridad nacional. Para el profesor Patrick Weil, tal revocación viola el derecho de un ciudadano de tener un pasaporte para confirmar su identidad legal en el extranjero, un derecho protegido por la Enmienda 14 de la Constitución de los Estados Unidos.

Conclusión

El pasaporte moderno es un símbolo de nacionalidad y una prueba de la afiliación a una determinada sociedad y, por esa razón, merece el respeto de todos. El Estado, como gestor de la sociedad, debe encarar el pasaporte por su objetivo mayor de facilitar viajes internacionales.

 

Referências

Canetti, E. (1979). The Tonge Set Free. New York: Granta Books, 1999.

Lloyd, M. (2003).The Passport. The history of man’s most travelled document. Canterbury: Queen Anne’s Fan, revised editon, 2008.

Weil, P. Citizenship, Passports, and the Legal Identity of Americans: Edward Snowden and Others Have a case in Courts. 123 Yale L. J. F. 565 (2013-2014). Disponible en: <http://yalelawjournal.org/forum/citizenship-passports-and-the-legal-identity-of-americans>.

Zweig, S. (1941). Journaux, 1912-1940. Traduit par S. Niémetz. Belfond, Paris, 1986. ISBN: 2-7144-1959-3.

Nota

El presente artículo fue extraído del libro El hombre razonable y otros ensayos (2016) de Joaquina Pires O’Brien. Traducción de Ricardo Pérez Banega. ISBN e-book 978-84-9956345-1-0.   –  Disponible en Amazon, en español y portugués.

Miguel Ángel Fresnedal

Êxito é o que eu definir como êxito. O que você considera ser êxito ou felicidade eu posso considerar uma forma de gastar mal a vida. Os objetivos da minha vida marco-os eu e não o meio social ou cultural que me rodeia.

Em todas as épocas e em todas as sociedades predomina uma visão coletiva acerca do que é o êxito, imposta socialmente pelos grupos de poder que controlam cada sociedade. Estou no meu direito de não compartilhar com a sociedade da minha época a sua visão sobre o que é o êxito na vida.

Toda informação é variável e provisória. De fato, e como exemplo, as teorias científicas se corrigem com o tempo. Toda informação é parcial e limitada pois provém de outro ser humano, de uma época determinada. Em última instância sou eu quem decide o que fazer, o que pensar e como enfrentá-la .

Não há peritos infalíveis. Considere o que os outros lhe dizem mas confie em si mesmo, em sua própria experiência, em sua situação concreta e em sua inteligência, para tomar as suas decisões. Não se esqueça de que a grande maioria dos experimentos, teorias, artigos e estudos científicos que são publicados e que você lê nos meios de comunicação, são cobrados e pagos por empresas, governos e associações particulares que têm interesses bastante concretos e, por vezes, com o único objetivo final de manipular a sua opinião e a sua conduta.

Uma boa parte da informação que recebo do meu meio (empresas, religiões, amigos, publicidade, TV, vizinhos, livros, colegas de trabalho) é totalmente enviesada pelos interesses que se escondem por trás dos seus transmissores. É perigoso basear o meu pensamento e a minha maneira de viver unicamente na informação que eu recebo do meio social que me rodeia.

Tenho o direito de me equivocar tantas vezes quanto eu crer ser necessário. Sou eu quem toma as decisões na minha vida. Prefiro equivocar-me com a minha opinião do que equivocar-me com a opinião alheia.

Todos os seres humanos são iguais. O que faz com que percebamos que um ser humano seja melhor que outro é a nossa valoração pessoal influída pelo meio, pela nossa personalidade, nossa educação e pela cultura que nos rodeia. Os cemitérios estão repletos de pessoas que se julgavam imprescindíveis.

Criticar os outros faz parte da natureza humana e da sociedade. Estou consciente de que, haja o que houver e digam o que digam, é bastante provável que nos grupos sociais que me rodeiam existe alguém que, por falta do que fazer, critica a minha maneira de agir. Assim sendo, eu não posso basear a minha filosofia de vida ou a minha maneira de agir nas opiniões negativas das pessoas que me rodeiam.

Concentre na sua vida. Não se deixe arrastar pelas pressões sociais. Se você se preocupa mais com o que os demais fazem ou pensam do que com o que você faz e pensa, você não é uma pessoa e sim um escravo psicológico.

