Como a esquerda vence os argumentos por ‘narrativas’, pós-modernismo e um ‘maior significado moral’

Como a esquerda vence argumentos por ‘narrativas’, pós-modernismo e um ‘maior significado moral’

Norman Berdichevsky

Quando eu cursava o ensino médio, eu entendia (ou pensei que entendia)  a palavra ‘narrativa’ como sendo a narração de uma história do ponto de vista de um terceiro. Tanto no cinema quanto no teatro, os créditos costumavam listar o ‘narrador’, o personagem testemunha ocular, usado para dar um relato neutro a partir de uma perspectiva não tendenciosa, em contraste às opiniões e sentimentos pessoais dos personagens principais. Meu Deus! Como isso mudou! É difícil escapar do significado contemporâneo da palavra que abunda em todas as ciências sociais, políticas e seu corolário de ‘pós-moderno’. A primeira vez que vi essa expressão, parecia uma contradição em termos. Como algo pode estar mais longe no futuro do que ‘moderno’. Ambos os termos enfatizam a importância de integrar novos conhecimentos em uma estrutura aceitável que confirme os valores mais queridos de um grupo. Caso contrário, é irrelevante.

Durante as últimas décadas, o ‘pós-modernismo’ passou a significar uma atitude de ceticismo ou rejeição das ideologias reinantes e previamente aceitas, e o questionamento das suposições de racionalidade e das noções universalistas de moralidade objetiva, realidade, verdade, razão, linguagem, natureza humana e progresso social. As ideias modernas.

A mídia pós-modernista rejeita a ideia de que qualquer produto de texto ou mídia tenha um valor maior que outro, e portanto, todos os julgamentos são apenas questões de gosto. Qualquer coisa pode ser chamada de arte e merece chegar ao público. Quando vista dessa maneira, não há realidade estável, confiável ou universal; a beleza e a estética são arbitrárias, relativas e subjetivas. É irônico que o pós-modernismo rejeite as noções universalistas de realidade objetiva que, por mais de um século, os adeptos do marxismo acreditavam ser firmemente corretas e analisadas objetivamente pelo marxismo, e, que seguiam leis imutáveis.

Olhando as controvérsias atuais nas ciências sociais, ciências políticas e nas artes, é muitas vezes impossível escapar da palavra e do conceito que é cada vez mais empregado pelos porta-vozes da Esquerda. Classificada como sendo possivelmente a mais grotesca ‘narrativa’ recente da política de identidade é a afirmação ‘Jesus era palestino’, proclamada por Linda Sarsour (duas vezes copresidente da Marcha das Mulheres e ex-diretora executiva da Associação Árabe Americana de Nova Iorque). A congressista Ihlan Omar reafirmou algo parecido, nomeadamente, que Jesus Cristo, entendido como o Messias anunciado com devoção por todas as denominações cristãs como sendo o cumprimento das profecias do Antigo Testamento (ou seja, judaicas), era provavelmente ‘um palestino de pele marrom’, e assim, acrescentando cinicamente a cor da pele. A política de identidade domina obsessivamente a política da Esquerda.

Nesta narrativa, os ‘palestinos’ são transportados por mais de 2.000 para trás na história, e os judeus eliminados de 3.000 anos de história antiga, juntamente com a longevidade de sua língua e de sua religião.

Por acaso essa foi a primeira vez que uma reescrita histórica bizarra, única e absolutamente fantástica, além de totalmente implausível, foi promovida? Claro que não.

O antissemitismo, o ódio mais antigo, supera todas as outras considerações e padrões de se julgar a história e a realidade. Já era adotado pelas doutrinas raciais nazistas que proclamavam que Jesus era um ariano, declarado já em 22 de abril de 1922 em um discurso de Hitler em Munique, quando ele falou sobre a necessidade de uma ‘Igreja Ariana’ e sobre aquilo que ele chamou de ‘Cristianismo Positivo’, não dependente do ‘Credo dos Apóstolos’, nem da ‘fé em Cristo como o filho de Deus’. Era para ser entendido da forma como retratado pelo Partido Nazista, um credo apóstata, que ignorava as suas origens judaicas como eram vistas por todas as denominações de Cristianismo do Oriente e do Ocidente, tanto antes quanto depois da Reforma.

Ludwig Müller, o candidato escolhido por Hitler, foi ‘eleito’ como o novo Reichsbischof alemão em 27 de setembro de 1933, depois que o regime nazista já o havia imposto alguns meses antes. Em 1937, quase todas as igrejas evangélicas protestantes da Alemanha sucumbiram à definição nazista da missão da igreja, conforme definido por Hans Kerrl, o ministro nazista para Assuntos da Igreja. Seus três pontos principais eram:

  1. Proclamar o ‘arianismo’ e o não judaísmo de Cristo;
  2. Promovero objetivo político da unidade nacional alemã, superar as diferenças confessionais com o objetivo de diminuir a influência da Igreja Católica na Alemanha), e unir o protestantismo em uma única Igreja Cristã ‘positiva’ e unitária, sob o polegar do Estado nazista. Não foi por acaso que o voto dos nazistas em todas as eleições da Alemanha de Weimar foi notavelmente mais baixo nas áreas católicas do que nas predominantemente protestantes. Isso ficou ainda mais claro após a tomada do poder de Hitler em 1933.
  3. Incentivar os seguidores a apoiar a criação de uma ‘Pátria Ariana’ maior, e que se estenderia por uma área ainda maior que a dos povos de língua germânica da Europa Central e Oriental.

