Joaquina Pires-O’Brien

A ligação asiática
Até pouco mais de dois séculos atrás se pensava que as línguas europeias modernas e antigas haviam se originado na própria Europa. O que mudou tal visão eurocêntrica foi a descoberta, anunciada em 1786 na Sociedade Asiática de Bengala, de que o sânscrito, a língua empregada nos textos védicos sagrados e na legislação hindu tinha uma origem comum com o grego e latim. O descobridor, Sir William Jones, era um juiz do supremo tribunal da Índia. Jones era também um especialista no persa falado pelos reis, e ao chegar a Calcutá, ele estudou com afinco o sânscrito antigo e seus derivativos modernos como o hindi e o urdu. Após a descoberta de Jones, muitas outras conexões foram descobertas entre as línguas europeias modernas e antigas e as línguas do subcontinente Indiano (Índia e Paquistão). O linguista Thomas Young (1773-1829), o mesmo que havia colaborado com o colega francês Jean-François Champollion (1790-1832) na descodificação dos hieróglifos egípcios, deu o nome de indo-europeu à língua mãe das línguas europeias mais o sânscrito e seus derivativos.

Um dos primeiros filólogos a confirmar a descoberta de Jones foi o alemão Jacob Grimm (1785-1863), um dos irmãos Grimm que compilaram os contos do folclore germânico. Para os seus estudos comparativos Grimm optou por palavras que contêm uma pesada conotação cultural, como por exemplo, a palavra rei (e rainha). Rei é raj em sânscrito, rex em latim, ri no irlandês antigo, roi em Francês, rey em Espanhol e royal em Inglês. A palavra homem é outro exemplo, que tanto em inglês quanto em português assemelha-se ao cognato manu-s do sânscrito, o qual veio do indo-europeu manus ou monus. No glossário sânscrito a palavra manu significa literalmente ‘o contemplador de estrelas’ ou ‘a criatura pensante’. A mesma palavra possui cognata tanto dentro quando fora do indo-europeu. O poeta brasileiro Olavo Bilac (1865-1918) mostra, inadvertidamente, a universalidade do interesse humano pelo firmamento, em seu poema Via Láctea que mostramos em PoetryCafé, nesta edição de PortVitoria.

Até o final da era vitoriana, enquanto certos linguistas procuraram compreender melhor o sânscrito, outros se ocupavam em descobrir o local na Europa onde o indo-europeu havia se fixado originalmente. O sânscrito dos textos sagrados hindus é bastante antigo, sendo conhecido como sânscrito-védico, para distinguir daquele mais recente utilizado nos textos legais. Os Vedas, cujo nome significa conhecimento ou sabedoria, formam os textos sagrados hindus, sendo o mais antigo o Rig Veda. Os autores desses últimos, a elite religiosa formada pelos brâmanes designava-se arianos, palavra derivada de arya, que significa nobre ou senhor. Como os arianos do Rig Veda viviam no leste do Irã na direção do Afeganistão-Paquistão-Índia, o termo ariano só é correto como referência ao ramo indo-iraniano do indo-europeu.

A influência do movimento romântico
O movimento romântico dos séculos dezoito e dezenove, que preconizava o retorno aos valores autênticos ligados à natureza, dentre os quais o conceito de pátria (homeland, no inglês), atrelou mirabolantes extrapolações de cunho nacionalista às descobertas sobre o indo-europeu. Em 1916 Madison Grant, um antropólogo americano que era favorável à ideia eugenista de higiene racial, publicou um livro sugerindo que tais tribos germânicas primitivas seriam os caucasianos puros, uma raça superior formada por indivíduos altos, de cabelos loiros e olhos azuis, que descendiam dos Arianos. Seu livro era um alerta racista para a deterioração racial do povo americano devido à imigração de poloneses, tchecos, italianos e judeus. As ideias de Madison Grant agravaram o nacionalismo germânico que o partido do Nacional Socialismo (Nazismo) adotou, incluindo o antissemitismo; e o resto é história. Entretanto, o conceito de ‘raça’ que o movimento Romântico sublinhou não se encaixa nas afirmações científicas devido à falta de barreiras separatórias. Além de a chamada raça ariana ser uma ficção, a chamada raça caucasiana é bastante diversa, apresentando cor de pele que varia desde a mais clara até a mais escura. Dessa forma, a sugestão de que os povos germânicos tinham qualquer associação com a chamada raça ariana não só é desprovida de lógica mas é também anticientífica.

