Uma arte
Elizabeth Bishop Bishop (1911-1979

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Tradução: Paulo Henriques Britto

One art
Elizabeth Bishop (1911-1979)

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

O ladrão da Babilônia
Elizabeth Bishop

Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

São milhares, são milhões,
São aves de arribação,
Que constroem ninhos frágeis
De madeira e papelão.

Parecem tão leves que um sopro
Os faria desabar
Porém grudam feito liquens
Sempre a se multiplicar,

Pois cada vez vem mais gente.
Tem o morro da Macumba,
Tem o morro da Galinha,
E o morro da Catacumba;

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.

Micuçú era ladrão,
Assassino, salafrário.
Tinha fugido três vezes
Da pior penitenciária.

Dizem que nunca estuprava,
Mas matou uns quatro ou mais.
Da última vez que escapou
Feriu dois policiais.

Disseram: “Ele vai atrás da tia,
Que criou o sem-vergonha.
Ela tem uma birosca
No morro da Babilônia”.

E foi mesmo lá na tia,
Beber e se despedir:
“Eu tenho que me mandar,
Os home tão vindo aí.

Eu peguei noventa anos,
Nem quero viver tudo isso!
Só quero noventa minutos,
Uma cerveja e um chouriço.

“Brigado por tudo, tia,
A senhora foi muito legal.
Vou tentar fugir dos home,
Mas sei que eu vou me dar mal”.

Encontrou uma mulata
Logo na primeira esquina.
“Se tu contar que me viu
Tu vai morrer, viu, menina?”

Lá no alto tem caverna,
Tem esconderijo bom,
Tem um forte abandonado
Do tempo de Villegaignon.

Micuçú olhava o mar
E o céu, liso como um muro.
Viu um navio se afastando,
Virando um pontinho escuro,

Uma mosca na parede,
Até desaparecer
Por detrás do horizonte.
E pensou: “Eu vou morrer”.

Ouvia berro de cabra,
Ouvia choro de bebê,
Via pipa rabeando,
E pensava: “Eu vou morrer”.

Urubu voou bem baixo,
Micuçú gritou: “Péra aí”,
Acenando com o braço,
“Que eu ainda não morri!”

Veio helicóptero do Exército
Bem atrás do urubu.
Lá dentro ele viu dois homens
Que não viram Micuçú.

Logo depois começou
Uma barulheira medonha.
Eram os soldados subindo
O morro da Babilônia

Das janelas dos barracos,
As crianças espiavam.
Nas biroscas, os fregueses
Bebiam pinga e xingavam.

Mas os soldados tinham medo
Do terrível meliante.
Um deles, num acesso de pânico,
Metralhou o comandante.

Três dos tiras acertaram
Os outros tiraram fino.
O soldado ficou histérico:
Chorava feito um menino.

O oficial deu suas ordens,
Virou pro lado, suspirou,
Entregou a alma a Deus
E os filhos ao governador.

Buscaram depressa um padre,
Que lhe deu a extrema-unção.
– Ele era de Pernambuco,
O mais moço de onze irmãos.

Queriam parar a busca,
Mas o Exército não quis.
E os soldados continuaram
A procurar o infeliz.

Os ricos, nos apartamentos,
Sem a menor cerimônia,
Apontavam seus binóculos
Pro morro da Babilônia.

Depois, à noite no mato,
Micuçú ficou de vigília,
De ouvido atento, olhando
Pro farol lá longe, na ilha,

Que olhava pra ele também,
Depois dessa noite de insônia
Estava com frio e com fome,
No morro da Babilônia.

O sol nasceu amarelo,
Feio feito um ovo cru.
Aquele sol desgraçado
Era o fim de Micuçú.

Ele via as praias brancas,
Os banhistas bem dormidos,
Com barracas e toalhas.
Mas ele era um foragido.

A praia era um formigueiro:
Toda a areia fervilhava,
E as pessoas dentro d’água
Eram cocos que boiavam.

Micuçú ouviu o pregão
Do vendedor de barraca,
E o homem do amendoim
Rodando sua matraca.

Mulheres que iam à feira
Paravam um pouco na esquina
Pra conversar com as vizinhas,
E às vezes olhavam pra cima.

Os ricos, com seus binóculos,
Voltaram às janelas abertas.
Uns subiam nos telhados
Para assistir mais de perto.

Um soldado – ainda era cedo,
Oito horas, oito e dez –
Fez mira no Micuçú
E errou pela última vez.

Micuçú ouvia o soldado
Ofegando, esbaforido,
Tentou se embrenhar no mato:
Levou uma bala no ouvido.

Ouviu um bebê chorando
E sua vista escureceu.
Um vira-lata latiu.
Então Micuçú morreu.

Tinha um revólver Taurus
E mais as roupas do corpo,
Com dois contos no bolso.
Foi tudo que acharam com o morto.

A polícia e a população
Respiraram aliviadas.
Porém na birosca a tia
Chorava desesperada.

“Eu criei ele direito,
Com carinho, com amor.
Mas não sei, desde pequeno
Micuçú nunca prestou.

“Eu e a irmã dava dinheiro,
Nunca faltou nada, não.
Por que foi que esse menino
Cismou de virar ladrão?

“Eu criei ele direito,
Mesmo aqui, nessa favela”.
No balcão os homens bebiam,
Sérios, sem olhar pra ela.

Mas já fora da birosca
Comentou um dos fregueses:
“Ele era um ladrão de merda.
Foi pego mais de seis vezes”.

Hoje está chovendo fino
E estão de volta os soldados,
Com fuzis metralhadoras
E capacetes molhados.

Vieram dar mais uma batida,
Só que é outro criminoso.
Mas o pobre Micuçú –
Dizem – era mais perigoso.

Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.

Tradução: Paulo Henriques Britto

The burglar Of Babylon
Elizabeth Bishop

On the fair green hills of Rio
There grows a fearful stain:
The poor who come to Rio
And can’t go home again.

On the hills a million people,
A million sparrows, nest,
Like a confused migration
That’s had to light and rest,

Building its nests, or houses,
Out of nothing at all, or air.
You’d think a breath would end them,
They perch so lightly there.

But they cling and spread like lichen,
And people come and come.
There’s one hill called the Chicken,
And one called Catacomb;

There’s the hill of Kerosene,
And the hill of Skeleton,
The hill of Astonishment,
And the hill of Babylon.

Micuçú was a burglar and killer,
An enemy of society.
He had escaped three times
From the worst penitentiary.

They don’t know how many he murdered
(Though they say he never raped),
And he wounded two policemen
This last time he escaped.

They said, “He’ll go to his auntie,
Who raised him like a son.
She has a little drink shop
On the hill of Babylon.”

He did go straight to his auntie,
And he drank a final beer.
He told her, “The soldiers are coming,
And I’ve got to disappear.”

“Ninety years they gave me.
Who wants to live that long?
I’ll settle for ninety hours,
On the hill of Babylon.

“Don’t tell anyone you saw me.
I’ll run as long as I can.
You were good to me, and I love you,
But I’m a doomed man.”

Going out, he met a mulata
Carrying water on her head.
“If you say you saw me, daughter,
You’re as good as dead.”

There are caves up there, and hideouts,
And an old fort, falling down.
They used to watch for Frenchmen
From the hill of Babylon.

Below him was the ocean.
It reached far up the sky,
Flat as a wall, and on it
Were freighters passing by,

Or climbing the wall, and climbing
Till each looked like a fly,
And then fell over and vanished;
And he knew he was going to die.

He could hear the goats baa-baa-ing.
He could hear the babies cry;
Fluttering kites strained upward;
And he knew he was going to die.

A buzzard flapped so near him
He could see its naked neck.
He waved his arms and shouted,
“Not yet, my son, not yet!”

An Army helicopter
Came nosing around and in.
He could see two men inside it,
but they never spotted him.

The soldiers were all over,
On all sides of the hill,
And right against the skyline
A row of them, small and still.

Children peeked out of windows,
And men in the drink shop swore,
And spat a little cachaça
At the light cracks in the floor.

But the soldiers were nervous, even
with tommy guns in hand,
And one of them, in a panic,
Shot the officer in command.

He hit him in three places;
The other shots went wild.
The soldier had hysterics
And sobbed like a little child.

The dying man said, “Finish
The job we came here for.”
he committed his soul to God
And his sons to the Governor.

They ran and got a priest,
And he died in hope of Heaven
–A man from Pernambuco,
The youngest of eleven.

They wanted to stop the search,
but the Army said, “No, go on,”
So the soldiers swarmed again
Up the hill of Babylon.

Rich people in apartments
Watched through binoculars
As long as the daylight lasted.
And all night, under the stars,

Micuçú hid in the grasses
Or sat in a little tree,
Listening for sounds, and staring
At the lighthouse out at sea.

And the lighthouse stared back at him,
til finally it was dawn.
He was soaked with dew, and hungry,
On the hill of Babylon.

The yellow sun was ugly,
Like a raw egg on a plate–
Slick from the sea. He cursed it,
For he knew it sealed his fate.

He saw the long white beaches
And people going to swim,
With towels and beach umbrellas,
But the soldiers were after him.

Far, far below, the people
Were little colored spots,
And the heads of those in swimming
Were floating coconuts.

He heard the peanut vendor
Go peep-peep on his whistle,
And the man that sells umbrellas
Swinging his watchman’s rattle.

Women with market baskets
Stood on the corners and talked,
Then went on their way to market,
Gazing up as they walked.

The rich with their binoculars
Were back again, and many
Were standing on the rooftops,
Among TV antennae.

It was early, eight or eight-thirty.
He saw a soldier climb,
Looking right at him. He fired,
And missed for the last time.

He could hear the soldier panting,
Though he never got very near.
Micuçú dashed for shelter.
But he got it, behind the ear.

He heard the babies crying
Far, far away in his head,
And the mongrels barking and barking.
Then Micuçú was dead.

He had a Taurus revolver,
And just the clothes he had on,
With two contos in the pockets,
On the hill of Babylon.

The police and the populace
Heaved a sigh of relief,
But behind the counter his auntie
Wiped her eyes in grief.

“We have always been respected.
My shop is honest and clean.
I loved him, but from a baby
Micuçú was mean.

“We have always been respected.
His sister has a job.
Both of us gave him money.
Why did he have to rob?

“I raised him to be honest,
Even here, in Babylon slum.”
The customers had another,
Looking serious and glum.

But one of them said to another,
When he got outside the door,
“He wasn’t much of a burglar,
He got caught six times–or more.”

This morning the little soldiers
are on Babylon hill again;
Their gun barrels and helmets
Shine in a gentle rain.

Micuçú is buried already.
They’re after another two,
But they say they aren’t as dangerous
As the poor Micuçú.

On the green hills of Rio
There grows a fearful stain:
The poor who come to Rio
And can’t go home again.

There’s the hill of Kerosene,
And the hill of the Skeleton,
The hill of Astonishment,
And the hill of Babylon.

Cadela rosada
Elizabeth Bishop

Sol forte, céu azul. O Rio sua
Praia apinhada de barracas. Nua,
passo apressado, você cruza a rua.

Nunca vi um cão tão nu, tão sem nada,
sem pêlo, pele tão avermelhada…
Quem a vê até troca de calçada.

Têm medo da raiva. Mas isso não
é hidrofobia — é sarna. O olhar é são
e esperto. E os seus filhotes, onde estão?

(Tetas cheias de leite.) Em que favela
você os escondeu, em que ruela,
pra viver sua vida de cadela?

Você não sabia? Deu no jornal:
pra resolver o problema social,
estão jogando os mendigos num canal.

E não são só pedintes os lançados
no rio da Guarda: idiotas, aleijados,
vagabundos, alcoólatras, drogados.

Se fazem isso com gente, os estúpidos,
com pernetas ou bípedes, sem escrúpulos,
o que não fariam com um quadrúpede?

A piada mais contada hoje em dia
é que os mendigos, em vez de comida,
andam comprando bóias salva-vidas.

Você, no estado em que está, com esses peitos,
jogada no rio, afundava feito
parafuso. Falando sério, o jeito

mesmo é vestir alguma fantasia.
Não dá pra você ficar por aí à
toa com essa cara. Você devia

pôr uma máscara qualquer. Que tal?
Até a quarta-feira, é Carnaval!
Dance um samba! Abaixo o baixo-astral!

Dizem que o Carnaval está acabando,
culpa do rádio, dos americanos…
Dizem a mesma bobagem todo ano.

O Carnaval está cada vez melhor!
Agora, um cão pelado é mesmo um horror…
Vamos, se fantasie! A-lá-lá-ô…!

Tradução: Paulo Henriques Britto

Pink dog
Elizabeth Bishop

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

Duas poesias de Carlos Drummond de Andrade traduzidas p. o inglês por Elizabeth Bishop

Poema de sete faces
Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos desejos.

0 bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

0 homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meus Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo,
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo.
Mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer,
mas essa lua
mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo.

Seven-sided poem
Carlos Drummond de Andrade

When 1 was born, one of the crooked
angels who live in shadow, said:
Carlos, go on! Be gauche in life.

The houses watch the men,
men who run after women.
If the afternoon had been blue,
there might have been less desire.

The trolley goes by full of legs:
white legs, black legs, yellow legs.
My God, why all the legs?
my heart asks. But my eyes
ask nothing at all.

The man behind the moustache
is serious, simple, and strong.
He hardly ever speaks.
He has a few, choice friends,
the man behind the spectacles and the moustache.

My God, why hast Thou forsaken me
if Thou knew’st 1 was not God,
if Thou- knew’st that 1 was weak.

Universe, vast universe,
if 1 had been named Eugene
that would not be what 1 mean
but it would go into verse faster.
Universe, vast universe,
my heart is vaster.

I oughtn’t to tell you,
but this moon
and this brandy
play the devil with one’s emotions.

Translation: Elizabeth Bishop

Infância
Carlos Drummond de Andrade

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a historia de Robinson Crusoé.
Comprida historia que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz urna voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala — e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
— Psiu . . . Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro . . . que fundo!

La longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha historia
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Infancy
Carlos Drummond de Andrade

My father got on his horse and went to the field.
My mother stayed sitting and sewing.
My little brother slept.
A small boy alone under the mango trees,
1 read the story of Robinson Crusoe,
the long story that never comes to an end.

At noon, white with light, a voice that had learned
lullabies long ago in the slave-quarters — and never forgot —
called us for coffee.
Coffee blacker than the black old woman
delicious coffee
good coffee.

My mother stayed sitting and sewing
watching me:
Shh — don’t wake the boy.
She stopped the cradle when a mosquito had lit
and gave a sigh . . . how deep!
Away off there my father went riding
through the farm’s endless wastes.

And 1 didn’t know that my story
was prettier than that of Robinson Crusoe.

Translation: Elizabeth Bishop

Leia mais sobre Elizabeth Bishop no post:
http://jopiresobrien.wordpress.com/2012/06/26/elizabeth-bishop-1911-1979/

 

 

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro La indignación a escena. De pasion moral a la agitación política  de Fernando Rodríguez Genovés. E-book, publicação independente, 115 p., 2012.  Versão Kindle disponível na Amazon.co.uk, £2.60. ISBN 978-84-615-8301-0

Publicado inicialmente na revista El Catobleplas o ensaio La indignación a escena (A indignação encenada. Da paixão moral à agitação política, inédito em português) de Fernando Rodríguez Genovés acaba de ser republicado sob a forma de livro eletrônico. Nesse livro o filósofo espanhol procura mostrar que as manifestações populares e suas sonoras algazarras são encenações das paixões do ‘homem-massa’, designação metafórica do indivíduo cuja personalidade singular foi aos poucos substituída pela personalidade da massa como resultado da massificação cultural da sociedade, segundo o filósofo José Ortega y Gasset (1883-1955). Genovés argumenta que tais manifestações mostram insatisfações e descontentamentos, embora isso não signifique que sejam justificados.

O livro começa citando o filósofo e poeta Antonio Machado (1875-1939), um dos membros da chamada Geração de ’98, movimento de intelectuais unidos pela busca da identidade cultural do povo espanhol, que afirmou que o descontentamento era a única base da ética existente. Em tal afirmação Machado, que também escreveu que “o Homem é por natureza uma besta paradoxal”, naturalmente não intencionava concordar com tal ética mas apenas caracterizá-la.

Tomando como ponto de partida as recentes manifestações públicas contra a austeridade ocorridas na Espanha, Rodríguez Genovés mostra que estas não são inócuas, pois abrem oportunidades para o coletivismo. E a grande ameaça do coletivismo reside em agir sem pensar, pois “a coletividade não pensa mas entretanto se move”. Assim sendo, a presumida superioridade moral das manifestações públicas de indignação é uma falácia. Não existe razão, seja ela de ordem ética, racional ou prática, que justifique a indignação, pois a boa compreensão das coisas requer distanciamento e cabeça fria.

A indignação gera contrariedade e fomenta o descontentamento e a violência, sendo, portanto, um vício acobertador tanto das imposturas próprias quanto das do indignado, sendo ainda contagiosa e pandêmica. Tampouco a voz do homem ressentido deve ser aceita sem restrições, pois o ressentido está demasiadamente perto da questão para poder entendê-la. Apenas os tolos e os políticos demagogos e irresponsáveis aceitam sem questionar a voz da coletividade ao invés da voz das pessoas sensatas.

Portanto, o que a sociedade precisa é de uma nova ética sem indignação, ou seja, uma ética do contentamento, baseada na parcimônia, na liberalidade e na generosidade. Para a construção dessa ética o autor buscou mas não encontrou apoio nas obras de boa parte dos filósofos: eles não tinham fé no homem e sua natureza. Para Montaigne, por exemplo, a indignação faz parte da condição humana. Outro exemplo é o de Pascal, para quem o homem é um anjo caído, frágil e miserável, corrupto e corruptível. Quanto ao entendimento da indignação, Spinoza reconheceu a injustiça que há por detrás da indignação, notando que há uma injustiça na ilegítima apropriação do poder superior de condenar alguém, da maneira com os indignados condenam.

