Stephen R. C. Hicks
 

Relacionando epistemologia e política

Estamos prontos agora para tratar da questão levantada no final do primeiro capítulo: por que um importante segmento da esquerda política adotou estratégias epistemológicas céticas e relativistas?

A linguagem é o centro da epistemologia pós-moderna. Em suas argumentações sobre temas específicos da filosofia, da literatura e do direito, os modernos e os pós-modernos diferem  não  apenas  quanto  ao  conteúdo,  mas  também  nos  métodos  de  empregar  a linguagem. A epistemologia é a causa dessas diferenças.

A  epistemologia  coloca  duas  perguntas  sobre  a  linguagem:  qual  é  a  relação  da linguagem com a realidade e qual é sua relação com a ação? As questões epistemológicas sobre a linguagem constituem um subconjunto de questões epistemológicas sobre a consciência em geral: qual é a relação da consciência com a realidade e qual é sua relação com a ação? Os modernos e os pós-modernos têm respostas radicalmente diferentes a essas perguntas.

Para os realistas modernos, a consciência é tanto cognitiva quanto funcional, e esses dois traços estão integrados. O propósito primário da consciência é estar ciente da realidade. Seu propósito complementar é usar essa cognição da realidade como guia para atuar nela.

Para os antirrealistas pós-modernos, ao contrário, a consciência é funcional, mas não cognitiva, por isso sua funcionalidade nada tem a ver com a cognição. Dois conceitos-chave do léxico pós-moderno, “desmascaramento” e “retórica”, ilustram a importância dessas diferenças.

Desmascaramento e retórica

Para o modernista, a metáfora da “máscara” é um reconhecimento do fato de que as palavras nem sempre devem ser tomadas literalmente ou como afirmação direta de um fato — de que as pessoas podem usar a linguagem de maneira elíptica, metafórica ou para afirmar inverdades, de que a linguagem pode ser texturizada com camadas de significado e de  que  pode  ser  usada  para  encobrir  hipocrisias  ou  para  racionalizar.  Portanto, desmascarar significa interpretar ou investigar para chegar a um significado literal ou factual. O processo de desmascaramento é cognitivo, conduzido por padrões objetivos, com o propósito de alcançar uma cognição da realidade.

Já para o pós-modernista, a interpretação e a investigação jamais encerram com a realidade. A linguagem se relaciona apenas com mais linguagem, nunca com uma realidade não linguística.

Nas palavras de Jacques Derrida, “o fato da linguagem é provavelmente o único fato que resiste, no fim, a qualquer colocação entre parênteses”288. Ou seja, não podemos ficar fora da linguagem. A linguagem é um sistema “interno”, autorreferencial, e não há como ficar “externo” a ela — embora falar de “interno” e “externo” tampouco faça sentido para os pós-modernos. Não existe nenhum padrão não linguístico ao qual relacionar a linguagem, portanto, não pode haver nenhum padrão que permita distinguir o literal do metafórico, o verdadeiro do falso. Então, em princípio, a desconstrução é um processo interminável.

O desmascaramento nem mesmo termina em crenças “subjetivas”, pois “subjetivo” contrasta com “objetivo”, e essa é também uma distinção que os pós-modernistas rejeitam. As “crenças e interesses de um sujeito” são, elas próprias, construções sociolinguísticas; assim,  desmascarar  uma  peça  linguística  para  revelar  um  interesse  subjetivo  oculto significa apenas revelar mais linguagem. E essa linguagem, por sua vez, pode ser desmascarada para revelar mais linguagem, e assim por diante. A linguagem consiste em máscaras, do começo ao fim.

Em qualquer época, porém, o sujeito é uma construção específica com um conjunto específico de crenças e interesses, e utiliza a linguagem para expressar e promover essas crenças e interesses. Portanto, a linguagem é funcional, o que nos leva à retórica.

Para o modernista, a funcionalidade da linguagem é complementar ao fato de ser cognitiva. O indivíduo observa a realidade perceptualmente, forma crenças conceituais sobre a realidade com base em suas percepções e, então, age na realidade a partir desses estados  cognitivos  perceptuais  e  conceituais.  Algumas  dessas  ações  no  mundo  são interações sociais, e em algumas dessas interações a linguagem assume uma função comunicativa. Ao se comunicarem entre si, os indivíduos narram, argumentam ou tentam passar adiante suas crenças cognitivas sobre o mundo. A retórica, portanto, é um aspecto da função comunicativa da linguagem; refere-se aos métodos de usar a linguagem que auxiliam na eficácia da cognição durante a comunicação linguística.

Para o pós-modernista, a linguagem não pode ser cognitiva porque ela não se relaciona com a realidade, seja esta uma natureza externa ou algum eu subjacente. A linguagem não tem a ver com estar ciente do mundo, ou distinguir entre verdadeiro e falso ou mesmo com argumentos, no sentido tradicional de validade, consistência e probabilidade. Assim, o Pós-modernismo reformula a natureza da retórica: é persuasão na ausência de cognição.

Richard Rorty deixa isso claro em seu ensaio A contingência da linguagem. O malogro da posição realista, diz ele, mostrou que “o mundo não nos ensina que jogos linguísticos devemos jogar” e que “as linguagens humanas são criações humanas”. O propósito da linguagem, portanto, não é argumentar na tentativa de provar ou refutar alguma coisa. Consequentemente,  conclui  Rorty,  não  é  isso  que  ele  está  fazendo  quando  utiliza  a linguagem para tentar nos persuadir de sua versão de “solidariedade”.

Obedecendo aos meus próprios preceitos, não vou oferecer argumentos contra o vocabulário que desejo substituir. Em vez disso, tentarei fazer com que o vocabulário que defendo pareça atrativo, mostrando de que maneira pode ser usado para descrever uma variedade de tópicos.

A linguagem aqui é a da “atratividade” na ausência de cognição, verdade ou argumento. Por uma questão de temperamento e no conteúdo de sua política, Rorty é o menos radical dos líderes pós-modernistas. Isso fica evidente no tipo de linguagem que ele usa em seu discurso político.

A linguagem é um instrumento de interação social, e o modelo de interação social de uma pessoa determina o tipo de uso que se fará da linguagem como instrumento.

Rorty vê muita dor e sofrimento no mundo e muito conflito entre os grupos, assim, para ele, a linguagem é, antes de tudo, um instrumento para a resolução de conflitos. Com essa finalidade,  sua  linguagem enfatiza  a  “empatia”,  a  “sensibilidade”  e  a  “tolerância”  — embora ele também sugira que essas virtudes só se aplicam ao âmbito de nossa categoria “etnocêntrica”: “na prática, devemos privilegiar nosso próprio grupo”, escreve, o que implica que “há muitos pontos de vista que simplesmente não podemos levar a sério”.

A maioria  dos  outros  pós-modernistas,  no  entanto,  considera  os  conflitos  entre  os grupos mais brutais — e nossas chances de empatia, muito mais limitadas — do que Rorty. Usar a linguagem como instrumento para a resolução de conflitos, portanto, não é algo que eles contemplem. Em um conflito no qual não se consegue chegar a uma resolução pacífica, o tipo de instrumento que se deseja é uma arma. Assim, considerando os modelos de conflito das relações sociais que predominam no discurso pós-moderno, faz total sentido que, para a maioria dos pós-modernistas, a linguagem seja principalmente uma arma.

Isso explica a aspereza de boa parte da retórica pós-moderna. O uso regular de argumentos ad hominem e de falácias, bem como as frequentes tentativas de silenciar as vozes de oposição são consequências lógicas da epistemologia da linguagem pós-moderna.

Stanley Fish, como vimos no capítulo 4, chama de racistas todos os oponentes da ação afirmativa e os coloca no mesmo grupo da Ku Klux Klan.

Andrea Dworkin chama todos os heterossexuais masculinos de estupradores e repetidamente rotula a “Amerika” de Estado fascista.

Com uma retórica dessas, verdade ou mentira não vem ao caso: o que importa, antes de tudo, é a eficácia da linguagem.

Se acrescentarmos agora à epistemologia pós-moderna da linguagem a política de extrema-esquerda dos líderes pós-modernistas e sua cognição direta das crises pelas quais passaram o pensamento e a prática socialistas, então o arsenal verbal será explosivo.

Quando a teoria se choca com o fato

Nos últimos dois séculos, muitas estratégias foram buscadas por socialistas do mundo todo. Os socialistas tentaram esperar que as massas chegassem ao socialismo de baixo para cima e tentaram impor o socialismo de cima para baixo. Tentaram alcançá-lo pela evolução e pela revolução. Tentaram versões do socialismo que enfatizam a industrialização e as que são agrárias. Tentaram esperar que o capitalismo entrasse em colapso e, quando isso não aconteceu, tentaram destruir o capitalismo por meios pacíficos. E, quando isso não funcionou, alguns tentaram destruí-lo pelo terrorismo.

Mas o capitalismo continua a se sair bem e o socialismo tem sido um desastre. Nos tempos modernos, foram mais de dois séculos de prática e teoria socialistas durante os quais a preponderância da lógica e da evidência depôs contra o socialismo.

Há, portanto, uma escolha a fazer com respeito ao que se pode aprender com a história. Se alguém tem interesse na verdade, então, a resposta racional a uma teoria que não funciona é a seguinte:

  • Decompor a teoria nas premissas que a constituem.
  • Questionar essas premissas vigorosamente e verificar a lógica que as integra. Buscar alternativas para as premissas mais questionáveis.
  • Aceitar a responsabilidade moral por qualquer consequência infeliz de tentar colocar em prática a teoria falsa.

Não é o que temos visto acontecer nas reflexões pós-modernas sobre a política contemporânea. A verdade e a racionalidade estão sujeitas a ataques, e a conduta que prevalece com respeito à responsabilidade moral é bem-explicitada por Rorty: “Acho que uma boa esquerda é aquela que sempre pensa no futuro e não se importa muito com nossos erros passados”.

O pós-modernismo kierkegaardiano

No capítulo 4, delineei uma das respostas pós-modernas aos problemas da teoria e da evidência para o socialismo. Um socialista inteligente e esclarecido, ao se deparar com os dados da história, certamente sofrerá algum abalo na sua crença. O socialismo, para muitos, é uma visão cativante do que seria uma bonita sociedade, o sonho de um mundo social ideal que transcenda todos os males de nossa sociedade atual. Uma visão que é acalentada de maneira tão profunda acaba se tornando parte da própria identidade daquele que crê nela, e qualquer ameaça a essa visão necessariamente será percebida como ameaça à própria pessoa que crê.

A partir da experiência histórica de outras visões que enfrentaram a crise da teoria e da evidência, sabemos que é forte a tentação de se fechar para os problemas teóricos e de evidência e simplesmente se determinar a prosseguir na crença. A religião, por exemplo, forneceu muitos exemplos desse tipo. “Dezenas de milhares de dificuldades”, escreveu o cardeal Newman, “não fazem uma pessoa duvidar”.

Fiódor Dostoiévski expressou isso de maneira mais categórica em uma carta a uma benfeitora: “Se alguém me escrevesse dizendo que a verdade não está em Cristo, eu escolheria Cristo à verdade”.

Também sabemos, a partir da experiência histórica, que é possível desenvolver estratégias epistemológicas sofisticadas com o propósito de atacar a razão e a lógica que causaram problemas para a visão. Foi essa, em parte, a motivação clara de Kant em sua primeira Crítica, de Schleiermacher em Sobre a religião e de Kierkegaard em Temor e tremor.

Por que isso não aconteceria com a extrema-esquerda? A história moderna da religião e a do socialismo exibem semelhanças notáveis em seu desenvolvimento.

  • Tanto a religião quanto o socialismo começaram com uma visão abrangente que acreditavam ser verdadeira, embora não fosse baseada na razão (a exemplo de vários profetas e Rousseau).
  • As duas visões foram então contestadas por outras baseadas em epistemologias racionais (pelos  primeiros  críticos  naturalistas  da  religião  e  pelos  primeiros críticos liberais do socialismo).
  • Ambos, a religião e o socialismo, responderam dizendo que podiam satisfazer os critérios da razão (como na teologia natural e no socialismo científico).
  • Ambos enfrentaram sérios problemas de lógica e evidência (como os ataques de Hume à teologia natural e as críticas de Mises e Hayek ao cálculo socialista). Ambos reagiram, por sua vez, atacando a realidade e a razão (como Kant e Kierkegaard e os pós-modernistas).

No final do século 18, os pensadores religiosos passaram a contar com a sofisticada epistemologia de Kant. Ele lhes dissera que a razão estava separada da realidade; assim, muitos abandonaram a teologia natural e de bom grado usaram a epistemologia kantiana para defender a religião.

Em  meados  do  século  20,  os  pensadores  de  esquerda  passaram  a  contar  com sofisticadas teorias de epistemologia e linguagem que lhes diziam que a verdade é impossível, que a evidência está carregada de teorias, que a evidência empírica nunca resulta em prova, que a prova lógica é meramente teórica, que a razão é artificial e desumanizante e que os sentimentos e as paixões são guias melhores que a razão.

As epistemologias céticas e irracionalistas que prevaleceram na filosofia acadêmica forneceram, desse modo, à esquerda uma nova estratégia para responder à crise. Qualquer ataque ao socialismo, em qualquer forma que fosse, poderia ser descartado, reafirmando- se o desejo de acreditar nele. Os que adotavam essa estratégia sempre podiam dizer a si mesmos que estavam simplesmente agindo como Kuhn dissera que os cientistas agiam — colocando as anomalias entre parênteses, deixando-as de lado e prosseguindo com seus sentimentos.

Segundo essa hipótese, portanto, o Pós-modernismo é um sintoma da crise de fé da esquerda. É fruto da decisão de usar a epistemologia cética para justificar o salto de fé pessoal, necessário para continuar acreditando no socialismo.