Conhecimento é liberdade. Quanto melhor eu conhecer como funciona o mundo e a sociedade em que eu vivo, melhor me desenvolverei.

Reflexão é poder. A reflexão nos torna humanos. O cérebro é um órgão incrivelmente complexo e poderoso. Quanto melhor eu conhecer como funciona a minha mente e a das demais pessoas, maior será o nível de autocontrole que desenvolverei. Se eu não controlo a minha mente e o meu pensamento, outros o farão. Se eu não compreendo as minhas necessidades, se eu não as controlo, então sou mais parecido com uma máquina biológica, a mercê dos processos cognitivos, dos instintos e da bioquímica do meu cérebro.

Eu não tenho a obrigação moral de me adaptar aos grupos sociais que me rodeiam. Ser sociável não implica em ser manipulável. Ser sociável não implica renunciar a minha forma de ser, pensar, agir ou falar.

O número de pessoas que apoiam ou denegam a sua opinião ou o seu modo de vida é, em princípio, irrelevante. Eu vejo com clareza que o fato de duas ou mais pessoas terem uma opinião contrária à minha, não proporciona de uma forma evidente a razão sobre um assunto e tampouco me força moralmente a que eu mude a minha opinião ou a minha forma de vida.

Eu tenho o direito de duvidar de toda informação e de fazer da mesma aquilo que achar certo. Sou eu quem decide em que informação confio ou não confio.

Em todas as sociedades existem grupos exercendo formas de pressão psicológica, que tentam persuadir os indivíduos a adotar a forma de pensar e de viver que convém aos interesses do grupo que exerce essa pressão. Religiões, empresas, ideologias, correntes científicas, partidos políticos, associações, organizações, publicitários, TV etc.

Se Deus existe, não vai deixar de existir porque algum ser humano afirma isso. Se Deus não existe, não vai existir porque outro ser humano afirma isso. Portanto, eu decidirei se creio em Deus e na alma, e de que forma isso afetará a minha vida.

Existe uma série de patologias que descreve aqueles que são incapazes de realizar una análise crítica independente quando necessário fazer isso, ou que são incapazes de tomar decisões sem que se sintam coagidos por opiniões alheiras ou pelo seu ambiente social. Algumas delas são as seguintes:

– Dependência emocional

– Sociotropia

– Bidependência ou dupla dependência

– Codependência emocional

– Dependência instrumental

– Heteronomia da vontade

Algumas pessoas ou grupos tentam influenciar os demais de forma violenta e opressiva a fim de tê-los a seu serviço. As seitas e os ditadores são exemplos. Mediante técnicas sutis de ‘lavagem cerebral’, de recrutamento de potenciais vítimas, de grupos de pressão, de ameaças, de publicidade subliminal, e outras técnicas de persuasão. Por tudo isso, eu entendo que quanto mais informações eu obtenha sobre como essas pessoas e esses grupos funcionam, como agem e quais as suas técnicas de manipulação psicológica e social, mais eficazmente eu poderei me defender dos mesmos, e, ser mais independente e mais livre.

Existe pessoas que gostam ou que se sentem à vontade quando terceiros decidem por elas acerca de como viver e pensar, sem que façam qualquer análise crítica. Estão no direito delas.

                                                                                                                                               

Miguel Ángel Fresnedal é um espanhol que, além de trabalhar num emprego ordinário, escreve poesias e cultiva o hábito de refletir.

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien

Revisão: Debora P. Finamore

Fonte: http://bibliotecabecquer.blogspot.co.uk/search/label/Dec%C3%A1logo%20del%20librepensador

Fernando R. Genovés

I. A identidade em discussão

Ser liberal [libertário] é uma determinada atitude ante a realidade ou envolve também a adoção de um credo político definido e uma linha normativa de ação? A caracterização de ‘radical’ ao liberal é justa? Por que o liberal não acaba se ajustando ao protótipo do conservador e muito menos ao do extremista?

Extrair a voz ‘radical’ ou o ‘radicalismo’ em relação à práxis do liberalismo [libertarianismo] conduz, numa primeira aproximação do assunto, ao encontro com os usos da linguagem ordinária, onde ‘radical’ é, geralmente, aceito como sinônimo de ‘violento’, ‘extremista’. É necessário limpar o terreno de obstáculos conceituais que não deixam visualizar o horizonte abrangente.

