Entrevista especial. James Corbett entrevista Elaine Dewar sobre seu livro de 1995 Cloak of Green (Uma demão de verde, 2008)

Nota da Editora. Dois pontos importantes dessa entrevista são Maurice Strong (1929-2015), o organizador da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, de 3 a 14 de junho de 1992 no Rio de Janeiro, e, como essa conferência promoveu o surgimento de diversas novas ONGs ambientalistas, que, apesar de serem designadas ‘não governamentais’ e de oficialmente desacreditar as grandes corporações, receberam dinheiro tanto do governo do Canadá quando das empresas de petróleo do Canadá. A entrevista também sublinha a hipocrisia a da política externa do Canadá no emprego da ajuda externa para desviar a potencial sedição vinda da África francófona em suporte à separação de Quebec, e, nos anos que precederam a Rio 92, financiando ONGs com pleno conhecimento de parte do dinheiro seria usado para financiar candidatos políticos em eleições no Brasil. Essa hipocrisia, mais o emprego da mídia para direcionar a opinião pública são marcas do construcionismo social característico do Pós-modernismo. Tudo isso aponta para a necessidade de perguntar que outras hipocrisias e desonestidades foram cometidas pelos organizadores da Rio 92 com a conivência da ONU? Jo Pires-O’Brien

James Corbett (JC): Bem-vindos amigos, James Corbett aqui, corbettreport.com. Hoje é primeiro de fevereiro de 2016 e vamos falar sobre algo sobre o qual escrevi recentemente no site, ‘Maurice Strong’, e você será perdoado se todo o seu conhecimento sobre Maurice Strong vem das recentes coberturas dos memoriais em Ottawa. Você pode ser perdoado por pensar que ele era simplesmente um líder ambiental em um sentido direto e simplesmente preocupado com o planeta ou algo assim e certamente vimos muitas pessoas prestando homenagem a ele como um visionário que estava interessado em mudar o mundo para um melhor. Entretanto, há uma história muito mais interessante, muito mais detalhada e muito mais sutil que mostra uma imagem completamente diferente, penso eu, da imagem do movimento ambiental moderno e, mais especificamente, das instituições e organizações internacionais que foram criadas para impulsionar esse movimento.

E nessa nota, novamente, as pessoas que leram o meu artigo recente estarão familiarizadas com Elaine Dewar, a jornalista canadense que escreveu um livro há algumas décadas atrás chamado Cloak of Green, que mencionei naquele artigo, e que gostaria muito recomendar como uma fonte interessante sobre o movimento ambientalista e o seu desenvolvimento, bem como sobre Maurice Strong, a quem ela também teve a oportunidade de entrevistar para esse livro. Ela está no blog elainedewar.blogspot.com e você pode conferir alguns de seus outros livros, como Smarts: The Boundary Busting Story of Intelligence (Brilhantes: Uma história da inteligência que arrebenta limites), e The Second Tree of Clones, Chimeras and Quests for Immortality (A segunda árvore de clones, quimeras e as buscas de imortalidade). Mas, hoje, vamos pedir a ela que estire a sua memória de volta a um par de décadas para falar sobre como surgiu o livro Cloak of Green. Elaine Dewar, muito obrigado por juntar-se a nós hoje no programa.

Elaine Dewar (ED): Bem, obrigada pelo convite.

JC: Bem, como eu disse, você escreveu este livro algumas décadas atrás, e, eu entendo que essa foi uma extensão de sua própria experiência no final dos anos 80, preocupada, assim como a maior parte do planeta, ouvindo histórias sobre a destruição das florestas tropicais e sobre a depleção da camada de ozônio, o que a conduziu por uma jornada pessoal a lugares que talvez você não esperava ir. Eu adoraria ouvir sobre como surgiu o Cloak of Green e o que realmente a levou a escrevê-lo.

ED: Bem, [o livro] surgiu de uma maneira estranha; na verdade, eu estava procurando um escape. Eu vou lhe contar rapidamente, como um antecedente, que antes dessa história eu trabalhava em uma [outra] matéria bem grande e complexa sobre uma família de investidores imobiliários que acabou enfrentando um enorme processo judicial;  era exaustiva, e eu realmente precisava de uma matéria que me tirasse das minhas preocupações diárias. E a matéria, que apresentou-se por si própria, era sobre os perigos da expansão da sociedade brasileira e a construção de uma grande série de barragens no sistema do rio Xingu, na Amazônia, e o que isso podia significar para o clima global, para a atmosfera, e, para todos nós.

A teoria então era de que a floresta era o maior tanque sumidouro de CO2 do mundo e estava sendo destruída pelo desenvolvimento, sendo que as únicas pessoas que estavam no caminho desse desenvolvimento eram um grupo de povos nativos do Brasil chamado Kayapó.