Segundo essa hipótese, a predominância das epistemologias céticas e irracionalistas em meados do século 20, por si só, não é suficiente para explicar o Pós-modernismo.  O impasse do ceticismo e do irracionalismo não determina que uso será feito do ceticismo e do irracionalismo. No momento do desespero, uma pessoa ou um movimento pode apelar a essas epistemologias como mecanismo de defesa, mas o que leva alguém ou um movimento ao desespero são outros fatores.

Nesse caso, o movimento em apuros é o socialismo. Mas os apuros do socialismo, por si sós, tampouco são uma explicação suficiente. A menos que se assentem os fundamentos epistemológicos, qualquer movimento que recorra aos argumentos céticos e irracionalistas sairá do tribunal debaixo de risos. Portanto, para dar origem ao Pós-modernismo, é necessária a combinação dos dois fatores: o difundido ceticismo com respeito à razão e a crise do socialismo.

No entanto, essa explicação kierkegaardiana do Pós-modernismo é incompleta para descrever  a  estratégia  pós-moderna.  Para  os  pensadores  de  esquerda  que  se  veem arrasados pelas falhas do socialismo, a opção kierkegaardiana fornece a justificativa necessária para continuarem a acreditar no socialismo como questão de fé pessoal. Para aqueles  que  ainda  desejam  levar  adiante  a  batallJa contra  o  capitalismo,  as  oovas epistemologias possibilitam outras estrategias.

Trasímaco ao revés

Até aqui, meus argumentos explicam o subjetivismo e o relativismo do Pós- modernismo, sua política de esquerda e a necessidade de estabelecer uma relação entre ambos.

Se essa explicação estiver correta, então o Pós-modernismo é o que eu chamo de “trasimaquineanismo reverso”, em uma alusão ao sofista Trasímaco, da República de Platão. Alguns pós-modernistas entendem que parte de seu projeto é reabilitar os sofistas, o que faz total sentido.

Depois de algum tempo praticando Filosofia, uma pessoa poderia passar a acreditar sinceramente no subjetivismo e no relativismo. Consequentemente poderia acreditar que a razão é um derivado, que a vontade e o desejo governam, que a sociedade é uma batalha entre vontades antagônicas, que as palavras são apenas instrumentos na luta de poder pela dominação e que tudo é válido no amor e na guerra.

Era isso que os sofistas argumentavam 2.400 anos atrás. A única diferença, portanto, entre os sofistas e os pós-modernistas é de que lado eles estão.

Trasímaco era representante da segunda e mais rude geração de sofistas, que arrolava argumentos subjetivistas e relativistas em defesa da afirmação política de que a justiça serve aos interesses dos mais fortes. Os pós-modernistas — entrando em cena após dois mil anos de cristianismo e dois séculos de teoria socialista — simplesmente inverteram essa afirmação: o subjetivismo e o relativismo são verdadeiros, só que os pós-modernistas estão do lado dos grupos mais fracos e historicamente oprimidos. A justiça, ao contrário do que dizia Trasímaco, serve aos interesses dos mais fracos298.

A conexão com os sofistas afasta a estratégia pós-moderna da fé religiosa em direção à realpolitik. Os sofistas ensinavam retórica não como meio para promover a verdade e o conhecimento, mas para vencer os debates no mundo beligerante da política cotidiana. Na política cotidiana, não se alcança nenhum sucesso efetivo fechando-se os olhos para os dados.

Na verdade, ela requer abertura para as novas realidades e flexibilidade para adaptar- se às circunstâncias. Ampliar essa flexibilidade a ponto de tratar com descaso a verdade ou a coerência dos argumentos pode parecer, como muitas vezes pareceu, parte de uma estratégia para obter êxito político. Cabe aqui citar Lentricchia: o Pós-modernismo “não busca encontrar os fundamentos e as condições da verdade, mas exercitar o poder visando a mudança social”.

Discursos contraditórios como estratégia política

No discurso pós-moderno, há uma explícita rejeição da verdade, e a coerência pode ser um fenômeno raro. Considere os seguintes pares de afirmação:  Por um lado, toda verdade é relativa; por outro, o Pós-modernismo a descreve tal como realmente é.

  • Por um lado, todas as culturas merecem igual respeito; por outro, a cultura ocidental é exclusivamente destrutiva e má.
  • Os valores são subjetivos — mas sexismo e racismo são realmente um mal.
  • A tecnologia é má e destrutiva — mas é injusto que alguns povos tenham mais tecnologia que outros.
  • A tolerância é boa e a dominação é má — mas quando os pós-modernistas chegam ao poder, a correção política se instala.

Existe um padrão comum: subjetivismo e relativismo em uma respirada, absolutismo dogmático na seguinte. Os pós-modernistas estão bem cientes das contradições — especialmente porque seus oponentes se deliciam em apontá-las sempre que surge uma oportunidade. E, é claro, um pós-modernista pode refutar citando Hegel: “Trata-se meramente de contradições da lógica aristotélica”. Mas uma coisa é dizer isso, outra muito diferente é sustentar psicologicamente as contradições hegelianas.

Portanto, esse padrão levanta a seguinte questão: que lado da contradição é mais profundo para o Pós-modernismo? Será que o Pós-modernismo está realmente comprometido com o relativismo, mas às vezes resvala no absolutismo? Ou os compromissos absolutistas são mais profundos, e o relativismo é um manto retórico?

Veja mais três exemplos, desta vez sobre os conflitos entre a teoria pós-modernista e o fato histórico.

  • Os pós-modernistas dizem que o Ocidente é profundamente racista, mas sabem muito bem que o Ocidente foi o primeiro a acabar com a escravidão, e que é somente nos lugares onde penetraram as ideias ocidentais que as ideias racistas estão na defensiva.
  • Dizem que o Ocidente é profundamente sexista, mas sabem muito bem que as mulheres ocidentais foram as primeiras a ter direito de voto, direitos contratuais e oportunidades que a maioria das mulheres do mundo ainda não tem.
  • Dizem que os países capitalistas do Ocidente são cruéis com seus membros mais pobres, subjugando-os e enriquecendo-se à custa deles, mas sabem muito bem que os pobres no Ocidente são muito mais ricos que os pobres de qualquer outro lugar, tanto em posses materiais quanto em oportunidades de melhorar sua condição.

Para explicar a contradição entre o relativismo e a política absolutista, existem três possibilidades:

  1. A primeira possibilidade é a de que o relativismo seja primário e a política absolutista, secundária. Qua filósofos, os pós-modernistas enfatizam o relativismo, mas qua indivíduos particulares, eles acreditam em uma versão particular de política absolutista.
  2. A segunda possibilidade é a de que a política absolutista seja primária, ao passo que o relativismo é uma estratégia retórica usada para promover essa política.
  3. A terceira possibilidade é a de que ambos, o relativismo e o absolutismo, coexistam no Pós-modernismo, mas as contradições entre eles simplesmente não têm importância psicológica para aqueles que as sustentam.

A primeira opção pode ser excluída. O subjetivismo e seu consequente relativismo não podem ser primários para o Pós-modernismo por causa da uniformidade da política do Pós-modernismo. Se o subjetivismo e o relativismo fossem primários, então os pós- modernistas  estariam adotando  posições  políticas  variadas  dentro  do  espectro,  e  isso simplesmente não é o que acontece. Assim sendo, o Pós-modernismo é primeiro um movimento político, e um tipo de política que só recentemente chegou ao relativismo.

Pós-modernismo maquiavélico

Tentemos então a segunda opção, a de que o Pós-modernismo se interessa primeiro pela política e só secundariamente pela epistemologia relativista.

“Tudo, ‘em última análise’, é político”. Essa frase de Fredric Jameson, tantas vezes citada, deve ter recebido um viés fortemente maquiavélico, como se fosse uma declaração da disposição de usar qualquer arma — retórica, epistemológica, política — para alcançar fins políticos. Então, o Pós-modernismo se revela, surpreendentemente, nada relativista. O relativismo   se   torna   parte   de   uma   estratégia   política,   algum  tipo   de   realpolitik maquiavélica usada para tirar a oposição do caminho.

Por essa hipótese, os pós-modernistas não precisam acreditar muito no que dizem. O jogo de palavras e boa parte da raiva e da fúria que utilizam, tão características de boa parte de seu estilo, podem ter a finalidade não de usar as palavras para afirmar as coisas que acreditam ser verdadeiras, mas de usá-las como armas contra um inimigo que ainda esperam destruir.

Cabe aqui citar novamente Derrida: “A desconstrução só tem sentido ou interesse, pelo menos a meu ver, como radicalização, isto é, também na tradição de um certo marxismo, em um certo espírito do marxismo”.

Discursos retóricos maquiavélicos

Vamos supor que você esteja discutindo política com um colega estudante ou um professor. Você não consegue acreditar, mas parece que está perdendo a discussão. Todos os seus quatro gambitos argumentativos estão bloqueados, e você continua acuado nos cantos. Sentindo-se encurralado, você então se pega dizendo: “Bem, é tudo uma questão de opinião; é pura semântica.”

Qual o propósito, nesse contexto, de apelar para a opinião e o relativismo semântico? O propósito é tirar o oponente das suas costas e conseguir algum espaço para respirar. Se o seu oponente aceitar que é uma questão de opinião ou semântica, ou então, se você perder a discussão, não importa: ninguém está certo ou errado. Mas se o seu oponente não aceitar que tudo é questão de opinião, então a atenção dele será desviada do assunto em pauta — ou seja, política — para a epistemologia. Pois agora ele precisa mostrar por que não se trata apenas de semântica, e isso vai  tomar-lhe tempo. Enquanto isso, você conseguiu afastá-lo. E se achar que ele está se saindo bem no argumento semântico, você pode sair-se com esta: “Bem, mas e quanto às ilusões perceptuais?”

Para adotar essa estratégia retórica, você realmente precisa acreditar que é uma questão de opinião ou pura semântica? Não, não precisa. Você pode acreditar piamente que está certo em sua visão política; e também pode estar ciente de que seu único objetivo é usar as palavras para se livrar do sujeito de tal maneira que pareça que você não perdeu a discussão.

Essa estratégia retórica também funciona no âmbito dos movimentos intelectuais. Foucault identificou a estratégia de maneira clara e explícita: “Os discursos são elementos ou bloqueios táticos que operam no campo das relações de força; pode haver discursos diferentes e até mesmo contraditórios dentro da mesma estratégia”.

Desconstrução como estratégia educacional

Eis  aqui  um exemplo.  Kate  Ellis  é  uma  feminista  radical.  Ela  acredita,  conforme escreve na Socialist Review, que o sexismo é mau, que a ação afirmativa é boa, que o capitalismo e o sexismo andam de mãos dadas e que, para conquistar a igualdade entre os sexos, é preciso derrubar a sociedade atual. Mas ela acha que tem um problema quando tenta ensinar esses temas aos alunos. Julga que eles pensam como capitalistas liberais — acreditam na igualdade de oportunidades, na remoção de barreiras artificiais e no julgamento justo para todos, e também acreditam que, por meio da ambição e do esforço, podem superar a maioria dos obstáculos e alcançar sucesso na vida. Isso significa que seus alunos estão identificados com todo o esquema capitalista liberal que ela considera um erro absoluto. Então, escreve Ellis, ela vai lançar mão da desconstrução como arma contra essas antiquadas crenças do Iluminismo.

Se ela conseguir minar a crença dos alunos na superioridade dos valores capitalistas e do conceito de que as pessoas é que são responsáveis pelo próprio sucesso ou fracasso, isso vai desestabilizar seus valores essenciais.

Ellis acha que a ênfase no relativismo pode ajudar nisso. E quando as crenças iluministas  dos  alunos  forem  esvaziadas  pelos  argumentos  relativistas,  ela  poderá preencher o vazio com os princípios políticos corretos, de esquerda.

Uma conhecida analogia pode ser útil aqui. Segundo essa hipótese, os pós-modernistas não são mais relativistas do que os criacionistas em suas batalhas contra a teoria evolucionista. Vestindo sua batina multiculturalista e afirmando que todas as culturas são iguais, os pós-modernistas se assemelham aos criacionistas, que reivindicam simplesmente um tempo igual para o evolucionismo e o criacionismo. Os criacionistas às vezes argumentam  que  o  criacionismo  e  o  evolucionismo  são  igualmente  científicos,  ou igualmente religiosos, e que, portanto, deveríamos tratá-los igualmente e conceder-lhes o mesmo tempo. Os criacionistas realmente acreditam nisso? Tudo o que eles querem é um tempo igual? É claro que não. Eles são, em essência, contrários à evolução — estão convencidos de que ela é um erro, um mal, e, se estivessem no poder, eles a aboliriam. No entanto, como tática de curto prazo, enquanto estiverem perdendo o debate intelectual, haverão de enfatizar o igualitarismo intelectual, argumentando que ninguém conhece de fato a verdade absoluta. Os pós-modernistas maquiavélicos sustentam a mesma estratégia — reivindicam igual respeito para todas as culturas, mas o que realmente querem, a longo prazo, é eliminar a cultura capitalista liberal.

A interpretação maquiavélica explica também o uso que os pós-modernistas às vezes fazem  da  ciência.  A  Teoria  da  Relatividade,  de  Einstein;  a  Mecânica  Quântica;  a Matemática  do  Caos;  e  o  Teorema  da  Incompletude,  de  Gödel,  serão  citados  com frequência para provar que tudo é relativo, que não se pode conhecer nada, que tudo é caos. Na melhor das hipóteses, uma pessoa encontrará nos textos pós-modernistas interpretações dúbias dos dados, porém, o mais comum é que ela não tenha uma ideia clara do que trata o teorema em questão ou como se dá sua comprovação.

Isso é particularmente evidente no famoso caso do físico Alan Sokal e do periódico de extrema-esquerda Social Text. Sokal publicou um artigo nesse periódico dizendo que a ciência havia desacreditado a concepção iluminista de que existe uma realidade objetiva, cognoscível, e que os resultados mais recentes da Física Quântica corroboravam a política da esquerda radical307. Ao mesmo tempo, Sokal declarou na revista Lingua Franca que o artigo era uma paródia da crítica pós-moderna à Ciência.

