Alexander Pope (1688-1744) foi um poeta e intelectual do Iluminismo europeu e do período neoclássico inglês cujos valores estão refletidos nas suas poesias, que enaltecem a genialidade dos antigos e as possibilidades da razão e da ciência.

16_alexanderpopePope nasceu em Lombard Street, Londres em 1688, o mesmo ano da Revolução Gloriosa, assim chamada por ter mudado um regime monárquico sem derramamento de sangue, no caso, a remoção do trono do rei católico James II da Inglaterra e Irlanda (James VII da Escócia) e sua substituição por William III de Laranja e Mary II, que eram protestantes. Pope era filho de um próspero comerciante, que pelo fato de ser católico, sofreu a discriminação vigente na época, inclusive pela própria legislação. A mudança da família de Pope de Londres para Windsor Forest, em 1700, foi provavelmente devido à uma lei que proibia os católicos de morar dentro de 10 milhas de Londres. Pope foi educado em casa, o que, possivelmente, é também devido a alguma outra lei discriminatória contra os católicos. Mas o grande problema da infância de Pope foi de saúde. Enquanto criança Pope contraiu uma série de enfermidades que atrapalharam o seu crescimento e o deixaram corcunda. Em contrapartida às más circunstâncias, Pope tinha uma inteligência incomum, e acabou recebendo uma esmeradíssima educação. Aos doze anos ele já escrevia poesias e já traduzia Ovídio e Homero. A sua reputação literária firmou-se com a publicação do longo poema ‘An Essay on Criticism’ (Ensaio sobre a Crítica) quando tinha apenas vinte e três anos de idade.

Pope ganhou segurança econômica graças ao sucesso da sua tradução da Ilíada de Homero. Entretanto, os críticos acusaram Pope de ter melhorado de tal forma o texto que este já não seria mais de Homero. Em resposta à essas críticas Pope escreveu o poema The Dunciad, publicado inicialmente em 1728, e republicado com revisões em 1742 e 1754, defendendo o elevado padrão literário de sua tradução e acusando os críticos de mal gosto e pedantismo.

A obra poética de Pope é extremamente importante pelo fato dela oferecer um panorama da cultura da época e do próprio século das luzes, incluindo o choque entre a alta cultura e as demais culturas. Fora da comunidade de língua inglesa Pope é conhecido pelas suas máximas, frases retiradas de seus poemas, que foram traduzidas para os mais diversos idiomas. Entretanto, a poesia de Pope é melhor lida no vernáculo, já que as suas elaboradas construções os torna difíceis de serem traduzidos.

O poema An Essay on Criticism, é uma crítica da crítica da poesia. De tamanho épico, o poema começa com uma discussão sobre as regras do bom gosto que a seu ver deveriam ser usadas para julgar adequadamente a qualidade da poesia. Entretanto, ao mostrar como deve ser o julgamento da poesia, inadvertidamente ou não, Pope transmite lições de crítica que são gerais, como mostra os dois epigramas a seguir.

‘Fools rush in where angels fear to tread.’
‘Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar.’
e
‘A little learning is a dangerous thing.’
‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa.’

Na primeira citação ‘Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar’, o termo ‘tolos’ refere-se às pessoas cujas aspirações estão acima de suas capacidades, enquanto que o termo ‘anjos’ refere-se às pessoas esclarecidas, isto é, conhecedoras das próprias limitações.

Na segunda citação, ‘O conhecimento pequeno é uma coisa perigosa’, Pope compara o conhecimento à mitológica fonte da sabedoria descrita por Hesíodo. Assim como a fonte de Piéria, a morada das musas das artes e das ciências, tem águas fundas e rasas, também o conhecimento pode ser profundo ou superficial. Para adquirir o verdadeiro conhecimento é preciso beber a água da parte funda da fonte de Piéria, ou seja, ir a fundo. Assim como na fonte da sabedoria os goles rasos embriagam, assim também o conhecimento pequeno embriaga e engana a mente.

O denominador comum das duas citações acima é a batalha constante entre o ímpeto de julgar e a resistência para não julgar. Os que enxergam melhor as coisas percebem as dificuldades e são mais propensas a resguardar-se de julgar. Os que se precipitam a julgar são os que pensam que enxergam mas não enxergam, pois suas mentes estão simplesmente embriagadas pelo seus limitados conhecimentos.

O tipo de julgamento onde as pessoas mais erram é o de si próprias. Podemos ver isso na política, onde é comum ver-se indivíduos subeducados que se julgam capazes de governar municípios, estados e até o próprio país. Uma das razões disso é que em geral são os indivíduos menos preparados que correm atrás dos cargos políticos, pois os mais bem preparados, justamente por se conhecerem melhor, tendem a se esquivar da política. Ou seja, os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar.
Conforme mostrou Pope, assim como os poetas não nascem poetas mas fazem-se poetas, as nossas mentes podem ser cultivadas pelas boas leituras e pelas conversações relevantes. A grande lição que se pode tirar de Pope é a importância da educação ao longo da vida, a decisão consciente de cada um, de optar pelo questionamento constante e pelo conhecimento mais profundo das coisas.


Veja o meu posting sobre a frase de Pope ‘O Conhecimento Pequeno é Coisa Perigosa’ http://jopiresobrien3.wordpress.com/page/4/
Citation:
Alexander Pope (1688-1744). Reflexões de um Poeta: Os tolos precipitam-se onde os anjos temem pisar. PortVitoria, UK, v.9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/archive.html


An Essay on Criticism
Alexander Pope (1688-1744)

‘Tis hard to say, if greater Want of Skill
Appear in Writing or in Judging ill,
But, of the two, less dang’rous is th’ Offence,
To tire our Patience, than mis-lead our Sense:
Some few in that, but Numbers err in this,
Ten Censure wrong for one who Writes amiss;
A Fool might once himself alone expose,
Now One in Verse makes many more in Prose.
‘Tis with our Judgments as our Watches, none
Go just alike, yet each believes his own.
In Poets as true Genius is but rare,
True Taste as seldom is the Critick’s Share;
Both must alike from Heav’n derive their Light,
These born to Judge, as well as those to Write.
Let such teach others who themselves excell,
And censure freely who have written well.
Authors are partial to their Wit, ’tis true,
But are not Criticks to their Judgment too?

Yet if we look more closely, we shall find
Most have the Seeds of Judgment in their Mind;
Nature affords at least a glimm’ring Light;

The Lines, tho’ touch’d but faintly, are drawn right.
But as the slightest Sketch, if justly trac’d,
Is by ill Colouring but the more disgrac’d,
So by false Learning is good Sense defac’d.
Some are bewilder’d in the Maze of Schools,
And some made Coxcombs Nature meant but Fools.
In search of Wit these lose their common Sense,
And then turn Criticks in their own Defence.
Each burns alike, who can, or cannot write,
Or with a Rival’s or an Eunuch’s spite.
All Fools have still an Itching to deride,
And fain wou’d be upon the Laughing Side;
If Maevius Scribble in Apollo’s spight,
There are, who judge still worse than he can write

Some have at first for Wits, then Poets past,
Turn’d Criticks next, and prov’d plain Fools at last;
Some neither can for Wits nor Criticks pass,
As heavy Mules are neither Horse or Ass.
Those half-learn’d Witlings, num’rous in our Isle,
As half-form’d Insects on the Banks of Nile:
Unfinish’d Things, one knows now what to call,
Their Generation’s so equivocal:
To tell ’em, wou’d a hundred Tongues require,
Or one vain Wit’s, that might a hundred tire.

But you who seek to give and merit Fame,
And justly bear a Critick’s noble Name,
Be sure your self and your own Reach to know.
How far your Genius, Taste, and Learning go;
Launch not beyond your Depth, but be discreet,
And mark that Point where Sense and Dulness meet.

Nature to all things fix’d the Limits fit,
And wisely curb’d proud Man’s pretending Wit:
As on the Land while here the Ocean gains,
In other Parts it leaves wide sandy Plains;
Thus in the Soul while Memory prevails,
The solid Pow’r of Understanding fails;
Where Beams of warm Imagination play,
The Memory’s soft Figures melt away.
One Science only will one Genius fit;
So vast is Art, so narrow Human Wit;
Not only bounded to peculiar Arts,
But oft in those, confin’d to single Parts.
Like Kings we lose the Conquests gain’d before,
By vain Ambition still to make them more:
Each might his sev’ral Province well command,
Wou’d all but stoop to what they understand.

First follow NATURE, and your Judgment frame
By her just Standard, which is still the same:
Unerring Nature, still divinely bright,
One clear, unchang’d and Universal Light,
Life, Force, and Beauty, must to all impart,
At once the Source, and End, and Test of Art
Art from that Fund each just Supply provides,
Works without Show, and without Pomp presides:
In some fair Body thus th’ informing Soul
With Spirits feeds, with Vigour fills the whole,
Each Motion guides, and ev’ry Nerve sustains;
It self unseen, but in th’ Effects, remains.
Some, to whom Heav’n in Wit has been profuse.
Want as much more, to turn it to its use,
For Wit and Judgment often are at strife,
Tho’ meant each other’s Aid, like Man and Wife.
‘Tis more to guide than spur the Muse’s Steed;
Restrain his Fury, than provoke his Speed;
The winged Courser, like a gen’rous Horse,
Shows most true Mettle when you check his Course.

Those RULES of old discover’d, not devis’d,
Are Nature still, but Nature Methodiz’d;
Nature, like Liberty, is but restrain’d
By the same Laws which first herself ordain’d.

Hear how learn’d Greece her useful Rules indites,
When to repress, and when indulge our Flights:
High on Parnassus’ Top her Sons she show’d,
And pointed out those arduous Paths they trod,
Held from afar, aloft, th’ Immortal Prize,
And urg’d the rest by equal Steps to rise;
Just Precepts thus from great Examples giv’n,
She drew from them what they deriv’d from Heav’n
The gen’rous Critick fann’d the Poet’s Fire,
And taught the World, with Reason to Admire.
Then Criticism the Muse’s Handmaid prov’d,
To dress her Charms, and make her more belov’d;
But following Wits from that Intention stray’d;
Who cou’d not win the Mistress, woo’d the Maid;
Against the Poets their own Arms they turn’d,
Sure to hate most the Men from whom they learn’d
So modern Pothecaries, taught the Art
By Doctor’s Bills to play the Doctor’s Part,
Bold in the Practice of mistaken Rules,
Prescribe, apply, and call their Masters Fools.
Some on the Leaves of ancient Authors prey,
Nor Time nor Moths e’er spoil’d so much as they:
Some dryly plain, without Invention’s Aid,
Write dull Receits how Poems may be made:
These leave the Sense, their Learning to display,
And theme explain the Meaning quite away

You then whose Judgment the right Course wou’d steer,
Know well each ANCIENT’s proper Character,
His Fable, Subject, Scope in ev’ry Page,
Religion, Country, Genius of his Age:
Without all these at once before your Eyes,
Cavil you may, but never Criticize.
Be Homer’s Works your Study, and Delight,
Read them by Day, and meditate by Night,
Thence form your Judgment, thence your Maxims bring,
And trace the Muses upward to their Spring;
Still with It self compar’d, his Text peruse;
And let your Comment be the Mantuan Muse.

When first young Maro in his boundless Mind
A Work t’ outlast Immortal Rome design’d,
Perhaps he seem’d above the Critick’s Law,
And but from Nature’s Fountains scorn’d to draw:
But when t’examine ev’ry Part he came,
Nature and Homer were, he found, the same:
Convinc’d, amaz’d, he checks the bold Design,
And Rules as strict his labour’d Work confine,
As if the Stagyrite o’er looked each Line.
Learn hence for Ancient Rules a just Esteem;
To copy Nature is to copy Them.

Some Beauties yet, no Precepts can declare,
For there’s a Happiness as well as Care.
Musick resembles Poetry, in each
Are nameless Graces which no Methods teach,
And which a Master-Hand alone can reach.
If, where the Rules not far enough extend,
(Since Rules were made but to promote their End)
Some Lucky LICENCE answers to the full
Th’ Intent propos’d, that Licence is a Rule.
Thus Pegasus, a nearer way to take,
May boldly deviate from the common Track.
Great Wits sometimes may gloriously offend,
And rise to Faults true Criticks dare not mend;
From vulgar Bounds with brave Disorder part,
And snatch a Grace beyond the Reach of Art,
Which, without passing thro’ the Judgment, gains
The Heart, and all its End at once attains.
In Prospects, thus, some Objects please our Eyes,
Which out of Nature’s common Order rise,
The shapeless Rock, or hanging Precipice.
But tho’ the Ancients thus their Rules invade,
(As Kings dispense with Laws Themselves have made)
Moderns, beware! Or if you must offend
Against the Precept, ne’er transgress its End,
Let it be seldom, and compell’d by Need,
And have, at least, Their Precedent to plead.
The Critick else proceeds without Remorse,
Seizes your Fame, and puts his Laws in force.

I know there are, to whose presumptuous Thoughts
Those Freer Beauties, ev’n in Them, seem Faults:
Some Figures monstrous and mis-shap’d appear,
Consider’d singly, or beheld too near,
Which, but proportion’d to their Light, or Place,
Due Distance reconciles to Form and Grace.
A prudent Chief not always must display
His Pow’rs in equal Ranks, and fair Array,
But with th’ Occasion and the Place comply,
Conceal his Force, nay seem sometimes to Fly.
Those oft are Stratagems which Errors seem,
Nor is it Homer Nods, but We that Dream.

Still green with Bays each ancient Altar stands,
Above the reach of Sacrilegious Hands,
Secure from Flames, from Envy’s fiercer Rage,
Destructive War, and all-involving Age.
See, from each Clime the Learn’d their Incense bring;
Hear, in all Tongues consenting Paeans ring!
In Praise so just, let ev’ry Voice be join’d,
And fill the Gen’ral Chorus of Mankind!
Hail Bards Triumphant! born in happier Days;
Immortal Heirs of Universal Praise!
Whose Honours with Increase of Ages grow,
As streams roll down, enlarging as they flow!
Nations unborn your mighty Names shall sound,
And Worlds applaud that must not yet be found!
Oh may some Spark of your Coelestial Fire
The last, the meanest of your Sons inspire,
(That on weak Wings, from far, pursues your Flights;
Glows while he reads, but trembles as he writes)
To teach vain Wits a Science little known,
T’ admire Superior Sense, and doubt their own!

II
Of all the Causes which conspire to blind
Man’s erring Judgment, and misguide the Mind,
What the weak Head with strongest Byass rules,
Is Pride, the never-failing Vice of Fools.
Whatever Nature has in Worth deny’d,
She gives in large Recruits of needful Pride;
For as in Bodies, thus in Souls, we find
What wants in Blood and Spirits, swell’d with Wind;
Pride, where Wit fails, steps in to our Defence,
And fills up all the mighty Void of Sense!
If once right Reason drives that Cloud away,
Truth breaks upon us with resistless Day;
Trust not your self; but your Defects to know,
Make use of ev’ry Friend–and ev’ry Foe.

A little Learning is a dang’rous Thing;
Drink deep, or taste not the Pierian Spring:
There shallow Draughts intoxicate the Brain,
And drinking largely sobers us again.
Fir’d at first Sight with what the Muse imparts,
In fearless Youth we tempt the Heights of Arts,
While from the bounded Level of our Mind,
Short Views we take, nor see the lengths behind,
But more advanc’d, behold with strange Surprize
New, distant Scenes of endless Science rise!
So pleas’d at first, the towring Alps we try,
Mount o’er the Vales, and seem to tread the Sky;
Th’ Eternal Snows appear already past,
And the first Clouds and Mountains seem the last:
But those attain’d, we tremble to survey
The growing Labours of the lengthen’d Way,
Th’ increasing Prospect tires our wandering Eyes,
Hills peep o’er Hills, and Alps on Alps arise!

A perfect Judge will read each Work of Wit
With the same Spirit that its Author writ,
Survey the Whole, nor seek slight Faults to find,
Where Nature moves, and Rapture warms the Mind;
Nor lose, for that malignant dull Delight,
The gen’rous Pleasure to be charm’d with Wit.
But in such Lays as neither ebb, nor flow,
Correctly cold, and regularly low,
That shunning Faults, one quiet Tenour keep;
We cannot blame indeed–but we may sleep.
In Wit, as Nature, what affects our Hearts
Is nor th’ Exactness of peculiar Parts;
‘Tis not a Lip, or Eye, we Beauty call,
But the joint Force and full Result of all.
Thus when we view some well-proportion’d Dome,
The World’s just Wonder, and ev’n thine O Rome!)
No single Parts unequally surprize;
All comes united to th’ admiring Eyes;
No monstrous Height, or Breadth, or Length appear;
The Whole at once is Bold, and Regular.