Mesmo depois de descobrir como são raros os filósofos éticos que creem na capacidade do homem de redimir-se, o autor prossegue em traçar a sua ética do contentamento. Segundo ele, para se chegar a ela é necessário ter emoções boas e não emoções ruins. Isso requer uma disposição corporal adequada e que seja mais propensa à sanidade do que à santidade. A sociedade nada ganha com o homem-massa. O que a sociedade precisa é do homem-moral, ajustado não só à sua sociedade, mas também à natureza a seu redor, que sabe se frear ante o primeiro impulso e que faz isso consciente de que agindo assim não irá além dos confins da existência tranquila. O ‘homem-moral’ de Rodríguez Genovés pode ser o mesmo ‘homem excelente’ de Ortega y Gasset, o indivíduo que se esforça para ser o melhor possível, sempre procurando exceder-se a si próprio. La indignación a escena de Genovés propõe a ética do contentamento a qual defende uma moral ativa, e não passiva, e participação ao invés da apatia. As suas premissas são o espírito de cooperação, a busca do equilíbrio, da parcimônia, da contenção e da prudência. La indignación a escena é um livro de filosofia para leigos que mostra um ângulo pouco conhecido do sentimento da indignação e que por esse motivo vale a pena ler.

Citação:
GENOVÉS, F.R. La indignación a escena. De pasion moral a la agitación política. E-book, 115 p, versão Kindle, 2012. ISBN 978-84-615-8301-0. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). A indignação: razão ou impostura? PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Joaquina Pires-O’Brien

Book Review of Green Philosophy. How to think seriously about the planet,  by Roger Scruton
Atlantic Books Ltd, London. 2012. ISBN: 978-84 887 076 5. 457 pages. £15.40

Roger Scruton’s Green Philosophy. How to think seriously about the planet is an outstanding book on the environment that shows how moral philosophy can be translated into policy. It is a massively comprehensive book that leaves no stone unturned in relation to rationalities and approaches that have been proposed to protect the environment, analysing them from many angles. There are two expectations behind his meticulous inquiry into the physical and the moral aspects of choices. The first is that it will provide all the facts needed to understand environmental problems; the second is that such understanding will recreate the moral connection between individuals and their immediate environment. As Scruton points out, this moral connection is already latent in humans and is based on the need for nurture and safety. These two expectations lead to what Scruton calls oikophilia, which literally means the love of one’s home, which is the key to unlock the moral connection that motivates people to look after their environmental resources in a spirit of stewardship.

Oikophilia works, Scruton explains, by promoting human resilience, autonomous associations, market solutions, effective tort law, aesthetic side-constraints which emerge from open discussions among citizens, biodiversity, natural beauty, local autonomy, serious research, and a regime of pricing and feedback that return the costs of environmental damage to those who create them. These are precisely the kind of things ‘which have a healthy environment as their effect’. This long list of things is, of course, part of the conservative morality which Scruton recommends. It comes with a huge problem: to overcome the hostile attitude of the left-wing mind set of the radical greens that tend to rebuff conservatism and to equate the market with attributes like consumerism, selfishness and greed.

There are arguments in favour of conservatism in most chapters of this book. In those arguments it is posited that the individualism at the core of conservatism, which combines freedom with responsibility, is complemented by other values such as respect for customs and traditions, namely those in the spheres of inherited affections, national sovereignty, free enterprises and civic initiatives. It is also argued that it is worth maintaining the things that were built into society at great cost, such as English common law, which has enabled society to cope with environmental problems long before the state began to legislate against them. The conclusion of the argument for conservatism is that tradition is precisely the source of practical knowledge that helps us know what to do in order to accomplish something successfully. Any suggestion that the author could be trying to appease the left-wing greens is dispelled completely by his summing up at the end of the book in the two appendices, where he posits some bold ideas that have the potential to attract other types of contrary reactions.

Green Philosophy examines a number of the most pertinent environmental problems, shows how such problems were tackled in the past, and reveals the mistakes that were made in the process. In Scruton’s view, both the radical greens and governments have limited visions of environmental problems and their habit of imposing top-down prescriptions for the environment disrupts the social equilibrium necessary for people to act morally as temporary trustees of the environment. To Scruton, these top-down solutions often either exacerbate the problem or create new problems in the process. If environmental problems are to be taken seriously, he argues, they should be subjected to public debate and accountability. Scruton makes the point that, in the recent past, people had control of their environment and an awareness of the risks it faced through their use. Removing control of the local environmental away from individuals is disingenuous since they are precisely the ones who hold the key to solving the problems relating to it. According to Scruton in order for people to regain control of their environment they must first relearn how ‘to turn on the moral equipment’ which will enable them to value what they have and to protect what they value.

Scruton’s Green Philosophy is a solid starting point for all public discussions surrounding the environment. In it, the author accepts that some environmental problems are so large that they have no realistic solution and the best that can be done is to manage them with the aim of putting them on the path of equilibrium. Global warming and the dwindling fisheries of the oceans are perhaps the two most notorious examples of large-scale problems.

Scruton’s solution for the problem of dwindling fisheries is to divide up the shoreline into plots and allocate property rights to each. He cites two examples of autonomous fisheries management that worked, the Lofoten fishery in Norway, which survived for centuries without outside regulation, and the system of ‘individual transferable quotas’ (ITQs) adopted by Iceland and New Zealand. Scruton is a fierce critic of the Common Fisheries Policy of the European Union (EU). He reminisces about a time past when each country in the coastal waters of Europe had their customary sovereign rights. Scruton fails to acknowledge that in the case of Great Britain and Denmark, accepting the Common Fisheries Policy was a pre-requisite to joining the EU. Therefore, his suggestion of returning to a system of property rights which would bring the good stewardship needed to safeguard the fisheries resource is nigh on impossible for a country within a transnational organization such as the EU. Furthermore, Scruton’s assessment of the problems of the oceans and the disappearance of fisheries and the stocks on which they depend, fails to take into account the existing body of scientific knowledge on the subject, omitting to suggest feasible ways of tackling the problems associated with the Common Fisheries Policy.

Scruton’s coverage of global warming is much better than his account of the oceans and their dwindling fisheries, and includes the entire spectrum of informed opinions, both past and present. He accepts the trend of global warming, that to a greater extent it is anthropogenic, and that there is a need to reduce carbon emissions. He explains the basis of the international solution proposed under the Kyoto treaty, known as cap and trade solution, as an attempt to create a market that will assign a price to emissions based on the logic of supply and demand. Although he recognises the market oriented solution underpinning Kyoto, Scruton is sceptical about cap and trade schemes due to their lack of transparency, which, in his view, is an invitation to corruption. Another reason why he opposes Kyoto is that it targets producers and not consumers, who, he believes, are ultimately responsible for the problem of carbon emissions. He proposes an alternative solution to the problem of global warming, by the introduction of a flat-rate carbon tax on all products regardless of their origin and to use this tax to finance research on cleaner technologies.

An overview of Scruton’s suggestions to manage environmental problems is provided in the last chapter of Green Philosophy, entitled Modest Proposals. Here, Scruton reiterates that the state should not undertake tasks that could be better undertaken by the citizens. In his view, what the state should do is to help citizens to act effectively, through deregulation for example. The first step of any environmental policy should be to devise a scheme for putting a price on pollution and waste that serves as a deterrent. The chapter, however, is followed by two appendices. Appendix I, Global Justice, is a philosophical examination of the problems of bringing justice to the environment, especially the so-called intergenerational justice, that seeks to save the environment for future generations. In the second Appendix, How Should We Live, Scruton delineates the difficulties of moral judgements and the tensions that exist between the pursuit of happiness and sense of duty. He also points out that in the modern era, when overpopulation became the greatest source of pressure on the environment, one of the greatest tensions is that between the virtue of charity towards the poor and the virtue of unburdening the planet. The starkest example is the campaign against DDT that took place after the publication of Rachel Carson’s Silent Spring, whose success led to an increase in the population of the malaria-transmitting mosquito, which in turn caused a huge increase in the number of African children who died of malaria.

One of the lessons of this book is that all actions designed to solve environmental problems in the present must be thought through to prevent a tragedy further down the line. For that, one must think seriously about the planet and reject top-down prescriptions and agendas about the environment. This, of course, requires the practice oikophilia, demonstrated by actions such as participation in civic associations, creation of sustainable neighbourhoods and respect for tradition. In the case of environmental justice, truth is not enough: only the whole truth will do. Many comprehensive books on the environment that have appeared before now have incurred errors due to incomplete visions. This is not the case of Scruton’s Green Philosophy — His polymath credentials have allowed him to uncover all the pertinent dimensions necessary for the care of our planet


Citation:
SCRUTON, R. Green Philosophy. How to think seriously about the planet. London, Atlantic Books Ltd, 2012. 457 pages. ISBN: 978-84 887 076 5. Review by: PIRES-O’BRIEN, J. (2012). What the planet needs. PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Norman Berdichevsky

Book Review of Brasil! Língua e cultura by Thomas A. Lathrop and Eduardo Mayone Dias. Lingua Text, Newark, Delaware USA, 1992 (reprints to 2006). ISBN 0-924-453-8695; $21.85

Language textbooks often try to present cultural aspects of the homeland as well as formal training in the various learning skills of speaking, listening comprehension, reading and writing. Obviously, where English, French, Spanish, or Portuguese are spoken in many different lands with quite distinct literatures, dialects, social relations and a wide range of national idiomatic expressions, the textbooks often provide clarifying footnotes to varying usage. When the language is spoken only in a single nation, such as the case with Danish or Hungarian, there may be more space to help the student understand the history of the linguistic homelands, their national traditions, music, and culinary specialties. Most language textbooks previously served for many decades without any national content of the cultural, social, economic and physical landscape linked to the particular homeland of the spoken vernacular. This, however, is a book that stands on two solid foundations of language instruction blended with an informative cultural guide, a task that is rarely performed so well, imaginatively and entertainingly. I admit that I initially skimmed the book, already having a good reading knowledge of Portuguese, but nevertheless managed to learn an enormous amount of useful and interesting practical hands-on information about Brazil.

Brasil! Lingua e cultura by Thomas A. Lathrop and Eduardo Mayone Dias is a first year college level textbook on the national language of Brasil, its history, culture and folklore. The book has a unique format presenting 75 interviews with Brazilian university students who present different aspects of Brazilian culture and society from their own particular viewpoint. These are termed Vozes Brasilieiras, all of which are accompanied by cute and clever line drawings, some of them inserted into actual photographs. Each of the twenty chapters (Lições) includes a dialogue (Diálogo) and a reading (Leitura) segment. There are also additional notas culturais in English and Portuguese that expand on the background cultural information essential for the first time visitor.

The result is a fascinating and entertaining introduction to knowing our great southern neighbor on its own terms. Each dialogue features the adventures of a fictional American character, Scott Davis from San Francisco, who has enrolled in a program for foreign students at the Universidade de São Paulo (USP). We follow Scott around the university, making new friends, taking in the sights, learning practical information about daily routines, visiting other regions and pursuing Nelly, a lovely Brazilian girl.

The country’s geography is made vivid by comparisons such as that all of Brazilian territory lies east of New York and that the southernmost town in Brazil, Chuí, in the state of Rio Grande do Sul, is only as far south as Atlanta is north. Foreigners quickly get acquainted with the social geography of the country and readily pick up the many local nicknames for residents of many of the major states of Brazil’s federal union like our own Hoosiers or Buckeyes or Sooners. Through their journeys and adventures, the reader gets a good sense of the regional characteristics of the country that are distinguished not only by racial and ethnic origins but the localisms that are more numerous and stronger than our own Southerners, New Englanders, New Yorkers and Mid-Westerners.

Many may already know that residents of the city of Rio de Janeiro are called cariocas, whereas those who reside in the State of Rio de Janeiro but live outside the city’s limits are proud to call themselves fluminenses. However, not many people know that the name Carioca signifies white man’s house, as it came from cari, meaning white man, and oca, meaning house, in the indigenous Tupi language, while the name Fluminense, which is also the name of one of Rio’s premier soccer clubs, is derived from the Latin flumen, meaning river. The many shanty-towns on the slopes of Rio are called favelas, and their dwellers are called favelados.

A paulistano is not a national of one of countries north of Pakistan but a native of São Paulo, whereas a mineiro comes from the state of Minas Gerais (General Mines – the state that had an early boom in the mining of gold and diamonds). A gaúcho in Brazil is not a cowboy of the Argentine pampa but a native of the state of Rio Grande do Sul; a catarinense is from Santa Catarina (one of the three southernmost states) and a baiano (without the “h”) is, of course, from Bahia. A pernambucano comes from Pernambuco and a mato-grossense from Mato Grosso; an alagoano from Alagoas; a goiano from Goiás and an amazonense (of whatever gender) comes from Amazonas; a paraense from Paraná and a sergipano from Sergipe but can you guess the origin of a capixaba? He or she is from Espírito Santo, a state south of Rio de Janeiro. What about the new federal capital city of Brasília – can they be brasilianos? No, that would be too confusing, so they are candangos!

In explaining the meaning of the verb conhecer (to know in the sense to be familiar with), the examples given are… “Raquel conhece Os Lusiadas de Camões (Raquel knows Os Lusiadas by Camões)… she has read some of them but doesn’t know any by heart”; “Roberto conhece os romances de Clarice Lispector (Roberto knows the romances of Clarice Lispector)… but can’t recite any passages from memory” and “Eu conheço as Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos (I know Villa-Lobos’ Brazilian Bacchianas)… especially the one with the eight cellos and soprano voice”. Likewise, social relations are intimately tied to the grammatical examples as demonstrated in the book’s advice explaining that males are much more ready and quicker to address their potential sweethearts to ask “What is your name?” when first meeting with the familiar possessive form of your (teu) than the ladies who persist in the more correct polite seu. Among good friends, the pronoun você is quickly shortened to cê.

We follow Scott around São Paulo at the University and the chic cafés, fast food joints and parks of São Paulo and the beach resorts of Gualala and Ubatuba, along the coast of that state, as well as the more famous ones in Rio as he attempts to strike up a friendship and possible courtship with the pretty Nelly who has visited New York and is keen on American customs and fads. If you don’t know the differences between Ipanema, Flamengo, Botafogo, Leblon and Copacabana, read all about them in Lesson Nine, the Brazilian beach culture, so you know where the best places are to play beach volleyball. Scott is apprehensive and afraid that Nelly is putting him off with the standard excuse that she might not be free to go out on a first date because she is expecting a visit of her aunt from Minas Gerais. Fortunately for Scott, the aunt (real or invented?) never shows up.

In getting to know his new surroundings, São Paulo even outdoes Rio for ethnic restaurants (see Chapter Ten) with French, Italian, German, Chinese and Japanese specialties. Scott gets help from Nelly and his friends to become familiar with the enormous variety of Brazilian and foreign cuisine available at ethnic restaurants, fast food joints and in home prepared meals. For African specialties, there is no place like Bahia and the Brazilian Northeast but the national dish is still the feijoada, black or white beans with jerked beef, cured pork and sausage. Often, among the slaves, it meant pork products that no one else wanted, the tongue, ears, lips and feet. Usually the preferred beverage to accompany this meal is caipirinha and the combination will usually put you to sleep. Caipirinhas are Brazil’s national cocktail, made with cachaça (a type of sugar cane rum), sugar (preferably raw) and lime. A slightly more elegant meal is the popular churrasco (barbecued steak) served with a buffet table filled with side dishes. A lot quicker is a simple but tasty sandwich – bauru but it remains to be seen now if this traditional fast meal will fall victim to the competition of McDonald’s Big Mac (the latter has been given the more authentic Brazilian-Portuguese name cariocão so it doesn’t sound so foreign).

Like Scott, you will discover that Brazilians are the third or fourth largest per capita consumers of beer – or the variety known as chopp or chope (draft beer), always served very cold, with a lot more foam and a higher alcohol content than most American beers. So when in the mood for a real summertime quencher, you have got to say Me dá um chope (Give me a draft beer).

Brazil’s romance with carnival, soccer and popular music from the samba to the bossa nova, and achievements in cinema, dance and literature, are recounted in several chapters that involve Scott and Nelly in their free time and enjoyment of hobbies and entertainment with their friends. This includes a survey of Brazilian television’s soap operas. We are always given real advice about real places to go; even real menus of real restaurants. Good advice on how to use public transport, the post office and telephone provide additional situations to expand Scott’s and our knowledge of living, studying and working in Brazil. Carnival (carnaval in Portuguese) is the theme of Chapter 13, and subsequent chapters present a panorama of Brazil’s history and rampant inflation explaining how to cope with it. Chapters 19-20 present a more detailed look at the new federal capital of Brasília as a model of urban planning, the old colonial cities of the Northeast and the development of the Amazon Valley, the fate of its indigenous population and the history of VARIG, which at the time the book was written was still Brazil’s national airline.

Among the historical segments, one that will undoubtedly surprise many Americans, is that Brazil was the only South American country to send troops to fight in the Second World War. The Brazilian Expeditionary Force (Força Expedicionária Brasileira, or FEB) was a force of some 25,700 men and women from all three services that fought in Italy from September 1944 to May 1945. In addition to the efforts of FEB, the Brazilian Navy and Air Force also acted in the Atlantic Ocean, from the middle of 1942 until the end of war. During the eight months of the Italian campaign, Brazil’s FEB managed to take 20,573 Axis prisoners, consisting of two generals, 892 officers and 19,679 other ranks. During the War, Brazil lost 948 soldiers, sailors and airmen.

