O primeiro evolucionista do Brasil

O primeiro evolucionista do Brasil

Amy Cox Hall

 

Resenha do livro Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller (O homem de Darwin no Brasil: a ciência evoluidora de Fritz Müller) de David A. West. Tallahasse University Press of Florida, 2016. 344 pp. $79.95 (cloth), ISBN 978-0-8130-6260-0.

 

O detalhado estudo de David West sobre a vida e o trabalho de Fritz Müller, biólogo evolutivo e colaborador de Charles Darwin, resulta da culminação de três décadas de pesquisa. A profundeza e a amplitude da pesquisa acerca dessa figura singular é impressionante, estendendo-se por cinco países e obtendo informações de uma impressionante quantidade de arquivos, universidades, bibliotecas, e outras instituições. Embora West fosse treinado em genética e ornitologia pela Cornell University, ele se tornou um interessado em borboletas e começou a fazer pesquisas no Brasil. West teve a sua atenção voltada ara Müller depois de uma visita de pesquisa ao Brasil em 1982, no meio de uma longa carreira ensinando na Virginia Tech University, entre 1962 e 1998. Assim inspirados, West e sua esposa Lindsay embarcaram num estudo sobre a vida e o trabalho de Fritz Müller, vida essa que foi marcada tanto pela produção científica quanto pela tragédia pessoal. O resultado é uma análise pormenorizada da pessoa humana e das realizações do cientista.

Ao contrário de outros cientistas que trabalharam em história natural na América do Sul, Müller não é bem conhecido. Ele não escreveu histórias intrépidas de aventuras e, aparentemente, tampouco escreveu clichês racistas sobre a vida no Brasil como era comum na sua época. Em termos de apelações, não há narrativas de conquistas. Ao invés, Müller publicou trabalhos sobre borboletas, fertilização de orquídeas, abelhas, lianas, crustáceos, cupins, e formigas cortadeiras (cabeçudas). O leitor desse livro rapidamente irá notar a minuciosidade, o cuidado e a precisão com que Müller conduziu suas pesquisas. As suas análises e conclusões decorrem de observações continuadas e feitas a longo prazo, parecendo um contraste impressionante com a maneira pressurizada e apressada de como a ciência é conduzida hoje em dia.

West começa a biografia de Müller com um capítulo sobre a vida dele quando jovem na Alemanha. Müller frequentou a universidade para se formar em medicina, mas, como era um ateísta declarado, foi-lhe negado o diploma. Em um dos capítulos mais interessantes, West descreve como Müller recusou-se a prestar o juramento cristão no qual ele era obrigado a dizer, “que Deus e seu evangelho sagrado me ajudem ” (p. 27). Embora Müller tivesse tentado isentar-se de dizer a frase através de uma petição, o pedido dele foi indeferido. Após ter completado o seu treinamento médico, ele não recebeu o diploma, e se tornou um professor particular. Por fim, ele se mudou para o sul do Brasil, assentando-se numa nova colônia alemã organizada por Hermann Blumenau, um químico alemão. Embora eu preferisse ter sabido mais informações acerca da colonização alemã no Brasil e o impacto que esses colonizadores tiveram no Brasil, West afirma que o desejo de Müller de se relocar não foi conduzido pela atração do Brasil. Müller queria, apenas, escapar da terrível perseguição aos não crentes e às associações não religiosas na Alemanha. O Brasil era uma avenida para uma vida de liberdade. Müller também enxergou o Brasil como uma oportunidade de usar o seu treinamento médico num lugar onde os médicos eram raros. Embora ele tivesse usado o seu treinamento médico, ele também ensinou aritmética, álgebra, geometria, e história natural aos alunos do liceu da província. Em dado momento, ele se cansou de ensinar e propôs à administração da província que o tornasse um ‘naturalista da província’ – recolhendo, estudando as plantas nativas e introduzidas da região e avaliando a melhor maneira de cultivá-las e disseminá-las –, cargo que ocupou por muitos anos. Assim, West descreve Müller tanto como um pioneiro quanto como um homem de convicção. Embora a maioria de nós tenha ciência de que o estudo da evolução era polêmico, devido ao seu questionamento do criacionismo religioso, o capítulo descreve a luta, a profundidade, e o impacto que essa tensão teve em indivíduos como Müller.

