Terras das fábulas

Terras das fábulas

Andrew Wheatcroft

Resenha do livro Danubia: A Personal History of Habsburg Europe (Danúbios: Uma história pessoal da Europa Habsburg) de Simon Winder. Illustrated. Farrar, Straus and Giroux, 2013, $30, 551 páginas.

 

Como uma sereia, o rio Danúbio seduziu pelo menos três autores ao longo dos séculos. O primeiro foi o conde Luigi Ferdinando Marsigli de Bologna, no século XVII. O seu trabalho culminou em seis volumes maravilhosamente ilustrados, publicados em latim, em 1726. O segundo foi Claudio Magris, de Trieste, no século XX. Professor, estudioso e novelista, ele fez uma excursão ao Mar Negro em 1986, pouco antes da queda dos antigos regimes comunistas da Europa Leste. Como Marsigli, ele não tinha uma ideia muito clara sobre o tipo de livro que queria escrever, e, no final, Magris produziu Danube (Danúbio), uma obra magistral.

Nas suas mãos, o rio não é apenas uma força majestática da natureza, mas torna-se o herói silencioso do livro. Como fez Laurence Sterne com Tristram Shandy (The Life and Opinions of Tristram Shandy Gentleman; A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy), Magris descobriu as circunstâncias improváveis das origens do Danúbio, pelo menos no folclore. Era um fio d’água saído de uma torneira, que ninguém havia conseguido fechar. Por um momento, ele imaginou o que poderia ter acontecido se alguém tivesse conseguido estancar o grande rio em sua fonte, e, Bratislava, Belgrado e Budapeste tivessem ficado ‘completamente sem água’.

Agora, no século XXI, há um terceiro autor, Simon Winder, de Londres. Entretanto, ele é o primeiro historiador do Danúbio a tentar um humor espetacular.

Os britânicos experimentaram o ridículo na história desde que dois humoristas, sobreviventes da Primeira Guerra, publicaram 1066 and All That (1066 e tudo aquilo) em 1930. Uma amostra: “A nova política de paz do rei Edward foi um grande sucesso e culminou na Grande Guerra a fim de terminar a Guerra da … Foi a causa dos dias de hoje e do fim da História”. O público amou, especialmente quando adaptado como peça de teatro.

O Danubia de Magris é uma grande obra de literatura, mas sem leviandade. A inspiração de Winder, em contraste, é contar a história como uma pantomima inglesa. Ele já havia experimentado essa abordagem na sua esplêndida Germania (2010), onde fez troças contando piadas. Funcionou perfeitamente. Entretanto, com toda a sua comédia, Danubia: A Personal History of Habsburg Europe teria que ser, como ele afirma, “um livro menos ensolarado do que Germania”, pois os povos do antigo Império Habsburgo tiveram uma história sombria; as cicatrizes são notadas até hoje.

No mundo de fala inglesa, a Europa Central era tão estranha e remota como o Deserto de Gobi ou o Ártico. Em 1938, o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain, numa fala à nação britânica sobre um confronto com Hitler a respeito da Áustria e da Tchecoslováquia, referiu-se à irrelevância de uma “guerra num país distante entre povos sobre os quais nós nada sabemos”. Ele enfatizou o “nós” e o “nada.” Tal isolamento continuou mesmo após 1945. Viena permaneceu sob ocupação até 1955, e, até pouco antes da queda do Muro de Berlim em 1989, apenas a Iugoslávia, dentre os países sob o controle comunista, havia desenvolvido o turismo internacional.

O Danubia de Winder descreve um mundo que continua desconhecido para muitas pessoas, mas, logo de início, ele deve ter tomado uma decisão crucial. Diferentemente de Marsigli e de Magris, ele escolheu como tema não apenas o Danúbio, mas os Danúbios. Apenas duas letras diferentes, mas um oceano de novas significações: Ao contrário do rio, Danubia não existe. É simplesmente uma ideia, imaterial, produto de uma imaginação fértil.

Winder cobre toda a varredura das antigas terras dos Habsburgos, levando-nos de Cracóvia e Leópolis, ao extremo norte, a Ragusa (Dubrovnik), ao sul. A oeste essa área inclui Braunau (com seu matacão ameaçador perto do local de nascimento de Adolf Hitler), enquanto que Ruse, o local de nascimento do escritor Elias Canetti, é a principal localidade do extremo leste.

Durante quatro anos, Winder perambulou pela Europa Central caçando relíquias como um monge mendicante. Checou os santuários onde alguma coisa inusitada poderia ser encontrada – a abadia de Melk, os mosteiros de Caríntia e Eslovênia, as cidadezinhas, os cantos esquecidos dos museus. As suas narrativas são fascinantes, pois ele não se apoia simplesmente em arquivos ou bibliotecas, mas leva o leitor para o mundo real. E, ele não para com o fim dos Habsburgos em 1918, mas continua até o século XXI.