This is a brilliant book that integrates language instruction with a cultural guide book to the country for anyone who desires to spend more than a few days in Brazil and cares to fully appreciate the individuality of the country that has often been lumped together as part of Latin America, a nation that can truly be called our friend and ally.


Dr Norman Berdichevsky is an American specialist in human geography with a strong interest in Hispanic and Portuguese cultures. He is a frequent contributor to PortVitoria and is part of its Board of Editors.

Citation:
LARHROP, A. and MAYONE DIAS, E. Brasil! Língua e cultura. Newark, Delaware USA, Lingua Text, 1992 (reprints to 2006). ISBN 0-924-453-8695. Review by: BERDICHEVSKY, N. (2012). Brazilian Portuguese and Culture for American Colleges. PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236

Fernando R. Genovés

Desmontando viejas leyendas que reinventan y falsifican la sustancia y la historia de la civilización occidental, haciéndola depender, no de sí misma, sino de fuerzas exógenas y culturalmente extrañas, incluso hostiles

La caída de Roma fue, en gran medida, cosa de Roma” Adrian Goldsworthy
“En la Edad Media, el Islam no se helenizó, del mismo modo que Occidente no se islamizó.» Sylvain Gouguenheim

La civilización caída, se levantó por su propio pie
El azar, o acaso la no siempre discernible necesidad, allegan a mi mesa de trabajo dos libros de análisis histórico de distinto calibre y argumento, si bien ambos plantean un propósito común: refutar la imagen creada por una amplia sección de la historiografía y que presenta a Occidente como una civilización sin alma propia; dependiente de otras culturas externas para existir; que no se basta a sí misma ni se ha hecho a sí misma, ni para crear o crearse ni siquiera para entrar en decadencia y caer{1}. Los textos valientes y formidables a los que aludo son La caída del Imperio romano. El ocaso de Occidente de Adrian Goldsworthy{2} y Aristóteles y el Islam. Las raíces griegas de la Europa cristiana de Sylvain Gouguenheim.{3}

A lo largo de generaciones, la Historia de la humanidad suele transmitirse tan plagada de embustes y tergiversaciones que llega a parecerse más a un cúmulo de leyendas que a una fiel crónica de acontecimientos. A menudo, semejantes desviaciones de la realidad y de los hechos son debidos a falta de documentación y rigor, a negligencia e incompetencia en la investigación. Pero, no faltan tampoco casos en los que las ficciones y reinvenciones provienen de intereses espurios, vengan de la mano de la tendenciosidad culturalista e ideológica, o bien de simples prejuicios presentados con un presunto armazón científico. Sobran los ejemplos en casi todos los campos: muchos desafueros en el arte han cobrado prestigio actuando en nombre de las «Vanguardias» o las «Nuevas tendencias», bastantes calamidades en literatura pasan por «licencias poéticas» o «experimentalismo» y, en fin, al salvoconducto sin fronteras que legitima no importa qué análisis o explicación le llaman «lectura» o «interpretación». A la vista de la impunidad intelectual vigente, del multiculturalismo rampante y de las mitificaciones autorizadas en detrimento de la racionalidad científica, hoy más que nunca urge separar el grano de la paja e identificar con nombre y apellidos el mensaje fraudulento.

Al césar lo que es del césar
A propósito de Roma, en foros modernos y manuales de Historia, suele difundirse la noticia de que el Imperio romano entró en decadencia y se derrumbó como consecuencia principal de la presión y los asaltos que le infligieron las tribus bárbaras; esto es, como consecuencia de una fuerza externa superior a ella. Un declive puesto de manifiesto en el siglo II de nuestra Era y que culmina en el VII. No faltan, sin embargo, pruebas y argumentos muy solventes y convincentes favorables a explicar el ocaso de Occidente como resultado, en última instancia, de causas internas. ¿Cómo comprender la naturaleza de tan profunda disparidad?

A fin de dar razón de este hecho fenomenal que todavía concita el interés de estudiosos, y público en general, Adrian Goldsworthy ha compuesto su reciente trabajo, titulado originalmente The Fall of the West. The Death of the Roman Superpower, con una precisión e intención hurtadas en la versión en español. Adrian Goldsworthy no es un desconocido entre nosotros, tampoco un advenedizo, un autor de nueva ola, uno más empeñado en hacer su particular aportación a la Historia o a la novela histórica. Doctor en Historia, formado en las selectas aulas de Oxford, y dedicado durante bastantes años a la enseñanza en varias universidades, Goldsworthy es en la actualidad un reconocido especialista en el mundo romano de la Antigüedad, al que ha dedicado, entre otros, los siguientes libros: El ejército romano, La caída de Cartago: las guerras púnicas, Grandes generales del ejército romano y, más recientemente, el muy celebrado César: la biografía definitiva. En el momento presente, ultima una biografía conjunta de Antonio y Cleopatra.

¿Por qué sigue fascinándonos de manera tan poderosa la caída del Imperio romano? Quizás porque se trata de un acontecimiento, en el fondo, incomprensible, protagonizado por un Estado de enorme extensión y una longeva hegemonía en el mundo conocido por entonces. Desde el Próximo Oriente hasta Britania, una forma de vida basada en el honor, la gloria y el derecho imperó durante siglos entre pueblos muy diversos, los cuales en muy raras ocasiones se resistían a ser romanizados, o pugnaban por dejar de serlo.

De hecho, durante siglos, especialmente en las proximidades de la frontera del Rin, no pocos pueblos bárbaros decidieron instalarse cerca del limes a fin de comerciar y tratar con Roma, aportando hombres para las legiones y solicitando a cambio oro, provisiones y armas, cuando no protección sin más frente al asalto y acoso de otras hordas bárbaras. Cuando podían burlar los controles de las legiones apostadas en la frontera, saltaban la línea de demarcación y se instalaban a este lado del mundo. «Pasarse al Oeste», vale decir, comenzaba a ser ya una costumbre, antes de lo que algunos piensan o quisieran creer.

«La gran paradoja de la caída del Imperio romano es que no se produjo porque la gente que lo conformaba (pero tampoco los que no formaban parte de él) dejaran de creer en él o desearan que dejara de existir.»{4}
A este respecto, resulta oportuno traer a colación el célebre dictum del mayor estudioso de la decadencia y caída de Roma, Edward Gibbon, quien en su monumental obra dedicada al tema, sugiere dejar de preguntarse por qué el Imperio romano acabó siendo destruido, para, en realidad, sorprenderse de que durase tanto tiempo… Ocurre, con todo, que tras tantos siglos de dominio y poderío, sin otro modelo estructurado y estable, tanto político como militar, que le hiciera sombra o frente, resultaba –y acaso todavía resulta– inimaginable un mundo sin Roma.

Conmueve, en definitiva, en los diversos sentidos del verbo conmover, la traumática comprobación de que Roma no era, en su augustal grandeza, después de todo, una realidad inmortal. El fin de Roma no supuso el fin del mundo, ciertamente; aunque «en comparación con la vida en el Imperio romano, el mundo que surgió de entre sus ruinas resulta tremendamente primitivo.»{5}

Y, con todo, Roma cayó. ¿Cómo pudo suceder? Parece poco fundado el recurso a la presión externa como causa principal del colapso del Imperio. Durante la existencia de Roma, sólo otros dos imperios estaban en condiciones de competir con ella por el dominio mundial: Partia y Persia. Sin embargo, aunque los enfrentamientos con ambas potencias fueron constantes, en ningún momento llegaron a poner en peligro la integridad y la estabilidad del poder imperial romano. Como máximo, algunos territorios limítrofes, particularmente con Persia, fueron cedidos a los reyes de Oriente, a menudo para ser recuperados posteriormente, y, en cualquier caso, nunca se trató de importantes posesiones. Pero, lo que es más relevante: ni los partos ni los persas estuvieron en ningún momento interesados por Occidente.

Se mire por donde se mire, la civilización occidental ha demostrado esta notable singularidad que la distingue del resto: la preocupación y el interés, tanto material como espiritual, por los demás pueblos y las otras culturas, actitudes inapreciables fuera de su ámbito de pensamiento y acción. Persia fue, en efecto, un poderosísimo reino, y algunas victorias parciales lograron luchando contra las legiones del Imperio. Ahora bien, Persia nunca ambicionó conquistar Roma ni entrar en Roma.

Los hunos, además de otras hordas bárbaras, sí asediaron la ciudad del Tíber, así como otros centros o sedes de poder de los emperadores. Lograron incluso que cedieran las defensas de la Ciudad Eterna para entregarse, a continuación, al saqueo y la destrucción. El afán de las huestes nómadas venidas de las lejanas estepas se limitaba, habitualmente, a la invasión y la razia, la depredación y la devastación, nunca anhelaron la ocupación del Imperio.

Aunque dividida administrativamente en el Imperio Este y el Imperio Oeste, gobernada por emperadores simultáneos, y aun hablando distintas lenguas, Roma siempre fue Roma. Los emperadores y ciudadanos de Roma, en la Galia, Hispania, norte de África o Egipto, eran, ante todo, romanos. Cuando, finalmente, los bárbaros –visigodos, francos, ostrogodos, vándalos, etcétera– van haciéndose sitio entre las ruinas de Roma, lo hacen fundando reinos locales e independientes. Reyes y caudillos mandan en sus dominios, pero no hay en ellos indicio ni vestigio de voluntad imperial.

Los bárbaros no vencieron a Roma ni quebraron su unidad y universalidad. Tampoco, en sentido estricto, ocuparon su lugar. Los bárbaros, simplemente, se hicieron con los despojos de un Imperio, previamente debilitado y menoscabado; Imperio decaído por sí mismo, por sus propios errores y por sus propias miserias y dejaciones.

Guerras civiles y usurpaciones sin freno; crecimiento imparable de la burocracia y el gasto del Estado; corrupción e intrigas criminales por hacerse con el mando y control de las instituciones civiles y militares; preocupación principal de los emperadores y gobernantes del Bajo Imperio romano limitada a la supervivencia y la permanencia en el poder y no tanto ya a perpetuar la gloria y el poderío del modo de civilización romano: he aquí los desencadenantes fundamentales de la caída de Occidente, según Goldsworthy. Atendamos, a continuación, al resumen que hace de los hechos:

 «El Bajo Imperio romano no estaba concebido para ser un gobierno eficiente, sino para mantener al emperador en el poder y beneficiar a los miembros de la administración. Muchos de ellos podían disfrutar de carreras de gran éxito de acuerdo con los estándares de la época sin llegar a ser jamás eficaces en el papel que teóricamente se suponía que desempeñaban. Las enormes dimensiones del Imperio impidieron el veloz colapso o la catástrofe súbita.»{6}

Roma, republicana e imperial, causa de su ascenso y grandeza, de su auge y esplendor, fue, asimismo, causa de su decadencia y caída. Roma no pagaba a traidores. Tampoco sus herederos deberían pagar a impostores ni deudas no contraídas.

Finalmente, Roma cayó. ¿A qué es debido el interés por parte de tanto comentarista en magnificar la visión de una Roma vencida por el bárbaro, la perspectiva de un Occidente débil y vulnerable, en contraposición a la fortaleza y determinación de un Oriente no romano conquistador y aun regenerador? ¿Por qué esa insistencia en sostener un imagen exógena del devenir de Occidente, difícilmente sostenible en sentido historiográfico? Goldsworthy, en el Prefacio y el Epílogo de su estudio, realiza unas oportunas consideraciones sobre el significado y el destino de los imperios y las superpotencias en la Historia, advirtiendo de los problemas que conlleva forzar determinados paralelismos; por ejemplo, entre Roma y Estados Unidos de América. Tales digresiones ayudan a dar respuesta a las preguntas.

¿Es Estados Unidos la nueva Roma? Para empezar, Estados Unidos no es sensu stricto un Imperio, por más que se esfuerce algún publicista en señalar lo contrario. Es la potencia mundial, democrática, constitucional y no expansionista, erigida hoy en único baluarte solvente de la libertad, la seguridad y los valores de Occidente. La única potencia mundial en condiciones de proteger el limes que separa hoy la barbarie de la civilización, así como de preservar la integridad occidental ante un panorama de amenazas, probables o probadas, venidas de Oriente: «por ejemplo, la coleta de un chino que asome por los Urales o bien una sacudida del gran magma islámico»{7}. Como sucedió con Roma, Estados Unidos dejará un día de ser superpotencia. Probablemente, si le sucede a sus dirigentes y élites lo que a Roma con sus emperadores: que «perdieron el sentido de la amplitud de su misión y, por el contrario, se concentraron en la supervivencia.»{8}

Algunos muestran una gran ansiedad por presenciar otro colapso de Occidente, e incluso hacen lo que pueden para que ello ocurra cuanto antes. Se trata de los nuevos bárbaros, asediando de mil formas las ciudades de Occidente, socavando la moral de los herederos de Atenas, Roma y Jerusalén, esperando el momento de asistir al declinar de su misión para dar el golpe definitivo. Y es que «criticar a Roma se ha convertido en un modo de criticar la política y la cultura estadounidense, lo que, inevitablemente, influye sobre su visión de ambas potencias.»{9}

Y sí, Roma cayó. En síntesis, ¿cómo y cuándo pasó?
«El Imperio romano de Occidente dejó de existir en el siglo V. Aun aquellos estudiosos que describen el proceso como una transformación admiten ese simple hecho. El Imperio romano de Oriente perduró otros mil años, hasta que fue invadida por los turcos. Ni siquiera en su máximo esplendor tenía esperanzas de llegar a dominar el mundo: era una potencia, más que una superpotencia. El siglo VI demostró que carecía de la capacidad para reconquistar las provincias occidentales perdidas. En el siglo VII, los árabes le arrebataron aún más territorio.»{10}

Dar al-Islam lo que es del Islam
La caída definitiva del Imperio romano de Occidente coincide en el tiempo con el ascenso del islamismo. Roma seguiría existiendo después como potencia mundial, pero ya sin las dimensiones y el esplendor de antaño, hasta la caída de Constantinopla por los turcos. Siguiendo la convención histórica, ahí tendría lugar el cambio de Era: desde la Edad Media a la Edad Moderna. Durante ese largo lapso de tiempo, Occidente y Oriente –representados por la civilización judeo-cristiana y por el Islam, respectivamente– pugnaron cruentamente por la hegemonía política, cultural y espiritual de los dominios que ambos abarcaban, y de los que ansiaban abarcar. En ese escenario de «conflicto de civilizaciones», Europa ha representado uno de los principales espacios en disputa; por lo visto, hasta nuestros días.

Acabamos de comentar las variaciones sobre el tema a propósito de la caída de Roma. La reinvención de la Historia no ha pasado tampoco de largo por este nuevo caso, según han puesto en evidencia varios y bizarros ensayos y trabajos de investigación dispuestos a desmontar otra gran falsificación del pasado, a saber: que Occidente recuperó el saber griego en el Medioevo –permitiéndole así conservar la cultura clásica y hacerla florecer nuevamente en el Renacimiento– gracias a la contribución determinante del Islam, y más en concreto, a las traducciones árabes de los grandes textos clásicos realizadas por sabios musulmanes.

El libro de Sylvain Gouguenheim, Aristóteles y el Islam. Las raíces griegas de la Europa cristiana, constituye una valiosa contribución al esfuerzo desmitificador de esta otra imagen de Europa intencionadamente deformada{11}. Sylvain Gouguenheim, nacido en 1960, ejerce en la actualidad de profesor de Historia Medieval en la École Normale Supérieure de Lyon. Además del referido libro, es autor de otras obras especializadas: Les fausses terreurs de l’an mil (1999), Les Chevaliers teutoniques (2008), Regards sur le Moyen âge: 40 histoires medievales (2009) y La réforme grégorienne. De la lutte pour le sacré à la sécularisation du monde (2010). Pero, ciertamente, es su estudio Aristote au Mont Saint-Michel, título original publicado en Francia por la editorial Seuil en 2008, el texto que le ha proporcionado mayor celebridad. Celebridad y renombre no exentos de polémica, ni aun de un violento hostigamiento dirigido desde sectores de medios universitarios y de comunicación «cansados de Occidente», al haber contravenido la «corrección política» vigente en Francia, en Europa y, en realidad, en todo el mundo. El autor ha puesto en duda, de manera razonada y pública, la realidad del denominado «Islam de las Luces», supuesta causa primordial del proceso de culturización y civilización de Europa. He aquí el acto infiel. ¿Cuál es, en síntesis, el mito que Gouguenheim desmonta y que, a la vista de lo desvelado, ha provocado la ira del «pensamiento único» galo, acusándole, como insulto más moderado, de «islamófobo»?

Mientras Europa estuvo encerrada en las largas Dark Ages de la Edad Media, fue incapaz de salir de su estado de postración cultural e intelectual, tanto por la parálisis que supuso el dominio sobre ella de la espiritualidad cristiana como por el desconocimiento del legado del pensamiento griego. El gran saber generado en la Grecia clásica sólo pudo ser recuperado merced al esfuerzo traductor y hermenéutico de los filósofos musulmanes («falasifa»), quienes lo trasmitieron a Europa para ser vertido al latín. Esto probaría que el mundo musulmán fue superior espiritualmente al mundo cristiano medieval y colocaría a Occidente ante una gran deuda que pagar al Islam: Europa debería al Islam nada menos que su propia identidad cultural. Semejante acto de aceptación y sumisión convertiría a Occidente en «una especie de heredera o apéndice del mundo musulmán»{12}. Así habla el mito medievalista que reinventa la civilización.