Finalmente, West procura situar Müller na rede de relacionamentos de Darwin, dando a Müller o merecido reconhecimento como um dos principais interlocutores da evolução. Ele é bem sucedido em mostrar como Darwin apoiou-se em Müller no tocante a importantes observações de campo e experimentos, e como Müller apoiou-se em Darwin para inspiração, suporte, e orientação. No seu primeiro livro – Für Darwin – (traduzido para o inglês como: Facts and Argument for Darwin; Fatos e argumentos a favor de Darwin), Müller testa as teorias de Darwin através de uma análise de crustáceos. Ao invés de rejeitar Darwin de cara, ele conduziu experimentos planejados nos minuciosos detalhes para dar suporte às ideias de Darwin, contribuindo para a eventual aceitação do pensamento evolucionista. West nota que Darwin acreditava que o livro de Müller era  “talvez a mais importante contribuição de suporte às suas ideias” (p. 93). Esse argumento é estendido um pouco mais por West no capítulo sobre o experimento deste cientista voltado a testar se as borboletas já nascem sabendo exatamente que tipo de inflorescência possui néctar, ou se tal capacidade era aprendida, e, na pesquisa feita mais tarde, sobre a predação de borboletas. A pesquisa de Müller indicou que as borboletas aprendiam pela experiência sobre o tipo de inflorescência que possui néctar, algo que foi confirmado um século depois. Além disso, a pesquisa de Müller sobre o modo como as borboletas adotam as características de aviso a outras borboletas para esquivar-se de predadores similares, hoje em dia conhecida como mimetismo mülleriano, foi uma maneira importante de demonstrar as afirmações tanto de Darwin quanto de Müller de que a seleção natural era uma força causadora de mudanças. West argumenta que a despeito de Müller não ser bem conhecido, a sua pesquisa foi influente na comunidade científica e deveria ser reconhecida.

No meio da ampla documentação dos experimentos individuais de Müller e de seus artigos científicos há uma curiosa subtrama acerca do modo como o conhecimento científico funcionava e circulava do meio do século XIX ao fim deste. As observações de Müller foram precisas e demoradas. Por exemplo, ele observou a polinização de uma planta de Lantana para afirmar, corretamente, que as flores mais velhas do capítulo eram mantidas para que permanecessem conspícuas aos  polinizadores. O que se torna evidente durante toda a apreciação de West às observações pormenorizadas e interessantes de Müller é que a ciência era tanto uma rede humana quanto uma relação íntima com a natureza. Os seus professores na Alemanha, por exemplo, eram professores que haviam sido influenciados por Alexander von Humboldt e as suas coleções da América do Sul. Como o único darwinista no Brasil, Müller apoiou-se numa rede global de estudiosos, em geral baseados na Europa e nos Estados Unidos, para promover a compreensão científica da teoria evolutiva. Artigos e correspondência circularam entre os colegas, às vezes levando anos para completar o círculo.

A maior parte do texto enfoca a ciência de Müller. Consequentemente, a audiência principal será composta por interessados na história da biologia evolutiva. Embora os leigos não sejam impedidos de gostar do livro, para os que não têm um interesse nessa área, a discussão dos experimentos de Müller e suas descobertas seria melhor dada por um conhecimento geral acerca da evolução assim como sobre as maneiras como biologia evolutiva é hoje conhecida. Na qualidade de leitora que não é da área, eu frequentemente me vejo a imaginar as implicações nos dias de hoje dos experimentos e observações de Müller. Embora West faça um bom trabalho em explicar como os estudos e as conclusões de Müller são percebidos atualmente, a quantidade de informação pode ser confusa para os que não têm uma especialização na área. Nesse sentido, há uma oportunidade perdida de levar as contribuições de Müller a um público mais amplo, pois com exceção do capítulo sobre borboletas, o texto é talvez demasiadamente denso para atrair o interesse de um público maior ou mais casual. A minha percepção depois de ler o livro foi que a intenção de West era apresentar um exame sério e profundo sobre um cientista pouco conhecido, de um cientista de cientistas; e nisso ele acertou.