Assim, eu participei de um importante evento de angariação de fundos que ocorreu em uma igreja do centro de Toronto, em 1989 ou talvez em 1988, no qual Paiakán, um dos líderes desse grupo, foi apresentado à multidão como sendo o representante dos que receberiam o dinheiro [angariado], e fariam bom uso do mesmo, defendendo a floresta tropical e protegendo todos nós de um enorme e perigoso impacto no meio ambiente global.

Eu devo estressar a você que eu achei muito estranho que, no Canadá, onde temos mantido uma relação muito complexa e insensível com os povos nativos, tantas pessoas tivessem acabado apoiando um nativo de outro país. Quero dizer, foi ótimo de ver e, ao mesmo tempo, muito estranho. Também foi estranho o fato de ter transparecido que o grupo nativo em questão estava tentando usar mudanças na estrutura política brasileira para ganhar uma espécie de soberania sobre si mesmos, para demarcar o seu território e impedir que pessoas entrassem e saíssem, e, de fato, assumissem o controle da soberania que lhes havia tirada pelo Estado brasileiro invasor.

Foi aí que a matéria começou e eu a persegui, e eu fiquei surpresa ao encontrar várias organizações ambientais canadenses nas quais eu tinha razões para confiar no passado como repórter, e que repentinamente haviam desviado a sua atenção das questões ambientais canadenses para a floresta Amazônica; e, elas todas estavam caminhando por lá, indo a conferências, levantando dinheiro; e, de  uma forma ou de outra, lenta e cuidadosamente, camada por camada, eu fui arrastada para o entendimento de que esses grupos que eu pensava conhecer e compreender, e que eu julgava ser democráticos e ligados à [questões de] comunidade, acabaram se constituindo em grupos que, de fato, tomaram direções e certamente receberam grandes quantias de dinheiro dos [próprios] interesses corporativos que eles em público condenavam, e dos governos que estavam se organizando para aquilo que ficou conhecida como sendo a Cúpula do Rio. E isso me levou a Maurice Strong.

JC: Exatamente.

ED: De fato, eu havia conhecido o Sr. Strong anos antes, em um jantar oferecido por um colega meu, o qual sempre teve um interesse pelo que ele havia feito com a criação da empresa nacional de petróleo do Canadá, chamada Petro-Canada. Eu tinha motivos para fazer uma matéria sobre a Petro-Canada depois que o Sr. Strong deixou a organização e esta passou a ser dirigida por outra pessoa. Assim, eu tinha algumas informações sobre ele, e conhecia muitas pessoas em comum que o conheciam, portanto, conectada mas não conectada, e mais a história dos Kayapó, conduziram-me à conferência preparatória da Cúpula do Rio, que o Sr. Strong estava organizando para a ONU.

JC: Agora, acho que esse é um cenário extremamente importante e ajuda a elaborar a questão que esse livro trata, que é do quadro maior dessas organizações ambientais e suas conexões. Mas, eu acho que Maurice Strong é o exemplo microcósmico perfeito disso, [conforme evidenciado] em sua própria biografia. E  para dar às pessoas uma noção sobre Strong e as organizações nas quais ele estava envolvido… eu quero dizer, é quase risível, quando você realmente tenta alinhar tudo e apenas listá-las; e eu peguei isso em seu website oficial, mencionando apenas os anos de sua carreira após a Cúpula do Rio, onde ele…

Continuou a ter um papel de liderança na implementação dos resultados da [Cúpula] Rio por meio da criação do Conselho da Terra, do movimento da Carta da Terra, a sua presidência do Instituto de Recursos Mundiais, como membro do conselho do Instituto Internacional de Desenvolvimento Sustentável, do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo, o Instituto Afro-Americano, o Instituto de Ecologia da Indonésia, o Instituto Beijer da Real Academia Sueca de Ciências, e outros; Strong também foi diretor fundador vitalício do Fórum Econômico Mundial, consultor sênior do presidente do Banco Mundial, e membro do Conselho Internacional da Toyota Motor Corporation, membro do conselho consultivo do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, do Conselho Mundial de Negócios para o Desenvolvimento Sustentável, da União Mundial de Conservação, do World Wildlife Fund, da [organização] Recursos para o Futuro e das Bolsas (Fellowships) Eisenhower.