Ocurre, en efecto, que esta narración, repetida hasta la saciedad, constituye una leyenda más que un devenir de acontecimientos históricos. Algunos de los datos que Gouguenheim pone sobre la mesa resultan muy clarificadores, y aun demoledores, para la fiabilidad de la visión hagiográfica de un Islam civilizador de Europa. El acceso que, en verdad, tuvieron los falasifa a la herencia griega nunca fue de primera mano, sino a través de traducciones previas del griego al siríaco. Y el motivo es bien sencillo: los sabios musulmanes no dominaban el griego. Incluso Al-Farabi, Avicena y Averroes lo ignoraban. Por lo demás, la lengua árabe, auténtica protagonista en la transmisión del saber clásico, carecía del aparato lingüístico necesario para verter en sentido estricto, y fielmente, el contenido de la sabiduría griega.

Por ejemplo, términos esenciales en la filosofía o el derecho, como «razón» o «persona», no tienen un claro y preciso correspondiente en la lengua árabe: «los conquistadores [árabes] eran guerreros, mercaderes, ganaderos, no sabios o ingenieros. Por eso hubo que inventar un vocabulario científico y técnico.»{13} La misma identificación práctica entre lo árabe y lo musulmán es abusiva. De hecho, bastantes traductores de raza árabe que colaboraron en las tareas divulgadoras eran cristianos de fe. Del mismo modo, mucho de lo atribuido al Islam, provenía, en realidad, de autores sabeos, judíos o persas.

Los sabios musulmanes estaban consagrados, preferentemente, no a la ciencia, sino a la custodia del texto coránico, y no tanto a su comentario crítico. Mucha fama ha trascendido sobre la «Casa de la Sabiduría» (Bayt al-Hikma), presentada como centro musulmán de acogida y faro iluminador de la ciencia universal, cuando gran parte de la misma no es, también, más que leyenda. En realidad, se trataba de la biblioteca privada del sultán Harun al-Rasih y sus allegados directos, y, en última instancia, reservada a expertos en el Corán y la astronomía (tareas complementarias, pues, por ejemplo, necesitaban precisar al máximo el calendario de periodos sagrados como el Ramadán)

«Durante más de tres siglos, entre el VII y el X, por tanto, la “ciencia arabo-musulmana” de Dar al-Islam fue en realidad una ciencia griega por su contenido e inspiración, y siríaca, y después árabe, por su lengua. La conclusión es clara: el Oriente musulmán se lo debe prácticamente todo al Oriente cristiano. Y es esta deuda la que solemos pasar por alto en la actualidad, tanto en el mundo musulmán como en el occidental.»{14}

La línea de continuidad entre la tradición greco-romana y el Occidente medieval cristiano nunca se rompió en Europa. Occidente, por sí mismo, conservó, atesoró y divulgó el legado clásico, permitiendo así, de propia mano, el gran desarrollo científico y cultural que fundó la Modernidad. En los scriptoria de monasterios repartidos por todo el viejo continente se copiaron miles de manuscritos y centenares de códices que han llegado hasta nosotros directamente de traducciones del griego al latín. Los libros circulaban y los eruditos también, hasta el punto de formar una red de escuelas de sabiduría, suficientemente comunicadas entre sí (al menos, lo que aquellos tiempos permitían). Como refiere Gouguenheim, Europa pudo conocer los textos griegos, no porque se los trajesen de fuera, sino porque los buscó y conservó por medio de sus propios sabios y amanuenses.

No fue tampoco Toledo la primera cantera de traductores. Al menos otras dos localizaciones son merecedoras de reconocimiento por su labor pionera y emérita en la traslación de textos: Antioquia y Mont Saint-Michel. A la abadía localizada en el hermoso emplazamiento de Normandía dedica, en particular, el autor de Aristóteles y el Islam un decisivo capítulo que representa un perfecto homenaje al trabajo traductor y copista de unos monjes empeñados en conservar las propias raíces. Entre ellos, destaca por la calidad y extensión de su trabajo, Jacobo de Venecia: «eslabón perdido en la historia del paso de la filosofía aristotélica del mundo griego al mundo latino.»{15}

Se trata, en suma, de Dar al-Islam lo que es del Islam, es decir, reconocerle su realidad, y no más; así como de conservar en Occidente lo que le es propio y le corresponde, sus verdaderas raíces: la cultura griega y la tradición judeo-cristiana.


Dr. Fernando Rodríguez Genovés es escritor, ensayista, crítico literario y profesor funcionario de carrera en la asignatura de Filosofía. En 2004, obtuvo el título de Doctor en Filosofía por la Universidad de Valencia con la tesis «La noción moral de contento entre la ética antigua y la moderna: Marco Aurelio, Montaigne y Spinoza». Además de ser el autor de cinco libros y de varios blogs, el Dr. Genovés es fundador y colaborador habitual de El Catoblepas, revista crítica del presente, de periodicidad mensual, publicada desde 2002. Su último libro, Cine, espectáculo y 11-S, publicado en 2011, está disponible gratuitamente en Internet.

© Dr. Fernando R. Genovés
Cortesía de: El Catoblepas (ISSN 1579-3974 35), número 107 • enero 2011.
Fuente: http://www.nodulo.org/ec/2011/n107p07.htm

Notas
{1} El presente ensayo conoció una primera edición en papel con el título de «Occidente por sí mismo. Leyendas que reinventan la civilización», en la revista Debats, Institució Alfons el Magnànim, nº 108, 2010/3, Valencia, págs. 24-29.
{2} Adrian Goldsworthy, La caída del Imperio romano. El ocaso de Occidente, La Esfera de los Libros, Madrid, 2009, 631 páginas.
{3} Sylvain Gouguenheim, Aristóteles y el Islam. Las raíces griegas de la Europa cristiana, Gredos, Madrid, 2009, 267 páginas.
{4} Adrian Goldsworthy, La caída del Imperio romano, pág. 32.
{5} Ibíd., pág. 13.
{6} Ibíd., pág. 513.
{7} José Ortega y Gasset, «La rebelión de las masas», en Obras Completas, Tomo IV, Editorial Taurus, Madrid, 10 volúmenes (Santillana Ediciones Generales/Fundación José Ortega y Gasset, en coedición), Madrid 2005, pág. 355.
{8} Adrian Goldsworthy, op. cit., pág. 523
{9} Ibíd., pág. 16.
{10} Ibíd., pág. 501.
{11} Es justo destacar, entre las contribuciones aludidas, el brillante trabajo de Rosa María Rodríguez Magda, Inexistente Al Ándalus. De cómo los intelectuales reivindican el Islam, Nobel, Oviedo 2008, galardonado con el Premio Internacional de Ensayo Jovellanos 2008.
{12} Sylvain Gouguenheim, Aristóteles y el Islam, pág. 18.
{13} Ibíd., pág. 80.
{14#125; Ibíd., pág. 91.
{15} Ibíd., pág. 96.
© 2011 www.nodulo.org

Referencia:
Genoves, F.R. Ocidente, libre de dudas culturales. PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Roger Scruton

Para ser bem sucedida, a conservação ambiental precisa voltar a ser conservadora. RS

Até onde eu consigo me lembrar, a palavra ‘conservador’ tem sido usada nos meios intelectuais como um insulto, enquanto que chamar alguém ‘de direita’ é quase o mesmo que relegar ao ostracismo social. Este hábito persistiu durante os 50 anos em que o partido Conservador manteve a proporção maior dos votos. Mas o hábito não é novo. Enraizou-se há dois séculos, quando a Revolução Francesa induziu os intelectuais britânicos a pensar que eles também poderiam ter a chance de cortar as cabeças que continham menos cérebro do que as suas. John Stuart Mill, quando era um Membro do Parlamento (MP) ligado ao Partido Liberal, falava pela maioria dos intelectuais, denunciando os Tories1 como ‘o partido mais idiota’. Um intelectual que enfatiza as suas credenciais esquerdistas ganha uma vantagem na carreira que compensará qualquer teor de obscuridade, ambiguidade ou mendacidade naquilo que escreve.

Mesmo assim, quando o tema ambiental ascendeu ao topo da agenda política eu me permiti a esperança de uma trégua próxima. Se a classe intelectual estava a falar sobre conservação, proteção ambiental e compromisso para com as gerações futuras então não iria demorar, senti eu, para que os seus integrantes compreendessem o ponto do argumento de Burke2, segundo o qual a sociedade não é simplesmente um contrato entre os vivos, mas uma interligação entre os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram. Eles certamente iriam se permitir reconhecer os efeitos do socialismo nos ambientes naturais da Rússia, do Leste Europeu e da China, e os efeitos da imigração descontrolada nos ambientes urbanos da Grã-Bretanha e da França. Eles talvez começassem a reconhecer o trabalho do romântico Tory, John Ruskin e seus diversos seguidores, no sentido de salvar a paisagem da Inglaterra da destruição durante o século 19. E como é que eles iriam poder analisar a história desse tema sem reconhecer que em cada etapa houve uma batalha entre a sociedade civil e o estado, com os pequenos pelotões de voluntários locais ao lado da conservação e a grande máquina de fora, frequentemente programada com software socialista, arruinando as nossas aldeias e habitats por objetivos que ninguém compreende e poucas pessoas desejam?

Pois bem, isso não ocorreu. A agenda ambiental foi confiscada pelos radicais, se imiscuiu com antigas querelas socialistas, e se transformou numa insígnia da confraria da esquerda. Os antigos objetivos — empreendimentos privados, grandes negócios, valores de classe média, mercados e capitalismo — foram atacados como sendo a causa não só da ‘desigualdade, injustiça social e pobreza’, mas também da destruição ambiental e da violação do planeta. A investida contra os grandes negócios foi orquestrada em nome do Estado, sem nenhuma consciência de que o Estado é o maior de todos os negócios. Os mercados e a empresa privada foram vilificados como sendo a causa da tragédia dos comuns3, por pessoas que pareciam desconhecer que onde quer que a tragédia dos comuns foi evitada, isso se deu através da distribuição viável de direitos à propriedade e da emergência de mercados — conforme estudou Elinor Ostrom em sua pesquisa ganhadora do prêmio Nobel. E a agenda inteira foi embrulhada sob o pânico do aquecimento global, que foi usado para demover a atenção das pessoas dos sucessos locais, e prepará-las para uma rendição coletiva às soluções ditadas de cima para baixo por esquerdistas bem intencionados.

Ao escrever Green Philosophy eu não nutria esperanças de ser levado a sério pelos radicais. Mas eu senti que uma nova nota de realismo estava entrando no debate, e que talvez a hora certa havia chegado para marcar o ponto crucial, que as soluções que vêm de cima para baixo e que são administradas em nosso nome por burocratas são a causa de muitos dos nossos problemas ambientais mais graves. Apenas para citar alguns exemplos: a destruição da indústria pesqueira europeia foi imposta pela Política da Pesca Comum (Common Fisheries Policy) da União Europeia (UE); a destruição dos habitats naturais em toda a Europa pelas autoestradas resultou do confisco de direitos à propriedade, do abandono dos procedimentos democráticos e da vandalização que todo e qualquer ambiente que estiver no caminho. Subsídios governamentais ocultos têm permitido que supermercados destruam os centros das pequenas cidades e outros assentamentos viáveis em toda a Europa e nos Estados Unidos, enquanto que os regulamentos impostos pela classe dos honrados guardiães têm assegurado que os alimentos cheguem até nós embalados em plástico, e que tudo esteja sufocado pelo lixo não biodegradável.

Qual é a alternativa? Nós precisamos resgatar os motivos que levam as pessoas a cuidar dos seus recursos ambientais ao invés de jogá-los fora. A terra vem sendo mantida adequadamente pelas comunidades que nela vivem e que nela estão dispostas a permanecer. Tem sido beneficiada pelo amor à beleza, pelo senso do sagrado e pela aversão a projetos presunçosos de nômades e ausentes. Além do mais, quando as pessoas eram motivadas dessa maneira, elas recebiam muito mais ajuda da sociedade civil do que do governo central. Os problemas ambientais no nosso país eram resolvidos pela lei consuetudinária ao invés de pelo Estado, já que a lei consuetudinária é a voz do povo e não a voz dos lobistas. (Foi assim que os pescadores amadores salvaram os rios, e os Ruskinianos salvaram as matas dos arredores de Londres.) As associações cíveis como o Women’s Institute e o National Trust recrutaram a energia e a boa-vontade dos seus membros, enquanto que as grandes ONGs como a Greenpeace e a Friends of the Earth só fazem viajar de avião para comparecer a conferências.

Naturalmente os radicais irão taxar de irrelevante a minha defesa daquilo que eu chamo ‘oikofilia’ (o amor ao lar). A mudança climática, eles insistirão, é sobrepujante a qualquer outro problema, e só eles, com suas experiências amealhadas a duras penas, são capazes de encontrar uma solução. E eles irão resolver o problema impondo um tratado, que os governos de todo o mundo, persuadidos por seus argumentos impecáveis, irão assinar em um ato de capitulação final.

Este tipo de pensamento ilusório é de fato o mais perigoso dos nossos problemas ambientais, pois leva a uma espécie de paralisia, impedindo tanto o governo quanto o cidadão de tentar resolver as questões que podem ser resolvidas com coerência. Seja qual for a verdade sobre o aquecimento global antropogênico, este não pode ser revertido por um simples tratado. Dentre os maiores poluidores está a China, que não tem nenhuma disposição de se comprometer com tratados que vão contra os interesses de sua classe dominante. E toda a economia mundial está interligada ao petróleo. A única maneira de reduzir as emissões de carbono é descobrir energia que seja ao mesmo tempo limpa e barata, e torná-la disponível em todo o globo. Energia limpa significa energia que seja realmente limpa e que não requer nenhum tipo de respaldo sujo. Graças ao ativismo verde a paisagem alemã está sendo largamente destruída pelos parques eólicos, cuja capacidade de produzir energia é tão pequena que requer que a rede elétrica alemã fique permanentemente conectada à francesa, que é alimentada por usinas nucleares, fato que os alemães verdes são demasiadamente virtuosos para admitir. Essa ‘solução’ não é só uma pura fantasia; ela presume que seja permissível continuar enfeiando a paisagem dos lares das pessoas com todo o tipo de estruturas monstruosas e ainda tem o disparate de contar com a boa vontade dos moradores para cuidar das mesmas.

E o que é que os governos podem fazer? E o que é que o nosso governo deve fazer? As respostas são claras. Os governos devem facilitar a pesquisa em energias limpas, suspeitar de todo o tipo de solução que venha de cima para baixo, reconhecer o perigo dos devaneios e soluções fantasiosas e parar de subsidiar vândalos. E o nosso governo deve ignorar os lobistas, manter-se fiel à sua tradição conservadora e ouvir a voz do senso comum.


Dr. Roger Scruton é um filósofo, professor de filosofia, editor, intelectual público e compositor britânico, de 68 anos de idade, conhecido pelo iconoclasmo e pela sua obstinada defesa da civilização ocidental. É autor de mais de trinta livros e inúmeros artigos e ensaios. Este artigo fala sobre o seu livro mais recente intitulado Green Philosophy: how to think seriously about the planet (A Filosofia Verde: como pensar seriamente sobre o planeta, inédito em português), publicado em Janeiro de 2012 pela Atlantic Books.

Notas Editoriais:
1.Tories. Designação dos seguidores do Partido Tory, da Grã-Bretanha, que nos séculos dezoito e dezenove era oposto pelo Partido Whig e pelo seu sucedâneo, o Partido Liberal, surgido em 1859. As conotações de conservador e liberal já existiam na Inglaterra no século dezoito, associada aos tories e aos whigs, os primeiros por acatar piamente o poder da realeza e o seu sistema da hereditariedade, e os segundos por defender a limitação do poder da realeza e o aumento do poder do parlamento (pelo que os whigs defenderam a ‘exclusão’ do rei James II e do seu filho e sucessor pelo fato de serem católicos, dando origem à Revolução Gloriosa). Entre 1865 e 1868 o Partido Liberal começou a se distanciar da doutrina da clássica economia liberal, o que fez com que diversos afiliados passassem para o Partido Conservador enquanto que outros membros do Partido Conservador mudaram para o novo Partido Liberal (Veja ainda a nota no 4 sobre os Partidos Políticos do Reino Unido da Grã-Bretanha).
2.Burke. Referência a Edmund Burke (1730-97), irlandês nascido em Dublin que se tornou membro do Parlamento Britânico e notabilizou-se como intelectual conservador, deixando uma extensa obra de filosofia política.
3.Tragédia dos Comuns. Tradução da expressão inglesa ‘tragedy of the commons’, em referência e à degradação dos ‘comuns’, designação de terrenos rurais da Grã-Bretanha que não eram propriedade de ninguém e nem tinham qualquer arranjo institucional para seu manejo, sendo usados pelos camponeses locais para o pastoreio de seus animais. O tema foi discutido num artigo do ecólogo Garrett Hardin, publicado em 1968 pela prestigiada revista Science, onde Hardim atribui a destruição dos comums à excessiva pressão de pastagem, decorrente do crescimento da população. A interpretação da ‘tragédia dos comuns’ aponta para a inviabilidade de qualquer manejo sustentado sem a existência de um proprietário, pois aquilo que é de todos acaba não sendo de ninguém.
4.Partidos Políticos do Reino Unido da Grã-Bretanha (GB) e o Sufrágio Universal. Há atualmente na GB três partidos: o Conservador, o Trabalhista e o Liberal Democrata. O Partido Conservador surgiu em 1834 a partir do Partido Tory, e embora tivesse mudado a sua designação para Partido Conservador e Unionista em 1912, é conhecido apenas como Partido Conservador. O Partido Trabalhista foi criado em 1900 por um grupo de socialistas e sindicalistas, e chegou primeiramente ao poder em 1924. O Partido Liberal Democrata foi fundado em 1988 a partir do amalgamento do decadente Partido Liberal e o Partido Social Democrata que havia sido criado em 1981 por dissidentes do Partido Trabalhista. O Sufrágio Universal da GB veio em 1918 com a Lei da Representação do Povo (Representation of the People Act), que estendeu o direito de voto a quase todos os adultos do país.