O proto-indoeuropeu
Por volta de 1900, alguns linguistas históricos propuseram que as relações naturais dentro das línguas europeias sugeriam a existência de uma língua mãe antecedente àquela descoberta por Jones, que deu origem às línguas da Índia continental (Índia e Paquistão) e da Europa. Tal língua foi designada proto-indoeuropeu (PIE).

A próxima parte do quebra-cabeça dos linguistas históricos foi encontrar o local onde o PIE se originou. Inicialmente os linguistas se mostraram céticos com relação à possibilidade de encontrar qualquer indício palpável sobre o PIE. O que dissolveu tal ceticismo foi o legado do linguista Joseph Harold Greenberg (1915-2001), um estudioso das línguas da África, das Américas e da Austrália bem como de outras partes do mundo.

Inicialmente Greenberg estabeleceu os seguintes princípios básicos da classificação genética das línguas: i) exclusão de aspectos tipológicos (propriedades puramente de forma ou significado); ii) exclusão de evidências não linguísticas; iii) comparação multilateral (a comparação simultânea de todas as línguas e formas relativas à área estudada). Na década de 1950, Greenberg modificou a linguística tipológica ao introduzir a importância das similaridades linguísticas, quando o normal era basear-se em dissimilaridades. Finalmente, um artigo seu sobre universais linguísticos não só alterou o curso da tipologia linguística mas também influenciou estudos que mais tarde iriam mudar todo o paradigma das ciências sociais.

Teorias sobre o berço geográfico do proto-indoeuropeu
Existem duas teorias sobre o berço geográfico do Proto-indoeuropeu. A primeira teoria é a da Anatólia, defendida especialmente pelo arqueólogo Sir Colin Renfrew, a qual afirma que o indo-hitita (uma língua pré-PIE) era falado pelos agricultores ao sul e oeste da Anatólia (atual Turquia), nos locais dos sítios arqueológicos como os Çatal Höyük, datados de 7.000 a.C. Eles teriam se dispersado pela Europa e Ásia a partir de 7.000 a.C., logo após o início da agricultura na região do Crescente Fértil (que inclui o vale do Nilo, a planície do Tigre e do Eufrates e pela faixa mediterrânea que os liga entre si).

A segunda teoria, conhecida como ‘Kurgan’ (palavra russa que significa túmulo), afirma que o PIE era originalmente a língua da cultura kurgan, formada por pastores que a partir de 5800 a.C. habitaram as estepes pônticas, assim chamadas porque o local era conhecido pelos antigos gregos como ‘Pontus Euxinus’, que significa local do Mar Euxinus, como o Mar Negro era chamado. Após adquirirem o hábito da montaria eles disseminaram o PIE entre 4000 e 2000 a.C., quando migraram em levas em suas carruagens puxadas por cavalos, para o sul, na direção do vale do Indu (atual Paquistão) e para o oeste, na direção da Europa.

As evidências
Com base em evidência linguística preservada nos fragmentos de escritos do registro arqueológico nas línguas hitita, grego Miceniano e Alemão arcaico, mais de mil e quinhentos radicais do PIE já foram reconstituídos pelos linguistas. Trata-se de um substancial vocabulário que permite reconstituir valores, relações familiares, crenças religiosas e outras preocupações de seus falantes. Estudos comparativos das línguas filhas permitiram que os linguistas reconstituíssem o PIE bem como as famílias linguísticas que derivaram do mesmo, como o Proto-Germânico falado ao Norte da Europa por volta do primeiro milênio a.C.