E isso é apenas uma fatia de duas décadas de sua biografia. Está…

ED: Está faltando muita coisa, como a fome na Etiópia, etc. Não, este é um ser humano muito, mas muito interessante mesmo. Não sei se seus ouvintes se importam em saber como [e onde] ele cresceu, mas você sabe que ele nasceu em Oak Lake, Manitoba, uma comunidade muito pequena não muito longe de Brandon, que não fica longe de Winnipeg. Os seus pais sofreram de fato durante a Depressão. A sua mãe aparentemente morreu em uma instituição mental. Havia muita fome. A vida era realmente difícil. Ele fugiu de casa, acho que [quando] ele estava na 9 ou 10ª série, quando entrou para a Guarda Costeira; tudo isso ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial e, como você sabe, ele eventualmente terminou a série 11, e, em seguida, foi para Chesterfield Inlet, que, os seus ouvintes estão familiarizados com a geografia canadense sabem que fica na costa da Baía de Hudson, bem no norte; foi trabalhar para uma fábrica da Hudson Bay Company em um momento muito, mas muito interessante, quando o governo do Canadá estava tentando descobrir se poderiam defender as nossas fronteiras do norte, deslocando tropas até o norte, até o rio Copper Mine, e depois para Edmonton, enquanto também procuravam urânio. Como você deve se lembrar, o urânio havia se tornado um material estratégico devido ao Projeto Manhattan, e, a partir de 1945, todo mundo, estava tentando encontrar urânio, o qual foi, de fato, encontrado em Baker Lake.

Assim, Strong ganha acesso ao mundo grande através de um cara chamado ‘Wild’ Bill Richardson, o qual era uma espécie de garimpeiro casado com uma família de petróleo chamada McColl, cuja empresa, a McColl-Frontenac, era uma grande importadora de petróleo de Oriente Médio. Esta havia sido comprada pela Texaco através de uma corretora chamada Nesbitt Thomson. De certa forma, Strong foi apresentado ao mundo do petróleo e ao mundo dos recursos [naturais] desde muito jovem. Ele foi recrutado como um rapaz muito inteligente, e, levado sob a asa de um homem chamado Paul Martin Sênior, um ministro de Gabinete cujo filho se tornaria o primeiro-ministro do Canadá, e, introduzido no segmento do petróleo através de pessoas do mais alto escalão, incluindo David Rockefeller.

Então, a história de sua vida é uma história de como as redes funcionam e introduzido no mais alto nível dos, diríamos, os empresários industriais e de recursos que estavam levando adiante o império americano no final da Segunda Guerra Mundial. É aí que ele ganha a sua partida. E ele rapidamente se tornou uma figura bastante significativa no Partido Liberal, o partido político dominante neste país, e por muitos anos se tornou muito ativo no segmento de petróleo de Calgary. [Strong] foi indicado para administrar uma empresa de petróleo aos 31 anos, apoiado efetivamente por empresas independentes ou controladas por Rockefeller, e se tornou um participante muito ativo na rede Y [da organização YMCA]. Esta foi uma organização muito interessante, tanto a nível nacional quanto internacional, no período imediato do pós-guerra, pois tinha filiais em lugares do outro lado da fronteira da Guerra Fria, e portanto, na China e na Rússia. E, como grande parte do discurso político que ocorreu no pós-guerra aconteceu em lugares não oficiais e informais como o YMCA, Strong encontrava-se extremamente bem posicionado em três deles ao mesmo tempo: na política, nos negócios e naquilo que chamamos de ‘sociedade civil’,  e ele avançou rapidamente através dessas redes.

JC: Agora, eu acho que um aspecto importante dessa história são os tipos de organizações que o próprio Strong realmente liderou ou montou, ou foi o diretor fundador. À primeira vista, elas parecem ser organizações governamentais ou, pelo menos, quase governamentais, mas, quando você raspa a superfície, aparecem como entidades muito diferentes por debaixo. Penso que um exemplo disso, de uma época relativamente cedo na sua carreira, logo depois que ele foi nomeado para o programa de ajuda externa do Canadá e criou a Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional (CIDA) e o Centro Internacional de Pesquisa em Desenvolvimento (IDRC), das quais provavelmente não muitos canadenses já ouviram falar, mas que continuam funcionando até hoje.

Naturalmente, [a CIDA], foi  estabelecida ostensivamente como um programa que oferece a ajuda [do governo] canadense aos países em desenvolvimento, mas, como você observa em seu livro, foi na realidade uma maneira interessante de ganhar influência política no mundo em desenvolvimento.

ED: Sim, e isso foi particularmente importante para o Canada porque, como você sabe, nós tínhamos retornado ao início da década de 1960, a algo chamado ‘Revolução Silenciosa’, quando as regimentações de uma igreja Católica muito conservadora foram derrubadas por uma população que, pela primeira vez, ganhou acesso, em grandes números, à educação superior.