PS. No título desse ensaio, o ‘verde’ e o ‘azul’ são metáforas do movimento ambientalista e do conservadorismo.

Título Original: The Green and the Blue
Republicado da revista Spectator, Abril 2012
(http://www.spectator.co.uk)
Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien
© Dr. Roger Scruton
Cortesia de: RS e Spectator.

Como citar este artigo:
Scruton, R. O verde e o azul. PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Roger Scruton

Para tener éxito, la conservación necesita una vez más hacerse conservadora. RS

Desde hace tanto como puedo recordar la palabra ´conservador´ se ha utilizado en los círculos intelectuales como un sinónimo de abuso, y el calificar a alguien como del ´ala-derecha´ ha supuesto lo más cercano al ostracismo social. Este hábito ha persistido durante los 50 años en los que el partido conservador ha tenido la mayoría absoluta de votos. Pero este hábito no es nuevo. Tiene su origen dos siglos atrás, cuando la Revolución Francesa provocó que los intelectuales británicos pensaran que ellos también podrían tener la oportunidad de cortar las cabezas que contenían menos cerebro que las suyas. Cuando era primer ministro liberal, John Stuart Mill se dirigió a la mayoría intelectual denunciando a los tories como ´el partido más estúpido´. Un intelectual que enfatiza sus credenciales izquierdistas tiene ventajas en su carrera que compensan cualquier tipo de oscuridad, confusión o mendacidad en lo que escribe.

Aun así, cuando el ambiente llegó a la cúspide de la agenda política, me permití a mi mismo la esperanza de un posible respiro. Si la clase intelectual habla de conservación, administración y obligaciones hacia generaciones futuras, no podría pasar mucho tiempo, sentí, antes de que sus miembros vieran el punto de vista de los razonamientos de Burke de que la sociedad no es solo un contrato entre los vivos sino un lazo entre los muertos, los vivos y los que están por nacer. Seguramente se permitirían a sí mismos reconocer el efecto del socialismo en los ambientes naturales de Rusia, Europa del Este y China y de la inmigración incontrolada en los ambientes urbanos del Reino Unido y de Francia. Podría ser incluso que empezaran a reconocer el trabajo del romántico tory John Ruskin y sus muchos discípulos que consideraban esta historia sin reconocer que en cada punto se había producido una batalla entre la sociedad civil y el estado, con las ´pequeñas secciones´ de voluntarios hogareños en el lado conservador y la gran máquina procedente de otros lugares, a menudo programada con un software socialista, desarmando nuestros acuerdos y nuestro hábitat por el bien de objetivos que ¿nadie entiende y poca gente quiere?.

Bien, esto no ocurrió. La agenda medioambiental fue confiscada por los radicales, enredada con las viejas quejas socialistas y transformada en una insignia para los miembros del ala izquierda. Los antiguos objetivos – iniciativa privada, grandes negocios, valores de la clase media, mercados y capitalismo- se convirtieron, no solo en la causa de ´desigualdad, injusticia social y pobreza´ sino también en el origen de la destrucción del medio ambiente y la violación de la tierra. El ataque a los grandes negocios fue dirigido en representación del estado, sin la concienciación de que el estado es el mayor de los negocios. Los mercados y la iniciativa privada fueron difamados como la causa de la ´tragedia de los comunes´ por gente que parecía no darse cuenta de que cuando la tragedia de los comunes se había evitado había sido por la viable distribución de los derechos de la propiedad y por la aparición de los mercados –tal como estudió Elinor Ostrom en su investigación ganadora de un premio Nobel. Y toda la agenda se vio envuelta en el pánico hacia el calentamiento global que se utilizó para desviar la atención de la gente lejos de los sucesos locales y para prepararla a una entrega colectiva a las soluciones dictadas desde arriba por los bien intencionados izquierdistas.

Cuando escribí la Filosofía Verde, no esperaba que los radicales me tomaran en serio. Pero me di cuenta de que una nueva connotación de realismo estaba entrando en el debate y que podía ser el momento oportuno para determinar el punto crucial, que las soluciones globales, administradas en nuestro nombre por los burócratas, han sido la causa de la mayor parte de nuestros problemas medioambientales más serios. Por mencionar algunos ejemplos: la destrucción de la industria pesquera europea ha sido impuesta por la Política Común de la Industria de la Pesca de la UE; la destrucción del hábitat para construir autopistas a través de Europa ha sido el resultado de la confiscación de derechos de propiedad, que han dejado de lado los procedimientos democráticos y han destrozado el medio que se ha interpuesto en el camino. Subsidios gubernamentales ocultos han permitido que los supermercados destruyan los centros urbanos así como viables emplazamientos a lo largo de Europa y América, mientras que leyes impuestas por los clasificados como honrados guardianes han asegurado que nuestros alimentos vengan envueltos en plástico y que todo el mundo se encuentre atragantado con los desperdicios no degradables.

¿Cuál es la alternativa? Debemos sumar los motivos que han conducido a que la gente conserve sus recursos medioambientales en vez de desaprovecharlos. La tierra ha sido mantenida adecuadamente por las comunidades que están en casa y contentas de estar en ella. Se ha beneficiado del amor a la belleza, el sentido de lo sagrado y la revulsión a proyectos presuntuosos de nómadas y ausentes. Por encima de todo, cuando la gente se ha visto motivada de esta manera, se ha recibido más ayuda por parte de la sociedad civil que del gobierno central. Los problemas medioambientales han sido resueltos en nuestro país más por la gente común y corriente que por el estado ya que el derecho consuetudinario es la voz de la gente y no la voz de los grupos de presión. (Así fue como los pescadores rescataron los ríos y los Ruskinianos rescataron los bosques alrededor de Londres). Asociaciones civiles como el Women´s Institute y el National Trust han reclutado la energía y la buena intención de sus miembros mientras que ONGs como Greenpeace y Friends of the Earth únicamente han aparecido en conferencias.

Por supuesto, los radicales descartarán como irrelevante mi defensa de lo que yo llamo ´oikofilia´ (el amor por el hogar). El cambio climático, insistirán, está por encima de cualquier otro problema y, únicamente ellos, basados en su duramente ganada experiencia, son capaces de resolver el problema. Y lo resolverán dictando un tratado, que los gobiernos del mundo, influidos por sus impecables argumentos, terminarán firmando en un acto de capitulación final.

Este tipo de expresión de deseos es de hecho el más peligroso de nuestros problemas medioambientales ya que conduce a una especie de parálisis que evita que tanto el gobierno como los ciudadanos se dirijan a los asuntos que podrían atenderse de manera coherente. Cualquiera que sea la verdad sobre el antropogénico calentamiento global, no se puede dar marcha atrás con un tratado. Los mayores contaminadores incluyen a China que no tiene la intención de adherirse a ningún tratado contra los intereses de su clase dirigente. Y la economía mundial gira en torno al petróleo. La única manera de reducir las emisiones de anhídrido carbónico sería descubrir un tipo de energía que fuera a la vez limpia y barata y se pusiera a disponibilidad de todo el planeta. Energía limpia significa energía realmente limpia sin la necesidad de un respaldo sucio. Gracias al activismo verde el paisaje alemán se ha visto destruido en buena parte con parques eólicos capaces de producir tan poca energía cuando se necesita que la red de suministro alemana necesita estar permanentemente conectada a la francesa la cual funciona con estaciones de energía nuclear que los virtuosos verdes alemanes no son capaces de aceptar. Esta ´solución´ no solo es pura fantasía; asume que se pueden afear las casas de la gente con cualquier tipo de estructura monstruosa y todavía confiar en que deseen cuidarla.

¿Qué deberían hacer los gobiernos? ¿Y que debería hacer nuestro gobierno? Las respuestas están claras. Los gobiernos deben facilitar la investigación sobre energía limpia, mirar con escepticismo las soluciones generales, reconocer el peligro de las fantasías y las expresiones de deseo y negar el subsidio a los vándalos. Y nuestro gobierno debería ignorar a los grupos de presión, ser realista con la tradición conservadora y escuchar la voz del sentido común.
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Dr. Roger Scruton es un filósofo, profesor de filosofía , editor, intelectual público y compositor británico de 68 años de edad conocido por su iconoclasia y su obstinada defensa de la civilizacion occidental. Es autor de innumerables artículos y ensayos y de más de treinta libros. Su libro más reciente se titula Green Philosophy: How to Think Seriously About the Planet (La Filosofía Verde: Cómo pensar seriamente sobre el Planeta, inédito en español), publicado en Enero de 2012 por Atlantic Books.

Notas:
1. Tories. Designación de los seguidores del Partido Tory de Gran Bretaña que en los siglos dieciocho y diecinueve se oponía al Partido Whig y a su sucedáneo, el Partido Liberal, surgido en 1859. La connotación de conservador y liberal ya existía en el siglo dieciocho asociada a los tories y a los whigs, los primeros por acatar firmemente el poder de la realeza y su sistema de hereditarismo, y los segundos por defender las limitaciones del poder de la realeza y el aumento de poder del parlamento (por lo que los whigs defendieron la ´exclusión´ del rey James II y de su hijo y sucesor por el hecho de ser católicos dando origen a la Revolución Gloriosa). Entre 1865 y 1868 el Partido Liberal se empezó a distanciar de la doctrina de la clásica economía liberal, lo que hizo que varios afiliados se pasaran al Partido Conservador mientras que algunos miembros del Partido Conservador se pasaron al nuevo Partido Liberal (Ver abajo el punto 4 sobre los Partidos Políticos del Reino Unido de la Gran Bretaña).
2. Burke. Referencia a Edmund Burke (1730-97), irlandés nacido en Dublín que se hizo miembro del Parlamento Británico y destacó como intelectual conservador dejando una extensa obra de filosofía política.
3. Tragedia de los Comunes. Traducción de la expresión inglesa ‘tragedy of the commons’, que hace referencia a la degradación de los ´comunes´, designación de los terrenos rurales de Gran Bretaña que no eran propiedad de nadie y que no tenían ningún arreglo institucional para su aprovechamiento y eran utilizados por los campesinos locales para el pastoreo de sus animales. El tema fue discutido en un artículo del ecologista Garrett Hardin publicado en 1968 por la prestigiosa revista Science, donde Hardin atribuye la destrucción de los comunes a la excesiva presión del pasto como consecuencia del crecimiento de la población. Otra interpretación del asunto apunta a la inviabilidad de cualquier manejo sin la existencia de un propietario ya que lo que es de todos acaba no siendo de nadie.
4. Partidos Políticos del Reino Unido de la Gran Bretaña (GB) y del Sufragio Universal. Hay actualmente tres partidos: el Conservador, el Laborista y el Liberal Demócrata. El partido Conservador surgió en 1834 a partir del partido Tory, que cambió su denominación a Partido Conservador y Unionista en 1912 aunque conocido únicamente como Partido Conservador. El Partido Laborista fue creado en 1900 por un grupo de socialistas y sindicalistas y llegó por primera vez al poder en 1924. El Partido Liberal Demócrata fue fundado en 1988 a partir de la unión del decadente Partido Liberal y del Partido Social Demócrata que había sido creado en 1981 por los disidentes del Partido Liberal. El Sufragio Universal de Gran Bretaña tiene su base en 1918 con la Ley de Representación del Pueblo (Representation of the People Act) que extendió el derecho al voto a todos los adultos del país.


Título Original: The green and the blue
Re-impresión de: spectator.co.uk, 9 April 2012
(http://www.spectator.co.uk)

© Dr. Roger Scruton
Cortesía de: RS y Spectator.

Traductora: Monica Racero-Baena

Como citar éste artículo:
Scruton, R. El verde y el azul. PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Francis Fukuyama

La ola democrática
Karl Marx mantenía que basta la simple existencia de fuerzas y condiciones sociales para determinar ideologías. Sin embargo, para que las ideas adquieran masa crítica es necesario que hagan referencia a las preocupaciones de la gran mayoría de la población. En la actualidad, la democracia liberal es la ideología predeterminada en la mayor parte del mundo, gracias en parte a la existencia de determinadas estructuras socioeconómicas que la favorecen y a las que esta responde. Cambios en dichas estructuras podrían tener consecuencias ideológicas, de la misma manera que cambios ideológicos pueden tener consecuencias socioeconómicas.

Casi todas las ideas de envergadura que han modelado las sociedades humanas hasta los últimos 300 años eran de naturaleza religiosa, con la notable excepción del confucionismo en China. La primera ideología secular relevante en ejercer un efecto global duradero fue el liberalismo, una doctrina asociada al auge de las clases medias, en primer lugar de carácter comercial y, posteriormente, industrial, en ciertas partes de Europa en el siglo XVII. Por clases medias nos referimos a aquellas personas que no están ni en la parte superior ni inferior de sus sociedades en lo que respecta a ingresos, con estudios secundarios como mínimo, y que poseen bienes inmuebles, propiedades duraderas o sus propios negocios.

Como indicaron pensadores clásicos como Locke, Montesquieu y Mill, el liberalismo sostiene que la legitimidad de la autoridad del estado deriva de la capacidad de este de proteger los derechos individuales de sus ciudadanos, y que el poder del estado debe estar limitado por su sometimiento a las leyes. Uno de los derechos fundamentales a proteger es el derecho a la propiedad privada: la Revolución Gloriosa de Inglaterra de 1688 – 1689 fue crítica con el desarrollo del liberalismo moderno, ya que, por primera vez, estableció el principio constitucional de que el estado no puede, legalmente, imponer impuestos a sus ciudadanos sin su consentimiento.

Al principio, el liberalismo no necesariamente implicaba una adhesión a los principios democráticos. Los whigs que apoyaban los acuerdos constitucionales de 1689 acostumbraban a ser los terratenientes más acaudalados de Inglaterra. El parlamento de ese período representaba menos del 10% de la población. Muchos liberales clásicos, como Mill, eran muy escépticos acerca de las virtudes de la democracia: creían que para ejercer una participación política responsable eran necesarias una educación y un interés, es decir, propiedad, en la sociedad. Hasta el final del siglo XIX, el voto estaba limitado por requisitos educativos y de propiedad en prácticamente toda Europa. La elección de Andrew Jackson como presidente de EE UU en 1828 y su abolición de los requisitos de propiedad para el derecho al voto de, al menos, los barones de raza blanca, fue una temprana e importante victoria para la consecución de unos principios democráticos de mayor solidez.

En Europa, la exclusión de la gran mayoría de la población del poder político y el auge de una clase trabajadora industrial facilitaron la emergencia del marxismo. El año 1848 se publicó el Manifiesto comunista, y ese mismo año una ola revolucionaria inundó los países europeos de mayor relevancia, con la excepción del Reino Unido. A partir de entonces, se inició un siglo de competición por el liderazgo del movimiento democrático entre comunistas (dispuestos a omitir el procedimiento democrático – elecciones multipartidistas – en favor de lo que creían era el principio fundamental, la redistribución económica) y los demócratas-liberales, que propugnaban una mayor participación política y el imperio de la ley para la protección de los derechos individuales, como el derecho a la propiedad privada.

La lealtad de la nueva clase trabajadora industrial estaba en juego. Los primeros marxistas creían que podrían ganar mediante su superioridad numérica: a partir de la ampliación del derecho a voto en el siglo XIX, organizaciones como el partido laborista del Reino Unido y el partido socialdemócrata alemán ganaron prominencia a costa de poner en entredicho la hegemonía de conservadores y liberales tradicionales. El auge de la clase trabajadora sufrió una resistencia muy considerable, frecuentemente mediante medios no democráticos. Los comunistas y los socialistas, consecutivamente, abandonaron la democracia formal para preconizar la toma directa del poder.

Durante la primera mitad del siglo XX hubo un consenso significativo en la izquierda progresista sobre la inevitabilidad, para los países desarrollados, de la conveniencia de un cierto socialismo: el control desde el gobierno de los ejes económicos necesarios para garantizar una distribución igualitaria de la riqueza. Un economista conservador como Joseph Schumpeter escribía, en 1942, en su obra titulada Capitalism, Socialism, and Democracy (Capitalismo, Socialismo y Democracia), que el socialismo acabaría por prevalecer ya que la sociedad capitalista, en términos culturales, es contraproducente. El socialismo, aparentemente, representaba los deseos e intereses de la gran mayoría de los habitantes de las sociedades modernas.

Aún así, mientras los grandes conflictos ideológicos del siglo XX se desarrollaban a nivel militar y político, se producían a nivel social cambios de grandísimo calado que ponían en entredicho el escenario dibujado por el marxismo. En primer lugar, se produjo una mejora constante del nivel de vida de las clases trabajadoras industriales, hasta el punto que un gran número de trabajadores y sus hijos pasaron a formar parte de las clases medias. En segundo lugar, el tamaño relativo de la clase obrera dejó de crecer y, de hecho, empezó a declinar, particularmente a partir de la segunda mitad del siglo XX, cuando el sector servicios empezó a sustituir a la industria en las llamadas economías postindustriales. Finalmente, un nuevo grupo sin recursos o desfavorecido emergió por debajo de la clase obrera industrial: una mezcla heterodoxa de minorías raciales y étnicas, inmigrantes recién llegados y grupos socialmente excluidos, como las mujeres, los homosexuales y los discapacitados. A partir de estos cambios, en la mayoría de las sociedades industriales la antigua clase obrera ha pasado a ser otro grupo de interés doméstico que usa el poder político de los sindicatos para proteger los derechos ganados gracias a las grandes luchas de épocas anteriores.