Um excelente resumo do processo de descoberta do PIE, apresentando as evidências obtidas pelos mais diversos grupos de pesquisas, encontra-se no livro The Horse the Wheel and Language: How Bronze-age Riders from the Eurasian Steppes Shaped the Modern World (O cavalo, a roda e a língua: como os cavaleiros das estepes eurasianas da idade do bronze fizeram o mundo moderno), de David W. Anthony, publicado em 2007 pela Princeton University Press. (Ver a resenha do livro de Anthony nesta edição de PortVitoria). Anthony é professor de antropologia no Harwick College, no estado de Nova Iorque, e também conduziu diversas pesquisas na Ucrânia, Rússia e Kazaquistão. Seu livro é uma excelente síntese das evidências existentes sobre o PIE e as culturas associadas ao mesmo, reorganizadas em tabelas e ilustrações comparativas. Anthony consegue mostrar que arqueologia não é apenas sobre ossos e fragmentos de objetos, mas também sobre as centenas de inscrições que precisam ser decifradas, catalogadas e comparadas. Línguas mortas são recriadas contrastando as inscrições preservadas no registro arqueológico com outras informações antropológicas-arqueológicas bem como com os ‘fósseis’ preservados em línguas vivas – as formas ‘irregulares’ dessas últimas.

Recapitulando, de acordo com a teoria Kurgan, os primeiros falantes de PIE eram pastores neolíticos pioneiros, que por volta de 5.800 a.C., se assentaram e ocuparam as estepes pônticas eurasianas. Aos poucos a organização social desses pioneiros se tornou mais complexa e sua cultura prosperou. O vocabulário reconstituído do PIE mostra que eles sabiam transformar a forragem vegetal em tecidos, tendas e roupas, bem como produzir queijo e iogurte. Eles também sabiam fazer poemas e usavam os mesmos como uma forma de moeda. Após terem desenvolvido o hábito de montar o cavalo adquiriram a roda e a carruagem coberta, e com essa última criaram um corredor de comunicação com o resto do mundo civilizado. Por volta de 4.200 a.C., eles penetraram na Europa, embora em seu trajeto eles exterminaram os agricultores do vale do Danúbio, os habitantes da Europa Velha.

Crítica às teorias
A teoria da Anatólia, de Sir Colin Renfrew, ligou a expansão da fronteira agrícola à expansão da língua PIE. Segundo Anthony o problema desta teoria é que ela exige que a primeira separação entre o progenitor indo-hitita e o PIE tenha ocorrido entre 6.700 e 6.500 a.C., quando os agricultores da Anatólia teriam migrado para a Grécia. Entretanto, as primeiras carruagens da Europa só aparecem no registro arqueológico por volta de 3500 a.C. Outro problema da teoria de Sir Colin Renfrew é que nessa época, a família da língua indo-europeia deveria ser bem mais rica e mais ramificada, pois já contaria com três mil anos de idade.

Ainda segundo Anthony a teoria Kurgan é compatível com as datações das línguas derivadas do PIE. A última língua do PIE é que o proto-anatoliano, da Anatólia Central, a língua que deu origem ao hitita tenha sido a última língua do PIE. O hitita, língua mais ou menos da mesma idade do grego, apareceu bem depois da data prevista na teoria de Sir Colin Renfrew. Os hititas ocupavam a região em 1.900 a.C. e seu império surgiu três séculos depois, entre 1650 e 1600 a.C.

Conforme sublinhado no livro de Anthony, o cavalo teve um papel central no desenvolvimento da civilização moderna, não só como meio de transporte mas também pela vantagem militar das carruagens a cavalo. É interessante lembrar que também na Roma antiga o cavalo teve um papel marcante na estratificação social, onde os cidadãos eram separados em cavaleiros e plebeus. Os cavaleiros deram origem aos patrícios enquanto que os plebeus faziam parte da massa popular ou plebe. Na militarização do império Romano essa estratificação foi mantida, com os patrícios tornando-se oficiais e os plebeus ocupando os postos militares inferiores.