Whoever thinks a faultless Piece to see,
Thinks what ne’er was, nor is, nor e’er shall be.
In ev’ry Work regard the Writer’s End,
Since none can compass more than they Intend;
And if the Means be just, the Conduct true,
Applause, in spite of trivial Faults, is due.
As Men of Breeding, sometimes Men of Wit,
T’ avoid great Errors, must the less commit,
Neglect the Rules each Verbal Critick lays,
For not to know some Trifles, is a Praise.
Most Criticks, fond of some subservient Art,
Still make the Whole depend upon a Part,
They talk of Principles, but Notions prize,
And All to one lov’d Folly Sacrifice.

Once on a time, La Mancha’s Knight, they say,
A certain Bard encountring on the Way,
Discours’d in Terms as just, with Looks as Sage,
As e’er cou’d Dennis, of the Grecian Stage;
Concluding all were desp’rate Sots and Fools,
Who durst depart from Aristotle’s Rules.
Our Author, happy in a Judge so nice,
Produc’d his Play, and beg’d the Knight’s Advice,
Made him observe the Subject and the Plot,
The Manners, Passions, Unities, what not?
All which, exact to Rule were brought about,
Were but a Combate in the Lists left out.
What! Leave the Combate out? Exclaims the Knight;
Yes, or we must renounce the Stagyrite.
Not so by Heav’n (he answers in a Rage)
Knights, Squires, and Steeds, must enter on the Stage.
So vast a Throng the Stage can ne’er contain.
Then build a New, or act it in a Plain.

Thus Criticks, of less Judgment than Caprice,
Curious, not Knowing, not exact, but nice,
Form short Ideas; and offend in Arts
(As most in Manners) by a Love to Parts.

Some to Conceit alone their Taste confine,
And glitt’ring Thoughts struck out at ev’ry Line;
Pleas’d with a Work where nothing’s just or fit;
One glaring Chaos and wild Heap of Wit;
Poets like Painters, thus, unskill’d to trace
The naked Nature and the living Grace,
With Gold and Jewels cover ev’ry Part,
And hide with Ornaments their Want of Art.
True Wit is Nature to Advantage drest,
What oft was Thought, but ne’er so well Exprest,
Something, whose Truth convinc’d at Sight we find,
That gives us back the Image of our Mind:
As Shades more sweetly recommend the Light,
So modest Plainness sets off sprightly Wit:
For Works may have more Wit than does ’em good,
As Bodies perish through Excess of Blood.

Others for Language all their Care express,
And value Books, as Women Men, for Dress:
Their Praise is still–The Stile is excellent:
The Sense, they humbly take upon Content.
Words are like Leaves; and where they most abound,
Much Fruit of Sense beneath is rarely found.
False Eloquence, like the Prismatic Glass,
Its gawdy Colours spreads on ev’ry place;
The Face of Nature was no more Survey,
All glares alike, without Distinction gay:
But true Expression, like th’ unchanging Sun,
Clears, and improves whate’er it shines upon,
It gilds all Objects, but it alters none.
Expression is the Dress of Thought, and still
Appears more decent as more suitable;
A vile Conceit in pompous Words exprest,
Is like a Clown in regal Purple drest;
For diff’rent Styles with diff’rent Subjects sort,
As several Garbs with Country, Town, and Court.
Some by Old Words to Fame have made Pretence;
Ancients in Phrase, meer Moderns in their Sense!
Such labour’d Nothings, in so strange a Style,
Amaze th’unlearn’d, and make the Learned Smile.
Unlucky, as Fungoso in the Play,
These Sparks with aukward Vanity display
What the Fine Gentleman wore Yesterday!
And but so mimick ancient Wits at best,
As Apes our Grandsires in their Doublets treat.
In Words, as Fashions, the same Rule will hold;
Alike Fantastick, if too New, or Old;
Be not the first by whom the New are try’d,
Nor yet the last to lay the Old aside.

But most by Numbers judge a Poet’s Song,
And smooth or rough, with them, is right or wrong;
In the bright Muse tho’ thousand Charms conspire,
Her Voice is all these tuneful Fools admire,
Who haunt Parnassus but to please their Ear,
Not mend their Minds; as some to Church repair,
Not for the Doctrine, but the Musick there.
These Equal Syllables alone require,
Tho’ oft the Ear the open Vowels tire,
While Expletives their feeble Aid do join,
And ten low Words oft creep in one dull Line,
While they ring round the same unvary’d Chimes,
With sure Returns of still expected Rhymes.
Where-e’er you find the cooling Western Breeze,
In the next Line, it whispers thro’ the Trees;
If Chrystal Streams with pleasing Murmurs creep,
The Reader’s threaten’d (not in vain) with Sleep.
Then, at the last, and only Couplet fraught
With some unmeaning Thing they call a Thought,
A needless Alexandrine ends the Song,
That like a wounded Snake, drags its slow length along.
Leave such to tune their own dull Rhimes, and know
What’s roundly smooth, or languishingly slow;
And praise the Easie Vigor of a Line,
Where Denham’s Strength, and Waller’s Sweetness join.
True Ease in Writing comes from Art, not Chance,
As those move easiest who have learn’d to dance,
‘Tis not enough no Harshness gives Offence,
The Sound must seem an Eccho to the Sense.
Soft is the Strain when Zephyr gently blows,
And the smooth Stream in smoother Numbers flows;
But when loud Surges lash the sounding Shore,
The hoarse, rough Verse shou’d like the Torrent roar.
When Ajax strives, some Rocks’ vast Weight to throw,
The Line too labours, and the Words move slow;
Not so, when swift Camilla scours the Plain,
Flies o’er th’unbending Corn, and skims along the Main.
Hear how Timotheus’ vary’d Lays surprize,
And bid Alternate Passions fall and rise!
While, at each Change, the Son of Lybian Jove
Now burns with Glory, and then melts with Love;
Now his fierce Eyes with sparkling Fury glow;
Now Sighs steal out, and Tears begin to flow:
Persians and Greeks like Turns of Nature found,
And the World’s Victor stood subdu’d by Sound!
The Pow’rs of Musick all our Hearts allow;
And what Timotheus was, is Dryden now.

Avoid Extreams; and shun the Fault of such,
Who still are pleas’d too little, or too much.
At ev’ry Trifle scorn to take Offence,
That always shows Great Pride, or Little Sense;
Those Heads as Stomachs are not sure the best
Which nauseate all, and nothing can digest.
Yet let not each gay Turn thy Rapture move,
For Fools Admire, but Men of Sense Approve;
As things seem large which we thro’ Mists descry,
Dulness is ever apt to Magnify.

Some foreign Writers, some our own despise;
The Ancients only, or the Moderns prize:
(Thus Wit, like Faith by each Man is apply’d
To one small Sect, and All are damn’d beside.)
Meanly they seek the Blessing to confine,
And force that Sun but on a Part to Shine;
Which not alone the Southern Wit sublimes,
But ripens Spirits in cold Northern Climes;
Which from the first has shone on Ages past,
Enlights the present, and shall warm the last:
(Tho’ each may feel Increases and Decays,
And see now clearer and now darker Days)
Regard not then if Wit be Old or New,
But blame the False, and value still the True.

Some ne’er advance a Judgment of their own,
But catch the spreading Notion of the Town;
They reason and conclude by Precedent,
And own stale Nonsense which they ne’er invent.
Some judge of Authors’ Names, not Works, and then
Nor praise nor blame the Writings, but the Men.
Of all this Servile Herd the worst is He
That in proud Dulness joins with Quality,
A constant Critick at the Great-man’s Board,
To fetch and carry Nonsense for my Lord.
What woful stuff this Madrigal wou’d be,
To some starv’d Hackny Sonneteer, or me?
But let a Lord once own the happy Lines,
How the Wit brightens! How the Style refines!
Before his sacred Name flies ev’ry Fault,
And each exalted Stanza teems with Thought!

The Vulgar thus through Imitation err;
As oft the Learn’d by being Singular;
So much they scorn the Crowd, that if the Throng
By Chance go right, they purposely go wrong;
So Schismatics the plain Believers quit,
And are but damn’d for having too much Wit.

Some praise at Morning what they blame at Night;
But always think the last Opinion right.
A Muse by these is like a Mistress us’d,
This hour she’s idoliz’d, the next abus’d,
While their weak Heads, like Towns unfortify’d,
‘Twixt Sense and Nonsense daily change their Side.
Ask them the Cause; They’re wiser still, they say;
And still to Morrow’s wiser than to Day.
We think our Fathers Fools, so wise we grow;
Our wiser Sons, no doubt, will think us so.
Once School-Divines this zealous Isle o’erspread;
Who knew most Sentences was deepest read;
Faith, Gospel, All, seem’d made to be disputed,
And none had Sense enough to be Confuted.
Scotists and Thomists, now, in Peace remain,
Amidst their kindred Cobwebs in Duck-Lane.
If Faith it self has diff’rent Dresses worn,
What wonder Modes in Wit shou’d take their Turn?
Oft, leaving what is Natural and fit,
The current Folly proves the ready Wit,
And Authors think their Reputation safe,
Which lives as long as Fools are pleas’d to Laugh.

Some valuing those of their own, Side or Mind,
Still make themselves the measure of Mankind;
Fondly we think we honour Merit then,
When we but praise Our selves in Other Men.
Parties in Wit attend on those of State,
And publick Faction doubles private Hate.
Pride, Malice, Folly, against Dryden rose,
In various Shapes of Parsons, Criticks, Beaus;
But Sense surviv’d, when merry Jests were past;
For rising Merit will buoy up at last.
Might he return, and bless once more our Eyes,
New Blackmores and new Milbourns must arise;
Nay shou’d great Homer lift his awful Head,
Zoilus again would start up from the Dead.
Envy will Merit as its Shade pursue,
But like a Shadow, proves the Substance true;
For envy’d Wit, like Sol Eclips’d, makes known
Th’ opposing Body’s Grossness, not its own.
When first that Sun too powerful Beams displays,
It draws up Vapours which obscure its Rays;
But ev’n those Clouds at last adorn its Way,
Reflect new Glories, and augment the Day.

Be thou the first true Merit to befriend;
His Praise is lost, who stays till All commend;
Short is the Date, alas, of Modern Rhymes;
And ’tis but just to let ’em live betimes.
No longer now that Golden Age appears,
When Patriarch-Wits surviv’d thousand Years;
Now Length of Fame (our second Life) is lost,
And bare Threescore is all ev’n That can boast:
Our Sons their Fathers’ failing language see,
And such as Chaucer is, shall Dryden be.
So when the faithful Pencil has design’d
Some bright Idea of the Master’s Mind,
Where a new World leaps out at his command,
And ready Nature waits upon his Hand;
When the ripe Colours soften and unite,
And sweetly melt into just Shade and Light,
When mellowing Years their full Perfection give,
And each Bold Figure just begins to Live;
The treach’rous Colours the fair Art betray,
And all the bright Creation fades away!

Unhappy Wit, like most mistaken Things,
Attones not for that Envy which it brings.
In Youth alone its empty Praise we boast,
But soon the Short-liv’d Vanity is lost!
Like some fair Flow’r the early Spring supplies,
That gaily Blooms, but ev’n in blooming Dies.
What is this Wit which must our Cares employ?
The Owner’s Wife, that other Men enjoy,
Then most our Trouble still when most admir’d,
And still the more we give, the more requir’d;
Whose Fame with Pains we guard, but lose with Ease,
Sure some to vex, but never all to please;
‘Tis what the Vicious fear, the Virtuous shun;
By Fools ’tis hated, and by Knaves undone!

If Wit so much from Ign’rance undergo,
Ah let not Learning too commence its Foe!
Of old, those met Rewards who cou’d excel,
And such were Prais’d who but endeavour’d well:
Tho’ Triumphs were to Gen’rals only due,
Crowns were reserv’d to grace the Soldiers too.
Now, they who reached Parnassus’ lofty Crown,
Employ their Pains to spurn some others down;
And while Self-Love each jealous Writer rules,
Contending Wits becomes the Sport of Fools:
But still the Worst with most Regret commend,
For each Ill Author is as bad a Friend.
To what base Ends, and by what abject Ways,
Are Mortals urg’d thro’ Sacred Lust of praise!
Ah ne’er so dire a Thirst of Glory boast,
Nor in the Critick let the Man be lost!
Good-Nature and Good-Sense must ever join;
To err is Humane; to Forgive, Divine.

But if in Noble Minds some Dregs remain,
Not yet purg’d off, of Spleen and sow’r Disdain,
Discharge that Rage on more Provoking Crimes,
Nor fear a Dearth in these Flagitious Times.
No Pardon vile Obscenity should find,
Tho’ Wit and Art conspire to move your Mind;
But Dulness with Obscenity must prove
As Shameful sure as Importance in Love.
In the fat Age of Pleasure, Wealth, and Ease,
Sprung the rank Weed, and thriv’d with large Increase;
When Love was all an easie Monarch’s Care;
Seldom at Council, never in a War:
Jilts rul’d the State, and Statesmen Farces writ;
Nay Wits had Pensions, and young Lords had Wit:
The Fair sate panting at a Courtier’s Play,
And not a Mask went un-improv’d away:
The modest Fan was liked up no more,
And Virgins smil’d at what they blush’d before–
The following Licence of a Foreign Reign
Did all the Dregs of bold Socinus drain;
Then Unbelieving Priests reform’d the Nation,
And taught more Pleasant Methods of Salvation;
Where Heav’ns Free Subjects might their Rights dispute,
Lest God himself shou’d seem too Absolute.
Pulpits their Sacred Satire learn’d to spare,
And Vice admir’d to find a Flatt’rer there!
Encourag’d thus, Witt’s Titans brav’d the Skies,
And the Press groan’d with Licenc’d Blasphemies–
These Monsters, Criticks! with your Darts engage,
Here point your Thunder, and exhaust your Rage!
Yet shun their Fault, who, Scandalously nice,
Will needs mistake an Author into Vice;
All seems Infected that th’ Infected spy,
As all looks yellow to the Jaundic’d Eye.
III
LEARN then what MORALS Criticks ought to show,
For ’tis but half a Judge’s Task, to Know.
‘Tis not enough, Taste, Judgment, Learning, join;
In all you speak, let Truth and Candor shine:
That not alone what to your Sense is due,
All may allow; but seek your Friendship too.

Be silent always when you doubt your Sense;
And speak, tho’ sure, with seeming Diffidence:
Some positive persisting Fops we know,
Who, if once wrong, will needs be always so;
But you, with Pleasure own your Errors past,
An make each Day a Critick on the last.

‘Tis not enough your Counsel still be true,
Blunt Truths more Mischief than nice Falsehood do;
Men must be taught as if you taught them not;
And Things unknown propos’d as Things forgot:
Without Good Breeding, Truth is disapprov’d;
That only makes Superior Sense belov’d.

Be Niggards of Advice on no Pretence;
For the worst Avarice is that of Sense:
With mean Complacence ne’er betray your Trust,
Nor be so Civil as to prove Unjust;
Fear not the Anger of the Wise to raise;
Those best can bear Reproof, who merit Praise.

‘Twere well, might Criticks still this Freedom take;
But Appius reddens at each Word you speak,
And stares, Tremendous! with a threatning Eye
Like some fierce Tyrant in Old Tapestry!
Fear most to tax an Honourable Fool,
Whose Right it is, uncensur’d to be dull;
Such without Wit are Poets when they please.
As without Learning they can take Degrees.
Leave dang’rous Truths to unsuccessful Satyrs,
And Flattery to fulsome Dedicators,
Whom, when they Praise, the World believes no more,
Than when they promise to give Scribling o’er.
‘Tis best sometimes your Censure to restrain,
And charitably let the Dull be vain:
Your Silence there is better than your Spite,
For who can rail so long as they can write?
Still humming on, their drowzy Course they keep,
And lash’d so long, like Tops, are lash’d asleep.
False Steps but help them to renew the Race,
As after Stumbling, Jades will mend their Pace.
What Crouds of these, impenitently bold,
In Sounds and jingling Syllables grown old,
Still run on Poets in a raging Vein,
Ev’n to the Dregs and Squeezings of the Brain;
Strain out the last, dull droppings of their Sense,
And Rhyme with all the Rage of Impotence!