El término clase, en su aspecto económico, demostró no ser una buena pancarta bajo la cual movilizar políticamente a la población en países industriales avanzados. La Segunda internacional sufrió un despertar dramático en 1914, cuando las clases obreras de Europa abandonaron las llamadas a la lucha de clases y se alinearon con los líderes conservadores para emitir eslóganes nacionalistas, un patrón que perdura hasta nuestros días. Muchos marxistas intentaron encontrar explicaciones a este fenómeno, según el académico Ernest Gellner, mediante lo que llamaron la teoría de la “dirección incorrecta”:

Tal y como los musulmanes chiítas sostienen que el arcángel Gabriel cometió un error al realizar su llamada a Mahoma cuando en realidad el mensaje estaba destinado a Ali, a los marxistas les gusta pensar que el espíritu de la historia o la consciencia humana cometió un error terrible. El mensaje estaba destinado a las clases, pero por error se entregó a las naciones.

Gellner prosiguió su argumentación con el razonamiento de que la religión en Oriente Medio cumple una función similar a la del nacionalismo. Moviliza a las personas de manera efectiva porque tiene un contenido espiritual y emocional del que la conciencia de clase carece. Tal y como el nacionalismo europeo tuvo como motor el desplazamiento de los europeos del campo a la ciudad a finales del siglo XIX, el islamismo es una reacción a la urbanización y el desplazamiento que se lleva a cabo en las sociedades del Oriente Medio contemporáneo. Básicamente, la metafórica carta nunca se entregará a la dirección marcada “clase”.

Marx creyó que las clases medias, o la parte de estas con capital que él llamó la burguesía, siempre serían una minoría privilegiada en las sociedades modernas. Sin embargo, la burguesía y la clase media acabaron constituyendo la mayoría de la población en los países desarrollados, lo que puso en entredicho las teorías socialistas. Desde los días de Aristóteles, los pensadores han sostenido que las bases de una democracia estable son una clase media amplia, y que sociedades con capas afluentes y pobres extremas pueden sufrir los efectos de dominaciones oligárquicas o revoluciones populistas. La creación de sociedades basadas en las clases medias por parte del mundo desarrollado implicó el eclipse del marxismo. Los únicos lugares donde el radicalismo de izquierdas prevalece como una fuerza notable son áreas con grandes desigualdades como partes de Latinoamérica, Nepal y determinadas regiones orientales de la India.

Lo que el politólogo Samuel Huntington llamó la tercera ola de la democratización global, iniciada en el sur de Europa en los años 70 y que culminó con la caída del comunismo en Europa del Este en 1989, aumentó el número de democracias en el mundo de 45 en 1970 a más de 120 a finales de los 90. El crecimiento económico ha generado el crecimiento de nuevas clases medias en países como Brasil, India, Indonesia, Sudáfrica y Turquía. Como el economista Moisés Naím indicó, estas clases medias gozan de grandes niveles educativos, poseen bienes inmuebles y están tecnológicamente bien conectadas al mundo exterior. Tienen altos niveles de exigencia de sus gobiernos, y se movilizan con facilidad dado su gran acceso a la tecnología más avanzada. No debería sorprender a nadie que los principales instigadores de la Primavera Árabe sean ciudadanos de Túnez y Egipto cuyas expectativas laborales y su participación política se han visto frustradas, hasta la fecha, por las dictaduras bajo las que vivían.

Las clases medias no son democráticas por principio: como todo el mundo, son actores con sus propias prioridades que pretenden proteger sus intereses y su posición. En países como China y Tailandia, las clases medias se han sentido amenazadas por los requisitos redistributivos de los menos favorecidos y, por lo tanto, han apoyado gobiernos autoritarios que protegen sus intereses de clase. Además, las democracias no necesariamente cumplen las expectativas de sus clases medias, lo que puede generar su descontento.

La mejor de las malas opciones
Hoy en día, hay un consenso global general sobre la legitimidad, como mínimo en principio, de la democracia liberal. En palabras del economista Amartya Sen, “A pesar de que la democracia no se practica de manera universal, ni se acepta de manera uniforme, para la opinión mundial los métodos democráticos de gobierno han ganado un estado de aceptación general”. Generalmente, en países que han llegado a niveles de prosperidad material suficiente se acepta que una mayoría de sus ciudadanos se considere clase media: esta es la razón por la que acostumbra a haber una correlación entre altos niveles de desarrollo y democracias estables.

Algunas sociedades como las de Irán y Arabia Saudita rechazan la democracia liberal en pro de una forma de teocracia islámica. Sin embargo, estos regimenes no tienen ninguna posibilidad de desarrollo, y solo sobreviven mediante sus vastos recursos petrolíferos. En el pasado se podía considerar que existía una gran excepción árabe a la tercera ola democratizadora, pero la Primavera Árabe ha probado que las sociedades árabes se pueden movilizar contra las dictaduras de la misma manera que las poblaciones de Europa del Este y Latinoamérica. Por supuesto, esto no implica que la vía para conseguir democracias funcionales en Túnez, Egipto o Libia sea fácil o sencilla, pero sugiere que el deseo de libertad y participación política no es una peculiaridad de europeos y americanos.

La amenaza principal para la democracia liberal hoy proviene de China, que combina un gobierno autoritario y, parcialmente, una economía de mercado. China es la heredera de una larga y orgullosa tradición de gobiernos burocráticos de gran calidad, de más de dos milenios de antigüedad. Sus líderes han gestionado una transición de gran complejidad de una economía centralizada y de planificación de estilo soviético, a una economía dinámica y abierta, y lo han hecho de una manera muy competente: para ser honestos, mucho más competente que la gestión de la política económica llevada a cabo por los líderes de EE UU recientemente. Muchos admiran actualmente el sistema Chino no solo por su rendimiento económico sino porque también puede llevar a cabo decisiones complejas y de gran envergadura con una gran rapidez, sobretodo en comparación con la parálisis política que ha asolado tanto a EE UU como a Europa en los últimos años. Especialmente a partir de la reciente crisis financiera, los chinos han empezado a promover su modelo como alternativa a la democracia liberal.

Es poco probable que este modelo llegue a ser una alternativa seria a las democracias liberales fuera del ámbito asiático. En primer lugar, el modelo está determinado por una especificidad cultural: el gobierno chino se constituye a partir de una larga tradición de incorporaciones meritocráticas, pruebas de acceso del funcionariado y un gran énfasis en la educación, además de la deferencia a la autoridad tecnocrática. Pocos países en vías de desarrollo pueden emular este modelo: aquellos que lo han intentado, como Singapur y Corea del Sur (como mínimo en períodos anteriores) ya estaban en la órbita cultural china. Incluso los chinos son escépticos acerca de si su modelo puede ser exportado; el llamado consenso pequinés es una invención occidental y no china.

Tampoco es claro si el modelo es sostenible. Ni el crecimiento basado en exportaciones, ni la toma de decisiones dirigida desde la cúspide del poder, continuarán generando resultados excepcionales de manera eterna. El hecho de que el gobierno chino no permitiera una discusión abierta sobre el desastroso accidente ferroviario de alta velocidad del pasado verano, y que no pudiera exigir responsabilidades al Ministerio de transportes, sugiere la presencia de riesgos ocultos bajo la máscara de una eficiente toma de decisiones.

Finalmente, China tiene una gran vulnerabilidad moral. El gobierno chino no impone a sus oficiales el respeto a la dignidad básica de sus ciudadanos. Cada semana se producen nuevas protestas sobre la confiscación de tierras, delitos contra el medioambiente o corrupción funcionarial. Mientras el país crece rápidamente, estos abusos pueden ignorarse. Sin embargo, este crecimiento no continuará eternamente, y el gobierno deberá pagar el precio de esta rabia contenida. El régimen ya no tiene ningún ideal bajo el que organizarse: lo gobierna un Partido Comunista supuestamente comprometido con la igualdad y que preside sobre una sociedad marcada por unas desigualdades enormes y crecientes.

Por lo tanto, la estabilidad del sistema chino no puede darse por garantizada. El gobierno chino sugiere que sus ciudadanos son culturalmente distintos y siempre preferirán una dictadura benevolente y que promueva el crecimiento económico a una democracia caótica que amenace la estabilidad social. Por otro lado, es poco probable que una clase media creciente se comportara en China de una manera distinta a la de otras clases medias en otras partes del mundo. Otros regimenes autoritarios pueden estar intentando emular el éxito de China, pero hay las probabilidades de que en 50 años el mundo se parezca a la China de hoy en día son escasas.

El futuro de la democracia
Hay una correlación notable entre crecimiento económico, cambios sociales y la hegemonía de la ideología democrática liberal en el mundo actual. Por el momento, no hay ninguna ideología que realmente pueda ponerla en cuestión. Sin embargo, hay determinadas tendencias sociales y económicas problemáticas que, si continúan, podrían amenazar la estabilidad de las democracias liberales contemporáneas y destronar a la ideología democrática como se entiende hoy en día.

El sociólogo Barrington Moore una vez aseveró, “Sin burguesía no hay democracia”. Los marxistas no consiguieron realizar su utopía comunista porque el capitalismo maduro generó sociedades de clase media en vez de sociedades de clase obrera. Sin embargo, cabe preguntarse qué pasaría si la mejora de la tecnología y la globalización debilitara a la clase media e hiciera que más de una minoría de los ciudadanos de una sociedad avanzada adquiriera el estado de clase media.

Hay un gran número de señales que indican que esta fase de desarrollo ha empezado. Los ingresos medios en EE UU se han estancado en términos reales desde los años 70. El impacto económico de este estancamiento ha sido atenuado por el hecho de que la mayoría de hogares estadounidenses han pasado a tener dos proveedores de ingresos durante la generación más reciente. Además, como el economista Raghuram Rajan ha indicado de manera muy incisiva, como los estadounidenses no parecen desear llevar una redistribución directa de los recursos, durante la última generación se ha iniciado una forma de redistribución muy peligrosa e ineficiente caracterizada por la subvención de hipotecas para los hogares con menores ingresos. Esta tendencia, facilitada por la liquidez proporcionada por China y otros países, puede dar a la mayoría de norteamericanos la impresión de que su nivel de vida ha estado mejorando progresivamente durante la última década. En este respecto, la explosión de la burbuja inmobiliaria en 2008 y 2009 no fue nada más que un cruel retorno a los niveles medios. Actualmente, los norteamericanos pueden disfrutar de teléfonos móviles económicos, ropa barata y Facebook, pero no pueden sufragar sus propios hogares, el seguro médico o las pensiones de jubilación.

Un fenómeno más problemático identificado por el inversionista de capital de riesgo Peter Thiel y el economista Tyler Cowen, es que las ventajas proporcionadas por las olas de innovaciones tecnológicas más recientes han recaído desproporcionadamente en los miembros con más talento y mejor educación de la sociedad. Este fenómeno contribuyó al enorme crecimiento de las desigualdades en EE UU durante la generación pasada. En 1974, el 1% de la población con más recursos obtenía el 9% del PIB. En 2007, este índice había aumentado hasta el 23,5%.

Las políticas comerciales y fiscales han acelerado esta tendencia, pero el autentico culpable es la tecnología. En fases más tempranas de la industrialización, como la época de los tejidos, el carbón, el acero y el motor de combustión interna, las ventajas de los cambios tecnológicos siempre se transfirieron de manera significativa al resto de la sociedad en términos de empleo. Pero esta característica no es una ley de la naturaleza. Hoy vivimos en lo que la académica Shoshana Zuboff ha llamado “la edad de la máquina inteligente”, en la que la tecnología es, cada vez más, capaz de sustituir un número mayor de funciones humanas progresivamente más avanzadas. Cada avance de Silicon Valley es probable que implique una pérdida de empleos de poca calificación en la cadena económica, una tendencia que no parece que vaya a acabar en un futuro próximo.

La desigualdad siempre ha existido, como resultado de las diferencias naturales en talento y carácter. Sin embargo, el mundo tecnológico de hoy en día magnifica estas diferencias. En sociedades agrarias del siglo XIX, aquellos con grandes habilidades matemáticas no tuvieron muchas oportunidades de sacar partido a su talento. Hoy en día, pueden convertirse en ingenieros informáticos o magos de las financias y obtener una proporción de la riqueza nacional cada vez mayor.

Otro factor que socava los ingresos de las clases medias en países desarrollados es la globalización. Con la reducción de los costes de transporte y comunicación, y la entrada en el mercado laboral global de cientos de millones de nuevos trabajadores de países en vías desarrollados, los trabajos que acostumbraban a ser realizados por las clases medias de los países desarrollados pueden ahora llevarse a cabo de una manera más económica en otros lugares. Bajo un modelo económico que da prioridad a la optimización total de los ingresos, la externalización de los trabajos es inevitable.

Los daños potenciales de este fenómeno han sido contenidos mediante ingeniosas políticas e ideas. Alemania ha conseguido proteger una parte significativa de su base y mano de obra industrial, y sus empresas han conseguido seguir competitivas a nivel global. EE UU y Reino Unido, por otro lado, se han incorporado con presteza a la transición a una economía de servicios postindustrial. El libre comercio ha pasado a ser un ideología, más que una teoría. Cuando el Congreso estadounidense intentó implementar sanciones comerciales contra China por la subvaloración de su moneda, fue acusado de proteccionismo, como si las reglas de juego fueran ya iguales para todos. Se habló mucho de las maravillas de la economía del conocimiento, y de cómo los trabajos industriales sucios y peligrosos serían inevitablemente reemplazados por empleos para trabajadores muy capacitados que llevarán a cabo tareas creativas e interesantes. La verdad es que la realidad de la desindustrialización se cubrió con un tupido velo. Se ignoró el hecho de que las ventajas del nuevo orden se acumulan en un pequeño número de personas en sectores financieros y de alta tecnología, unos intereses que dominaban los medios de comunicación y las tendencias políticas generales.

La izquierda ausente
Una de las características más sorprendentes del mundo posterior a la crisis financiera es que, por ahora, el populismo ha adquirido una forma principalmente de derechas, y no de izquierdas.
En EE UU, por ejemplo, los miembros del Tea Party, un partido de retórica antielitista, votan políticos conservadores que sirven los intereses de los empresarios y las élites corporativas que dicen rechazar. Hay muchas explicaciones para este fenómeno. Estas incluyen una creencia muy profunda en la igualdad de oportunidades y no en una imprescindible igualdad de resultados, y el hecho de que problemas culturales, como el aborto y el derecho a poseer armas, prevalecen sobre los económicos.

Pero la razón más profunda por la que un apoyo general y popular a la izquierda no se ha materializado es intelectual. Han pasado varias décadas desde que desde las izquierdas se ha sido capaz de articular, en primer lugar, un análisis coherente de lo que pasa a las estructuras de las sociedades avanzadas mientras experimentan cambios económicos y, en segundo lugar, una planificación realista para proteger una sociedad de clase media.

Las tendencias principales del pensamiento de la izquierda en las últimas dos generaciones han sido realmente desastrosas ya sea como marco conceptual o como herramienta de movilización. El marxismo murió hace muchos años: los últimos creyentes en las teorías marxistas están en el ocaso de sus días. La izquierda académica reemplazó el marxismo con postmodernismo, multiculturalismo, feminismo, teoría crítica y muchísimas otras tendencias intelectuales con mayor contenido cultural que económico. El postmodernismo empieza con un rechazo a la posibilidad de una narrativa principal de la historia o la sociedad, lo que debilita su propia autoridad como altavoz de la mayoría de ciudadanos que se sienten traicionados por sus élites. El multiculturalismo valida la victimización de prácticamente todos los grupos minoritarios. Es imposible generar un movimiento progresivo en masa en base a una coalición tan heterogénea. La mayoría de los ciudadanos de clase media-baja y obrera tratados injustamente por el sistema son culturalmente conservadores y se sentirían avergonzados de verse acompañados por este tipo de aliados.

Cualquiera que sea la justificación teórica subyacente en las proposiciones de la izquierda, su mayor problema es la falta de credibilidad. En las últimas dos generaciones, la izquierda generalista ha seguido un programa democrático y social que pone el énfasis en la facilitación por parte del estado de una gran variedad de servicios, como las pensiones, los sistemas sanitarios y la educación. Ese modelo está exhausto: el estado del bienestar ha ganado tamaño, burocracia y falta de flexibilidad. Suele estar secuestrado por aquellas organizaciones que deben administrarlo, como los sindicatos. Finalmente, son económicamente insostenibles, dado el envejecimiento de las poblaciones de prácticamente todos los países del mundo desarrollado. Por lo tanto, cuando los partidos socialdemócratas llegan al poder, ya no aspiran a ser los guardianes del estado del bienestar que se creó hace décadas, y ninguno de ellos propone nuevas estrategias para unir a las masas.

Una ideología del futuro
Imagine por un momento que hay, en algún lugar, un escritor desconocido en una buhardilla diseñando una ideología del futuro que pudiera proporcionar una ruta realista a un mundo con sociedades de clase media afluentes y democracias sólidas. ¿Cómo sería esa ideología?

Precisaría, como mínimo, de un componente político y un componente económico. Políticamente, la nueva ideología necesitaría reafirmar la supremacía de las políticas democráticas sobre la economía, y legitimar de nuevo el gobierno como una expresión del interés público. Pero los planes que debería proponer para proteger los estándares de las clases medias no podría simplemente basarse en los mecanismos existentes del estado del bienestar. La ideología necesitaría rediseñar, de alguna manera, el sector público, liberándolo de su dependencia de aquellos relacionados con el mismo y usando nuevas estrategias, basadas en los avances tecnológicos, para proporcionar los servicios. Debería proponer de manera directa una mayor redistribución y presentar una ruta realista para acabar con el dominio de la política por parte de los grupos de interés.

Económicamente, la ideología no podría empezar con la denuncia del capitalismo, como si el socialismo fuera todavía una alternativa viable. La cuestión es más qué variedad de capitalismo se debe seguir, y el grado en que los gobiernos deben ayudar a las sociedades a ajustarse al cambio. La globalización no debe ser vista como un hecho inevitable de la vida, sino como una oportunidad que debe ser controlada de manera política cuidadosamente. La nueva ideología no debería ver a los mercados como un fin en sí mismos, sino que debería valorar el comercio y las inversiones a nivel global en la medida que contribuyen al crecimiento de la clase media, no solo a la acumulación nacional de riqueza.