As doze ramificações do indo-europeu
Retornando ao tema do PIE, as estepes pônticas onde este se originou foram o crisol da Civilização Ocidental. Entre 2.400 e 2.200 a.C. o PIE deixou de existir, tendo deixado pelo menos doze ramos, classificados com base nas suas escritas. São eles: anatoliano, indo-iraniano, grego, frígio, itálico, celta, germânico, armênio, tocariano, eslávico, báltico e o albanês.

Dos doze ramos acima, pelo menos três apresentam afinidade com o grego: o indo-iraniano, o frígio e o armênio. O ramo itálico separou-se em dois, o latino-faliscano e o osco-umbriano, cada um dos quais se separaram em dois grupos. O latim originou o romeno, o reto-romance, o Italiano, o francês, o provençal, o catalão, o espanhol e o português. O ramo celta teve também duas sub-ramificações, o goidélico ou gaélico, que deu origem ao gálico escocês, gálico irlandês e manês, e, o ‘bretânico’, que deu origem ao galês, cornualês, bretão e galês. O ramo germânico teve três sub-ramificações que continuaram a se subdividir, dando origem ao norueguês, sueco, Inglês, neerlandês e a diversas outras línguas.

Conclusão
Na busca da resposta à pergunta contida no título deste artigo aprendemos outra lição: a história universal não é feita de fronteiras políticas mas de sistemas mundiais. Os doze ramos do PIE não deram só as línguas europeias (embora ainda não se saiba ao certo as origens do basco, do finlandês, do estônio e do magiar ou húngaro) mas também muitas línguas do Irã, Paquistão e Índia. Dos seis bilhões de pessoas do nosso planeta mais de quatro bilhões falam línguas que descenderam do proto-indo-europeu.

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Citação:

Pires-O’Brien, J. De onde surgiram as línguas europeias? PortVitoria, UK, v. 1, Jul-Dec, 2011. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/