Such shameless Bards we have; and yet ’tis true,
There are as mad, abandon’d Criticks too.
The Bookful Blockhead, ignorantly read,
With Loads of Learned Lumber in his Head,
With his own Tongue still edifies his Ears,
And always List’ning to Himself appears.
All Books he reads, and all he reads assails,
From Dryden’s Fables down to Durfey’s Tales.
With him, most Authors steal their Works, or buy;
Garth did not write his own Dispensary.
Name a new Play, and he’s the Poet’s Friend,
Nay show’d his Faults–but when wou’d Poets mend?
No Place so Sacred from such Fops is barr’d,
Nor is Paul’s Church more safe than Paul’s Church-yard:
Nay, fly to Altars; there they’ll talk you dead;
For Fools rush in where Angels fear to tread.
Distrustful Sense with modest Caution speaks;
It still looks home, and short Excursions makes;
But ratling Nonsense in full Vollies breaks;
And never shock’d, and never turn’d aside,
Bursts out, resistless, with a thundering Tyde!

But where’s the Man, who Counsel can bestow,
Still pleas’d to teach, and not proud to know?
Unbiass’d, or by Favour or by Spite;
Not dully prepossest, nor blindly right;
Tho’ Learn’d well-bred; and tho’ well-bred, sincere;
Modestly bold, and Humanly severe?
Who to a Friend his Faults can freely show,
And gladly praise the Merit of a Foe?
Blest with a Taste exact, yet unconfin’d;
A Knowledge both of Books and Humankind;
Gen’rous Converse; a Sound exempt from Pride;
And Love to Praise, with Reason on his Side?

Such once were Criticks, such the Happy Few,
Athens and Rome in better Ages knew.
The mighty Stagyrite first left the Shore,
Spread all his Sails, and durst the Deeps explore;
He steer’d securely, and discover’d far,
Led by the Light of the Maeonian Star.
Poets, a Race long unconfin’d and free,
Still fond and proud of Savage Liberty,
Receiv’d his Laws, and stood convinc’d ’twas fit
Who conquer’d Nature, shou’d preside o’er Wit.

Horace still charms with graceful Negligence,
And without Method talks us into Sense,
Will like a Friend familarly convey
The truest Notions in the easiest way.
He, who Supream in Judgment, as in Wit,
Might boldly censure, as he boldly writ,
Yet judg’d with Coolness tho’ he sung with Fire;
His Precepts teach but what his Works inspire.
Our Criticks take a contrary Extream,
They judge with Fury, but they write with Fle’me:
Nor suffers Horace more in wrong Translations
By Wits, than Criticks in as wrong Quotations.

See Dionysius Homer’s Thoughts refine,
And call new Beauties forth from ev’ry Line!

Fancy and Art in gay Petronius please,
The Scholar’s Learning, with the Courtier’s Ease.

In grave Quintilian’s copious Work we find
The justest Rules, and clearest Method join’d;
Thus useful Arms in Magazines we place,
All rang’d in Order, and dispos’d with Grace,
But less to please the Eye, than arm the Hand,
Still fit for Use, and ready at Command.

Thee, bold Longinus! all the Nine inspire,
And bless their Critick with a Poet’s Fire.
An ardent Judge, who Zealous in his Trust,
With Warmth gives Sentence, yet is always Just;
Whose own Example strengthens all his Laws,
And Is himself that great Sublime he draws.

Thus long succeeding Criticks justly reign’d,
Licence repress’d, and useful Laws ordain’d;
Learning and Rome alike in Empire grew,
And Arts still follow’d where her Eagles flew;
From the same Foes, at last, both felt their Doom,
And the same Age saw Learning fall, and Rome.
With Tyranny, then Superstition join’d,
As that the Body, this enslav’d the Mind;
Much was Believ’d, but little understood,
And to be dull was constru’d to be good;
A second Deluge Learning thus o’er-run,
And the Monks finish’d what the Goths begun.

At length, Erasmus, that great, injur’d Name,
(The Glory of the Priesthood, and the Shame!)
Stemm’d the wild Torrent of a barb’rous Age.
And drove those Holy Vandals off the Stage.

But see! each Muse, in Leo’s Golden Days,
Starts from her Trance, and trims her wither’d Bays!
Rome’s ancient Genius, o’er its Ruins spread,
Shakes off the Dust, and rears his rev’rend Head!
Then Sculpture and her Sister-Arts revive;
Stones leap’d to Form, and Rocks began to live;
With sweeter Notes each rising Temple rung;
A Raphael painted, and a Vida sung!
Immortal Vida! on whose honour’d Brow
The Poet’s Bays and Critick’s Ivy grow:
Cremona now shall ever boast thy Name,
As next in Place to Mantua, next in Fame!

But soon by Impious Arms from Latium chas’d,
Their ancient Bounds the banish’d Muses past:
Thence Arts o’er all the Northern World advance,
But Critic Learning flourish’d most in France.
The Rules, a Nation born to serve, obeys,
And Boileau still in Right of Horace sways.
But we, brave Britons, Foreign Laws despis’d,
And kept unconquer’d and unciviliz’d,
Fierce for the Liberties of Wit, and bold,
We still defy’d the Romans as of old.
Yet some there were, among the sounder Few
Of those who less presum’d, and better knew,
Who durst assert the juster Ancient Cause,
And here restor’d Wit’s Fundamental Laws.
Such was the Muse, whose Rules and Practice tell,
Nature’s chief Master-piece is writing well.
Such was Roscomon–not more learn’d than good,
With Manners gen’rous as his Noble Blood;
To him the Wit of Greece and Rome was known,
And ev’ry Author’s Merit, but his own.
Such late was Walsh,–the Muse’s Judge and Friend,
Who justly knew to blame or to commend;
To Failings mild, but zealous for Desert;
The clearest Head, and the sincerest Heart.
This humble Praise, lamented Shade! receive,
This Praise at least a grateful Muse may give!
The Muse, whose early Voice you taught to Sing,
Prescrib’d her Heights, and prun’d her tender Wing,
(Her Guide now lost) no more attempts to rise,
But in low Numbers short Excursions tries:
Content, if hence th’ Unlearned their Wants may view,
The Learn’d reflect on what before they knew:
Careless of Censure, not too fond of Fame,
Still pleas’d to praise, yet not afraid to blame,
Averse alike to Flatter, or Offend,
Not free from Faults, nor yet too vain to mend.

‘Tis hard to say, if greater want of skill
Appear in writing or in judging ill;
But, of the two, less dang’rous is th’ offence
To tire our patience, than mislead our sense.
Some few in that, but numbers err in this,
Ten censure wrong for one who writes amiss;
A fool might once himself alone expose,
Now one in verse makes many more in prose.

‘Tis with our judgments as our watches, none
Go just alike, yet each believes his own.
In poets as true genius is but rare,
True taste as seldom is the critic’s share;
Both must alike from Heav’n derive their light,
These born to judge, as well as those to write.
Let such teach others who themselves excel,
And censure freely who have written well.
Authors are partial to their wit, ’tis true,
But are not critics to their judgment too?

Yet if we look more closely we shall find
Most have the seeds of judgment in their mind;
Nature affords at least a glimm’ring light;
The lines, tho’ touch’d but faintly, are drawn right.
But as the slightest sketch, if justly trac’d,
Is by ill colouring but the more disgrac’d,
So by false learning is good sense defac’d;
Some are bewilder’d in the maze of schools,
And some made coxcombs Nature meant but fools.
In search of wit these lose their common sense,
And then turn critics in their own defence:
Each burns alike, who can, or cannot write,
Or with a rival’s, or an eunuch’s spite.
All fools have still an itching to deride,
And fain would be upon the laughing side.
If Mævius scribble in Apollo’s spite,
There are, who judge still worse than he can write.

Some have at first for wits, then poets pass’d,
Turn’d critics next, and prov’d plain fools at last;
Some neither can for wits nor critics pass,
As heavy mules are neither horse nor ass.
Those half-learn’d witlings, num’rous in our isle
As half-form’d insects on the banks of Nile;
Unfinish’d things, one knows not what to call,
Their generation’s so equivocal:
To tell ’em, would a hundred tongues require,
Or one vain wit’s, that might a hundred tire.

But you who seek to give and merit fame,
And justly bear a critic’s noble name,
Be sure your self and your own reach to know,
How far your genius, taste, and learning go;
Launch not beyond your depth, but be discreet,
And mark that point where sense and dulness meet.

Joaquina Pires-O’Brien

Resenha do livro The ark before Noah. Decoding the story of the flood (A arca antes de Noé. Descodificando a narrativa do dilúvio), de Irving Finkel. 421 pp. Hodder & Stroughton, London. 2014. ISBN: I 444 75705-7.

Irving Finkel, o autor do livro The ark before Noah (A arca antes de Noé), é um assiriologista e Curador Assistente (Assistant Keeper) do Museu Britânico, em cujo Departamento do Oriente Médio é encarregado da maior coleção de tabletes de barro de escrita cuneiforme do mundo. O seu livro é uma narrativa sobre uma grande caracola1 encomendada pelo deus mesopotâmico Enki a Atra-hasīs, ‘o Noé babilônico,’ a fim de que este salvasse de um dilúvio iminente, ele próprio e sua família, e todas as espécies de animais. Tal narrativa foi gravada em escrita cuneiforme num tablete de barro do tamanho de um telefone celular, datado entre 1900 e 1700 a.C.; precedendo, portanto, em mais de mil anos, a narrativa da arca de Noé contida no livro do Gênesis da Bíblia dos hebreus.

Segundo Finkel, a escrita cuneiforme é bastante complexa, pois os seus símbolos podem significar tanto sílabas quanto palavras ou até frases. Por exemplo, a palavra būlu pode significar ‘manada de bois, de ovelhas ou cavalos’, ‘animais selvagens’ ou ‘manada de quadrúpedes’. Outros dois exemplos são umãmu, que significa ‘animal ou besta’, mas não necessariamente selvagem, e nammaššû, que significa ‘manada de animais (selvagens)’.

Num parágrafo explicativo, a escrita cuneiforme surgiu em Uruk (Ur ou Erech na Bíblia), na Suméria, entre 3500 e 3000 a.C. Da Suméria, foi adotada inicialmente pelo reino da Acádia, onde sofreu algumas modificações pelos elamitas, huritas, hititas, urartianos e diversos outros povos. Essa escrita é intermediária entre a pictografia –que inclui os hieróglifos egípcios, hititas e cretenses –, e a escrita alfabética que surgiu na Fenícia – uma das civilizações do mundo antigo formada por cidades-Estado independentes que se situavam na costa do Mediterrâneo e que se estendiam para onde é hoje a Síria, o Líbano e o norte de Israel, em torno do ano 1400 a.C. O local aceito como o do desenvolvimento do alfabeto hebraico a partir do alfabeto fenício é o vale do Canaã, que cobria não só a Judeia mas também uma boa parte da Fenícia.

Finkel não foi o primeiro a descobrir a narrativa do dilúvio em escrita cuneiforme, pertencente ao épico babilônico Gilgamesh – a história do rei de Uruk, da Suméria, que reinou entre 2700 e 2600 a.C., e que foi preservada oralmente até a invenção da escrita cuneiforme. Conforme ele próprio explica no seu livro, um outro tablete sobre o dilúvio foi decifrado na segunda metade do século dezenove por George Smith, que também trabalhava no Museu Britânico. O tablete que Smith decifrou foi encontrado, entre 1845 e 1851, nas escavações arqueológicas do sítio do antigo palácio de Assurbanipal, rei da Assíria entre 668 e 627 a.C. A descoberta de Smith foi anunciada em 3 de dezembro de 1872, no congresso da Sociedade de Arqueologia Bíblica, em Londres. Esta sociedade era uma das muitas iniciativas voltadas à pesquisa bíblica que existiam na Inglaterra vitoriana. Diferentemente da pesquisa científica que é conduzida sem preconceito (pelo menos na teoria), as pesquisas bíblicas eram quase sempre motivadas pelo desejo de seus ricos patronos de encontrar a fonte divina da Bíblia. Portanto, não é de admirar que o anúncio de Smith, em 1872, não teve o efeito esperado de mostrar a ligação entre o épico Gilgamesh e o livro do Gênesis. Para tal audiência, o antiquíssimo hábito humano de copiar não poderia de aplicar à Bíblia.

O tablete decifrado por Finkel, que deu origem ao presente livro, não tem uma proveniência tão exata quanto o de Smith. Tendo sido adquirido por um oficial da Força Aérea Britânica chamado Leonardo Simmonds, que servia no Oriente Próximo no final da Segunda Guerra, o tablete foi herdado pelo seu filho Douglas Simmonds, que, em 1985, levou-o ao Museu Britânico para ser avaliado. O próprio Finkel examinou o tablete na ocasião quando percebeu que se tratava de uma cópia da narrativa do dilúvio do épico Gilgamesh. Depois disso, Finkel não teve mais contato com Simmonds até 2009, quando ele reconheceu este entre os visitantes da exibição especial ‘Babilônia: Mito e Realidade’, do Museu Britânico. Finkel foi ter com Simmonds, que se comprometeu a entregar o tablete ao Museu Britânico para que Finkel pudesse decifrá-lo. A decifração do tablete doado por Simmonds mostrou uma versão diferente daquela do tablete decifrado por Smith no século dezenove, especialmente pelo fato de conter instruções pormenorizadas sobre como a embarcação (a arca) deveria ser construída. Segundo Finkel, encontrar diferentes versões das mesmas narrativas é comum para as narrativas que foram preservadas durante muito tempo na história oral, antes de serem documentadas pela escrita.

Segundo a narrativa do ‘tablete da arca’ decifrado por Finkel, ‘quando os deuses decidiram exterminar a humanidade com um dilúvio, o deus Enki, que tinha senso de humor, vazou a informação para Atra-hasīs, e ordenou-o a construir uma arca’, no caso, uma enorme caracola de quase 230 pés de diâmetro, tamanho que equivale a dois terços de um campo de futebol. A embarcação era redonda e rasa, semelhante a uma gigantesca cesta flutuante, e deveria ser confeccionada com cordas de fibra de palma, reforçada por vigas de madeira em forma de ‘J’, e impermeabilizada com betume. O seu interior era dividido por paredes (formadas pelas escoras), a fim de criar compartimentos para separar os animais predadores de suas presas e possibilitar um deck superior. O deus também especifica que os animais deveriam entrar na arca de dois a dois.

A narrativa do dilúvio do épico Gilgamesh apresenta semelhanças e diferenças em relação à narrativa similar da Bíblia. No caso das semelhanças, há duas aves que foram soltas para procurar terra seca. No caso das dessimilaridades, há a motivação do castigo: a algazarra dos homens, no Gilgamesh, e a corrupção moral dos homens, na Bíblia. E por falar em Bíblia, o ‘povo hebreu’ ou os ‘israelitas’ nela mencionados são designados neste livro como ‘judeus’ (Judeans, em inglês) –note-se que essa palavra é usada aqui com o sentido de indivíduos originários da Judeia e não no sentido do judaísmo, já que esta religião cristalizou-se posteriormente à compilação das escrituras que constituem a Bíblia. Na interpretação de Finkel, a narrativa bíblica do dilúvio foi tirada da literatura babilônica pelos ‘judeus’, que tiveram a oportunidade e a motivação para isso. A oportunidade surgiu durante o exílio deles na Babilônia, imposto por Nabucodonosor II em 587 a.C, em cuja corte eles teriam aprendido a escrita cuneiforme. A língua não devia ser um problema para eles, visto que o hebraico (falado pelo povo em geral) e o aramaico (falado principalmente pelas pessoas mais instruídas) são línguas afins do babilônico. Finkel também afirma que, no acervo de tabletes cuneiformes, há muitos que comprovadamente foram usados no ensino oficial, incluindo o épico Gilgamesh, que inclui outras narrativas além da do dilúvio, como a lenda do rei Sargão, muito similar à história de Moisés. A motivação dos ‘judeus’ é a necessidade que tinham de criar uma identidade durante o exílio na Babilônia. Com a destruição da cidade e do famoso templo de Jerusalém, os ‘judeus’ não tinham nada de substancial para definir a sua identidade cultural, pois a sua religião, que girava em torno de um deus único e onipotente, proibia as contumazes parafernálias de efeito confortante. Segundo Finkel, faz sentido que, durante os seus 48 anos de exílio na Babilônia, os ‘judeus’ tenham decidido construir a sua história, nem que fosse na forma oral. Também faz sentido que tenham incorporado, nessa história oral, algumas das coisas que assimilaram durante o exílio na Babilônia. Entretanto, a história dos ‘judeus’, ou a futura Bíblia, ainda era uma história oral quando Ciro o Grande, que conquistou a Babilônia em 538, permitiu que eles deixassem a Babilônia e retornassem à Judeia, no vale do Canaã.