O livro de Winder demanda mais do que qualquer um dos seus predecessores. A sua história pessoal é como um coral de diferentes vozes, cada qual contando uma parte. Começa com as risadas altas, na provinciana cidade de Pécs, na Hungria, onde “os capuchinhos são umas figurinhas difíceis”. A seguir, Winder transforma-se no homem conhecedor de fala macia, explicando em poucas sentenças o que aconteceu em Pécs em torno de 400 da era comum (EC), quando todo mundo “fugiu ou foi morto, ou foi levado como escravo pelos invasores hunos”.

Caso você fique frustrado com qualquer dos atores do drama de Winder, logo vem outro, embora o mais cativante de todos é o próprio autor com o seu tom preocupado e desafiante. “Quanto mais tempo eu gasto pensando sobre esse livro mais ojeriza e horror eu sinto pelo nacionalismo, que se parece com a peste bubônica.” Isso foi verdade tanto após 1945 quanto antes de 1914. Em Leópolis/Lviv/Lemberg/Lemberik/Lwow/Lvov “quase toda a população foi morta ou deportada – por ser judia, por ser polonesa, por ser alemã, por ser rica, por ser pró-nazista ou pró-comunista”.

Com suas muitas partes e com o seu elenco de milhares, Danubia é menos uma narrativa do que um mosaico gigantesco. Os incidentes que Winder descreve são as tesselas do mosaico – são as pedra de toque que levam adiante a narrativa. Apenas um exemplo: no Museu de História Natural em Viena, ele caminha passando por prosaicas exibições modernas para encontrar  “num canto escondido… um pequeno frasco de vidro com um lagarto preservado em álcool”. É uma réplica, mas dá a Winder a perfeita transição para Praga e o Imperador Rodolfo II, um dos poucos Habsburgs que o cativa.

Uma ‘história livro pessoal’ é, dessa forma, necessariamente, imprevisível e idiossincrática, e qualquer um que almeje uma marcha sólida e moderada através das terras dos Habsburgos pode ignorar esse livro. Isso seria um grande erro. Por detrás da disparatada pantomima, há um intelecto ágil e agudo trabalhando, o que permite que Winder se mova sem esforço do Tema Maior (relatado com gravidade, numa voz parecida com a do dr. Kissinger) aos detalhes mais pontilhistas. Ele escreve sobre Fafnir, um dragão particularmente assustador, que é “a crítica nacionalista da monarquia Habsburg,  … mas bastante interessante”. E deveras é, mas apenas pelo fato de que Winder consegue então explicar em poucas e decisivas linhas as complexas e mutantes políticas do imperador Francisco José. “Os Habsburgos são vistos universalmente como um gigante tolo… Para ser justo, Francisco José tenta empregar o Tarnhelm”  um capacete mágico e que muda de forma  – “para melhorar a sua posição, alternando do absolutismo a bocados de democracia, do ativismo à inércia, do centralismo ao federalismo, mas quase sempre de formas que parecem ser tarde demais, cínicas e incompetentes. Com o seu capacete mágico ele fica mudando de formas, mas ainda assim dá para ver as costeletas.”

Winder é o mais bem lido cicerone que alguém pode imaginar. Ele nunca cessa de falar e raramente faz pausa para respirar. Entretanto, mesmo assim você deseja dizer a ele: Esqueça a respiração e apenas continue a falar. Danubia é um livro longo, mas ainda assim o leitor não se importaria se fosse ainda mais longo.

                                                                                                                                               

Andrew Wheatcroft é professor de Publicações e Comunicação Internacional e Diretor do Centro de Estudos de Publicações da Universidade de Stirling. É autor de Infidels (Infiéis),The Habsburgs (Os Habsburgos), e The Ottomans (Os Otomanos).

 

Nota

A presente resenha foi extraída do New York Times, Sunday Book Review, 17 jan, 2014, versão online; uma versão impressa dessa resenha foi publicada em 19 de janeiro 19, 2014, BR, página 9,  Sunday Book Review, sob o título ‘Fabled Lands’.

 

Tradução: Joaquina Pires-O’Brien

Revisão: Débora Finamore

Referência

WINDER, SIMON. Danubia: A Personal History of Habsburg Europe (Danúbios: Uma história pessoal da Europa Habsburg). Ilustrado. Farrar, Straus and Giroux, 2013. Resenha de Wheatcroft, Andrew, Terras das fábulas. PortVitoria, UK, v. 15, Jul-Dec 2017. ISSN 20448236. http://www.portvitoria.com/archive.html.