LATIN ENGLISH ROMANIAN ITALIAN FRENCH SPANISH CATALAN PORTUGUESE
advocatus diaboli devil’s advocate avocatul diavolului fautuore del diavolo l’avocat de diable abogado del diablo avocat del diable advogado do diabo
alibi elsewhere altundeva alibi alibi alibí àlibi álibi
amor love dragoste amore amour amor amor amor
annus mirabilis remarkable year un an remarcabil un anno notevole un année remarquable un año notable un any notable um ano maravilhoso
annus horribilis horrible year un an oribil un anno horrible un année horrible un año horrible un any horrible um ano horrível
bellum war război guerra guerre guerra guerra guerra
bona fide in good faith bună credinţă in buona fede en bonne foi de buena fé de bona fe de boa fé
caritas charity caritate carità charité caridad caritat caridade
carpe diem seize the day trăieşte clipa grippare il giorno saisir le jour agarre el día agafi el dia agarre o dia
catena chain lanţ catena cadena canena cadena cadeia
causa sine qua non a necessary condition o condiţie necesară una condizione necessaria une condition nécessaire una causa necesaria una causa necessària condição necessária
cave canem beware of the dog atenţie la câine guardar da del cane prende darde du chien cuidado con el perro cura amb el gos cuidado com o cão
circa about circa circa acerca acerca circa cerca
consensus agreement accord / consens accordo consensus consenso consens consenso
cui bono who stands to gain cine câştigă? si leva in piedi adagnare io se tient pour gagner quién gana qui guanya quem ganha
cum laude with praise cu elogii con elogio avec distinction con elogio amb elogi com louvor
de novo anew din nou di nuovo à nouvau de nuevo de nou de novo
deo gratias thanks to god Dumnezeu ringraziamenti al dio merci à dieu gracias a dios gràcies a déu graças a deus
digitus finger / digit deget /digital barretta / digitale doigt / digital dedo /digital dit / digital dedo /dígito
divide et impera divide and rule separă şi domină divider e regolare divisier et régner dividir para gobernar dividir per governar dividir para governar
erratum error erroare errore erreur error error erro
ex cathedra from the chair de la catedră dalla sadia de la chaise de cátedra de càtedra de cátedra
feria holiday vacation vacanza vacances vacaciones vacances férias
fugit hora time flies timpul zboară il tempo vola le temps vole el tiempo vuela el temps vola o tempo voa
furor madness nebunie follia foile locura bogeria loucura
dictionarium dictionary dictionar dizionario dictionnaire diccionario diccionari dicionário
honoris causa honorary onorific onorario honorofique honorario honorari honorário
in absentia in one’s absence în absenţa cuiva in sua assenza en son absence en la ausencia en l’absència na ausência
in dubio in doubt în dubiu in dubbio dans le doute en duda en dubte em dúvida
in toto entirely totalmente interamente totalement totalmente totalment totalmente
labor work lucru lavoro travail trabajo treball trabalho
lingua tongue / language limbă linguetta langue lengua llengua língua
machina machine aşină macchina machine máquina màquina máquina
magna cum laude with great praise cu mari elogii con elogio grande avec la grande éloge con grandes alabanzas amb gram lloança com grande louvor
mea culpa by my fault din vina mea del mio difetto par mon défaut culpa mía culpa meva minha culpa
non obstante notwithstanding în ciuda nonostante malgré no obstante no obstant não obstante
odium hatred ură odio haine odio odi ódio
pauperus pauper sărac pauper indigent pobre pobre pobre
pax peace pace pace paix paz pau paz
per mensem monthly lunar mensile mensuel mensualmente mensualment mensalmente
prima facie at first sight la prima vedere a prima vista à premiere vue a primera vista a primera vista à primeira vista
qualitas quality calitate qualità qualité calidad qualitat qualidade
rara avis rare bird o pasăre rară un ucello raro un oiseau rare una ave rara una au rara uma ave rara
regina queen regină regina reine reina reina rainha
salve hail salve la grandine grêle salve salve salve
summa cum laude with greatest praise cu cele mai mari elogii avec la grande éloge con la mayor alab amb la major lloança com o máximo louvor
vade in pace go in peace mergi în pace andare nella pace entrez dans la paix vaya en paz vagi en pau vá em paz
velocitas velocity viteză velocità vitesse velocidad velocitat velocidade
veni, vidi, vici I came, I saw, I conquered am venit, am văzut, am învins sono venuto, ho visto, ho conquistato Je suis venu, j’ai vu, j’ai conquis vine, vi, vencí vaig venir, vaig veure, vaig vèncer vim, vi e venci
versatile versatile versatil versatile souple versatilidad versatilitat versatilidade
volente deo god willing cu voia domnului volere del dio disposé de dieu si dios quiere si déu vol se deus quiser

 

Joaquina Pires-O’Brien

Introdução
Pelo menos até o século quinze a história do espanhol e do português é apenas uma. Dessa forma, a história da língua portuguesa também está contida no livro Historia de la Lengua Española, do linguista Rafael Lapesa, publicado inicialmente em 1981, pela Biblioteca Tománica Hispánica & Editorial Gredos, Madrid, e já na sua nona edição. Embora uma boa parte do artigo a seguir tenha sido extraída do livro de Lapesa, outras fontes também foram utilizadas. Uma resenha do livro de Lapesa encontra-se na seção Review da presente edição de PortVitoria.

O espanhol e o português são línguas derivadas do latim vulgar, a língua dos conquistadores romanos que ocuparam a Península Ibérica no período que vai de cerca de cem anos antes de Cristo até o ano de 476, quando uma última investida dos visigodos contra Roma pôs fim ao Império Romano ocidental. Foi devido à expansão do Império Romano que o latim espalhou-se pelo Mediterrâneo e por quase toda a Europa Ocidental, dando origem às chamadas línguas românicas como: italiano, sardenho, romeno, francês, espanhol, catalão e português.

Como é de se esperar para qualquer grupo de línguas de uma mesma estirpe, há muitas semelhanças entre as línguas românicas. A Tabela 1 compara diversas palavras e expressões latinas com as românicas equivalentes. Na mesma tabela, o português foi colocado na última coluna por ser a mais nova das suas irmãs românicas, conforme frisou o poeta brasileiro Olavo Bilac no seu famoso poema Língua Portuguesa (veja em PoetryCafé, nesta edição).