Tão interessantes quanto os pormenores da arca babilônica são os esclarecimentos de Finkel sobre o épico Gilgamesh, a influência da Babilônia junto aos exilados da Judeia e a atual reavaliação das prováveis datas de compleição dos livros da Bíblia hebraica. Um bom tempo se passou depois do retorno à Judeia, até que os primeiros livros da Bíblia hebraica fossem compilados. Conforme mostrado por Finkel, a evidência da influência babilônica na cultura dos ‘judeus’ está não só nas diversas narrativas bíblicas, como a do dilúvio, mas também na grande quantidade de palavras babilônicas incorporadas no vocabulário hebraico.

O livro The ark before Noah (A arca antes de Noé) é ricamente ilustrado, com imagens em preto e branco e a cores de tabletes cuneiformes, quadros, desenhos e fotografias. Apesar de conter muitos aspectos técnicos de linguística, o livro de Finkel é de fácil leitura, pois os aspectos mais técnicos e de interesse especial foram reunidos nos quatro apêndices do final. As contraposições entre os mitos babilônicos e as narrativas do livro do Gênesis são extremamente interessantes. Com este livro, Finkel dá uma importante contribuição para o melhor entendimento da história da civilização humana.
_____________________________________________________________________
Joaquina (Jo) Pires-O’Brien é a editora de PortVitoria, revista eletrônica voltada à falantes de português e espanhol, especialmente os que vivem fora de suas pátrias.
Nota:
1.Caracola. Conforme definido pelo Houaiss, caracola, coracola ou caracora é uma embarcação malaia de cabotagem, comprida, de fundo chato, com boca estreita e velas de esteira.

Citação
FINKEL, I. The Ark before Noah: decoding the story of the flood. London, Hodder & Stoughton, 2014. ISBN 978-I-444-75705-7. Resenha de: PIRES-O’BRIEN, J. A arca e o dilúvio mesopotâmico e suas implicações. PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Juan José Morales

Resenha do livro The sea and civilization (O mar e a civilização), de Lincoln Paine. Knopf, New York, Outubro 2013; Atlantic Books, Londres, 2014. ISBN: 978-1-78239-355-9.

Embora mais de setenta por cento da superfície da terra seja coberta por água, de modo geral não é percebido ou aceito que a história do mundo é, de fato, uma história marítima. O livro The sea and civilization (O mar e a civilização) de Lincoln Paine busca corroborar isso. Trata-se de uma obra ambiciosa de mais de 700 páginas lotadas de fatos e dos pormenores que contam a história da humanidade pela perspectiva da nossa relação com os oceanos e mares, bem como com os lagos, rios e canais. Nesse livro, Paine procura mostrar que as inter-relações e as influências mútuas entre o homem e o mar são a condição prevalente na história do mundo, e não a exceção. O sucesso desse esforço reside no fato de que a ideia implícita de que a relação do homem com o mar tem sido uma força propulsora da história humana torna-se evidente no final do livro.

Tomando inspiração no clássico e influente livro The Mediterranean and the Mediterranean world in the age of Philip II (O Mediterrâneo e o mundo Mediterrâneo na era de Felipe II) de Fernand Braudel, Paine explora a tendência recente na análise das inter-relações entre a geografia, a economia, a política, as historiografias militar e cultural, e o papel específico do mar e da água.

Os navegadores avançados mais antigos foram provavelmente os habitantes da Melanésia, Micronésia e da Polinésia, embora o modo como eles atingiram as ilhas mais remotas do Pacífico permanece um enigma. Assim como noutras áreas da história antiga, o nosso conhecimento é limitado pela escassez de registros, por sua vez agravados pela improbabilidade de encontrar relíquias submersas e pelas dificuldades da arqueologia marinha.

As evidências se tornam mais claras nos períodos históricos mais próximos do nosso próprio, permitindo-nos ganhar uma razoável compreensão do panorama total, desde as canoas de casca de bétula dos remadores indígenas da América do Norte, as embarcações de peles do Ártico, aos intrépidos Vikings e suas explorações desde o Mediterrâneo até onde é hoje a Newfoundland no Canada.

Em nenhum outro local as condições para a interação cultural foram mais favoráveis do que no Mediterrâneo; a sua natureza circunscrita e as suas curtas distâncias, bem como as suas previsíveis correntes e ventos, foram cruciais para as civilizações que ali floresceram durante milênios. A vela é sabida como tendo surgida por volta de 3000 a.C. no Egito. Os mastros duplos foram empregados primeiramente pelos etruscos. Os fenícios expandiram para o oeste a sua malha de comércio em competição com os gregos, e foram os primeiros a construir embarcações diferentes para o comércio e para a guerra.

Não é de se surpreender que a história marítima do mundo rapidamente se transformasse na história do comércio internacional, pois os instrumentos financeiros e legais voltados a facilitar a troca de mercadorias entre povos de culturas diferentes surgiram da conexão com o mar. Mercadorias básicas e de luxo, bem como, lamentavelmente, escravos, eram comercializadas pelo mar, que foi também o conduíte de ideias, religiões e da palavra escrita.

Dentre os vestígios mais antigos da língua grega encontra-se uma taça inscrita com os nomes ‘Nestor e Afrodite’, encontrada na ilha de Ischia na Baía de Nápoles; ela só poderia ter sido levada para lá num navio. As viagens marítimas são ressaltadas no épico Gilgamesh da Mesopotâmia antiga, cujos ecos foram deixados na Bíblia e nos dois Épicos de Homero, a Ilíada e a Odisseia. As narrativas budistas reunidas no Jataka são também uma importante fonte sobre as incursões marítimas indianas. E como exemplo dos conflitos humanos que tiveram por palco o mar, Ésquilo (c. 525-c. 456 a.C.) lutou na batalha de Salamis, e Cervantes (1547-1616) na do Lepanto.

O livro de Paine cobre também a rica porém mal conhecida história marítima dos Mares de Monções, do Oceano Índico e dos mares do Sudeste da Ásia.

A China é também abordada extensivamente: o surgimento e a expansão da civilização chinesa foram possíveis pelo aproveitamento dos rios Amarelo e Yangtse e pela construção de uma notável rede de canais. Esse conhecimento sobre a navegação interiorana mais tarde facilitaria a exposição da China ao mar aberto, permitindo que deixasse a sua pegada cultural, religiosa e política nas localidades vizinhas como o Japão, a Coreia e o Sudeste da Ásia. Os elementos não marinhos são sobrepostos à narrativa, alguns particularmente bem explicados, como a influência da curta dinastia Sui no florescimento de sua sucedânea, Tang, ou o contexto da represália contra o budismo ocorrida em meados do nono século.

The Sea and civilization é uma narrativa coerente das civilizações do mundo e não uma história da navegação. Embora os aspectos principais sobre os diversos tipos de embarcações e o desenvolvimento da tecnologia de embarcações estejam entremeados por toda a narrativa, a discussão acerca dos livros de navegação mais antigos é fragmentária; a bússola mereceu pelo menos uma entrada no índice mas a longitude, nenhuma, enquanto a relevante invenção do relógio marítimo é coberta por um só parágrafo, enquanto que o seu inventor, John Harrison, é mencionado apenas uma vez.

A tecnologia, entretanto, teve o seu papel e Paine dá à mesma o justo espaço, notando, por exemplo, a fundamental mudança na construção de navios ocorrida no Mediterrâneo no início da Idade Média, quando os construtores navais pararam de construir embarcações pelo casco, e passando a construí-las pela armação. Trata-se de um método muito mais prático e que, em última análise, permitiu a expansão europeia através do Atlântico e mais além, até à Ásia.

Não é difícil concordar com o autor quando ele ressalta como sendo os principais feitos da navegação de todas as épocas, a travessia do Atlântico de Colombo em 1492, a viagem de Vasco da Gama à Índia através do Cabo da Boa Esperança em 1498, a expedição Magalhães-Elcano de circumnavegação da Terra de 1519 a 1522; e a primeira travessia oeste-leste do Pacífico por Urdaneta em 1565.

Na idade da navegação a velas, os feitos acima listados não foram fáceis pois ocorreram antes de Urdaneta ter descoberto as correntes e ventos certos, quando muitos tripulantes espanhóis se perderam no mar. No fim das contas, tais viagens inauguraram a era da verdadeira interdependência global.

E o mundo desse ponto em diante, se não ficou necessariamente melhor, passou a ser melhor compreendido. A humanidade caminhou da adaptação e domínio dos mares para, no presente, pôr em perigo o ambiente marinho que nutriu, em primeiro lugar, a civilização. Este livro é uma convocação para salvá-lo.
_________________________________________________________________________
Juan José Morales é um advogado e consultor espanhol que escreve para a revista espanhola Compromiso Empresarial. Ex-Presidente da Câmara Espanhola do Comércio em Hong Kong, Morales estudou relações internacionais na Peking University (Beida) e possui um mestrado em Assuntos Internacionais e Públicos pela Universidade de Hong Kong.

Republicado de
© 2014 Asian Review of Books &
Juan José Morales
http://www.asianreviewofbooks.com/?ID=1854#

Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien

Como citar este artigo:
PAINE, l. The sea and civilization: A maritime history of the world. London, Atlantic Books, 2014. Resenha de: MORALES, J. J. Os mares de ontem e de hoje.  PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Zenaide Ragozin

Não importa o quanto regressamos ao passado, os povos que encontramos habitando qualquer país no alvorecer da tradição – sempre se pode mostrar – vieram de algum outro lugar e também não foram os primeiros a ali chegar. Z. Ragozin

Os homens, quaisquer que sejam seus interesses ou negócios, só podem viver de duas maneiras: ou permanecer onde estão, ou vagar de um lugar para outro. No atual estado do mundo, nós geralmente fazemos um pouco das duas coisas. Existe um lugar, seja na cidade, na vila, ou no campo, onde temos a nossa casa e o nosso trabalho. De tempos em tempos nós vamos para outros lugares, para visitar ou a negócios, ou então, nós viajamos por um determinado tempo para os mais diversos lugares, percorrendo grandes distâncias, por instrução e por prazer. Entretanto, existe sempre algum lugar que consideramos ser a nossa casa e para o qual retornamos.

Viajar ou vagar não é a nossa condição natural ou permanente. Mas, existem culturas para as quais isso é assim. Os árabes beduínos constituem a mais importante e melhor conhecida dessas culturas. Quem não leu com prazer as narrativas de suas vidas selvagens nos desertos da Arábia e do Norte da África, tão cheias de aventuras e romance, sobre os seus maravilhosos e inestimáveis cavalos, que para eles são como os seus próprios filhos, sobre as suas nobres qualidades, bravura, hospitalidade e generosidade, tão estranhamente misturadas ao seu apego à pilhagem e à paixão por assaltar caravanas? Eles não se tornaram assaltantes e ladrões por escolha própria, mas pelas características de seu país. A sua condição de nômades, como tais raças vagantes são chamadas na história e na geografia, deve-se ao fato de que é impossível construir cidades nas areias do deserto, onde as pequenas manchas de pastagens e de palmeiras, mantidas frescas e verdes por fontes isoladas, os oásis, são demasiadamente distantes uns dos outros e distantes demais das regiões permanentemente habitadas para sustentar assentamentos. No sul da Arábia e ao longo da costa, onde a terra é fértil e convidativa, eles vivem de uma maneira bem parecida com as demais nações. E, há mil anos atrás, quando os árabes conquistaram países vastos e ricos na Europa, Ásia e na África, eles não só se transformaram em agricultores e pecuaristas exemplares, como também construíram algumas das melhores cidades do mundo, implementaram leis sábias e bem cumpridas, e assumiram a liderança na literatura e na ciência.

Bem diferentes são as dispersas tribos dos nômades que ainda vagueiam pelas estepes do leste da Rússia, da Sibéria e da Ásia Central. Tais tribos não são tão bem-dotadas quanto as dos árabes, mas provavelmente se fixariam rapidamente na agricultura, se não fosse pelo fato de que a sua riqueza consiste em rebanhos de carneiros e de cavalos, que requerem a abundante pastagem das estepes. Como eles vivem do leite de suas éguas e da carne de suas ovelhas, quando a forragem da estepe onde estão se esgota, eles se mudam para outra estepe, e assim sucessivamente, carregando consigo suas tendas de feltro e seus simples utensílios. Já as tribos de índios do oeste norte-americano apresentam um outro aspecto da vida nômade: a do caçador, feroz e totalmente indomado; são os mais simples e selvagens de todos os nômades.

De um modo geral, a vida nômade no dia de hoje é uma exceção. Na maior parte das nações que não são selvagens, as pessoas vivem em casas, e não em tendas portáveis; em cidades, e não em acampamentos; e formam comunidades compactas e solidamente interligadas, e não conjuntos soltos de tribos que são ora amigáveis ora hostis umas com as outras. Mas, isso nem sempre foi assim. Já houve tempos em que a vida assentada era a exceção e a vida nômade a norma. E, quanto mais para trás nos tempos, menor é a quantidade de comunidades permanentes e maior é a quantidade de tribos vagantes. O nomadismo em busca de melhores lugares deve ter sido um dos primeiros impulsos do Homo sapiens.

Mesmo quando o homem não tinha abrigos, mas apenas cavernas, e nenhuma meta a não ser caçar animais, cuja carne lhes servia de alimento e cujas peles lhes serviam de vestimenta, eles frequentemente partiam, em famílias ou bandos, a fim de escapar de um ambiente demasiadamente infestado por animais selvagens de grandes dimensões – os quais, durante um tempo povoavam a Terra mais densamente do que os homens –, ou simplesmente porque a quantidade de moradores da caverna tinha se tornado grande demais para acomodar todos eles. Esta última alternativa deve ter sido uma ocorrência bastante frequente: as famílias permaneciam juntas até o momento em que não havia mais espaço, ou que brigavam, quando então elas se separavam. Os que partiam nunca mais veriam o lugar e os parentes que deixaram, embora carregassem consigo as lembranças de ambos, as poucas e simples artes que aprenderam e os costumes que adquiriram. Eles parariam em algum lugar que fosse bom para ficar, do qual partiriam depois de um certo tempo, e o mesmo processo se repetiria sucessivamente.

Como é que o primeiro cavalo foi conquistado, e o primeiro cão selvagem foi domado e acomodado? Como é que o gado foi aliciado para dar ao homem o seu leite, depender do seu cuidado e seguir os seus movimentos? Quem poderia responder? Qualquer que seja a forma como isso aconteceu, é certo que a transição entre a vida selvagem, irregular e quase que totalmente desprovida de leis do caçador, e as atividades mais amenas da vida pastoral deve ter sido causada por enormes mudanças de hábitos e de temperamentos. O sentimento de posse, considerado um dos principais promotores da sociedade organizada, possivelmente se desenvolveu rapidamente com acumulação de riqueza em termos de ovelhas e cavalos, os principais bens das culturas nômades. Entretanto, tais bens não eram do tipo que incentivam o assentamento ou a união em comunidades fechadas; muito pelo contrário.

Os grandes rebanhos necessitam extensas áreas de pastagens. Além disso, é desejável mantê-los separados a fim de evitar confusões e disputas sobre os poços e as fontes, esses raros tesouros das estepes, que são passíveis de ser exauridos ou de secar, o que torna improvável que um dono de rebanho o compartilhe com outro, mesmo quando o outro pertence à sua própria cultura e linhagem. O livro do Gênesis, que na narrativa das vagueações de Abraão e de outros patriarcas hebreus nos dá um retrato tão fiel e animado da vida pastoral das nações antigas, preservou um incidente desse tipo na contenda entre os pastores de Abraão e os de seu sobrinho Lot, o que culminou na separação dos dois. Eis o que Abraão disse a Lot: ‘Não tens esta região toda diante de ti? Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores pela direita, irei pela esquerda’ (Gênesis 13, 7-11). A mesma coisa aconteceu com Esaú, que ‘emigrou para outra terra a fim de ficar longe de seu irmão Jacó, pois os seus rebanhos eram grandes demais para que pudessem permanecer juntos no mesmo lugar’ (Gênesis 36, 6-7). A separação era uma facilidade oferecida por aquelas imensas planícies, ainda não reivindicadas por nenhum povo em particular, e que deve ter evitado muita briga e derramamento de sangue. Entretanto, tal alternativa teria cessado a partir do momento em que alguma tribo, cansada de viver errando ou tentada por algum local mais atraente, ali se assentasse, tomando posse do mesmo para si própria, e demarcando as terras ao seu redor até onde os seus poderes permitissem.

