Sobre ativismos e incivilidades das políticas de identidade

Sobre ativismos e incivilidades das políticas de identidade

Joaquina Pires-O’ Brien

Resenha do livro The Madness of Crowds (A loucura das massas) de Douglas Murray. London, Bloomsbury Continuum, © 2019, 280 pp.

 

Capturar o presente objetivamente nunca é uma tarefa fácil, mas é exatamente isso que Douglas Murray faz em The Madness of Crowds (A loucura da massas; 2019). Ele tem um histórico comprovado de estudioso sério, apesar de ter apenas quarenta anos. O seu primeiro livro Bosie: A biography of Lord Alfred Douglas (Bosie: Uma biografia do Lord Alfred Douglas 2000) foi publicado quando ele ainda era estudante de Oxford. Depois disso, ele escreveu Neoconservatism (2005), Bloody Sunday: Truths, Lies and the Saville Inquiry (Domingo sangrento: verdades, mentiras e o inquérito Saville; 2011) e The Strange Death of Europe: Immigration, Identity, Islam (A Estranha Morte da Europa: Imigração, Identidade, Islã; 2017).

Uma das características de nossa era é a presença constante de grupos que reclamam da opressão social e advogam a justiça social e a interseccionalidade. Esses grupos, agora reconhecidos como ‘grupos de política de identidade’, estão exigindo permanentemente reparações por ofensas tanto do presente quanto do passado. Reparações por ofensas cometidas no passado são especialmente problemáticas, mesmo para os mais capazes especialistas em ética. Quanto às ofensas cometidas no presente, o problema é que elas geralmente são minúsculas; podem ser algo que uma pessoa disse em uma esfera privada e, daí levado para a esfera pública e para o ‘tribunal do politicamente correto’. Em 2015, no Reino Unido, o professor Tim Hunt, um cientista ganhador do Prêmio Nobel de 72 anos, foi forçado a deixar seu cargo de professor honorário na University College London por causa de uma enxurrada de críticas por ter dito ‘o problema das meninas’  numa uma breve fala sobre o papel das mulheres na ciência. Cada grupo de política de identidade tem suas próprias queixas, e apesar de brigar um com o outro, eles são unidos pela agenda de impor uma nova moralidade social, a qual possui muitos traços de religião. No entanto, a nova moralidade social que os grupos de políticas de identidade desejam impor no Ocidente colide com alguns valores importantes da cultura ocidental, como o individualismo e a liberdade de expressão. A incivilidade e o comportamento inadequado de muitos de seus ativismos têm um efeito perturbador sobre a paz e a segurança da comunidade.

Neste livro, Murray fornece uma análise aprofundada do surgimento de grupos que defendem a justiça social e a interseccionalidade, concentrados nos quatro maiores: gays, mulheres, raça e ‘trans’ . Cada um desses está em um capítulo separado, mas inserido entre os capítulos, há três ‘ ‘interlúdios’: ‘Os fundamentos marxistas’, ‘O impacto da tecnologia’ e ‘Sobre o perdão’. Em sua análise de cada grupo de estudos, gays, mulheres, raça e ‘ trans’ , Murray adotou o critério a priori de decidir se seu descritor principal era ‘ hardware’  ou ‘ software’ , ou seja, natureza ou criação. Embora o critério de decidir de antemão se uma condição ou situação específica seja natureza ou criação é obviamente uma maneira de evitar vieses, o autor não é abrigado de cobranças tendenciosas devido ao status de tabu do sujeito.