Ser radical significa, no sentido restrito, ir à raiz das coisas. Os primeiros filósofos foram, essencialmente e necessariamente, radicais: buscavam conhecer o princípio fundamental — a natureza — das coisas; não o que parece a nós, mas sim, o que são na realidade. ‘Radical’ pressupõe, portanto, e principalmente, uma determinada atitude perante a vida.

A noção de ‘liberalismo’ nasceu na Espanha durante o século XIX. Não obstante, o debate sobre o que constitui políticas radicais (políticas no sentido restrito de politics, e também no sentido mais amplo de policies) na História do Ocidente surgiu no final do século XVIII nas terras britânicas e americanas, quando muitos de seus pensadores e políticos se viram sacudidos pela fenomenal comoção (o ‘cataclismo’, na denominação de Leo Strauss) causada pela Revolução Francesa. Todavia, as controvérsias sobre as potencialidades do radicalismo político remetem a feitos anteriores, todos eles vinculados, de uma maneira muito significativa, a eventos revolucionários: a Revolução Gloriosa britânica de 1688 e a Revolução Americana de 1776.

Os panfletos radicais da época, que construíam virtudes normativas a partir de feitos consumados, eram repletos de otimismo; em todo lugar eles animavam o aprofundamento e a extensão dos direitos naturais do homem, a soberania popular, o sufrágio universal e a derrocada das tiranias de todos os tipos.

Enquanto que Edmund Burke rejeitou de cara e sem reservas a opção revolucionária francesa desde o primeiro momento, Alexis de Tocqueville, por sua vez, adotou uma atitude suavemente compreensiva a respeito da mesma, dividindo entre os dois lados em jogo (cf. o Antigo Regime e a Revolução) as responsabilidades e os erros. Thomas Carlyle, com o espírito repleto de romantismo e apaixonado pelo heroico, confrontou a questão pelo ponto de vista de um poeta que canta eventos de estatura épica e com sabor de sangue e de tragédia.

Durante o século XIX, o radicalismo adquire nos países anglo-saxões um tom marcadamente teórico e filosófico, de orientação utilitarista, o que fez com que não perdesse a índole prática e consequencial do tema. ‘Filósofos Radicais’ é, precisamente, a rotulagem que John Stuart Mill e seus seguidores adotaram na hora em que se fizeram conhecer no Parlamento e na sociedade. O seu objetivo era acelerar as reformas sociais e revitalizar a abertura das crenças (ou das mentes) na população, tudo isso pela transformação final do antigo regime aristocrático numa sociedade livre, de mercado, moderna, secular, democrática e liberal.

Apesar de ter uma disposição decidida para aprofundar e ampliar as conquistas de liberdade na vida pública, o ser radical remete mais a uma atitude pessoal do que ao seguimento restrito de um prontuário programático coletivo; para pôr em prática o coletivismo e o planejamento já há o comunismo em suas variadas versões. Não importa que a doutrina radical tenha, em certas ocasiões, se materializado em programas de partidos políticos identificados por tal rótulo. Seja como for, o ser radical, pela sua própria natureza, resiste a atrelar-se a um programa político de objetivos últimos, ou submeter-se à disciplina da aparelhagem de partidos.

Algo similar poderia ser dito do indivíduo liberal, se entendermos por tal o indivíduo para quem a ideia de liberdade significa algo ‘sagrado, como a vida ou a propriedade’ (Lorde Acton); e, o ‘sagrado’ entendido como sinônimo de superior, principal, intocável e inalienável. Lorde Acton afirmou enfaticamente que a liberdade é mais uma questão de moral do que de política. Porque, se a liberdade implica não estar submetido ao domínio dos outros, ou estar o mínimo possível, é preciso que os indivíduos aprendam a controlar-se por si mesmos, a cuidar de si mesmos e a praticar a liberdade na primeira pessoa. Nenhuma outra coisa significa, a rigor, a ética.