Mesmo hoje em dia, ainda existe no Leste da Europa, algo muito parecido com a modalidade de ocupação acima descrita. Trata-se do Império Turco-Otomano, que ainda é escassamente povoado em muitos lugares, onde há enormes glebas de terras devolutas, às vezes bastante férteis, as quais o governo está disposto a dar legalmente e para sempre, ao primeiro homem que tomar posse das mesmas, desde que as cultive. O governo não pede nenhum pagamento por tais terras, mas impõe impostos sobre as mesmas assim que alguém as reivindique e a terra comece a produzir.

A vida do pastor nômade, assim como a do caçador, é uma vida singularmente livre, tanto de restrições quanto, em termos comparativos, de labuta, já que vigiar e cuidar de rebanhos não é uma ocupação laboriosa, e nenhuma autoridade consegue sempre alcançar ou impor-se pesadamente sobre pessoas que hoje estão aqui e amanhã estarão acolá. Portanto, apenas no terceiro estágio da existência humana, o agrícola, é que a civilização realmente começa, pois tal estágio não consegue existir sem moradas permanentes e sem governo.

A propriedade do agricultor marcou o começo do Estado da mesma forma que a fornalha ou lareira marcou o início da família. As diversas atividades do campo, a casa, o processamento do leite, tudo isso requer muita mão de obra e uma distribuição de funções muito bem regulada, a fim de permitir que diversas gerações da família do colonizador permaneçam juntas na mesma fazenda. A vida em comum faz com que seja absolutamente necessário ter um conjunto de regras simples sobre a administração da casa, para prevenir disputas, manter a ordem e a harmonia, e resolver as questões sobre direitos e deveres mútuos. E, quem poderia impor tais regras senão o chefe da família ou o próprio fundador da linhagem, no caso, o patriarca?

E quando a família se torna numerosa demais para ser mantida pela propriedade original e uma parte da mesma tem que encontrar um novo lugar para si, isso não ocorre como nas épocas primitivas dos nômades, quando o desmembramento requeria o rompimento de todos os laços. A parte desmembrada simplesmente cria uma nova unidade familiar num pedaço de terra da família, ou toma posse de um novo pedaço de terra um pouco mais distante, mas a que ainda é fácil de se chegar. No primeiro caso, a terra, que era de propriedade comum, é subdividida em lotes, os quais passam a pertencer aos membros que se separaram do núcleo antigo. Mas, mesmo assim, a autoridade do patriarca é mantida. Num próximo estágio, já há diversas fazendas ou herdades, que formam uma vila, e noutro estágio mais adiante, diversas vilas. Entretanto, a ligação de parentesco, por tradição e costume, é religiosamente preservada, assim como a subordinação ao chefe comum do clã, cujos poderes aumentam à medida que a comunidade cresce em termos de quantidade de habitantes e de extensão de terra.

À medida que os relacionamentos, as propriedades, e as heranças ficar mais complicadas e demandam mais leis e um governo mais restrito, o então Patriarca se torna menos um Pai e mais um Rei. A partir desse estágio é que começam a surgir embates entre assentamentos vizinhos semelhantes, amigos ou hostis, resultando em alianças ou disputas, comércio ou guerra. Nesse estágio, então, nós temos o Estado completo, dotado de organização interna e de política externa. No seu maior desenvolvimento, este estágio da cultura se funde ao quarto e último, o da construção de cidades e da vida nas cidades.

O quarto estágio da cultura ocorre quando indivíduos de uma mesma etnia, conscientes de terem uma origem comum mesmo sendo praticamente estranhos uns aos outros, formam assentamentos de grande escala, que, quando contidos dentro de muralhas, tornam-se locais de refúgio e de defesa, e centros de comércio, indústria e do governo. O início desse estágio se dá pela necessidade de uma especialização ainda maior da mão de obra, decorrente das necessidades de melhorias contínuas por parte das comunidades maiores, nas quais as famílias já não conseguem mais produzir tudo aquilo de que precisam, e uma parte da população especializa-se na manufatura e nas artes, ocupações que são melhor desempenhadas nas cidades, enquanto que o restante continua a cultivar a terra e a criar o gado. Os dois tipos de produtos, os da natureza e os que derivam de mãos e cérebros habilidosos, são permutados uns pelos outros, ou, depois da invenção da moeda, trocados através desse veículo mais conveniente. Da mesma maneira, quando as atribuições do governo tornam-se muito diversas e demasiadamente complicadas para um só homem, o antigo Patriarca, agora Rei, é obrigado a cercar-se de assistentes, em geral os anciões do clã ou da tribo, ou pessoas de sua própria escolha, as quais são mandadas para lugares diferentes, a fim de governar em nome do Rei e sob a autoridade deste. Naturalmente, a cidade, onde o Rei e seus ministros e oficiais mais imediatos residem, torna-se a mais importante, a capital do Estado.

De maneira alguma isso significa que as pessoas, uma vez assentadas, nunca mais vão deixar o seu país adotado. O instinto migratório não morreu de todo, e o nosso próprio gosto de viajar prova isso. Mas, na antiguidade, não era muito infrequente que as tribos numerosas, e até porções de nações, partiam sempre em busca de novos lugares para morar e fundavam novas cidades. Várias coisas compeliam isso, desde o aumento gradativo da população do velho país, discordâncias internas, ou invasões de tribos nômades de outra etnia. No último caso, os antigos colonizadores decidiam retirar-se antes mesmo da chegada dos invasores, pois, se ficassem, poderiam ser massacrados ou submetidos a uma terrível subjugação. Tais invasões, naturalmente, também poderiam ser feitas com o mesmo resultado por exércitos normais, liderados por reis e generais de outro local ou país organizado. As alternativas da servidão e da emigração devem ter sido oferecidas a miude na antiguidade, e a opção pela última certamente foi impulsionada pelo inato espírito de aventura do homem, tentado pelas muitas regiões inexploradas que ainda existiam nas épocas mais remotas.

Assim foi o início das nações. Não há outro modo. Mas, existe ainda uma outra observação que quase nunca se vai provar ser errada. Não importa o quanto regressamos ao passado, os povos que encontramos habitando qualquer país no alvorecer da tradição – sempre se pode mostrar – vieram de algum outro lugar e também não foram os primeiros a ali chegar. Todas as levas de nômades ou de aventureiros, que passa por um país ou que ali param e se assentam, sempre descobrem que tal país já está ocupado. O fato é que as populações mais antigas eram raramente aniquiladas ou deslocadas pelos recém-chegados. Pelo menos uma porção permanecia, inicialmente como uma etnia subjugada, mas que com o tempo acabava se misturando aos novos ocupantes, principalmente através de casamentos. E, mais uma vez, se os recém-chegados fossem de paz e houvesse espaço suficiente, o que acontecia nos primeiros tempos, eles frequentemente seriam forçados a formar assentamentos separados e a viver da terra, onde ficariam numa condição subordinada. Alternativamente, se os recém-chegados fossem de uma cultura mais refinada e mais bem-dotada, eles rapidamente assumiriam uma posição de ascendência e ensinariam aos colonos mais antigos as suas próprias artes e ideias, os seus hábitos e as suas leis. No caso da nova colônia ter sido criada pela conquista, os arranjos eram curtos e simples: os conquistadores, embora menos numerosos, se estabeleciam imediatamente como mestres e formavam a nobreza governante, uma espécie de aristocracia. Por sua vez, os antigos donos da terra, ou pelo menos aqueles que optaram por não emigrar, transformavam-se naquilo que pode ser designado como ‘o povo comum’, obrigado a servir e a pagar tributos ou impostos aos seus novos mestres.

De uma maneira geral, todos os países já experimentaram, em épocas diferentes, todas essas modalidades de invasão. Assim sendo, todas as nações surgiram de forma gradual, como camadas sucessivas, e frequentemente incorporaram elementos bastante diferentes, aos quais se amalgamaram ou dos quais se mantiveram separados, conforme as circunstâncias. A história inicial da Caldeia é, em particular, uma boa ilustração de tudo o que foi dito acima.


Zénaïde A. Ragozin (1835 – 1924) é uma russa-americana, autodidata em história e escritora, que imigrou para os Estados Unidos em 1874. Ela é autora de diversos artigos publicados em revistas russas e norte-americanas, sendo também membro da Sociedade Oriental Americana, da Sociedade Etnológica e do Ateneu Oriental, de Paris, e do Instituto Victoria, de Londres. Seus trabalhos mais importantes são The story of Chaldea (New York, 1886); The story of Assyria (1887); e The story of Media, Babylon, and Persia” (1888), todos da série Story of the Nations.

Nota
O presente artigo foi extraído do livro de Zénaïde A. Ragozin intitulado Chaldaea. From the Earliest Times to the Rise of Assyria (Caldeia. Dos Primórdios ao Surgimento da Assíria). T Fisher Unwin, London, e G P Putnam’s Sons, New York 4ª Edição. 1ª Edição 1886. O texto foi escolhido por dar uma interessante visão da história cultural do homem pela perspectiva de uma intelectual do XIX, e que cobre um momento histórico do mundo anterior ao cataclismo da Primeira Guerra Mundial, cujo início acaba de completar cem anos. O livro de Zénaïde A. Ragozin foi obtido através do Projeto Guttenberg: http://www.gutenberg.org/ebooks/24654

Versão portuguesa: Joaquina Pires-O’Brien (UK)
Revisão: Dévora Finamore (Brasil)

Como citar este artigo:

Home

Francisco Gijon

Between the VI and the V centuries BCE the panorama that the peoples from the East and the South of the Iberian Peninsula offered is the following: the kingdom of the Tartessians is no longer in existence. The Phoenicians finally managed to control the commerce of minerals, after having suppressed the Greek competence in the area of the Straight. To prevent that a new unitarian monarchy could repeat in the future the challenge that the Tartessians inflicted upon them in the past, the Phoenicians fomented the dismemberment of the kingdom into small principalities, whose collaboration they sought and stimulated individually by making them compete amongst themselves.

The Carthaginians, ethnic brothers of the Phoenicians, blocked to the Greeks the Mediterranean routes of the West through the creation of a maritime empire which would be supported in some places of the southern Hispanic coast and in the North African coast, in the isles of Ibiza, in Cerdagne and in Sicily, and naturally, Carthage. The Greeks from Massalia (Marseilles), who were focenses, would centre their interests in the Levantine region, the only one which they had access to by land and by sea. Its influx was quickly felt by the population of the Spanish Levant. Little by little, the kinglets of the Guadalquivir valley felt attracted to the advantages that the commerce with the Greeks offered to them. And it was this way, and not by any other way, that the so-called Iberian cultural circle began to crystallize.

The Greek authors called ‘Iberians’ the peoples of the South and of the Levant of our Penninsula, in order to distinguish them from the peoples of the interior, whose culture was different in every aspect. However, the range occupied by the true Iberians was much smaller. As a reference point, in spite of the anachronism, we should locate the Hercules Way, an ancient road that bordered the Gulf of Lion and the Levantine coast; from Italy it ran through Marseille and entered into the Guadalquivir valley. The legends, always Greeks, attributed its construction to Hercules, but this is a different story.

The place which one day would become the Low Languedoc and Roussillon, were inhabited by the Iberian Misegete tribes, that is, mestizos, for from what it appears, they were formed by a mixture of the local population, of Celtiligurian peoples and proper Iberians from the South, as a reflux caused by a previous penetration of the Celts in their territories. What is certain is that the Iberian presence in the South of France was confirmed during the discovery of the Montlaurés and Ensérune archaeological stations.

On the Mediterranean side of the Pyrenees, it is documented the existence of the Ceretans, who gave their name to the county of Cerdagne. The near side was settled by other tribes who left the footprint of their names in the region’s toponyms. Thus, the Castilians, the Andosins (Andorra valleys), the Airenosins (Aran valley), and the Jacetans (of Jaca). In the remaining of Cataluña lived other tribes, some of them properly Iberians, such as the Indigetes, the Layetans or the Cesetans, these last in the area of Tarragona. But there were also non-Iberian peoples, such as the Ausetans (in the area of ‘Vich’ or Barcelona) and the Bergistans (Berga and Barcelona). In the county of Tortosa, near the mouth of the Iberus (the Ebro), lived the Ilercaonnians, related, apparently, to other tribes from the interior such as the Ilergeteans (of Lerida, then called Ilergetania or Ilerda) owners of the Aragonian lands on the left bank of the Ebro river and the plains of Urgel.

On the Castellón plane and in Valencia lived the Edetans (Edeta corresponds to the present Liria). Further South, the Contestans would occupy the territory between the Jucar and the Segura rivers, snatched away, from what it seems, from the older Gimnetes settlers.

On the other side of the Segura river began the territory that in ancient times rotated around the Tartessians. The Mastiens, between the rivers Segura and Almeria, the Bastetans and the Bastuloes, subgroups with a common trunk who settled in Almeria and Granada and with a capital in Basti (nr. Baza), and the Oretans, mountain peoples who inhabited the current Jaen province.
The Curetans appear to have occupied the Despenhaperros region and the Auringis (New Jaen) region, and in the borders with the Bastetans, lived the Maesesseans. In the Guadalquivir river basin lived the Etmaeans and the Ileates in the zone between Córdoba and Seville, outflanked in the North by the Cempesians, of a Celt majority, which extended until the Guadiana river. As for the Turdetans, it is thought that they were settled in the areas of Seville and Cádiz, home of the old Tartessians. Their relatives, the Turdules, on the mountainous periphery zone of the Turdetan country. Towards West, many other peoples occupied the zones of the Algarve.


Francisco Gijon is the author of several history books, including Historia antigua de las Españas, from where this article was extracted.

Note
© Francisco Guijon
http://ordorenascendi.blogspot.co.uk/2011/07/la

Translated by: Joaquina Pires-O’Brien

How to cite this article:

Gijon, F. (2014). Who were the Iberians? PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Francisco Gijon

Entre os séculos VI e V a.C. o panorama que os povos do Leste e do Sul da Península Ibérica oferecem é o seguinte: o reino dos tartessos1 já não existe. Os fenícios finalmente conseguiram controlar o comércio de minérios, após terem suprimido a competência grega na área do Estreito. Para impedir que no futuro uma nova monarquia unitária repetisse o desafio que os tartessos lhes haviam lançado no passado, os fenícios fomentaram, sim, o desmembramento do reino em pequenos principados, cuja colaboração buscariam em separado e estimulariam fazendo-os rivalizarem-se entre si.

Os cartagineses, irmãos de raça dos fenícios, bloquearam aos gregos as rotas mediterrâneas do ocidente mediante a criação de um império marítimo que se apoiaria em alguns locais do litoral meridional hispânico e norte-africano, nas ilhas de Ibiza, Cerdanha e Sicília e, naturalmente, em Cartago. Os gregos de Massalia (Marselha), que eram focenses, centrariam os seus interesses na região levantina, a única à qual tinham acesso por terra e por mar. O seu influxo se fez sentir pronto na população do levante espanhol. Pouco a pouco, os régulos do vale do Guadalquivir se sentiriam atraídos pelas vantagens que lhes oferecia o comércio com os gregos. E assim, e não de outro modo, começaria a cristalizar o denominado círculo cultural ibérico.

Os autores gregos chamaram de ‘iberos’ os povos do sul e do levante da nossa Península, para distingui-los dos povos do interior, cuja cultura era diferente em todos os aspectos. Entretanto, o âmbito ocupado pelos verdadeiros iberos era muito mais reduzido. Como ponto de referência, apesar do anacronismo, deveríamos situar a ‘via Hercúlea’, um antigo caminho terrestre que, desde a Itália, passava por Marselha, bordeava o golfo de Leão e a costa levantina, e penetrava no vale do Guadalquivir. As lendas, sempre gregas, atribuíam a Hércules a sua construção, mas isso é farinha de outro saco.

Aquilo que um dia seria o baixo Languedoc e Rossilhão era habitado por tribos ibéricas miscigenadas, isto é, de mestiços, pois ao que parece, eram formados por uma mistura da população local, celtoligúrica, e povos propriamente ibéricos vindos do sul, como um refluxo suscitado por uma anterior penetração dos celtas em seus territórios. O certo é que a presença ibérica no sul da França foi confirmada quando do descobrimento das estações arqueológicas de Montlaurés e Ensérume.