Em contraste com a ausência de indignação hoje contra uma visão tão absurda por muitos de que Jesus era um palestino de pele marrom, a ‘Igreja Positiva’ alemã provocou resistência por parte daqueles alemães que tinham alguma consciência de que tal afirmação maníaca menosprezava dois mil anos de tradição cristã.

Uma minoria distinta de clérigos protestantes se recusou a vender suas almas ao diabo e enfrentou essas tentativas de reescrever a história e a moralidade, como: Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, Martin Niemöller e Wilhelm Busch. Eles não podiam e não conseguiam reconciliar a reivindicação do Estado nazista de controle total sobre o indivíduo com a noção de que a soberania suprema deveria pertencer apenas a Deus.

A Igreja Confessional (em alemão: Bekennende Kirche) foi um movimento dentro do protestantismo alemão na década de 1930 em oposição a esses esforços patrocinados pelo governo para unificar todas as igrejas protestantes em uma única igreja protestante pró-nazista. Em novembro de 1933, o pastor Friedrich Niemöller fundou a Liga Emergencial de Pastores, que se comprometia a resistir aos programas da igreja controlada pelo Estado e à sua declaração teológica. A mesma transformou-se de um movimento defensivo contra o controle nazista das igrejas em uma resistência organizada. Seções da Igreja Confessional permaneceram ativas no protesto contra a eutanásia e a perseguição aos judeus (mesmo que objetassem da forma mais veemente, com base na teologia, de que os judeus que se converteram ao cristianismo não podiam mais ser responsabilizados pela sua origem biológica). Sob uma intensa pressão nazista, a Igreja Confessional foi forçada à clandestinidade. Em 1937, Niemöller e 700 outros pastores foram presos.

Por meio de parlamentares do congresso americano como Rashida Tlaib, de Michigan, e Ilhan Omar, de Minnesota, trabalhando em conjunto com o líder muçulmano negro Farrakhan, muitos muçulmanos americanos concordaram com o que pode ser chamado de aliança com a esquerda política que os vê todos como ‘vítimas’. Em nível internacional, isso significa uma identificação com a intensa campanha anti-Israel orquestrada pelo presidente iraniano Ahmadinejad, cuja obsessão é ‘riscar Israel do mapa’ e ‘imaginar’ (o que é tudo o que eles podem fazer no momento) um ‘Mundo Sem Sionismo’.

As únicas vozes reconhecidas entre os 1,5 bilhão de muçulmanos do mundo a não seguir uma linha partidária nessa visão islâmica dos judeus fizeram das mesmas hereges que precisam de proteção caso ousem falar em algum lugar. São vozes de dissidentes ou ex-muçulmanos, como Ayan Hirsi Ali, americana nascida na Somália e ativista de direitos humanos na Holanda, Brigitte Gabriel, uma ativista política libanesa-americana, Wafa Sultan, médica e psiquiatra egípcia, Irshad Manji, autor canadense de The Trouble with Islam, e Dr. M. Zuhdi Jasser, médico e ex-oficial da marinha americana, autor de A Battle for the Soul of Islam: An American Muslim Patriot’s Fight to Save His Faith (Uma batalha pela alma do Islã: a luta de um patriota muçulmano americano para salvar sua fé), e Ibn Warraq, um indiano autor de diversos livros incluindo Why I am Not a Muslim (Porque eu não sou muçulmano).

Na visão islâmica do mundo, a maioria dos cristãos já é imediatamente suspeita de pertencer ao grupo dos que rejeitaram a mensagem de Maomé como a verdadeira fé, e, para piorar a situação, muitas vezes apóiam Israel. Gerações de clérigos e estadistas cristãos, de Disraeli até Winston Churchill e o presidente Harry Truman, defenderam a causa sionista. Sem a ajuda e o incentivo deles, hoje não haveria Israel, mas ‘um mundo sem sionismo’, como os iranianos gostam de imaginar. Israel não pode ser desfeito e não apenas por causa da herança da Bíblia.

Ainda em fevereiro de 1941, e apesar do desejo sincero do establishment protestante americano de não arriscar o envolvimento na Segunda Guerra Mundial, Reinhold Niebhur falou de forma convincente através do diário que havia fundado, Christianity and Crisis (Cristianismo e Crise), emitindo um clarim de alerta acerca do nazismo. Os seus objetivos finais não eram simplesmente a erradicação dos judeus, mas a extirpação do cristianismo e a abolição de toda a herança da cultura cristã e humanística. Niebhur baseou os seus pontos de vista não em alguma interpretação ‘evangélica’ literal das promessas bíblicas, mas nos fundamentos de justiça das nações; ele também pediu alguma forma de indenização para os árabes da Palestina, que poderiam ser deslocados caso os seus líderes se recusassem a tornar possível qualquer acordo.