Strong, naquela altura, estava trabalhando como vice-presidente e, em seguida, presidente da Power Corporation, outra daquelas organizações em camadas que tinha enorme influência política e nos negócios. A Power Corporation acabou com uma enorme pilha de dinheiro depositada em seu colo, quando suas operações hídricas em, creio, Manitoba British Columbia, e em Québec, foram adquiridas por essas províncias; assim, de repente, com dinheiro para gastar (ela) se distanciou de ser uma operação de geração de  eletricidade (em inglês, ‘power’) para ser uma operação de geração de influência política.

Assim, Strong deixou a Power Corporation quando o seu colega e parceiro, Paul Martin Sênior, que era o chefe de assuntos externos, o Ministro das Relações Exteriores, recebeu [recursos de] auxílio externo, que naqueles dias tinha um orçamento muito pequeno e quase nenhuma equipe. [Strong]  transformou-a na Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional, mais uma vez, quase sem dinheiro e sem funcionários;  assim, ele fez um acordo com a SNC, que agora é conhecida como SNC-Lavalin, uma grande empresa de engenharia, para contratar pessoas que ele aprovava, e não contratar pessoas que ele não aprovava, e assumir contratos na África francófona.

A preocupação na época era que um governo francês gaullista pudesse mexer o pote em Québec, isto é, que iria mexer nesse pote a partir de uma de suas colônias na África, e, subitamente, reconhecendo Québec como um estado soberano. Era esse o medo. Assim, a questão para o governo do Canadá, era sobre como impedir isso, e a resposta foi fazer um monte de acordos de ajuda [externa] para torná-los afáveis ​​e desleixados; permitindo que as pessoas sejam tão corruptas quanto a natureza o permite, e, ao mesmo tempo, fazer algo de bom no mundo, mas, mantendo o ouvido colado ao solo da África francesa e mantendo o controle dos eventos.

Assim, Maurice Strong basicamente liderou esse esforço.

JC: Foi um golpe político tão notável e que, no entanto, representa novamente apenas uma pequena fração das coisas em que Strong estava envolvido, mas acho que dá uma noção do modo como ele usou as várias organizações. Ele certamente alavancou uma boa parte do poder que lhe foi concedido.

ED: Ele viu nos negócios a solução de como conseguir poder. Ele não tinha um diploma de curso superior avançado. Ele queria participar em assuntos externos mas não era aceito. Ele sequer podia se candidatar, pelo simples fato de não ter formação universitária. Assim, ele concluiu: ‘tudo bem, os negócios são o meu ponto de entrada’, e, ele usou-os de maneira brilhante. Um homem muito inteligente.

JC: De fato, mas vamos falar de uma outra organização extremamente importante que ele ajudou a fundar depois de presidir a primeira grande conferência ambiental global, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, em Estocolmo, que levou ao desenvolvimento do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, sediado em Nairóbi, Quênia e, como você escreve em Cloak of Green, Nairóbi era uma antiga base de Strong, o qual, acredito, morou lá por um período breve nos anos 50. Colocar o PNUMA na África foi…

ED: A propósito, trabalhando para a Caltex.

JC: Sim, uma empresa dos Rockefellers…

ED: ….ele estava trabalhando para uma empresa de petróleo que estava marcando presença em todo leste da África.

JC: Sim, e você continua dizendo: “Colocar o PNUMA na África foi explicado como um golpe para os países em desenvolvimento, que suspeitavam das intenções ocidentais. Mas também foi útil para as grandes potências ter outra organização internacional em Nairóbi. Após a Guerra do Yom Kippur [também conhecida como Guerra Árabe-Israeli, Guerra de Outubro ou Guerra do Ramadan], em 1973, Nairóbi se tornou a principal capital africana de espionagem.” O que, mais uma vez, penso eu, empresta outra camada intrigante às possibilidades de alguém como Strong e seu envolvimento em organizações como o Y [YMCA].

ED: Certo, o seu maior trunfo é a informação: usando-a, encontrando-a, compartilhando-a e alavancando-a.

JC: Sim, usando narrativas para ajudá-lo a pintar cenários que o colocarão em posições de poder.

Bem, então vamos projetar isso mais adiante e poderíamos falar da Comissão Brundtland e outras coisas nas quais ele estava envolvido, mas, como você diz, isso leva na direção da Conferência da Cúpula da Terra de 1992 no Rio, que eu presumiria ser, para qualquer um que estivesse vivo naquela época, irá provavelmente recordar da conferência e de toda aquela cobertura da media em torno da mesma como um dos marcos do movimento ambiental, e,  naturalmente, foi presidida por Maurice Strong. Vamos falar sobre a sua relação com aquela conferência e, como você diz, sobre o trabalho preparatório para a mesma, onde você de fato encontrou-se com Strong e o entrevistou para o livro.