Estarrecidos, os editores e defensores do Social Text reagiram. No entanto, em vez de argumentar que consideravam verdadeira ou legítima a interpretação da Física apresentada no artigo, os editores ficaram profundamente constrangidos e, humildemente, insinuaram que Sokal é que havia violado os sagrados laços da honestidade e integridade acadêmica.

Estava claro, porém, que os editores não sabiam muito de Física e que o artigo fora publicado por causa dos benefícios políticos que pensavam em auferir dele.

A interpretação maquiavélica também explica por que os argumentos relativistas são arrolados apenas contra os grandes livros do Ocidente. Se alguém está comprometido com objetivos políticos, seu principal obstáculo são os livros influentes escritos por mentes brilhantes que se encontram do outro lado do debate. Existe na literatura um vasto corpo de romances, peças, poemas épicos, e poucos deles apoiam o socialismo. Grande parte dessas obras apresenta análises convincentes da condição humana, feitas de perspectivas opostas.

No Direito Americano, existe a Constituição e todo o conjunto de precedentes do common law, e pouquíssimos deles favorecem o socialismo. Consequentemente, se você é estudante ou professor de Literatura ou Direito com vocação para a esquerda, e se vê confrontado com o cânone jurídico ou literário do Ocidente, você tem duas escolhas: pode enfrentar as tradições oponentes, pedir que os alunos leiam os grandes livros e as grandes decisões e discutir com eles em classe. Esse é um trabalho árduo e também muito arriscado — os alunos podem concordar com o lado errado —; ou pode encontrar um meio de descartar toda a tradição e ensinar apenas os livros que se encaixam na sua política. Se está procurando atalhos, ou se tem a sorrateira suspeita de que o lado certo pode não se dar bem no debate, então a desconstrução é tentadora. Ela permite que você descarte toda a tradição literária e jurídica, por se basear em pressupostos sexistas, racistas ou exploradores, e serve de justificativa para afastá-la.

No entanto, para empregar essa estratégia, você realmente tem de acreditar que Shakespeare era um misógino, que Hawthorne era um puritano disfarçado ou que Melville era um imperialista tecnológico? Não. A desconstrução pode ser usada simplesmente como metoda ret6rico para livrar-se de mnobsticulo.

Portanto, segundo essa hip6tese maquiavelica, o P6s-modemismo  nao e run salto de fe para  a  esquerda  academica,  mas, antes, uma estrategia  politica  perspicaz  que, embora utilize o relativismo, nao acredita nele.

Pós-modernismo do ressentimento

Existe ainda um traço psicologicamente mais sombrio no Pós-modernismo que nenhuma das explicações anteriores detectou até agora. O Pós-modernismo foi explicado acima como uma resposta ao ceticismo radical, como uma resposta de fé à crise de uma visão política ou como uma estratégia política inescrupulosa. Essas explicações dizem respeito à epistemologia e à política do Pós-modernismo e resolvem a tensão entre seus elementos relativistas  e  absolutistas.  Na  explicação  “kantiana”  do  Pós-modernismo,  a  tensão  se resolve colocando o ceticismo em primeiro plano e o compromisso político em segundo, como consequência acidental. Nas explicações “kierkegaardiana” e “maquiavélica”, a tensão se resolve colocando o compromisso político em primeiro plano e tratando o uso da epistemologia relativista como racionalização ou estratégia retórica.

A última opção é não resolver a tensão. A contradição é uma forma de destruição psicológica, mas as contradições às vezes não têm relevância, do ponto de vista psicológico, para aqueles que as vivenciam, pois, afinal de contas, nada importa.

No movimento intelectual pós-moderno, o niilismo está próximo da superfície como nunca antes na história.

No mundo moderno, o pensamento de esquerda foi um dos terrenos mais férteis para a disseminação da destruição e do niilismo. Desde o reinado do Terror a Lênin e Stálin, Mao e Pol Pot, até o surto de terrorismo nas décadas de 1960 e 1970, a extrema-esquerda exibiu, repetidas vezes, sua disposição de usar a violência para alcançar objetivos políticos e demonstrou intensa frustração e raiva diante de seus fracassos. A esquerda também incluiu muitos companheiros de viagem oriundos do mesmo universo político e psicológico, mas que não contavam com nenhum poder político. Herbert Marcuse, que claramente sugeriu usar a Filosofia para a “‘aniquilação absoluta’ do mundo do senso comum”, foi apenas uma voz recente e explícita de maneira incomum. É sobre essa história do pensamento e da prática esquerdistas que as vozes de esquerda mais moderadas, como Michael Harrington, empenharam-se em nos advertir. Refletindo sobre essa história, Harrington escreveu: “Quero evitar essa visão absolutista que torna o socialismo tão transcendente a ponto de incitar seus sectários à cólera totalitária, no esforço de criar uma ordem perfeita”.

Da cólera autoritária ao niilismo é um passo curto. Como observou Nietzsche em Aurora: Alguns homens, quando não conseguem realizar seu desejo, exclamam raivosamente: “Que o mundo todo pereça!”. Essa emoção repulsiva é o ponto alto da inveja, cuja implicação é: “Se não posso ter algo, ninguém pode ter coisa alguma, ninguém deve ser coisa alguma!”

O ressentimento nietzscheano

Paradoxalmente, Nietzsche é um dos grandes heróis dos pós-modernistas. Eles o citam por  seu  perspectivismo  na  epistemologia,  pelo  uso  que  faz  da  forma  aforística  — enigmática e de estrutura fluida — em vez da forma de tratado, mais científica, e pela agudeza psicológica com que diagnostica a decadência e a hipocrisia. Quero usar Nietzsche contra os pós-modernistas para variar.

O conceito de ressentimento de Nietzsche é semelhante ao que conhecemos, mas denota uma  amargura  mais  rançosa,  mais  ácida,  mais  tóxica,  e  represada  por  muito  tempo. Nietzsche usa ressentimento no contexto de sua famosa descrição da moral dos senhores e dos escravos em Além do bem e do mal e, de maneira mais sistemática, na Genealogia da moral. A moral dos senhores é a moral dos vigorosos, dos fortes apaixonados pela vida. É a moral dos que amam a aventura, dos que se deliciam na criatividade e em seu próprio senso de propósito e assertividade. A moral dos escravos é a moral dos fracos, dos humildes, dos que se sentem vitimados e temem se aventurar em um mundo grande e mau. Os fracos são cronicamente passivos, principalmente porque têm medo dos fortes. Por isso, os fracos se sentem frustrados: não conseguem o que querem na vida. Passam a ter inveja dos fortes e, secretamente, começam também a odiar-se por sua fraqueza e covardia. Mas ninguém pode viver achando que é abominável. Então, os fracos inventam uma racionalização — uma racionalização que lhes diz que eles são os bons e os morais porque são fracos, humildes e passivos. A paciência é uma virtude, dizem, assim como a humildade e a obediência, e é virtude também estar do lado dos fracos e oprimidos. E, é claro, o oposto dessas coisas é mau — a agressividade é má, da mesma maneira que o orgulho, a independência e o sucesso físico e material.

Mas, naturalmente, trata-se de uma racionalização, e os fracos inteligentes nunca vão se convencer completamente disso, pois essa constatação causaria um estrago dentro deles. Enquanto isso, os fortes zombam dos fracos, e isso causa um estrago dentro deles. E os fortes e os ricos ficarão cada vez mais fortes, mais ricos e continuarão a aproveitar a vida. E ver isso causa estragos. No fim, os fracos inteligentes desenvolvem um sentimento de ódio de si mesmos e de inveja dos seus inimigos, e precisam revidar. Eles sentem necessidade de ferir seu odiado inimigo da maneira que puderem. Mas, é claro, não podem se arriscar ao confronto físico direto — são fracos. Sua única arma são as palavras. Assim, argumentava Nietzsche, os fracos se tornam extremamente hábeis com as palavras.

Em nossa época, o mundo criado pelo Iluminismo é forte, ativo, exuberante. Durante algum tempo no século passado, os socialistas acreditaram que a revolução era iminente, que o infortúnio se abateria sobre os ricos e que os pobres seriam abençoados. Mas essa esperança cruelmente se desfez. O capitalismo parece agora um exemplo de “dois mais dois  são  quatro”,  e,  como  o  homem subterrâneo  de  Dostoiévski,  é  fácil  ver  que  os socialistas mais inteligentes odiariam esse fato. O socialismo é o perdedor da história, e, se souberem disso, os socialistas odiarão esse fato, odiarão os vencedores por terem vencido e odiarão a si mesmos por terem escolhido o lado errado. O ódio, quando se torna crônico, leva à necessidade de destruir.

No entanto, o fracasso político é uma explicação muito limitada para a gama de temas niilistas presente no Pós-modernismo. Os pensadores pós-modernos afirmam que não foi só a política que fracassou — tudo fracassou. O ser, como diziam Hegel e Heidegger, realmente se tornou nada. Portanto, em suas formas mais extremas, o Pós-modernismo trata de enfatizar isso e fazer o nada reinar.

É evidente que estou flertando com a argumentação ad hominem aqui, por isso deixarei que os pós-modernistas falem por si.

Foucault e Derrida sobre o fim do homem

Em sua introdução à Arqueologia do saber, Foucault fala, em certo momento, na primeira pessoa. Discorrendo autobiograficamente sobre suas motivações para escrever e seu desejo de extinguir-se: “Posso me perder e aparecer, finalmente, diante de olhos que jamais voltarei a encontrar. Decerto não sou o único que escreve para não ter mais um rosto”.

Foucault estende seu desejo de aniquilação a todo o gênero humano. No final de As palavras e as coisas, por exemplo, ele quase que anseia pela iminente extinção da humanidade: O homem é “uma invenção recente” que logo será apagada, como um rosto desenhado na areia à beira do mar”. Deus está morto, escreveram Hegel e Nietzsche. O homem também estará morto, espera Foucault.

Derrida também reconhece o tipo de mundo que o Pós-modernismo está promovendo e declara sua intenção de não estar entre os que permitem que sua náusea leve a melhor. Os pós-modernistas, escreve ele, são aqueles que não “desviam o olhar quando diante do ainda inominável, que só se anuncia e pode fazê-lo, como é necessário sempre que um nascimento se aproxima, sob a espécie da não espécie, na forma informe, muda, infante e aterradora da monstruosidade”.

O nascimento de monstros é uma concepção pós-moderna do processo criativo, que anuncia o fim da humanidade. Outros pós-modernistas enfatizam a feiura da criação pós- moderna ao mesmo tempo que sugerem que a humanidade simplesmente passou do ponto. Kate Ellis observa, por exemplo, o “pessimismo caracteristicamente apolítico da maior parte do Pós-modernismo, segundo o qual a criação é tão somente uma forma de defecação”.

Monstros e produtos refugados são temas  centrais  na Arte do século 20, e há um paralelo elucidativo entre os desenvolvimentos ocorridos no universo artístico durante a primeira metade do século e os desenvolvimentos ocorridos nas demais ciências humanas na segunda metade do século. Com Marcel Duchamp, o mundo da arte chega ao  Pós- modernismo antes do restante do mundo intelectual.

Solicitado pela Sociedade de Artistas Independentes de Nova York a submeter algum trabalho para exposição, Duchamp enviou um urinol. É claro que ele conhecia a História da Arte. Sabia o que havia sido realizado — que, durante séculos, a Arte fora um veículo poderoso, que exigiu o mais alto desenvolvimento da visão criativa humana e rigorosa habilidade técnica; e sabia que a Arte tinha o incrível poder de exaltar os sentidos, o intelecto e as paixões dos que a experimentavam. Refletindo sobre a História da Arte, Duchamp decidiu fazer uma declaração. O artista não é um grande criador — Duchamp foi comprar em uma loja de material de hidráulica. A obra de arte não é um objeto especial — era um produto de massa feito em uma fábrica. A experiência da Arte não é empolgante e dignificante — na melhor das hipóteses, é intrigante e, na maioria das vezes, deixa no outro uma sensação de repulsa. Mas não só isso, pois Duchamp não escolheu um objeto pronto qualquer. Ao escolher o urinol, sua mensagem era clara: A Arte é algo em que você urina.

Os temas dadaístas giram em torno da ausência de significado, mas suas obras e manifestos são declarações filosóficas significativas no contexto em que são apresentados. Kunst ist Scheisse (“Arte é merda”) foi, adequadamente, o lema do dadaísmo. O urinol de Duchamp foi o símbolo adequado. Tudo é dejeto a ser mandado para o esgoto.

Segundo essa hipótese, portanto, o Pós-modernismo é uma generalização sobre o niilismo do movimento Dadá. Não só a Arte é merda, tudo é.

Os pensadores pós-modernos herdaram uma tradição intelectual que assistiu à derrota de todas as suas grandes esperanças. O Contrailuminismo, desde o início, suspeitou do naturalismo iluminista, de sua razão, de sua visão otimista do potencial humano, de seu individualismo na ética e na política, de sua ciência e tecnologia. Para os que se opuseram ao Iluminismo, o mundo moderno não ofereceu nenhum conforto. Os defensores do Iluminismo diziam que a ciência substituiria a religião, mas a ciência ofereceu os espectros da entropia e da relatividade. A ciência seria a glória da humanidade, mas ela nos ensinou que o homem evoluiu, com sangue nos dentes e nas garras, do lodo. A ciência faria do mundo um paraíso tecnológico, mas gerou bombas nucleares e superbacilos. E a confiança no poder da razão, que está por trás de tudo isso, revelou-se uma fraude no entender dos pós-modernistas. A ideia de armas nucleares nas garras de um animal irracional e voraz é assustadora.

Enquanto os pensadores neoiluministas se conciliaram com o mundo moderno, da perspectiva pós-moderna o universo estilhaçou-se, tanto metafísica quanto epistemologicamente. Não podemos nos voltar para Deus nem para a natureza, e não podemos confiar na razão nem na humanidade.