No es posible llegar a ese punto, sin embargo, sin proporcionar una crítica seria y continua a la mayor parte de las teorías neoclásicas modernas, empezando por asunciones fundamentales como la preponderancia de las preferencias individuales y la teoría de que los ingresos totales de un país son una mediada adecuada de su riqueza. Esta crítica debería indicar que los ingresos de las personas no representan necesariamente su contribución a la sociedad. Debería ir más allá, sin embargo, y reconocer que incluso si los mercados laborales fueran eficientes, la distribución natural del talento no es necesariamente justa, y que las personas no son entidades plenamente independientes sino seres moldeados por las sociedades en su entorno.

La mayoría de estas ideas ya se han estado anunciando de manera parcial durante los últimos tiempos. El escritor debería ponerlas en orden y construir un relato coherente. Igualmente, debería evitar el problema de la dirección incorrecta indicado anteriormente. La crítica a la globalización debería vincularse al nacionalismo como una estrategia para la movilización que definiera el interés nacional más sofisticadamente que, por ejemplo, las campañas Buy American (Compre productos estadounidenses) de los sindicatos en EE UU. El producto sería una síntesis de ideas de derechas e izquierdas, independiente de las estrategias de los grupos marginales que forman los movimientos progresivos existentes. La ideología sería populista, el mensaje empezaría con una crítica a las élites que permitieron que el bien de muchos se sacrificara por el de unos pocos, y una crítica a las políticas del capital, especialmente de Washington, que benefician sobremanera a los más pudientes.

Los peligros intrínsecos en un movimiento de estas características son obvios: un rechazo por parte de EE UU de su defensa de una abertura progresiva del sistema a escala global podría provocar respuestas proteccionistas en otros lugares del planeta. En muchos sentidos, la revolución de Reagan y Thatcher tuvo el éxito que muchos de sus defensores deseaban, lo que generó un mundo más competitivo, globalizado y carente de fricciones. Además, generó niveles de riqueza enormes y creó un aumento de las clases medias en el mundo desarrollado, a la vez que propagó la democracia. Es posible que el mundo desarrollado esté en la cúspide de una serie de avances tecnológicos que no solo incrementarán su productividad, sino que también proporcionarán empleo de manera significativa a un gran número de ciudadanos de clase media.

Sin embargo, este escenario es más una cuestión de fe que un reflejo de la realidad empírica de los últimos 30 años, que más bien indica lo contrario. De hecho, hay un gran número de razones para pensar que las desigualdades seguirán creciendo. La concentración de riqueza actual en EE UU se reafirma a sí misma: como el economista Simon Johnson ha indicado, el sector financiera ha usado su influencia en grupos de presión para evitar formas de regulación más acentuadas. Las escuelas de las personas con recursos son mejores que nunca, mientras que las otras continúan deteriorándose. Las élites de todas las sociedades usan su mayor acceso al sistema político para proteger sus intereses, aprovechándose de la ausencia de una movilización democrática que ejerciera de contrapeso para rectificar la situación. Las élites americanas no son la excepción que confirma la regla.

Dicha movilización no se producirá mientras las clases medias del mundo desarrollado se mantengan cautivas de la narrativa de la generación anterior: que la manera de preservar mejor sus intereses consiste en la existencia de mercados cada vez más libres y estados cada vez más pequeños. La alternativa está a punto, a la espera de ser escrita.


Dr. FRANCIS FUKUYAMA es un miembro senior del Center on Democracy, Development, and the Rule of Law (Centro de desarrollo democrático y del imperio de la ley) de la Universidad de Stanford. Su obra más reciente es The Origins of Political Order: From Prehuman Times to the French Revolution (Los orígenes del orden político, desde la prehistoria a la Revolución francesa).

Título original: The Future of History. Can Liberal Democracy Survive the Decline of the Middle Class?
Fuente: http://www.foreignaffairs.com/articles/136782/francis-fukuyama/the-future-of-history

© Dr. Francis Fukuyama
Traductor: Jo Serra
Por cortesía de: Dr. Francis Fukuyama y Foreign Affairs, Enero/Febrero 2012. Copyright © 2002-2011, The Council on Foreign Relations, Inc.

Cómo citar este artículo:
Fukuyama, F. El futuro de la Historia. ¿Puede sobrevivir la democracia liberal al declive de la clase media? PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Francis Fukuyama

A onda democrática
As forças e as condições sociais não “determinam” simplesmente as ideologias, como Karl Marx afirmou uma vez, pois as ideias não se tornam poderosas a menos que toquem nas preocupações de um grande número de pessoas comuns. A democracia liberal é a ideologia default na maior parte do mundo de hoje em parte porque responde e é facilitada por certas estruturas socioeconômicas. Mudanças nessas estruturas podem ter consequências ideológicas, da mesma forma que as mudanças ideológicas podem ter consequências socioeconômicas.

Quase todas as ideias poderosas que forjaram as sociedades humanas até os últimos trezentos anos eram de natureza religiosa, com a importante exceção do Confucionismo na China. A primeira grande ideologia secular a ter um efeito duradouro em todo o mundo foi o liberalismo, uma doutrina associada com a ascensão de uma classe média primeiramente comercial e depois industrial, em certas partes da Europa do século dezessete. Por “classe média,” eu quero dizer pessoas que não estejam nem no topo e nem na parte inferior de suas sociedades em termos de renda, que receberam pelo menos a educação secundária, e que possuem bens imóveis ou bens de longa duração, ou seus próprios negócios.

Conforme enunciado pelos pensadores clássicos como Locke, Montesquieu, e Mill, o liberalismo assevera que a legitimidade da autoridade do estado deriva da capacidade do estado de proteger os direitos individuais de seus cidadãos e que o poder estatal precisa ser limitado pela aderência à lei. Um dos direitos fundamentais a ser protegidos é o da propriedade privada; A Revolução Gloriosa da Inglaterra de 1688–89 foi decisiva para o desenvolvimento do liberalismo moderno, pois foi a primeira a estabelecer o princípio constitucional de que o estado não pode taxar legitimamente os seus cidadãos sem o consentimento destes.

De início, o liberalismo não implicava necessariamente a democracia. Os Whigs que apoiaram o acordo constitucional de 1689 tendiam a serem os proprietários mais ricos da Inglaterra; o parlamento daquela época representava menos que dez por cento de toda a população. Muitos liberais clássicos, incluindo Mill, eram céticos sobre as virtudes da democracia: eles acreditavam que a participação política responsável requeria educação e alguma cota na sociedade – isto é, ser proprietário de bens. Até o final do século dezenove, o direito de cidadania era dependente de requisitos proprietários e educacionais em virtualmente todas as partes da Europa. Assim sendo, a eleição de Andrew Jackson a presidente dos Estados Unidos em 1828 e sua subsequente abolição do requisito proprietário para votar, pelo menos para homens brancos, marcou uma primeira importante vitória direcionada a um princípio democrático mais robusto.

Na Europa, a exclusão da vasta maioria da população do poder político e a ascensão de uma classe industrial de trabalhadores pavimentou o caminho do Marxismo. O Manifesto Comunista foi publicado em 1848, o mesmo ano em que revoluções se espalharam por todos os principais países da Europa com exceção do Reino Unido. E assim começou um século de competição pela liderança do movimento democrático entre comunistas, que estavam dispostos a deitar fora a democracia já estabelecida (de eleições multipartidárias) a favor daquilo que acreditavam ser a democracia concreta (de redistribuição econômica), e os liberais democratas, que acreditavam na expansão da participação política enquanto defendiam um estado de direito capaz de proteger os direitos individuais, incluindo os direitos proprietários.

O que estava em jogo era a aliança à nova classe dos trabalhadores industriais. Os primeiros Marxistas acreditavam que iriam vencer simplesmente pela força dos números: à medida que a cidadania era expandida no final do século dezenove, partidos tais como o Trabalhista do Reino Unido e o Social-Democrata da Alemanha cresceram em grandes saltos e ameaçaram a hegemonia tanto dos conservadores quanto dos liberais tradicionais. A ascensão da classe trabalhadora foi agressivamente rechaçada, frequentemente por métodos não democráticos; os comunistas e muitos socialistas, por sua vez, abandonaram a democracia formal a favor da tomada direta do poder.

Durante a primeira metade do século vinte, havia um forte consenso na esquerda progressiva de que alguma forma de socialismo – o controle governamental no comando das rédeas da economia voltado a assegurar uma distribuição igualitária da riqueza – era inevitável em todos os países adiantados. Até um economista conservador como Joseph Schumpeter escreveria no seu livro Capitalismo, Socialismo, e Democracia, publicada em 1942, que o socialismo emergiria vitorioso, pois a sociedade capitalista era culturalmente autodestrutiva. A crença era que o socialismo representava o desejo e os interesses da vasta maioria das pessoas das sociedades modernas.

Mesmo assim, enquanto os grandes conflitos ideológicos do século vinte se desenrolavam nos planos político e militar, mudanças decisivas que estavam acontecendo no plano social solapavam o cenário Marxista. Em primeiro lugar, o padrão de vida real da classe trabalhadora industrial continuou subindo, até o ponto em que muitos trabalhadores ou os seus filhos foram capazes de ingressar na classe média. Em segundo lugar, o tamanho relativo da classe trabalhadora parou de crescer, e na realidade começou a diminuir, particularmente na segunda metade do século vinte, quando o setor de serviços começou a desbancar a manufatura, gerando aquilo que foi rotulado de economias “pós-industriais”. Finalmente, um novo grupo de pobres ou desfavorecidos emergiu abaixo da classe trabalhadora industrial – uma mistura heterogênea de minorias raciais e étnicas, imigrantes recentes, e grupos socialmente excluídos tais como mulheres, gays, e deficientes físicos. Em decorrência dessas mudanças, na maioria das sociedades industrializadas a antiga classe dos trabalhadores se tornou apenas mais um grupo de interesse interno, e que ainda usa o poder político dos sindicatos laborais para proteger os ganhos obtidos com dificuldade numa era anterior.

Além disso, a classe econômica acabou não sendo mais do que uma grande bandeira usada para mobilizar as populações dos países adiantados industrializados para a ação política. A “Segunda Internacional” teve um despertar penoso em 1914, quando as classes de trabalhadores da Europa abandonaram as chamadas para a luta de classes e se alinharam sob líderes conservadores que pregavam slogans nacionalistas, num padrão que persiste até o dia de hoje. Muitos Marxistas tentaram explicar isso, e de acordo com o estudioso Ernest Gellner, através daquilo que ele chamou de “a teoria do endereço errado”:

Da mesma forma que os Mulçumanos da linha extremista Xiita sustentam que o Arcanjo Gabriel cometeu um erro, entregando a Mensagem a Maomé quando esta estava reservada para Ali, também os Marxistas basicamente gostam de pensar que o espírito da história ou a consciência humana cometeu um terrível engano. A mensagem de despertar era endereçada às classes, mas devido a um terrível engano postal, foi entregue a nações.

Gellner prosseguiu argumentando que a religião tinha uma função semelhante ao nacionalismo no Oriente Médio contemporâneo: mobiliza as pessoas com eficiência pelo fato de ter um conteúdo espiritual e emocional que a consciência de classe não tem. Da mesma forma como o nacionalismo europeu foi guiado pelo deslocamento dos europeus do campo para as cidades no final do século dezenove, assim também o Islamismo é uma reação à urbanização e ao deslocamento que está ocorrendo nas sociedades do Oriente Médio. A carta de Marx jamais será entregue no endereço indicando “classe”.

Marx acreditava que a classe média, ou pelo menos a fatia desta detentora do capital, que ele chamava de burguesia, iria permanecer sempre como uma pequena e privilegiada minoria nas sociedades modernas. Ao invés disso o que aconteceu foi que a burguesia e a classe média em geral acabaram por constituir a vasta maioria das populações da maioria dos países adiantados, criando problemas para o socialismo. Desde a época de Aristóteles, os pensadores creem que a democracia estável se apoia numa ampla classe média e que as sociedades que apresentam extremos de riqueza e de pobreza são suscetíveis ou à dominação oligárquica ou à revolução populista. Quando uma boa parte do mundo desenvolvido obteve sucesso em criar sociedades de classe média, a atração do Marxismo evaporou-se. Os únicos lugares onde o radicalismo de esquerda permanece como uma força poderosa são as áreas altamente iníquas do mundo, tais como certas partes da América Latina, o Nepal, e as regiões mais empobrecidas do leste da Índia.

Aquilo que o cientista político Samuel Huntington chamou de “terceira onda” de democratização global, que começou ao sul da Europa na década de 1970 e culminou com a queda do comunismo no Leste Europeu em 1989, incrementou o número de democracias eleitorais em todo mundo de cerca de 45 em 1970 para mais de 120 no final de década de 1990. O crescimento econômico levou à emergência de novas classes médias em países como Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e Turquia. Conforme sublinhou o economista Moisés Naím, essas classes médias são relativamente bem educadas, possuem bens, e estão tecnologicamente conectadas ao mundo externo. Elas são exigentes de seus governos e se mobilizam com facilidade devido ao acesso que tem à tecnologia. Não é de se surpreender que os principais instigadores dos protestos da Primavera Árabe eram tunisianos e egípcios bem educados, cujas expectativas de empregos e de participação política estavam bloqueadas pelas ditaduras sob as quais viviam.

As pessoas de classe média não apoiam necessariamente a democracia por princípio: como quaisquer outras pessoas, são atores com interesses próprios que desejam proteger as suas propriedades e suas posições. Em países como a China e a Tailândia, muitas pessoas de classe média se sentem ameaçadas pelas demandas redistributivas dos pobres e por esse motivo se dispuseram a apoiar os governos autoritários que protegiam os seus interesses de classe. Também não é o caso de que as democracias atendam necessariamente às expectativas de suas próprias classes médias, e quando não atendem, as classe médias podem se tornar irrequietas.

A alternativa menos ruim
Hoje em dia existe um amplo consenso global sobre a legitimidade, pelo menos em princípio, da democracia liberal. Nas palavras do economista Amartya Sen, “Embora a democracia ainda não seja praticada universalmente e tampouco seja aceita de uma forma uniforme, a governança democrática alcançou o status de ser considerada geralmente como correta no clima geral da opinião mundial”. A democracia é mais amplamente aceita nos países que alcançaram um nível de prosperidade material suficiente para permitir que a maioria dos seus cidadãos se considere de classe média, motivo pelo qual tende a haver uma correlação entre altos níveis de desenvolvimento e uma democracia estável.
Algumas sociedades, tais como o Irã e a Arábia Saudita, rejeitam a democracia liberal a favor de alguma forma de teocracia islâmica. Entretanto, em termos de desenvolvimento esses regimes representam fins de linha, pois são mantidos vivos apenas pelo fato de estarem apoiados sobre vastas reservas de petróleo. Apesar da grande exceção árabe à terceira onda, a Primavera Árabe mostrou que a população árabe pode ser mobilizada contra ditaduras tão rapidamente quanto as do Leste Europeu e da América Latina. Naturalmente isso não significa que o caminho para uma democracia bem lubrificada na Tunísia, Egito, ou Líbia será fácil ou simples, embora sugira que o desejo de liberdade e de participação política não é uma peculiaridade cultural dos europeus e dos americanos.

O único grande desafio da democracia liberal no mundo de hoje vem da China, que combinou um governo autoritário com uma economia parcialmente mercadejada. A China é herdeira de uma longa e orgulhosa tradição de governança burocrática de alta qualidade, que data de mais de dois milênios. Os seus líderes conseguiram realizar uma enorme e complexa transição de uma economia de estilo soviético planejada e centralizada, para outra aberta e dinâmica, e fizeram isso com uma marcante competência – francamente com mais competência do que aquela que os líderes norte-americanos mostraram recentemente na gestão de suas próprias políticas macroeconômicas. Muitas pessoas correntemente admiram o sistema chinês, não só pelos seus recordes econômicos, mas também pelo fato de conseguir tomar rapidamente decisões grandes e complexas, em comparação com a agonizante paralisia política que atingiu tanto os Estados Unidos e a Europa nos últimos anos. Em especial desde a recente crise financeira, os próprios chineses tem começado a apregoar o “modelo China” como uma alternativa à democracia liberal.

Entretanto, este modelo é improvável de vir a ser uma alternativa séria à democracia liberal em regiões fora da Ásia Oriental. Em primeiro lugar, o modelo é culturalmente específico: o governo chinês é construído em torno de uma longa tradição de recrutamento meritocrático, concursos para a entrada no serviço público, uma elevada ênfase na educação, e da deferência à autoridade tecnocrática. Poucos países em desenvolvimento tem esperanças de emular este modelo; os que tem, como Singapura e Coréia do Sul (pelo menos na época anterior), já se encontravam dentro da zona cultural chinesa. Os próprios chineses são céticos de que o seu modelo possa ser exportado; o chamado consenso de Beijing é uma invenção do Ocidente, e não chinesa.

Também não é claro que o modelo seja sustentável. Nem o crescimento empurrado pela exportação nem a abordagem de cima para baixo do processo decisório continuarão a dar sempre bons resultados. O fato do governo chinês não ter permitido uma discussão aberta sobre o desastroso acidente do trem de alta velocidade no verão passado, e não ter responsabilizado o Ministério Ferroviário, sugere que existem outras bombas-relógio escondidas por detrás da fachada de eficiência em tomadas de decisões.