ED: Certo, e ele foi muito solícito. Quero dizer, uma repórter canadense ingênua e que realmente não entende como o mundo funciona ir ter com Strong, essa era eu;  e, ele abriu todas as portas que haviam para abrir. Todas as perguntas que eu fiz para ele respondeu. Se eu não tivesse me preparado, tenho certeza de que as respostas teriam sido diferentes, mas você sabe, o que eu estava vendo era como é que todos esses grupos ambientais que supostamente estão localizados em lugares, isso seria o Canadá, nos casos dos grupos em que eu estava seguindo mais de perto, mas também têm todas essas conexões internacionais. Como é que todos esses grupos estão sendo financiados por governos e [ao mesmo tempo] por grandes interesses do setor de petróleo e gás e de transporte marítimo, e do que seja?

Como isso funcionava e o que eles estão fazendo nesta conferência? No caso das organizações canadenses, as que realmente aparecem na delegação canadense por um lado, e por outro lado, quando reunidas em uma sala privada ou em uma sala que confiam ser privada, onde eu peitei a minha entrada. Como é que essas ONGs (organizações não governamentais) podem ser organizadas por pessoas que, de fato, estão sendo pagas pelo governo do Canadá para organizá-las? Quero dizer, tornou-se um tipo de exercício para mim, enxergar quem estava conectado a quem e como é que todas elas acabaram no bolso de Maurice Strong, e todas acabaram;  todas tinham financiamento ou ajuda governamental, ou, estavam se reportando ao governo; ao mesmo tempo em que se apresentavam ao mundo como organizações não governamentais, que significa, representantes de comunidades ‘raízes de grama’ [em inglês, grass roots; comunidades de base]. Não havia nada de ‘grama’ ou de ‘raiz’ em nenhuma delas.

JC: O que, a meu ver, se presta à questão fundamental sobre do que isso se tratava, porque Maurice Strong tinha, obviamente, seus próprios interesses para vender, e ele tinha seu próprio poder, influência e dinheiro e coisas dessa natureza; mas, isso é claramente sobre algo mais do que um homem ou a sua visão.

ED: Certo. Isso é sobre moldar a opinião política e moldar a opinião política em lugares onde você sabe que um homem não consegue fazer a diferença, e assim sendo, e você está tentando moldar a opinião política dos Estados Unidos da América, é melhor haver muitas e muitas pessoas que carregam essa mensagem, a mensagem que você está tentando moldar aos olhos do público. Um cara em cima de uma caixa de sabão não fará nenhuma diferença. Milhares de organizações com suas próprias campanhas publicitárias e seu próprio impacto local vão fazer a diferença, e ele entendeu que, eu diria, desde o início dos anos sessenta, quando, por exemplo, que quando Pierre Elliott Trudeau tornou-se primeiro-ministro em 1968, ele não chegou até o público canadense vindo do nada. Na verdade, ele havia sido preparado anos antes para um cargo público pela Power Corporation; portanto, Strong entendeu o poder da frase certa dita pela boca certa, e de aparecer no programa de televisão certo na hora certa.

Na conferência no Rio, o seu principal aliado nessa conferência, por ter divulgado a sua mensagem, foi Ted Turner, que cobriu a matéria na CNN pela direita, esquerda e centro, e, cujos funcionários estavam trabalhando com os Kayapó do Brasil, tentando arrecadar fundos e tentando para chamar a atenção para a questão da Amazônia muito antes da realização da conferência. Assim, ele [Strong] começou a se organizar para aquela conferência em 1986 ou 1987, creio eu, quando os suecos pediram que ele a preparasse. Portanto, como a conferência ocorreu cinco anos depois, foram cinco anos de incansável organização, angariação de fundos dos grandes interesses corporativos para as ONGs, e [criando] ONGs financiadoras de ONGs. Era um negócio incrivelmente complexo, que ele soube orquestrar brilhantemente.

 JC: Bem, vamos falar sobre o que eles esperavam deixar como impressão para o público em geral, se essa era uma operação direcionada a influenciar a opinião pública. Deixe-me apontar essa passagem do seu livro que eu achei ser particularmente importante nesse sentido:

A Rio foi descrita publicamente como uma negociação global para reconciliar a necessidade de proteção ambiental com a necessidade de crescimento econômico. Os peritos de dentro entendiam que havia outros objetivos mais profundos. Isso envolveu a transferência de poderes reguladores nacionais para vastas autoridades regionais; a abertura de todas as economias nacionais fechadas restantes a interesses multinacionais; o fortalecimento das estruturas de tomada de decisão muito acima e muito abaixo do alcance das democracias nacionais recém-criadas; e, acima de tudo, a integração dos impérios soviético e chinês no sistema de mercado global. Não havia nome para essa agenda tão grande que eu já ouvira alguém usar, então, mais tarde, eu mesmo a nomeei – a Agenda de Governança Global.