Nas encostas mediterrâneas dos Pireneus está documentada a existência dos ceretanos, que deram o seu nome ao município da Cerdanha. No lado de cá, assentaram-se outras tribos que deixaram o rastro de seus nomes nos topônimos da região. Assim, os castelhanos, os andosinos (dos vales de Andorra), os airenosinos (do vale do Aram), e os jacetanos (de Jaca). No resto da Catalunha habitavam outras tribos, algumas delas propriamente ibéricas, como os indígetes, os layetanos e os cesetanos, estes últimos na área de Tarragona. Mas também havia outras populações não ibéricas, como os ausetanos (zona de ‘Vichi’ ou Barcelona) e os bergistanos (Berga e Barcelona). Na comarca de Tortosa, junto à desembocadura do Íberus (o Ébrio), viviam os ilercões, aparentados, aparentemente, a outras tribos do interior como os ilergetes (de Lérida, então chamada Ilerda) donos das terras aragonesas da margem esquerda do rio Ébrio e das planície de Urgel.

Na planície castelonense e em Valência, estavam os edetanos (Edeta corresponderia à atual Liria). Mais ao sul, os contestanos ocupariam o território compreendido entre os rios Júcar e Segura, arrebatados, ao que parece, aos mais antigos colonizadores gimnetanos.

No outro lado do rio Segura, começava o território que antigamente girava em torno dos tartessos. Seus ocupantes posteriores foram os mastienos, entre os rios Segura e Almeria, os bastetanos, e os bástulos, subgrupos de um tronco comum radicado em Almeria e Granada e com sede em Basti (Baza), e os oretanos, montanheses que habitavam a atual província de Jaén.
Os curetes parecem haver ocupado a região de Despenhaperros e a região de Auringis (Jaem Novo), e nos confins com os bastetanos, habitavam os maesesses. Na bacia do Guadalquivir viviam os etmeanos e os ileates na zona entre Córdoba e Sevilha, deslocados ao norte pelos cempesos, de maioria céltica, que se estenderiam até o rio Guadiana. Quanto aos turdetanos, supõe-se que eram assentados nas terras de Sevilha e Cádiz, a antiga morada dos tartessos. Os seus afins, os túrdulos, viviam na zona periférica montanhosa da área turdetana. Para o ocidente, muitos outros povos ocupavam as zonas do Algarve.
_________________________________________
Francisco Guijon é autor de diversos livros de história, incluindo Historia antigua de las Españas, de onde este artigo foi extraído.
© Francisco Guijon
http://ordorenascendi.blogspot.co.uk/2011/07/la

Notas
1.Tartessos (Τάρτησσος) era o nome pelo qual os gregos conheciam a primeira civilização do Ocidente. Herdeiros da cultura megalítica andaluza, que se desenvolveu no triângulo formado pelas atuais cidades de Huelva, Sevilha e Cádiz, os tartessos desenvolveram uma língua e escrita distintas das dos povos vizinhos e tiveram influências culturais de egípcios e fenícios. Estão perfeitamente documentados povoados ao longo do vale do Guadalquivir. A sua provável capital talvez fosse Turpa, no lugar que hoje ocupa o porto de Santa Maria, na desembocadura do Guadalete. Provavelmente, a cidade e a civilização já existiam antes de 1000 a.C., dedicadas ao comércio, à metalurgia e à pesca. A posterior chegada dos fenícios, talvez tenha estimulado o seu imperialismo sobre as terras e cidades ao seu redor, a intensificação da exportação das minas de cobre e prata. Os tartessos converteram-se nos principais provedores de bronze e prata do Mediterrâneo. A sua forma de governo era a monarquia, e possuiam leis escritas em tábuas de bronze. No século VI a.C., o reino dos tartessos desaparece abruptamente da História, seguramente varrido por Cartago.

Fonte: http://saber.sapo.pt/wiki/Povos_ib%C3%A9ricos_pr%C3%A9-romanos

Tradução de: Joaquina Pires-O’Brien

Como citar este artigo:
Gijon, F. (2014). Quem eram os iberos? PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Francisco Gijon

Entre el siglo VI y el V a. de C. el panorama que ofrecen los pueblos del Este y del Sur de la Península Ibérica es el siguiente: el reino de Tartessos ya no existe. Los fenicios han conseguido controlar, por fin, el comercio de minerales, tras haber suprimido la competencia griega en el área del Estrecho. Para impedir que en el futuro una nueva monarquía unitaria repitiese el desafío que Tartessos les lanzara en el pasado, los fenicios fomentaron, sí, la desmembración del reino en pequeños principados, cuya colaboración buscarían por separado y estimularían haciéndoles rivalizar entre sí.

Los cartagineses, hermanos de raza de los fenicios, taponaron a los griegos las rutas mediterráneas de occidente mediante la creación de un imperio marítimo que se apoyaría en algunas plazas del litoral meridional hispánico y norteafricano, en las islas de Ibiza, Cerdeña y Sicilia y, desde luego, en Cartago. Los griegos de Massalia (Marsella), focenses ellos, centrarían sus intereses en la región levantina, única a la que tuvieron acceso por tierra y por mar. Su influjo se hizo sentir pronto en la población del levante español. poco a poco, los régulos del valle del Guadalquivir se sentirían atraídos por las ventajas que les ofrecía el comercio con los griegos. Y así y no de otro modo, comenzaría a cristalizar el denominado círculo cultural ibérico.

Los autores griegos llamaron íberos a las gentes del sur y del levante de nuestra Península para distinguirlos de los pueblos del interior, cuya cultura era a todas luces diversa. Sin embargo, el ámbito ocupado por los verdaderos íberos era mucho más reducido. Como punto de referencia, a pesar del anacronismo, deberíamos situar la “Vía Hercúlea”, un antiguo camino terrestre que, desde Italia, pasaba por Marsella, bordeaba el golfo de León y la costa levantina y penetraba en el valle del Guadalquivir. Las leyendas, siempre griegas, atribuían a Hércules su apertura, pero eso es harina de otro costal.

En lo que un día sería el bajo Languedoc y Rosellón habitaban las tribus ibéricas de los misgetes, es decir, de los MESTIZOS, pues al parecer estaban formados por una mezcla de población local, celtoligur y de gentes propiamente ibéricas llegadas del sur, como reflujo suscitado por la anterior penetración de los celtas en sus territorios. Lo cierto es que la presencia ibérica en el sur de Francia se ha visto confirmada al descubrirse las estaciones arqueológicas de Montlaurés y Ensérune.

En las estribaciones mediterráneas del Pirineo se documenta la existencia de los ceretanos, que dieron su nombre a la comarca de la Cerdaña. Al lado de acá se asentaron otras tribus que han dejado rastro de sus nombres en los topónimos de la región. Así, los castellanos, los andosinos (valles de Andorra), los airenosos (valle de Arán), y los jacetanos (Jaca). En el resto de Cataluña habitaban otras tribus, algunas de ellas propiamente ibéricas, como los indigetes, los layetanos o los cesetanos, estos últimos en el área de Tarragona. Pero también hubo otras poblaciones no ibéricas, como los ausetanos (zona de Vich) y los bergistanos (Berga, Barcelona). En la comarca de Tortosa, junto a la desembocadura del Íberus (o Ebro), vivían los ilercaones, emparentados, al parecer, con otras tribus del interior como los ilergetes (de Lérida, llamada Ilerda) dueños de las tierras aragonesas de la margen izquierda del Ebro y de los llanos de Urgel.

En la Plana castellonense y en Valencia estaban los edetanos (Edeta correspondería a la actual Liria). Más al sur, los contestanos ocuparían el territorio comprendido entre el Júcar y el Segura, arrebatadas al parecer a los más antiguos pobladores gimnetes.
Al otro lado del río Segura comenzaba el territorio que antaño habría girado en torno a Tartessos. Los mastienos, entre el Segura y Almería, los bastetanos y los bástulos, subgrupor de un tronco común radicaro en Almería y Granada y con sede en Basti (Baza)… y los oretanos, montañeses que habitaban la actual provincia de Jaén.

Los curetes parecen haber ocupado la región de Despeñaperros y en la regón de Auringis (Jaén de nuevo) y en los confines con los bastetanos, habitaban los maesesanos. La cuenca del Guadalquivir la ocuparon los etmaneos y los ileates la zona entre Córdoba y Sevilla, flanqueados al norte por los cempesos, de mayoría céltica, que se extenderían hasta el Guadiana. A los turdetanos se les supone asentados en tierras de Sevilla y Cádiz, en el antiguo solar de Tartessos. Sus afines, los túrdulos, en la zona periférica montañosa del área turdetana. Hacia occidente, otros muchos pueblos ocupaban las zonas del Algarve.
____________________________________________________________________________
Francisco Guijon es autor de diversos libros de historia, incluyendo Historia antigua de las Españas, de donde esto artigo fue extraído.

© Francisco Guijon
(http://ordorenascendi.blogspot.co.uk/2011/07/la

Cómo citar este artigo:
Guijon, F. (2014). ¿Quiénes eran los iberos? PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Fernando R. Genovés

A brief memorandum of postmodernism, the self-deemed ‘weak’ and ‘pragmatic’ countercultural movement, which aspired amazingly to destroy idols, grand narratives, principles and gods, and ended up consumed by its own iconoclastic fever*
1
Who speaks of postmodernism today? Who takes seriously this neo-countercultural movement of construction and deconstruction, that animated by a variety of means of communication, managed to monopolize the attention of so many academics and teachers across Europe and America? What became of this intellectual new fashion of the last decades? The impulse and the purpose that propelled it, more than fruitful and constructive, were by nature hypercritical and destructive, presumptuous demolishers of tradition, no matter what kind. It managed, nevertheless, to exert a noteworthy influence in the défait de la pensée, and perhaps for that reason, one deed ought to be recognised in it: having stupefied, by its own measure, the necessary work of reconstruction of rationality in the realm of philosophy and the social sciences, without which they survive as they can and with much hardship.

The project of countercultural deconstruction and demolition of the fundaments of reality remained in every aspect symbolized by one of the major emblems of postmodernism: the ‘weak thought’. In the present, it does not simply show the vigour and the strength that honour the presumed ‘weakness’ of its will and the objectives it defended. There isn’t, therefore, a contradiction or delusion here, nor could be, and, from what this suggests, this wouldn’t concern its masters and disciples either, or whatever remained of them. This is so for being a syllabus —the postmodern— which has denied precisely the same doctrinal base in the thought. By being postmodern, anyone could be generous and indulgent, altruist and compassionate, Thyrsian and Trojan, although never rational or liberal –in the classical sense–, as these are rather frowned up attitudes among innovative professors, lounge journalists, professional politicians and the uncritical public in general.

Built as a chain of opinion that impugned the principle of reality while at the same time it dissimulated the self-reference to the principle of pleasure, in the course of time, it suddenly crashed against the upright reality. And finally, from having established itself in a peculiar philosophy, disobedient of traditional logic, unwilling to hear about the principles of identity, noncontradiction and of the excluded middle, the ‘postmodern condition’ discovered, at last, by its own experience, the meaning of being and, especially, not being. Unreasonableness also creates monsters that end up destroying their ‘creator’ (as in Shelley’s Frankenstein) or their own children (as in Saturn depicted by Goya).
2
To define themselves so pragmatic and so weak, the postmoderns aspired not to leave stone upon stone on the current culture. In order to remind that in this irreverent and frivolous intellectual storm, nothing should be deemed holy, I propose, in the present paper, to recall the musings of Richard Rorty and Gianni Vattimo in The Future of Religion, title of a book compiled by Santiago Zabala (Paidós, Barcelona, 2006), whose subtitle is Solidarity, charity, irony (Solidaridad, caridad, ironía). It is nonetheless ironic, to read in this volume, how they pontificated about the future, those who wouldn’t have it.

Interpretation of interpretations, everything is interpretation. This is what they used to say. The weak and ‘postmodern’ thought constituted a programme that, deep down, was extremely ambitious (a post-revolutionary relic), which could dismiss any criticism with great skill for the falsification principle (of Karl Popper) didn’t even operate in their territory, such was their aversion to principles in general. They simply had an explanation for everything, because everything, as they argued, is a matter of opinion. In the ‘Era of Interpretation’, that would replace the ‘Era of Faith’ and the ‘Era of Reason’, doxa (belief) replaced episteme (knowledge) in the order of legitimacy, thus allowing it to becoming a kind of a new Theory of Three Stages (of Auguste Comte), although in an antipositivist version.

The general plan of postmodernism, through a series of editions, basically consisted in promoting cultural travesties of the models under suspicion, which were put under the spotlight, as new victims to be disfigured. The method was the most elemental: to take the place of the marked models and to leave them in a stand by situation, misplaced and displaced: you get out so that I can come in. Such a feat is known by the term ‘empathy’, an emotional tendency that is supposedly very solidary and compassionate, although totally devoided of irony.

The referred strategy, although presumably transforming and ground-breaking, is very ancient. It works by entering (infiltrating oneself) inside the structures believed to be ‘decadent’ in order to ‘transform them’, in a Marxist or post Marxist lingo, and thus to readapt them using new terminology and imagery, to the desired new objective. The organizations, movements and institutions, which deep down are known to be weak (because they are), it is convenient for them to avoid the direct confrontation, the wrestling with the superior adversary. Other more convoluted tactics serve the same function of replacement, for example, the patient labour of burrowing that in the end undermines the defence and the resistance of the strong; the intellectual poisoning, in small doses, of the adversary; duplicity, deception and fraud; stubbornness and tenacity; propaganda and repetition. However, the main purpose of the deconstruction was the demoralization of the opponent (and, by extension, of society), a new version of the transvaluation of the values (Friedrich Nietzsche) reduced to a ‘weak’ and denaturalized pedestrian version.
3
In the so called ‘post metaphysical era’, whose existence and circumstances only the very experts could give faith, reason was an idol to be toppled. Such purpose was proclaimed in the name of nothing less than rationality. Gianni Vattimo, for example, who is not that naive to reject rationality wholesale, accepts —what’s the alternative— the ‘hermeneutic rationality’, that is, that which situates the debate in the exclusive terrain of interpretation, where there would be no other facts other than the linguistic ones. And such desideratum must be understood as a fatum (fate, fatality fatuity), and never as a factum (fact).

Richard Rorty, wouldn’t be any less, does not have anything against rationality either, provided that ‘rationality is identified with the effort to reach an intersubjective universal consensus and the truth is a result of such effort’. And what we said about reason and rationality, should apply to other projects in the process of reconversion or cultural transformation, such as: ‘dialogue’, ‘consensus’, ‘interpretation’, ‘universal’, ‘nihilism’, ‘democracy’, and, why not, ‘solidarity, charity, irony’, the notions that appear selected in the subtitle of the mentioned book.

It is indeed portentous in this case that such initiative —the ‘postmodern one’— took (in vain) Nietzsche as one of its inspirers, prophets and legitimizers. Precisely Nietzsche, the philosopher who dissected with the precision of a (skilled) surgeon the carrion of resentment! Or precisely for that reason… Here we have a model application of the transformation that we just showed to be typical of the postmodern procedure. The complete appropriation of Nietzsche’s philosophy was, in the end, little more than a conceptual makeup, retouch and readjustment based on a few phrases which were ad hoc selected with the objective to compose an interrupted discourse, and which pretended to be tempestuous and post-revolutionary, typical of the New Era. And with the adages arranged in compliance with the post revolutionary manual of substitutions, they were hung (as a joke) in the shoulders of the solitary of Sils-Maria so that he would carry the cross of ‘postmodernity’. As in Nietzsche’s ecce homo…

In reality, the promotion urbi et orbe of a ‘postmodern Nietzsche’ (this was also done to many other classic authors) was made possible thanks to the peculiar (and highly opinionated) interpretations of the work of the German philosopher, first by Gilles Deleuze and Michel Foucault, and later by Jacques Derrida and Gianni Vattimo, among those in the vanguard of the postmodern brotherhood. I won’t enter into arguments over truth by correspondence to see who is ‘right’! For the case, fortunately, is closed.
At this stage I limit myself to highlight the impertinence of certain language games carried out at the expense of an author —Friedrich Nietzsche—, who, from master of aphorisms, was transformed indiscriminately into a Nazi beacon, a fierce anti-Semite, a leader of situationism, an ideologue of anarchism or the champion of ‘postmodernism’, often with succession and continuity. Whether one or other circumstance would occur, or all of them at the same time, it suited the interpreter on the shift, to rescue only determinate aphorisms from the hundreds that the philosopher from Röcken wrote, some of which, for certain, very susceptible to any class of interpretation (let us recall, however, the high volume of literature produced around the famous expression ‘red beast’, one among the many that Nietzsche wrote in The Genealogy of Morality).