O sucesso das ‘narrativas’ alternativas promovidas por muitos da Esquerda, tanto no congresso dos EUA quanto no parlamento britânico e na grande mídia é muito aparente. Isso levou a crises internas no Partido Democrata Americano e no Partido Trabalhista Britânico, que entraram em pânico e estão desesperados por uma fórmula eleitoral para derrotar Donald Trump e impedir a ascensão de Boris Johnson como Primeiro Ministro. Eles sabem que entre os jovens e os vários grupos de imigrantes de primeira e segunda geração de origem afro-asiática e não cristã, é muito mais fácil apresentar uma ‘narrativa’ alternativa enfatizando repetidamente suas simpatias por ‘pessoas de cor’ das quais eles podem excluir a maioria dos judeus que vivem nos dois países.

A matemática eleitoral não é difícil de se entender. Atualmente, os muçulmanos no Reino Unido superam os judeus por um fator de 10 a 1. O líder do Partido Trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, pode proclamar cinicamente que suas mãos estão limpas, aparecendo em plataformas sem o uso de invectivos antijudaicos e continuando a empregar o homem de palha[1] da ‘extrema direita’. Da mesma forma, nos EUA, judeus obedientes e que há várias gerações sofrem de uma afeição equivocada pelos democratas no establishment político, permanecem como sempre nos bolsos desse partido, auxiliados pela propensão a uma ‘nova narrativa’ e pela prevalência do pós-modernismo em grande parte da mídia.

Uma boa parte dessa mesma lógica aplica-se às declarações e reivindicações da congressista democrata Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), o que implica que a sua visão da moralidade de uma questão supera os reais ‘fatos’ que existem, ou os números em preto e branco que se espera de uma resposta certa para uma pergunta em aritmética. Obviamente, isso deixa muito a desejar das alegações absurdas que são historicamente falsas, como a afirmação de que Jesus era um palestino, mas, elas são empacotadas com simpatia no pacote da simpatia pelo oprimido.

Recentemente, o Washington Post concedeu à congressista quatro Pinóquios (‘prêmios’ por mentir, distorcer grosseiramente os fatos, exageros ultrajantes e equívocos simples). Em uma entrevista ao jornalista Anderson Cooper apresentada no programa ‘60 Minutes’, a congressista AOC disse:

Oh meu Deus, se as pessoas querem realmente expandir uma figura aqui ou uma palavra ali, eu diria que elas estão deixando de ‘enxergar a floresta por causa das árvores’[2]. Eu penso que há muitas pessoas mais preocupadas em estar corretas precisamente, factualmente e semanticamente do que em estar moralmente certas.[3]

Esta é a arma pós-moderna da qual a Esquerda faz uso constante. Os argumentos não podem ser decididos com base nos fatos, mas devem ser julgados por seus valores morais e contextos (da forma que espectador decidir) como no pós-modernismo. Para AOC, ser ‘moralmente correto’ é mais importante do que ‘estar factualmente correto,’ e sempre que ela comete um ‘erro’, não é a mesma coisa que o presidente Trump ser moralmente deficiente ou corrupto, e por isso mesmo, é pior do que mentir. Os republicanos não podem usar as mesmas táticas que os democratas. Embora os primeiros muitas vezes tropecem nas táticas e nos tweets desajeitados e inaptos do Presidente nas mãos do quarteto Sarsour-Omar-Tlaib-Ocassio-Cortez, eles devem buscar restaurar o bom senso dos americanos que entendem que essas quatro pessoas são profetas do desalento, da destruição e da decepção.

                                                                                                                                  

Norman Berdichevsky faz parte do conselho de redação de PortVitoria e é também um de nossos colaboradores mais frequentes. Ele é um americano que viveu em Israel, Dinamarca, Espanha e Reino Unido, onde vive atualmente. Uma boa parte dos seus artigos estão publicados na New English Review, incluindo este artigo, ali publicado em agosto de 2019.

Tradução: J Pires-O’Brien (UK); revisão: D. Finamore (Br)

[1] Do inglês ‘straw man’, a expressão ‘homem de palha’ significa um argumento ou adversário fraco ou imaginário, e facilmente refutável. A expressão é também usada para denotar uma pessoa criada para servir de cobertura para uma transação geralmente questionável, como um ‘laranja’. O ‘homem de palha’ pode ainda ter um sentido figurativo: fantoche, autômato, boneco.  Nota do tradutor.

[2] Tradução da expressão idiomática inglesa: ‘miss the forest for the trees’, usada para descrever uma determinada situação que o enfoque nos detalhes de um projeto, acaba impedindo de ver o projeto como um todo.

[3] Citação original: “Oh my goodness, If people want to really blow up one figure here or one word there, I would argue that they’re missing the forest for the trees. I think that there’s a lot of people more concerned about being precisely, factually, and semantically correct than about being morally right”.