A influência pré-românica
Diversas línguas pré-românicas também contribuíram indiretamente para a formação do espanhol e do português. Conforme relatado por Lapesa, os antigos escritores gregos deixaram diversas referências sobre a Península Ibérica, assim denominada devidos ao assentamento na região de Huelva, Espanha, de povos Iberos, originários do norte da África. A toponímia é outra fonte de evidência da ocupação pré-romana na Ibéria. Por exemplo, na Espanha, nomes de diversos lugares que se estendem de Huelva até os Pirineus, coincidem com topônimos da Etrúria e outras regiões da Itália.

Segundo narra Lapesa, os autores gregos registraram que a região onde fica a Andaluzia e o Sul de Portugal foi habitada pelos Turdetanos, pertencentes à civilização da Tardésia, os quais seriam relacionados aos Tisenos da Lídia, na Ásia Menor, que deram origem aos tirenos e etruscos da Itália. Os etruscos assentaram-se na costa da Espanha da região do Levante (Mediterrâneo oriental) até o Mediodía (cidade dos Pirineus). Os fenícios também se estabeleceram na costa da Espanha, tendo fundado a cidade de Gádir (Cádis) em 1100 a.C. Outra colônia fenícia é Málaga, na Andaluzia e Abdera (atualmente Adra), em Almeria. A cidade Cartagena na região da Múrcia, trata-se da antiga Nova Cartago fundada pelos Cartagineses. Os Helenos, oriundos de Hellas, sociedade grega que viveu entre 350 e 336 a.C. sob o domínio macedônico, também se estabeleceram na Península Ibérica antes dos romanos. Após terem sido expulsos do extremo sul eles seguiram para Lucento, Alicante. Na região do centro e do oeste da Ibéria, há evidências arqueológicas de campos cultivados e de cemitérios de assentamentos Indo-Europeus, oriundos da Europa Central, por volta do ano 1000 a.C. Os escritores Gregos também mencionaram a presença dos celtas em Portugal e na Baixa Andaluzia, no ano 445 a.C., o que sugere a possibilidade de outros assentamentos celtas.

Conforme registrado pelo geógrafo grego Estrabão, na época do Imperador Augusto, havia na Península Ibérica uma enorme variedade de línguas. Após a ocupação Romana, com exceção da região basca, toda a Ibéria assimilou a língua dos romanos, fazendo com que seus vocabulários convergissem para o latim vulgar. Há no espanhol uma enorme quantidade de palavras cujas origens não podem ser atribuídas nem ao latim e nem a outras línguas conhecidas, bem como uma boa quantidade de sufixos que são claramente pré-romanos.

A ocupação romana mudou completamente a sociedade ibérica. Durante a mesma os ibéricos abriram mão de suas línguas, convergindo seus vocabulários para o latim vulgar. Segundo os historiadores, isso se deu não só devido às pressões dos romanos mas também em troca da segurança proveniente do direito romano, que o imperador Vespasiano havia introduzido nas províncias. Os costumes que os romanos introduziram na Ibéria incluíam aqueles da civilização helênica, que os primeiros haviam incorporado. A integração pode ser ainda deduzida pelo fato de que, em 212, o imperador Caracala tornou os hispânicos cidadãos do Império Romano. Após a chegada da cristandade na Ibéria, o latim eclesiástico foi introduzido, incluindo o texto do Novo Testamento, o que ajudou a completar a latinização da língua Ibérica.