Mas  sempre  houve  o  socialismo.  Por  pior  que  tenha  se  tornado  o  universo  na metafísica, na epistemologia e no estudo da natureza humana, persistia ainda a visão de uma ordem ética e política que transcenderia tudo para criar a linda sociedade coletivista.

O fracasso da esquerda política em realizar essa visão foi apenas a gota d’água. Para a mente  pós-moderna,  são  estas  as  lições  cruéis  do  mundo  moderno:  a  realidade  é inacessível, não se pode conhecer coisa alguma, o potencial humano é zero e esses ideais éticos e políticos deram em nada. As reações psicológicas à perda de tudo são a raiva e o desespero.

Mas os pensadores pós-modernos também se veem cercados pelo mundo iluminista que não entendem. Os pós-modernistas se veem desafiando um mundo dominado pelo liberalismo e pelo capitalismo, pela ciência e tecnologia, por pessoas que ainda acreditam na realidade, na razão e na grandeza do potencial humano. O mundo que eles diziam ser impossível e destrutivo realizou-se e está prosperando. Os herdeiros do Iluminismo estão governando o mundo e marginalizaram os pós-modernistas, confinando-os à academia. À raiva e ao desespero somou-se o ressentimento.

Alguns se refugiaram no quietismo, outros se retiraram para um mundo privado de jogo estético e autocriação. Outros, no entanto, revidam com a intenção de destruir. Mas, novamente, as únicas armas do Pós-modernismo são as palavras.

A estratégia do ressentimento

O mundo artístico do século 20 fornece, mais uma vez, exemplos prescientes. O urinol de Duchamp mandou o recado: Urino em você, e seus últimos trabalhos colocaram essa atitude em prática. Sua versão da Mona Lisa foi um claro exemplo: uma reprodução da obra-prima de Leonardo da Vinci ganhou um bigode caricato. Essa também foi uma declaração: Eis aqui uma realização magnífica que não tenho a esperança de igualar, então vou desfigurá-la e torná-la uma piada.

Robert Rauschenberg foi mais adiante que Duchamp. Sentindo-se à sombra das realizações de Willem de Kooning, pediu que lhe trouxessem uma pintura do artista, que ele então apagou e pintou por cima. Isso foi uma declaração: Não consigo ser especial, a menos que destrua antes o que você fez.

A desconstrução é uma versão literária de Duchamp e Rauschenberg. A teoria da desconstrução diz que nenhuma obra tem significado. Qualquer significado aparente pode ser convertido no seu oposto, em nada, ou revelar-se uma máscara que esconde algo repugnante. O movimento pós-moderno contém muitas pessoas que gostam da ideia de desconstruir o trabalho criativo de outras. A desconstrução tem o efeito de nivelar qualquer significado e valor. Se um texto pode significar alguma coisa, então não significa nada mais que qualquer outra coisa — nenhum texto, portanto, é grandioso. Se um texto encobre algo fraudulento, então começa a insinuar-se a dúvida com respeito a tudo que aparenta ser grandioso.

Faz sentido, portanto, que essas técnicas desconstrutivas sejam mobilizadas principalmente contra trabalhos que não se enquadram nos compromissos pós-modernos.

A estratégia não é nova. Se você odeia alguém e deseja feri-lo, então atinja-o naquilo que é importante para ele. Quer ferir um homem que adora crianças e odeia quem as molesta sexualmente? Faça insinuações e espalhe boatos de que ele aprecia pornografia infantil. Quer ferir uma mulher que tem orgulho de sua independência? Espalhe o rumor de que ela se casou com quem se casou porque ele é rico. Se os boatos são falsos ou verdadeiros não vem ao caso, e se as pessoas vão acreditar em você ou não, não importa de fato. O importante é desferir um golpe certeiro e contundente na psique do outro. Você sabe que essas acusações e rumores causarão tremor, mesmo que não deem em nada. Restará, dentro de si, o brilho maravilhosamente sombrio de saber que foi você. E, afinal, pode ser que os rumores deem algum resultado.

O melhor retrato dessa psicologia vem de um homem europeu muito branco e há muito morto: William Shakespeare, em seu Otelo. Iago simplesmente odiava Otelo, mas não tinha esperança de conseguir derrotá-lo em um confronto aberto. Como destruí-lo então? A estratégia de Iago foi atacar Otelo no seu ponto mais sensível: a paixão por Desdêmona.

Iago insinuou indiretamente que ela andava dormindo fora de casa, espalhou mentiras e suspeitas sutis sobre a fidelidade dela, semeou a dúvida na cabeça de Otelo sobre a coisa que ele mais prezava na vida e deixou que essa dúvida agisse como um lento veneno.

Assim como os pós-modernistas, as únicas armas de Iago eram as palavras. A única diferença é que os pós-modernistas não são tão sutis a respeito dos alvos que pretendem atingir.

O mundo iluminista contemporâneo orgulha-se de seu compromisso com a igualdade e a justiça, de sua mente aberta, das oportunidades que oferece a todos e de suas realizações na ciência e na tecnologia. O mundo iluminista está orgulhoso, confiante e sabe que é a onda do futuro. Isso é insuportável para uma pessoa totalmente identificada com uma perspectiva oposta e fracassada. É esse orgulho que ela quer destruir. O melhor alvo de ataque é o senso iluminista de seu próprio valor moral. Acusá-lo de sexismo e racismo, de difundir o dogma da intolerância e de ser cruelmente explorador. Minar sua confiança na razão, na ciência e na tecnologia. As palavras nem precisam ser verdadeiras ou coerentes para causar o estrago necessário.

E, como Iago, o Pós-modernismo não precisa ficar com a garota no final. Destruir Otelo é suficiente.

Pós-modernismo

Mostrar que um movimento leva ao niilismo é importante para compreendê-lo, assim como mostrar que um movimento niilista e fracassado ainda pode ser perigoso. Rastrear as raízes do Pós-modernismo de volta a Rousseau, Kant e Marx explica de que maneira se entrelaçaram todos os seus elementos. No entanto, identificar as raízes do Pós-modernismo e relacioná-las às nocivas consequências contemporâneas não refuta o Pós-modernismo.

Faz-se necessário ainda refutar essas premissas históricas e identificar e defender alternativas a elas. O Iluminismo baseava-se em premissas opostas às do Pós-modernismo, mas, embora tenha criado um mundo magnífico com base nessas premissas, ainda não as articulou e defendeu por completo. Esse ponto fraco é a única fonte de poder do Pós- modernismo contra ele. É essencial, portanto, completar a articulação e a defesa dessas premissas para garantir o progresso da visão iluminista e protegê-la das estratégias pós-modernas.

                                                                                                                                               

O presente ensaio foi tirado de: http://pablo.deassis.net.br/wp-content/uploads/Explicando-o-Pos-modernismo-Stephen-R.-C.-Hicks.pdf

Explicando o Pós-Modernismo é uma publicação da Callis Editora, que lançou uma 1ª edição eletrônica em 2011. Coordenação editorial: Miriam Gabbai; Tradução: Silvana Vieira; Revisão: Ricardo N. Barreiros; Preparação de texto: Maria Christina Azevedo; Projeto gráfico e diagramação: Idenize Alves.

O ensaio publicado nesta edição de PortVitoria corresponde ao capítulo 6 do livro acima citado, cujo título original é  Explaining Postmodernism. Skepticism and Socialism from Rousseau to Focault) de Stephen R. C. Hicks. Primeira edição 2004, Scholarlgy Publishing. Edição expandida em 2011, Ockham’s Razor Publishing.

O objetivo de publicar esse ensaio em PortVitoria é apresentar o relevantíssimo tema do Pós-Modernismo através de uma amostra do brilhante livro de Stephen R. C. Hicks. Aproveitamos a oportunidade para encorajar os nossos leitores a adquirir e ler o livro completo de Stephen R. C. Hicks.

Joaquina Pires-O’Brien

O pós-modernismo é definido como sendo “um estilo ou conceito surgido no século XX, nas artes, na arquitetura e no criticismo, representado pela rejeição às noções existentes de arte e à modernidade em geral, e centrado numa desconfiança generalizada das grandes teorias e ideologias”1 . O pós-modernismo veio em duas levas de focos diferentes. A primeira, no final da Segunda Guerra Mundial, manifestou-se na reação contra os critérios estéticos da arte, da arquitetura e da literatura. A segunda, no último quarto do século XX, manifestou-se em torno de uma escola de ‘pensamento’ que proclamava “não existem verdades, mas apenas interpretações”.

O pós-modernismo que veio na primeira leva atacou a conceituação estética aplicada à arte e à arquitetura. É difícil avaliar possíveis danos à sociedade causados pelo pós-modernismo que veio na primeira leva. Afinal de contas, que importa à sociedade que alguém resolva construir a sua casa em estilo pasticho? Ou que uma galeria de arte resolva exibir uma cama ‘dormida’ e com lençóis sujos como se fosse uma peça de arte?2 Afinal de contas, gosto é gosto. Todavia, os danos à sociedade, causados pelo pós-modernismo da segunda leva, foram logo reconhecidos na sua negação dos valores do Iluminismo que deram origem à modernidade e foram cristalizados a partir da segunda metade do século XVIII.

A modernidade foi muito bem descrita no ensaio de Joel Mokyr que foi publicado em português e em espanhol, em 2011, na revista eletrônica PortVitoria. Segue abaixo a conclusão de Mokyr acerca da modernidade:

Por mais improvável que pudesse parecer na época, uma comunidade relativamente pequena de intelectuais, num pequeno canto da Europa do século XVIII, mudou o curso da história universal. Eles não apenas concordaram que o progresso era algo desejável; eles escreveram um programa pormenorizado de como implementá-lo, e, o que é mais admirável, levaram-no adiante. Hoje em dia usufruímos de confortos materiais, acesso a informação e entretenimento, melhor saúde, de ver praticamente todos os nossos filhos chegarem à idade adulta (mesmo se optamos por ter poucos filhos), e de uma razoável expectativa de que passaremos muitos anos de uma aposentadoria economicamente segura e dotada de lazer. Essas coisas eram os luxos que Smith, Hume, Watt e Wedgwood apenas sonhavam. Entretanto, sem o Iluminismo, elas nunca teriam se tornado realidade.

O progresso tecnológico se tornou parte das nossas vidas. Nós aprendemos a esperar que a ciência e a tecnologia continuarão avançando a cada ano que passa e que iremos descobrir cada vez mais coisas sobre o mundo físico para melhorar a nossa existência material, seja na medicina, nos materiais, na energia ou na tecnologia da informação. A nossa crescente preocupação com o ambiente e a influência que a tecnologia tem tido no nosso frágil planeta está a acrescentar nuances e sofisticações a essa crença. Ignorante do impacto dos hidrocarbonetos na atmosfera, a idade do Iluminismo queimou carvão mineral sem qualquer preocupação. A nossa idade está aprendendo mais uma lição: de que precisamos mais do que nunca do progresso tecnológico, mas também precisamos ser inteligentes com o mesmo. Ben Franklin concordaria.

Não há como negar que a modernidade melhorou consideravelmente a qualidade de vida das pessoas. Todavia, essa modernidade não veio de supetão. Foi um produto do amadurecimento da mente ocidental e dos esforços dos pensadores que insistiram em entender o mundo natural por ele próprio, sem levar em conta a revelação religiosa. Os pensadores no centro desse movimento não foram os primeiros a pensar desse modo, mas os primeiros que tiveram coragem de desafiar o poder da Igreja.

A modernidade não jogou fora o conhecimento antigo, pelo contrário, preservou-o junto ao novo conhecimento. A modernidade não apenas transformou o Ocidente, como também acabou sendo incorporada na sua identidade. Dada essa constatação, é mister perguntar por que lhe atiram pedras. De onde veio o pós-modernismo? Por que rejeita e ataca a modernidade?

As raízes do pós-modernismo

As raízes do pós-modernismo estendem-se até a escola de linguística fundada pelo linguista suíço Ferdinand de Saussure (1857-1913) na Universidade de Genebra, na Suíça, no início do século XX. A escola saussuriana deu origem ao movimento conhecido como ‘estruturalismo’, que surgiu em torno da natureza estruturada do ‘signo linguístico’ (a palavra) – formado por um ‘significante’ e um ‘significado’ – o qual forma a base da linguística sincrônica que Saussure priorizou sobre a linguística diacrônica ou histórica. O estruturalismo linguístico preocupou-se em identificar não apenas o que está evidente no texto, mas também o que não está nas estruturas do ‘significado’. Em outras palavras, o estruturalismo linguístico se preocupou em descobrir eventuais discursos escondidos nas entrelinhas.

Da linguística, o estruturalismo migrou para a crítica literária e a antropologia, que logo se ocuparam em descobrir eventuais conspirações em elusivas mensagens subliminares abrigadas nas entrelinhas da teoria. E, como quem procura, acha, os estruturalistas encontraram ‘planos’ e geraram uma teoria de conspiração, segundo a qual ideias e ideologias são impostas às pessoas.

O criticismo literário dos estruturalistas passou a enxergar a literatura não como algo baseado exclusivamente em conteúdo, mas como um sistema relativo capaz de sofrer mutações através da história. Luís Althusser (1918-90) tomou emprestado da linguística o radical ‘semio’ da palavra ‘semiótica’ ou ‘semiologia’, e propôs o termo ‘semio-criticismo’. Jacques Derrida (1930-2004) enxergou a literatura como um veículo de disseminação de ideologia; introduzindo o termo ‘desconstrucionismo’ para designar a técnica de revelar significados escondidos nas entrelinhas. Michel Foucault (1926-1984) reinterpretou a frase ‘saber é poder’ de Francis Bacon (1561-1626) como ‘o saber é um instrumento do poder’, acusando o desejo de adquirir conhecimento técnico de ser um discurso de poder e um instrumento de exclusão.