If there were no punches at the time when Nietzsche was made into the paladin of nihilism and ‘weak thought’, how could one find it strange that Rorty and Vattimo doubted at the time of reconverting, transforming, or better even, displacing God, by striking, without a second thought, against the ‘fundamentalism’ in the Christian religion, but only in the Christian religion, as if ‘Christian fundamentalism’ was a current subject and the most worrisome of the real fundamentalisms that exist? Here lays the central theme of the book The Future of Religion, or how to make Christianity go through the ‘weak thought’ crusher and convert it into a battering ram (and at the same time into a victim) of the deconstructionist project**. Let us reiterate, in a few steps, the plan proposed there:

1. To make of the previous Creator of the world, simply and coherently, a ‘weak God’, the justification for which being limited to the citation of a few and conveniently chosen biblical verses. For example, this one of Saint Paul: ‘For when I am weak, then I am strong’ (Corinthians, 12, 10).
2. God, in the religion of the future, will not be in Heaven but displaced. In the ‘postmodern condition’, God sees his power, or will of power, reduced to a human level, too human perhaps, until the point when —in an extremely audacious outburst of democratism and egalitarianism — he is converted into one more citizen, a comrade, a colleague, a ‘friend’, always in equal footing with the others in terms rights and duties. Nietzsche, undoubtable, treated the gods with much greater respect than his own purported interpreters.
3. In the ‘Era of Interpretation’, ‘true’ Christianity (not that which is ‘dogmatic’, ‘substantial’ or ‘metaphysical’), heads a list of more new age demands. In this new mission, it abandons those archaic and surpassed objectives (the missionary and the preaching, for example): ‘The non metaphysical religion is also a non missionary religion’), in order to adopt with fervour, and even to defend, the marriage of homosexuals, euthanasia, in vitro fertilization, abortion, use of condoms as preservatives, female priesthood and everything else that is necessary to go beyond good and evil, and beyond even atheism and theism.
4. The future of religion, according with Rorty and Vattimo, passes through the legitimization of the culture weakening mechanism, charging it to the account of Christianity itself. Once again, it is the so called Christian message, of the kind that denies ‘the principle of reality’ when, Paul again, states: ‘Where, O death, is your victory?’ (Corinthians, 15, 54-55), and at the same time blesses the ethics of the dialogue and limitless conversation as a source of understanding, consensus and practical truth, for instance, through this preaching: ‘For where two or three come together in my name, there am I with them’ (Mathew, 18, 20).

Well then, one could say that Rorty and Vattimo met (or conspired) in the name of the weak and postmodern God with the purpose of deciding about their joyful future, which is no other than their retirement pension… And we should presume, moreover, that He was there with both philosophers (a sacrilegious imitation of the Holy Trinity certifying with his presence and support the deconstruction of Christianity. Perhaps it is for this reason that they say with such confidence and coolness, for they take it for granted that thanks to the evangelical spirit, they will always have compassion or forgiveness: ‘Father, forgive them, for they do not know what they are doing’ (Lucas, 23, 33-34). And neither what they are saying.


Fernando Rodríguez Genovés is a writer, essayist, literary critic and movie analyst as well a professor of Philosophy currently on a voluntary leave of absence. Author of eleven books and several blogs, Dr Genovés is a founding member and habitual collaborator of El Catoblepas, a monthly magazine of contemporary criticism published since 2002.

Notes
* Version corrected and adapted to the new times of my text «Cristianismo deconstruido» [Christianity Deconstructed], a review of Richard Rorty and Gianni Vattimo’s book, El futuro de la religión. Solidaridad, Caridad. Ironía, Paidós, Barcelona, 2006, published in Anthropos. Revista, nº 217, «Especial Gianno Vattimo. Hemeneusis e historicidad», Barcelona, 2008, pp. 194-196.
** Following this project, can be cited others books by Gianni Vattimo: After the death of God, (coauthor, John D. Caputo), Edited by Jeffrey W. Robbins, Columbia University Press, 2006.; Christianity, truth, and weak faith (coauthor, René Girard), Edited by P. Antonello, Columbia University Press, 2009; Not being God: a collaborative autobiography (coauthor, Piergiorgio Paterlini), New York: Columbia University Press, 2009.”

Translation: Joaquina Pires-O’Brien (UK)

How to cite this article:
Rodríguez Genovés, F. What became of postmodernism and its deconstructive and iconoclast delusion? PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Fernando R. Genovés

Breve memorando do pós-modernismo, o movimento contracultural autoqualificado ‘fraco’ e ‘pragmático’, o qual aspirou nada menos do que derrubar ídolos, grandes relatos, princípios e deuses, e acabou consumido pela sua própria febre iconoclasta*
1
Quem fala sobre o pós-modernismo hoje em dia? Quem leva a sério esse movimento neo-contracultural de construção e desconstrução, que conseguiu monopolizar a atenção de tantos acadêmicos e professores da Europa e da América, animado por numerosos meios de comunicação? O que foi feito desta new fashion intelectual das últimas décadas? O impulso e o propósito que a propulsavam, ao invés de frutíferos e construtivos, eram de natureza hipercrítica e destrutiva, presunçosos demolidores da tradição, qualquer que esta fosse. Não obstante, o pós-modernismo chegou a exercer uma notável influência na derrocada do pensamento, e talvez por isso caiba reconhecer nele uma façanha: ter entorpecido, na sua própria medida, a necessária tarefa da reconstrução da racionalidade no âmbito da filosofia e das ciências sociais, sem a qual estas sobrevivem mal e a duras penas.

O projeto de desconstrução contracultural em todos os âmbitos, e de demolição dos fundamentos do real, permaneceu simbolizado por uma das principais insígnias do pós-modernismo: o ‘pensamento fraco’. No momento atual, já quase não mostra o vigor e a pujança, que honram a presumida ‘fraqueza’ de sua vontade e os objetivos que defendia. Não há aqui, portanto, nem contradição nem desilusão, e nem poderia haver, e, ao que tal coisa indica, tampouco preocuparia os seus mestres e discípulos, ou o que restou deles. Isto é assim por tratar-se de um currículo — o pós-moderno — que tem negado precisamente a mesma base doutrinal no pensamento. Sendo pós-moderno, qualquer um podia ser generoso e magnânimo, altruísta e caridoso, tírio e troiano, embora nunca liberal – no sentido clássico –, e tampouco racional, já que estas representam atitudes bastante malvistas entre os catedráticos inovadores, os jornalistas de salão, os políticos do ramo e o público acrítico em geral.

Constituída numa corrente de opinião que impugnava o princípio da realidade ao mesmo tempo em que dissimulava a autoreferência ao princípio do prazer, no curso do tempo, chocou-se subitamente com a íntegra realidade. E, finalmente, por ter-se estabelecido como uma filosofia peculiar, desobediente da lógica tradicional, que não queria ouvir falar dos princípios da identidade, da não-contradição e do terço excluído, a ‘condição pós-moderna’ descobriu, finalmente, pela própria experiência, o sentido do ser, e sobretudo, o do não-ser. A não-razão também cria monstros que acabam por destruir o seu ‘criador’ (como o Frankenstein de Shelley) e os seus próprios filhos (como o Saturno retratado por Goya).
2
Para definir-se tão pragmático e tão fraco, os pós-modernos aspiravam a não deixar pedra sobre pedra na cultura vigente. A fim de recordar que, para este temporal intelectual, irreverente e caduco, nada devia ser tido como sagrado, no presente texto eu proponho rememorar as reflexões de Richard Rorty e Gianni Vattimo sobre O futuro da religião, título de um livro compilado por Santiago Zabala (Paidós, Barcelona, 2006), cujo subtítulo é Solidariedade, caridade, ironia. Não deixa de ser irônico ler, nesse volume, como pontificavam sobre o futuro aqueles que não o teriam.

Interpretação de interpretações, tudo é interpretação. Isso era o que diziam. O pensamento ‘fraco’ e ‘pós-moderno’ constituiu um programa que, no fundo, era bastante ambicioso (um resíduo pós-revolucionário), que superava com bastante habilidade qualquer crítica, uma vez que nos seus domínios tampouco funcionava o princípio da falsificação (Karl Popper), tal era a sua aversão a princípios de maneira geral. Simplesmente, eles tinham explicação para tudo, porque tudo, segundo sustentavam, é opinável. Na ‘Era da Interpretação’, que viria a substituir a ‘Era da Fé’ e a ‘Era da Razão’, a doxa (crença) substituiu a episteme (conhecimento) na ordem de legitimidade, constituindo-se assim numa espécie de renovada Teoria dos Três Estágios (Auguste Comte), embora numa versão antipositivista.

O plano geral do pós-modernismo, que passou por de sucessivas edições, consistia basicamente em promover transvestimentos culturais dos modelos sob suspeita, os quais eram colocados sob o holofote, como próximas vítimas a serem desfiguradas. O método era o mais elementar: colocar-se no lugar dos modelos assinalados e deixá-los numa situação de stand by, descolocados, deslocalizados: saia você para eu poder entrar. Tal proeza é conhecida pelo nome de ‘empatia’, uma tendência emocional supostamente muito solidária e caritativa, embora inteiramente destituída de ironia.

A estratégia mencionada, embora presumivelmente transformadora e rompedora, é muito antiga. Funciona introduzindo-se (infiltrando-se) no interior das estruturas tidas como ‘decadentes’ a fim de ‘transformá-las, usando o linguajar marxista ou pós-marxista, e assim adaptá-las, com nova terminologia e imagem, aos novos fins pretendidos. Os organismos, os movimentos e as instituições que no fundo sabem-se debilitadas (porque o são), lhes convém evitar o enfrentamento direto, o corpo a corpo com o adversário superior. Outras táticas mais sinuosas desempenham a função da substituição, por exemplo, o trabalho paciente de cavar que acaba solapando as defesas e as resistências do forte; o envenenamento intelectual, em pequenas doses, do adversário; o dobramento, o engano e a fraude; a contumácia e a tenacidade; a propaganda e a repetição. Entretanto, o propósito principal da desconstrução era a desmoralização do oponente (e, por extensão, de toda a sociedade), uma nova versão da transvaloração dos valores (Friedrich Nietzsche) reduzida à versão pedestre ‘fraca’ e desnaturalizada.
3
Na denominada ‘era pós-metafísica’, cuja existência e circunstâncias apenas os muito entendidos podiam dar fé, a razão constituía um ídolo a ser derrubado. Tal propósito era proclamado em nome de nada menos que a racionalidade. Gianni Vattimo, por exemplo, que não é tão ingênuo assim para rejeitar a racionalidade no seu conjunto, aceita – que remédio – a ‘racionalidade hermenêutica’, ou seja, aquela que situa o debate no terreno exclusivo da interpretação, em que não há outros atos senão os linguísticos (pág. 20). E tal desideratum deve ser entendido como um fatum (destino, fatalidade, fatuidade), e nunca como um factum (fato).

Richard Rorty, que não seria menos ingênuo, também não tem nada contra a racionalidade, desde que ‘a racionalidade seja identificada com o esforço para alcançar um consenso universal intersubjetivo e a verdade é o resultado de tal esforço’. E o que dissemos da razão e da racionalidade, também deve aplicar-se a outros conceitos em projeto de reconversão ou de transvestimento cultural, a saber: ‘diálogo’, ‘consenso’, ‘interpretação’, ‘universal’, ‘niilismo’, ‘democracia’, e, porque não, ‘solidariedade, caridade, ironia’, as noções que aparecem selecionadas no subtítulo do referido livro.

É verdadeiramente portentoso neste caso que semelhante iniciativa – a ‘pós-moderna’ – tenha tomado (em vão) Nietzsche como um de seus inspiradores, profetas e legitimadores. Justamente Nietzsche, o filósofo que dissecou com a precisão de um (hábil) cirurgião a carniça do ressentimento! Ou talvez precisamente por isso mesmo… Eis aqui uma aplicação modelar do método de transvestimento que acabamos de mostrar como característico do proceder pós-moderno. A apropriação integral da filosofia de Nietzsche foi, depois de tudo, pouco mais que uma maquilagem, um retoque e um reajuste conceitual à base de umas poucas frases escolhidas ad hoc, com a finalidade de compor um discurso interrompido, e que se pretendia ser intempestivo, pós-revolucionário, e bem próprio da Nova Era. E, com os adágios armados em conformidade com o manual de substituições, elas eram enforcadas (de brincadeira) nos ombros do solitário de Sils-Maria para que assim carregasse a cruz da ‘pós-modernidade’. Nietzsche: ecce homo…

Na realidade, a promoção urbi et orbe de um ‘Nietzsche pós-moderno’ (também ocorreu com muitos outros autores clássicos) foi possível graças às particulares (e altamente opiniosas) interpretações da obra do filósofo alemão, entre os da vanguarda da confraria pós-moderna, primeiramente, Gilles Deleuze e Michel Foucault, e posteriormente, Jacques Derrida e Gianni Vattimo. Não entrarei agora em disputas sobre citações, verdades por correspondência para ver quem é que tem ‘razão’! Porque o caso, felizmente, está encerrado.

Limito-me neste ponto a destacar a impertinência de determinados jogos de linguagem às custas de um autor – Friedrich Nietzsche –, que, de mestre dos aforismos, era transformado indistintamente em farol do nazismo, feroz antissemita, líder do situacionismo, ideólogo do anarquismo ou campeão do ‘pós-modernismo’, muitas vezes em continuada sucessão. Ocorria uma circunstância ou outra, ou todas de uma só vez, como era conveniente ao intérprete do momento, resgatar apenas determinados aforismos das centenas que o filósofo nascido em Röcken escreveu, e, certamente, alguns dos quais muito suscetíveis a qualquer tipo de interpretação (recordemo-nos a grande a quantidade de literatura produzida em torno da célebre expressão ‘besta vermelha’, que foi uma dentre as muitas que Nietzsche escreveu em A Genealogia da Moral).

Se não há troca de bofetadas na hora de fazer de Nietzsche o paladino do niilismo e do ‘pensamento fraco’, então como se pode estranhar que Rorty e Vattimo duvidassem na hora de reconverter, transvestir, ou melhor, deslocalizar Deus, arremetendo sem contemplações, contra o ‘fundamentalismo’ na religião cristã, mas apenas na religião cristã, como se o ‘fundamentalismo cristão’ fosse tema da atualidade e o mais preocupante dos fundamentalismos realmente existentes? Eis aqui o tema central do livro O Futuro da Religião, ou como fazer o cristianismo passar pela trituradora do ‘pensamento fraco’ e convertê-lo em aríete (e ao mesmo tempo em vítima) do projeto deconstrucionista**. O plano ali proposto pode ser resumido nas seguintes etapas:

1. Fazer do anterior Criador do mundo, simplesmente e coerentemente, um ‘Deus fraco’, cuja justificação se limita à citação de alguns versículos, convenientemente escolhidos. Por exemplo, este de São Paulo: ‘Quando me sinto fraco, então é que sou forte’ (Coríntios, 12, 10).
2. Deus, na religião do futuro, já não estará nos Céus, e sim deslocalizado. Na ‘condição pós-moderna’, Deus vê diminuir a sua potência, ou vontade de poder, até um nível humano, mas por acaso demasiadamente humano, até o ponto de – num arrebato de democratismo e igualitarismo atrevidíssimo – ser convertido em mais um cidadão, um companheiro, um colega, um ‘amigo’, sempre em pé de igualdade de direitos e deveres com os demais. Nietzsche, sem dúvida, tratava os deuses com muito mais respeito do que os seus presumidos intérpretes.
3. O cristianismo que é de ‘verdade’ (não da maneira ‘dogmática’, ‘substancial’ ou ‘metafísica’), encabeça a ‘Era da Interpretação’ com as reivindicações que são mais new age. Nessa nova missão, abandona arcaicos e superados objetivos (o missionário e o evangelizador, por exemplo: ‘A religião não metafísica é também uma religiosidade não missionária’), para passar a assumir com fervor, e mesmo para advogar, o matrimônio de homossexuais, a eutanásia, a fecundação in vitro, o aborto, o uso libertador dos preservativos, o sacerdócio feminino e tudo o que é preciso para ficar para além do bem e do mal, e mais além ainda do ateísmo e do teísmo.
4. O futuro da religião, segundo Rorty e Vattimo, passa por legitimar o expediente debilitador da cultura, debitando-o na conta do próprio cristianismo. É a mensagem dita cristã, a que nega o ‘princípio de realidade’ quando, em outra vez, São Paulo declara: ‘Onde está ó morte a tua vitória?’ (Coríntios, 15, 54-55); e o mesmo abençoa a ética do diálogo e da conversação sem limites como fonte de entendimento, consenso e verdade pragmática, por exemplo, por meio desta pregação: ‘Pois onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles’ (Mateus, 18, 20).