A influência germânica
A partir do terceiro século, os bárbaros germânicos – suevos, vândalos, alanos e visigodos – começaram a invadir a Península Ibérica, causando bastante destruição. Em 409 os visigodos tornaram a invadir Península Ibérica, e em 410 eles saquearam Roma pelo líder Alarico (outros dois saques ocorreriam posteriormente). Através do pacto de 411 eles ganharam o controle da Galícia, Luzitânia e da província cartaginense. A influência germânica nas línguas românicas encontra-se muito bem documentada. Por exemplo, do celta: bico (beak, bill), brio (pride), broa (loaf), brixa (witch), camisa (shirt), carro (car, cart), légua (league), peça (piece), penedo (cliff), picar (top prick), tranca (latch); do germânico: barão (baron), branco (blank), guerra (war, wirro), alvergue ou albergue (haribergo), estaca (stakka), guia (wida), Marta (Marthus), tampa (tappa), trégua (trigvo), banco (banka) etc.

Após a queda do império Romano, quando cessou a ocupação romana, as províncias ibéricas acabaram por se separar umas das outras, o que fez com que as variedades da língua Romance se separassem, resultando os diversos dialetos que mais tarde iriam formar as línguas românicas modernas.

A influência mouro-arábica
Dos séculos VIII ao XII, os Mongóis e os Otomanos formaram os dois grandes poderes do mundo muçulmano ou mouro. Os árabes recem islamizados que a partir do século oito ocuparam uma boa parte da África, Turquia e Ásia central, norte da Índia e a parte sul da Península Ibérica também influenciaram as línguas indígenas. Embora nem todos os ocupantes muçulmanos falassem o árabe, seus idiomas sofreram a influência árabe devido à necessidade de assimilação do direito Sharia, este dividido em cinco diferentes escolas. Na Península Ibérica, a linha divisória da ocupação moura passava pela bacia do rio Mondego, em Portugal, de onde continuava na direção da Espanha. Dentre os legados dos muçulmanos, os mais importantes são a bússola e a numeração árabe.

A reconquista cristã
A reconquista cristã da Península Ibérica começou com a rebelião de Pelayo, por volta de 718, tendo sido concluída em 1492. Os primeiros núcleos de resistência cristã se limitavam às zonas ainda despovoadas, como a parte norte do vale do Douro, em Portugal, durante a hegemonia Al-Andalus. No ano 722, um grupo de astúrios nativos liderados por um nobre visigodo derrotou um exército muçulmano e deu início ao reino de Astúrias e ao reinado da dinastia Alfonso. Em 910 o reino asturiano já havia se expandido até a linha do Douro. Em seguida estabeleceu-se o núcleo Navarro, nos pireneus ocidentais, entre o país dos francos e a Al-Andalus, cujo apogeu ocorreu no reinado de Sancho III, o Maior, que foi o rei de Navarra entre os anos 1000 e 1035, e cujo poderio se estendeu até os reinos de Aragão e Castela. Após a primeira fase de resistência, seguiram-se outras três. No avanço da reconquista, ao final da quarta fase de resistência, Castela separou-se de Leão, Portugal separou-se de Galícia e Aragão se expandiu até o sul. Em 1230 Castela e Leão tornaram a se unir de forma definitiva, sob o reinado de Fernando III.

O castelhano
Um dos primeiros reinos cristãos foi o reino de Castela, cuja língua principal, o castelhano, começou a tomar forma no final do período medieval, quando os escritores hispânicos, acompanhando a tendência marcada pelos seus pares italianos, passaram a escrever no vernáculo vulgar ao invés do latim. Os primeiros textos, surgidos a partir do século doze são poemas épicos sobre heróis passados e suas vitórias, como o Mío Cid, Roncesvalles e Los Infantes de Lara, e narrativas em forma de poemas como Alexandre e Apolonio. O primeiro dicionário, de Alfonso de Palencia foi publicado em 1490, enquanto que a primeira gramática, de Antonio de Nebrija, foi publicada em 1492. Logo a seguir foi também publicado o primeiro dicionário de latim e uma versão da Bíblia no vernáculo. O romance Don Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, marca a época de ouro da literatura espanhola. A completa história do castelhano pode ser encontrada no excelente livro do linguista Rafael Lapesa Historia de la Lengua Española.