O movimento conhecido como ‘pós-estruturalismo’ é o próprio estruturalismo, porém criticado; ressalte-se que nem todos os críticos do estruturalismo identificaram-se como ‘pós-estruturalistas. Os proponentes mais conhecidos desse movimento são Althusser, Júlia Kristeva (1941-), Derrida e Foucault. Os pós-estruturalistas criaram uma crítica literária chamada ‘crítica pós-estruturalista, ‘crítica moderna’ ou ‘crítica pós-moderna’, baseada na desconstrução das estruturas conceituais do texto, a fim de revelar os significados ocultos nas entrelinhas do texto literário.

O pós-modernismo fincou raízes na antropologia e nas ciências sociais em geral, e, dessas raízes, surgiu o ‘construcionismo social’, a ideia da linguagem como um instrumento de alavancagem social e de revolução. Dois tipos de construcionismo social foram identificados: o universal e o particular. Ambos veem a linguagem e a comunicação como instrumentos de poder e de empoderamento. O construcionismo universal refere-se ao constructo geral, enquanto que o construtivismo particular refere-se ao constructo de uma realidade específica de uma categoria específica de indivíduos. Quer no construcionismo social universal, quer no particular, a realidade é confinada àquilo do qual se fala, ou seja, a única realidade que existe é aquela que aparece na mídia, e isso foi ressaltado num artigo de revisão assinado por Naveed Yazdani, Hasan S. Murad e Rana Zamin Abbas, publicado em 2011:

Para os filósofos pós-modernos os ‘estudos culturais’ ou estudo de identidade são o esteio principal da cultura e a questão da identidade está impregnada na humanidade. Os ícones da mídia são os componentes chaves da cultura pós-moderna e muitos filósofos contemporâneos sentem-se tão confortáveis escrevendo sobre Madonna quanto sobre política, os clássicos e a ética.

O construcionismo social está ligado à noção de indivíduos deslocados, oriundos dos mais diversos caminhos da vida, da qual vem a ‘morte do sujeito’, que ocorre quando a identidade é desfeita e a capacidade de ação é perdida. O apelo do construcionismo social é a esperança de que qualquer coisa que esteja errada possa ser consertada, uma vez que os significados não são fixos.

Derrida foi identificado como um dos principais instigadores dos protestos contra a globalização ocorridos na virada do século XX em Seattle, Praga, Québec e Gênova. Isso foi feito demonizando o capitalismo e plantando nas mentes jovens a ideia de que a globalização era uma ideologia que precisava ser desconstruída.

A inculcação pós-modernista

A inculcação pós-modernista, no meio acadêmico, tem grande acolhimento no anseio dos professores de manter as coisas como sempre estiveram, principalmente as cercas imaginárias em torno das disciplinas acadêmicas. Tal inculcação é uma sabotagem da educação de mais de uma geração de jovens. Como tais indivíduos vão encontrar significado em suas profissões depois de formados? Como é que vão resolver problemas que requerem discernir a verdade da inverdade, ou o racional do irracional?

Apesar de todas as suas faltas, o pós-modernismo no meio acadêmico norte-americano sobreviveu bastante tempo sem ser incomodado. A explicação mais provável para isso é a continuação da separação entre as ciências e as humanidades, a qual foi o tópico de uma palestra de C. P. Snow (1905-80) em 1959, posteriormente transformada no livro The two cultures (As duas culturas). É provável que muitos cientistas sequer tenham tomado conhecimento do desprezo e dos insultos dos pós-modernistas à ciência.

Quatro acadêmicos que enfrentaram com vigor o pós-modernismo e suas idiossincrasias foram o físico e matemático norte-americano, Alan Sokal (1955-); o filósofo da ciência canadense, Ian Hacking (1936-); o filósofo e classicista, Allan Bloom (1930-92); e o psicólogo Steven Pinker (1954-), professor da Universidade de Harvard e autor de diversos livros acerca da natureza humana.

Sokal é sem dúvida o crítico mais criativo do pós-modernismo. A fim de mostrar a frivolidade desse movimento, ele escreveu um artigo falso, carregado de ininteligibilidade, verbiagem e subjetividade, o qual foi publicado em 1996, no periódico Social Text. Sokal escreveu outro artigo para anunciar o trote, o qual foi publicado um ano depois, no periódico Lingua Franca. O trote de Sokal não acabou de vez com o pós-modernismo, mas pelo menos abalou-o consideravelmente. Contudo, Sokal não parou aí. Em 1997, ele e o francês Jean Bricmont, publicaram o livro Intellectual Impostures (Imposturas intelectuais), cuja edição em inglês teve o título Fashionable nonsense: postmodern intellectual’s abuse of science (1998; O absurdo que é moda: o abuso da ciência pelos intelectuais pós-modernos). Nesse livro, Sokal e Bricmont mostraram as absurdidades do artigo-trote de Sokal, bem como diversos exemplos de abusos em conceitos e terminologias científicas cometidos por intelectuais famosos.

A crítica de Hacking ao pós-modernismo consistiu em examinar minunciosamente o conteúdo de diversos livros que tinham no título a palavra ‘construção’ com a finalidade de destrinchar os principais fatores unificadores do construcionismo social. O resultado disso foi publicado, em 1999, no livro The social construction of what? (Construção social do quê?). Nesse livro, Hacking lista uma enorme relação de coisas apontadas como tendo sido ‘socialmente construídas’, incluindo raça, gênero, masculinidade, natureza, fatos, realidade e o passado.

Bloom atacou a chamada Nova Crítica (New Criticism) literária, um dos pilares do pós-modernismo. No seu livro The closing of the american mind, publicado em 1986, Bloom denunciou o perigo das influências irracionais, como a Nova Crítica, que grassaram no meio acadêmico dos Estados Unidos. Para Bloom, tais influências comprometem as humanidades e destroem boa cultura universitária dos Estados Unidos. O grande problema, aponta Bloom, é que não existe reciprocidade para a ‘abertura ao fechado’ (openness to closeness) do Ocidente.

Pinker criticou o pós-modernismo e as suas diversas facetas no seu livro Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. A crítica de Pinker concentra-se no mau entendimento da natureza humana, causado pelas diversas teorias de conspiração do pós-modernismo, segundo as quais ‘as observações são sempre contaminadas por teorias, e as teorias são saturadas de ideologia e doutrinas políticas; portanto, quem afirma estar em posse dos fatos ou saber a verdade está apenas tentando exercer poder sobre todo o resto’. Pinker aborda, ainda, o relativismo criado especificamente para impedir a crítica das coisas que são tidas como ‘culturais’, o que acaba permitindo diversas violações da integridade física das pessoas como a mutilação genital feminina, o apedrejamento de mulheres e as punições corporais de grande crueldade. Eis como Pinker conclui a sua crítica:

É irônico que uma filosofia que se orgulha de desconstruir o instrumental do poder adote um relativismo que impossibilita contestar o poder, pois nega que existam referenciais objetivos em relação aos quais os logros dos poderosos possam ser avaliados. Pela mesma razão, o texto deveria refrear os cientistas radicais que asseveram que as aspirações de outros cientistas a teorias com realidade objetiva (incluindo teorias sobre a natureza humana) são, na realidade, armas para preservar os interesses da classe, sexo e raça dominantes. Sem uma noção da verdade objetiva, a vida intelectual degenera em uma luta para saber quem melhor consegue exercer a força bruta para ‘controlar o passado’.

Dos quatro críticos do pós-modernismo acima listados, apenas Pinker continua batalhando para corrigir os erros e mal-entendidos do pós-modernismo. Num artigo publicado, em 2013, na revista eletrônica The New Republic3, Pinker fez um apelo, aos autores oriundos das humanidades, contra a mentalidade anticientífica que tem prevalecido nesse meio. Ele explica que as práticas da ciência, como a ‘revisão por pares’ (peer review), o debate aberto e o método duplo-cego, foram criados especificamente para driblar os erros e pecados aos quais os cientistas, por serem humanos, são vulneráveis.

O artigo de Pinker ilustra bem a ofensiva anticiência da mentalidade pós-modernista nos Estados Unidos. No meio do artigo de Pinker apareceu um hyperlink de um vídeo de três minutos com o seguinte título: “ASSISTA a réplica de Leon Wieseltier”. Este último era o próprio editor literário da The New Republic. Mas isso não foi tudo. Poucas semanas depois, Wieseltier publica na própria The New Republic um longo ensaio, carregado de sarcasmo e termos derrogatórios, intitulado Crimes against humanities: Now science wants to invade the liberal arts. Don’t let it happen (Crimes contra as humanidades: Agora a ciência deseja invadir as artes liberais. Não permita que isso aconteça). Por alguma razão, Pinker aceitou participar de uma terceira rodada desse ‘debate’, numa matéria intitulada ‘Science vs. the Humanities, round III’ (Ciência versus Humanidades, III round), também publicada na The New Republic, a qual consistiu de uma tréplica de Pinker seguida de outra de Wieseltier. Outros artigos e blogs foram publicados; em geral, atacando não apenas Pinker e a sua visão da consiliência (a união entre a ciência e as humanidades), mas também as aberrações do darwinismo social e da eugenia, que nada tinham a ver com o artigo inicial de Pinker. Todavia, Pinker foi defendido pelo filósofo e cientista cognitivo Daniel Dennett (1942-), numa matéria publicada na Edge Conversations, considerado o portal mais interessante e estimulante da internet.

Na matéria acima mencionada, Dennett dá uma síntese da situação do setor de humanidades das universidades norte-americanas. Segundo ele, existe uma geração de acadêmicos deficitários que não têm respeito pela evidência e tampouco acreditam na verdade; tais acadêmicos conformam-se com ‘conversações’ nas quais ninguém é errado, e, nada pode ser confirmado, mas apenas afirmado em qualquer estilo que for capaz de desenvolver.

Conclusão

O pós-modernismo é uma investida contra a modernidade que veio em duas levas. Na primeira leva, o pós-modernismo denunciou a cultura como um instrumento do poder, e, na segunda, denunciou a ciência. Todavia, o pós-modernismo não representa a primeira investida contra a modernidade, a qual foi bastante combatida pelos pensadores que insistiam em colocar a Divina Providência na equação do conhecimento.

O pensamento pós-moderno interpreta os critérios de excelência e objetividade da ciência moderna como uma forma de elitismo. Por essa razão, a mentalidade pós-modernista é incapaz de enxergar as coisas boas que resultaram do Iluminismo. Perseguiu os valores iluministas da busca da verdade do mundo natural – em oposição ao mundo supranatural –, o que incluiu a crença no conhecimento unificado, a superioridade do conhecimento científico sobre outros tipos de conhecimento, e, o reconhecimento de um cânone civilizacional e do seu importante papel na Educação Liberal e no ensino das humanidades. Como se não bastasse, preconizou, a impressionáveis mentes jovens, a ideia estapafúrdia de que a ciência moderna e o cânone literário são construtos sociais, manifestações da arrogância e do imperialismo do Ocidente. Causou a guerra das culturas das décadas de 1980 e 1990, e continua atrapalhando o ensino das humanidades, cujos alunos são inculcados a aceitar o relativismo e outras ideias obscurantistas, e a rejeitar a consiliência do conhecimento.

Embora a inculcação pós-modernista tenha sido registrada com firmeza apenas no meio acadêmico dos Estados Unidos, isso não significa que não tenha ocorrido em outros países. Os indivíduos mais bem preparados de qualquer país ou sociedade devem tomar cuidado com as visões radicais de ponta cujas implicações éticas ainda não foram completamente esclarecidas. É esse o caso do pós-modernismo, ideologia que gira em torno da ideia irracional de que os valores da modernidade, característicos da civilização ocidental, fazem parte de uma grande conspiração do Ocidente para manter o poder e a hegemonia. O pós-modernismo é uma doutrina absurda, irracional e enganosa. É o cavalo de Troia da civilização.

Referências

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BLOOM, H. The western canon: the books and school of the ages. Simon & Schuster Paperbacks, New York. 1994. ISBN:.

DENNETT, D. Let’s Start With A Respect For Truth. Edge, Conversations, 9.10.2013 (www.edge.org/conversations).

Hacking, I. The social costruction of what? Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 1999. ISBN 0-674-00412-4.

Mokyr, J. (2011). Iluminados e enriquecidos: Devemos nossa prosperidade moderna às ideias do Iluminismo. PortVitoria, UK, v. 3, Jul-Dec, 2011. (https://www.portvitoria.com/archive.html).

Pinker, S. (2002). The Blank Slate. The modern denial of human nature. Part VI. Penguin Books 2003. ISBN-13 978-0-140-27605-3.

PINKER, S. (2013). Science is not your enemy. An impassionated plea to neglected novellists, embattled professors and tenure-less historians. The New Republic, Special Edition, August 6 2013.

SNOW, C. P. (1959)The two cultures. With introduction by Stefan Collini. Cambridge University Press, 1998, twelfth printing, 2009.

Sokal, A. Beyond the hoax. Science Philosophy and Culture. Oxford University Press, 2008.

YAZDANI, NAVEED, MURAD, HASAN S. & ABBAS, RANA ZAMIN (2011). From modernity to post-modernity: a historical discourse on western civilization. International Journal of Business and Social Science, v. 2 (11), Special Issue. June 2011.

Notas

  1. Tradução da definição mais comum em inglês, obtida através do Google: “a late 20th-century style and concept in the arts, architecture, and criticism, which represents a departure from modernism and is characterized by the self-conscious use of earlier styles and conventions, a mixing of different artistic styles and media, and a general distrust of theories.” <https://www.google.co.uk/?gws_rd=cr#q=postmodernism+definition>.
  2. Em 1998, a artista plástica britânica Tracey Emin (1963-) exibiu a sua própria cama ‘dormida’ como uma ‘peça’ de arte intitulada My bed, a qual foi exibida no ano seguinte na galeria Tate Modern, quando foi indicada para o Turner Prize. Em 2000, Charles Staachi, proprietário de uma galeria de arte comprou a My bed por £150.000 libras. A segunda vez que a My bed foi colocada no mercado de arte foi em julho de 2015, quando foi comprada por um colecionador alemão chamado Christian Duerckheim, o qual emprestou a peça de arte à galeria Tate por dez anos. Emin havia expressado o seu desejo de que a sua ‘peça’ ficasse para sempre na galeria Tate Modern, mas esta não dispunha de recursos suficientes. No leilão da Christie, a peça My bed foi vendida por £2,54 milhões, mais do que o dobro do estimado. Numa entrevista, Duerckheim explicou ter comprado a My bed pelo fato de ela ser “uma metáfora para a vida, onde os problemas começam e a lógica morre”. Consultado na Wikepedia e no portal do The Guardian: <https://www.theguardian.com/uk-news/2015/mar/30/tracey-emins-messy-bed-displayed-tate-britain-first-time-in-15-years>.