Eis aqui a vivência radical do liberalismo. Conforme declarou José Ortega y Gasset, na mesma linha de pensamento de Lorde Acton, o liberalismo ‘é uma ideia radical sobre a vida’; significa crer que cada qual pode (e deve) realizar a sua individualidade e o seu ‘intransferível destino’. Essa posição abunda na tradicional interpretação da liberdade, caracterizada como liberdade negativa, isto é, como a inexistência ou o livramento de coação nas ações humanas. Devemos a Isaiah Berlin algumas das mais relevantes contribuições sobre o tema. Não obstante, há outras menos conhecidas, como esta de Jaime Balmes, que nos parecem igualmente concludentes: “Seja qual for a acepção adotada para a palavra liberdade, é patente que o seu significado inclui sempre a ausência daquilo que impede ou constrange o exercício de alguma faculdade.”

É, na ênfase posta na caracterização da liberdade, na importância reconhecida de sua própria existência e na radicalidade de sua defesa, onde encontramos notórias diferenças entre liberais e conservadores. Para o liberal, não há outro objetivo humano maior do que a liberdade. Nenhum outro valor o solapa ou supera, pois tudo o que é valioso no homem requer necessariamente a sua presença e a sua ajuda. O conservador, em troca, mostra-se menos zeloso com a liberdade. De acordo com os conservadores, advertiu Lorde Acton, a liberdade para os homens é tida como um luxo e não como uma necessidade. Em tal escala de valores, a liberdade pode, consequentemente, ser sacrificada, se as circunstâncias assim o exigirem, ou ficar sujeita à desvalorização por algum bem distinto tido como superior, como a ordem e a segurança, o bem-estar ou a paz, a tradição ou os bons costumes.

Num ensaio intitulado O que é ser conservador?, Michael Oakeshott mostra que o conservador não se identifica na política pela defesa intransigente de alguns determinados princípios, mas, sim, pelo fato de mostrar, perante a política, uma particular ‘disposição’, a saber: a sua desdobrada tendência à moderação. Segundo ele, um conservador é aquela pessoa propensa a atuar de modo moderado e como moderador. Dentro dessa perspectiva, a função do Governo consistiria, em primeira instância, em evitar a excitação dos ânimos dos indivíduos, a fim de minimizar o impacto de conflitos e querelas. O conservador aprecia a contenção e a conciliação, a concórdia e a evitação de tensões; em consequência, repudia qualquer tipo de radicalismo…

Segundo Oakeshott não há nada inconsistente nem contraditório em ser conservador a respeito do Governo e radical a respeito de qualquer outra esfera, como os costumes e os valores. É possível combinar as obrigações morais e as convicções éticas, os compromissos públicos e os sentimentos privados, sem cisões internas e sem ‘rasgar as roupas’. As possibilidades de tal convivência afetam tanto a área das coerências pessoais quanto a das alianças práticas. Liberais e conservadores podem, portanto, entender-se mutuamente e chegar a acordos, desde que a responsabilidade não falhe ou o humor não se desfaça. Em matéria de mestres, o parecer de Oakeshott é de que “há mais que aprender acerca desta disposição [a conservadora] de Michel de Montaigne, Blaise Pascal, Thomas Hobbes e David Hume do que da de Edmund Burke ou Jeremiah Bentham.” Contudo, a ‘disposição’ conservadora e a ‘atitude’ liberal não confluem facilmente, embora não falte quem fomente na política a adoção de uma postura liberal-conservadora, como expressão efetiva de uma práxis niveladora.

Inclinar-se pelo liberalismo e distanciar-se do conservadorismo não significa relegar ou renunciar àquilo que é mais proveitoso em cada tradição. Mas, se existem liberais que chegam à conclusão de não ser conservadores, talvez eles devam explicar por que não o são.

II. Porque ser liberal não significa, necessariamente, ser conservador

Numa espécie de post-scriptum do livro Os fundamentos da liberdade (The Constitution of Liberty, 1960) o importante ensaio de Friedrich A. Hayek, ‘Por que não sou conservador?’ constitui uma declaração de princípios do autor sobre o que é ser liberal e o que não é. Nele ficou demarcado o espaço próprio de atuação daqueles que, desde a época do liberalismo, encontram-se, vivencialmente, mais entre conservadores e socialistas, servindo de fachada de uns e enfrentando outros. De fato, sustém Hayek, na prática política, o liberal muitas vezes não tem outra alternativa senão apoiar-se em partidos conservadores, procurando não perder a alma e a própria identidade em tal operação, a fim de frear o avanço do socialismo.