Finalmente, a China está voltada para uma grande vulnerabilidade moral mais adiante. O governo chinês não obriga seus oficiais a respeitar a dignidade básica dos seus cidadãos. Todas as semanas há novos protestos sobre apropriações de terras, violações ambientais, ou corrupção grossa por parte de algum oficial. Enquanto o país está crescendo rapidamente, tais abusos podem ser varridos para debaixo do tapete. Mas o crescimento rápido não continuará para sempre, e o governo terá que pagar o preço em termos da revolta reprimida. O regime já não possui nenhuma baliza ideal em torno da qual é organizado; é gerido por um Partido Comunista supostamente comprometido à igualdade e que preside sobre uma sociedade marcada por uma desigualdade crescente e dramática.

Assim, a estabilidade do sistema chinês já não pode mais ser tida como favas contadas. O governo chinês argumenta que os seus cidadãos são culturalmente diferentes e sempre preferirão uma ditadura benevolente e promotora de crescimento a uma democracia desarrumada que ameaça a estabilidade social. Mas é improvável que uma classe média em expansão irá se portar de forma tão diferente na China do que tem se portado em outras partes do mundo. Outros regimes autoritários podem estar tentando emular o sucesso da China, mas há pouca chance de que uma boa parte do mundo venha a se parecer com a China daqui a cinquenta anos.

O futuro da democracia
No mundo de hoje há uma correlação ampla entre crescimento econômico, mudanças sociais, e a hegemonia da ideologia liberal democrática. E no momento, não há nenhuma ideologia rival impendente que seja plausível. Entretanto, algumas tendências econômicas e sociais bastante preocupantes, caso persistam, irão ameaçar a estabilidade das democracias liberais contemporâneas e destronar a ideologia democrática como é hoje entendida.

O sociólogo Barrington Moore certa vez afirmou categoricamente, “Sem burguesia não há democracia.” Se os Marxistas não ganharam a sua utopia comunista foi porque o capitalismo maduro gerou sociedades de classe média e não de classe operária. Mas e se os novos desenvolvimentos da tecnologia e a globalização solapar a classe média de uma sociedade avançada e tornar impossível que não mais que uma minoria dos cidadãos consiga alcançar a classe média?

Existem abundantes indícios de que essa fase de desenvolvimento já começou. As rendas médias nos Estados Unidos estagnaram em termos reais desde a década de 1970. O impacto econômico dessa estagnação tem sido de alguma forma amortizado pelo fato de que na geração anterior a maioria das famílias americanas passou a ter dois ganhadores de renda. Além disso, conforme argumentou persuasivamente o economista Raghuram Rajan, como os americanos estão relutantes de se engajar numa redistribuição direta, os Estados Unidos tentaram uma forma de redistribuição ineficiente e altamente perigosa na geração anterior, subsidiando as hipotecas das famílias de baixa renda. Esta tendência, facilitada por uma inundação de liquidez oriunda da China e de outros países, deram a muitos americanos comuns a ilusão de que seus padrões de vida estavam crescendo gradualmente durante a última década. A esse respeito, o estouro da bolha da casa própria em 2008–9 não passou de uma cruel reversão à média. Os americanos de hoje podem se beneficiar de celulares baratos, vestuário em conta, e do Facebook, mas eles tem dificuldades crescentes em custear suas casas próprias, seus seguros-saúde, ou bons planos de pensão para quando aposentarem.

Um fenômeno ainda mais perturbante, identificado pelo empresário de capital de risco Peter Thiel e pelo economista Tyler Cowen, é que os benefícios das ondas mais recentes de inovação tecnológica tem se acumulado desproporcionalmente a favor dos membros da sociedade mais bem educados e de maior talento. Este fenômeno contribuiu para causar o enorme crescimento da desigualdade nos Estados Unidos na última geração. Em 1974, o topo um por cento das famílias com maior renda ganhava nove por cento do PIB; em 2007, esse quinhão subiu para 23,5 por cento do PIB.

As políticas de comércio e de impostos podem ter acelerado essa tendência, mas aqui o real vilão é a tecnologia. Nas fases iniciais da industrialização – nas eras dos têxteis, do carvão, do aço, e do motor de combustão interna – os benefícios das mudanças tecnológicas quase sempre fluíam para baixo de forma significativa em termos de empregos para o resto da sociedade. Mas isso não se trata de uma lei da natureza. Hoje em dia estamos vivendo aquilo que o estudioso Shoshana Zuboff designou “a idade da máquina inteligente”, onde a tecnologia é cada vez mais capaz de substituir mais e maiores funções humanas. Cada grande avanço do Vale do Silício significa uma perda de empregos de baixa-especialização em algum lugar da economia, tendência que é improvável de cessar no futuro próximo.

A desigualdade sempre existiu, em decorrência das diferenças naturais em talentos e personalidades. Mas o mundo tecnológico de hoje em dia magnifica bastante essas diferenças. Na sociedade agrária do século dezenove, as pessoas que tinham fortes aptidões matemáticas não tinham tantas oportunidades de capitalizar seus talentos. Hoje em dia, podem se tornar magos das finanças ou engenheiros de software e ganhar parcelas cada vez maiores da riqueza nacional.

Outro fator que está a solapar a renda da classe média dos países desenvolvidos é a globalização. Em decorrência da diminuição dos custos de transporte e da comunicação e a entrada na força de trabalho global de centenas de milhares de novos trabalhadores dos países em desenvolvimento, o tipo de trabalho feito pela antiga classe média do mundo desenvolvido agora pode ser feito mais barato noutro lugar. Num modelo econômico que prioriza a maximização da renda agregada, é inevitável que os empregos sejam terceirizados.

Ideias e políticas mais inteligentes poderiam ter contido os danos. A Alemanha conseguiu proteger uma parte significativa de sua base manufatureira e da sua força de trabalho industrial ao mesmo tempo em que suas empresas continuaram competitivas globalmente. Os Estados Unidos e o Reino Unido, por outro lado, abraçaram de bom grado a transição para a economia pós-industrial baseada em serviços. O livre mercado se tornou menos uma teoria do que uma ideologia: quando os membros do congresso dos Estados Unidos tentaram retaliar com sanções comerciais contra a China por manter sua moeda desvalorizada, eles foram indignamente acusados de protecionismo, como se o campo de jogo já estivesse nivelado. Houve muita discussão animada sobre as maravilhas da economia do conhecimento, e sobre como os sujos ou perigosos empregos de manufatura seriam inevitavelmente substituídos por empregados altamente educados fazendo coisas criativas e interessantes. Isso foi um véu diáfano colocado sobre a dura realidade da desindustrialização. Tal discussão deixou de considerar o fato de que os benefícios da nova ordem convergiam desproporcionalmente para um reduzido número de pessoas nos setores de finanças e da alta tecnologia, interesses que dominavam a mídia e o debate político de modo geral.

A esquerda ausente
Uma das características mais enigmáticas do mundo de após a crise financeira é que até agora o populismo tem sido primariamente de direita e não de esquerda.
Nos Estados Unidos, por exemplo, embora a “Tea Party” seja antielitista na sua retórica, os seus membros votam em políticos conservadores que servem precisamente aos interesses dos financistas e das elites corporativas que eles afirmam desprezar. Há diversas explicações para esse fenômeno. Essas incluem uma profunda crença na igualdade de oportunidades ao invés de igualdade de renda e no fato de que certas questões culturais, como o aborto e o direito ao porte de armas, entremeiam as questões econômicas.

O maior motivo pelo qual a esquerda populista de base ampla deixou de materializar é intelectual. Diversas décadas se passaram desde que alguém da esquerda tenha sido capaz de articular, primeiro, uma análise coerente sobre o que acontece com a estrutura das sociedades avançadas à medida que sofrem mudanças econômicas e, segundo, uma agenda realista capaz de trazer alguma esperança de proteger a sociedade de classe média.

As principais tendências do pensamento de esquerda das duas últimas gerações foram, francamente, desastrosas, quer em termos de estruturas conceituais quer como ferramentas de mobilização. O Marxismo morreu muitas décadas atrás, e os poucos e antigos crentes que sobrevivem estão prestes a ingressar em abrigos de idosos. A esquerda acadêmica trocou o mesmo pelo pós-modernismo, multiculturalismo, feminismo, teoria crítica, e uma gama de outras tendências intelectuais fragmentadas, cujo foco era mais cultural do que econômico. O pós-modernismo começa com uma negação da possibilidade de qualquer narrativa mestre sobre a história ou a sociedade, desvalorizando a sua própria autoridade como porta-voz da maioria dos cidadãos que se sentem traídos pelas suas elites. O multiculturalismo dá validade a uma vitimização de praticamente todos os grupos externos. É impossível criar um movimento progressista de massa com base numa coalizão tão díspar: a maior parte dos cidadãos da classe trabalhadora e da classe média baixa vitimizados pelo sistema é culturalmente conservativa e se envergonharia de ser vista na companhia de aliados como esses.

Sejam quais forem as justificativas teóricas que forram a agenda da esquerda, o seu maior problema é a falta de credibilidade. Nas últimas duas gerações, a esquerda principal seguiu um programa social democrático voltado para o provimento por parte do estado de uma variedade de serviços como aposentadorias, saúde e educação. Tal modelo encontra-se esgotado: os estados do bem-estar social se tornaram grandes, burocráticos, e inflexíveis; frequentemente eles são tomados como reféns pelas próprias organizações que os administram, através dos sindicatos de servidores públicos; e o mais importante, são fisicamente insustentáveis devido ao envelhecimento das populações de praticamente todo o mundo desenvolvido. Assim, quando os partidos sociais democráticos chegam ao poder, eles já não aspiram ser mais do que zeladores do estado de bem estar social criado décadas atrás; nenhum deles tem uma agenda nova e excitante capaz de unir as massas.

Uma ideologia do futuro
Imagine por um momento, um obscuro escrevinhador de hoje em alguma habitação miserável, tentando criar uma ideologia do futuro capaz de indicar um caminho realista direcionado a sociedades dotadas de classes médias saudáveis e democracias robustas. Como seria essa ideologia?

Tal ideologia deverá ter pelo menos dois componentes, um político e outro econômico. Politicamente, a nova ideologia precisará reafirmar a supremacia da política democrática sobre a econômica e legitimar de novo o governo como expressão da vontade pública. Mas a agenda que ofereceria para proteger a vida da classe média não poderia se basear simplesmente nos mecanismos existentes no estado de bem estar social. Tal ideologia precisaria redefinir de alguma forma o setor público, liberando-o de sua dependência nos atuais acionistas e usando abordagens de entrega de serviços que sejam novas e suportadas pela tecnologia. Teria que argumentar abertamente para mais redistribuição e apresentar uma rota realista para por fim ao domínio político dos grupos de interesse.

Economicamente, essa ideologia não poderia começar com uma denúncia do capitalismo, como se o antiquado socialismo ainda fosse uma alternativa viável. Seria mais sobre qual o tipo de capitalismo a ser posto na mesa e até onde os governos devem ajudar as sociedades a se ajustar às mudanças. A globalização precisa ser vista não como um fato inexorável da vida, mas como um desafio e uma oportunidade que precisam ser cuidadosamente controlados politicamente. A nova ideologia não veria os mercados como fins em si próprios; ao invés, valorizaria o comércio e o investimento global de modo a que contribuam para o crescimento da classe média, e não apenas sirvam para agregar mais valor à riqueza nacional.

Entretanto, não é possível chegar a esse ponto sem fazer uma crítica séria e continuada a boa parte do edifício da economia neoclássica moderna, a começar pelas suposições fundamentais tais como a soberania das preferências individuais e a de que a renda agregada é uma medida apurada do bem-estar da nação. Essa crítica teria que notar que as rendas das pessoas não representam necessariamente as suas verdadeiras contribuições à sociedade. Teria que ir mais adiante, entretanto, e reconhecer que mesmo que os mercados de trabalho sejam eficientes, a distribuição natural de talentos não é necessariamente justa e os indivíduos não são entidades soberanas, mas seres altamente forjados pelas suas sociedades circunjacentes.

A maior parte dessas ideias já existe por algum tempo embora fragmentadas; o escrevinhador teria que colocá-las num pacote coerente. Ele ou ela também teria que evitar o problema do “endereço errado”. A crítica da globalização, portanto, teria que ser vinculada ao nacionalismo como uma estratégia de mobilização, de forma a definir o interesse nacional de uma maneira mais sofisticada do que, por exemplo, aquelas das campanhas “Compre Americano” dos sindicatos dos Estados Unidos. O produto seria uma síntese de ideias tanto da esquerda quanto da direita, independentemente das agendas dos grupos marginalizados que formam o atual movimento progressista. A ideologia seria populista; a mensagem deveria começar com uma crítica às elites que permitiram que o benefício de muitos fosse sacrificado a favor de um punhado, e com uma crítica à política financeira, especialmente em Washington, que beneficia esmagadoramente os ricos. Os perigos inerentes em num movimento desse tipo são óbvios: um retrocesso dos Estados Unidos, em particular, de sua advocacia a favor de um sistema global mais aberto poderia desencadear respostas protecionistas noutros lugares. Em muitos respeitos, a revolução Reagan-Thatcher teve êxito exatamente como os seus proponentes esperavam, trazendo um mundo cada vez mais competitivo, globalizado, e livre de conflitos. No meio do caminho, a mesma gerou uma tremenda riqueza e criou classes médias ascendentes em todo o mundo em desenvolvimento, espalhando a democracia no seu rastro. É possível que o mundo desenvolvido esteja sobre o vértice de uma série de descobertas tecnológicas que não só aumentarão a produtividade, mas também proverão empregos significativos a grandes números de pessoas da classe média.

Mas isso é mais uma questão de fé do que uma reflexão da realidade vivida nos últimos trinta anos, que aponta para a direção oposta. E de fato, há razões de sobra para pensar que a desigualdade irá continuar a piorar. A atual concentração de renda nos Estados Unidos já é autoreforçável: conforme argumentou o economista Simon Johnson, o setor financeiro tem usado o seu influente lobby para evitar formas de regulamentação mais onerosas. As escolas dos mais ricos são cada vez melhores; as de todos os demais continuam se deteriorando. Na ausência do contrapeso de uma mobilização democrática para retificar a situação, as elites de todas as sociedades utilizam o acesso que tem ao sistema político para proteger os seus interesses. As elites americanas não são nenhuma exceção a esta regra.

Essa mobilização não acontecerá, entretanto, enquanto as classes médias do mundo desenvolvido permanecerem encantadas pela narrativa da geração anterior: que os seus interesses serão mais bem atendidos por estados menores e mercados cada vez mais livres. A narrativa alternativa está lá, esperando para nascer.


Dr. Francis Fukuyama é um Membro Sênior do Centro de Democracia, Desenvolvimento, e Estado de Direito da Universidade de Stanford, sendo o seu livro mais recente The origins of political order: from prehuman times to the French Revolution.

Titulo Original: The Future of History. Can Liberal Democracy Survive the Decline of the Middle Class?
Fonte: Foreign Affairs, January/February 2012: http://www.foreignaffairs.com/articles/136782/francis-fukuyama/the-future-of-history

© Dr. Francis Fukuyama

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien

Cortesia de: Francis Fukuyama e Foreign Affairs (revista do Council on Foreign Relations, Inc.)

Como citar este artigo:
Fukuyama, F. O futuro da História. A democracia liberal pode sobreviver ao declínio da classe média? PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

Joaquina Pires-O’Brien

The existing link between liberal democracy and a strong middle class and the likely consequences of the squeeze on the American middle classes for its liberal democracy are examined in our leading article by the American political scientist Francis Fukuyama. Although Fukuyama recognises the need to save the American middle class in order to save American liberal democracy, he doesn’t think that the government policies of the past two generations have steered the country in this direction. For him, they simply created a model that has exhausted itself with the welfare state becoming big, bureaucratic, and inflexible. The reluctance of letting go of the expectations of the past two generations is the biggest internal threat to American liberal democracy for it will create the scenario for a new ideology to capture the masses, just like the one that promised the perfect society and instead delivered Hell. Outside the US, the main perceived threat to liberal democracy comes from China, a country which is about to displace the US as the world’s largest economy and whose system is being presented as an alternative to liberal democracy. However, according to Fukuyama, the Chinese model is so culturally specific that few developing countries can hope to emulate it. Furthermore, it is likely to collapse once China has a strong middle class interested in protecting their property and position.

The second article in this edition of PortVitoria, The Green and the Blue, by British philosopher and polymath, Roger Scruton, outlines his vision for the environment and is a synthesis of his latest book Green Philosophy. How to Think Seriously About the Planet. In it, Scruton argues how the left-wing radicals highjacked the environmental agenda during the twentieth century and that some of their policies added to the environmental problems instead of solving them. According to Scruton, the solution to the environmental problems requires a moral mindset centred on the virtue of loving one’s home, where ‘home’ includes not just house but our community and our larger society. For it is this love of home, or oikophilia, which will motivate people to look after their environmental resources instead of squandering them.

The third article “Occidente, libre de deudas culturales” by Fernando Rodríguez Genovés is an essay-review on two books which debunk some fallacies about Western Civilization. They are The fall of the West: the death of the Roman superpower, 2010, by Adrian Goldsworthy, and Aristóteles y el Islam: las raíces griegas de la Europa cristiana (Aristotle and Islam: the Greek roots of Christian Europe, unpublished in English), 2008, by Sylvain Gouguenheim. Goldsworthy’s book criticises a number of false perceptions such as the existence of a parallel between Ancient Rome and the United States.

All three authors in this edition of PortVitoria are world experts in Western culture and civilization and are critical of Westerners’ mistakes regarding their political societies, environment and culture. Fukuyama does not rule out the possibility that Americans have not learned the lessons of the 20th century. The rest of us can take this as a remider that the lessons from history are not just for the United States but for the entire world. Otherwise, peace in the 21st century won’t stand a chance.
July 2012

Pires-O`Brien, J. Not learning from one’s mistakes. Editorial. PortVitoria, UK, v. 5, Jul-Dec, 2012. ISSN 2044-8236