 

  1. A revista The New Republic foi fundada em 1914, por líderes do ‘Movimento Progressista’ (de esquerda), como uma revista de opinião que busca atender o desafio da nova época. Na década de 1980, a The New Republic incorporou alguns elementos do conservadorismo. A revista foi posta à venda em 2012 e adquirida por Chris Hughes, cofundador do Facebook. Em 4 de dezembro de 2014, foi anunciado que Gabriel Snyder, oriundo da Gawker e da Bloomberg, seria seu novo editor chefe, em substituição a Franklin Foer. Além disso, o novo diretor executivo, Guy Vidra, oriundo da Yahoo, anunciou a sua intenção de reduzir o número de edições anuais de 20 para 10, o que provocou uma onda de pedidos de demissão, a qual incluiu a do editor literário Leon Wieseltier. O resultado disso foi a suspensão da edição de dezembro de 2014. A revista The New Republic era inicialmente semanal, passando a 20 edições ao ano. Durante um curto espaço de tempo, publicou 10 edições ao ano, com uma circulação de 50000 exemplares. Em 11 de janeiro de 2016, Chris Hughes colocou a The New Republic à venda, a qual foi comprada em 26 de fevereiro por Win McComack. Este assumiu o posto de editor-chefe e nomeou Eric N. Bates, ex-editor executivo da Rolling Stone, editor. A The New Republic tem um registro impressionante de colaboradores notáveis. Entretanto, tem também diversas associações questionáveis, como Michael Whitney Staight, que foi editor de 1948 a 1956, o qual, como foi descoberto, era um espião da KGB. Fonte: <//en.wikepedia.org/wiki/The_New_Republic>.

                                                                                                                                                                                                                 

Nota adicional

O presente artigo foi extraído do livro de Joaquina Pires-O’Brien O homem razoável, publicado inicialment em novembro de 2016, em edição Kindle, na Amazon.

Norman Berdichevsky

Cuando estaba en la escuela secundaria entendí (o pensé tener entendido) la palabra ‘narrativa’ como la narración de una historia desde el punto de vista de un tercero. Tanto en el cine como en el teatro, los créditos utilizados para enumerar al ‘narrador’, el personaje del testigo presencial, solían dar una explicación neutral desde una perspectiva no sesgada, en contraste con las opiniones y sentimientos personales de los personajes principales. ¡Dios mio! ¡Cómo ha cambiado eso! Es difícil escapar del significado contemporáneo de la palabra que abunda en todas las ciencias sociales, la política y su corolario de ‘posmodernidad’. La primera vez que vi esta expresión, parecía una contradicción en los términos. ¿Cómo podría algo estar más lejos en el futuro que ‘moderno’? Ambos términos enfatizan la importancia de integrar el nuevo conocimiento en un marco aceptable que confirme los valores más preciados de un grupo. De lo contrario, es irrelevante.

En las últimas décadas, el ‘posmodernismo’ ha llegado a significar una actitud de escepticismo o rechazo de las ideologías prevalecientes y previamente aceptadas, y el cuestionamiento de los supuestos de racionalidad y las nociones universalistas de moralidad objetiva, realidad, verdad, razón, lenguaje, naturaleza humana y progreso social. Las ideas modernas.

Los medios posmodernos rechazan la noción de que cualquier texto o producto de medios tenga un valor más alto que otro, y por lo tanto, todos los juicios son solo una cuestión de gustos. Cualquier cosa puede llamarse arte y merece llegar al público. Cuando se ve de esta manera, no existe una realidad estable, confiable o universal; La belleza y la estética son arbitrarias, relativas y subjetivas. Es irónico que el posmodernismo rechace las nociones universalistas de la realidad objetiva de que, durante más de un siglo, los partidarios del marxismo creyeron que el marxismo era firmemente correcto y objetivamente analizado, y que siguiera leyes inmutables.

Al observar las controversias actuales en las ciencias sociales, las ciencias políticas y las artes, a menudo es imposible escapar de la palabra y el concepto cada vez más utilizados por los portavoces de la izquierda. Clasificada como posiblemente la ‘narrativa’ reciente más grotesca de la política de identidad es la declaración que ‘Jesús era palestino’, proclamada por Linda Sarsour (dos veces copresidenta de la Marcha de las Mujeres y ex directora ejecutiva de la Asociación Árabe Americana de Nueva York). La congresista Ihlan Omar reafirmó algo similar, a saber, que Jesucristo, entendido como el Mesías anunciado con devoción por todas las denominaciones cristianas como el cumplimiento de las profecías del Antiguo Testamento (es decir, judías), probablemente era ‘un palestino de piel morena’, y así, agregando cínicamente el color de la piel. La política de identidad domina obsesivamente la política de izquierda. En esta narrativa, los ‘palestinos’ son transportados más de 2,000 años atrás en la historia, y los judíos eliminados de los 3,000 años de historia antigua, junto con la longevidad de su idioma y religión.

¿Fue esta la primera vez que se promovió una reescritura histórica extraña, única y absolutamente fantástica, así como totalmente inverosímil? Difícilmente.

El antisemitismo, el odio más antiguo, supera todas las demás consideraciones y estándares para juzgar la historia y la realidad, ha había sido adoptado por las doctrinas raciales nazis que proclamaban a Jesús como un ario, declarado el 22 de abril de 1922 en un discurso de Hitler en Munich, cuando habló de la necesidad de una ‘Iglesia Arriana’ y lo que llamó ‘Cristianismo Positivo’, no dependiente del ‘Credo de los Apóstoles’ o de la ‘fe en Cristo como el Hijo de Dios’. Debía entenderse como retratado por el Partido Nazi, un credo apóstata, que ignoraba sus orígenes judíos como lo ven todas las denominaciones del cristianismo oriental y occidental, tanto antes como después de la Reforma.

Ludwig Müller, el candidato de Hitler fue ‘elegido’ como el nuevo Reichsbischof alemán el 27 de septiembre de 1933, después de que el régimen nazi lo impusiera unos meses antes. En 1937, casi todas las iglesias evangélicas protestantes en Alemania sucumbieron a la definición nazi de la misión de la iglesia, según lo definido por Hans Kerrl, el ministro nazi para los asuntos de la iglesia. Sus tres puntos principales fueron:

  1. El ‘Arrianismo’ y el no judaísmo de Cristo;
  2. La promoción del objetivo político de la unidad nacional alemana, superando las diferencias confesionales con el objetivo de disminuir la influencia de la Iglesia Católica en Alemania) y uniendo el protestantismo en una única Iglesia Cristiana ‘positiva’ y unitaria bajo el pulgar del estado nazi. No fue coincidencia que el voto nazi en todas las elecciones de Weimar Alemania fuera notablemente más bajo en las áreas católicas que en las predominantemente protestantes. Esto se hizo aún más claro después de la toma del poder de Hitler en 1933.
  3. Dar aliento a los seguidores para apoyar la creación de una ‘patria arriana’ más grande, que se extendería en un área aún más grande que los pueblos de habla alemana de Europa Central y Oriental.

En contraste con la falta de indignación de hoy contra una opinión tan absurda de que Jesús era un palestino de piel morena, la ‘Iglesia Positiva’ alemana provocó la resistencia de aquellos alemanes que tenían cierta conciencia de que una declaración tan maníaca estaba jugando al desprecio en dos mil años de tradición cristiana

Una minoría distinta de clérigos protestantes se negó a vender sus almas al diablo y se enfrentó a intentos de rescribir la historia y la moral como: Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, Martin Niemöller y Wilhelm Busch. Ellos no podían conciliar la afirmación del estado nazi de control total sobre el individuo con la noción de que la soberanía suprema debería pertenecer solo a Dios.

La Iglesia Confesional (Bekennende Kirche) fue un movimiento dentro del protestantismo alemán en la década de 1930 en oposición a estos esfuerzos patrocinados por el gobierno para unificar todas las iglesias protestantes en una iglesia protestante pronazi. En noviembre de 1933, el pastor Friedrich Niemöller fundó la ‘Liga de pastores de emergencia’, que se comprometió a resistir los programas de la iglesia controlada por el estado y su declaración teológica. Pasó de ser un movimiento defensivo contra el control nazi de las iglesias a una resistencia organizada. Secciones de la Iglesia Confesional se mantuvieron activas en protestar contra la eutanasia y la persecución de los judíos (incluso si se opusieron más fuertemente sobre la base teológica de que los judíos que se convirtieron al cristianismo ya no podrían ser considerados responsables de su origen biológico). Bajo intensa presión nazi, la Iglesia Confesional se vio obligada a esconderse. En 1937, Niemöller y otros 700 pastores fueron arrestados.

A través de parlamentarios del Congreso como Rashida Tlaib de Michigan e Ilhan Omar de Minnesota, trabajando con el líder musulmán negro Farrakhan, muchos musulmanes estadounidenses han acordado lo que podría llamarse una alianza con la izquierda política que los ve a todos como ‘víctimas’. A nivel internacional, esto significa identificarse con la intensa campaña antiisraelí orquestada por el presidente iraní Ahmadinejad, cuya obsesión es ‘borrar a Israel del mapa’ e ‘imaginar’ (que es todo lo que pueden hacer en este momento) un ‘Mundo Sin Sionismo’.

Las únicas voces reconocidas entre los 1,500 millones de musulmanes del mundo que no siguen una línea partidaria en esta visión islámica de los judíos los han convertido en herejes que necesitan protección caso se atreva a hablar en alguna parte. Son voces de disidentes o ex musulmanes, como Ayan Hirsi Ali, una solamí-estadounidense y activista de derechos humanos en los Países Bajos, Brigitte Gabriel, una activista política libanesa-estadounidense, Wafa Sultan, médico y psiquiatra egipcio, Irshad Manji, autor canadiense de The Trouble with Islam (El problema del Islã), y el Dr. M. Zuhdi Jasser, médico y ex oficial de la Marina de los EE. UU., autor de A Battle for the Soul of Islam: An American Muslim Patriot’s Fight to Save His Faith (La batalla por el alma del Islam: la lucha de un patriota musulmán estadounidense para salvar su fe), y Ibn Warraq, un indiano autor de diversos libros incluyendo Why I am Not a Muslim (Por que no soy musulman).

En la visión islámica del mundo, la mayoría de los cristianos ya son sospechosos de pertenecer al grupo de aquellos que rechazaron el mensaje de Mahoma como la verdadera fe y, para empeorar las cosas, a menudo apoyan a Israel. Generaciones de clérigos y estadistas cristianos, desde Disraeli hasta Winston Churchill y el presidente Harry Truman, defendieron la causa sionista. Sin su ayuda y aliento, hoy no habría Israel, sino ‘un mundo sin sionismo’, como a los iraníes les gusta imaginar. Israel no se puede deshacer y no solo por la herencia de la Biblia.

Todavía en febrero de 1941, y a pesar del sincero deseo del establishment protestante estadounidense de no arriesgarse a involucrarse en la Segunda Guerra Mundial, Reinhold Niebhur habló convincentemente a través del diario que había fundado, Christianity and Crisis (Cristianismo y Crisis), en una advertencia de trombón sobre el nazismo. Sus intenciones finales no eran simplemente la erradicación de los judíos, sino la extirpación del cristianismo y la abolición de toda la herencia de la cultura cristiana y humanista. Niebhur basó sus puntos de vista no en una interpretación literal ‘evangélica’ de las promesas bíblicas, sino en los fundamentos de la justicia de las naciones; el también pidió alguna forma de compensación para los árabes palestinos, que podrían ser desplazados si sus líderes fueran negarse a hacer posible cualquier acuerdo.

El éxito de las ‘narrativas’ alternativas promovidas por muchos de la izquierda, tanto en el congreso de EE. UU. Como en el parlamento británico y en los principales medios de comunicación, es muy evidente. Esto ha llevado a crisis internas en el Partido Demócrata estadounidense y el Partido Laborista británico, que han entrado en pánico y están desesperados por una fórmula electoral para derrotar a Donald Trump y evitar el ascenso de Boris Johnson como primer ministro. Saben que entre los jóvenes y los diversos grupos de inmigrantes de primera y segunda generación de origen afroasiática y no cristiana, es mucho más fácil presentar una ‘narrativa’ alternativa al enfatizar repetidamente sus simpatías por las ‘personas de color’ en las cuáles pueden excluir a la mayoría de los judíos que viven en ambos los países.

La matemática electoral no es difícil de entender. Los musulmanes en el Reino Unido hoy superan en número a los judíos en un factor de 10 a 1. El líder del Partido Laborista británico, Jeremy Corbyn, puede proclamar cínicamente que sus manos están limpias, que aparecen en plataformas sin el uso de invectivas antijudías y que continúan utilizándose ‘el hombre de paja’[1] de la ‘extrema derecha’ Del mismo modo, en los Estados Unidos, los judíos obedientes que durante generaciones han sufrido un afecto equivocado por los demócratas en el establishment político, permanecen como siempre en los bolsillos de este partido, ayudados por la propensión a una ‘nueva narrativa’ y la prevalecía del posmodernismo en gran parte de los medios de comunicación.

Una significante parte de esta misma lógica se aplica a las declaraciones y afirmaciones de la congresista demócrata Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), lo que implica que su visión de la moralidad de un tema va más allá de los ‘hechos’ reales tal como existen en el suelo o en loa números blancos y negros que se espera obtener de una respuesta correcta a una pregunta en aritmética. Por supuesto, esto deja mucho que desear para las afirmaciones absurdas que son históricamente falsas, como la afirmación de que Jesús era palestino, pero están empaquetadas con simpatía en el paquete de simpatía por los oprimidos.