Muitas pessoas dos grupos ativistas gays, mulheres, raças e ‘trans’ estão prontas para rotular de ‘fascistas’ as pessoas que eles não gostam, mas têm dificuldade em identificar o fascismo dentro de suas próprias comunidades. O próprio Murray foi rotulado de ‘fascista’, embora incorretamente, pois a palavra ‘fascista’ designa autoritarismo e intolerância. De acordo com sua definição correta, o termo ‘fascista’ se aplicaria aos líderes dos grupos de política de identidade que banem de sua comunidade os membros que se recusam a aceitar certos aspectos da agenda do grupo. Aqui estão alguns exemplos desse banimento: (i) Peter Thiel, excluído do grupo gay por apoiar o partido republicano; Kayne West, Candace Owens e Thomas Sowell, excluídos do grupo negro por não concordar com sua mentalidade de vítima adotada; e Germaine Greer, excluída do novo grupo feminista por escrever que as pessoas que nasceram homens não podiam ser classificadas como mulheres. Muitas pessoas nos grupos de gays, mulheres, raças e ‘transexuais’  têm dificuldade em identificar o fascismo dentro de suas comunidades.

O primeiro capítulo, ‘Gay’ , descreve a politização da comunidade gay e várias outras questões inter-relacionadas. Nos Estados Unidos, os gays são normalmente de esquerda e apoiadores do Partido Democrata. Durante as eleições presidenciais americanas de 2016, Peter Thiel e outros gays americanos conhecidos foram excluídos da comunidade gay depois que declararam apoiar Donald Trump. Isso foi abordado em um artigo de Jim Downs, professor associado de história do Connecticut College, que perguntou se um indivíduo ainda deveria ser considerado membro do LGBT, mesmo que esse indivíduo tenha negado aspectos da identidade homossexual. Este capítulo é seguido pela seção designada ‘interlúdio: os fundamentos marxistas’, e é aí que se consegue entender como o pós-modernismo difere do marxismo. Um dos mais poderosos símbolos do marxismo é a ‘pirâmide do sistema capitalista’ introduzida por Marx, na qual a classe trabalhadora situa-se na parte inferior e as classes capitalistas na parte superior. O pós-modernismo tem uma pirâmide semelhante, com a diferença de que a parte inferior é ocupada pelos oprimidos e a superior pelos opressores. Na era pós-moderna, os oprimidos são minorias, como gays, mulheres e pessoas de cor, enquanto os opressores no topo são homens brancos.

O capítulo ‘Mulheres’ começa com uma discussão sobre a moralidade sexual. Em relação à maneira como os dois sexos se ameaçam, houve uma enorme mudança em um período muito curto de tempo. As mulheres muitas vezes se objetivavam e se safavam disso. Um exemplo dado aconteceu no início dos anos 90, quando Drew Barrymore, então com 20 anos, improvisou uma dança sensual que incluiu mostrar os seus seios ao apresentador do ‘The Late Show’, para o deleite do público do auditório. Passados apenas 25 anos, em outubro de 2017 o mundo inteiro assistiu o desenrolar do escândalo em torno de Harvey Weinstein, quando uma longa lista de mulheres se apresentou para acusá-lo de avanços sexuais indesejados. ‘Seria possível que a moralidade tenha mudado tanto em um período tão curto?,’ questiona Murray. Ele então levanta o assunto do código de vestimenta feminino no local de trabalho. Muitos homens considerariam contra intuitivo que as mulheres se vistam de forma sensual no local de trabalho ao mesmo tempo em que aceitam ou adotam uma narrativa de vitimização em relação à atenção indesejada dos homens. No tópico do feminismo, houve muitas ondas e uma enorme mudança de perspectiva. Enquanto a onda inicial do feminismo era sobre direitos iguais para mulheres e homens, a última onda do feminismo é marcada pela difamação generalizada de todos os homens, que o autor chama de ‘misandria’ . A seguir a este capítulo, está a seção de interlúdio chamada ‘O impacto da tecnologia’ , que apresenta o tema sob a perspectiva da moralidade da Inteligência Artificial (IA). Os técnicos da Silicone Valley querem transferir para máquinas a decisão de traçar as linhas da justiça e da moralidade. Esta seção também aponta o fim da neutralidade dos motores de buscas da internet, pois os resultados de pesquisa do Google agora precisam estar em conformidade com a imparcialidade programada (machine reading fairness MFR; em português:  leitura automática de justiça), e em consequência disso eles não refletem a realidade. O autor sugere que a comunidade de técnicos de informação do Vale do Silício seja inclinada à esquerda e vê essa ‘falsificação da realidade’ como um pequeno preço a pagar pela justiça.