Você pode nos contar sobre essa agenda?

ED: Bem, acho que se você pensar sobre o que estava acontecendo no momento, você meio que terá. Quero dizer, o Brasil foi escolhido ou se escolheu; escolheu-se como o local para esta conferência devido ao fato de que estar saindo dos últimos espasmos da ditadura militar. Estava se tornando uma nova democracia e tentava controlar a forma dessa democracia, enquanto que as diversas partes que tinham interesse no Brasil, como o Canadá, estavam tentando, às suas próprias maneiras, moldar o modo como essa democracia funcionaria.

A Embaixada do Canadá encontrava-se muito ativa, junto ao governo brasileiro por um lado, e junto às ONGs brasileiras, por outro. Concedia financiamento de ONGs com as ‘visões corretas’, e essas ONGs, por sua vez, devido às regras no Brasil, estavam colocando dinheiro no processo político. Em outras palavras, [estavam] dando dinheiro aos candidatos políticos e ajudando-os a serem eleitos. O que quero dizer é que esse tipo de coisa era legal no Brasil, embora fosse ilegal no Canadá e nos Estados Unidos; mas, você conhece [o ditado]: regras diferentes para pessoas diferentes [em inglês, different strokes for different folks].

Ao mesmo tempo, as coisas andavam muito estranhas na China, que estava seguindo o caminho da abertura de sua economia, e,  ao mesmo tempo, reprimia um movimento democrático na Praça Tiananmen em 1989. É que, queria ter controle político junto com a expansão de uma economia cada vez mais capitalista.

A Rússia estava atravessando um colapso, quero dizer, com efeito, a reorganização democrática e perestroika de Gorbachev da maneira como o Estado soviético se conduzia, basicamente descarrilhou-se, e estava passando por uma transição rapidíssima, de um Estado totalmente autoritário para algo inteiramente diferente; tudo ficou disponível, e como é um enorme Estado petrolífero, as pessoas com interesses em petróleo e gás estavam muito preocupadas com as estruturas políticas que surgiriam na União Soviética ou, na pós União Soviética daquele tempo.

O Fórum Econômico Mundial que Strong havia ajudado a fundar, era um local em que todos esses grupos se reuniam para manter discussões fora dos olhos do público. Então, se você era um funcionário chinês e estava tentando abrir sua economia, mas tinha medo de ir longe demais e perder o controle político, havia muitas pessoas no Fórum Econômico Mundial em Davos dispostas a sentar-se e conversar com você sobre como você poderia manejar essas transições; havia muitos interesses corporativos dispostos a lhe dizer que estavam felizes em ajudar. Você sabe, quem sabe o seu filho pudesse ser educado em Harvard e você ter uma bela casa em Vancouver, daqui a uns cinco anos.

Assim, todos esses lugares, essas coisas que Strong estava organizando, estavam se organizando na direção a um sistema econômico global mais amplo e aberto, onde a autoridade política local teria menos controle, e autoridades possivelmente maiores e não democráticas, teriam mais controle sobre a forma do que estava por vir. A União Europeia estava entrando em existência, quero dizer, quando você imagina a quantidade de mudança política que estava ocorrendo, digamos, de 1986 a 1996, era absolutamente assustador. E, ele estava sentado numa invejável cadeira durante muitas dessas mudanças.

JC: E, de uma certa forma, você estava montando uma espingarda para aquele passeio, talvez esgueirando-se pela porta lateral. Como você mencionou, talvez eles não estivessem necessariamente esperando que alguém no meio deles, como você, iria escrever sobre isso. Qual era a impressão que você tinha de Maurice Strong? Por acaso ele ficou na defensiva com as perguntas e respostas ou foi bastante aberto sobre isso?

ED: Não, bastante aberto. Uma das coisas que me interessou foi a questão de saber se ele havia criado um sistema de inteligência, informal, para esse país [o Canadá] mas que funcionava no exterior. Eu fiz a pergunta e ele basicamente me disse que realmente não pensava nisso dessa maneira, mas agora que você mencionou, acho que sim.

Ele também descreveu a sua situação na ONU; ele adorava trabalhar na ONU porque disse que tinha mais poder político na ONU do que em qualquer pasta ministerial do Canadá, até mesmo um primeiro-ministro. Ele tinha como financiar o seu próprio escritório, ele tinha como financiar os seus próprios funcionários, ele podia fazer isso sem ser auditado; ele podia mover dinheiro aqui, ali e em qualquer lugar sem que ninguém lhe fizesse perguntas; quero dizer, ele tinha um poder irrestrito. E ele também descreveu o sistema da ONU como um navio com um vazamento aberto, onde todo mundo ficava estava assistindo todo mundo. Assim, ele presumia que a KGB ou a organização que a sucedeu, o FSB [Federal Security Service], o estava observando. Ele presumia que o MI5, o MI6, a CIA, e todo mundo observavam todo mundo, e eles geralmente lhe repassavam ou compartilhavam informações que lhe poderiam ser úteis. Sim, ele encontrava-se aberto sobre isso, ele não recuou nem um pouco quando eu lhe fiz essa pergunta.