El Washington Post recientemente otorgó a la congresista cuatro Pinochios (‘premios’ por mentir, distorsionar hechos, exageros escandalosos y distorsiones simples). En una entrevista con el periodista Anderson Cooper presentada en ‘60 Minutes ‘, la congresista AOC dijo:

Oh, Dios mío, si la gente realmente quiere aumentar una imagen aquí o una palabra allí, yo argumentaría que ‘no pueden ver el bosque debido a los árboles’[2]. Creo que hay muchas personas más preocupadas acerca de estar correctas precisamente, objetivamente y semánticamente do que estar moralmente ciertas.[3]

Este es el arma posmoderna que la izquierda usa constantemente. Los argumentos no pueden decidirse sobre la base de los hechos, sino que deben juzgarse por su valor moral y su contexto (según lo decida el espectador) como en la pos modernidad. Para AOC, ser ‘moralmente correcto’ es más importante que ‘ser correcto según los hechos,’ y cada vez que comete un ‘error’, no es lo mismo que el presidente Trump sea moralmente deficiente o corrupto, y por eso, es peor que mentir. Los republicanos no pueden usar las mismas tácticas que los demócratas. Aunque frecuentemente tropiecen en las tácticas y los tweets torpes e ineptos del presidente a las manos del cuarteto Sarsour-Omar-Tlaib-Ocassio-Cortez, ellos deben tratar de canjear el sentido común de los estadounidenses que entienden que estas cuatro personas son profetas de desánimo, de destrucción y desilusión.

                                                                                                                                  

Norman Berdichevsky es parte del consejo editorial de PortVitoria y también es uno de nuestros colaboradores más frecuentes. Es un estadounidense que vivió en Israel, Dinamarca, España y el Reino Unido, donde vive actualmente. Gran parte de sus artículos se publican en New English Review, incluido este artículo, publicado allí en agosto de 2019.

Traducción: J Pires-O’Brien (Reino Unido – RU); Revisión: Erica Gwyther (RU)

[1] Oriundo del inglés ‘straw man’, el término ‘hombre de paja’ significa un argumento u oponente débil o imaginario creado solo para ser refutado fácilmente. El término también se usa para denotar a una persona creada para cubrir una transacción generalmente cuestionable, como un testaferro. También se usa figurativamente: marioneta, autómata, muñeca. Nota del traductor.

[2] Traducción de la expresión idiomática en el idioma Inglés: ‘missing the forest for the trees’, que se utiliza para describir un caso en el que uno está tan centrado en los detalles de un proyecto dado que no puede ver o entender todo el tema.

[3] Citación original: “Oh my goodness, If people want to really blow up one figure here or one word there, I would argue that they’re missing the forest for the trees. I think that there’s a lot of people more concerned about being precisely, factually, and semantically correct than about being morally right”.

Brian Duignam

El posmodernismo, en la filosofía occidental, es un movimiento de finales del siglo XX caracterizado por un escepticismo, subjetivismo o relativismo generalizado; una sospecha general de razón; y una aguda sensibilidad al papel de la ideología en la afirmación y el mantenimiento del poder político y económico.

El posmodernismo y la filosofía moderna

El posmodernismo es en gran medida una reacción contra los supuestos y los valores intelectuales del período moderno en la historia de la filosofía occidental (aproximadamente del siglo XVII al XIX). De hecho, muchas de las doctrinas característicamente asociadas con la posmodernidad pueden describirse de manera justa como la negación directa de los puntos de vista filosóficos generales que se dieron por sentados durante la Ilustración del siglo XVIII, aunque no fueron exclusivos de este período. Las más importantes de estas vistas son las siguientes.

  1. Existe una realidad natural objetiva, una realidad cuya existencia y propiedades son lógicamente independientes de los seres humanos: sus mentes, sociedades, prácticas sociales o técnicas de investigación. Los posmodernistas descartan esta idea como una especie de realismo ingenuo. La realidad que existe, según los posmodernos, es una construcción conceptual, un artefacto de la práctica científica y el lenguaje. Este punto también se aplica a la investigación de eventos por parte de historiadores y la descripción de instituciones sociales, estructuras o prácticas por parte de científicos sociales.
  2. Las declaraciones descriptivas y explicativas de científicos e historiadores pueden, en principio, ser objetivamente verdaderas o falsas. La negación posmoderna de este punto de vista, que se deriva del rechazo de una realidad natural objetiva, a veces se expresa al decir que no hay verdad.
  3. Mediante el uso de la razón y la lógica, y con las herramientas más especializadas proporcionadas por la ciencia y la tecnología, es probable que los humanos cambien a sí mismos y a sus sociedades para mejor. Es razonable esperar que las sociedades futuras sean más humanas, más justas, más iluminadas y más prósperas de lo que son ahora. Los posmodernos niegan esta fe de la Ilustración en la ciencia y la tecnología como instrumentos del progreso humano. De hecho, muchos posmodernistas argumentan que la búsqueda equivocada (o no) del conocimiento científico y tecnológico condujo al desarrollo de tecnologías asesinas a gran escala en la Segunda Guerra Mundial. Algunos van tan lejos como para decir que la ciencia y la tecnología, e incluso la razón y la lógica, son inherentemente destructivas y opresivas, porque fueron utilizadas por personas malvadas, especialmente durante el siglo XX, para destruir y oprimir a otros.
  4. La razón y la lógica son universalmente válidas, es decir, sus leyes son las mismas o se aplican por igual a cualquier pensador y cualquier dominio del conocimiento. Para los posmodernistas, la razón y la lógica también son construcciones meramente conceptuales y, por lo tanto, solo son válidas dentro de las tradiciones intelectuales establecidas en las que se utilizan.
  5. Hay una naturaleza humana; Consiste en facultades, aptitudes o disposiciones que, en cierto sentido, están presentes en los seres humanos al nacer, en lugar de ser aprendidas o inculcadas por las fuerzas sociales. Los posmodernos insisten en que todos o casi todos los aspectos de la psicología humana están completamente determinados socialmente.
  6. El lenguaje se refiere y representa una realidad fuera de sí misma. Según los posmodernos, el lenguaje no es un “espejo de la naturaleza”, como el filósofo pragmático estadounidense Richard Rorty caracterizó la visión de la Ilustración. Inspirados por el trabajo del lingüista suizo Ferdinand de Saussure, los posmodernos afirman que el lenguaje es semánticamente autónomo o autorreferencial: el significado de una palabra no es una cosa estática en el mundo o incluso una idea en la mente, sino una gama de contrastes y diferencias con el significado de otras palabras. Dado que los significados son, en este sentido, funciones de otros significados, que son funciones de otros significados, etc. – nunca están completamente “presentes” al hablante o al oyente, sino que se “posponen” infinitamente. La autorreferencia caracteriza no solo los lenguajes naturales sino también los ‘discursos’ más especializados de comunidades o tradiciones particulares; Estos discursos están integrados en las prácticas sociales y reflejan los esquemas conceptuales y los valores morales e intelectuales de la comunidad o tradición en la que se utilizan. La visión posmoderna del lenguaje y el discurso se debe en gran parte al filósofo y teórico literario francés Jacques Derrida (1930–2004), el creador y principal practicante de la deconstrucción.
  7. Los seres humanos pueden adquirir conocimiento sobre la realidad natural, y este conocimiento puede justificarse en última instancia sobre la base de evidencia o principios que son, o pueden ser, conocidos de manera inmediata, intuitiva o de otra manera con certeza. Los posmodernistas rechazan el “fundacionalismo” filosófico: el intento, quizás mejor ejemplificado por el filósofo francés del siglo XVII dictum cogito, ergo sum (“Creo, luego existo”), para identificar una base de certeza sobre la cual construir el construcción de conocimiento empírico (incluido científico).
  8. Es posible, al menos en principio, construir teorías generales que expliquen muchos aspectos del mundo natural o social dentro de un dominio de conocimiento dado, por ejemplo, una teoría general de la historia humana, como el materialismo dialéctico. Además, debería ser un objetivo de la investigación científica e histórica construir tales teorías, incluso si nunca son perfectamente alcanzables en la práctica. Los posmodernistas descartan esta noción como un sueño superficial y, de hecho, como un síntoma de una tendencia poco saludable en los discursos de la Ilustración a adoptar el pensamiento “totalizador” (como el filósofo francés Emmanuel Lévinas) o grandes sistemas de pensamiento “metanarrativo”. aspectos de desarrollo humano, biológico, histórico y social (como afirmó el filósofo francés Jean–François Lyotard). Estas teorías son dañinas no solo porque son falsas, sino porque efectivamente imponen conformidad a otras perspectivas o discursos, oprimiéndolas, margándolas o silenciandolas. Derrida mismo equiparó la tendencia teórica a la totalidad con el totalitarismo.

Posmodernismo y relativismo

Como se indicó en la sección anterior, muchas de las doctrinas características del posmodernismo constituyen o implican alguna forma de relativismo metafísico, epistemológico o ético. (Tenga en cuenta, sin embargo, que algunos posmodernistas rechazan vehementemente la etiqueta relativista). Los posmodernistas niegan que haya aspectos de la realidad que sean objetivos; que hay declaraciones objetivamente verdaderas o falsas sobre la realidad; que es posible tener conocimiento de tales declaraciones (conocimiento objetivo); que es posible que los humanos sepan ciertas cosas con seguridad; y que hay valores morales objetivos o absolutos. Realidad, conocimiento y valor son construidos por discursos; por lo tanto, pueden variar con ellos. Esto significa que el discurso de la ciencia moderna, cuando se considera aparte de los patrones de evidencia internos, no tiene mayor importancia que las perspectivas alternativas, que incluyen (por ejemplo) la astrología y la brujería. Los posmodernos a veces caracterizan los patrones de evidencia de la ciencia, incluido el uso de la razón y la lógica, como “racionalidad de la Ilustración”.

El amplio relativismo aparentemente tan característico del posmodernismo invita a una cierta línea de pensamiento sobre la naturaleza y la función de los discursos de diferentes tipos. Si los posmodernistas tienen razón en que la realidad, el conocimiento y el valor son relativos al discurso, entonces los discursos de la Ilustración establecidos no son más necesarios o justificados que los discursos alternativos. Pero eso plantea la cuestión de cómo llegaron a establecerse en primer lugar. Si nunca es posible evaluar un discurso de acuerdo con lo que conduce a la Verdad objetiva, ¿cómo se convirtieron los discursos establecidos en parte de la cosmovisión prevaleciente de la era moderna? ¿Por qué se adoptaron o desarrollaron estos discursos mientras que otros no?

Parte de la respuesta posmoderna es que los discursos predominantes en cualquier sociedad reflejan los intereses y valores, en términos generales, de grupos dominantes o de élite. Los posmodernos no están de acuerdo sobre la naturaleza de esta conexión; Mientras que algunos aparentemente apoyan al dictador del filósofo y economista alemán Karl Marx de que “las ideas dominantes de cada época siempre han sido las ideas de su clase dominante”, otros son más cautelosos. Inspirados por la investigación histórica del filósofo francés Michel Foucault, algunos posmodernos sostienen la visión comparativamente matizada de que lo que cuenta como conocimiento en una época determinada siempre está influenciado de manera compleja y sutil por consideraciones de poder. Hay otros, sin embargo, dispuestos a ir más allá de Marx. La filósofa y teórica literaria francesa Luce Irigaray, por ejemplo, argumentó que la ciencia de la mecánica de sólidos está más desarrollada que la ciencia de la mecánica de fluidos porque la institución de física dominada por los hombres asocia solidez y fluidez con los órganos sexuales masculinos y femeninos, respectivamente.

Como los discursos de la Ilustración establecidos son más o menos arbitrarios e injustificados, pueden cambiarse; y porque reflejan más o menos los intereses y valores de los poderosos, deben ser cambiados. Por lo tanto, los posmodernos consideran que su posición teórica es exclusivamente inclusiva y democrática, porque les permite reconocer la hegemonía injusta de los discursos de la Ilustración sobre las perspectivas igualmente válidas de los grupos no elitistas. En las décadas de 1980 y 1990, los defensores académicos en nombre de varios grupos étnicos, culturales, raciales y religiosos adoptaron críticas posmodernas de la sociedad occidental contemporánea, y el posmodernismo se convirtió en la filosofía no oficial de la nueva “política de identidad “.

                                                                                                                                   

Brian Duignan es editor sénior de filosofía en la Encyclopaedia Britannica. Traducción: J Pires–O’Brien (UK). Ensayo publicado en Encyclopaedia Britannica on line; su última actualización es de 20 de sep de 2019. Fuente: https://www.britannica.com/topic/postmodernism–philosophy

Brian Duignam

O pós-modernismo,  ou pósmodernismo, na filosofia ocidental, é um movimento do final do século XX, caracterizado por amplo ceticismo, subjetivismo ou relativismo; uma suspeita geral da razão; e uma sensibilidade aguda ao papel da ideologia na afirmação e manutenção do poder político e econômico.

Pós-modernismo e filosofia moderna

O pós-modernismo é em grande parte uma reação contra as suposições e os valores intelectuais do período moderno na história da filosofia ocidental (aproximadamente, do século XVII ao século XIX). De fato, muitas das doutrinas caracteristicamente associadas ao pós-modernismo podem ser descritas de maneira justa como a negação direta de pontos de vista filosóficos gerais que foram tomados como garantidos durante o Iluminismo do século 18, embora não fossem exclusivos desse período. Os mais importantes desses pontos de vista são os seguintes.