Tendo dito tudo isso, eu teria gostado de mais informações sobre a política em torno de Müller e da colônia alemã no Brasil. Uma contextualização mais profunda das formas como Müller e a colônia foram recebidos no Brasil na época seria particularmente bem-vinda uma vez que West discute a maneira como Müller, embora vivendo  no Brasil, continuava bem dentro do mundo da ciência europeia. Muitos dos colonizadores não queriam perder a língua, os costumes e a identidade alemã, ou tornar-se brasileiros, quer em língua quer em costumes. Isso aguçou a minha curiosidade e eu queria entender mais sobre a política e a história da colônia e sobre como outros cientistas no Brasil impactaram o trabalho de Müller. Eu imaginei acerca do colonialismo desses imigrantes e por quê tais pesquisas científicas que contribuíram para a nossa compreensão da evolução não tiveram um alcance maior. Por acaso os estrangeiros eram melhor recebidos do que os locais? Por acaso as suas pesquisas científicas eram tratadas diferentemente? Por que um médico alemão foi escolhido como o naturalista da província? O conhecimento que Müller adquiriu pelo fato de encontrar-se no Brasil ficou conhecido pelos grupos de brasileiros natos que viviam na região? Com quem ele manteve contato? Por um lado, Müller era similar a Humboldt, na quantidade de coleções e de observações feitas. Por outro lado, ele era bastante diferente, ao fazer um trabalho de campo de toda uma vida numa colônia em crescimento. Essas conexões poderiam ter sido mais claras e teriam dado suporte ao argumento de West sobre as qualidades ímpares de Müller como cientista, bem como às excepcionais qualidades de sua pesquisa e suas contribuições. Finalmente, eu teria gostado de saber mais se o trabalho de Müller impactou ou não a compreensão coletiva e o estudo da raça na ocasião. West menciona a sua correspondência com Alexander Agassiz, filho do famoso poligenista1 Louis Agassiz; uma discussão sobre a forma como a pesquisa deste impactou ou deixou de impactar o entendimento do conceito de raça teria sido bem recebida.

Ainda assim, a vasta pesquisa sobre Müller é admirável e eu espero que esse livro alcance o objetivo intencionado – de estimular a reflexão e incentivar outras pesquisas sobre a vida de Müller, fazendo com que as contribuições deste granjeiem o merecido reconhecimento. E isso não é coisa de pouca monta.

 

1.Referente à teoria da poligenia, segundo a qual o ser humano não tem origem comum, sendo os diversos grupos da humanidade atual descendentes de espécies distintas. Essa teoria tornou-se obsoleta depois da teoria evolucionista de Darwin.

Nota

Artigo licenciado para uso não comercial através da ‘Creative Commons’,. Reproduzido de: Amy Cox Hall. Resenha do livro de West, David A., Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller. H-LatAm, H-Net Reviews. 14 fevereiro, 2017. URL: https://www.h-net.org/reviews/showrev.php?id=47557

 

Tradutora: Joaquina Pires-O’Brien

Revisora: Débora Finamore

Referência:

WEST, DAVID A., Darwin’s Man in Brazil: The Evolving Science of Fritz Müller. Tallahasse University Press, 2016. Resenha de HALL, A. C.,  O primeiro evolucionista do Brasil. PortVitoria, UK, v.15, Jul-Dec, 2017. ISSN 20448236. http://www.portvitoria.com/archive.html