O capítulo ‘Raça’ lida com mudanças no significado de atos e conceitos relacionados à raça. A ‘cegueira de cores’, a ideia de que a cor da pele deve se tornar um aspecto tão sem importância da identidade de uma pessoa que é possível ignorá-la completamente, já foi reconhecido como uma solução para o problema do racismo, para ser posteriormente identificado como parte do problema do racismo. Essa mudança de significado está na expressão ‘racismo daltônico’ , cunhada por Eduardo Bonilla-Silva, presidente da Associação Sociológica Americana. Outro termo que se associa ao racismo é ‘apropriação cultural’, apesar do ditado popular de que ‘imitação é a forma mais sincera de lisonja’. O sinistro conceito de ‘ apropriação cultural’  existe há vários anos. Aqui estão dois exemplos. Em 2015, em Yale, alguns estudantes que compareceram a uma festa de Halloween usando touca de índios americanos foram repreendidos por ‘apropriação cultural’ porque não eram nativos americanos. O mesmo aconteceu em 2017, quando duas pessoas californianas que não eram mexicanas criaram um negócio na estrada para vender burritos. Existem outros conceitos cujo significado é tão difícil de entender, como ‘privilégio branco’ e ‘brancura’. Esses termos servem ativismo nos Estados Unidos há anos e agora estão sendo usados ​​no Reino Unido:

Em 2018, centenas de professores universitários da Grã-Bretanha tiveram que participar de workshops nas quais foram instruídos a reconhecer seus ‘ privilégios de branco’  e reconhecer como a ‘ brancura’  pode torná-los racistas mesmo sem saber.

Nos Estados Unidos, o pior da política de identidade de raça é encontrado no meio acadêmico. Os comportamentos ligados ao ativismo da política de identidade transformou as universidades e faculdades americanas em lugares obcecados por raça. Uma das faculdades mais preocupadas com o ativismo da política de identidade é a Evergreen State College, em Olympia, Washington. Um incidente ocorrido em 2017 foi especialmente inquietante devido ao tipo de linguagem que os alunos usaram ao se dirigir ao seu presidente, George Bridges. A política de identidade racial tem alimentado muitos conflitos desnecessários. No entanto, deve-se salientar que existem muitos ‘não brancos’ que não são coniventes com as suas táticas. Uma resenha do livro de Thomas Sowell Os intelectuais e a sociedade (Intellectuals and Society; 2009), publicada na revista LSE Review of Books, da London School of Economics, teve que ser corrigida a posteriori  quando alguém chamou à atenção do editor que Sowell era negro, o que acarretou a remoção da frase: “easy for a rich white man to say” (fácil de dizer para um branco rico).

A seção ‘On Forgiveness’ (Sobre o perdão), apresentada como um interlúdio após o capítulo ‘Race’ (Raça), trata da tendência a perseguir pessoas e arruinar suas vidas por conta de pequenos deslizes. As pessoas não são perfeitas, assim como a sociedade não é perfeita. Embora os deslizes humanos geralmente sejam o resultado de preconceitos, na maioria das vezes existem circunstâncias atenuantes, e é por isso que a razão e a razoabilidade aconselham-nos a estarmos prontos para perdoar. Martin Luther King ofereceu a sua versão da regra de ouro do comportamento no seu famoso discurso em Washington, DC, em 1963, quando apontou que existe uma maneira correta pela qual os seres humanos devem tratar uns aos outros

O último capítulo, ‘Trans’ , discute as muitas questões das pessoas ‘trans’ e suas relações com a sociedade. De todos os quatro grupos tratados neste livro, o do ‘trans’ é o mais problemático, por envolver mudanças irreversíveis cujas consequências ainda não foram descobertas. O autor mostra a rápida evolução do termo nas últimas décadas. O termo era inicialmente empregado para descrever pessoas que ocasionalmente se vestiam como o sexo oposto, mas agora descreve indivíduos que se submeteram à(s) cirurgia(s) de mudança de sexo.  Agora, o primeiro é chamado de ‘travestismo’  e o segundo ‘ transexualismo’ . O tema tem outras complicações, como os indivíduos que nasceram com características de ambos os sexos, agora chamados ‘intersexuados’. Tem ocorrido muitos conflitos ligados a declarações feitas por jornalistas e outras pessoas da esfera pública, e é provável que esses conflitos continuem por muito tempo.