  1. Existe uma realidade natural objetiva, uma realidade cuja existência e propriedades são logicamente independentes dos seres humanos – de suas mentes, sociedades, práticas sociais ou técnicas de investigação. Os pós-modernistas descartam essa ideia como uma espécie de realismo ingênuo. A realidade que existe, segundo os pós-modernistas, é uma construção conceitual, um artefato da prática e da linguagem científicas. Este ponto também se aplica à investigação de eventos passados por historiadores e à descrição de instituições, estruturas ou práticas sociais por cientistas sociais.
  2. As declarações descritivas e explicativas de cientistas e historiadores podem, em princípio, ser objetivamente verdadeiras ou falsas. A negação pós-moderna desse ponto de vista – que decorre da rejeição de uma realidade natural objetiva – é às vezes expressa ao dizer que não existe a verdade.
  3. Através do uso da razão e da lógica, e com as ferramentas mais especializadas fornecidas pela ciência e tecnologia, é provável que os seres humanos mudem a si mesmos e a suas sociedades para melhor. É razoável esperar que as sociedades futuras sejam mais humanas, mais justas, mais esclarecidas e mais prósperas do que são agora. Os pós-modernistas negam essa fé iluminista na ciência e na tecnologia como instrumentos do progresso humano. De fato, muitos pós-modernistas sustentam que a busca equivocada (ou não) do conhecimento científico e tecnológico levou ao desenvolvimento de tecnologias para matar em grande escala na Segunda Guerra Mundial. Alguns chegam ao ponto de dizer que ciência e tecnologia – e até a razão e a lógica – são inerentemente destrutivas e opressivas, porque foram usadas por pessoas más, especialmente durante o século 20, para destruir e oprimir outras.
  4. Razão e lógica são universalmente válidas – ou seja, suas leis são as mesmas para, ou se aplicam igualmente a qualquer pensador e qualquer domínio do conhecimento. Para os pós-modernistas, razão e lógica também são meramente construções conceituais e, portanto, são válidas apenas dentro das tradições intelectuais estabelecidas em que são usadas.
  5. Existe uma natureza humana; consiste em faculdades, aptidões ou disposições que, em certo sentido, estão presentes nos seres humanos ao nascer, em vez de serem aprendidas ou instiladas por forças sociais. Os pós-modernistas insistem que todos ou quase todos os aspectos da psicologia humana são completamente determinados socialmente.
  6. A linguagem se refere e representa uma realidade fora de si. Segundo os pós-modernistas, a linguagem não é um “espelho da natureza”, como o filósofo pragmatista americano Richard Rorty caracterizou a visão iluminista. Inspirados no trabalho do linguista suíço Ferdinand de Saussure, os pós-modernistas afirmam que a linguagem é semanticamente autônoma ou autorreferencial: o significado de uma palavra não é uma coisa estática no mundo ou mesmo uma ideia na mente, mas sim um gama de contrastes e diferenças com o significado de outras palavras. Como os significados são, nesse sentido, funções de outros significados – que são funções de outros significados, etc. – eles nunca estão totalmente “presentes” ao falante ou ouvinte, mas são infinitamente “adiados”. A auto referência caracteriza não apenas as línguas naturais mas também os “discursos” mais especializados de comunidades ou tradições particulares; esses discursos estão embutidos nas práticas sociais e refletem os esquemas conceituais e os valores morais e intelectuais da comunidade ou tradição em que são usados. A visão pós-moderna da linguagem e do discurso se deve em grande parte ao filósofo e teórico literário francês Jacques Derrida (1930–2004), o criador e principal praticante da desconstrução.
  7. Os seres humanos podem adquirir conhecimento sobre a realidade natural, e esse conhecimento pode ser justificado, em última análise, com base em evidências ou princípios que são, ou podem ser, conhecidos imediatamente, intuitivamente ou de outra maneira com certeza. Os pós-modernistas rejeitam o ‘fundacionalismo’ filosófico – a tentativa, talvez melhor exemplificada pelo dictum cogito, ergo sum do filósofo francês do século XVII (“eu penso, logo existo”), de identificar um fundamento de certeza sobre o qual construir o edifício do conhecimento empírico (incluindo o científico).
  8. É possível, pelo menos em princípio, construir teorias gerais que expliquem muitos aspectos do mundo natural ou social dentro de um determinado domínio do conhecimento – por exemplo, uma teoria geral da história humana, como o materialismo dialético. Além disso, deve ser um objetivo da pesquisa científica e histórica construir tais teorias, mesmo que nunca sejam perfeitamente atingíveis na prática. Os pós-modernistas descartam essa noção como um sonho superficial e, na verdade, como sintomático de uma tendência doentia nos discursos do Iluminismo de adotar sistemas de pensamento “totalizadores” (como o filósofo francês Emmanuel Lévinas os chamava) ou grandes “metanarrativas” de aspectos biológicos humanos, históricos e do desenvolvimento social (como alegou o filósofo francês Jean-François Lyotard). Essas teorias são perniciosas não apenas por serem falsas, mas porque efetivamente impõem conformidade a outras perspectivas ou discursos, oprimindo, marginalizando ou silenciando-as. O próprio Derrida equiparou a tendência teórica à totalidade ao totalitarismo.

Pós-modernismo e relativismo

Conforme indicado na seção anterior, muitas das doutrinas características do pós-modernismo constituem ou implicam alguma forma de relativismo metafísico, epistemológico ou ético. (Note-se, no entanto, que alguns pós-modernistas rejeitam veementemente o rótulo relativista.) Os pós-modernistas negam que há aspectos da realidade que são objetivos; que há afirmações sobre a realidade objetivamente verdadeiras ou falsas; que é possível ter conhecimento de tais afirmações (conhecimento objetivo); que é possível que os seres humanos saibam algumas coisas com certeza; e que existem valores morais objetivos ou absolutos. Realidade, conhecimento e valor são construídos por discursos; portanto, eles podem variar com eles. Isso significa que o discurso da ciência moderna, quando considerado à parte dos padrões evidenciais internos a ela, não tem maior importância na verdade do que perspectivas alternativas, incluindo (por exemplo) astrologia e bruxaria. Às vezes, os pós-modernistas caracterizam os padrões evidenciais da ciência, incluindo o uso da razão e da lógica, como “racionalidade da iluminação”.

O amplo relativismo aparentemente tão característico do pós-modernismo convida uma certa linha de pensamento a respeito da natureza e função dos discursos de diferentes tipos. Se os pós-modernistas estão corretos quanto à realidade, conhecimento e valor serem relativos ao discurso, então os discursos estabelecidos do Iluminismo não são mais necessários ou justificados que os discursos alternativos. Mas isso levanta a questão de como eles vieram a ser estabelecidos em primeiro lugar. Se nunca é possível avaliar um discurso de acordo com o que leva à Verdade objetiva, como os discursos estabelecidos se tornaram parte da visão de mundo predominante da era moderna? Por que esses discursos foram adotados ou desenvolvidos, enquanto outros não?

Parte da resposta pós-moderna é que os discursos predominantes em qualquer sociedade refletem os interesses e valores, em termos gerais, de grupos dominantes ou de elite. Os pós-modernistas discordam sobre a natureza dessa conexão; enquanto alguns aparentemente apoiam o ditado do filósofo e economista alemão Karl Marx de que “as ideias dominantes de cada época sempre foram as ideias de sua classe dominante”, outras são mais cautelosas. Inspirados pela pesquisa histórica do filósofo francês Michel Foucault, alguns pós-modernistas defendem a visão comparativamente matizada de que o que conta como conhecimento em uma dada era é sempre influenciado, de maneiras complexas e sutis, por considerações de poder. Há outros, no entanto, dispostos a ir além do que Marx. O filósofo e teórico literário francês Luce Irigaray, por exemplo, argumentou que a ciência da mecânica dos sólidos é mais desenvolvida do que a ciência da mecânica dos fluidos porque a instituição de física dominada por homens associa solidez e fluidez aos órgãos sexuais masculino e feminino, respectivamente .

Como os discursos estabelecidos do Iluminismo são mais ou menos arbitrários e injustificados, eles podem ser mudados; e porque refletem mais ou menos os interesses e valores dos poderosos, devem ser mudados. Assim, os pós-modernistas consideram sua posição teórica como exclusivamente inclusiva e democrática, porque lhes permite reconhecer a hegemonia injusta dos discursos do Iluminismo sobre as perspectivas igualmente válidas dos grupos não elites. Nas décadas de 1980 e 1990, os defensores acadêmicos em nome de vários grupos étnicos, culturais, raciais e religiosos adotaram críticas pós-modernas da sociedade ocidental contemporânea, e o pós-modernismo se tornou a filosofia não oficial do novo movimento da “política de identidade”.

                                                                                                                                   

Brian Duignan é editor sênior em filosofia na Encyclopaedia Britannica. Tradução: J Pires-O’Brien (UK). Ensaio publicado na Encyclopaedia Britannica on line, e sua última atualização é de 20 de Sep de 2019. Fonte: https://www.britannica.com/topic/postmodernism-philosophy

Many Westerners remain unaware of the inculcations of Postmodernism and the threat it represents to the West.

This issue of PortVitoria is dedicated to Postmodernism, a late 20th-century movement characterized by broad scepticism, subjectivism, or relativism, a general suspicion of reason, and an acute sensitivity to the role of ideology in asserting and maintaining political and economic power. Postmodernism started in the field of literary criticism, where it promoted the idea that there are countless ways to interpret a text. Postmodernism became a threat to the West when it began to be applied to society. Inspired by Karl Marx (1818-1883) and the Marxist French philosopher and psychologist Michel Foucault (1926-1984), this is exactly what the sociologist Jacques Derrida (1930-2004) did when he modified Marx’s view of the power relation between capitalists and the proletariat to one between oppressors and the oppressed. According to the postmodern interpretation of society, all the values of the Enlightenment such as reason, science, technological progress, dialogue, individual liberty, etc., are all masks to hide the truth, which is the power relationships that exist between different groups in society. A major consequence of Postmodernism is identity politics, which is behind every existing social conflict within Western society such as male versus (vs) female, black vs white, gay vs straight, etc. Another consequence of Postmodernism is the inculcation that it is acceptable to put the past on trial and to judge it through the morality of the present. Some examples are the defacing of public monuments, the scrutiny of everyday speech, and the idea that pecuniary reparations are owed by the West to the descendants of those who were oppressed by slavery and colonialism. All of these things are enveloped by hate, which serves to the objective of power of Postmodernism. The unwanted consequence of this hate is to remove the old wisdom of ‘let bygones be bygones’, which allows individuals to move on with their own lives.

To move on with one’s life is a necessary condition to enter the path of the ‘good life’  defined in Western philosophy as ‘a life of virtue that is the way to a happy existence’. Postmodernism is unconcerned with the ‘good life’ and dismisses traditional philosophy just as it dismisses the Enlightenment, labeling both as ‘grand narratives’ designed to give power. Undermining the values of the West is part of the postmodern strategy of social construction and deconstruction which is normally staged on the media by the social constructivists. One of their tricks to enhance a piece of news is to synchronize press releases in different communities. It is not surprising that many social constructivists are versed in the art of propaganda. Their narratives normally reveal a preference for short narratives and powerful imagery that emphasize the grim, the outrageous, and the eye-catching. There is the hallmark of Postmodernism in the rise of political tribalism and collective identity, the infestation of web bots, and the current proliferation of fake news.

This edition offers a neutral description of Postmodernism extracted from Encyclopaedia Britannica, as well as two critical opinions, one by Norman Berdichevsky and the other by myself. Berdichevsky’s article is entitled “How the Left wins arguments by narratives; Postmodernism, and the ‘greater moral significance’”, and it focuses on the postmodernist transgression of the traditional pattern of the narrative. My article is entitled ‘What is Postmodernism’, and it is an essay taken from my 2016 book O Homem Razoável (The Reazonable Man).

Another offering in this edition is a chapter from Stephen R C Hicks’ book Explaining Postmodernism: Skepticism and Socialism from Rousseau to Foucault, which was published initially in 2004 by Scholarly Publishing, and in 2011 by Ockham’s Razor Publishing. The article was taken from the Portuguese translation of Hicks’ book. In it, Hicks explains that social media has given an edge to Postmodernism by luring people into group-thinking.

The awareness of Postmodernism allows a clarifying hindsight of past events that we were unable to comprehend fully when they occurred. An example is the 1992 United Nations Conference on Environment and Development (UNCED), also known as the Rio de Janeiro Earth Summit, or simply Rio 92. It was supposed to solve the conundrum of how to develop without destroying the natural environment, but instead, it turned out to be more of a great spectacle to grab media attention. Although the hindsight examination of UNCED clearly reveals Postmodernism in action, such as the construction of iconic personas, there are two eye-witnesses that confirm this. They are two Canadian journalists, Elaine Dewar, who recorded her findings in her 1995 book Cloak of Green, and James Cobett. The latter revisited the event with Dewar, in an interview conducted in February 2016. This interview complements the arguments presented against Postmodernism.

The two books reviewed in this edition dwell on the problems of Postmodernism. The first book is Provocations (2018) by Camille Paglia, a massive collection of essays on high and low culture, including Postmodernism and the damage it has caused to higher education. The second book is The Madness of Crowds. Gender, Race and Identity (2019) by Douglas Murray, an in-depth analysis of the upsurge in political identity groups of women and LGBT. In his book, Murray points out some of the problems of group political identity, especially the abuse of power on the part of their leaders. Assigning the label of racist to people they dislike, demanding the sack of an academic for merely expressing an opinion, and insufflating disturbances on campuses are some examples he cites.

Finally, a Postmodernism-free space, in the Poetry slot, which is dedicated to Noel Rosa (1910-1937), one of Brazil’s most creative composers and lyricists. Although Rosa died age 26, of tuberculosis –  he managed to compose over 300 songs during his short life, mostly ‘sambas’ and lively carnival songs called ‘marchinhas’ . Three of Rosa’s songs are shown, accompanied by their English translations, after his biography. I often speculate on how far Rosa would have gone if he had not died so young. He might have been a Brazilian alternative to Bob Dylan.

I hope this edition will provoke thought and even, a questioning of some modern-day misconceptions.

Joaquina Pires-O’Brien