JC: Isso é fascinante e, talvez, quero dizer, novamente, não parecia que ele era muito secreto sobre isso; simplesmente ninguém prestou atenção no que ele estava fazendo junto ao público em geral, na maior parte do tempo, a despeito do extraordinário número de conexões que ele tinha no mundo dos negócios e no mundo da sociedade civil.

ED: Na verdade, muitas pessoas aqui prestaram atenção nele. Você não consegue fazer esse tipo de coisa, tecer interesses, sem se deparar com problemas; e ele teve vários problemas, especialmente na etapa posterior de sua carreira, quando as coisas começaram a se acumular. Quero dizer, enquanto ele dirigia a Cúpula do Rio as pessoas notaram que ele havia adquirido um rancho no Colorado que situava-se em cima de um imenso aquífero, e, que havia um plano de negócios no qual ele fazia parte, voltados a vender a água desse aquífero.  E as pessoas disseram, que diabo é isso, você sabe o que está acontecendo aqui? Como pode um ambientalista estar vendendo um aquífero do qual toda aquela gente depende? O que é que está se passando?

Houve muitos momentos na carreira de Strong em ele ficou perto da linha divisória, as pessoas pensavam que ele havia ultrapassado a linha, e, houve alarmes de reprovação. Bastante deles.

JC: E ainda assim ele ficou com as suas nove vidas até o escândalo do ‘Petróleo por Alimentos’.

ED: Sim, ficou.

JC: E que…

ED: Ali mesmo, o que aconteceu com ele? Nada!

JC: Legalmente nada.

ED: Ele era um garoto feliz.

JC: Ele [então] fugiu para a China. Você teve qualquer tipo de contato….

ED: Ele correu para a maior economia do mundo, e, ele parece ter tido uma influência significativa sobre as coisas na China.

JC: Fascinante, especialmente levando-se em conta a também histórica influência da família Rockefeller na China. Talvez fosse apenas uma continuação de coisas que haviam acontecido anteriormente.

ED: E [também] a família Desmarais na China.

JC: Deveras, os Rockefellers canadenses. Mais uma vez, muitos aspectos diferentes nisso. E uma pergunta final. Você manteve algum tipo de contato com Strong ao longo dos anos, ou acompanhou a carreira dele depois desse ponto?

ED: Eu acompanhei a carreira dele à distância, da melhor maneira que pude, e obviamente fiz outras matérias. No Canadá… Eu não sei de onde você é, James. Você é daqui?

JC: Eu sou de Calgary.

ED: De Calgary. Então, você entende que esse é um lugar pequeno, e, especialmente se você for da mídia, você vai conhecer muitas pessoas que conhecem muitas pessoas, e assim, estará num meio onde há muitas conexões, e assim, por exemplo, o John Ralston Saul, um apadrinhado de Strong, é um escritor muito ativo, politicamente ativo, nesse país, e eu o encontrei durante anos sobre outras questões, depois que esse livro foi publicado.

Um dos seus amigos e associados era a Adrienne Clarkson, a Governadora Geral, e eu a encontrava, e assim era como… Não é que eu procurasse o Strong depois disso, mas muitos cruzamentos desse tipo ocorreram.

JC: Imagino que é difícil deixar de perceber a influência dele se você estiver se movendo nos altos círculos do Canadá.

ED: Bem, não se trata de altos círculos, são círculos de mídia. Se você faz esse tipo de trabalho você vai acabar cruzando repetidamente com tomadores de decisões, porque é pequeno o número de pessoas que tomam decisões nesse país.

Então, o Stephen Lewis mora a alguns quarteirões de mim. O Stephen Lewis e o Maurice Strong trabalharam juntos na conferência do Rio e trabalharam juntos em questões africanas e, como você sabe, você vai continuar cruzando caminhos.

JC: Bem, então acho que a minha pergunta final pode ser um pouco injusta, já que você não vê esse problema há algumas décadas, mas eu estou interessado em sua opinião sobre se você acredita que essas organizações que você cobriu em Cloak of Green, você acha que eles mudaram fundamentalmente desde que você os cobriu, ou estão operando sob os mesmos princípios?