Uma das conclusões que podemos tirar deste livro é como a razão e o bom senso estão se tornando escassos na sociedade de hoje. Refletindo sobre o incidente do Professor Tim Hunt, Murray afirma que estamos vivendo “num mundo em que um dos maiores empregos de ‘poder’ – o poder de julgar e potencialmente arruinar a vida de outro ser humano por razões que podem ou não ser sinceras, é constantemente exercido”. Hoje a sociedade ocidental está repleta de armadilhas para pegar os politicamente incorretos. Qualquer indivíduo azarado que caia numa dessas armadilha tornar-se-á na presa de algum grupo de fanáticos. Até as minúcias de nossas vidas diárias estão agora sobre politizadas, causando o fim da espontaneidade e da conversação. O Ocidente está uma bagunça por causa disso e precisa encontrar uma saída o mais rápido possível. Aprender a perdoar e esquecer pode ser um passo nessa direção.

Loucura é o contrário de bom senso. A palavra ‘madness’ (loucura) no título deste livro é um lembrete de que as massas não têm racionalidade e nem responsabilização. Somente os indivíduos pensam e podem ser responsabilizados pelos seus atos. Somente os indivíduos compreendem o ato de malabarismo de ouvir os outros e serem ouvidos. Como Murray apontou corretamente, não faz sentido acusar o Ocidente de estar entre os piores lugares do mundo para a opressão, pois queixas de opressão e violação dos direitos humanos são ouvidas apenas em países livres. O Ocidente tem falhas como todas as outras sociedades, mas também é o lugar onde os países mais livres do mundo se concentram, onde as pessoas podem viver suas vidas da maneira que desejam, desde que não impeçam os outros de fazer exatamente o mesmo. A linha divisória entre a loucura e o bom senso é frequentemente embaçada, igual ao que ocorre quando algo bom é empacotado junto com algo ruim. Por exemplo, a comunidade é uma coisa boa, exceto quando o seu denominador comum é uma ideologia ruim.

O denominador comum dos grupos de identidade política contemporâneos é o pós-modernismo, uma ideologia semelhante ao marxismo e baseada em uma dinâmica de poder de construção e desconstrução. O pós-modernismo confunde as pessoas com o uso da mídia para fabricar ‘personalidades’  (‘personas’) e solapar os valores ocidentais tradicionais, como verdade e moralidade objetivas. Outras consequências do pós-modernismo são o desrespeito à ciência e aos seus peritos, e o fim da meritocracia.

Outro ponto significativo que o autor destaca é que muitas pessoas no Ocidente perderam a capacidade de pensar por si próprias, e, por isso, tendem a procurar a opção mais fácil de posicionar-se ao lado da opinião atualmente aceita. A opinião bem informada que poderia dar perspectiva a um debate é agora rotulada como ‘política errada’ . Este rótulo não tem nada a ver com estar ‘errado’, e sim com ‘ser menos popular’. O endosso da opinião mais popular à custa da objetividade é o mesmo que uma maioria intimidar a minoria. Isso se aplica a grupos de políticas de identidade e a alguns jornais e revistas. Permitir que muitos intimidem os poucos é um anátema do liberalismo clássico. Um dos problemas mais importantes do Ocidente no século XXI é fazer com que as pessoas recuperem o hábito de pensar por si mesmas. Obter conhecimento objetivo dos grupos de identidade política é um passo nessa direção. Essa é uma importante razão pela qual todas as pessoas acima de 16 anos devem ler The Madness of Crowds, de Douglas Murray.

                                                                                                                                               

Jo Pires-O’ Brien é a editoria de PortVitoria.