Diferentemente dos socialistas e dos conservadores, o liberal não é, quer por definição quer por coerência prática, um homem de partido. É um partidário da liberdade. Em tal esforço ele empenha a sua ação, a dimensão prática de sua vida. O compromisso com esse ideal e objetivo faz com que se sinta completamente incompatível com o socialismo. Isso inclui qualquer forma de socialismo que os mais diversos grupos e partidos políticos adquiram ou adotem. O partidário da liberdade é o indivíduo que se mostra oposto — ‘radicalmente oposto’, sublinha Hayek — ao conservadorismo. Por que um verdadeiro liberal não pode ser um conservador?

Estritamente falando, o liberal mantém um conflito de ideias com o conservador. Como já anteriormente assinalado, o conservadorismo exibe uma determinada ‘disposição’ perante a ação (ou a não ação), enquanto que o liberal revela sobretudo uma ‘mentalidade’. Na hora de delimitar objetivos, a disposição conservadora olha para o passado, mede as palavras e os passos que dá; ou seja, se modera. O conservador não estimula nas pessoas o gosto pela novidade (no fundo ele a teme e a detesta); a atitude liberal, pelo contrário, “sempre olha adiante” (Hayek, op. cit.). O liberal não se opõe à evolução, às reformas e tampouco às mudanças: “não lhe preocupa a distância em que estamos nem a velocidade em que vamos; a única coisa que lhe importa é esclarecer se estamos a caminhar na direção certa” (Hayek, op. cit.). Tal inclinação está muito relacionada com aquilo que necessariamente anda junto com a liberdade, como a espontaneidade.

Lorde Acton dizia que a essência da liberdade consiste em não crer na santidade do passado, uma vez que nada é mais sagrado do que a liberdade. Eis aqui, talvez, a chave do nosso assunto.

Aceitar a livre evolução dos fatos, o movimento dos acontecimentos e da vida, implica confrontar com valentia a contingência irredutível e ingovernável que é própria da sorte. A planificação e as regulagens obsessivas que definem o modo de atuação socialista (o seu ‘racionalismo torpe’) não se distanciam muito, no fundo, da paixão conservadora pela lei e a ordem, do desejo de que tudo esteja sob controle. O movimento da liberdade implica derrubar ídolos, bem como todo e qualquer obstáculo que freie ou impeça o desenvolvimento pleno das possibilidades humanas e a espontaneidade dos nossos atos, embora ignorando, às vezes, onde possam nos levar, posto que frequentemente “procedemos um tanto às cegas” (Hayek, op. cit.). Isso não significa abandonar-se a uma conduta louca e irresponsável, mas sim, entregar-se à defesa de uma existência aberta e expedita. A ação do homem livre só está limitada àquilo que a lei expressamente proíbe ou que a experiência acumulada prudentemente desaconselha.

A ligação estreita com a ordem e com o controle das ações explica a ‘afeição’ do conservador pelo autoritarismo, a rejeição da liberdade plena e a disposição a aceitar a coação e a ‘arbitrariedade estatal’ como veículos de imposição de crenças e objetivos práticos, especialmente quando as coisas não vão de acordo com os seus planos. Frente a esta disposição, a atitude do liberal oferece um perfil certamente radical.

Um regime de liberdade pressupõe fixar uma atitude que prescinda “substancialmente da coação e da força” (Hayek, op. cit.), embora tenhamos anseios por modos de atuação atraentes, estimulantes e tentadores. Sobre isso Hayek adverte com uma pungente perspicácia que, devido à sua substancial falta de princípios, os conservadores em geral rechaçam as medidas socializantes, protecionistas e dirigistas próprias dos seus adversários, exceto… quando essas medidas os beneficiam ou lhes são lucrativas.

Contudo, há uma “debilidade do conservador” que dificulta bastante a convergência com o ser liberal. Trata-se da distinta posição adotada por um e outro perante o progresso das ciências, os valores morais e a abertura das ideias. Nesse capítulo de profundas convicções, Hayek se mostra radicalmente sincero: “Vamos falar claramente: o que me incomoda no conservador é o seu obscurantismo” (Hayek, op. cit.). Hayek confessa, por exemplo, a irritação que lhe causa a oposição teimosa de tantos conservadores à teoria da evolução e às explicações “mecanicistas” do fenômeno da vida.