ED: Não, eles estão operando sob os mesmos princípios, não são organizações democráticas, foi isso o que eu achei ser mais impressionante. Sabe, eu operava sob o pressuposto de que, uma vez que as pessoas bateram à minha porta e me pediram dinheiro, que eram organizações baseadas em voluntários, e com um grande número de pessoas apoiando-as. De fato, quando retornou daquela conferência preparatória e comecei realmente a examinar essas organizações, apenas para ver o que elas publicavam sobre si mesmas, e a entrevistar as pessoas que as administravam, ficou surpreendentemente óbvio que elas não eram organizações de afiliação do tipo em que os membros têm o controle dos seus comportamentos e controlam as suas agendas. Elas eram organizações muito pequenas que levantavam grandes somas de dinheiro e usavam essas somas de dinheiro para ter influência política.

Essas são sobre isso, e eu estou falando do World Wildlife Fund (WWF), [e] do Pollution Probe (Sonda da Poluição), outro desdobramento de uma frente de combate à poluição chamada Energy Probe –  pequenas organizações com grande alcance político.

JC: É um tópico fascinante e provavelmente um que ainda tem muita carne no osso para a gente tirar. Esperançosamente, você ou alguém pode ser recrutado para fazer aquilo em qualquer momento no futuro, mas acho que nós vamos deixar isso…

ED: A pergunta que você não fez é se eles estavam corretos em seus argumentos sobre o meio ambiente. O que eu quero dizer é que, para mim, a coisa realmente importante, a coisa que me levou a essa matéria em primeiro lugar foi,  se a geração de ar condicionado, como você sabe, estamos respirando coisas ruins, se o aquecimento global é real ou não, e, há várias perguntas que estavam muito vivas no final dos anos 80 e início dos anos 90, e a questão é se elas estavam certas. Eles estavam certos de que o ambiente global está se degradando, que o clima está mudando e mudando radicalmente, e que os seres humanos têm um grande papel nessas mudanças? E, para mim, a resposta é sim, os seres humanos têm um grande papel nessas mudanças e precisamos fazer algo a respeito. As questões são o quê e como?

ED: Bem, não há nada que nos impede de criar as nossas próprias organizações, que ninguém controla com exceção de nós.

JC: É um pedido considerável. Eu acho que você fez um pedido considerável para os ouvintes que estão preocupados com essas questões. Tudo bem, acho que vamos deixar por aí.  Nós conversamos bastante sobre o livro Cloak of Green nesta entrevista. Obviamente, irei vinculá-la ao seu website, mas fico consternado ao observar que as únicas cópias reais desse livro que pude encontrar on-line eram cópias usadas, pois o livro está esgotado e o exemplar mais barato que pude encontrar custava mais de setenta dólares, enquanto que o mais caro custava mil e duzentos dólares …

ED: É, eu acho que o que devemos fazer é ir no website da Formac, procurar a editora, cujo nome é a Lorimer, e solicitar uma cópia; eu estou certo de que eles lhe enviarão uma.

JC: Alguma chance de um lançamento em algum ponto no formato E-book?

ED: Como você sabe, este livro foi escrito muito antes da digitalização ter se tornado onipresente, e a única coisa que consigo pensar é que ele estava disponível na época em que o Google estava basicamente pegando todos os livros das bibliotecas e disponibilizando-os online sem permissão; então, você podia clicar nele e lê-lo por inteiro on-line. Desde então, ele foi retirado, mas tenho certeza de que um exemplar pode ser comprado da Formac, que é o nome da empresa que fez a impressão, em Halifax, para a [editora] Lorimer.

JC: Certo, bem, mais uma vez nós vamos encaminhar o pessoal para o website ElaineDewar.blogspot.com e eu entendo que você está escrevendo um novo livro, um romance, e que você irá disponibilizá-lo online gratuitamente.  Conte para nós sobe isso.

ED: Sim, [e um romance que eu escrevi alguns anos atrás, mas tem um outro que vem depois, e assim, eu estou me divertindo.

JC: É interessante. Bem, Elaine Dewar, agradeço sinceramente por dedicar um tempo para falar sobre isso hoje. É um assunto importante e seu livro foi muito importante para abrir muito desse terreno, e por isso, obrigado pelo seu tempo.

ED: Muito obrigada.

Notas

Elaine Dewar é uma jornalista canadense, e autora dos seguintes livros: Cloak of Green (1995), Bones: Discovering the First Americans (2001), e The Second Tree: Of Clones, Chimeras and Quests for Immortality (2005).

James Corbett é jornalista, radiodifusor e apresentador do ‘The Corbett Report’, uma fonte de notícias alternativa e suportada pelos ouvintes.

A entrevista aqui publicada corresponde à transcrição da entrevista publicada no ‘The Corbett Report’ em  01.02.2016, preparada por um membro da equipe do Corbett Report, e traduzida para o português por Jo Pires-O’Brien (UK).