Os primórdios de Portugal
O condado Portucale foi doado pelos reis de Leão e Castela a D. Afonso, um nobre cavalheiro franco que os haviam ajudado a derrotar os muçulmanos. D. Afonso casou-se com D. Teresa, filha do rei de Castela. O filho do casal, D. Afonso Henriques, lutou contra Castela para tornar o seu reino independente, o que ocorreu na Conferência de Zamora, em 1143, quando se tornou o primeiro rei de Portugal. Em 1147 D. Afonso conseguiu expandir o seu reino até a fronteira do Tejo, tomando o castelo dos mouros e incorporando Lisboa, então a cidade mais populosa da Península Ibérica.

A cultura dos primeiros cristãos ibéricos incluía alguns costumes violentos dos visigodos como o hábito do uso da força para resolver disputas ao invés da lei. Entre os séculos nove e onze já havia na Ibéria alguns reinos cristãos, com distritos legais e delimitações paroquiais.

Com as descobertas marítimas Portugal e Espanha tornaram-se poderosos impérios, e mais tarde fizeram com que a língua portuguesa e espanhola se fixasse nas suas províncias ao redor do mundo. Em Portugal também se falava o castelhano como segunda língua. Em seu livro, Lapesa sublinha o bilingualismo dos escritores portugueses como Gil Vicente, Camões e Rodrigo Lobo e Melo.

Do galaico-português ao português
Segundo os linguistas o português é irmão gêmeo do galaico ou galego. Após a queda do império romano, a parte noroeste da península Ibérica, onde fica a moderna Galícia e o norte de Portugal, foi invadida pelos suevos germânicos. Embora se saiba muito pouco sobre esses últimos, os suevos fazem parte da ancestralidade de galegos e portugueses do norte. Palavras portuguesas que parecem ter se originado do suevo incluem ‘britar’, que significa quebrar, ou brita, que significa pedra quebrada.

Durante o período islâmico, o dialeto romano falado em Portugal era o mozarábico. Entretanto, a influência que a língua árabe deixou no mesmo também influenciou o galaico ou galego em ascendência. A partir do século 14 o galaico e o português se separaram embora resquícios do primeiro ainda existam nos dialetos portugueses da região da Galícia.

Uma das primeiras obras em português foi o livro Décadas da Ásia, de João de Barros, cujo nome é baseado nas dez divisões da história romana escrita por Tito Lívio. Entretanto a obra-prima da época é Os Lusíadas, o poema épico de Luís de Camões, narrando a histórica viagem de Vasco da Gama. Abaixo um trecho de os Lusíadas:

Os Lusíadas, Canto II

Dai velas (disse) dai ao largo vento,
Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
Que um mensageiro vi do claro Assento,
Que só em favor de nossos passos anda.»
Alevanta-se nisto o movimento
Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
Levam gritando as âncoras acima,
Mostrando a ruda força que se estima.

Após as ‘descobertas’ marítimas portuguesas ainda levou algum tempo até que o português passasse a ser utilizado como língua oficial nas colônias. Por exemplo, no Brasil, a língua mais falada era o tupi. A Lei do Directório, promulgada em 1757 pelo Marquês de Pombal, não só fez o português como língua oficial do Brasil mas também proibiu que fossem falados o tupi e outras línguas indígenas. Aos poucos o português passou a ser uma das línguas europeias mais difundidas mundialmente. Os países lusófonos mantiveram características próprias decorrentes da contribuição das línguas indígenas. Em certos locais desenvolveu-se ainda dialetos crioulo-portugueses formados pela mistura do português com a língua indígena, como ocorre no arquipélago de Cabo Verde, na Guiné Bissau e na região de Macau. O português falado no Brasil apresenta enormes variações de norte a sul, mas essas não chegam a abalar a unidade linguística. Em termos mundiais o português é hoje a quinta língua mais falada, vindo atrás do inglês, chinês, espanhol e japonês.

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Citação:

Pires-O’Brien, J. De onde surgiram o Espanhol e o Português? PortVitoria, UK, v. 1, Jul-Dec, 2011. ISSN 2044-8236, https://portvitoria.com/