Se tal incômodo foi expresso pelo autor austríaco em 1959, que tipo de sentimento pode ter um liberal do início do século XXI, quando percebe que não poucos conservadores, criacionistas e partidários do “desenho inteligente e intencional” da natureza, por exemplo, põem em pé de igualdade a letra da Bíblia e o discurso científico dos cientistas evolutivos e neoevolutivos?

Quando perguntado, anos atrás, acerca da definição de neoconservador, Irving Kristol respondia o seguinte: é “um liberal atracado na realidade”.

III. Radicais e extremistas

O filósofo norte-americano Robert Nozick publicou, em 1997, um sucinto e bastante esclarecedor artigo titulado ‘As características do extremismo’, incluído no livro de recompilação Socratic puzzles (Quebra-cabeças socráticos, 1997), bastante útil para não confundir o conceito de extremismo com o de radicalismo. Nele, Nozick oferece um retrato sucinto do tipo extremista articulado a oito sinais indicativos desse comportamento.

O primeiro sinal específico de um extremista é a sua tendência a tensionar as posições e levá-las ao limite, o que o coloca literalmente às margens da realidade e o compele a adotar habitualmente posturas excessivas, ‘marginais’ e, eventualmente, meramente testemunhais. Assim, o extremista se exercita sobre a corda estirada ou sobre “o que for o mais difícil de tudo”, e, em tal faina de aeromodelismo, não teme ser visto com admiração e tampouco aplaudido por uma plateia extasiada. Nessa exibição, como noutras que veremos a seguir, um extremista tem muito pouco em comum com um radical.

A segunda característica do extremismo é tomar como inimigo quem quer que se mostre contrário aos seus postulados: “quem não está comigo está contra mim”. Eis aqui uma afecção infectada de ardor e fanatismo: o que o extremista odeia, até a morte.

A terceira característica do extremista é a repugnância que sente por acordos e compromissos, sempre interpretados como deserção dos objetivos. A seus olhos, fazer um acordo ou propor um contrato significa forçosamente “rebaixar-se”. Ao observar um adversário muito distante de onde o mesmo se encontra (de onde ele próprio se fixou), acaba julgando-o como uma pessoa inacessível, incompreensível e intratável.

Em quarto lugar, os comportamentos extremos e endurecidos estão próximos do uso da força, o que nas mãos de um intransigente torna-se de imediato em pura violência. A manifestação mais patente — diríamos quase, ‘mais natural’ — do extremismo é, portanto, o terrorismo. A rigor, o terrorismo não significa violência radical, mas sim violência extrema.

Em quinto lugar, destacam-se a impaciência e a incontinência: os objetivos e os propósitos perseguidos hão de ser alcançados de imediato e por completo. O extremista é um indivíduo precipitado e expedito. Enxerga qualquer atraso na vitória como um fracasso ou derrota. O extremismo não se traduz apenas num “tudo ou nada”, como também num “agora ou nunca”.

O extremismo, em sexto lugar, não se proclama na solitude ou de modo individual, pois requer um cenário grupal e comunal. O extremista, pouco convencido, na realidade, de suas próprias forças (sempre humanas, demasiadamente humanas), necessita estar rodeado de camaradas para assim sentir-se “compelido” a agir. Como impõe objetivos “impossíveis”, necessita amplificar a sua ação com o concurso de outros para assim sentir-se vestido.

A sétima característica do extremista é o fato de situar-se, como norma, no extremo do espectro político, não de fato ou conjunturalmente, mas sim sistematicamente. Se alguém ocupar o seu lugar extremado, ele se arredará dando um passo mais adiante. Quem joga o jogo do extremismo não permite que ninguém seja mais extremista do que ele. O extremista não consegue parar; é preciso que alguém o pare.

Finalmente, em oitavo lugar, o extremismo prático (não há outro; o teórico não passa de simples retórica) se nutre do extremismo de base psicológica ou de atitudes. Não é extraordinário que um extremista ziguezagueie pelo arco político ininterrupto, passando, por exemplo, da extrema esquerda para a extrema direita, e vice-versa. Tampouco permite a criação de convergências. A história do totalitarismo, sem ir mais longe, traz abundantes casos deste gênero. O movimento do extremista é horizontal; o do radical, vertical.