Pois bem, dir-se-ia que Rorty e Vattimo reuniram-se (ou conjuraram) em nome do Deus fraco e pós-moderno com a finalidade de decidir sobre o seu jubiloso futuro, que não é outro senão a aposentadoria… E devemos supor, também, que Ele estava ali com ambos os filósofos (numa imitação sacrílega da Santíssima Trindade), certificando com a sua presença e amparo a desconstrução do cristianismo. Talvez por isso dizem o que dizem com tanta desenvoltura e frescor, porque tomam como certo que, graças ao espírito evangélico, sempre terão a compaixão ou o perdão: ‘Perdoai-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem’. (Lucas, 23, 33-34). E nem o que dizem.


Fernando Rodríguez Genovés é escritor, ensaísta, crítico literário e analista cinematográfico, e, ainda, professor de Filosofia em afastamento voluntário. Autor de 11 livros e mantenedor de diversos blogs, o Dr. Genovés é fundador e colaborador habitual de El Catoblepas, revista crítica do presente, de periodicidade mensal, publicada desde 2002.

Notas
* Versão corrigida e adaptada aos novos tempos do meu texto «Cristianismo reconstruído», resenha do livro de Richard Rorty e Gianni Vattimo, El futuro de la religión. Solidariedade, caridade, ironia, paidós, Barcelona, 2006, publicado em Anthropos. Revista, nº 217, «Especial Gianno Vattimo. Hemeneusis e historicidade», Barcelona, 2008, págs. 194-196.

** Posterior a este projeto, outros livros de Gianni Vattimo podem ser citados: After the death of God, (em coautoria com John D. Caputo), Editado por Jeffrey W. Robbins, Columbia University Press, 2006.; Christianity, truth, and weak faith (coauthor, René Girard), Editado por P. Antonello, Columbia University Press, 2009; Not being God: a collaborative autobiography (co-autor, Piergiorgio Paterlini), New York: Columbia University Press, 2009.”

Trandução: Joaquina Pires-O’Brien

Como citar este artigo:
Genovés, F. R. (2014). O que foi feito do pós-modernismo e seu delírio desconstruidor e iconoclasta? PortVitoria, UK, v. 9, Jul-Dec, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com

Fernando R. Genovés

Breve memoria del posmodernismo, movimiento contracultural autocalificado de «débil» y «pragmático», el cual aspiró nada menos que a derribar ídolos, grandes relatos, principios y dioses, y acabó consumido por su propia fiebre iconoclasta*
1
¿Quién habla hoy del posmodernismo? ¿Quién toma en serio ese movimiento neo-contracultural de corte y deconstrucción, que logró acaparar la atención de tantos académicos y profesores de Europa y América, animado por numerosos medios de comunicación? ¿Qué ha sido de esta new fashion intelectual de las últimas décadas? El impulso y propósito que los propulsaba, más que fructuosos y constructivos, eran de naturaleza criticona y destructiva, presuntuosamente demoledores de la tradición, no importa cuál fuese. Llegó, no obstante, a adquirir una notable influencia en lo que queda del pensamiento, y tal vez por ello sí quepa reconocerle una hazaña: haber entorpecido, en su medida, la necesaria tarea de reconstrucción de la racionalidad en el ámbito de la filosofía y las ciencias sociales, sin la cual sobreviven como pueden y a duras penas.

El proyecto de deconstrucción contracultural en todos los ámbitos y de demolición de los fundamentos de lo real quedó simbolizado por uno de los buques insignia del posmodernismo: el «pensamiento débil». En el momento actual, ya no muestra apenas vigor y pujanza, lo que hace honor a la presumida «debilidad» de su talante y los objetivos que propugnaba. No hay aquí, pues, contradicción ni desilusión, ni podría haberla, y, de indicarse tal cosa, tampoco preocuparía a sus maestros y discípulos, o lo que queda de ellos. Esto es así por tratarse de un prontuario —el posmoderno— que ha negado precisamente la misma base doctrinal en el pensar. Siendo posmoderno, cualquiera podía ser generoso y dadivoso, altruista y caritativo, tirio y troyano, aunque liberal jamás, tampoco racional, al representar éstas unas actitudes muy mal vistas entre catedráticos innovadores, periodistas de salón, políticos del ramo y público acrítico en general.

Constituida en una corriente de opinión que impugnaba el principio de realidad, mientras disimulaba la autorreferencia al principio del placer, en el curso del tiempo, se ha topado de pronto con la íntegra realidad. Y, en fin, de erigirse en una filosofía peculiar, desobediente de la lógica tradicional, que no quería oír hablar de principios de identidad, no contradicción y tercio excluso, la «condición posmoderna» ha descubierto, finalmente, por propia experiencia, el sentido del ser y, sobre todo, del no-ser. La sinrazón también crea monstruos que acaban por destruir a su «creador» (Dr. Frankenstein) y a sus propios hijos (Goya).
2
Para definirse tan pragmático y tan débil, los posmodernos aspiraban a no dejar piedra sobre piedra en la cultura vigente. A fin de recordar que para este temporal intelectual, irreverente y caduco, nada debía ser tenido por sagrado, propongo en el presente texto rememorar las cavilaciones de Richard Rorty y Gianni Vattimo sobre El futuro de la religión, título de un libro compilado por Santiago Zabala (Paidós, Barcelona, 2006), cuyo subtitulo reza Solidaridad, caridad, ironía. No deja de ser irónico leer cómo pontificaban en este volumen sobre el futuro aquellos que no lo tendrían…

Interpretación de interpretaciones, todo es Interpretación. Eso decían. El pensamiento «débil» y «posmoderno» constituyó un programa, en el fondo, muy ambicioso (residuo pos-revolucionario), que superaba con bastante habilidad cualquier crítica porque en sus dominios tampoco funcionaba el principio de falsación (Karl Popper), tal era su aversión por los principios en general. Simplemente, tenían explicación para todo, porque todo, según sostenían, es opinable. En la «Era de la Interpretación», que vendría a sustituir la «Era de la Fe» y la «Era de la Razón», la doxa ha substituido a la episteme en orden de legitimidad, quedando así constituida una especie de renovada teoría de los tres estadios (Auguste Comte), pero en versión antipositivista.
El plan general del posmodernismo, a través de sucesivas ediciones, consistía básicamente en promover travestimientos culturales de los modelos bajo sospecha, los cuales eran puestos en el punto de mira como próximas víctimas a desfigurar. El método era de lo más elemental: ponerse en el lugar de los modelos señalados y dejar a éstos en situación de stand by, descolocados, deslocalizados: quítate tú para ponerme yo. Tal proeza se conoce con el nombre de «empatía», una tendencia emocional supuestamente muy solidaria y caritativa, aunque carente por completo de ironía.

La estrategia mencionada, aunque presumiblemente renovadora y rompedora, es muy antigua. Labora con vistas a introducirse (infiltrarse) en el interior de las estructuras tenidas por «decadentes» a fin de «darles la vuelta», por decirlo en términos marxistas o posmarxistas, y así adaptarlas, con nueva terminología e imagen, a los nuevos fines pretendidos. Los organismos, los movimientos y las instituciones que en el fondo se saben débiles (porque lo son), les conviene evitar el enfrentamiento directo, el cuerpo a cuerpo con el adversario superior. Otras tácticas más sinuosas cumplen la función sustitutoria, por ejemplo, la paciente labor de zapa que acaba minando las defensas y resistencias del fuerte; el envenenamiento intelectual, en pequeñas dosis, del adversario; la doblez, el engaño y la estafa; la contumacia y la tenacidad; la propaganda y la repetición. Con todo, el anhelo principal de la deconstrucción era la desmoralización del oponente (y, por extensión, de la sociedad toda), una nueva versión de la transvalorización de los valores (Friedrich Nietzsche) reducida a la versión pedestre, «débil» y desnaturalizada.
3
En la denominada «era posmetafísica», de cuyo ser y circunstancia sólo los muy entendidos podrían dar fe, la razón constituía un ídolo a derribar. Tal propósito era proclamado nada menos que en nombre de la racionalidad. Gianni Vattimo, por ejemplo, quien no es tan ingenuo como para rechazar la racionalidad en su conjunto, acepta —qué remedio— la «racionalidad hermenéutica», o sea, aquella que sitúa el debate en el terreno exclusivo de la interpretación, en el que no habría otros hechos que los lingüísticos (pág. 20). Y entiéndase tal desideratum, como un fatum, nunca como un factum.

Richard Rorty, quien no iba a ser menos, tampoco tiene nada en contra de la racionalidad, «si se identifica la racionalidad con el esfuerzo por lograr un consenso universal intersubjetivo y la verdad con el desenlace de tal esfuerzo» (pág. 58). Y lo que decimos de la razón y la racionalidad, valdría lo mismo para otros conceptos en proyecto de reconversión o de travestimiento cultural, a saber: «diálogo», «consenso», «interpretación», «universal», «nihilismo», «democracia» y, cómo no, «solidaridad, caridad, ironía», las nociones que aparecen seleccionadas en el subtítulo del libro referido.

Resulta verdaderamente portentoso en este caso que semejante empresa —la «posmoderna»— haya tomado (en vano) a Nietzsche como uno de sus inspiradores, profetas y legitimadores. ¡Justamente Nietzsche, el filósofo que diseccionó con precisión de (capaz) cirujano la carnaza del resentimiento! O tal vez precisamente por eso mismo… He aquí una aplicación modélica del método de travestimiento que acabamos de señalar como característico del proceder posmoderno. La apropiación integral de la filosofía de Nietzsche fue, después de todo, poco más que un maquillaje, retoque y reajuste conceptual a base de unas pocas frases elegidas ad hoc, con el fin de componer un discurso interrumpido, y que se pretendía intempestivo, posrevolucionario, propio de la Nueva Era. Una vez armados los adagios según el guión sustitutorio, eran colgados (como una inocentada) en la espalda del solitario de Sils-Maria para que cargase así con la cruz de la «posmodernidad». Nietzsche: ecce homo…
En realidad, la promoción urbi et orbe de un «Nietzsche posmoderno» (se hizo también con muchísimos otros autores clásicos) fue posible merced a las particulares (y muy opinables) interpretaciones de la obra del filósofo alemán llevadas a cabo, entre otros, primero por Gilles Deleuze y Michel Foucault y, posteriormente, por Jacques Derrida y Gianni Vattimo, al frente de la fratría posmoderna. No entraré ahora en disputas sobre citas, verdades por correspondencia (¡a ver quién lleva «razón»!) y vídeos delatores. Porque el caso, afortunadamente, está cerrado.

Me limito en este punto a poner de manifiesto la impertinencia de determinados juegos de lenguaje a cuenta de un autor —Friedrich Nietzsche—, quien, maestro del aforismo, fue convertido indistintamente en guía del nazismo, en feroz antisemita, en líder del situacionismo, en ideólogo del anarcosindicalismo o en adalid del «posmodernismo», y a menudo con sucesión de continuidad. Ocurría una circunstancia u otra, o todas a la vez, según se le antojase al interpretador de turno, sólo con rescatar determinados aforismos de los cientos que escribió el filósofo nacido en Röcken, ciertamente, algunos de ellos muy apetecibles para toda clase faenas de interpretación (recuérdese, empero, la cantidad de literatura garabateada alrededor de la célebre expresión «bestia rubia», una más de las que dejó escrita en La genealogía de la moral).

Si no hay miramientos a la hora de hacer de Nietzsche el paladín del nihilismo y el «pensamiento débil», entonces, ¿cómo puede extrañar que Rorty y Vattimo dudasen a la hora de reconvertir, travestir o, mejor, deslocalizar a Dios, arremetiendo sin contemplaciones contra el «fundamentalismo» en la religión cristiana, pero sólo en la religión cristiana, como si el «fundamentalismo cristiano» fuese tema de actualidad y el más preocupante de los fundamentalismos realmente existentes? He aquí el asunto central del libro El futuro de la religión, o cómo hacer pasar al cristianismo por la trituradora del «pensamiento débil» y convertirlo en ariete (y al mismo tiempo víctima) del proyecto deconstruccionista**. Resumamos, en pocos pasos, el plan propuesto allí:

1. Hacer del anterior Creador del mundo, simplemente, coherentemente, un «Dios débil», cuya justificación se limita a la cita de algunos versículos, convenientemente escogidos. Por ejemplo, este de San Pablo: «Cuando soy débil es cuando más fuerte soy» (Corintios, 12, 10).
2. Dios, en la religión del futuro, ya no estará en los Cielos, sino deslocalizado. En la «condición posmoderna», Dios ve disminuir su potencia, o voluntad de poder, hasta un nivel humano, pero acaso demasiado humano, hasta el punto de —en un arrebato de democratismo e igualitarismo atrevidísimo— ser convertido en un ciudadano más, un compañero, un colega, un «amigo», siempre en igualdad de derechos y deberes que los demás. Nietzsche, sin duda, trataba a los dioses con bastante más respeto que sus presumidos interpretadores.
3. El cristianismo que lo es de «verdad» (no de la manera «dogmática», «sustancial» o «metafísica»), encabeza en la «Era de la Interpretación» las reivindicaciones más new age. En esta nueva misión, abandona arcaicos y superados objetivos (el misionero y el evangelizador, por ejemplo: «La religión no metafísica es también una religiosidad no misionera», pág. 100), para pasar a asumir con fervor, y aun a preconizar, el matrimonio de homosexuales, la eutanasia, la fecundación in vitro, el uso liberador de los preservativos, el sacerdocio femenino y todo lo que sea menester con tal de situarse más allá del bien y del mal, y aun más allá del ateísmo y el teísmo.
4. El futuro de la religión, según Rorty y Vattimo, pasa por legitimar el expediente debilitador de la cultura cargándolo a la cuenta del propio cristianismo. Es el mensaje cristiano, se dice, el que niega el «principio de realidad» cuando, en boca, otra vez, de Pablo, declara: «Muerte, ¿dónde está tu victoria?» (Corintios, 15, 54-55), y el mismo que bendice la ética del diálogo y la conversación sin límites como fuente de entendimiento, consenso y verdad pragmática, por ejemplo, por medio de esta prédica: «Cuando dos o más estén reunidos en mi nombre, yo estaré con ellos» (Mateo, 18, 20).

Pues bien, diríase que Rorty y Vattimo se han reunido (o conjurado) en nombre del Dios débil y posmoderno al objeto de decidir acerca de su jubiloso futuro, que no es otro que la jubilación… Y debemos suponer, además, que Él estuvo allí con ambos filósofos (remedo sacrílego de la Santa Trinidad), certificando con su presencia y amparo la deconstrucción del cristianismo. Tal vez por eso dicen lo que dicen con tanta desenvoltura y frescura, porque dan por descontado que gracias al espíritu evangélico siempre serán disculpados o compadecidos: «Padre, perdónales, porque no saben lo que hacen.» (Lucas, 23, 33-34). Ni lo que dicen.


Dr. Fernando Rodríguez Genovés es escritor, ensayista, crítico literario y analista cinematográfico. Profesor funcionario de carrera, en excedencia voluntaria, en la asignatura de Filosofía. Autor de once libros y mantenedor de varios blogs, el Dr. Genovés es fundador y colaborador habitual de El Catoblepas, revista crítica del presente, de periodicidad mensual, publicada desde 2002.

Notas
* Versión corregida y adaptada a los nuevos tiempos de mi texto «Cristianismo deconstruido», recensión del libro de Richard Rorty y Gianni Vattimo, El futuro de la religión. Solidaridad, caridad, ironía, paidós, Barcelona, 2006, publicado en Anthropos. Revista, nº 217, «Especial Gianno Vattimo. Hemeneusis e historicidad», Barcelona, 2008, págs. 194-196.

** Siguiendo con este proyecto, Vattimo ha seguido publicando nuevos libros, entre los que pueden citase: Verdad o fe débil. Diálogo sobre cristianismo y relativismo (2006); Después de la muerte de Dios. Conversaciones sobre religión, política y cultura (2007); ¿Ateos o creyentes?: Conversaciones sobre filosofía, política, ética y ciencias (Contextos), en colaboración con Michel Onfray (2009); Dios: la posibilidad buena: Un coloquio en el umbral entre filosofía y teología, en colaboración con Carmelo Dotolo, Giovanni Giorgio y Antoni Martínez Riu2013)».”

Citación:
Genovés, F. R. (2014). ¿Qué ha sido del posmodernismo y su delirio deconstructor e iconoclasta? PortVitoria, UK, v.10, Jan-Jun, 2014. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com