Radical, conservador ou extremista? Na minha opinião, o político que tenta ofender o seu adversário acusando-o de ser radical não age inteligentemente. Tal imputação representa, na prática, um elogio. O mesmo não ocorre com a qualificação ‘extremista’. Como afirmou Nozick: “raramente há alguém disposto a dizer ‘Esta é a postura correta, e é uma postura extremista’”. Tal sentença foi proferida por um filósofo que costuma ser qualificado como ‘libertário’. A propósito, Hayek não gostava dessa última designação: era demasiadamente “artificial e rebuscada”, segundo ele próprio confessou.

Isso não vai à raiz das coisas, mas busca arrancá-las pela força.

Isso não se dará, digo eu, por haver dentro do liberalismo um posicionamento extremo, ou para fugir, no final das contas, de outro tipo conservador, mas talvez por adotar em seu seio uma atitude marcadamente radical. Mas isso é um outro capítulo na história do liberalismo.


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Fernando R. Genovés (Valência, 1955) é escritor, ensaísta, crítico literário e analista cinematográfico. É doutor em Filosofia pela Universidade de Valência (Espanha), e ganhador do Prêmio Juan Gil-Albert de Ensaio em 1999. É autor de numerosos artigos em jornais e revistas especializadas, como Libertad Digital, ABC Cultural, Claves de Razón Práctica, Debats, Revista de Occidente e El Catoblepas. Até o momento já publicou 13 livros de não ficção, entre os quais cabe citar Marco Aurelio. Uma vida contenida (2012), La ilusión da empatía (2013), Dos veces bueno. Breviario de aforismos y apuntamientos (2014), El alma das ciudades. Relatos de viajes y estancias (2015). Mantém os seguintes blogs: Los viajes de Genovés, Cinema Genovés y Librepensamientos.

 

Nota

© F R Genovés. O presente ensaio foi extraído do libro La riqueza da libertad, 2016. ISBN e-book 978-84-608-6112-6, disponível na Amazon.

 

Tradução: Jo Pires-O’Brien (UK); Revisão: Débora Finamore (Br)

 Referência

Genovés, Fernando Rodriguez. O Liberal é um radical ou um conservador? PortVitoria, UK, v.14, Jan-Jun, 2017. ISSN 20448236, https://portvitoria.com

[Joaquina Pires-O’Brien

I am proud to announce that PortVitoria is now entering its 8th year.

The main feature of this edition is an essay by the Spanish thinker Fernando R. Genovés explaining what defines the liberal mind. Genovés starts with the definition provided by Lord Acton (John Emerich Edward Dalberg Acton; 1834-1902), who wrote that the liberal mind is the mind of the individual to whom the idea of liberty means something sacred, such as life and property. He then covers the meaning of liberty, which boils down to ‘not to be subjected to the domain of others’, and shows that the sacredness of life and property points to the necessity of individuals to learn how to control themselves and their lives. Liberty is thus the main object of the liberal mind, that is, the mind of persons who make their own decisions and accept responsibility for them. This is even more relevant in a time of post-truths, characterised by false news and by the tricks of constructionism. According with Genovés, liberals are neither conservatives nor radicals, and much less extremists, and, that they tend to not get cosy in political parties.

The other two essays of this edition are ‘Decálogo do livre pensador’ (The ten commandments of the free-thinker) by Miguel Ángel Fresdenal, and ‘El passaporte’ (The passport), which was taken from my new e-book El hombre rasonable y otros ensayos (The reasonable man and other essays; 2016). Fresdenal’s article touches precisely the problem of how to deal intelligently with the daily bombardment of ideas. My article provides a summary of the history of the passport and also shows how governments sometimes use the passport to further their illiberal agendas.

My e-book El hombre razonable y otros ensayos (7 November 2016, KDP Amazon) was reviewed by Norman Berdichevsky, an American writer with a special interest in the Hispanic and Portuguese cultures. This review is presented in both Portuguese and Spanish.

Another review offered in this edition is of Milan Kundera’s Slowness, which was published in French in 1995. The book was launched in Portuguese, in a pocket edition, in 2011, by Companhia das Letras.

During 2016 I managed to complete the migration of PortVitoria from an old-fashioned format to a more modern and flexible one based in WordPress. The new format is much more user friendly for it adjusts to all sorts of computer screens and hand held devices. Now you can bookmark PortVitoria in the home screen of your tablet or smartphone.

January 2017

 

Pires-O’Brien, J. Editorial. What defines a liberal mind? PortVitoria, UK, v.14, Jan-Jun, 2017. ISSN 2044-8236.